Mamãe, já posso chorar? por Néssia Orlovitz Reznik - Versão HTML

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Néssia Orlovitz Reznik

Mamãe, já posso chorar?

Tradução de: José Steinberg

Prefácio de: Ben-Tzion Tomer

Traduzido do original em língua hebraica:

Publicado em Israel por

MORESHET

Museu Anilevitz

em Memória do Chefe do Levante do Gueto de Varsóvia

e

Sifriat Poalim

Direitos autorais para o Brasil cedidos pela Autora para o

Clube de Cultura Judaico Brasileiro

São Paulo

Ilustrações de Ihezkel Kamhi

Editora Fulgor

São Paulo - Brasil – 1966

Digitalizado por SCS

em Abril de 2013.

ORELHAS DO LIVRO:

Em 1945 a guerra terminou para a maioria, não para todos. As sementes

lançadas pelo nazismo continuavam brotando onde o terreno era mais fértil; o anti-

semitismo ainda grassava com violência e nem o conhecimento, em toda a sua

extensão, da espantosa tragédia do povo judeu parecia pesar na consciência

universal. É nesse quadro aterrador que tentavam sobreviver as crianças judias

remanescentes na Europa. Elas começavam a vir, das florestas, dos bunquers, dos sótãos e dos porões, dos conventos, carregando um mundo fantástico de recordações,

de sofrimentos, de angústias. Vinham quase todas sem lágrimas, almas enxutas,

inteiramente esgotadas da capacidade de sofrer. Vinham mergulhar no vazio, buscar

uma inscrição num muro ou até mesmo um velho livro outrora enterrado no jardim.

Foram essas crianças que Néssia Orlovitz Reznik e outras educadoras

começaram a recolher nos ainda tormentosos anos do pós-guerra, em Vilna, em

Sosnovitz, em Ludvicovo, com a importante missão de ensiná-las a chorar, de

recuperá-las como seres humanos, de recuperá-las para o seu povo. As visões de

pesadelo que ferreteavam suas almas infantis foram sendo substituídas,

paulatinamente, por outra visão, uma visão...

Infelizmente, a segunda orelha e a contracapa

foram perdidas, devido à idade do livro.

(Nota da Digitalizadora.)

ÍNDICE

Prefácio ........................................................................................................................... 5

Vilna ................................................................................................................................ 9

Brasas.............................................................................................................................12

Partisans ........................................................................................................................14

Promessa........................................................................................................................17

Dvorá..............................................................................................................................19

Mamãe .......................................................................................................................... 22

Mina começa a chorar .................................................................................................. 25

Sosnovitz....................................................................................................................... 30

No trem ......................................................................................................................... 34

O palácio da gata borralheira ....................................................................................... 38

Bom apetite, crianças! .................................................................................................. 43

Era por isso que eu não gostava de você ...................................................................... 48

Presentes....................................................................................................................... 52

Uma noite com Ana ...................................................................................................... 58

A caminho de Ludvicovo .............................................................................................. 62

Ludvicovo...................................................................................................................... 67

Sapatos.......................................................................................................................... 69

Despedida ..................................................................................................................... 74

Hanucá ......................................................................................................................... 78

História seriada ............................................................................................................ 83

O segundo Dia da Árvore.............................................................................................. 92

Novamente a caminho.................................................................................................. 98

Repatriados................................................................................................................... 99

Raquel e a Virgem Maria ............................................................................................ 105

Doidos por alguma coisa ............................................................................................. 112

Uma viagem curta........................................................................................................118

Histórias de noites sem sono...................................................................................... 124

Verde e céu...................................................................................................................135

Benic vai para a Palestina........................................................................................... 138

A cruz ...........................................................................................................................145

A fuga ...........................................................................................................................154

PREFÁCIO

Ao ler o livro de Néssia Orlovitz Reznik — Mamãe, já posso chorar?

lembrei-me, sem me aperceber, daquele belíssimo dia jerusalemita em que, andando

na rua, encontrei-me de repente defronte a um grupo de amigos. Dirigiam-se eles à

«Casa do Povo», onde se realizava então, o processo de Adolph Eicheman. No grupo

estava o poeta Aba Kovner, cujo depoimento daquele dia, inspirou à escritora o nome deste livro. Nome infantil na aparência, mas que lança um clarão à terrível escuridão na qual foram emergidas seus pequenos heróis a quem foi negado o último direito

reservado a todo ser sofredor — o direito de chorar. No grupo também se encontrava

outro poeta, Natan Alterman, autor do verso que serve de moto ao livro da escritora.

O grupo de amigos dirigia-se ao local do tribunal, como já foi dito. Como que

obrigado, fui com eles caminhando ao encontro do homem que estava na «gaiola de

vidro». Tinha eu meus motivos íntimos para a fuga que tentei empreender, a fim de

evitar um encontro renovado com aquele mundo que o homem da gaiola

representava.

Como dizia, o dia era surpreendentemente belo, de um azul jerusalemita e de

um especial dourado, e lá dentro, defronte à «gaiola de vidro» as testemunhas

oculares teciam as suas negras histórias. Uma definição mais justa às suas palavras, não encontrei. Ao falar, as testemunhas evitavam de lançar seus olhares no homem

da gaiola. É possível que, mesmo agora, perguntava-me eu, estando em Jerusalém,

em sua cidade, e transcorridos tantos anos, ainda sentiam eles os temores que este

homem lhes lembrava?

No seu depoimento, relatou Aba Kovner da tríplice solidão dos judeus sob o

domínio dos nazistas. E estas foram, em resumo, as suas palavras:

«Por ocasião da ação, escondi-me num sótão e espiei através de uma fresta. Na

praça circular estavam parados centenas de judeus, que foram caçados a fim de serem enviados ao vale da morte — Ponar. Estavam eles postados em círculo, mas ao redor

do seu círculo, havia outro — um cinturão de guardas lituanos e ucranianos, os

aliados do pintor amador, o degolador-mor de Berlim, especializado como só um

alemão sabe sê-lo; ao redor deste cinturão havia mais um — o dos homens

pertencentes ao S.S. E, por detrás dos alemães, havia uma alta muralha de pedras.

Três cinturões, três muralhas de isolamento e solidão. Podem, um homem e um povo,

dizia o poeta, tentar arrombar uma muralha, duas, mas como é possível romper três?

Era esta uma solidão superior, total, solidão cercada por três muralhas de

ódio. Só este tríplice isolamento é capaz de explicar toda a falta de recursos do povo que estava sendo assassinado.»

O livro de Néssia Orlovitz Reznik nos fala de mais uma solidão, desta que era

destinada aos meninos judeus na Segunda Guerra Mundial. Toda guerra tem os seus

órfãos, porém, a orfandade do menino judeu naquela Europa, não tinha paralelo com

a orfandade de outros meninos. É uma norma universal, que toda sociedade — na sua

preocupação de continuidade, tente, antes de tudo, proporcionar um paliativo às

feridas dos seus órfãos. Porém o menino judeu se tornou órfão não só de pais e

parentes, mas também do seu povo. Ele era, se assim é possível expressar, o último

órfão do povo que estava sendo exterminado.

Com uma força vital inexplicável, conseguiam os pequenos heróis da escritora,

romper os três círculos do ódio e da solidão, mas com isto não findava a sua luta pela vida, ela apenas se iniciava. Sob determinados aspectos, pode-se dizer que eles eram os artífices da vida (de acordo com as suas específicas condições) pois eles se

dedicavam à arte mais importante do século vinte, a arte de sobreviver.

Somente graças à sua pertinaz vontade, não foram seus corpos transformados

em cinzas e fumaça, e seus sapatos não eram incorporados àquelas montanhas de

sapatos, das fotos conhecidas. Sapatos estes que, até o dia de hoje bradam a sua

acusação contra nós, que tão rapidamente os esquecemos, e contra os céus, em cuja

direção se elevam numa pirâmide moderna e retorcida. Só que, desta vez as

pirâmides não são no estilo de Pitom e Ramsés, mas sim, no de Aushwitz e Maidanek.

Estas pirâmides de sapatinhos são o sinal de Caim que não se apagou da fronte

da humanidade, que soube ser tão desumana. Elas são ao mesmo tempo, um

testemunho e uma advertência, até onde pode chegar a civilização moderna e

evoluída se não for erigida sobre uma base de cultura, de humanismo e do «Não Matarás».

Sob este aspecto tudo que aconteceu naquela Europa, ainda não é um capítulo

que já pertence às páginas da história. Lembrar o passado — e o que é afinal a cultura senão a lembrança que se estende de geração a geração — o seu significado aqui e

agora, nos nossos dias e para o sempre, é uma análise contínua dos freios morais,

com os quais será possível evitar o despencar do gênero humano a um novo

precipício de bestialidade.

Não nos enganemos: apressamo-nos em esquecer, não só porque estamos

ávidos pelos prazeres do momento, do imediato; e também não só devido à

sensibilidade de nosso ser que se prosterna ao encontrar-se frente a frente com o

sofrimento. Apressamo-nos em esquecer, sim, por causa do sentimento de culpa que

nos rói, a nós criados à imagem, do que são capazes de causar os homens aos homens, também criados à esta imagem.

Diante das ações do homem, começamos, aos poucos a duvidar, se realmente

fomos criados à imagem.

A praga nazista — e nenhum outro fato histórico pode-se-lhe comparar ou

assemelhar — introduziu no nosso ser esta terrível dúvida, que nos corrói ainda

agora, anos após o extermínio.

Quem poderá repetir, após a Segunda Guerra Mundial, com aquela segurança

o célebre dito de Máximo Gorki:

«O homem — quão orgulhoso isto soa».

O livro de Néssia Orlovitz Reznik, está escrito com muita imparcialidade, com

o máximo de moderação e com o mínimo de sentimentalismo. E isto é bom.

Mais que as palavras, falam as subpalavras, os silêncios entre elas, e os

silêncios entre as frases. Estes silêncios são o vazio não expresso, do temor que rodeia as vidas dos heróis do livro.

Todo escrito sobre assunto cruel exige do seu escritor muita crueldade em

relação ao coração que pulsa em seu ser, ao relatar os atos sangrentos.

A escritora ocultou — de propósito, me parece — a sua personalidade, as suas

reações — ela simplesmente pôs à disposição dos seus pequenos heróis, seus olhos

maravilhados, seus ouvidos atentos e deixou que seus contos penetrassem nela tais

como eles são. Justamente nisto reside a força dos contos e força da escritora.

Como é hábito de determinados leitores, tentei também eu encontrar no livro a

definição literária que lhe assente. Antes de mais nada, perguntei-me se lhe assenta o termo de Bela Literatura. De repente percebi um dos paradoxos mais terríveis e

espantosos atos, que a ética define como feios, a estética pode chamar de «belos».

Mas, destes mesmos atos, continuando a meditar, estabeleceu-se o paradoxo,

quando a lei ética e a lei estética já não se contradiziam. Explicarei o que disse: Uma das frases mais cruéis no livro é o conjunto das palavras:

«Naquele tempo, quando me mataram...» O menino Efraim não disse:

«quando atiraram em mim... ou: quando tentaram me matar...» mas, simplesmente:

«me mataram»... A sua vida daqui em diante ele não a vê como continuação da sua

vida de antes do «mataram-me», mas como uma vida nova, como uma ressurreição

dos mortos real e concreta.

Este poder do menino Efraim, assim como dos outros heróis do livro, de

erguer-se após esta matança e, viver, e quem sabe — até mesmo ter fé, e não só em si próprio, mas também na sociedade dos homens em geral esta capacidade, de um

menino, de um homem, de erguer-se das cinzas, como aquela ave lendária, o Fênix,

esta força de continuar a viver, a criar — e ter fé — é esta a maior das virtudes do homem, e isto pertence explicitamente ao terreno do «Belo». Porque a força deste

livro não está só na descrição das cinzas, mas também na descrição do homem que

renasce delas.

BEN-TZION TOMER

ADIDO CULTURAL DA EMBAIXADA DE ISRAEL

— Mamãe, já posso chorar? — perguntou

a menina, ao sair do esconderijo, após a

libertação.

(Aba Kovner)

— Sim, menina, sim mãozinhas magras.

Sim, agora já pode chorar.

Sim, anjo de cílios e cabelos arrancados,

agora já pode chorar. Já pode.

(Natan Alterman)

À memória de minha mãe

e dos pais destas crianças

que não puderam vê-los regressar

de lá.

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VILNA

O nosso vagão ficou parado três dias na estação de Moscou. Esperávamos o

trem para o Oeste. Na última noite, observei, junto com as crianças, os fogos de artifício que coloriam os céus luminosos de Moscou.

A cidade estava em festa. Recebia, entre luzes e cores, o Ano Novo, o ano de

1945.

A Casa da Criança Lituana voltava à pátria, à Lituânia libertada. Havia sido

fundada em 1942, na aldeia de Cadria, próximo a Tashquent. A grande maioria das crianças era judia. Todos os professores eram judeus. Somente o diretor e a diretora pedagógica eram lituanos.

Aos professores judeus fora imposta a proibição rigorosa de falar ídiche com

as crianças. Assim, os professores judeus falavam lituano com as crianças,

ensinavam-lhes a História da Lituânia e sua literatura. Cumpríamos a ordem. Mas havia inúmeras oportunidades para transgredi-la. Antes de qualquer feriado ou

data comemorativa judaica, explicávamos às crianças o seu significado, e a

informação corria de boca em boca.

De noite, sentado à beira da cama do menino, no escuro, o professor

curvava-se sobre ele e ouvia a sua história. E como abriria o pequenino o seu

coração, se não na sua língua materna, o ídiche?

Clitius, o diretor, era inválido de guerra. Viera diretamente do hospital onde

estivera muitos meses. Suas costas estavam dilaceradas. Os melhores médicos de Moscou esforçaram-se em vão para ajudá-lo. Todos nós sabíamos que lhe restavam

poucos anos de vida, e ele também conhecia a sua sentença.

Clitius ganhou o nosso respeito por causa da dedicação ilimitada que votava

às crianças, pelos seus esforços para mitigar os seus sofrimentos.

O ambiente estranho, a solidão e a preocupação pelas crianças unia-nos

todos.

Não havia sapatos nem roupas. Todos os dias, após as aulas, realizava-se a

«marcha» à loja, a quilômetros de distância. O professor recebia do lojista as

porções de pão, que contava cuidadosamente uma ou duas vezes. Depois, distribuiu-as em fatias às crianças. Voltavam. O pão fresco, quente, excitava a fome. Às vezes, uma mão estendia-se para ele: «Um pedacinho.» O professor fitava o dono dessa

mão. Os olhos dos dois se encontravam, a mão recuava, e a saliva era engolida. E

você nem queria olhar... Fome de sempre, onipresente, debilitando o corpo e a alma.

Foi nessas condições que se fez a escola e se amalgamou a amizade entre as crianças judias e as lituanas.

Agora estávamos a caminho. E, aqui, no vagão, abriu-se o abismo.

As crianças lituanas voltavam para casa, para a pátria. Tinham à sua espera

parentes e amigos. Algumas tinham, até, pai e mãe.

Pelas crianças judias, esperavam a destruição e as sepulturas.

No vagão apertado, enquanto o trem corria entre árvores de florestas

nevadas e por amplos campos, elas olhavam pelas janelas.

— Professor, quando é que vamos chegar? — perguntava a criança lituana.

— Tomara que a viagem não acabe nunca — rezava o menino judeu.

Vilna era o fim da linha. Ficamos num orfanato lituano. Uma casa

admiravelmente ampla e arrumada. Esse estabelecimento fora criado durante o

regime nazista. O diretor e os seus funcionários eram os mesmos do tempo dos

alemães. Eram, sem dúvida, pessoas em quem os alemães confiavam. Receberam-

nos com frieza. Não podiam perdoar ao nosso diretor, Clitius, o ter devolvido tantos judeuzinhos à Lituânia.

Sob o pretexto de que precisávamos de um retiro depois de uma viagem tão

longa, deram-nos quartos separados e proibiram as crianças do lugar de se

encontrarem com as nossas crianças. Proibiram-nos de entrar no refeitório.

Tínhamos de dar de comer às nossas crianças na cozinha, e de preparar as refeições com as nossas próprias mãos.

Um dia, foi a minha vez de receber os gêneros alimentícios no depósito.

A encarregada do depósito fechou a porta atrás de nós. Ficamos sozinhas.

Disse-me ela, então.

— Diga-me, como é que você pode suportar o cheiro dos judeuzinhos? Eu

estou, simplesmente, sofrendo de dor de cabeça desde o dia em que vieram para cá.

Compreendi o seu engano. Eu parecia lituana.

— As crianças judias têm algum cheiro diferente? — perguntei admirada.

— Claro, você não sente?

— Não. E olhe que tenho um olfato agudo. Veja, por exemplo, senti, assim que

cheguei aqui, um cheiro de nazismo. Isso já na primeira noite. Mas não estou preocupada. Confio nos russos. Eles sabem arejar as casas.. .

A encarregada ficou pálida. Continuou pesando o açúcar. Ainda com a cesta

de mantimentos na mão, abri a porta e disse.

— Aliás, esqueci de lhe dizer uma coisa. Eu também sou judia.

As crianças lituanas deixaram o orfanato logo nos primeiros dias. Parentes,

tios, vieram buscá-las. Os pequeninos, em idade de jardim-de-infância, eram todos judeus. Foram transferidos, juntamente com a Professora Liba, para o orfanato

judeu de Vilna. As crianças maiores começaram a arranjar trabalho. Quase todos

os dias, uma delas vinha apresentar as suas despedidas. Os professores judeus

também começaram a sair. Também eles precisavam arranjar trabalho.

Eu não tinha família, nem crianças minhas. Para mim, Vilna era apenas uma

estação.

BRASAS

Já passava da hora do almoço e eu ainda rodava pela feira. Passeava pelas ruas

de Vilna e voltava a rodar pela praça da feira. Parece que todo o mundo estava ali. Em vão procuro achar caras conhecidas. Passam por mim judeus solitários. Não, não

conheço nenhum deles. Um polonês alto, magro e de bigodes anuncia em altas vozes

a sua mercadoria: arenques. Muita gente se comprimia ao redor do barril. Ele arranca algumas páginas de uma bíblia hebraica encadernada em couro escuro e embrulha

com elas o seu artigo.

Ao chegar a minha vez, quero comprar o livro, não os arenques. O sujeito abre

um grande par de olhos.

— E com que vou embrulhar?

Por fim, ele arranca duas folhas e m'as dá, de graça. Meus pés trouxeram-me

até as fronteiras do gueto. Por cima das ruínas, procuro ver o que me é conhecido. As janelas da Biblioteca Strachun estão quebradas. Montes e mais montes de livros

rasgados, e de manuscritos. Um homem baixo, com os cabelos brancos já invadindo a

sua cabeça ruiva, dirige os trabalhos. Ele arruma papéis em pastas e entrega-as a um rapaz de óculos que, em cima de uma escada, ajeita-as nas prateleiras.

— É proibida a entrada de pessoas estranhas, não viu a placa? — pergunta-me

o rapaz, sem interromper o seu trabalho.

Na sinagoga fronteira circulam algumas pessoas. Uma porta está aberta para

um quarto muito pequeno.

— Aqui era a prisão do gueto — conta um jovem, que parece ser nativo dali.

O quarto está vazio. Todas as paredes estão cobertas de inscrições.

«Se vocês encontrarem gente da minha família, digam-lhes que estive aqui»,

e embaixo, a data e a assinatura. «Judeus, vingança! Nos meus últimos momentos de vida, penso em você, minha querida.» Assinatura.

Muitas dessas frases, ao que parece, foram escritas com sangue. Sangue

escuro. Algumas palavras foram escritas com carvão, outras, com giz, outras, com

lápis, e outras, finalmente, foram gravadas com as próprias unhas nas paredes. O

quarto era pequeno, e as paredes gritavam com milhares de vozes, num turbilhão de

línguas: «Vingança, Judeus!»

Uma pálida mulher está em pé, não longe de mim, envolta num casaco. Seu

corpo treme. Ela lê frase por frase, movendo-se de parede em parede, como que

procurando algo. Não salta uma linha sequer. Instintivamente, ela puxa sobre si as

abas do casaco e aperta-as junto ao corpo.

Entrou um grupo de pessoas. No primeiro momento, permaneceram em

silêncio, ensimesmadas. Depois, murmuram qualquer coisa ao ouvido de uma delas.

Ele aproximou o rosto das bocas que sussurravam. Movimentou a cabeça em silêncio

e entrelaçou as mãos.

Segui o grupo. Chegamos a uma rua estreita. Junto a uma parede destruída,

erguia-se um monte de pedras. A certa distância, outras ruínas.

— Aqui desenrolaram-se combates. Aqui lutaram guerrilheiros judeus contra

os alemães. Neste local caiu uma mulher judia, uma menina — explicou alguém.

Todos ouviam. Os olhos pousavam sobre o monte de pedras. Silêncio. Aqui

não se via sangue. A terra conseguira absorvê-lo.

O diretor Sr. Shohet, recebeu-me na secretaria. Estava impecavelmente

penteado. Vestia uma camisa escura, bem passada. Olhou-me através dos óculos.

Examinou os meus papéis e anotou qualquer coisa num livro grande, uma espécie de

diário de aula.

— Qual a sua idade?

— Cem anos! — a resposta escapou-me. Ele parou de anotar, observou-me e

sorriu.

— Estou perguntando a sério. — Shohet termina a sua escrituração. Fecha o

livro. Leva-me pelo corredor. Abre e fecha portas. Os quartos parecem-se uns com os outros: beliches, cobertores escuros cobrindo colchões de palha. Janelas sem

vidraças, tapadas com tábuas. Ele vai falando todo o tempo, e só com dificuldade é

que consigo captar as suas palavras.

— É um homem de Moscou — conta Shohet — psiquiatra-chefe na terceira

frente bielo-russa. O General Rabelsqui. Ao passar com o seu exército pelas cidades da Bielo-Rússia, Polônia e Lituânia, viu com os seus próprios olhos o que eles fizeram conosco. Alguma coisa despertou em seu coração. Um dia, encontrou, em Vilna, Tzila

Vildstein, e quando ela expôs-lhe a idéia de fundar uma Casa de Crianças, Ele

entusiasmou-se e ajudou-a em tudo. Foi assim que surgiu esta Casa.

O sino toca. Shohet olha o relógio.

— Terminaram as aulas. Daqui a uma hora teremos o almoço.

Shohet apressa-se. A propósito, ele me informa que terei de trabalhar com o

grupo de crianças que foram guerrilheiras.

— Não é um grupo grande. Ao todo, são dezesseis meninos. Os mais novos

estão na escola. Os mais velhos, por enquanto, não fazem nada. Precisaremos

encontrar trabalho para eles.

Shohet olha de novo o seu relógio. Aperta a minha mão. — Tenho de me

apressar. Desejo-lhe êxito. Estou parada no centro do refeitório. Shohet abre a porta e diz ao sair.

— Não se preocupe! Tudo irá bem. Pois você já tem prática. Trabalhou na

URSS — A porta se fecha.

Através da janela, vejo uma cidade estranha, reluzindo com o branco da neve:

«Jerusalém da Lituânia». E nesta Casa moram, num aglomerado, todas as suas

crianças que restaram vivas: filhos de rabinos, de juízes, de funcionários públicos, de burgueses, sionistas, comunistas, sem diferença.

Todos órfãos. Brasas de uma queimada.

PARTISANS

— Esta é a nossa nova educadora. Veio da União Soviética com um grupo de

crianças! — Shohet me apresenta às crianças.

É grande o barulho na hora das refeições.

Todos os olhares dirigem-se para mim, com curiosidade, medindo e

examinando. O grupo dos meninos guerrilheiros está todo numa só mesa. O pessoal

de plantão serve a comida: um grosso mingau de grão-de-bico. Junto a cada prato,

está a ração de pão: uma grossa fatia. Uma menina aproxima-se da mesa. Juntam-se

duas cabeças. Lábios balbuciam em silêncio, e um riso estrondoso brota das

gargantas.

Ao terminarem de comer, aproximo-me da mesa deles.

— Meus amigos, desejo conversar com vocês. Deveremos trabalhar juntos.

Serei a educadora de vocês.

— A respeito de quê você conversará conosco, querida — perguntou-me um

deles, com cerca de dezessete anos, arrastando as palavras como uma criança

pequena e mimada. — Não temos hora livre para conversas. — Os outros

empurraram-no com raiva: «Cale a boca, idiota. Pare, Ília!»

Ília vestia uma farda do Exército Vermelho. Sobre seu peito balançava a

Estrela Vermelha. Seus cabelos estavam bem penteados e exalavam cheiro de

brilhantina.

— Estão preocupados conosco! Mandaram-nos uma treinadora! — observou

outro menino ao ouvido do seu vizinho, com uma voz tão baixa que se escutava de

uma extremidade à outra da mesa.

— Eu teria escolhido outra mais bonita do que esta — respondeu o seu amigo,

um menino de olhos vivos, apressando-se a fechar a boca com uma fatia de pão, como

se receasse que algo mais pudesse escapar dela.

Os demais me olham. Querem verificar a impressão que causaram, mas eu fiz

uma cara de quem não vê e não ouve.

— Daqui a uma hora, irei ao quarto de vocês — minha voz estava agressiva,

minhas mãos, fechadas. «Tenho de reunir todas as minhas forças. Não posso

fracassar. Não posso», fui dizendo e repetindo para mim mesma.

Os olhos de todos os meninos estavam dirigidos para mim.

— Ouviram? Ela fala como uma comandante. Diga-lhe que nem ligamos para

ela. Uma simples mulher. Nós estamos acostumados a receber ordens de homens.

Nas mulheres, éramos nós que mandávamos!

Risos. Agora eu estava junto à segunda mesa. Conversava com a Professora

Tictim. Não ouvia as suas palavras. Minhas orelhas queimavam com as palavras dos

alunos e com as suas risadas.

Os meninos vieram todos. Estão estendidos nos seus beliches, de sapatos e

botas. Alguém conta uma anedota. Um grupo de cinco meninos, com Ília à frente,

está sentado num canto, em volta de uma mesa, jogando cartas. Ponho-me no centro

do quarto. Reina o silêncio.

— Preparem-se para um discurso, colegas — zomba alguém em voz alta.

— Dêem-me uma cadeira, por favor — digo, dirigindo-me aos meninos que

estão sentados ao redor da mesa.

Desenvolve-se uma longa discussão. Por fim, Huna, o mais jovem de todos,

com uns quatorze anos no máximo, levanta-se, de olhos lívidos e faces

incandescentes. Coloca uma cadeira junto a mim.

Todos os olhares estão cravados em mim. Olhos pretos, judaicos, profundos

como abismos, seguem investigando-me. Rostos pálidos, cansados.

Subitamente, verifico que não tenho uma só palavra para dizer a eles. Tudo o

que repeti para mim parece-me, agora, tolo e sem graça. Não devo começar com

palavras.

— O que é que vocês precisam fazer agora? — ouço a minha voz dizendo.

— Nós estamos rachando lenha — respondeu Ília. — Viu o mente no pátio?

Precisamos serrá-la e rachar em pedaços.

— Para que haja com o que esquentar o quarto de Shohet. Para que a sua

mulher possa preparar-lhe as suas comidas preferidas — acrescenta Huna com um

sorriso cruel no rosto.

— Está bem. Vamos ao trabalho. Trabalharei com vocês — e sem esperar

resposta, desço para o pátio. Os meninos ficam admirados. Eu os ouço. Toda a minha

apresentação parece-lhes estranha.

Faz frio no pátio. Alguns serram, e os demais racham lenha. O meu par é Ília.

Junto com Ele, arrasto as toras de madeira e serro, Ília trabalha com ardor,

demonstrando a sua força. É difícil manter o seu ritmo de trabalho. Reúno todas as

minhas forças. Os meninos trabalham, mas, ao mesmo tempo, me observam.

— Olhem para ela — diz um deles.

Risos.

Interrompemos o trabalho. Os meninos sentam-se nos montes de madeira.

Enrolam cigarros em papel de jornal. Oferecem-me um.

Os mais novos freqüentam a nossa escola. Todas as aulas são em ídiche. Os

mais velhos desaparecem logo de manhã. Muitos levam pedaços de pão. Alguns

comem escondido, ao passo que outros oferecem aos seus colegas.

Entre fragmentos de conversas, desprendem-se alguns segredos. Alguns

meninos trabalham no hospital. Ajudam as cozinheiras e recebem pão como

pagamento. Outros remexem o lixo da cidade e catam roupas e sapatos velhos.

Vendem, e compram pão. A comida na Casa da Criança não é suficiente para meninos

em fase de crescimento. Estão sempre com fome.

Procuro organizar aulas noturnas para eles. Os professores concordam em

dedicar uma hora do seu tempo para isso, duas vezes por semana. Elaboramos um

programa. Dividimos os meninos em grupos, de acordo com os conhecimentos que

possuem. Agora, eles estudam duas horas por noite. Há, também, os trabalhos para

casa. Alguns alunos dedicam-se ao estudo com entusiasmo, ao passo que outros vêm

às aulas apenas por obrigação.

Aos poucos, começo a conhecer os meninos e a entender o seu caráter. Eles

também investigam-me e repassam os meus atos. Verificam que eu também sou só,

como eles. Também não tenho um lar. Faço as minhas refeições com eles, e não tenho

porções extras.

Em poucos dias passei pela primeira prova.

PROMESSA

Bérele é um menino de uns doze anos. Magro, pequeno e de olhos negros. Veio

para a Casa da Criança diretamente da floresta, do meio dos guerrilheiros. Todas as manhãs, Ele acorda cedo. Põe-se num canto e reza. Vem para a sala de refeições com

o chapéu na mão. Coloca-o na cabeça depois que se senta, murmura a oração do pão e

morde a sua fatia. Não reage às provocações dos seus colegas, que lhe deram o

apelido de «rabino» e zombam dele. Todavia, depois de uns dias, os meninos

acostumaram-se aos seus modos e passaram a deixar Bérele em paz.

Finalmente, um dia, na hora do almoço, o diretor reparou nele.

— Por que é que aquele ali está de chapéu na cabeça? — perguntou ele a Levin,

o professor de plantão.

— É um menino religioso. Recusa-se a comer sem chapéu — respondeu o

professor.

— Como? — e as faces do diretor enrubesceram. — Então você permite isso

numa Casa da Criança soviética? Um comportamento assim? Será que vamos

transformar esta Casa numa escola de estudos rabínicos? — trovejou Shohet. — Aqui

não é possível uma coisa dessas! — e aproximou-se da mesa de Bérele.

— Tire imediatamente o chapéu! Aqui ninguém come assim. Aqui não é uma

escola confissional!

Bérele engoliu uma colherada da sua papa. Ficou um minuto em silêncio.

Depois, disse.

— Não tiro. — Fechou um pouco os olhos e calou-se.

— Se você não tirar o seu chapéu, eu o tirarei — gritou o diretor, levantando a

mão. Mas Ele não conseguiu atingir o chapéu, do outro lado da mesa. Havia algo de

ridículo no seu movimento e na pequenez da sua mão. Os meninos irromperam em

gargalhadas.

— Você não continuará sentado a essa mesa, de chapéu. Não continuará! —

gritou o diretor, apontando um dedo ameaçador para o rosto do menino. — Depende

de você. — Depois, gritou mais alguma coisa para Levin e encaminhou-se para a

porta. Bérele ergueu-se.

— Não tiro o meu chapéu, mesmo que tenha de passar um ano inteiro sem

comer — disse quase gritando. Todo o seu corpo estava inclinado para a frente, e as palavras se desprendiam da sua boca rapidamente, uma após a outra, como que para

atingir os ouvidos do diretor, que já havia aberto a porta.

Desde esse dia, Bérele deixou de comparecer ao refeitório. Fiquei sabendo da

sua história através de conversas com os outros meninos.

Um dia, um jovem rabino chegou à floresta em que estavam os guerrilheiros.

Nos dias calmos, Ele ensinava Bérele a rezar, contava histórias e conversava com o

menino. Quando acabou a comida na floresta, o rabino sempre se preocupou em

alimentar o menino, mesmo que, para isso, tivesse de ceder as suas magras porções.

Ele guardava uma ração final para as horas mais negras. Com a libertação de Vilna, o rabino ficou sabendo da existência da Casa que abrigava as crianças judaicas.

Procurou transferir Bérele para lá, mas ele próprio continuou avançando com os

guerrilheiros.

— Jure-me que você continuará a cumprir os preceitos sagrados, mesmo que

eu não esteja perto de você — disse o rabino a Bérele, na hora da despedida. Bérele jurou.

Procurei conversar com o diretor.

— É preciso extirpar todas as crenças tolas, arrancá-las pela raiz. Aqui é uma

casa de crianças soviéticas! — insistiu Shohet.

— Trataremos do caso na reunião — respondi, tentando interromper o fluxo

das suas palavras.

— Eu sou membro do Partido e eu decidirei como esta Casa deve ser

governada. Não há nada a discutir. Ninguém se sentará de chapéu na cabeça para as

refeições, nem haverá aqui, lugar para reacionários!

A ração de Bérele continuou indo para o seu quarto. Eu tomava as minhas)

refeições junto com os ex-guerrilheiros e zelava para que o prato de Bérele estivesse sempre cheio, e que não faltasse a sua fatia de pão. Aliás, a minha preocupação era dispensável, porque todos os meninos simpatizavam com Bérele e participavam dessa

ação secreta. Eu era apenas uma espécie de chefe do movimento clandestino pró-

Bérele.

DVORÁ

— Eles estão passando! — gritou Môshele, jogando a colher sobre a mesa e

saindo a correr escadas abaixo.

— Depressa, ou eles passarão!

Antes que eu pudesse dizer uma só palavra, os meninos levantaram-se,

entornando os seus pratos de sopa. Um banco é derrubado. As portas se fecham. Os

maiores correm para conseguir um lugar à janela.

Vejo-os pela janela do andar superior. Passam pela rua. Restos de um exército

alemão. Soldados sujos, rasgados. Um deles, que ia logo na frente, tinha as mangas

em tiras, a farda quase esfacelada. Outro, as polainas em farrapos e desenroladas, que iam sendo arrastadas pelas ruas. Capacetes na cabeça. Rostos sujos, mal-barbeados.

Marcham entre a multidão, olhando para a frente. De cada lado da coluna, soldados

russos armados, vigiando os prisioneiros.

— Fascistas! Assassinos! Nojentos! — berra a multidão.

— Matar! É preciso matar vocês todos! — berra Môshele, de apenas oito anos

de idade.

As crianças correm atrás deles, gritando; uma pedra voa.

— Vocês vão apodrecer por aqui! Nunca mais voltarão para as suas casas!

Nunca.

Facilmente se reconhece a voz de Dvorá. Pela janela, vejo-a puxando a manga

de um dos prisioneiros, chutando outro. Agarra um punhado de areia da rua e atira-o direto na cara de um dos alemães.

— Fora daqui! Fora! — esbravejam os soldados russos.

As crianças recuam, mas Dvorá continua correndo. Ultrapassa os guardas e

coloca-se à frente da coluna, voltada para ela. Vai andando de costas, como o maestro de uma banda militar, e grita para os prisioneiros, com uma voz que não é sua.

— Cachorros! Assassinos! Vocês vão apodrecer aqui! Dvorá é nova entre nós.

Um dia, ela bateu à porta da secretaria. Eu estava só na sala. Ela entrou. Tinha um chapéu de aviador na cabeça. Sobre os ombros, um capote de soldado de cavalaria

russo. Sapatos vermelhos, de salto alto.

— Meu nome é Dvorá. Dvorá Hatzquelis — apresentou-se. No primeiro

instante, não distingui se estava falando com uma menina ou com uma mulher

adulta. Sentou-se silenciosamente. Tirou o capote, ajeitou o vestido para não o

amarrotar.

— Qual é a sua idade, Dvorá? — perguntei-lhe.

— Treze anos. Estou vindo do Exército Vermelho. Eu era tradutora lá.

Admitiram-me logo após a libertação.

— Tradutora?

— Sim, tradutora. Por que acha isso estranho? Eu entendo alemão. Passei

praticamente toda a guerra em campos de concentração. Talvez você também não

acredite, mas passei por treze campos. Fugi todas as vezes, mas sempre fui apanhada e enviada para outro campo. Estive até em Maidaneque, dentro do «chuveiro».

Olhei fixamente para a menina.

— Todos estavam nus. Eu também. Mas eu não gritava como os outros. Apenas

o meu coração é que batia como um martelo. Um judeu, carregando baldes, rodava

pelos arredores.

Estava vestido com o uniforme do campo. Entrava e saía da sala e olhava

muito para mim. No primeiro momento, não o reconheci. Depois, vi que era o meu

tio. ele fez sinal para que eu ficasse perto da porta. Quando vieram fechar a porta, os gritos aumentaram. Houve muita confusão. O meu tio conseguiu puxar-me por um

braço e jogar-me dentro de um quartinho pegado à grande sala, uma espécie de

dispensa. De lá, eu ouvia os gritos dos que estavam sendo sufocados pelo gás que saía dos «chuveiros». Tapei os ouvidos com as mãos. Mas ouvia assim mesmo. No meu

esconderijo, reinava a mais completa escuridão. Apertei-me contra a parede, mas os

gritos continuavam atravessando tudo e chegando até os meus ouvidos, De repente,

tive um susto: os gritos cessaram. Ainda escutei uma voz gritando «papai, mamãe».

Depois, o silêncio foi completo. Contudo, apesar do medo que sentia, não disse um ai durante todo o tempo em que estive no quartinho.

Depois de um tempo imenso, abriu-se a porta e o meu tio entrou. Trazia um

casaco nas mãos. Vesti-o. Depois, o meu tio enrolou-me num saco, que colocou sobre

os ombros. Não disse uma só palavra durante todo o percurso. De repente, senti que

tinha sido arremessada em algum lugar. Fiquei imóvel durante algum tempo. Depois,

saí devagarinho do saco e verifiquei que estava fora do campo. Fui me arrastando

para longe. Depois, fiquei de pé e desatei a correr. Corri com todas as minhas forças.

A neve queimava os meus pés descalços. O casaco era comprido. Dobrei-o. Corri,

corri...

Subitamente, ela interrompe a narração. Fixa uns olhos inquiridores em mim,

como que calculando se vale a pena estar a contar a sua vida para uma pessoa

estranha, uma pessoa que estava vendo pela primeira vez. Parece que eu passei no

exame, porque ela se decidiu a continuar. Só que, agora, a sua voz se modifica, e o seu rosto assume um ar de indiferença.

— Ao amanhecer, cheguei a um povoado. Vi um estábulo. Arrastei-me para

dentro e subi a um monte de feno. Lá dentro estava quente, e eu adormeci.

— «Jesus Maria!», o grito de uma mulher assustada acordou-me. «Como é que

você conseguiu chegar até aqui? Quem é você?», perguntou-me. Contei-lhe tudo. Não

poderia fazer outra coisa. Não tenho boa cara. Todos vêem imediatamente que sou

judia.

— Certo — disse-lhe com um aceno de cabeça.

— Mas a mulher teve pena de mim. Trouxe-me comida e algumas roupas. De

noite, ela voltou, abriu a porta do estábulo e me disse: «Agora, vá-se embora. E não ouse voltar. Da próxima vez não terei pena de você», ao mesmo tempo que me metia

na minha mão um pedaço de pão. Ela era boa.

Dvorá calou-se. «Ela já repetiu esta história muitas vezes», pensei comigo

mesma.

— E como é que você soube da existência desta Casa? — perguntei-lhe,

tentando fazer com que a menina voltasse ao presente.

— Já sabia da sua existência. Há muito tempo. Lá no exército tínhamos um

motorista chamado Dimitri Mateich. Um jovem. Uma vez, ele transportou lenha para

o hospital militar. Existe lá um coronel-médico, ou professor, um judeu, que lhe disse para também trazer lenha para esta Casa. Para as crianças judias daqui. Quando ele

voltou, procurou-me e me disse: «Dora, vá para lá. Rua Zingmuntovsca. Existe lá uma grande Casa da Criança. Lá, todos são judeus. O exército não é lugar para você.» No começo, eu não quis ouvir o que ele dizia. Depois, eu fiquei enjoada de tudo. Até do exército. Então, eu vim. Os grandes são obrigados a estudar aqui? Eu não gosto de

estudar. Quero trabalhar.

— Está bem. Agora você deverá ir se lavar e mudar de roupa. Depois

conversaremos a respeito dos seus estudos. Você ficará no grupo das meninas. A

educadora de você chama-se Tila Tictim. É uma mulher admirável. Você verá.

Levantamo-nos, e eu fui acompanhá-la até o quarto de banho. Enquanto ela se

lavava, procurei Tila e contei-lhe, rapidamente, tudo o que tinha ouvido, mas

acrescentei que não estava certa de ser tudo verdade.

Tila ouviu tudo, pensativamente. Depois, disse.

— Você ainda não está acostumada às histórias que eles contam. Parecem pura

imaginação. Mas não é assim na realidade. Tudo o que eles contam é verdadeiro.

A coluna de prisioneiros já estava longe. O sino tocou. Já era hora das aulas, e

as crianças ainda não haviam voltado. Que teria acontecido?

Desço para a rua, mas não vejo uma criança sequer. De repente, ouço gritos no

outro extremo da rua. Forma-se uma aglomeração. Aproximo-me. No meio da rua,

está uma menina polonesa com um embrulho rasgado nas mãos. Espalhados pela

calçada, biscoitos, açúcar e chá.

— Antes Hitler tivesse ficado um pouco mais por aqui. Assim, teria acabado

com todos os judeus. Mas vejam quantos sobraram — diz ela com raiva, apontando

para as crianças da nossa Casa, que formavam um bloco um pouco distante.

O povo olha para elas com curiosidade e ódio.

— Eu lhe disse para não dar. Para que não se atrevesse a dar o embrulho para o

fascista. Agora, pior para você, sua putinha suja! — replicou Dvorá.

A polonesa fervia de ódio. Corre para junto das crianças.

— Dê neles! Bata nela! Ouviram que palavras? — incentivava-a o povo.

— Puta mesmo — grita Dvorá, e foge. Os meninos correm atrás dela. Vai

correndo e gritando: «Viram? Queria entregar o pacote aos prisioneiros. Rasguei o

embrulho e espalhei tudo. Ela ficou histérica. Que exploda!» Dvorá engole a saliva e os seus olhos ardem.

— E eu dei um pontapé daqueles no alemão. No último! — gabou-se Môshele.

Eu estendo a mão para acariciar os cabelos ondulados de Dvorá.

— Crianças. Está na hora da aula. Entrem.

MAMÃE

Grandes preparativos na Casa. Os meninos arrastam os bancos e arrumam a

sala grande, sob as ordens de Tictim. Dos quartos, chegam vozes do coro. É o último ensaio. De vez em quando, o coro silencia e a voz profunda e cheia de Zelta

Catcherguinsqui irrompe através da porta fechada. Quando isso acontece, as crianças interrompem o seu trabalho e ficam a ouvir, embevecidas.

Hela Goldstein, uma menina gorducha e graciosa, ensaia um poema de

Sutzquever: A Professora Mira.

— Venha, professora — diz ela. — Quero lê-lo para a senhora. Estou tão

nervosa. Daqui a uma hora, receberemos o poeta.

O sentimento de solidão impele os judeus a se reunirem, a buscarem a

companhia uns dos outros. A sala vai ficando repleta. Os que voltam da URSS têm

sede da palavra judaica.

— Uma Casa da Criança judaica! — exclamam alguns, com admiração.

— Onde está Leizer — perguntei a Huna. — ele não vem à festa?

— Não o vejo — respondeu Huna.

Lembrei-me de que também não o vira na hora do jantar. Fui, então, ao seu quarto. Leizer estava deitado, na penumbra; curvei-me sobre a cama. Seus olhos

estavam abertos. Não dormia.

— Você não está se sentindo bem?

— Estou bem, sim. Só que não tive vontade de ir. Quis ficar sozinho.

Leizer era um menino de uns quatorze anos. Tinha um irmão mais novo no

grupo dos meninos menores: Mótele. Às vezes, via os dois irmãos num canto

qualquer, segredando coisas um para o outro. Leizer era quieto e vagaroso.

Caminhava inclinado para a frente. Em seus grandes olhos, havia um reflexo de

cansaço. Quando os meninos que haviam sido guerrilheiros relembravam as suas

histórias, Leizer sentava-se num canto e ouvia calado. Os meninos haviam-no

apelidado de «Vovozinha». ele se mostrava indiferente ao que se passava ao seu

redor. Gostava muito de ler. Estudava bastante, para se preparar para o exame da

escola russa.

Uma vez, perguntei a ele onde estivera durante a guerra.

— Nós nos escondíamos na floresta, em um bunquer — respondeu, cortando a

conversa.

— Eu o incomodo se me sentar um pouco aqui? — perguntei. — Também não

estou com vontade de participar da recepção. Estou muito cansada.

Silêncio.

— Garoto esperto o seu irmão. Um bom aluno. Que idade tem ele?

— Daqui a alguns meses, fará dez anos — responde Leizer. — Ele é realmente

esperto. Nos primeiros tempos, quando estávamos na floresta, não sabíamos nos

orientar. Mótele aconselhou-nos a colocar pinhas em cima de troncos partidos, com a ponta voltada para o bunquer. Eram os nossos sinais indicadores do caminho. Ele é muito perspicaz.

Em baixo, a festa começara. Ouvia-se uma canção.

«Numa longínqua aldeia lituana,

Numa casinha afastada,

Através de uma janela...»

— É Minale que está cantando — disse Leizer, e continuou a prestar atenção.

«...um coração de mãe pressente bem, Não descansa um minuto sequer...»

— Um coração de mãe — murmurou Leizer, como que repetindo as palavras da

canção. — Não há dúvida de que eles a teriam matado mesmo, mas todas as torturas

que sofreu foram por nossa causa. Foi porque pensou em nós. Em mim e em Mótele...

Passou-se uma longa hora. Leizer, agora, está deitado de costas, com as mãos

sob a cabeça. Parece que está prestando atenção aos ruídos que vêm da sala. De

repente, Ele voltou a falar.

— Naquela noite, ela perguntou se estávamos com fome. Era inverno.

Estávamos abrigados no bunquer abandonado. Ele nos protegia bem do frio, como deveria ter protegido os soldados enquanto estava sendo usado. Além de nós, ainda

estava lá o casal Frumer. Não comíamos há três dias. Também não fazíamos um só

ruído. Mamãe parecia petrificada, durante todo o tempo. De repente, ergueu-se e,

virando-se para nós, disse: «Vocês estão com fome, crianças. Não é verdade?» Não

esperou resposta. Envolveu-se no seu chale e saiu do bunquer.

Não vejo bem os olhos de Leizer. Passam-se alguns minutos e penso que não

continuará falando. De repente, prossegue.

— Eu me lembro de que Frumer ficou sentado quando mamãe saiu. Depois de

uns instantes, ele abotoou o seu casaco de peles e saiu no encalço de mamãe, sem

mesmo olhar para a sua mulher.

Leizer interrompe novamente a narrativa. Depois, continua.

— Ao amanhecer, Frumer voltou ao bunquer. Abriu a porta e gritou para

dentro: «Depressa, temos de fugir daqui.» Levantamo-nos e seguimos os seus passos.

Corríamos pela floresta. Segurei a mão de Mótele. Havia nove bunquers na floresta.

Começou a chover. Estávamos cansados. Escondemo-nos em outro bunquer, no

quinto deles, o mais próximo. Só então é que Frumer contou o que havia acontecido.

Eles haviam ido até a casa de uma conhecida: Osênia Zobca. Tínhamos um trato com

ela: se tudo estivesse em ordem, calmo, deveria haver um feixe de palha junto à

parede da casa, não longe da porta. Quando eles chegaram, o feixe estava lá. Mamãe e Frumer caminharam confiantes. De repente, um vulto surgiu de trás do feixe.

«Parem!», ordenou ele. Mamãe conseguiu fugir, mas Frumer foi agarrado. Ouvia-se

vozes de bêbados na casa. O homem gritou para dentro: «Ela fugiu! Peguei judeus!

Saiam depressa! Venham!» Ele disparou atrás de mamãe. Frumer fugiu, saltou uma

cerca e correu com todas as suas forças. De repente, as suas pernas ficaram

paralisadas e ele parou embaixo de uma árvore. Os assassinos passaram por ele sem

vê-lo.

Leizer interrompeu novamente a narrativa e virou-se para mim. Sua boca

estava aberta, mas ele não conseguia pronunciar mais nenhuma palavra. Dentro em

pouco, prosseguiu.

— Continuamos escondidos no bunquer número 5 depois que Frumer

terminou de contar. De repente, ouvimos dois disparos. Novamente o silêncio. «Que

teria acontecido?», nós nos perguntávamos. Dois dias depois, Sancovsqui, um

polonês nosso amigo, entrou no bunquer. Foi ele que nos contou o que havia acontecido com mamãe.

Leizer sentou-se na cama. Recostou-se na parede. Em seguida, continuou.

— Ele ouviu os assassinos dizerem para mamãe: «Revele onde estão os seus

filhos, e não lhe faremos qualquer mal.» Mamãe respondeu: «Que espécie de mãe eu

seria, se fizesse isso? Vocês nunca arrancarão esse segredo de mim. Nunca!» Mamãe

repetiu essas palavras o tempo todo. Ouvindo isso, aqueles assassinos arranjaram

uma espécie de tridente de madeira e espetaram todo o seu corpo. O martírio durou a noite inteira.

Agora, Leizer falava diretamente para mim. Olhava diretamente nos meus

olhos e as suas palavras como que golpeavam o meu rosto.

— Eles a torturaram a noite inteira — disse. — Pegaram também Ranquevitz, o

lenhador. Espancaram-no. Ao romper do dia, arrastaram os dois para o bunquer em que havíamos estado. Sancovsqui não contou como foi que eles souberam do

bunquer. Talvez Ranquevitz tenha contado. Não sei.

Leizer respira profundamente e continua.

— Os assassinos fizeram um julgamento. Condenaram mamãe e Ranquevitz à

morte, mas, na última hora, perdoaram Ranquevitz. Em mamãe, atiraram duas vezes.

Leizer fita-me nos olhos.

— O eco dos dois tiros que ouvimos no bunquer número 5 era a voz que nos

anunciou a morte de mamãe.

«Não diga nunca que você segue o seu último caminho», cantava o coro. A

reunião terminou. Vozes e passos. Parece que Leizer não ouviu, porque continuou.

— Sancovsqui era amigo. Sempre nos ajudou. Ele e mais três poloneses

presenciaram o julgamento. Ele viu minha mãe. Atiraram nela na sua presença. Foi

ele que nos contou tudo.

Abre-se a porta do quarto. Huna entra. Acende a luz. Pára, confuso. Eu faço

um sinal para ele e digo.

— Espere um minuto lá fora. Diga aos meninos para esperarem também.

Leizer entreabre os olhos. Senta-se na cama e continua. — Eu tinha de arranjar

a nossa comida. Uma vez, fui à casa dele durante o dia. Fiquei atrás dos montes de

feno. Esperei. Quando voltou do campo, ele me viu e fez sinal para que esperasse.