Maria Adelaide Amaral: A Emoção Libertária por Tuna Dwek. - Versão HTML

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Maria Adelaide Amaral

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A Emoção Libertária

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19/9/2005, 17:46

Governador

Geraldo Alckmin

Secretário Chefe da Casa Civil

Arnaldo Madeira

Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

Diretor-presidente

Hubert Alquéres

Diretor Vice-presidente

Luiz Carlos Frigerio

Diretor Industrial

Teiji Tomioka

Diretora Financeira e

Administrativa

Nodette Mameri Peano

Chefe de Gabinete

Emerson Bento Pereira

Núcleo de Projetos

2

Institucionais

Vera Lucia Wey

Fundação Padre Anchieta

Presidente

Marcos Mendonça

Projetos Especiais

Adélia Lombardi

Diretor de Programação

Rita Okamura

Coleção Aplauso Perfil

Coordenador Geral

Rubens Ewald Filho

Coordenador Operacional

e Pesquisa Iconográfica

Marcelo Pestana

Projeto Gráfico

e Editoração

Carlos Cirne

Revisão

Claúdia Rodrigues

Assistente Operacional

Andressa Veronesi

Tratamento de Imagens

José Carlos da Silva

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Maria Adelaide Amaral

A Emoção Libertária

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por Tuna Dwek

São Paulo - 2005

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©

2005

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação elaborados pela Biblioteca da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo Dwek, Tuna

Maria Adelaide Amaral: a emoção libertária/Tuna Dwek. – São Paulo : Imprensa Oficial do Estado de São Paulo : Cultura – Fundação Padre Anchieta, 2005.

352 p. : il. : - (Coleção aplauso. Série perfil / coordenador geral Rubens Ewald Filho)

ISBN 85-7060-233-2 (Obra completa) (Imprensa Oficial) ISBN 85-7060-380-0 (Imprensa Oficial)

1. Dramaturgos – Brasil – Biografia 2. Teatro (Literatura) 3. Amaral, Maria Adelaide I. Ewald Filho, Rubens. II. Título. III. Série.

CDD 928.69

4

Índices para catálogo sistemático:

1. Brasil : Dramaturgos : Biografia 928.69

Foi feito o depósito legal na Biblioteca Nacional (Lei nº 1.825, de 20/12/1907).

Direitos reservados e protegidos pela lei 9610/98

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SAC 0800-123401

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Apresentação

“O que lembro, tenho.”

Guimarães Rosa

A Coleção Aplauso, concebida pela Imprensa

Oficial, tem como atributo principal reabilitar e resgatar a memória da cultura nacional, biogra-fando atores, atrizes e diretores que compõem

a cena brasileira nas áreas do cinema, do teatro

e da televisão.

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Essa importante historiografia cênica e audio-

visual brasileiras vem sendo reconstituída de

maneira singular. O coordenador de nossa cole-

ção, o crítico Rubens Ewald Filho, selecionou,

criteriosamente, um conjunto de jornalistas

especializados para realizar esse trabalho de

aproximação junto a nossos biografados. Em

entrevistas e encontros sucessivos foi-se estrei-

tando o contato com todos. Preciosos arquivos

de documentos e imagens foram abertos e, na

maioria dos casos, deu-se a conhecer o universo

que compõe seus cotidianos.

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A decisão em trazer o relato de cada um para a

primeira pessoa permitiu manter o aspecto de

tradição oral dos fatos, fazendo com que a

memória e toda a sua conotação idiossincrásica

aflorasse de maneira coloquial, como se o

biografado estivesse falando diretamente ao

leitor.

Gostaria de ressaltar, no entanto, um fator

importante na Coleção, pois os resultados obti-

dos ultrapassam simples registros biográficos,

revelando ao leitor facetas que caracterizam

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também o artista e seu ofício. Tantas vezes o

biógrafo e o biografado foram tomados desse

envolvimento, cúmplices dessa simbiose, que

essas condições dotaram os livros de novos

instrumentos. Assim, ambos se colocaram em

sendas onde a reflexão se estendeu sobre a

formação intelectual e ideológica do artista e,

supostamente, continuada naquilo que caracte-

rizava o meio, o ambiente e a história brasileira naquele contexto e momento. Muitos discutiram

o importante papel que tiveram os livros e a

leitura em sua vida. Deixaram transparecer a

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firmeza do pensamento crítico, denunciaram

preconceitos seculares que atrasaram e conti-

nuam atrasando o nosso país, mostraram o que

representou a formação de cada biografado e

sua atuação em ofícios de linguagens diferen-

ciadas como o teatro, o cinema e a televisão – e o que cada um desses veículos lhes exigiu ou

lhes deu. Foram analisadas as distintas lingua-

gens desses ofícios.

Cada obra extrapola, portanto, os simples relatos biográficos, explorando o universo íntimo e psi-7

cológico do artista, revelando sua autodeter-

minação e quase nunca a casualidade em ter se

tornado artista, seus princípios, a formação de

sua personalidade, a persona e a complexidade

de seus personagens.

São livros que irão atrair o grande público, mas

que – certamente – interessarão igualmente aos

nossos estudantes, pois na Coleção Aplauso foi

discutido o intrincado processo de criação que

envolve as linguagens do teatro e do cinema.

Foram desenvolvidos temas como a construção

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dos personagens interpretados, bem como a

análise, a história, a importância e a atualidade de alguns dos personagens vividos pelos biografados. Foram examinados o relacionamento dos

artistas com seus pares e diretores, os processos e as possibilidades de correção de erros no

exercício do teatro e do cinema, a diferenciação

fundamental desses dois veículos e a expressão

de suas linguagens.

A amplitude desses recursos de recuperação da

memória por meio dos títulos da Coleção

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Aplauso, aliada à possibilidade de discussão de

instrumentos profissionais, fez com que a

Imprensa Oficial passasse a distribuir em todas

as bibliotecas importantes do país, bem como

em bibliotecas especializadas, esses livros, de

gratificante aceitação.

Gostaria de ressaltar seu adequado projeto

gráfico, em formato de bolso, documentado

com iconografia farta e registro cronológico

completo para cada biografado, em cada setor

de sua atuação.

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A Coleção Aplauso, que tende a ultrapassar os

cem títulos, se afirma progressivamente, e espe-

ra contemplar o público de língua portuguesa

com o espectro mais completo possível dos

artistas, atores e diretores, que escreveram a rica e diversificada história do cinema, do teatro e

da televisão em nosso país, mesmo sujeitos a

percalços de naturezas várias, mas com seus

protagonistas sempre reagindo com criati-

vidade, mesmo nos anos mais obscuros pelos

quais passamos.

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Além dos perfis biográficos, que são a marca da

Coleção Aplauso, ela inclui ainda outras séries : Projetos Especiais, com formatos e características distintos, em que já foram publicadas excepcionais pesquisas iconográficas, que se origi-

naram de teses universitárias ou de arquivos

documentais pré-existentes que sugeriram sua

edição em outro formato.

Temos a série constituída de roteiros cinemato-

gráficos, denominada Cinema Brasil, que publicou

o roteiro histórico de O Caçador de Diamantes,

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de Vittorio Capellaro, de 1933, considerado o

primeiro roteiro completo escrito no Brasil com

a intenção de ser efetivamente filmado. Parale-

lamente, roteiros mais recentes, como o clássico

O Caso dos Irmãos Naves, de Luis Sérgio Person,

Dois Córregos, de Carlos Reichenbach, Narrado-

res de Javé, de Eliane Caffé, e Como Fazer um

Filme de Amor, de José Roberto Torero, que

deverão se tornar bibliografia básica obrigatória para as escolas de cinema, ao mesmo tempo em

que documentam essa importante produção da

cinematografia nacional.

10

Gostaria de destacar a obra Gloria in Excelsior,

da série TV Brasil, sobre a ascensão, o apogeu e

a queda da TV Excelsior, que inovou os proce-

dimentos e formas de se fazer televisão no Brasil.

Muitos leitores se surpreenderão ao descobrirem

que vários diretores, autores e atores, que na

década de 70 promoveram o crescimento da TV

Globo, foram forjados nos estúdios da TV

Excelsior, que sucumbiu juntamente com o Gru-

po Simonsen, perseguido pelo regime militar.

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Se algum fator de sucesso da Coleção Aplauso

merece ser mais destacado do que outros, é o

interesse do leitor brasileiro em conhecer o

percurso cultural de seu país.

De nossa parte coube reunir um bom time de

jornalistas, organizar com eficácia a pesquisa

documental e iconográfica, contar com a boa

vontade, o entusiasmo e a generosidade de

nossos artistas, diretores e roteiristas. Depois, apenas, com igual entusiasmo, colocar à disposição todas essas informações, atraentes e aces-

11

síveis, em um projeto bem cuidado. Também a

nós sensibilizaram as questões sobre nossa

cultura que a Coleção Aplauso suscita e apre-

senta – os sortilégios que envolvem palco, cena,

coxias, set de filmagens, cenários, câmeras – e,

com referência a esses seres especiais que ali

transitam e se transmutam, é deles que todo esse

material de vida e reflexão poderá ser extraído

e disseminado como interesse que magnetizará

o leitor.

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A Imprensa Oficial se sente orgulhosa de ter

criado a Coleção Aplauso, pois tem consciência

de que nossa história cultural não pode ser negli-genciada, e é a partir dela que se forja e se

constrói a identidade brasileira.

Hubert Alquéres

Diretor-presidente da

Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

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Para todas as minhas mães... e não são

poucas... carpe diem

Agradecimentos

Adriana e Luís Tripolli

Anella M. Malzoni

Meu agradecimento devotado a Alcides

Nogueira – Tide, que tem a paciência dos

monges e o olhar depurado e genuíno dos

amigos de todas as horas.

Tuna Dwek

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Introdução

Ainda que para alguns seja uma convenção, a

passagem entre um ano e outro contém em si

um atavismo de esperanças e aspirações, de ba-

lanços de vida, e de depuramento interior. As-

sim, os últimos dias do ano de 2004, e o mês que

se seguiu em 2005, forjaram o molde deste ínti-

mo relato.

Sua casa da Serra da Cantareira, refúgio e

habitat de madeira, e de vegetação por todos

15

os cantos, foi o cenário escolhido por Maria

Adelaide Amaral para realizar a radiografia de

sua existência. Física, intelectual, emocional,

afetiva, espiritual, numa relação antroposófica

em que todas as instâncias da vida se conectam

entre si.

Em nosso retiro, Maria Adelaide abandonou-

se ao fluxo de reminiscências e de inédito

desnudamento por horas incontáveis, interrom-

pendo seu mergulho por apenas alguns dias.

Teve de ausentar-se em função das entrevistas,

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no Rio de Janeiro, de familiares e amigos do

Presidente Juscelino Kubitschek – dentre os

quais o emblemático arquiteto Oscar Niemeyer

– personagem da próxima minissérie para a

Rede Globo, onde ela é ouro da casa desde a

década de 90.

Nesse ínterim, ofertou-me seu espaço serrano

para que, em sua ausência, eu recontasse sua

própria história.

Caminhávamos todas as manhãs, atividade sa-

16

grada, ou em fins de tarde, pelas alamedas de-

senhadas por elegantes bambus, delgados, alti-

vos e sólidos, algo parecidos com ela.

Da mesma maneira que seu compadre Alcides

Nogueira, Maria Adelaide Amaral é uma

proustiana criatura, que ama perscrutar o mo-

saico de sua memória. Cabe à biógrafa não se

desesperar com as informações desvendadas

que ela terá de manusear usando as pinças da

delicadeza.

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Conheci Maria Adelaide no início dos anos 80,

pouco depois da promulgação da Lei da Anistia

que traria de volta à pátria boa parte das víti-

mas dos desmandos da ditadura militar brasilei-

ra, apresentada por seu querido amigo Fernando

Perrone. Após 12 longos anos de exílio, ela foi

uma das primeiras pessoas que ele reviu.

Cultivamos nossa amizade desde então, com di-

reito a Natais, Réveillons, Dias das Mães, aniver-sários e os jantares que ela organiza como nin-

guém, com sua fiel trupe de amigos de

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longuíssima data. Pode-se dizer que foram ne-

cessários 25 anos e muitas horas para a confec-

ção milimétrica deste livro.

Maria Adelaide não julga. Nem fatos nem pesso-

as. Colhe informações sobre o que vê e registra na caderneta de suas emoções. Consegue percorrer

o passado transportando seu olhar para o momen-

to em que se deu o acontecido, e assim tornar ví-

vido o relato de sua experiência mais profunda.

Sabe, como poucos, desfibrar as matizes secretas

dos sentimentos daquele instante.

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Ela é o que se vê, apaixonada pelo que faz, pela

família e pelos amigos a quem não poupa devo-

ção e lealdade. Ainda que pese seu lado ingênuo,

Maria Adelaide detecta as nebulosas que seu

sucesso acarreta e foge, discreta, de situações

pouco cristalinas criadas por velados interesses.

As pessoas que, ao longo de sua vida, dela se

aproximaram desprovidas de sinceridade em

seus propósitos, acabaram por se eclipsar nas

poeiras do Tempo.

A partitura deste livro se funde com a trilha so-

18

nora carinhosamente gravada para o Ano Novo

em 13 Cds por Milú Vilela, uma de suas amigas-

irmãs, como ela diz. Em sua casa da Cantareira,

cães e gatos convivem como se gostaria de ver

acontecer entre os humanos de todas as raças,

credos e culturas.

Portuguesa de nascimento, hoje agraciada com

o título de Cidadã Paulistana após sua contri-

buição com a minissérie Um Só Coração, da Rede

Globo, Maria Adelaide não faz concessões em

sua escrita para o bem-estar do pensamento

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dominante. E não se reinventa a cada dia para

agradar aos outros. Movida a desafios, é uma

cronista de sua época. Escreve sobre o que vê,

sente e apreende. Mestra dos diálogos, não he-

sita em encostar dedos em feridas e pontos

nevrálgicos, seja nos relacionamentos humanos,

seja pela denúncia do que a faz indignar-se.

Muitas vezes, quando a correlação de forças

mostrava-se desfavorável e apresentava risco de

vida aos que combatem as injustiças.

Testemunha da história social e política desde

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os anos 50, quando ainda pré-adolescente de-

sembarca em terras brasileiras, Maria Adelaide

Amaral, jornalista, escritora, dramaturga, é aci-

ma de tudo uma cidadã comprometida com seu

tempo, preocupada como mãe e avó com a qua-

lidade do que se haverá de deixar para as gera-

ções futuras.

A estrutura democrática de seu pensamento e seu

respeito pelas diferenças, aliados à sua retidão de caráter, tornaram indomável seu ímpeto de denunciar qualquer ameaça que demova os Homens

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de sua missão inevitável: a liberdade. Afinal, como dizia Jean-Paul Sartre, o emblemático pensador dos férteis anos 60 que a anticonformista Maria

Adelaide se encarregou de viver intensamente, o

Homem está condenado a ser livre.

Adelaide não escapou da Morte porque dela não

se escapa. Digamos que ela soube desviá-la do

caminho e fez dela um boneco ceifador. Deus

andava lhe dizendo que não era chegada a sua

hora. Enquanto a Morte olhava para ela, nossa

biografada a encarou, deu uma piscadinha des-

20

concertando a intrusa e escapou deixando-a fa-

lando sozinha.

Apresentá-la ao público da Coleção Aplauso vai

além da biografia da dramaturga, romancista,

autora de novelas e minisséries festejadas além-

mar. Haveremos de descobrir que o Aplauso con-

quistado por essa grande mulher desvenda uma

guerreira.

Suas lutas ora vitoriosas, ora inglórias, se transformaram em aprendizado. Como nos diz o orá-

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culo num dos 64 hexagramas do milenar I Ching,

quanto mais humilde for a situação exterior, mais tem que se cultivar a dignidade interior. Intui-se que a assertiva esteja certa.

E se é verdade que a dor pode marcar a ferro

quente o espírito de uma pessoa, é também ver-

dade que ela pode manter intacta a essência de

sua alma.

Tuna Dwek

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Para Rodrigo e Carina, Guilherme e Paula,

Ana Luiza e Pedro. Aos meus amigos, sempre.

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Em 1951

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Capítulo I

Uma Casa Portuguesa com Certeza

Nasci em Portugal, no dia 1º de julho de 1942,

por volta das 8h45 da manhã, em plena II Guer-

ra Mundial, e no início do verão no Hemisfério

Norte. Quando a parteira anunciou a minha mãe

que era menina, dizem que ela ficou muito con-

tente porque tinha três filhos homens, um pari-

do depois do outro com apenas um ano de dife-

rença. Porém, o fato de eu ter nascido nove anos

25

depois do meu irmão Artur e ser a única garoti-

nha da casa não me deu qualquer privilégio. Os

filhos homens sempre foram mais considerados

pelas famílias portuguesas, pelo menos as da-

quele tempo. Nunca fui mimada pelos meus pais,

porque eles supunham que eu também não o

seria pela vida, e me prepararam para enfrentá-

la já dentro de casa.

Na verdade, a chegada de uma menina tinha ale-

grado principalmente minha mãe, pois seria uma

oportunidade única de manifestar a doçura da sua

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alma, a alma de uma mulher sonhadora, que ado-

rava filmes e livros românticos, cujos enredos desejou viver a vida inteira, mas o destino jamais a contemplou com a paixão e a delicadeza que via

no cinema. Entretanto, para sua frustração, não

fui a bonequinha que ela tinha desejado. Sequer

gostava muito de brincar com bonecas. Vivia na

rua brincando com os meninos, subia em árvores,

assaltava os pomares dos vizinhos, falava pala-

vrões, sempre com a roupa suja, me sentia muito

mais à vontade com as crianças de condição social inferior à nossa, em resumo, um comportamento

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que me fechava as portas das casas das meninas

bem-educadas, para o grande desgosto e, muitas

vezes, a vergonha dos meus pais. Eu apanhava,

mas persistia. E sofria com o forte sentimento de rejeição e de inadequação.

Por causa disso, desde muito cedo comecei a me

refugiar na leitura. Não nos poemas que escrevia

para chamar a atenção, e que eram de qualidade

bastante duvidosa. Eu me refugiava nos livros de

histórias. Embarcava em qualquer narrativa sobre

fadas e princesas, passava a viver o que eu lia num Maria Adelaide miolo.pmd

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exercício de pura evasão. Eu lia compulsivamente, adorava, sorvia e vivia emocionalmente de leitura. Mais tarde, quando fui estudar História, os castelos de Reis e Rainhas eram como castelos das

minhas histórias. Acho que foi essa sensação que

despertaria a minha paixão pela História, uma das mais longas e permanentes da minha vida.

Com a mãe, em 1951

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Morávamos nas proximidades do Porto, que sem-

pre foi a cidade mais importante do Norte de Por-

tugal e todos nós, família paterna e materna, nas-cemos em seus arredores. Eu nasci em Alfena, Con-

selho de Valongo, Distrito do Porto, mas com um

ano de idade minha família se transferiu para uma grande casa em Ermezinde que ainda subsiste na

Rua 5 de Outubro. Construída por meu pai em

estilo art déco, ali morei com meus pais, minha

avó materna e meus irmãos Américo, Alfredo e

Artur. Vivíamos na parte de cima, pois na parte

debaixo funcionava a oficina de jóias da família e 28

o escritório. A fábrica ficava num terreno ao lado, no fundo de um jardim, onde apareço fotografa-da no dia da minha primeira comunhão, ao lado

do meu pai e da minha imensa madrinha.

Meu pai era mais que um ourives: tinha uma

oficina de jóias, e uma muito maior, de bijute-

rias, especializada em marcassitas. No final da

II Guerra Mundial, chegou a ter uma me-

talúrgica. Era um grande empreendedor, mui-

to inteligente e autodidata, mas de tempera-

mento muito difícil.

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No dia de sua primeira comunhão

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Minha mãe, por sua vez, era doce e romântica.

Bordava, tricotava, fazia crochê, costurava, ti-

nha grandes pendores para trabalhos manuais,

mas detestava qualquer coisa referente a servi-

ços domésticos. Felizmente sempre houve al-

guém que fizesse isso por ela. Minha avó a aju-

dava com os filhos, e a casa ficava por conta

das criadas. Apesar do orçamento apertado,

sempre tivemos empregadas em Portugal. Na-

quela época, ainda era uma mão-de-obra bas-

tante barata.

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No dia do casamento do irmão, Portugal, 1952

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Na primeira comunhão de um amigo, Portugal, 1947

Por volta de 1947, meu pai sofreu um terrível

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revés na metalúrgica. Foi literalmente rouba-

do pelo sócio. A fábrica recebera uma grande

encomenda de torneiras e maçanetas, metais

em suma, para um grande hospital que estava

sendo construído em Lisboa. Lembro que o so-

brenome do sócio era Corte-Real; ele foi rece-

ber o pagamento, jogou e perdeu todo o di-

nheiro no Cassino da Póvoa do Varzim. Por cau-

sa disso, meu pai fez a primeira hipoteca da

nossa casa, para pagar os operários e fornece-

dores. E também foi esse fato que inaugurou

um período de enormes dificuldades, que cul-

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minaria no início dos anos 50 com a nossa pe-

núria envergonhada. Deixamos de consumir

leite, manteiga, e a carne de segunda visitava

nossa mesa apenas uma vez por semana. Mi-

nha mãe comprava e reformava, para ela e para

mim, roupa de segunda mão. Ela conseguia

operar verdadeiros milagres e nós saíamos à rua

muito bem arrumadas, escondendo dos amigos

e vizinhos nossa real situação. Era tão embara-

çoso e constrangedor o esforço que meus pais

faziam para ocultar nossa progressiva pobreza

que o Américo, meu irmão mais velho, come-

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çou a pensar em imigrar.

A oportunidade surgiu em 1952, quando fomos

visitados por um tio, Joaquim Silva, irmão de

minha avó paterna, que morava em São Paulo

desde 1910. Professor de latim e português, ele

tinha se casado com uma senhora de tradicional

linhagem paulistana, e na família era referido

como “o tio rico do Brasil”. Foi ele que pagou a

passagem da Panair para o Américo, o único de

nós que veio de avião. Em 1953, meu irmão

Alfredo imigrou para o Brasil.

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E em 1954 foi a nossa vez de partir para Lisboa,

de onde embarcamos num grande navio para o

Brasil.

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1951

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1955, quando da chegada ao Brasil

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Capítulo II

Batismo de Fogo

Devido à proximidade do centro de São Paulo,

meu irmão Américo alugara uma casa no bairro

da Mooca, na Rua Coronel Bento Pires, uma rua

tranqüila e arborizada de apenas duas quadras,

onde a maior parte dos nossos vizinhos era de

italianos ou de ascendência italiana. Era uma

casa de quatro dormitórios, uma pequena cozi-

nha, um único banheiro, e uma sala que funcio-

35

nava ao mesmo tempo como de estar e de jan-

tar, e onde eu dormia numa poltrona-cama com-

prada numa loja de móveis usados no Brás, onde,

aliás, foram comprados todos os outros móveis

da casa.

Um mês depois de nos instalarmos em São Paulo,

minha mãe, minha cunhada e eu fomos trabalhar

numa fábrica de camisas da qual, para minha ale-

gria, fui demitida dois meses depois, por absoluta incompetência na arte de chulear. Depois de um

enérgico sermão dos meus pais, eles se convence-

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ram que o melhor para mim talvez fosse estudar.

Era só o que eu queria. Estudar!

Então minha mãe foi ao Colégio Sagrada Famí-

lia, no Ipiranga, solicitar uma bolsa de estudos

para mim. A concessão de uma bolsa era um fato

excepcional e, naturalmente, algumas freiras

jamais deixaram de lembrar, à classe e a mim, a

generosidade do colégio e as dificuldades que

minha família atravessava. Não é difícil imagi-

nar a raiva surda e a humilhação que isso me

provocava. Mas o verdadeiro cristianismo é mui-

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to difícil de exercer, mesmo por quem resolveu

dedicar sua vida a ele. Felizmente minha reação

ultrapassou os maus sentimentos, e se traduziu

na decisão de me tornar uma das melhores alu-

nas da classe. Como era muito boa em redação,

ao saber que havia um jornal no colégio, fui ofe-

recer minha colaboração.

O colégio para mim funcionou como um manu-

al de sobrevivência na selva. Eu questionava

tudo, provocava as freiras, fazia perguntas

incômodas sobre religião, sobre o mundo em

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geral, e acabei entrando em rota de colisão com

algumas das irmãs. Não com todas, havia freiras

adoráveis como a Irmã Celina, a Irmã Maristela,

e a Irmã Celeste, professora de geografia e mui-

to divertida, de quem lembro até hoje com sau-

dades. Mas havia uma freira professora de fran-

cês, muito presunçosa e classista, que não tinha

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outro jeito senão me tolerar, pois além de eu

ser redatora-chefe do jornal, tinha sido eleita

como representante da classe na segunda série,

pois a minha contestação acabara me tornando

bastante popular. A turma do fundão, junto da

qual me sentava, vibrava de entusiasmo toda vez

que eu resolvia questionar uma irmã. Eu tinha

uma língua rápida e nenhum escrúpulo em di-

zer o que pensava. Evidentemente, isso me cus-

tou muitas inimizades e dificultou a minha vida,

mas era muito difícil me controlar. Com o tem-

po, aprendi que é melhor ficar quieta, que o si-

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lêncio é de ouro, e só me permito explodir quan-

do realmente a situação é intolerável.

Ainda seguindo essa trajetória da adolescente

rebelde, num determinado momento resolvi que

seria uma intelectual, decisão que partiu da construção de uma personalidade aparente, uma

persona que pudesse encobrir todas as minhas

fragilidades sociais, materiais e emocionais. Con-tribuiu para isso a paixonite pelo irmão de uma

colega da segunda série, que se chamava Marcus

Vinicius e estava no primeiro ano de Direito.

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Marcus Vinicius. Eu achava o nome irresistível,

por causa do herói de Quo Vadis, de Mervyn

Leroy (1951), com Robert Taylor e Deborah Kerr,

filme que vi incontáveis vezes no Cinema Itapura.

Eu devia ter uns 13 anos, ele me perguntou o

que gostava de ler, e eu respondi pomposa, Es-

pumas Flutuantes, de Castro Alves. E era verda-

de, porque foi um dos primeiros livros que li

quando cheguei ao Brasil. Pode parecer estra-

nho, mas o fato é que, desde os seis anos, eu lia tudo o que me caía na mão.

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Capítulo III

Parêntese Poético

Uma das mais lindas histórias da minha vida acon-

teceu quando tinha dez anos. A partir dessa ida-

de, onde eu nasci as crianças paravam de receber

presentes de Natal. A realidade da vida de meus

pais era muito dura em 1952, não havia dinheiro

e eles não tinham como me presentear. Porém,

era a última vez que eu colocaria meus sapatos

sobre o fogão para que o Menino Jesus me con-

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templasse com algum brinquedo no dia de Na-

tal, e eles se compadeceram de mim. Então fo-

ram a um sebo na cidade do Porto e compraram

muitos livros de histórias para mim. Foi o mais

lindo presente de Natal que eu recebi. Não só

pelos livros, mas por aquela tocante manifesta-

ção de afeto num momento de tantas dificulda-

des. Senti que eles se importavam comigo, que

me amavam apesar das poucas efusões, sobretu-

do de meu pai, que raramente me abraçava. Mas

aquele presente valeu por todos os abraços que

ele jamais conseguiu me dar.

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Depois, que me importava que os livros fossem

usados, ou não? Importava que fossem livros, e

eu os pedia para todo mundo. Quando cheguei

a São Paulo, um empregado do meu pai me

emprestou livros de autores brasileiros clássicos, entre os quais se encontrava o tal Espumas Flutuantes. Então, quando conheci Marcus Vinícius,

e fiquei enamorada do seu nome e de tudo que

ele representava, ataquei de Castro Alves, mas

ele me sugeriu que lesse poesia moderna, Carlos

Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes,

Manuel Bandeira, e foi assim que passei a ler os

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modernos poetas brasileiros. Por essa razão, e

para impressionar Marcus Vinicius, inventei de

escrever poesia moderna, mas não era uma sin-

cera manifestação da minha sensibilidade. Era

pura afetação, uma maneira de me exibir, tal-

vez a única que dispunha, já que me faltavam

outros atributos para impressionar um rapaz

que, aliás, me considerava uma pirralha.

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Capítulo IV

Antes e Depois do Amigo

Mas continuei escrevendo poesia moderna até

que, em 1960, conheci Décio Bar, no Colégio Es-

tadual de São Paulo. Eu estava no Primeiro Clás-

sico e ele no Terceiro Científico. Continuava len-do muito e desordenadamente, de J. Cronin a

Jorge Amado, passando por Eça de Queiroz,

Pitigrilli e a Sra. Leandro Dupré. Sem falar que

meu irmão Américo tinha a coleção completa

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de Stefan Zweig, e eu tinha comprado em pres-

tações a coleção Maravilhas do Conto Universal.

Ao perceber a absoluta mixórdia das minhas lei-

turas, Décio me disse, categórico: “Você tem que

ler os escritores fundamentais, Sartre, Simone de Beauvoir, Fernando Pessoa, Erich Fromm”, autores que eram lidos pela jovem intelectualidade

da época.

Décio Bar era brilhante, tinha amigos igual-

mente brilhantes como Carlos Felipe Moisés e

o Cláudio Willer, eu saía muito com ele e dei-

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xei alegremente que fizesse minha cabeça.

Além de me apresentar a todos esses escrito-

res fundamentais, ele me aconselhava a não

perder tempo com alguns autores, e a me con-

centrar em outros. Ainda por cima, Décio lia

Heidegger, “Que coisa insuportável”, eu dizia

brincando, pois me sentia burra, porque quan-

do lia, eu não entendia nada. Eu jamais tive

pendor para o raciocínio abstrato; mesmo com

todas as digressões, meu raciocínio é extrema-

mente analógico, objetivo e prático. Hegel

para mim era uma tortura, Kant impensável.

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Até que Sartre eu lia com mais facilidade, por

causa dos seus romances.

Era exatamente isso que eu gostava, de ler roman-

ces e de ir ao cinema. Adorei Os Caminhos da Li-

berdade, A Morte na Alma, Sursis. Simone de

Beauvoir sempre me fascinou. Memórias de uma

Moça Bem Comportada foi a primeira biografia

que realmente me apaixonou, um livro que me

abriu os olhos e a cabeça. Depois eu mesma fiz

um monte de cabeças de amigas minhas com O

Segundo Sexo e esse livro essencial.

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Maria Adelaide (à direita) com Verinha Darcy e Leonor Pacheco, 1958

Toda essa influência começaria a mostrar seus

efeitos... Parei de ir à igreja. Eu já havia co-

meçado a questionar as sanções sexuais da

Igreja, os dogmas, os tabus, a castidade. A

amizade com o Décio e o contato com esses

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