Marília de Dirceu por Tomás Antônio Gonzaga - Versão HTML

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Universidade da Amazônia Marília de Dirceu

de Tomás Antônio Gonzaga NEAD – NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Av. Alcindo Cacela, 287 – Umarizal CEP: 66060-902

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Marília de Dirceu de Tomás Ântonio Gonzaga CAPÍTULO I

Lira I

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro, Que viva de guardar alheio gado; De tosco trato, d’ expressões grosseiro, Dos frios gelos, e dos sóis queimado.

Tenho próprio casal, e nele assisto; Dá-me vinho, legume, fruta, azeite; Das brancas ovelhinhas tiro o leite, E mais as finas lãs, de que me visto.

Graças, Marília bela, Graças à minha Estrela!

Eu vi o meu semblante numa fonte, Dos anos inda não está cortado: Os pastores, que habitam este monte, Com tal destreza toco a sanfoninha, Que inveja até me tem o próprio Alceste: Ao som dela concerto a voz celeste; Nem canto letra, que não seja minha, Graças, Marília bela, Graças à minha Estrela!

Mas tendo tantos dotes da ventura, Só apreço lhes dou, gentil Pastora, Depois que teu afeto me segura, Que queres do que tenho ser senhora.

É bom, minha Marília, é bom ser dono De um rebanho, que cubra monte, e prado; Porém, gentil Pastora, o teu agrado Vale mais q’um rebanho, e mais q’um trono.

Graças, Marília bela, Graças à minha Estrela!

Os teus olhos espalham luz divina, A quem a luz do Sol em vão se atreve: Papoula, ou rosa delicada, e fina, Te cobre as faces, que são cor de neve.

Os teus cabelos são uns fios d’ouro; Teu lindo corpo bálsamos vapora.

Ah! Não, não fez o Céu, gentil Pastora, Para glória de Amor igual tesouro.

Graças, Marília bela, 2

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Graças à minha Estrela!

Leve-me a sementeira muito embora O rio sobre os campos levantado: Acabe, acabe a peste matadora, Sem deixar uma rês, o nédio gado.

Já destes bens, Marília, não preciso: Nem me cega a paixão, que o mundo arrasta; Para viver feliz, Marília, basta Que os olhos movas, e me dês um riso.

Graças, Marília bela, Graças à minha Estrela!

Irás a divertir-te na floresta, Sustentada, Marília, no meu braço; Ali descansarei a quente sesta, Dormindo um leve sono em teu regaço: Enquanto a luta jogam os Pastores, E emparelhados correm nas campinas, Toucarei teus cabelos de boninas, Nos troncos gravarei os teus louvores.

Graças, Marília bela, Graças à minha Estrela!

Depois de nos ferir a mão da morte, Ou seja neste monte, ou noutra serra, Nossos corpos terão, terão a sorte De consumir os dois a mesma terra.

Na campa, rodeada de ciprestes, Lerão estas palavras os Pastores:

“Quem quiser ser feliz nos seus amores, Siga os exemplos, que nos deram estes.”

Graças, Marília bela, Graças à minha Estrela!

Lira II

Pintam, Marília, os Poetas A um menino vendado, Com uma aljava de setas, Arco empunhado na mão; Ligeiras asas nos ombros, O tenro corpo despido, E de Amor, ou de Cupido São os nomes, que lhe dão.

Porém eu, Marília, nego, Que assim seja Amor; pois ele Nem é moço, nem é cego, 3

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Nem setas, nem asas tem.

Ora pois, eu vou formar-lhe Um retrato mais perfeito, Que ele já feriu meu peito; Por isso o conheço bem.

Os seus compridos cabelos, Que sobre as costas ondeiam, São que os de Apolo mais belos; Mas de loura cor não são.

Têm a cor da negra noite; E com o branco do rosto Fazem, Marília, um composto Da mais formosa união.

Tem redonda, e lisa testa, Arqueadas sobrancelhas; A voz meiga, a vista honesta, E seus olhos são uns sóis.

Aqui vence Amor ao Céu, Que no dia luminoso

O Céu tem um Sol formoso, E o travesso Amor tem dois.

Na sua face mimosa,

Marília, estão misturadas Purpúreas folhas de rosa, Brancas folhas de jasmim.

Dos rubis mais preciosos Os seus beiços são formados; Os seus dentes delicados São pedaços de marfim.

Mal vi seu rosto perfeito Dei logo um suspiro, e ele Conheceu haver-me feito Estrago no coração.

Punha em mim os olhos, quando Entendia eu não olhava: Vendo o que via, baixava A modesta vista ao chão.

Chamei-lhe um dia formoso: Ele, ouvindo os seus louvores, Com um gesto desdenhoso Se sorriu, e não falou.

Pintei-lhe outra vez o estado, Em que estava esta alma posta; Não me deu também resposta, Constrangeu-se, e suspirou.

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Conheço os sinais, e logo Animado de esperança, Busco dar um desafogo Ao cansado coração.

Pego em teus dedos nevados, E querendo dar-lhe um beijo, Cobriu-se todo de pejo, E fugiu-me com a mão.

Tu, Marília, agora vendo De Amor o lindo retrato, Contigo estarás dizendo, Que é este o retrato teu.

Sim, Marília, a cópia é tua, Que Cupido é Deus suposto: Se há Cupido, é só teu rosto, Que ele foi quem me venceu.

Lira III

De amar, minha Marília, a formosura Não se podem livrar humanos peitos.

Adoram os heróis; e os mesmos brutos Aos grilhões de Cupido estão sujeitos.

Quem, Marília, despreza uma beleza, A luz da razão precisa; E se tem discurso, pisa A lei, que lhe ditou a Natureza.

Cupido entrou no Céu. O grande Jove Uma vez se mudou em chuva de ouro; Outras vezes tomou as várias formas De General de Tebas, velha, e touro.

O próprio Deus da Guerra desumano Não viveu de amor ileso; Quis a Vênus, e foi preso Na rede, que lhe armou o Deus Vulcano.

Mas sendo amor igual para os viventes, Tem mais desculpa, ou menos esta chama: Amar formosos rostos acredita, Amar os feios de algum modo infama.

Que lê que Jove amou, não lê nem topa, Que ele amou vulgar donzela: Lê que amou a Dânae bela, Encontra que roubou a linda Europa.

Se amar uma beleza se desculpa Em quem ao próprio Céu, e terra move: 5

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Qual é a minha glória, pois igualo, Ou excedo no amor ao mesmo Jove?

Amou o Pai dos Deuses Soberano Um semblante peregrino: Eu adoro o teu divino, O teu divino rosto, e sou humano.

Lira IV

Marília, teus olhos

São réus, e culpados, Que sofra, e que beije Os ferros pesados

De injusto Senhor.

Marília, escuta

Um triste Pastor.

Mal vi o teu rosto,

O sangue gelou-se,

A língua prendeu-se, Tremi, e mudou-se

Das faces a cor.

Marília, escuta

Um triste Pastor.

A vista furtiva,

O riso imperfeito,

Fizeram a chaga,

Que abriste no peito, Mais funda, e maior.

Marília, escuta

Um triste Pastor.

Dispus-me a servir-te; Levava o teu gado

À fonte mais clara,

À vargem, e prado

De relva melhor.

Marília, escuta

Um triste Pastor.

Se vinha da herdade, Trazia dos ninhos

As aves nascidas,

Abrindo os biquinhos De fome ou temor.

Marília, escuta

Um triste Pastor.

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Se alguém te louvava, De gosto me enchia;

Mas sempre o ciúme

No rosto acendia

Um vivo calor.

Marília, escuta

Um triste Pastor.

Se estavas alegre,

Dirceu se alegrava;

Se estavas sentida,

Dirceu suspirava

À força da dor.

Marília, escuta

Um triste Pastor.

Falando com Laura,

Marília dizia;

Sorria-se aquela,

E eu conhecia

O erro de amor.

Marília, escuta

Um triste Pastor.

Movida, Marília,

De tanta ternura,

Nos braços me deste

Da tua fé pura

Um doce penhor.

Marília, escuta

Um triste Pastor.

Tu mesma disseste

Que tudo podia

Mudar de figura;

Mas nunca seria

Teu peito traidor.

Marília, escuta

Um triste Pastor.

Tu já te mudaste;

E a faia frondosa,

Aonde escreveste

A jura horrorosa,

Tem todo o vigor.

Marília, escuta

Um triste Pastor.

Mas eu te desculpo,

Que o fado tirano

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Te obriga a deixar-me; Pois basta o meu dano Da sorte, que for.

Marília, escuta

Um triste Pastor.

Lira V

Acaso são estes

Os sítios formosos.

Aonde passava

Os anos gostosos?

São estes os prados, Aonde brincava,

Enquanto passava

O gordo rebanho,

Que Alceu me deixou?

São estes os sítios?

São estes; mas eu

O mesmo não sou.

Marília, tu chamas?

Espera, que eu vou.

Daquele penhasco

Um rio caía;

Ao som do sussurro

Que vezes dormia!

Agora não cobrem

Espumas nevadas

As pedras quebradas; Parece que o rio

O curso voltou

São estes os sítios?

São estes; mas eu

O mesmo não sou.

Marília, tu chamas?

Espera, que eu vou.

Meus versos alegre

Aqui repetia:

O eco as palavras

Três vezes dizia,

Se chamo por ele,

Já não me responde;

Parece se esconde,

Casado de dar-me

Os ais, que lhe dou.

São estes os sítios?

São estes; mas eu

O mesmo não sou.

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Marília, tu chamas?

Espera, que eu vou.

Aqui um regato

Corria sereno

Por margens cobertas De flores, e feno:

À esquerda se erguia Um bosque fechado,

E o tempo apressado, Que nada respeita,

Já tudo mudou.

São estes os sítios?

São estes; mas eu

O mesmo não sou.

Marília, tu chamas?

Espera, que eu vou.

Mas como discorro?

Acaso podia

Já tudo mudar-se

No espaço de um dia?

Existem as fontes,

E os freixos copados; Dão flores os prados, E corre a cascata,

Que nunca secou.

São estes os sítios?

São estes; mas eu

O mesmo não sou.

Marília, tu chamas?

Espera, que eu vou.

Minha alma, que tinha Liberta a vontade,

Agora já sente

Amor, e saudade,

Os sítios formosos me agradaram, Ah! Não se mudaram;

Mudaram-se os olhos, De triste que estou.

São estes os sítios?

São estes; mas eu

O mesmo não sou.

Marília, tu chamas?

Espera, que eu vou.

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Lira VI

Oh! Quanto pode em nós a vária Estrela!

Que diversos que são os gênios nossos!

Qual solta a branca vela, E afronta sobre o pinho os mares grossos; Qual cinge com a malha o peito duro, E marchando na frente das coortes, Faz a torre voar, cair o muro.

O sórdido avarento em vão defende Que possa o filho entrar no seu tesouro; Aqui fechado estende Sobre a tábua, que verga, as barras d’ouro.

Sacode o jogador do copo os dados; E numa noite só, que ao sono rouba, Perde o resto dos bens, do pai herdados.

O que da voraz gula o vício adora, Da lauta mesa os seus prazeres fia.

E o terno Alceste chora Ao som dos versos, a que o gênio o guia.

O sábio Galileu toma o compasso, E sem voar ao Céu, calcula, e mede Das Estrelas, e Sol o imenso espaço.

Enquanto pois, Marília, a vária gente Se deixa conduzir do próprio gosto, Passo as horas contente Notando as graças do teu lindo rosto.

Sem cansar-me a saber se o Sol se move; Ou se a terra volteia, assim conheço Aonde chega o poder do grande Jove.

Noto, gentil Marília, os teus cabelos.

E noto as faces de jasmins, e rosas: Noto os teus olhos belos, Os brancos dentes, e as feições mimosas: Quem faz uma obra tão perfeita, e linda, Minha bela Marília, também pode Fazer os Céus, e mais, se há mais ainda.

Lira VII

Vou retratar a Marília, A Marília, meus amores; Porém como? Se eu não vejo Quem me empreste as finas cores: Dar-mas a terra não pode; 10

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Não, que a sua cor mimosa Vence o lírio, vence a rosa, O jasmim, e as outras flores.

Ah! Socorre, Amor, socorre Ao mais grato empenho meu!

Voa sobre os Astros, voa, Traze-me as tintas do Céu.

Mas não se esmoreça logo; Busquemos um pouco mais; Nos mares talvez se encontrem Cores, que sejam iguais.

Porém não, que em paralelo Da minha Ninfa adorada Pérolas não valem nada, E nada valem corais.

.

Ah! Socorre, Amor, socorre Ao mais grato empenho meu!

Voa sobre os Astros, voa, Traze-me as tintas do Céu.

Só no Céu achar-se podem Tais belezas, como aquelas, Que Marília tem nos olhos, E que tem nas faces belas.

Mas às faces graciosas, Aos negros olhos, que matam, Não imitam, não retratam Nem Auroras, nem Estrelas.

Ah! Socorre, Amor, socorre Ao mais grato empenho meu!

Voa sobre os Astros, voa, Traze-me as tintas do Céu.

Entremos, Amor, entremos, Entremos na mesma Esfera, Venha Palas, venha Juno, Venha a Deusa de Citera, Porém não, que se Marília No certame antigo entrasse, Bem que a Paris não peitasse, A todas as três vencera.

Vai-te, Amor, em vão socorres Ao mais grato empenho meu: Para formar-lhe o retrato Não bastam tintas do Céu 11

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Lira VIII

Marília, de que te queixas?

De que te roubou Dirceu O sincero coração?

Não te deu também o seu?

E tu, Marília, primeiro Não lhe lançaste o grilhão?

Todos amam: só Marília Desta Lei da Natureza Queria ter isenção?

Em torno das castas pombas, Não rulam ternos pombinhos?

E rulam, Marília, em vão?

Não se afagam c’os biquinhos?

E a prova de mais ternura Não os arrasta a paixão?

Todos amam: só Marília Desta Lei da Natureza Queria ter isenção?

Já viste, minha Marília, Avezinhas, que não façam Os seus ninhos no verão?

Aquelas, com que se enlaçam, Não vão cantar-lhes defronte Do mole pouso, em que estão?

Todos amam: só Marília Desta Lei da Natureza Queria ter isenção?

Se os peixes, Marília, geram Nos bravos mares, e rios, Tudo efeitos de Amor são.

Amam os brutos impios, A serpente venenosa, A onça, o tigre, o leão.

Todos amam: só Marília Desta Lei da Natureza Queria ter isenção?

As grandes Deusas do Céu Sentem a seta tirana Da amorosa inclinação.

Diana, com ser Diana, Não se abrasa, não suspira Pelo amor de Endimião?

Todos amam: só Marília Desta Lei da Natureza 12

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Queria ter isenção?

Desiste, Marília bela, De uma queixa sustentada Só na altiva opinião.

Esta chama é inspirada Pelo Céu; pois nela assenta A nossa conservação.

Todos amam: só Marília Desta Lei da Natureza Não deve ter isenção.

Lira IX

Eu sou, gentil Marília, eu sou cativo; Porém não me venceu a mão armada De ferro, e de furor: Uma alma sobre todas elevada Não cede a outra força, que não seja A tenra mão de amor.

Arrastem pois os outros muito embora Cadeias nas bigornas trabalhadas Com pesados martelos: Eu tenho as minhas mão ao carro atadas Com duros ferros não, com fios d’ouro, Que são os teus cabelos.

Oculto nos teus meigos vivos olhos Cupido a tudo faz tirana guerra: Sacode a seta ardente; E sendo despedida cá da terra, As nuvens rompe, chega ao alto Empíreo: E chega ainda quente.

As abelhas nas asas suspendidas Tiram, Marília, os sucos saborosos Das orvalhadas flores: Pendentes dos teus beijos graciosos O mel não chupam, chupam ambrosias Nunca fartos Amores.

O Vento quando parte em largas fitas As folhas, que meneia com brandura; A fonte cristalina,

Que sobre as pedras cai de imensa altura, Não forma um som tão doce, como forma A tua voz divina.

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Em torno dos teus peitos, que palpitam, Exaltam mil suspiros desvelados Enxames de desejos;

Se encontram os teus olhos descuidados, Por mais que se atropelem, voam, chegam; E dão furtivos beijos.

O Cisne, quando corta o manso largo, Erguendo as brancas asas, e o pescoço; A Nau, que ao longe passa, Quando o vento lhe infuna o pano grosso, O teu garbo não tem, minha Marília, Não tem a tua graça.

Estima pois os mais a liberdade; Eu prezo o cativeiro: sim, nem chamo À mão de amor impia: Honro a virtude, e os teus dotes amo: Também o grande Aquiles veste a saia, Também Alcides fia.

Lira X

Se existe um peito,

Que isento viva

Da chama ativa,

Que acende Amor;

Ah! Não habite

Neste montado,

Fuja apressado

Do vil traidor.

Corra, que o ímpio

Aqui se esconde,

Não sei aonde;

Mas sei que o vi.

Traz novas setas,

Arco robusto;

Tremi de susto,

Em vão fugi.

Eu vou mostrar-vos,

Tristes mortais,

Quantos sinais

O impio tem.

Oh! Como pé justo

Que todo o humano

Um tal tirano

Conheça bem!

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No corpo ainda

Menino existe;

Mas quem resiste

Ao braço seu?

Ao negro Inferno

Levou a guerra;

Venceu a terra,

Venceu o Céu.

Jamais se cobrem

Seus membros belos;

E os seus cabelos

Que lindos são!

Vendados olhos,

Que tudo alcançam,

E jamais lançam

A seta em vão.

As suas faces

São cor de neve;

E a boca breve

Só risos tem.

Mas, ah! respira

Negros venenos,

Que nem ao menos,

Os olhos vêem.

Aljava grande

Dependurada,

Sempre atacada

De bons farpões.

Fere com estas

Agudas lanças

Pombinhas mansas,

Bravos leões.

Se a seta falta,

Tem outra pronta,

Que a dura ponta

Jamais torceu.

Ninguém resiste

Aos golpes dela:

Marília bela

Foi quem lha deu.

Ah! Não sustente

Dura peleja

O que deseja

Ser vencedor.

Fuja, e não olhe,

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Que só fugindo

De um rosto lindo

Se vence Amor.

Lira XI

Não toques, minha Musa, não, não toques Na sonorosa Lira,

Que às almas, como a minha, namoradas Doces canções inspira: Assopra no clarim, que apenas soa, Enche de assombro a terra!

Naquele, a cujo som cantou Homero, Cantou Virgílio a Guerra.

Busquemos, ó Musa,

Empresa maior;

Deixemos as ternas

Fadigas do Amor.

Eu já não vejo as graças, de que forma Cupido o seu tesouro; Vivos olhos, e faces cor-de-rosa, Com crespos fios de ouro: Meus olhos só vêem graças, e loureiros; Vêem carvalhos, e palmas; Vêem os ramos honrosos, que distinguem As vencedoras almas.

Busquemos, ó Musa,

Empresa maior;

Deixemos as ternas

Fadigas do Amor.

Cantemos o herói, que já no berço As serpes despedaça; Que fere os Cacos, que destrona as hidras; Mais os leões, que abraça.

Cantemos, se isto é pouco, a dura guerra Dos Titães, e Tifeus, Que arrancam as montanhas, e atrevidos Levam armas aos Céus.

Busquemos, ó Musa,

Empresa maior;

Deixemos as ternas

Fadigas do Amor.

Anima pois, ó Musa, o instrumento, 16

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Que a voz também levanto, Porém tu deste muito acima o ponto, Dirceu não sobe tanto: Abaixa, minha Musa, o tom, qu’ergueste; Eu já, eu já te sigo.

Mas, ah! vou a dizer Herói, e Guerra, E só MARÍLIA digo.

Deixemos, ó Musa,

Empresa maior;

Só posso seguir-te

Cantando de Amor.

Feres as cordas d’ouro? Ah! Sim, agora Meu canto já se afina: E a humana voz parece que ao som delas Se faz também divina.

O mesmo, que cercou de muro a Tebas, Não canta assim tão terno; Nem pode competir comigo aquele, Que desceu ao negro Inferno.

Deixemos, ó Musa,

Empresa maior;

Só posso seguir-te

Cantando de Amor.

Mal repito MARÍLIA, as doces aves Mostram sinais de espanto; Erguem os colos, voltam as cabeças, Param o ledo canto:

Move-se o tronco, o vento se suspende; Pasma o gado, e não come: Quanto podem meus versos! Quanto pode Só de Marília o nome!

Deixemos, ó Musa,

Empresa maior;

Só posso seguir-te

Cantando de Amor.

Lira XII

Topei um dia

Ao Deus vendado,

Que descuidado

Não tinha as setas

Na impia mão.

Mal o conheço,

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Me sobe logo

Ao rosto o fogo,

Que a raiva acende

No coração.

“Morre, tirano;

Morre, inimigo.”

Mal isto digo,

Raivoso o aperto

Nos braços meus.

Tanto que o moço

Sente apertar-se,

Para salvar-se

Também me aperta

Nos braços seus.

O leve corpo

Ao ar levanto;

Ah! e com quanto

Impulso o trago

Do ar ao chão!

Pôde suster-se

A vez primeira;

Mas à terceira

Nos pés, que alarga, Se firma em vão.

Mal o derrubo,

Ferro aguçado

No já cansado

Peito, que arqueja,

Mil golpes deu.

Suou seu rosto;

Tremeu gemendo;

E a cor perdendo,

Bateu as asas;

Enfim morreu.

Qual bravo Alcides,

Que a hirsuta pele

Vestiu daquele

Grenhoso bruto,

A quem matou;

Para que prove

A empresa honrada,

Co’a mão manchada

Recolho as setas,

Que me deixou.

Ouviu Marília

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Que Amor gritava;

E como estava

Vizinha ao sítio

Valer-lhe vem.

Mas quando chega

Espavorida,

Nem já de vida

O fero monstro

Indício tem.

Então, Marília,

Que o vê de perto

De pó coberto,

E todo envolto

No sangue seu,

As mãos aperta

No peito brando,

E aflita dando

Um ai, os olhos

Levanta ao Céu.

Chega-se a ele

Compadecida;

Lava a ferida

C’o prato amargo,

Que derramou.

Então o monstro

Dando um suspiro,

Fazendo um giro

Co’a baça vista,

Ressuscitou.

Respira a Deusa;

E vem o gosto

Fazer no rosto

O mesmo efeito,

Que fez a dor.

Que louca idéia

Foi, a que tive!

Enquanto vive

Marília bela,

Não morre Amor.

Lira XIII

Oh! quantos riscos,

Marília bela,

Não atropela

Quem cego arrasta

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Grilhões de Amor!

Um peito forte,

De acordo falto,

Zomba do assalto

Do vil traidor.

O amante de Hero

Da luz guiado,

C’o peito ousado

Na escura noite

Rompia o mar.

Se o Helesponto

Se encapelava,

Ah! não deixava

De lhe ir falar.

Do Cantor Trácio

A herocidade

Esta verdade,

Minha Marília,

Prova também.

Cheio de esforço

Vai ao Cocito

Buscar aflito,

Seu doce bem.

Que ação tão grande

Nunca intentada!

Ao pé da entrada

Já tudo assusta

O coração:

Pendentes rochas,

Campos adustos,

Nem ervas dão.

Na funda fralda

De calvo monte,

Corre Aqueronte,

Rio de ardente,

Mortal licor.

Tem o barqueiro

Testa enrugada,

Vista inflamada,

Que mete horror.

Que seguranças!

Que fechaduras!

As portas duras

Não são de lenhos;

De ferro são.

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Por três gargantas,

Quando alguém bate,

Raivoso late

O negro cão.

Dentro da cova

Soam lamentos;

Não mostra aos olhos A escassa luz!

Minos a pena

Manda se intime

Igual ao crime,

Que ali conduz.

Grande penedo

Este carrega;

E apenas chega

Do monte ao cume,

O faz rolar.

A pedra sempre

Ao vele desce,

Sem que ele cesse

De a ir buscar.

Nas limpas águas

Habita aquele:

Por cima dele

Verdejam ramos,

Que pomos dão.

Debalde a boca

Molhar pretende.

Debalde estende

Faminta mão.

Tem outro o peito

Despedaçado:

Monstro esfaimado

Jamais descansa

De lho roer.

A roxa carne,

Que o abutre come,

Não se consome,

Torna a crescer.

Mas bem que tudo

Pavor inspira,

Tocando a lira

Desce ao Averno

O bom Cantor.

Não se entorpece

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A língua, e braço;

Não treme o passo,

Não perde a cor.

Ah! também quanto

Dirceu obrara,

Se precisara

Marília bela

De esforço seu!

Rompera os mares

C’o peito terno,

Fora ao Inferno,

Subira ao Céu.

Aos dois amantes

De Trácia, e Abido

Não deu Cupido

Do que aos mais todos Maior valor.

Por seus vassalos

Forças reparte,

Como lhes parte

Os graus de Amor.

Lira XIV

Minha bela Marília, tudo passa; A sorte deste mundo é mal segura; Se vem depois dos males a ventura, Vem depois dos prazeres a desgraça.

Estão os mesmos Deuses Sujeitos ao poder impio Fado: Apolo já fugiu do Céu brilhante, Já foi Pastor de gado.

A devorante mão da negra Morte Acaba de roubar o bem, que temos; Até na triste campa não podemos Zombar do braço da inconstante sorte.

Qual fica no sepulcro, Que seus avós ergueram, descansado; Qual no campo, e lhe arranca os brancos ossos Ferro do torto arado.

Ah! enquanto os Destinos impiedosos Não voltam contra nós a face irada, Façamos, sim façamos, doce amada, Os nossos breves dias mais ditosos.

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Um coração, que frouxo A grata posse de seu bem difere, A si, Marília, a si próprio rouba, E a si próprio fere.

Ornemos nossas testas com as flores.

E façamos de feno um brando leito, Prendamo-nos, Marília, em laço estreito, Gozemos do prazer de sãos Amores.

Sobre as nossas cabeças, Sem que o possam deter, o tempo corre; E para nós o tempo, que se passa, Também, Marília, morre.

Com os anos, Marília, o gosto falta, E se entorpece o corpo já cansado; triste o velho cordeiro está deitado, e o leve filho sempre alegre salta.

A mesma formosura

É dote, que só goza a mocidade: Rugam-se as faces, o cabelo alveja, Mal chega a longa idade.

Que havemos de esperar, Marília bela?

Que vão passando os florescentes dias?

As glórias, que vêm tarde, já vêm frias; E pode enfim mudar-se a nossa estrela.

Ah! Não, minha Marília, Aproveite-se o tempo, antes que faça O estrago de roubar ao corpo as forças E ao semblante a graça.

Lira XV

A minha bela Marília Tem de seu um bom tesouro; Não é, doce Alceu, formado Do buscado

Metal louro.

É feito de uns alvos dentes, É feito de uns olhos belos, De umas faces graciosas, De crespos, finos cabelos; E de outras graças maiores, Que a natureza lhe deu: Bens, que valem sobre a terra E que têm valor no Céu.

Eu posso romper os montes, 23

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Dar às correntes espaçosos Nos caudosos

Turvos rios.

Posso emendar a ventura Ganhando astuto a riqueza; Mas, ah! caro Alceu, quem pode Ganhar uma só beleza Das belezas, que Marília No seu tesouro meteu?

Bens, que valem sobre a terra, E que têm valor no Céu.

Da sorte que vive o rico Entre o fausto alegremente, Vive o guardador do gado Apoucado,

Mas contente.

Beije pois torpe avarento As arcas de barras cheias: Eu não beijo os vis tesouros, Beijo as douradas cadeias, Beijo as setas, beijo as armas Com que o cego Amor venceu: Bens, que valem sobre a terra, E que têm valor no Céu.

Ama Apolo, e o fero Marte; Ama, Alceu, o mesmo Jove: Não é, não, a vã riqueza, Sim beleza,

Quem os move.

Posto ao lado de Marília Mais que mortal me contemplo: Deixo os bens, que aos homens cegam, Sigo dos Deuses o exemplo: Amo virtudes, e dotes; Amo enfim, prezado Alceu, Bens, que valem sobre a terra, E que têm valor no Céu.

Lira XVI

Eu, Glauceste, não duvido Ser a tua Eulina amada Pastora formosa,

Pastora engraçada,

Vejo a sua cor-de-rosa, Vejo o seu olhar divino, Vejo os seus purpúreos beiços, 24

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Vejo o peito cristalino; Nem há coisa, que assemelhe Ao crespo cabelo louro.

Ah! que a tua Eulina vale, Vale um imenso tesouro!

Ela vence muito, e muito À laranjeira copada, Estando de flores,

E de frutos ornada.

É, Glauceste, os teus Amores; E nem por outra Pastora, Que menos dotes tivera, Ou que menos bela fora, O meu Glauceste cansara As divinas cordas de ouro.

Ah! que a tua Eulina vale, Vale um imenso tesouro!

Sim, Eulina é uma Deusa; Mas anima a formosura De uma alma de fera; Ou inda mais dura.

Ah! quando Dirceu pondera Que o seu Glauceste suspira, Perde, perde o sofrimento, E qual enfermo delira!

Tenha embora brancas faces, Meigos olhos, fios de ouro, A tua Eulina não vale, Não vale imenso tesouro.

O fuzil, que imita a cobra, Também aos olhos é belo: Mas quando alumeia,

Tu tremes de vê-lo.

Que importa se mostra cheia De mil belezas a ingrata?

Não se julga formosura A formosura, que mata.

Evita, Glauceste, evita O teu estrago, e desdouro; A tua Eulina não vale, Não vale imenso tesouro.

A minha Marília quanto À natureza não deve!

Tem divino rosto,

E tem mãos de neve.

Se mostro na face o gosto, 25

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Ri-se Marília contente; Se canto, canta comigo, E apenas triste me sente, Limpa os olhos com as tranças De fino cabelo louro.

A minha Marília vale, Vale um imenso tesouro.

Lira XVII

Minha Marília,

Tu enfadada?

Que mão ousada

Perturbar pode

A paz sagrada

Do peito teu?

Porém que muito

Que irado esteja

O teu semblante!

Também troveja

O claro Céu.

Eu sei, Marília,

Que outra Pastora

A toda hora,

Em toda a parte

Cega namora

Ao teu Pastor.

Há sempre fumo

Aonde há fogo:

Assim, Marília,

Há zelos, logo

Que existe amor.

Olha, Marília,

Na fonte pura

A tua alvura,

A tua boca,

E a compostura

Das mais feições.

Quem tem teu rosto

Ah! não receia

Que terno amante

Solte a cadeia,

Quebre os grilhões.

Não anda Laura

Nestas campinas

Sem as boninas

26

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No seu cabelo,

Sem peles finas

No seu jubão.

Porém que importa?

O rico asseio

Não dá, Marília,

Ao rosto feio

A perfeição.

Quando apareces

Na madrugada,

Mal embrulhada

Na larga roupa,

E desgrenhada

Sem fita, ou flor;

Ah! que então brilha A natureza!

Estão se mostra

Tua beleza

Inda maior.

O Céu formoso,

Quando alumia

O Sol de dia,

Ou estrelado

Noa noite fria,

Parece bem.

Também tem graça

Quando amanhece;

Até, Marília,

Quando anoitece

Também a tem.

Que tens, Marília,

Que ela suspire!

Que ela delire!

Que corra os vales!

Que os montes gire

Louca de amor!

Ela é que sente

Esta desdita,

E na repulsa

Mais se acredita

O teu Pastor.

Quando há, Marília,

Alguma festa

Lá na floresta,

(Fala a verdade)

dança com esta

27

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o bom Dirceu?

E se ela o busca,

Vendo buscar-se

Não se levanta,

Não vai sentar-se

Ao lado teu?

Quando um por outro

Na rua passa,

Se ela diz graça,

Ou muda o gesto,

Esta negaça

Faz-lhe impressão?

Se está fronteira,

E brandamente

Lhe fita os olhos,

Não põe prudente

Os seus no chão?

Deixa o ciúme,

Que te desvela:

Marília bela,

Nunca receies

Dano daquela

Que igual não for.

Que mais desejas?

Tens lindo aspecto;

Dirceu se alenta

De puro afeto,

E pundonor.

Lira XVIII

Não vês aquele velho respeitável Que à muleta encostado Apenas mal se move, e mal se arrasta?

Oh! quanto estrago não lhe fez o tempo!

O tempo arrebatado,

Que o mesmo bronze gasta.

Enrugaram-se as faces, e perderam Seus olhos a viveza; Voltou-se o seu cabelo em branca neve: Já lhe treme a cabeça, a mão, o queixo, Não tem uma beleza

Das belezas, que teve.

Assim também serei, minha Marília, Daqui a poucos anos; Que o impio tempo para todos corre.

28

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Os dentes cairão, e os meus cabelos, Ah! sentirei os danos, Que evita só quem morre.

Mas sempre passarei uma velhice Muito menos penosa.

Não trarei a muleta carregada: Descansarei o já vergado corpo Na tua mão piedosa,

Na tua mão nevada.

Nas frias tardes, em que negra nuvem Os chuveiros não lance, Irei contigo ao prado florescente: Aqui me buscarás um sítio ameno; Onde os membros descanse, E o brando sol me aquente.

Apenas me sentar, então movendo Os olhos por aquela

Vistosa parte, que ficar fronteira; Apontando direi: “Ali falamos,

“Ali, ó minha bela,

“Te vi a vez primeira.”

Verterão os meus olhos duas fontes, Nascidas de alegria: Farão teus olhos ternos outro tanto: Então darei, Marília, frios beijos Na mão formosa, e pia, Que me limpar o pranto.

Assim irá, Marília, docemente Meu corpo suportando Do tempo desumano a dura guerra.

Contente morrerei, por ser Marília Quem sentida chorando Meus braços olhos cerra.

Lira XIX

Enquanto pasta alegre o manso gado, Minha bela Marília, nos sentemos À sombra deste cedro levantado.

Um pouco meditemos

Na regular beleza,

Que em tudo quanto vive, nos descobre A sábia natureza.

29

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Atende, como aquela vaca preta O novilhinho seu dos mais separa, E o lambe, enquanto chupa a lisa teta.

Atende mais, ó cara, Como a ruiva cadela

Suporta que lhe morda o filho o corpo, E salte em cima dela.

Repara, como cheia de ternura Entre as asas ao filho essa ave aquenta, Como aquela esgravata a terra dura, E os seus assim sustenta; Como se encoleriza,

E salta sem receio a todo o vulto, Que junto deles pisa.

Que gosto não terá a esposa amante, Quando der ao filhinho o peito brando, E refletir então no seu semblante!

Quando, Marília, quando Disser consigo: “É esta

“De teu querido pai a mesma barba,

“A mesma boca, e testa.”

Que gosto não terá a mãe, que toca, Quando o tem nos seus braços, c’o dedinho Nas faces graciosas, e na boca Do inocente filhinho!

Quando, Marília bela, O tenro infante já com risos mudos Começa a conhecê-la!

Que prazer não terão os pais ao verem Com as mães um dos filhos abraçados; Jogar outros luta, outros correrem Nos cordeiros montados!

Que estado de ventura!

Que até naquilo, que de peso serve, Inspira Amor, doçura.

Lira XX

Era uma frondosa

Roseira se abria

Um lindo botão.

Marília formosa

O pé lhe torcia

Com a branca mão.

30

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Nas folhas viçosas

A abelha enraivada

O corpo escondeu.

Tocou-lhe Marília,

Na mão descuidada

A fera mordeu.

Apenas lhe morde,

Marília gritando,

C’o dedo fugiu.

Amor, que no bosque

Estava brincando,

Aos ais acudiu.

Mal viu a rotura,

E o sangue espargido, Que a Deusa mostrou; Risonho beijando

O dedo ofendido,

Assim lhe falou:

“Se tu por não tão pouco

“O pranto desatas,

“Ah! dá-me atenção;

“E como daquele,

“Que feres, e matas,

“Não tens compaixão?”

Lira XXI

Não sei, Marília, que tenho, Depois que vi o teu rosto; Pois quanto não é Marília, Já não posso ver com gosto.

Noutra idade me alegrava, Até quando conversava Com o mais rude vaqueiro: Hoje, ó Bela, me aborrece Inda o trato lisonjeiro Do mais discreto pastor Que efeitos são os que sinto?

Serão efeitos de Amor?

Saio da minha cabana Sem reparar no que faço: Busco o sítio aonde moras, Suspendo defronte o passo.

Fito os olhos na janela, Aonde, Marília bela, 31

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Tu chegas ao fim do dia; Se alguém passa, e te saúda, Bem que seja cortesia, Se acende na face a cor.

Que efeitos são os que sinto?

Serão os efeitos de Amor?

Se estou, Marília, contigo, Não tenho um leve cuidado; Nem me lembra se são horas De levar à fonte o gado.

Se vivo de ti distante, Ao minuto, ao breve instante Finge um dia o meu desgosto: Jamais, Pastora, te vejo Que em seu semblante composto Não veja graça maior.

Que efeitos são os que sinto?

Serão os efeitos de Amor?

Ando já com o juízo, Marília, tão perturbado, Que no mesmo aberto sulco Meto de novo o arado.

Aqui no centeio pego, Noutra parte em vão o sego: Se alguém comigo conversa, Ou não respondo, ou respondo Noutra coisa tão diversa, Que nexo não tem menor.

Que efeitos são os que sinto?

Serão os efeitos de Amor?

Se geme o bufo agoureiro, Só Marília me desvela, Enche-se o peito de mágoa, E não sei a causa dela.

Mal durmo, Marília, sonho Que fero leão medonho Te devora nos meus braços: Gela-se o sangue nas veias, E solto do sono os laços À força da imensa dor.

Ah! que os efeitos, que sinto, Só são efeitos de Amor.

Lira XXII

Muito embora, Marília, muito embora 32

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Outra beleza, que não seja a tua, Com avermelha roda, a seis puxada, Faça tremer a rua.

As paredes da sala, aonde habita, Adorne a seda, e o tremó dourado; Pendam largas cortinas, penda o lustre Do teto apainelado.

Tu não habitarás palácios grande, Nem andarás no coches voadores; Porém terás um Vate, que te preze, Que cante os teus louvores.

O tempo não respeita a formosura; E da pálida morte a mão tirana Arrasa os edifícios dos Augustos, E arrasa a vil choupana.

Que belezas, Marília, floresceram, De quem nem sequer temos a memória!

Só podem conservar um nome eterno Os versos, ou a história.

Se não houvesse Tasso, nem Petrarca, Por mais que qualquer delas fosse linda, Já não sabia o mundo, se existiram Nem Laura, nem Clorinda.

É melhor, minha Bela, ser lembrada Por quantos hão de vir sábios humanos, Que ter urcos, ter coches, e tesouros, Que morrem com os anos.

Lira XXIII

Num sítio ameno

Cheio de rosas,

De brancos lírios,

Murtas viçosas;

Dos seus amores

Na companhia

Dirceu passava

Alegre o dia.

Em tom de graça

Ao terno amante

Manda Marília

33

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Que toque, e cante.

Pega na lira,

Sem que a tempere,

A voz levanta,

E as cordas fere.

C’os doces pontos

A mão atina,

E a voz iguala

À voz divina.

Ela, que teve

De rir-se a idéia,

Nem move os olhos

De assombro cheia:

Então cupido

Aparecendo,

À Bela fala

Assim dizendo:

“Do teu amado

“A lira fias,

“Só porque dele

“Zombando rias?

“Quando num peito

“Assento faço,

“Do peito subo

“À língua, e braço.

“Nem creias que outro

“Estilo tome,

“Sendo eu o mestre,

“A ação teu nome.”

Lira XXIV

Encheu, minha Marília, o grande Jove De imensos animais de toda a espécie As terras, mais os ares, O grande espaço dos salobros, rios, Dos negros, fundos mares, Para sua defesa,

A todos deu as armas, que convinha A sábia natureza.

Deu as asas aos pássaros ligeiros, 34

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Deu ao peixe escamoso as barbatanas; Deu veneno à serpente, Ao membrudo elefante a enorme tromba, E ao javali o dente.

Coube ao leão a garra; Com leve pé saltando o cervo foge; E o bravo touro marra.

Ao homem deu as armas do discurso, Que valem muito mais que as outras armas; Deu-lhe dedos ligeiros, Que podem converter em seu serviço Os ferros, e os madeiros; Que tecem fortes laços, E forjam raios, com que aos brutos cortam Os vôos, mais os passos.

Às tímidas donzelas pertenceram Outras armas, que têm dobrada força, Deu-lhes a Natureza

Além do entendimento, além dos braços As armas da beleza.

Só ela ao Céu se atreve; Só ela mudar pode o gelo em fogo, Mudar o fogo em neve.

Eu vejo, eu vejo ser a formosura, Quem arrancou da mão de Coriolano A cortadora espada.

Vejo que foi de Helena o lindo rosto, Quem pôs em campo armada Toda a força da Grécia.

E quem tirou o cetro aos reis de Roma?

Só foi, só foi Lucrécia.

Se podem lindos rostos, mal suspiram, O braço desarmar do mesmo Aquiles; Se estes rostos irados Podem soprar o fogo da discórdia Em povos aliados;

És árbitra da terra: Tu podes dar, Marília, a todo o mundo A paz, e a dura guerra.

Lira XXV

O cego Cupido um dia Com os seus Gênios falava Do modo, que lhe restava 35

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De cativar a Dirceu.

Depois de larga disputa, Um dos Gênios mais sagazes Este conselho lhe deu: As setas mais aguçadas, Como se em rocha batessem, Dão no peito seu, e descem Todas quebradas ao chão.

Só as graças de Marília Podem vencer um tão duro, Tão isento coração.

A fortuna desta empresa Consiste em armar-se o laço, Sem que sinta ser o braço, Que lho prepara, de Amor: Que ele vive como as aves, Que já deixaram as penas No visco do caçador.

Na força deste conselho O raivoso Deus sossega, E à tropa a honra entrega De o fazer executar.

Todos pretendem ganhá-la; Batem as asas ligeiros, E vão as armas buscar.

Os primeiros se ocultaram Da Deusa nos olhos belos: Qual se enlaçou nos cabelos, Qual às faces se prendeu.

Um amorinho cansado

Caiu dos lábios ao seio, E nos peitos se escondeu.

Outro Gênio mais astuto Este novo ardil alcança, Muda-se numa criança De divino parecer.

Esconde as asas, e a venda; Esconde as setas, e quanto Pode dá-lo a conhecer.

Ela que vê um menino Todo de graças coberto, Tão risonho, e tão esperto Ali sozinho brincar, A ele endireita os passos; 36

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Finge Amor ter medo, e a Deusa Mais que empenha em lhe pegar.

Ela corria chamando; Ele fugia, e chorava: Assim foram onde estava O descuidado Pastor.

Este, mal viu a beleza, E o gentil menino, entende A malícia do traidor.

Põe as mãos sobre os ouvidos, Cerra os olhos, e constante Não quer ver o seu semblante, Não o quer ouvir falar.

Qual Ulisses noutra idade Para iludir as Sereias Mandou tambores tocar.

Cupido, que a empresa via, Julga o intento frustrado, E de raiva transportado O corpo na chão lançou.

Traçou a língua nos dentes; Meteu as unhas no rosto, E os cabelos arrancou.

O Gênio, que se escondia Entre os peitos da Pastora, Ergueu a cabeça fora, E o sucesso conheceu.

Deixa o sossego em que estava, E vai ligeiro meter-se No peito do bom Dirceu.

Apenas do brando peito Lhe tocou a neve fria, Com o calor, que trazia, Lhe abrasou o coração.

Dá o Pastor um suspiro, Abre os seus olhos, e solta Do apertado ouvido a mão.

Logo que viram os Gênios Ao triste Pastor disposto Para ver o lindo rosto, Para as palavras ouvir, Cada um as armas toma, Cada um com elas busca Seu terno peito ferir.

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Com os cabelos da Deusa Lhe forma um Cupido laços, Que lhe seguram os braços, Como se fossem grilhões.

O Pastor já não resiste; Antes beija satisfeito As suas doces prisões.

Lira XXVI

O destro Cupido um dia Extraiu mimosas cores De frescos lírios, e rosas, De jasmins, e de outras flores.

Com as mais delgadas penas Usa de uma, e de outra tinta, E nos ângulos do cobre A quatro belezas pinta.

Por fazer pensar a todos No seu liso centro escreve Um letreiro, que pergunta:

“Este espaço a quem se deve?”

Vênus, que viu a pintura, E leu a letra engenhosa, Pôs por baixo “Eu dele cedo;

“Dê-se a Marília formosa.”

Lira XXVII

Alexandre, Marília, qual o rio, Que engrossando no inverno tudo arrasa, Na frente das coortes Cerca, vence, abrasa As cidades mais fortes.

Foi na glória das armas o primeiro; Morreu na flor dos anos, e já tinha Vencido o mundo inteiro.

Mas este bom soldado, cujo nome Não há poder algum, que não abata, Foi, Marília, somente Um ditoso pirata,

Um salteador valente.

Se não tem uma fama baixa, e escura, Foi por se pôr ao lado da injustiça 38

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A insolente ventura.

O grande César, cujo nome voa, À sua mesma Pátria a fé quebranta; Na mão a espada toma, Oprime-lhe a garganta, Dá Senhores a Roma.

Consegue ser herói por um delito; Se acaso não vencesse, então seria Um vil traidor proscrito.

O ser herói, Marília, não consiste Em queimar os Impérios: move a guerra, Espalha o sangue humano, E despovoa a terra

Também o mau tirano.

Consiste o ser herói em viver justo: E tanto pode ser herói pobre, Como o maior Augusto.

Eu é que sou herói, Marília bela, Segundo da virtude a honrosa estrada: Ganhei, ganhei um trono, Ah! não manchei a espada, Não roubei ao dono.

Ergui-o no teu peito, e nos teus braços: E valem muito mais que o mundo inteiro Uns tão ditosos laços.

Aos bárbaros, injustos vencedores Atormentam remorsos, e cuidados; Nem descansam seguros Nos palácios cercados De tropa, e de altos muros.

E a quantos nos não mostra a sábia história A quem mudou o Fado em negro opróbrio A mal ganhada glória.

Eu vivo, minha Bela, sim, eu vivo Nos braços do descanso, e mais do gosto: Quando estou acordado Contemplo no teu rosto De graças adornado:

Se durmo, logo sonho, e ali te vejo.

Ah! nem desperto, nem dormindo sobe A mais o meu desejo.

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Lira XXVIII

Cupido tirando

Dos ombros a aljava

Num campo de flores

Contente brincava.

E o corpo tenrinho

Depois, enfadado,

Incauto reclina

Na relva do prado.

Marília formosa,

Que ao Deus conhecia, Oculta espreitava

Quanto ele fazia.

Mal julga que dorme

Se chega contente,

As armas lhe furta,

E o Deus a não sente.

Os Faunos, mal viram As armas roubadas,

Saíram das grutas

Soltando risadas.

Acorda Cupido,

E a causa sabendo,

A quantos o insultam Responde, dizendo:

“Temíeis as setas

“Nas minhas mãos cruas!

“Vereis o que podem

“Agora nas suas.”

Lira XXIX

O tirano Amor risonho Me aparece e me convida Para que seu jugo aceite; E quer que eu passe em deleite O resto da triste vida.

“O sonoro Anacreonte (Astuto o moço dizia)

“Já perto da morte estava,

“Inda de amores cantava; 40

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“Por isso alegre vivia.

“Aos negros, duros pesares

“Não resiste um peito fraco

“Se o amor o não fortalece:

“O mesmo Jove carece

“De Cupido, e mais de Baco.”

Eu lhe respondo: “Perjuro,

“Nada creio do que dizes;

“Porque já te fui sujeito,

“Inda conservo no peito

“Estas frescas cicatrizes.

“Se o mundo conhece males,

“Tu os maiores fizeste,

“Sim, tu a Tróia queimaste,

“Tu a Cartago abrasaste,

“E tu a Antônio perdeste.”

Amor, vendo que da oferta Algum apreço não faço, Me diz afoito que trate De ir com ele a combate Peito a peito, braço a braço.

Vou buscar as minhas armas; Cinjo primeiro que tudo O brilhante arnês, e à pressa Ponho um elmo na cabeça, Tomo a lança, e o grosso escudo.

Mal no campo me apresento, Marília (oh Céus!) me aparece: Logo que os olhos me fita, O meu coração palpita, A minha mão desfalece.

Então me diz o tirano:

“Confessa, louco, o teu erro;

“Contra as armas da beleza

“Não vale a externa defesa

“Dessa armadura de ferro.”

Lira XXX

Junto a uma clara fonte A mãe de Amor s assentou, Encostou na mão o rosto, 41

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No leve sono pegou.

Cupido, que a viu de longe, Contente ao lugar correu; Cuidando que era Marília Na face um beijo lhe deu.

Acorda Vênus irada:

Amor a conhece; e então Da ousadia, que teve, Assim lhe pede o perdão:

“Foi fácil, ó Mãe formosa,

“Foi fácil o engano meu;

“Que o semblante de Marília

“É todo o semblante teu.”

Lira XXXI

Minha Marília,

Se tens beleza,

Da Natureza

É um favor.

Mas se aos vindouros Teu nome passa,

É só por graça

Do Deus de amor,

Que tanto inflama

A mente, o peito

Do teu Pastor.

Em vão se viram

Perlas mimosas,

Jasmins, e rosas

No rosto teu.

Em vão terias

Essas estrelas,

E as tranças belas,

Que o Céu te deu;

Se em doce versos

Não as cantasse

O bom Dirceu.

O voraz tempo

Ligeiro corre:

Com ele morre

A perfeição.

Essa, que o Egito

Sábia modera,

42

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De Marco impera

No coração;

Mas já Otávio

Não sente a força

Do seu grilhão.

Ah! vem, ó Bela,

E o teu querido,

Ao Deus Cupido

Louvores dar;

Pois faz que todos

Com igual sorte

Do tempo, e morte

Possam zombar:

Tu por formosa,

E ele, Marília,

Por te cantar.

Mas ai! Marília,

Que de um amante,

Por mais que cante,

Glória não vem!

Amor se pinta

Menino, e cego:

No doce emprego

Do caro bem

Não vê defeitos,

E aumenta quantas

Belezas tem.

Nenhum dos Vates,

Em teu conceito,

Nutriu no peito

Néscia paixão?

Todas aquelas,

Que vês cantadas,

Foram dotadas

De perfeição?

Foram queridas;

Porém formosas

Talvez que não.

Porém que importa

Não valha nada

Seres cantada

Do teu Dirceu?

Tu tens, Marília,

Cantor celeste;

O meu Glauceste

A voz ergueu;

43

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Irá teu nome

Aos fins da terra,

E ao mesmo Céu.

Quando nas asas

Do leve vento

Ao firmamento

Teu nome for:

Mostrando Jove

Graça extremosa,

Mudando a Esposa

De inveja a cor;

De todos há de,

Voltando o rosto,

Sorrir-se Amor.

Ah! não se manche

Teu brando peito

Do vil defeito

Da ingratidão:

Os versos beija,

Gentil Pastora,

A pena adora,

Respeita a mão,

A mão discreta,

Que te segura

A duração.

Lira XXXII

Num noite sossegado

Velhos papéis revolvia, E por ver de que tratavam Um por um a todos lia.

Eram cópias emendadas, De quantos versos melhores Eu compus na tenra idade A meus diversos amores.

Aqui leio justas queixas Contra a ventura formadas, Leio excessos mal aceitos, Doces promessas quebradas.

Vendo sem-razões tamanhas Eu exclamo transportado:

“Que finezas tão mal-feitas!

“Que tempo tão mal passado!”

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Junto pois num grande monte Os soltos papéis, e logo, Porque relíquias não fiquem, Os intento pôr no fogo.

Então vejo que o Deus cego Com semblante carregado Assim me fala, e crimina O meu intento acertado:

“Queres queimar esses versos?

“Dize, Pastor atrevido,

“Essas Liras não te foram

“Inspiradas por Cupido?

“Achas que de tais amores

“Não deve existir memória?

“Sepultando esses triunfos,

“Não roubas a minha glória?”

Disse Amor; e mal se cala, Nos seus ombros a mão pondo, Com um semblante sereno Assim à queixa respondo:

“Depois, Amor, de me dares

“A minha Marília bela,

“Devo guardar umas liras,

“Que não são em honra dela?

“E que importa, Amor, que importa,

“Que a estes papéis destrua;

“Se é tua esta mão, que os rasga,

“Se a chama, que os queima, é tua?”

Apenas Amor me escuta Manda que os lance nas brasas; E ergue a chama c’o vento, Que formou batendo as asas.

Lira XXXIII

Pega na lira sonora, Pega, meu caro Glauceste; E ferindo as cordas de ouro, Mostra aos rústicos Pastores A formosura celeste

De Marília, meus amores.

Ah! pinta, pinta

45

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A minha Bela!

E em nada a cópia

Se afaste dela.

Que concurso, meu Glauceste, Que concurso tão ditoso!

Tu és digno de cantares O seu semblante divino; E o teu canto sonoroso Também do seu rosto é digno.

Ah! pinta, pinta

A minha Bela!

E em nada a cópia

Se afaste dela.

Para pintares ao vivo As suas faces mimosas, A discreta natureza

Que providência não teve!

Criou no jardim as rosas, Fez o lírio, e fez a neve.

Ah! pinta, pinta

A minha Bela!

E em nada a cópia

Se afaste dela.

A pintar as negras tranças Peço que mais te desveles, Pinta chusmas de amorinhos Pelos seus fios trepando; Uns tecendo cordas deles, Outros com eles brincando.

Ah! pinta, pinta

A minha Bela!

E em nada a cópia

Se afaste dela.

Para pintares, Glauceste, Os seus beiços graciosos, Entre as flores tens o cravo, Entre as pedras a granada, E para os olhos formosos, A estrela da madrugada.

Ah! pinta, pinta

A minha Bela!

E em nada a cópia

Se afaste dela.

Mal retratares do rosto Quanto julgares preciso, 46

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Não dês a cópia por feita; Passa o outros dotes, passa, Pinta da vista, e do riso A modéstia, mais a graça.

Ah! pinta, pinta

A minha Bela!

E em nada a cópia

Se afaste dela.

Os seus pés, quando passeiam, Pisando ternos amores; E as mesmas plantas calcadas Brotando viçosas flores.

Ah! pinta, pinta

A minha Bela!

E em nada a cópia

Se afaste dela.

Pinta mais, prezado amigo, Um terno amante beijando Suas douradas cadeias; E em doce pranto desfeito, Ao monte, que temo no peito.

Ah! pinta, pinta

A minha Bela!

E em nada a cópia

Se afaste dela.

Nem suspendas o teu canto, Inda que, Pastor, se veja Que a minha boca suspira, Que se banha em pranto o rosto; Que os outros choram de inveja, E chora Dirceu de gosto.

Ah! pinta, pinta

A minha Bela!

E em nada a cópia

Se afaste dela.

CAPÍTULO II

Lira I

Já não cinjo de louro a minha testa; Nem sonoras canções o Deus me inspira: Ah! que nem me resta Uma já quebrada,

Mal sonora Lira!

47

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Mas neste mesmo estado, em que me vejo, Pede, Marília, Amor que vá cantar-te: Cumpro o seu desejo; E ao que resta supra A paixão, e a arte.

A fumaça, Marília, da candeia, Que a molhada parede ou suja, ou pinta, Bem que tosca, e feia, Agora me pode

Ministrar a tinta.

Aos mais preparos o discurso apronta: Ele me diz, que faça do pé de uma Má laranja ponta,

E dele me sirva

Em lugar de pluma.

Perder as úteis horas não, não devo; Verás, Marília, uma idéia nova: Sim, eu já te escrevo, Do que esta alma dita Quando amor aprova.

Quem vive no regaço da ventura Nada obra em te adorar, que assombro faça: Mostra mais ternura

Quem te ensina, e morre Nas mãos da desgraça.

Nesta cruel masmorra tenebrosa Ainda vendo estou teus olhos belos, A testa formosa,

Os dentes nevados,

Os negros cabelos.

Vejo, Marília, sim, e vejo ainda A chusma dos Cupidos, que pendentes Dessa boca linda,

Nos ares espalham

Suspiros ardentes.

Se alguém me perguntar onde eu te vejo, Responderei: No peito, que uns Amores De casto desejo

Aqui te pintaram,

E são bons Pintores.

Mal meus olhos te riam, ah! nessa hora Teu retrato fizeram, e tão forte, 48

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Que entendo, que agora Só pode apagá-lo

O pulso da Morte.

Isto escrevia, quando, ó Céus, que vejo!

Descubro a ler-me os versos o Deus louro: Ah! dá-lhes um beijo, E diz-me que valem

Mais que letras de ouro.

Lira II

Esprema a vil calúnia muito embora Enter as mãos denegridas, e insolentes, Os venenos das plantas, E das bravas serpentes.

Chovam raios e raios, no meu rosto Não hás de ver, Marília, o medo escrito: O medo perturbador,

Que infunde o vil delito.

Podem muito, conheço, podem muito, As fúrias infernais, que Pluto move; Mas pode mais que todas Um dedo só de Jove.

Este Deus converteu em flor mimosa, A quem seu nome dera, a Narciso; Fez de muitos os Astros, Qu’inda no Céu diviso.

Ele pode livrar-me das injúrias Do néscio, do atrevido ingrato povo; Em nova flor mudar-me, Mudar-me em Astro novo.

Porém se os justos Céus, por fins ocultos, Em tão tirano mal me não socorrem; Verás então, que os sábios, Bem como vivem, morrem.

Eu tenho um coração maior que o mundo!

Tu, formosa Marília, bem o sabes: Um coração..., e basta, Onde tu mesma cabes.

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Lira III

Sucede, Marília bela, À medonha noite o dia; A estação chuvosa e fria À quente seca estação.

Muda-se a sorte dos tempos; Só a minha sorte não?

Os troncos nas Primaveras Brotam em flores viçosos, Nos Invernos escabrosos Largam as folhas no chão.

Muda-se a sorte dos troncos; Só a minha sorte não?

Aos brutos, Marília, cortam Armadas redes os passos, Rompem depois os seus laços, Fogem da dura prisão.

Muda-se a sorte dos brutos; Só a minha sorte não?

Nenhum dos homens conserva Alegre sempre o seu rosto; Depois das penas vem gosto, Depois de gosto aflição.

Muda-se a sorte dos homens; Só a minha sorte não?

Aos altos Deuses moveram Soberbos Gigantes guerra; No mais tempos o Céu, e a Terra Lhes tributa adoração.

Muda-se a sorte dos Deuses; Só a minha sorte não?

Há de, Marília, mudar-se Do destino a inclemência; Tenho por mim a inocência, Tenho por mim a razão.

Muda-se a sorte de tudo; Só a minha sorte não?

O tempo, ó Bela, que gasta Os troncos, pedras, e o cobre, O véu rompe, com que encobre À verdade a vil traição.

Muda-se a sorte de tudo; Só a minha sorte não?

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Qual eu sou, verá o mundo; Mais me dará do que eu tinha, Tornarei a ver-te minha; Que feliz consolação!

Não há de tudo mudar-se; Só a minha sorte não.

Lira IV

Já, já me vai, Marília, branquejando Louro cabelo, que circula a testa; Este mesmo, que alveja, vai caindo E pouco já me resta.

As faces vão perdendo as vivas cores, E vão-se sobre os ossos enrugando, Vai fugindo a viveza dos meus olhos; Tudo se vai mudando.

Se quero levantar-me, as costas vergam; As forças dos meus membros já se gastam, Vou a dar ela casa uns curtos passos, Pesam-me os pés, e arrastam.

Se algum dia me vires destas sorte, Vê que assim me não pôs a mão dos anos: Os trabalhos, Marília, os sentimentos, Fazem os mesmos danos.

Mal te vir, me dará em poucos dias A minha mocidade o doce gosto; Verás burnir-se a pele, o corpo encher-se, Voltar a cor ao rosto.

No calmoso Verão as plantas secam; Na Primavera, que os mortais encanta, Apenas cai do Céu o fresco orvalho, Verdeja logo a planta.

A doença deforma a quem padece; Mas logo que a doença faz seu termo, Torna, Marília, a ser quem era dantes, O definhado enfermo.

Supõe-me qual doente, ou mal a planta, No meio da desgraça, que me altera; Eu também te suponho qual saúde, Ou qual a Primavera.

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Se dão esses teus meigos, vivos olhos Aos mesmos Astros luz, e vida às flores, Que efeitos não farão, em quem por eles Sempre morreu de amores?

Lira V

Os mares, minha bela, não se movem, O brando Norte assopra, nem diviso Uma nuvem sequer na Esfera toda; O destro Nauta aqui não é preciso; Do seu governo a roda.

Mas ah! que o sul carrega, o mar se empola, Rasga-se a vela, o mastaréu se parte!

Qualquer varão prudente aqui já teme; Não tenho a necessária força, e arte.

Corra o sábio Piloto, corra, e venha Reger o duro leme.