Marília de Dirceu por Tomás Antônio Gonzaga - Versão HTML

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Como sucede à nau no mar, sucede Aos homens na ventura, e na desgraça; Basta ao feliz não ter total demência; Mas quem de venturoso a triste passa, Deve entregar o leme do discurso Nas mãos da sã prudência.

Todo o Céu se cobriu, os raios chovem: E esta alma, em tanta pena consternada, Nem sabe aonde possa achar conforto.

Ah! não, não tardes, vem, Marília amada, Toma o leme da nau, mareia o pano, Vai-a salvar no porto.

Mas ouço já de Amor as sábias vozes: Ele me diz que sofra, senão morro, E perco então, se morro, uns doces laços; Não quero já, Marília, mais socorro; Oh! ditoso sofrer, que lucrar pode A glória dos teus braços!

Lira VI

De que te queixas,

Língua importuna?

De que a Fortuna

Roubar-te queira

O que te deu?

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Este foi sempre

O gênio seu.

Levou, Marília,

A impia sorte

Catões à morte;

Nem sepultura

Lhes concedeu.

Este foi sempre

O gênio seu.

A outros muitos,

Que vis nasceram,

Nem mereceram,

A grandes tronos

A impia ergueu.

Este foi sempre

O gênio seu.

Espalha a Cega

Sobre os humanos

Os bens, e os danos, E a quem se devam

Nunca escolheu.

Este foi sempre

O gênio seu.

A quanto é justo

Jamais se dobra;

Nem igual obra

C’os mesmos Deuses

Do claro Céu.

Este foi sempre

O gênio seu.

Sobe, ao Céu, Vênus

Num carro ufano;

E cai Vulcano

Da pura esfera,

Em que nasceu.

Este foi sempre

O gênio seu.

Mas não me rouba,

Bem que se mude,

Honra, e virtude:

Que o mais é dela,

Mas isto é meu.

Este foi sempre

O gênio seu.

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Lira VII

Meu prezado Glauceste, Se fazes o conceito, Que, bem que réu, abrigo A cândida virtude no meu peito; Se julgas, digo, que mereço ainda Da tua mão socorro,

Ah! vem dar-mo agora, Agora sim que morro.

Não quero, que montado No Pégaso fogoso,

Venhas com dura lança Ao monstro infame traspassar raivoso.

Deixa que viva a pérfida calúnia, E forje o meu tormento: Com menos, meu Glauceste, Com menos me contento.

Toma a lira dourada, E toca um pouco nela: Levanta a voz celeste Em parte que te escute a minha Bela; Enche todo o contorno de alegria; Não sofras, que o desgosto Afogue em pranto amargo O seu divino rosto.

Eu sei, eu sei, Glauceste, Que um bom cantor havia, Que os brutos amansava; Que os troncos, e os penedos atraía.

De outro destro Cantor também afirma A sábia antigüidade, Que as muralhas erguera De uma grande Cidade.

Orfeu as cordas fere; O som delgado, e terno Ao Rei Plutão abranda, E o deixa, que penetre o fundo Averno.

Ah! tu a nenhum cedes, meu Glauceste, Na lira, e mais no canto; Podes fazer prodígios, Obrar ou mais, ou tanto.

Levanta pois as vozes: Que mais, que mais esperas?

Consola um peito aflito; 54

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Que é menos ainda, que domar as feras.

Com isto me darás no meu tormento Um doce lenitivo;

Que enquanto a Bela vive, Também, Glauceste, vivo.

E com voz importuna

Me diz que mova o passo; Que ente no grande Templo, em que se encerra Quanto o destino manda, Que ela obre sobre a terra.

Que coisas portentosas nele encontro!

Eu vejo a pobre fundação de Roma; Vejo-a queimar Cartago; Vejo que as gentes doma; E vejo o seu estrago.

Lá floresce o poder do Assírio Povo; Aqui os Medos crescem, E os perde um braço novo.

Então me diz a Deusa: “E que pretendes?

“Todas estas medalhas ver agora?

“Ah! não, não sejas louco!

“Espaço de anos fora

“Para isso ainda pouco;

“Deixa estranhos sucessos, vem comigo;

“Verás quanto inda deve

“Acontecer contigo.”

Levou-me aonde estava a minha história, Que toda me explicou com modo, e arte.

“Tirei-te libras de ouro”, Me diz, “e quero dar-te

“Todo aquele tesouro.

“Não suspira por bens um peito nobre?

Severo lhe respondo,

“Vivo afeito a ser pobre.”

Aqui me enruga a Deusa irada a testa, E fica sem falar um breve espaço.

“Alegra, alegra o rosto”, Prossegue, “ali te faço

“Restituir o posto.”

Respondo em ar de mofa, e tom sereno:

“Conheço-te, Fortuna,

“Posso morrer pequeno.”

“Aqui te dou, me diz, a tua amada.”

Então me banho todo de alegria.

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“Cuidei, me torna a cega,

“Que essa alma não queria

“Nem esta mesma entrega.”

“É esse o bem, respondo, que me move,

“Mas este bem é santo,

“Vem só da mão de Jove.”

Queria mais falar; eu insofrido Desta maneira rompo os seus acentos:

“Basta, Fortuna, basta,

“Estes breves momentos

“Lá noutras coisas gasta;

“Da minha sorte nada mais contemplo.”

E, chamando Marília, Suspiro, e deixo o Templo.

Lira IX

A estas horas

Eu procurava

Os meus Amores;

Tinham-me inveja

Os mais Pastores.

A porta abria,

Inda esfregando

Os olhos belos,

Sem flor, nem fita,

Nos seus cabelos.

Ah! que assim mesmo

Sem compostura,

É mais formosa,

Que a estrela d’alva, Que a fresca rosa.

Mal eu a via,

Um ar mais leve,

(Que doce efeito!)

Já respirava

Meu terno peito.

Do cerco apenas

Soltava o gado,

Eu lhe amimava

Aquela ovelha

Que mais amava.

Dava-lhe sempre

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No rio, e fonte,

No prado, e selva,

Água mais clara,

Mais branda relva.

No colo a punha;

Então brincando

A mim a unia;

Mil coisas ternas

Aqui dizia.

Marília vendo,

Que eu só com ela

É que falava,

Ria-se a furto,

E disfarçava.

Desta maneira

Nos castos peitos,

De dia em dia

A nossa chama

Mais se acendia.

Ah! quantas vezes,

No chão sentado,

Eu lhes lavrava

As finas rocas,

Em que fiava!

Da mesma sorte

Que à sua amada,

Que está no ninho,

Fronteiro canta

O passarinho;

Na quente sesta,

Dela defronte,

Eu me entretinha

Movendo o ferro

Da sanfoninha.

Ela por dar-me

De ouvir o gosto,

Mais se chegava;

Então vaidoso

Assim cantava:

“Não há Pastora,

“Que chegar possa

“À minha Bela,

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“Nem quem me iguale

“Também na estrela;

“Se amor concede

“Que eu me recline

“No branco peito,

“Eu não invejo

“De Jove o feito;

“Ornam seu peito

“As sãs virtudes,

“Que nos namoram;

“No seu semblante

“As Graças moram.”

Assim vivia...

Hoje em suspiros

O canto mudo;

Assim, Marília,

Se acaba tudo.

Lira X

Arde o velho barril, arde a cabeça, Em honra de João na larga rua; O crédulo mortal agora indaga Qual seja a sorte sua?

Eu não tenho alcachofra, que à luz chegue, E nela orvalhe o Céu de madrugada, Para ver se rebentam novas folhas Aonde foi queimada.

Também não tenho um ovo, que despeje Dentro dum copo d’água, e possa nela Fingir palácios grandes, altas torres, E uma nau à vela.

Mas, ah! em bem me lembre; eu tenho ouvido Que a boca um bochecho d’água tome, E atrás de qualquer porta atento esteja, Até ouvir um nome.

Que o nome, que primeiro ouvir, é esse O nome, que há de Ter a minha amada; Pode verdade ser; se for mentira, Também não custa nada.

Vou tudo executar, e de repente 58

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Ouvi dizer o nome de Filena: Despejo logo a boca: ah! não sei como Não morro ali de pena!

Aparece Cupido: então soltando Em ar de zombaria uma risada,

“E que tal, me pergunta, esteve a peça?

“Não foi bem pregada?

“Eu já te disse, que Marília é tua:

“Tu fazes do meu dito tanta conta,

“Que vais acreditar o que te ensina

“Velha mulher já tonta.”

Humilde lhe respondo: “Quem debaixo

“Do açoite da Fortuna aflito geme,

“Nas mesmas coisas, que só são brinquedos

“Se agouram males, e teme.”

Lira XI

Se acaso não estou no fundo Averno, Padece, ó minha Bela, sim padece O peito amante, e terno, As aflições tiranas, que aos Precitos Arbitra Radamanto em justa pena Dos bárbaros delitos.

As Fúrias infernais, rangendo os dentes, Com a mão escarnada não me aplicam As raivosas serpentes; Mas cercam-me outros monstros mais irados: Mordem-se sem cessar as bravas serpes De mil, e mil cuidados.

Eu não gasto, Marília, a vida toda Em lançar o penedo da montanha; Ou em mover a roda;

Mas tenho ainda mais cruel tormento: Por coisas que me afligem, roda, e gira Cansado pensamento.

Com retorcidas unhas agarrado Às tépidas entranhas não me come Um abutre esfaimado; Mas sinto de outro monstro a crueldade: Devora o coração, que mal palpita, O abutre da saudade.

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Não vejo os pomos, nem as águas vejo, Que de mim se retiram quando busco Fartar o meu desejo; Mas quer, Marília, o meu destino ingrato Que lograr-se não possa, estando vendo Nesta alma o teu retrato.

Estou no Inferno, estou, Marília bela; E numa coisa só é mais humana A minha dura estrela: Uns não podem mover do Inferno os passos; Eu pretendo voar, e voar cedo À glória dos teus braços.

Lira XII

Ah! Marília, que tormento Não tens de sentir saudosa!

Não podem ver os teus olhos A campina deleitosa, Nem a tua mesma aldeia, Que tiranos não proponham À inda inquieta idéia Uma imagem de aflição.

Mandarás aos surdos Deuses Novos suspiros em vão.

Quando levares, Marília, Teu ledo rebanho ao prado, Tu dirás: “Aqui trazia

“Dirceu também o seu gado.”

Verás os sítios ditosos Onde, Marília, te dava Doces beijos amorosos Nos dedos da branca mão.

Mandarás aos surdos Deuses Novos suspiros em vão.

Quando à janela saíres, Sem quereres, descuidada, A minha pobre morada.

Tu dirás então contigo:

“Ali Dirceu esperava

“Para me levar consigo; E ali sofreu a prisão.”

Mandarás aos surdos Deuses Novos suspiros em vão.

Quando vires igualmente 60

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Do caro Glauceste a choça, Onde alegre se juntavam Os poucos da escolha nossa, Pondo os olhos na varanda Tu dirás de mágoa cheia:

“Todo o congresso ali anda,

“Só o meu amado não.”

Mandarás aos surdos Deuses Novos suspiros em vão.

Quando passar pela rua O meu companheiro honrado, Sem que me vejas com ele Caminhar emparelhado, Tu dirás: “Não foi tirana

“Somente comigo a sorte;

“Também cortou desumana

“A mais fiel união.”

Mandarás aos surdos Deuses Novos suspiros em vão.

Numa masmorra metido, Eu não vejo imagens destas, Imagens, que são por certo A quem adora funestas.

Mas se existem separadas Dos inchados, roxos olhos, Estão, que é mais, retratadas No fundo do coração.

Também mando aos surdos Deuses Tristes suspiros em vão.

Lira XIII

Vês, Marília, um cordeiro De flores enramado,

Como alegre corre

A ser sacrificado?

O Povo para Templo já concorre; A Pira sacrossanta já se acende; O Ministro o fere, ele bala, e morre.

Vês agora o novilho, A quem segura o laço, No chão as mãos especa, Nem quer mover um passo.

Não conhece que sai de um mau terreno; Que o forte pulso, que a seguir o arrasta, O conduz a viver num campo ameno.

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Ignora o bruto como

Lhe dispomos a sorte; Um vai forçado à vida, Vai outro alegre à morte: Nós temos, minha bela, igual demência; Não sabemos os fins, com que nos move A sábia, oculta Mão da Providência.

De Jacó ao bom filho Os maus matar quiseram.

De conselho o muraram.

Como escravo o venderam.

José não corre a ser um servo aflito; Vai subindo os degraus, por onde chega A ser um quase Deus no grande Egito.

Quem sabe o Destino

Hoje, ó Bela, me prende.

Só porque nisto de outros Mais danos me defende?

Pode ainda raiar um claro dia.

Mas quer raie, quer não, ao Céu adoro; E beijo a santa mão, que assim me guia.

Lira XIV

Alma digna de mil Avós Augustos!

Tu sentes, tu soluças, Ao ver cair os justos; Honras as santas leis da Humanidade: E os teus exemplos deve Gravar com letras de ouro no seu Templo A cândida Amizade.

Não é, não é de Herói uma alma forte, Que vê com rosto enxuto No seu igual a morte.

Não é também de Herói um peito duro, Que a sua glória firma Em que lhe não resiste ao ferro, e fogo, Nem legião, nem muro.

Oh! quanto ousado Chefe me namora, Quando vê a cabeça

Do bom Pompeu, e chora!

É grande para mim, quem move os passos, E de Dario aos filhos, Que como escravos seus tratar pudera, Recebe nos seus braços.

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Se alcança Enéias, capitão piedoso, Entre os Heróis do Mundo Um nome glorioso,

Não é, porque levanta uma cidade; É sim, porque nos ombros Salvou do incêndio ao Pai, a quem destina A mão de longa idade.

Ah! se ao meu contrário entre as chamas vira, Eu mesmo, sim, da morte Aos ombros o remira.

Inda por ele muito mais obrara.

E se nada servisse,

Fizera então, Amigo, o que fizeste; Gemera, e suspirara.

Oh! quanto são duráveis as cadeias De uma amizade, quando Se dão iguais idéias!

Se apesar dos estorvos se sustinha Nossa união sincera, Foi por ser a minha alma igual à tua, E a tu igual à minha.

Se o caro Amigo te merece tanto, Lá lhe fica a sua alma, Limpa-lhe o terno pranto.

De quem eu falo, és tu, Marília bela.

Ah! sim, honrado Amigo, Se enxugar não puderes os seus olhos, Pranteia então com ela.

Lira XV

Eu, Marília, não fui nenhum Vaqueiro, Fui honrado Pastor da tua aldeia; Vestia finas lãs, e tinha sempre A minha choça do preciso cheia.

Tiraram-me o casal, e o manso gado, Nem tenho, a que me encoste, um só cajado.

Para ter que te dar, é que eu queria De mor rebanho ainda ser o dono; Prezava o teu semblante, os teus cabelos Ainda muito mais que um grande Trono.

Agora que te oferte já não vejo Além de um puro amor, de um são desejo.

Se o rio levantado me causava, 63

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Levando a sementeira, prejuízo, Eu alegre ficava apenas via Na tua breve boca um ar de riso.

Tudo agora perdi; nem tenho o gosto De ver-te aos menos compassivo o rosto.

Propunha-me dormir no teu regaço As quentes horas da comprida sesta, Escrever teus louvores nos olmeiros, Toucar-te de papoulas na floresta.

Julgou o justo Céu, que não convinha Que a tanto grau subisse a glória minha.

Ah! minha Bela, se a Fortuna volta, Se o bem, que já perdi, alcanço, e provo; Por essas brancas mãos, por essas faces Te juro renascer um homem novo; Romper a nuvem, que os meus olhos cerra, Amar no Céu a Jove, e a ti na terra.

Fiadas comprarei as ovelhinhas, Que pagarei dos poucos do meu ganho; E dentro em pouco tempo nos veremos Senhores outra vez de um bom rebanho.

Para o contágio lhe não dar, sobeja Que as afague Marília, ou só que as veja.

Senão tivermos lãs, e peles finas, Podem mui bem cobrir as carnes nossas As peles dos cordeiros mal curtidas, E os panos feitos com as lãs mais grossas.

Mas ao menos será o teu vestido Por mãos de amor, por minhas mão cosido.

Nós iremos pescar na quente sesta Com canas, e com cestos os peixinhos: Nós iremos caçar nas manhãs frias Com a vara envisgada os passarinhos.

Para nos divertir faremos quanto Reputa o varão sábio, honesto e santo.

Nas noites de serão nos sentaremos C’os filhos, se os tivermos, à fogueira; Entre as falsas histórias, que contares, Lhes contarás a minha verdadeira.

Pasmados te ouvirão; eu entretanto Ainda o rosto banharei de pranto.

Quando passarmos juntos pela rua, Nos mostrarão c’o dedo os mais Pastores; 64

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Dizendo uns para os outros: “Olha os nosso

“Exemplos da desgraça, e são amores”.

Contentes viveremos desta sorte, Até que chegue a um dos dois a morte.

Lira XVI

Vejo, Marília,

Que o nédio gado

Anda disperso

No monte, e prado;

Que assim sucede

Ao desgraçado,

Que a perder chega

O seu Pastor.

Mas inda sofro

A viva dor.

Também conheço,

Que os Pegureiros,

Que apascentavam

Os meus cordeiros,

Dão suspiros,

E verdadeiros,

Porque perderam

Um pai no amor.

Mas inda sofro

A viva dor.

Eu mais alcanço,

Que a minha herdade, Estando eu preso,

Sofrer não há de

Nem a charrua,

E nem a grade;

Que a mão lhe falta

Do Lavrador.

Mas inda sofro

A viva dor.

Mas quando sobe

À minha idéia,

Que tu ficaste

Lá nessa aldeia,

De mil cuidados

E mágoa cheia,

Das paixões minhas

Não sou senhor.

Eu já não sofro

65

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A viva dor.

A quanto chega

A pena forte!

Pesa-me a vida,

Desejo a morte,

A Jove acuso,

Maldigo a sorte,

Trato a Cupido

Por um traidor.

Eu já não sofro

A viva dor.

Mas este excesso

Perdão merece,

E dele Jove

Compadece:

Que Jove, ó Bela,

Mui bem conhece,

Aonde chega

Paixão de amor.

Eu já não sofro

A viva dor.

Lira XVII

Dirceu te deixa, ó Bela, De padecer cansado;

Frio suor já banha

Seu rosto descorado; O sangue já não gira pela veia, Seus pulsos já não batem, E a clara luz dos olhos se baceia: A lágrima sentida já lhe corre; Já pára a convulsão, suspira, e morre.

Seu espírito chega

Onde se pune o erro: Grossos portões de ferro.

Aos severos Juízes se apresenta, E com sentidas vozes Toda a sua tragédia representa; Enche-se de ternura, e novo espanto O mesmo inexorável Radamanto.

Abre um pasmado a boca, E a pedra não despede; Outro já não se lembra Da fome, e mais da sede; 66

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Descansa o curvo bico, e a garra impia Negro abutre esfaimado; Nem na roca medonha a Parca fia.

Até as mesmas Fúrias inclementes Deixam cair das unhas as serpentes.

Já votam os Juízes;

E o Rei Plutão lhe ordena Deixe o sítio, em que moram Almas dignas de pena.

Já sai do escuro Reino, e da memória Lhe passa tudo quanto Ou pode dar-lhe mágoa, ou dar-lhe glória Só, bem que o gosto as turvas águas tome, Inda, Marília, inda diz teu nome.

Entra já nos Elísios, Campinas venturosas, Que mansos rios cortam, Que cobrem sempre as rosas.

Escuta o canto das sonoras aves, E bebe as águas puras, Que o mel, e do que o leite mais suaves,

“Aqui, diz ele, espero a minha Bela;

“Aqui contente viverei com ela.”

“Aqui...” Porém aonde Me leva a dor ativa?

É ilusão desta alma; Jove inda quer que eu viva.

Eu devo sim gozar teus doces laços; E em paga de meus males, Devo morrer, Marília, nos teus braços.

Então eu passarei ao Reino amigo, E tu irás depois lá ter comigo.

Lira XVIII

Não molho, Marília,

De pranto a masmorra Que o terno Cupido

Não voe, não corra,

A i-lo apanhar.

Estende-o nas asas, Sobre ele suspira,

Por fim se retira,

E vai-lo levar.

Se o moço não mente, 67

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Os tristes gemidos,

Os ais lastimosos

Os guarda unidos,

Marília, c’os teus;

As lágrimas nossas

No seio amontoa,

Forma asas, e voa,

Vai pô-las nos Céus.

A Deusa formosa,

Que amava aos Troianos, Livrá-los querendo

De riscos, e danos,

A Jove buscou.

As águas, que o rosto Da Deusa banharam,

A Jove abrandaram,

Assim os salvou.

Confia-te, ó Bela,

Confia-te em Jove,

Ainda se abranda,

Ainda se move

Com ânsias de amor.

O pranto de Vênus,

Que obrou no pai tanto, Não tem que o teu pranto Apreço maior.

Lira XIX

Nesta triste masmorra, De um semivivo corpo sepultura, Inda, Marília, adoro A tua formosura.

Amor na minha idéia te retrata; Busca extremoso, que eu assim resista À dor imensa, que me cerca, e mata.

Quando em eu mal pondero, Então mais vivamente te diviso: Vejo o teu rosto, e escuto A tua voz, e riso.

Movo ligeiro para o vulto os passos; Eu beijo a tíbia luz em vez de face; E aperto sobre o peito em vão os braços Conheço a ilusão minha; A violência da mágoa não suporto; 68

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Foge-me a vista, e caio, Não sei se vivo, ou morto.

Enternece-se Amor de estrago tanto; Reclina-me no peito, e com mão terna Me limpa os olhos do salgado pranto.

Depois que represento Por lago espaço a imagem de um defunto, Movo os membros, suspiro, E onde estou pergunto.

Conheço então que amor me tem consigo; Ergo a cabeça, que inda mal sustento, E com doente voz assim lhe digo:

“Se queres ser piedoso,

“Procura o sítio em que Marília mora,

“Pinta-lhe o meu estrago,

“E vê, Amor, se chora.

“Se lágrimas verter, se a dor a arrasta,

“Uma delas me traze sobre as penas,

“E para alívio meu só isto basta.”

Lira XX

Se me viras com teus olhos Nesta masmorra metido, De mil idéias funestas, E cuidados combatido, Qual seria, ó minha Bela, Qual seria o teu pesar?

À força da dor cedera, E nem estaria vivo,

Se o menino Deus vendado, Extremoso, e compassivo, Com o nome de Marília Não me viesse animar.

Deixo a cama ao romper d’alva; O meio-dia tem dado, E o cabelo ainda flutua Pelas costas desgrenhado.

Não tenho valor, não tenho, Nem par de mim cuidar.

Diz-me Cupido: “E Marília

“Não estima este cabelo?

“Se o deixas perder de todo,

“Não se há de enfadar ao vê-lo?”

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Suspiro, pego no pente, Vou logo o cabelo atar.

Vem um tabuleiro entrando De vários manjares cheio; Põe-se na mesa a toalha, E eu pensativo passeio: De todo o comer esfria, Sem nele poder tocar.

“Eu entendo que a matar-te,

“Diz amor, te tens proposto;

“Fazes bem: terá Marília

“Desgosto sobre desgosto.”

Qual enfermo c’o remédio, Me aflijo, mas vou jantar.

Chegam as horas, Marília, Em que o Sol já se tem posto; Vem-me à memória que nelas Vi à janela teu rosto: Reclino na mão a face, E entro de novo a chorar.

Diz-me Cupido: “Já basta,

“Já basta, Dirceu, de pranto;

“Em obséquio de Marília

“Vai tecer teu doce canto.”

Pendem as fontes dos olhos, Mas em sempre vou cantar.

Vem o Forçado acender-me A velha, suja candeia; Fica, Marília, a masmorra Inda mais triste, e mais feia.

Nem mais canto, nem mais posso Uma só palavra dar.

Diz-me Cupido: “São horas

“De escrever-se o que está feito.”

Do azeite, e da fumaça Uma nova tinta ajeito; Tomo o pau, que pena finge, Vou as Liras copiar.

Sem que chegue o leve sono, Canta o Galo a vez terceira; Eu digo a Amor, que fico Sem deitar-me a noite inteira; Faço mimos, e promessas 70

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Para ele me acompanhar.

Ele diz, que em dormir cuide, Que hei de ver Marília em sonho, Não respondo uma palavra, A dura cama componho, Apago a triste candeia, E vou-me logo deitar.

Como pode a tais cuidados Resistir, ó minha Bela, Quem não tem de Amor a graça; Se eu, que vivo à sombra dela, Inda vivo desta sorte, Sempre triste a suspirar?

Lira XXI

Que diversas que são, Marília, as horas, Que passo na masmorra imunda, e feia, Dessas horas felizes, já passadas Na tua pátria aldeia!

Então eu me ajuntava com Glauceste; E à sombra de alto Cedro na campina Eu versos te compunha, e ele os compunha À sua cara Eulina.

Cada qual o seu canto aos Astros leva; De exceder um ao outro qualquer trata; O eco agora diz: “Marília terna”; E logo: “Eulina ingrata”.

Deixam os mesmos Sátiros as grutas.

Um para nós ligeiro move os passos; Ouve-nos de mais perto, e faz flauta C’os pés em mil pedaços.

“Dirceu, clama um Pastor, ah! bem merece

“Da cândida Marília a formosura.

“E aonde, clama o outro, quer Eulina

“Achar maior ventura?”

Nenhum Pastor cuidava do rebanho, Enquanto em nós durava esta porfia.

E ela, ó minha Amada, só findava Depois de acabar-se o dia.

À noite te escrevia na cabana 71

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Os versos, que de tarde havia feito; Mal tos dava, e os lia, os guardavas No casto e branco peito.

Beijando os dedos dessa mão formosa, Banhados com as lágrimas do gosto, Jurava não cantar mais outras graças, Que as graças do teu rosto.

Ainda não quebrei o juramento, Eu agora, Marília, não as canto; Mas inda vale mais que os doces versos A voz do triste pranto.

Lira XXII

Por morto, Marília,

Aqui me reputo:

Mil vezes escuto

O som do arrastado,

E duro grilhão.

Mas, ah! que não reme, Não treme de susto

O meu coração.

A chave lá soa

No porta segura;

Abre-se a escura,

Infame masmorra

Da minha prisão.

Mas, ah! que não treme, Não treme de susto

O meu coração.

Já o Torres se assenta; Carrega-me o rosto;

Do crime suposto

Com mil artifícios

Indaga a razão.

Mas, ah! que não treme, Não treme de susto

O meu coração.

Eu vejo, Marília,

A mil inocentes,

Nas cruzes pendentes Por falsos delitos,

Que os homens lhes dão.

Mas, ah! que não treme, 72

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Não treme de susto

O meu coração.

Se penso que posso

Perder o gozar-te,

E a glória de dar-te Abraços honestos,

E beijos na mão.

Marília, já treme,

Já treme de susto

O meu coração.

Repara, Marília,

O quanto é mais forte Ainda que a morte,

Num peito esforçado, De amor a paixão.

Marília, já treme,

Já treme de susto

O meu coração.

Lira XXIII

Não praguejes, Marília, não praguejes A justiceira mão, que lança os ferros; Não traz debalde a vingadora espada; Deve punir os erros.

Virtudes de Juiz, virtudes de homem As mãos se deram, e em seu peito moram.

Manda prender ao Réu austera a boca, Porém seus olhos choram.

Se à inocência denigre a vil calúnia, Que culpa aquele tem, que aplica a pena?

Não é o Julgador, é o processo, E a lei, quem nos condena.

Só no Averno os Juízes não recebem Acusação, nem prova de outro humano; Aqui todos confessam suas culpas, Não pode haver engano.

Eu vejo as Fúrias afligindo aos tristes: Uma o fogo chega, outra as serpes move; Todos maldizem sim a sua estrela, Nenhum acusa a Jove.

Eu também inda adoro ao grande Chefe, 73

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Bem que a prisão me dá, que eu não mereço.

Qual eu sou, minha Bela, não me trata, Trata-me qual pareço.

Quem suspira, Marília, quando pune Ao vassalo, que julga delinqüente, Que gosto não terá, podendo dar-lhe Às honras de inocente?

Tu vences, Barbacena, aos mesmos Titos Nas sãs virtudes, que no peito abrigas: Não honras tão-somente a quem premeias, Honras a quem castigas.

Lira XXIV

Eu vou, Marília, vou brigar co’as feras!

Uma soltaram, eu lhe sinto os passos; Aqui, aqui a espero

Nestes despidos braços.

É um malhado tigre: a mim já corre, Ao peito o aperto, estalam-lhe as costelas, Desfalece, cai, urra, treme, e morre.

Vem agora um Leão: sacode a grenha, Com faminta paixão a mim se lança; Venha embora; que o pulso Ainda não se cansa.

Oprimo-lhe a garganta, a língua estira, O corpo lhe fraqueia, os olhos incham, Açoita o chão convulso, arqueja, e expira.

Mas que vejo, Marília! Tu te assustas?

Entendes que os destinos inumanos Expõem a minha vida

No circo dos Romanos?

Com ursos, e com onças eu não luto: Luto c’o bravo monstro, que me acusa, Que os tigres, e leões mais fero e bruto.

Embora contra mim raivoso esgrima Da vil calúnia a cortadora espada; Uma alma, qual eu tenho, Não se receia a nada.

Eu hei de, sim, punir-lhe a insolência, Pisar-lhe o negro colo, abrir-lhe o peito Co’as armas invencíveis da inocência.

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Ah! quando imaginar, que vingativo Mando que desça ao Tártaro profundo, Hei de com mão honrada Erguer-lhe o corpo imundo.

Eu então lhe direi: “Infame, indigno,

“Obras como costuma o vil humano;

“Faço, o que faz um coração divino.”

Lira XXV

Minha Marília,

O passarinho,

A quem roubaram

Ovos, e ninho,

Mil vezes pousa

No seu raminho;

Piando finge

Que anda a chorar.

Mas logo voa

Pela espessura,

Nem mais procura

Este lugar.

Se acaso a vaca

Perde a vitela,

Também nos mostra

Que se desvela;

O pasto deixa,

Muge por ela,

Até na estrada

A vem buscar.

Em poucos dias,

Ao que parece,

Dela se esquece,

E vai pastar.

O voraz Tempo,

Que o ferro come,

Que aos mesmos Reinos Devora o nome;

Também Marília,

Também consome

Dentro do peito

Qualquer pesar.

Ah! só não pode

Ao meu tormento

Por um momento

Alívio dar.

Também, ó Bela,

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Não há quem viva

Instantes breves

Na chama ativa;

Derrete ao bronze;

Sendo excessiva,

Ao mesmo seixo

Faz estalar.

Mas do amianto

A febre dura

Na chama atura

Sem se queimar.

Também, Marília,

Não há quem negue,

Que bem que o fogo

Nos óleos pegue,

Que bem que em línguas, Às nuvens chegue,

À força d’água

Se há de apagar.

Se a negra pedra

Nós acendemos,

Com água a vemos

Mais s’inflamar.

O meu discurso,

Marília, é reto:

A pena iguala

Ao meu afeto.

O amor, que nutro,

Ao teu aspecto,

E ao teu semblante,

É singular.

Ah! nem o tempo,

Nem inda a morte

A dor tão forte

Pode acabar.

Lira XXVI

Aquele, a quem fez cego a natureza, C’o bordão palpa, e aos que vêm pergunta; Ainda se despenha muitas vezes, E dois remédios junta!

De ser cega a Fortuna eu não me queixo; Sim me queixo de que má cega seja: Cega, que nem pergunta, nem apalpa, É porque errar deseja.

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A quem não tem virtudes, nem talentos, Ela, Marília, faz de um Cetro dono: Cria num pobre berço uma alma digna De se sentar num Trono.

A quem gastar não sabe, nem se anima, Entrega as grossas chaves de um tesouro; E lança na miséria a quem conhece Para que serve o ouro.

A quem fere, a quem rouba, a infame deixa Que atrás do vício em liberdade corra; Eu amo as leis do Império, ela me oprime Nesta vil masmorra.

Mas ah! minha Marília, que esta queixa Co’a sólida razão se não coaduna; Como me queixo da Fortuna tanto, Se sei não há Fortuna?

Os Fados, os Destinos, essa Deusa, Que os Sábios fingem, que uma roda move, É só a couta mão da Providência, A sábia mão de Jove.

Não é que somos cegos, que não vemos A que fins nos conduz por estes modos; Por torcidas estradas, ruins veredas Caminha ao bem de todos.

Alegre-se o perverso com as ditas; C’o seu merecimento o virtuoso; Parecer desgraçado, ó minha Bela, É muito mais honroso.

Lira XVII

A minha amada

É mais formosa,

Que branco lírio,

Dobrada rosa,

Que o cinamomo,

Quando matiza

Co’a folha a flor.

Vênus não chega