Max e os Felinos por Moacyr Scliar - Versão HTML

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Coleção L&PM Pocket, vol. 234

Este livro foi publicado pela L&PM Editores, em formato 14x21, em 1981.

Primeira edição na Coleção L&PM POCKET: junho de 2001 Esta reimpressão:

março de 2009

Capa: Ivan Pinheiro Machado sobre ilustração de Edgar Vasques Revisão: Renato Deitos e Ruiz Faillace Produção: L&PM Editores

ISBN 978-85-254-1048-1

S4l9m Scliar, Moacyr 1937-

Max e os felinos / Moacyr Scliar. Porto Alegre: L&PM, 2009.

128 p. ; 18 cm - /Coleção L&PM Pocket)

1. Novelas brasileiras. I. Título. II. Série.

(:DD S69..932 CDU 869.0(81)-32

Catalogação elaborada por Izabel A. Merlo, CRB 10/329

© Moacyr Scliar, 2001

Iodos os direitos desta edição reservados a L&PM Editores Rua Comendador Coruja

314, loja 9 - Floresta - 90.220-180 Porto Alegre - RS - Brasil / Fone: 51.3225.5777 -

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Impresso no Brasil

Verão de 2009

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO - Moacyr Scliar I 11

DE TRÂNSITOS E DE SOBREVIVÊNCIAS - Zilá Bernd I 23

MAX E OS FELINOS / 39

O tigre sobre o armário / 41 O

jaguar no escaler / 65 A onça no

morro / 95

SOBRE O AUTOR / 122

Medo, eu? O tigre não tem medo de

ninguém... O tigre invisível. A minha alma.

Francisco Macias Ngueme Ditador deposto

da Guiné Equatorial

INTRODUÇÃO

Moacyr Scliar

O Destino ainda bate à porta, claro, mas nesta época

de comunicações instantâneas prefere o telefone. Na tarde

de 30 de outubro de 2002, voltando para casa cansado de

uma viagem, recebi uma ligação. Era uma jornalista do

jornal O Globo, dando-me uma notícia que, a princípio, não

entendi bem: parece que um escritor tinha ganho, na Europa,

um prêmio importante com um livro baseado em um texto

meu.

Minha primeira reação foi de estranheza: um escritor, e

do chamado Primeiro Mundo, copiando um autor brasileiro?

Copiando a mim? Ela se ofereceu para me dar mais detalhes,

o que foi feito em telefonemas seguintes, e assim aos poucos

fui mergulhando no que se revelaria, nos dias seguintes, um

verdadeiro torvelinho, uma experiência pela qual eu nunca

havia passado.

Sim, um escritor canadense chamado Yann Martel

havia recebido, na Inglaterra, o prestigioso prêmio Booker,

no valor de 55 mil libras esterlinas, conferido anualmente a

autores do Commonwealth britânico ou da República da

Irlanda (entre outros: Ian McEwan, Michael Ondaatje,

Kingsley Amis, J.M.Coetzee, Salman Rushdie, íris

Murdoch). Sim, ele dizia que havia se baseado em um livro

meu, Max e os felinos, publicado no Brasil em 1981, pela

L&PM (Porto Alegre), e traduzido poucos anos depois nos

Estados Unidos como Max and the Cats (New York,

Ballantine Books, 1990) e na França como Max et les Chats

(Paris, Presses de la Renaissance, 1991). E uma pequena

novela que escrevi com grande prazer - lembro-me de um

fim de semana na serra gaúcha em que matraqueava

animado a máquina de escrever, em todos os minutos em

que não estava cuidando de meu filho, ainda pequeno.

Minha primeira reação não foi de contrariedade. Ao

contrário, de alguma forma senti-me envaidecido por ter

alguém se entusiasmado pela idéia tanto quanto eu próprio

me entusiasmara. Mas havia, na notícia, um componente

desagradável e estranho, tão estranho quanto desagradável.

Yann Martel não tinha, segundo suas declarações, lido a

novela. Tomara conhecimento dela através de uma resenha

do escritor John Updike para o New York Times, resenha

desfavorável, segundo ele.

Esta afirmativa me perturbou. Max and the Cats não

chegou a ser um best-seller, mas os artigos sobre o livro, que

me haviam sido enviados pela editora, eram favoráveis —

inclusive o do New York Times, assinado por Herbert

Mitgang. Teria Updike escrito uma outra resenha - para o

mesmo jornal? Se era esse o caso, por que eu não a

recebera? Será que os editores só mandavam resenhas

favoráveis?

A afirmativa seguia-se um comentário de Martel. Uma

pena, dizia ele, que uma idéia boa tivesse sido estragada por

um escritor menor. Mas, em seguida, levantava outra

hipótese: e se eu não fosse um escritor menor? E se Updike

tivesse se enganado? De qualquer maneira a idéia principal

do livro serviu-lhe de ponto de partida para sua obra The Life

of Pi. E qual é essa idéia?

O Max Schmidt de meu livro é um jovem alemão que

está fugindo do nazismo e que embarca para o Brasil. O

navio em que viaja, um velho cargueiro, transporta também

animais de um zoológico. Há um naufrágio, criminoso, mas

Max salva-se em um escaler. E de repente sobe a bordo um

sobrevivente inesperado e ameaçador: um jaguar. Começa

então a segunda parte da novela, que tem como título O

jaguar no escaler.

Esta, a idéia que motivou Martel. O seu personagem,

Piscine Molitor Patel, Pi, é um menino hindu cujo pai é

dono de um zoológico. A família emigra para o Canadá,

levando os animais a bordo. Há, na segunda parte do livro,

um naufrágio (que depois será considerado criminoso). Pi

salva-se. No mesmo barco estão um tigre de Bengala, um

orangotango e uma zebra. O tigre liquida os três e Pi fica à

deriva com o felino por mais de duzentos dias.

O texto de Martel é diferente do texto de Max e os

felinos. Mas o leitmotiv é, sim, o mesmo. E aí surge o

embaraçoso termo: plágio.

Embaraçoso não para mim, devo dizer logo. Na

verdade, e como disse antes, o fato de Martel ter usado a

idéia não chegava a me incomodar. Incomodava-me a

suposta resenha e também a maneira pela qual tomei

conhecimento do livro. De fato, não fosse o prêmio, eu

talvez nem ficasse sabendo da existência da obra. No lugar

de Martel eu procuraria avisar o autor. Aliás, foi o que fiz,

em outra circunstância. Meu livro A mulher que escreveu a

Bíblia teve como ponto de partida uma hipótese levantada

pelo famoso scholar norte-americano Harold Bloom segundo

a qual uma parte do Antigo Testamento poderia ter sido

escrita por uma mulher, à época do rei Salomão. Tratava-se,

contudo, de um trabalho teórico. Mesmo assim, coloquei o

trecho de Bloom como epígrafe do livro - que enviei a ele

(nunca respondeu - nem sei se recebeu -, mas eu cumpri

minha obrigação). Martel agiu de maneira diferente. No

prefácio, em que agradece a muitas pessoas, atribui a

"fagulha da vida" ("the spark of life") que o motivou a mim.

Mas não entra em detalhes, não fala em Max e os felinos.

Nada se cria, tudo se copia, é um dito freqüente nos

meios acadêmicos. Escrevendo a respeito do incidente

(prefiro este termo), Luis Fernando Veríssimo observou que

Shakespeare baseou numerosas obras em trabalhos de

contemporâneos menores. Em realidade, não há escritor que

não seja influenciado por outros - Bloom, a propósito, fala

da "angústia da influência". Quando comecei a rabiscar

meus primeiros textos, copiava descaradamente. Em

redações escolares, transcrevi várias frases do Cazuza, de

Viriato Corrêa, um livro que foi lido por várias gerações de

crianças brasileiras. Mas isto, no começo. É um sinal de

maturidade procurarmos andar com nossas próprias pernas.

E também é um sinal de maturidade reconhecer, de forma

explícita, a utilização do material de outros. Em trabalhos

científicos isto é feito mediante citação bibliográfica. A

transcrição também não pode ser extensa.

Essas coisas são levadas cada vez mais a sério, apesar

de a noção de propriedade intelectual ser relativamente nova

na história da humanidade. Tomemos, por exemplo, os

trabalhos de Hipócrates, considerado o pai da medicina, e

que viveu no século V a.C. E difícil saber o que é realmente

obra dele e o que foi escrito por seus discípulos. O nome

Hipócrates era uma grife, uma gratuita franchising. Era

livremente usado porque à época não havia direitos autorais.

Em matéria de texto, isso surgiu com a indústria editorial,

portanto em plena modernidade. Shakespeare ainda vivia

uma fase de transição.

Uma idéia é uma propriedade intelectual. Isto não

significa que não possa ser partilhada. Pode, sim, e

freqüentemente o é. Um editor propõe um mesmo tema para

vários autores e faz uma antologia com os trabalhos: nada

demais nisso. Um autor não está prejudicando o outro. E

diferente da situação de um produto qualquer que é copiado,

o que implica prejuízo para o produtor original - a pirataria.

Usar a mesma idéia literária não chega a ser pirataria.

Depois de muito debate sobre o assunto o livro de

Martel finalmente chegou-me às mãos. Li-o sem rancor; ao

contrário, achei o texto bem escrito e original.

Ali estava a minha idéia, mas era com curiosidade que eu

seguia a história; queria ver que rumo tomaria sua narrativa

- boa narrativa, aliás, dotada de humor e imaginação. Ficou

claro que nossas visões da idéia eram completamente

diferentes. As associações que eu fiz são diferentes das que

Martel faz.

Um náufrago num escaler diante de um jaguar - o que

significaria aquilo para mim? Por que teria me ocorrido

aquela imagem? E uma pergunta que pode se aplicar a

qualquer obra de ficção (e a qualquer sonho, qualquer

fantasia). E que admite dois tipos de resposta, em níveis

diferentes. Um, mais profundo, e por conseguinte mais

misterioso, diz que tais coisas se originam no inconsciente;

são fantasias ligadas a traumas, cuja elaboração pode

demandar muitas horas-divã. O outro tipo de explicação é

aquele que ocorre ao próprio autor. Para mim o jaguar era a

imagem de um poder absoluto e irracional. Como foi o

poder do nazismo, por exemplo. Ou, numa escala bem

menor, o poder da ditadura militar que se instalou no Brasil

em 1964. Martel dá uma conotação diferente - religiosa - à

imagem. E isto, presumo, deve ter reforçado nele a

convicção de que não estava copiando, mas sim usando a

idéia como ponto de partida.

***

Seja como for a história, teve desdobramentos

surpreendentes. Nos dias que se seguiram, comecei a

receber cartas, e-mails, telefonemas — e, sobretudo, pedidos

de entrevistas de vários órgãos da imprensa.

Não sou um autor desconhecido, mas certamente nenhum

dos meus livros teve a repercussão alcançada por esse. E

nenhum esteve envolvido em tanta confusão. Confusão esta

que começou com a divulgação - extra-oficial — do

resultado do prêmio, num site da Internet, um "fiasco", na

expressão do jornal londrino The Guardian, de 26 de outubro.

Simultaneamente, vinha à luz a questão da idéia do livro.

Em 27 de outubro, o próprio Yann Martel publicou no The

Sunday Times, de Londres, um artigo que falava sobre o seu

livro — e o meu. No domingo, 3 de novembro, O Globo

publicou, em página inteira, a matéria para a qual eu tinha

sido entrevistado. A jornalista Daniela Name lembrava:

"Max e os felinos não é o primeiro romance brasileiro

supostamente plagiado por um autor estrangeiro. Publicado

em 1 9 3 4 , A sucessora, de Carolina Nabuco, gerou um

debate literário quando Rebecca, da inglesa Daphne du

Maurier, foi editado quatro anos depois". { Rebecca, aliás, foi

adaptado para o cinema por Alfred Hitchcock.} Dois dias

depois, apareceu um outro artigo, vastamente difundido

pelas agências internacionais: aquele escrito para o New York

Times pelo correspondente do jornal no Brasil, Larry Rohter,

que me entrevistou por telefone. O título era: "Tiger in a

Lifeboat, Panther in a Lifeboat: a Furor Over a Novel" (O

tigre num bote, a pantera num bote: um escândalo sobre um

romance). Depois de explicar aos leitores americanos como

pronunciar meu nome (Mo-uh-seer Skleer), Rohter falava do

sucedido, destacando que seu jornal jamais tinha publicado

qualquer resenha de John Updike acerca de Max and the Cats.

Também mencionava a reação da imprensa brasileira.

A isto seguiu-se a reação de um órgão da imprensa

canadense, o National Post. A matéria publicada no dia 7 de

novembro levava como título: "New chapter in a nations

rage toward Canada" (Um novo capítulo na raiva de uma

nação [o Brasil] contra o Canadá). E o subtítulo, usando a

aliteração de que os anglo-saxóes tanto gostam, era muito

significativo: "Beef, Bombar-dier, books". O texto

procurava associar a questão dos livros com os episódios da

proibição da importação da carne brasileira pelo Canadá (o

"beef") supostamente por razões sanitárias, e a concorrência

entre a brasileira Embraer e a canadense Bombardier para a

venda de aviões. Ou seja: o assunto estava ultrapassando os

limites da controvérsia literária. E difundia-se cada vez

mais, como constatei, ao procurar descobrir na Internet o

noticiário a respeito. Entrei no Google, digitei dois nomes,

Yann Martel e Moacyr Scliar - e fiquei estarrecido: havia

mais de quinhentos textos sobre o affaire. E os pedidos de

entrevistas continuavam. No dia 15, cheguei aos Estados

Unidos, onde deveria dar uma palestra em Amherst,

Massachusetts. Em minha passagem (de menos de um dia)

por Nova York, fui entrevistado por cinco órgãos de

imprensa.

A pergunta que mais me faziam - e, nos Estados

Unidos, faziam-me de forma insistente - dizia respeito a um

processo judicial. Algo para o qual eu não tinha a menor

disposição. Não só porque demandaria tempo e energia,

como também porque minha atitude não era, e nem nunca

foi, litigante. Como mencionei antes, se, ao tempo em que

começou a escrever seu livro, Yann Martel tivesse entrado

em contato comigo dizendo que queria aproveitar a idéia, eu

teria concordado, e de bom grado. Ele não o fez, o que pode

ser considerado inadequado — mas, ilegal? Eu relutava em

ver a coisa dessa maneira. De modo que resolvi dar o

assunto por encerrado — para decepção, não pude deixar de

notar, de algumas pessoas, que gostariam de ver a briga

continuar.

***

Algumas conclusões se podem tirar desse episódio,

para o qual o adjetivo "bizarro" me ocorreu desde o início.

E, de fato, uma coisa muito estranha. Há, nela, uma

discussão objetiva sobre o que vem a ser, afinal, plágio.

Objetiva porque há evidentes repercussões práticas nesta

época de marcas, patentes e direitos autorais, mas nem por

isso fácil de resolver. Mesmo que princípios gerais sejam

fixados, cada caso será um caso e exigirá uma decisão,

judicial ou não, independente.

A outra questão diz respeito aos famosos quinze

minutos de fama, de que falava Andy Warhol. Um livro

chega ao noticiário de duas maneiras. Pode ser através de

uma artigo crítico ou de uma resenha. Mas, se for dessa

maneira, pode-se ter certeza de que a repercussão será

limitada. Barulho mesmo faz o succès de scandale. Que, diga-

se desde logo, não afasta o mérito literário. Escândalo

provocaram livros como Madame Bovary, de Flaubert,

LAssomoir, de Zola, e Le diable au corps, de Raymond

Radiguet, para ficarmos só na França, onde se originou a

expressão. E qual o mecanismo deste sucesso? E como se as

pessoas dissessem, repetindo o Eclesiastes: há livros demais

no mundo - acrescentando em seguida: dêm-me um motivo

para ler esse livro em particular. E, quanto mais picante,

mais controverso for o motivo, melhor - e tanto maior a

possibilidade dos quinze minutos de fama. Por coincidência,

na mesma época da discussão sobre os livros, estourou o

escândalo Winona Ryder: a atriz tinha sido surpreendida

roubando roupas de uma loja. Não menos surpreendente foi

o artigo aparecido em um jornal americano, dizendo que o

julgamento seria benéfico para a carreira de uma atriz cujos

últimos filmes, segundo o articulista, não haviam tido muito

êxito. Pouco depois disso, um conhecido contou-me o sonho

que tivera: sonhara que a história do plágio havia sido

combinada entre Yann Martel e eu, para mútua promoção.

Um sonho inteiramente explicável, na conjuntura em que

vivemos. Livro depende de promoção — e a promoção

depende, entre outras coisas, da visibilidade do autor. Isso

explica o desaparecimento do pseudônimo, por exemplo. E

explica as viagens coast to coast que os escritores americanos

fazem, atravessando os Estados Unidos de um ponta a outra

para falarem de seus livros em palestras e programas de

tevê. E claro que qualquer coisa que chame a atenção para a

obra, nestas circunstâncias, é bem-vinda.

Nem todos os escritores aceitam essa injunção.

Lembro Rubem Fonseca recusando-se a falar sobre sua obra

em uma mesa-redonda: "O que tenho a dizer está nos meus

livros". Mas entre essa recusa e a aceitação total, às vezes

até entusiástica, há um gradiente de possibilidades no qual

os escritores vão se situando conforme sua disponibilidade,

conforme seu temperamento, conforme sua capacidade de

comunicação. Parte disso corresponde ao papel do escritor

como intelectual: as pessoas esperam que quem sabe

escrever saiba também falar e tenha idéias a transmitir.

O importante é não fazer um investimento emocional

nesta fama passageira. O importante é não tentar repetir os

quinze minutos. "Não há segundo ato nas vidas americanas",

disse Scott Fitzgerald, e isso é válido especialmente para

arte e literatura: depois que as cortinas do palco se fecham,

elas não abrem mais. As pessoas que não acreditam, ou não

querem acreditar nisso, entregam-se, não raro, às mais paté-

ticas tentativas para fazer de novo brilhar, sobre si, os

refletores do sucesso. Que têm um grande efeito: aquecem o

ego. E não existe entidade que deseje ser mais aquecida, e

massageada, e acarinhada, do que o ego. No passado, essa

era uma exigência tímida, porque individualismo é uma

coisa relativamente recente: pode ter existido sempre, mas

criou força com a modernidade, e triunfa nesta época

narcísica em que vivemos. O ego exige sucesso. Mas, como

disse Clarice Lispector, numa carta a uma jovem que

pretendia tornar-se escritora: "Quando você fizer sucesso,

fique contentinha, mas não contentona. E preciso ter sempre

uma simples humildade, tanto na vida como na literatura".

Contentinha, mas não contentona: em quatro palavras,

Clarice disse tudo, o que não é de admirar, em se tratando de

uma grande escritora. E interessante, aliás, que tenha usado

a expressão "contente", mas não "feliz". Não é a mesma

coisa. Felicidade é uma coisa transcendente, imaterial.

Contente é aquele que contém: sua carência foi preenchida

com elogios, com tapinhas nas costas. No Brasil temos a

expressão "o bloco dos contentes". Usa-se em geral para

pessoas que, ligadas à administração pública, conseguem

favores, privilégios, mordomias. O que as contenta vem de

fora.

Literatura não é fonte de contentamento. Nem é coisa

que possa ser feita pelo membro de um bloco. Ela é,

essencialmente, um vício solitário. Isto não quer dizer que

tenha de ser praticada numa isolada torre de marfim. A

grande literatura inevitavelmente reflete o contexto social da

época. Mas o faz como um sismógrafo, cuja agulha desloca-

se como resposta a movimentos profundos. Espero que isso

tenha acontecido, ao menos em parte, ao menos em pequena

parte, com uma história chamada "Max e os felinos". Todo o

resto, francamente, não tem muita importância.

Março de 2003

DE TRÂNSITOS E DE SOBREVIVÊNCIAS1

Zilá Bernd

"Et sais que je suis un homme maintenant car je suis la plus

dangereuse des betes."

Erri De Lucca, Trois chevaux

A presente comunicação tem como objetivo principal

colocar em paralelo Life of Pi - a novel (2001), do escritor

canadense Yann Martel2 (1963-), e Max e os felinos (1981),

do escritor gaúcho Moacyr Scliar (1937-). Não pretendemos

retomar a polêmica instaurada pelas imprensas canadense e

brasileira, no final de 2002, relativa à acusação de plágio

pelo autor brasileiro contra o canadense. O que nos

interessará destacar aqui é a análise das convergências

existentes entre as duas obras e as figuras da americanidade

que elas agenciam. As temáticas da travessia do oceano, do

1Texto publicado na obra coletiva O viajante transcultural: leituras da obra de

Moacyr Scliar, organizado por Regina Zilbermann e Zilá Bernd. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004. Série Grandes Autores 1.

2 Yann Martel foi o vencedor do Man Booker Prize de 2002, um dos mais

prestigiosos prêmios literários conferidos pela Inglaterra. Foi também finalista para o

prêmio do Governador Geral (Ganadá) de melhor ficção e do Commonwealth Writers

Prize de melhor livro do ano. Life ofPi está sendo traduzido para o francês pelos

próprios pais de Yann Martel, que também são escritores e que vivem em Montreal.

naufrágio e dos sobreviventes adolescentes que chegam ao

Novo Mundo reeditam os mitos de renovação constitutivos

da americanidade. A travessia mimetiza a viagem inaugural

de Cristóvão Colombo, os esca-leres, que permitem aos

adolescentes chegar respectivamente, ao Canadá e ao Brasil,

simbolizam a arca de Noé, mito do recomeço e da

restauração cíclica por excelência. Pretendemos destacar as

metamorfoses das personagens durante a viagem e suas

relações com os felinos (um tigre e um jaguar) que

sobrevivem com eles e que simbolizam ao mesmo tempo as

forças do subconsciente e a memória do passado que os imi-

grantes trazem consigo para a América.