Máximo Barro: Talento e Altruísmo por Alfredo Sternheim. - Versão HTML

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Introdução

Conheço Máximo Barro desde os tempos do

cineclube do Centro Dom Vital, em São Paulo,

onde ele fez palestras por volta de 1959. A par-

tir do início de 1962, como assistente de Walter

Khouri em A Ilha, passei a conviver diariamente

com Máximo por ele ter assumido a montagem

daquele longa. Mas, na realidade, percebo ago-

ra, muitas décadas depois, que não o conhecia.

Sabia da sua simpatia e da sua paciência comigo,

um aprendiz de 19 anos com conhecimentos

teóricos de montagem, mas sem nenhuma prá-

tica, o que me levava a cometer erros que ele

encarava com tolerância. Sempre fui grato a esse

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estágio naquela sala de edição com esse mestre;

foram dias de descobertas estimulantes para a

minha carreira. Porém, só atualmente, ao fazer

esta biografia, descubro de forma plena uma

das personalidades mais importantes de nosso

cinema. Não é exagero, mas a definitiva cons-

tatação de sua admirável capacidade em aliar

um talento múltiplo a uma conduta de extrema

generosidade que o faz distribuir amplamente

os seus conhecimentos.

De origem humilde, esse paulistano passou pelas

mais diversas fases do cinema brasileiro. Em pou-

co mais de 50 anos de atividade, testemunhou

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as mais variadas tendências que surgiram em

nossa sétima arte. Como assistente de direção e

fazendo produção, viveu a fase aparentemente

próspera da industrialização do cinema paulista,

quando trabalhou na Multifilmes e na Maristela,

dois estúdios surgidos na cola da megaempresa

Vera Cruz e que, como aquela companhia em

São Bernardo do Campo, acabaram encerrando

suas atividades mais cedo do que se esperava.

Daí em diante, descobrindo o seu caminho para

a montagem, o ensino e a pesquisa, se viu no

meio de todas as crises que assolaram e assolam

a nossa produção cinematográfica.

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Como montador de cerca de 50 longas e dezenas

de curtas, transitou pelos mais diversos gêneros e

estilos. Ao mesmo tempo que encarou cineastas

de personalidades complexas e diferentes como

os autorais Khouri, Biáfora e Candeias, colocou

o seu talento a serviço de realizações que, assu-

midamente, se destinavam ao consumo popular,

sejam as mais sofisticadas como as de Fernando

Barros, as esquematizadas em função de deter-

minado comediante (Mazzaropi) ou as feitas com

erotismo no cinema da Boca (Deni Cavalcanti).

Mas não abandonou os documentários, institu-

cionais ou não, nem deixou de editar longas e

curtas de diretores novatos. Como o autor destas

linhas e muitos outros que enveredaram pelo

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documentário e pela animação. Essa dedicação

apaixonada pela montagem o levou, em certa

ocasião, a construir uma moviola (a máquina

onde se edita os filmes com suas várias pistas

de imagem e som). Algo inusitado, quixotesco

para a realidade brasileira. Mas Máximo, com

a sua peculiar e quieta tenacidade, enfrentou

drásticas mudanças econômicas impostas pelo

governo e em 1962 já a usava numa sala na Rua

Santo Amaro, a serviço de diretores como Khou-

ri, Milton Amaral e Mojica Marins.

Porém, o versátil Máximo – que jamais foi im-

positivo com os diretores com quem trabalhou

– ao mesmo tempo que montava, dedicava-se

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ao ensino e, durante muito tempo, à atividade

sindical. Nessa área, durante a ditadura militar,

foi de risco a sua empenhada atuação. Como

professor no extinto seminário do cinema e na

Fundação Armando Álvares Penteado – Faap

onde prossegue até hoje, foi o responsável pela

ampliação dos conhecimentos de centenas de

alunos, muitos dos quais se destacaram (Can-

deias, Amaral, Flávio Del Carlo, etc.) em longas

e curtas premiados em várias ocasiões.

Esse encanto pelo ensino o levou para o terreno

da pesquisa. De forma obstinada foi atrás das

provas que evidenciavam em 1896 a primeira

sessão de cinema em São Paulo, contrariando

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teses de outros medalhões da cultura. Da pesqui-

sa para os livros que a reproduziam, o caminho

foi curto. E mesmo nessa área, sempre evitou

os caminhos mais fáceis, mais acomodados. Até

quando abordou temas fora da área cinemato-

gráfica, como no histórico de certos bairros de

São Paulo, enveredou por longas andanças e

visitas a cartórios e redações de jornais. Na Cole-

ção Aplauso, resgatou várias existências, como a

do falecido José Carlos Burle, médico e cineasta

que, como outros, andava esquecido pela nossa

imprensa especializada.

Foram muitas as tardes de gravações no apar-

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tamento de Máximo, em um dos primeiros pré-

dios construídos no bairro de Higienópolis. As

conversas só eram interrompidas pelo cafezinho

oferecido por sua esposa Pérsia e ao final, já

noite, quando ele saia para percorrer a pé (cerca

de um quilômetro) a distância que separa sua

residência da Faap onde, aos 79 anos, dá aulas

que entusiasma os mais jovens. Desses, ouvi co-

mentários repletos de elogios. Nada mal para o

difícil diálogo de gerações. No livro, Máximo não

poupa pessoas e nem a si mesmo. Envereda pela

autocrítica com a mesma franqueza com que re-

lata problemas enfrentados em certos trabalhos.

Enfim, repassa sua vida, sempre em função de

seu amor incontestável ao cinema, jamais diluído

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pelo tempo ou pelas dificuldades. Dessa manei-

ra, surgiu um livro que, independentemente da

minha participação (uma honra), empolga e é

relevante como registro de um talento genero-

so, uma vocação monástica que muito fez e faz

pela Sétima Arte.

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Máximo bebê, em 1930

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Capítulo I