Maya por Jostein Gaarder - Versão HTML

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JOSTEIN GAARDER

MAYA

O ROMANCE DA CRIAÇÃO

Tradução de Maria Bragança

FICHA TÉCNICA

Título original: Maya

Autor: Jostein Gaarder

Tradução: Maria Bragança

Capa: Ilustração de Quint Bacbholz Carl Hansen Verlag

Munchen Wien 2000

Fotocomposição: Multitipo Artes Gráficas, Lda.

Impressão e acabamento: Tipografia Peres

1.a edição, Lisboa, Maio, 2001

2.a edição, Lisboa, Agosto, 2001

Depósito legal n.° 167 796/01

Prólogo

Jamais vou esquecer aquela úmida e tempestu-

osa manhã de janeiro de 1998 em que Frank aterris-

sou em Taveuni, uma pequena ilha do arquipélago

Fiji. Trovejara a noite inteira, e, antes do café da ma-

nhã, os donos do Maravu Plantation Resort tiveram

de cuidar do conserto de um problema na instalação

elétrica. Como a câmara frigorífica corria perigo, ofe-

reci-me para ir de carro a Matei buscar os novos hós-

pedes, que chegariam à linha de mudança de data no

vôo da manhã, vindos de Nadi. Angela e Jochen Kiess

aceitaram agradecidos minha ajuda, e Jochen me elo-

giou dizendo que numa situação crítica sempre se po-

dia contar com um britânico.

O sério norueguês chamou minha atenção as-

sim que entrou no jipe em companhia de um casal de

americanos. Tinha cerca de quarenta anos, estatura

mediana e cabelos louros, como a maioria dos escan-

dinavos, mas olhos castanhos e um semblante um tan-

to abatido. Apresentou-se como Frank Andersen, e

lembro que cheguei a pensar que talvez pertencesse

àquela rara categoria de seres humanos que a vida to-

da se sentem oprimidos na Terra pela brevidade da

existência e pela falta de espírito. Essa suposição se

dissipou quando, naquela mesma noite, soube que ele

era biólogo evolutivo. Para quem já tem certa predis-

posição à melancolia, a biologia evolutiva deve ser

uma ciência bem pouco reconfortante.

Sentado à escrivaninha na minha casa de Croy-

don, olho para um cartão-postal amassado, datado de

Barcelona, 26 de maio de 1992. O postal mostra uma

foto da Sagrada Família, a catedral inacabada de Gau-

dí, e traz no verso:

Meu querido Frank,

Chegarei a Oslo terça, mas não vou sozinha. Tudo vai

ser diferente a partir de agora, você tem que estar preparado.

Não me chame! Quero sentir seu corpo antes que haja palavras

entre nós. Lembra da bebida mágica? Logo você vai tomar al-

gumas gotas. Às vezes tenho medo. Será que eu e você podemos

fazer alguma coisa para aceitar que a vida seja tão breve?

Sempre sua,

Vera.

Frank me mostrou de repente o postal com a-

quelas torres altas uma tarde em que tomávamos cer-

veja no bar do Maravu. Eu tinha lhe contado que per-

dera Sheila alguns anos antes, e Frank continuou ali,

sentado, por um bom momento, até que com um ges-

to brusco tirou a carteira do bolso e puxou um cartão-

postal dobrado, que imediatamente desdobrou e pôs

em cima da mesa. O texto estava escrito em espanhol,

mas o norueguês traduziu palavra por palavra. Parecia

precisar da minha ajuda para assimilar o que acabava

de traduzir.

— Quem é Vera? — perguntei. — Vocês eram

casados?

Aquiesceu com um movimento de cabeça.

— A gente se conheceu na Espanha, no fim

dos anos 80. Passados alguns meses, já vivíamos jun-

tos em Oslo.

— E o relacionamento terminou? Negou com

a cabeça, mas disse:

— Ela voltou a Barcelona dez anos depois. Foi

no outono passado.

— Vera não é um nome tipicamente espanhol

— objetei. — Nem catalão.

— É o nome de um povoado da Andaluzia —

explicou.

— Segundo sua família, ela foi concebida lá.

Examinei o postal.

— Ela foi a Barcelona visitar a família? De no-

vo negou com a cabeça.

— Foi apresentar sua tese de doutorado.

— Não diga.

— Sobre as migrações da espécie humana a

partir da África. Vera é paleontóloga.

— E quem ela levou a Oslo?

Frank olhou para o fundo do copo.

— Sonja — disse sem mais nem menos.

— Sonja?

— Nossa filha, Sonja.

— Quer dizer que vocês têm uma filha?

Apontou para o postal.

— Foi assim que fiquei sabendo que Vera esta-

va grávida.

— De você?

Estremeceu.

— A menina era minha filha, sim.

Compreendi que alguma coisa devia ter ido mal

e tentei adivinhar o que poderia ter acontecido. Mas

eu tinha outro ponto de referência e falei:

— E a tal “bebida mágica”, da qual você ia

provar algumas gotas? Soa bastante tentador.

Hesitou. Depois sorriu com certa timidez antes

de negar a importância daquilo.

— Nada, bobagem, coisas da Vera.

Chamei o garçom e pedi outra cerveja. Frank

mal havia tocado na dele.

— Conte — pedi. E Frank contou:

— Tínhamos em comum a mesma sede intran-

sigente de vida. Ou será que devo chamar isso de “ân-

sia de eternidade”? Não sei se compreende o que que-

ro dizer.

Claro que compreendia. Senti o coração bater

no peito e pensei que devia me acalmar. Ergui a palma

da mão para lhe dar a entender que não precisava me

explicar o que era a ânsia de eternidade. Ele entendeu.

Aparentemente, não era a primeira vez que Frank ten-

tava explicar o que queria dizer com aquela história de

ânsia de eternidade.

Acrescentou:

— Nunca tinha encontrado numa mulher essa

necessidade irresistível. Vera era uma pessoa calorosa

e realista. Mas também vivia metida no seu mundo,

melhor dizendo, no mundo da paleontologia. Era das

que se orientam mais verticalmente do que horizon-

talmente.

— Como?

— Não lhe interessava o que acontece na rua

ou no espelho. Era bonita, muito bonita. Mas nunca a

vi folheando uma revista feminina.

Ele continuava sentado, mexendo a cerveja

com o dedo.

— Contou-me que, quando jovem, tinha tido

muitas fantasias sobre uma bebida mágica que lhe

concederia a vida eterna quando tivesse bebido a me-

tade da dose. Assim, disporia de um tempo ilimitado

para encontrar o homem a quem daria a outra metade

e poderia ter certeza que um dia encontraria esse ho-

mem da sua vida, se não na semana seguinte, pelo

menos depois de cem ou mil anos.

Apontei para o postal. Frank sorriu com resig-

nação: — Quando voltou de Barcelona, naquele verão

de 92, declarou solenemente que, de uma maneira ou

de outra, tínhamos tomado algumas gotas da bebida

mágica com que sonhava desde pequena. Pensava no

filho que ia nascer. Algo de nós dois já tinha começa-

do a viver sua própria vida, dizia ela. Algo que talvez

desse frutos durante milhares de anos.

— A posteridade, você quer dizer?

— Sim, era nisso que ela pensava. De fato, to-

dos os seres humanos da Terra descendem de uma

mulher que viveu na África faz algumas centenas de

milhares de anos.

Tomou um gole de cerveja, e como não disse

mais nada por um bom tempo, tentei fazê-lo prosse-

guir. — Continue, se quiser — falei.

Olhou-me nos olhos. Foi como se, por um ins-

tante, avaliasse se eu era ou não um homem em quem

poderia confiar. Continuou:

— Quando chegou a Oslo, me garantiu que

não teria hesitado em compartilhar comigo a bebida

mágica, se a tivesse. Obviamente não me deu nenhu-

ma “bebida mágica”, mas, de todo modo, eu vivi aqui-

lo como um grande momento. Considerei uma coisa

sublime o fato de que ousasse fazer uma escolha irre-

versível.

Com um gesto de cabeça, declarei-me de acor-

do. — Já não é comum as pessoas se prometerem

fidelidade eterna. Ficam juntas no que é bom, mas

logo que vem o que é ruim, muitas simplesmente se

separam.

Pareceu de repente um pouco irritadiço:

— Creio que me lembro literalmente do que ela

disse: “Para mim só existe um homem e uma Terra, e

se sinto isso tão intensamente, é porque só vivo uma

vida”. — Que declaração mais singular — disse eu.

— E o que aconteceu em seguida?

Foi bem seco. Depois de esvaziar o copo de

cerveja, contou-me que tinham perdido Sonja quando

ela estava com quatro anos e meio, e que, desde en-

tão, a convivência dos dois se tomara impossível. Era

muita dor sob o mesmo teto, explicou Frank. E ficou

contemplando o coqueiral.

Não falou mais no assunto, apesar de eu ter fei-

to algumas tentativas discretas para retomá-lo.

A conversa também foi interrompida de certo

modo por um sapo enorme que pulou para o deck em

que estávamos. Ouviu-se um “chap!”, e o contrariado

sapo sentou debaixo da mesa, entre as nossas pernas.

— Um sapo-cururu — esclareceu o norueguês.

— Sapo-cururu?

— Ou Bufo marinus. Foram importados do

Havaí faz pouco tempo, em 1936, para combater a

grande quantidade de insetos nas plantações de cana-

de-açúcar, e se deram muito bem aqui.

Apontou para o coqueiral, onde descobrimos

outros quatro ou cinco exemplares. Minutos depois,

pude contar até dez ou doze sapos na relva úmida. Já

estava na ilha fazia muitos dias, mas nunca tinha visto

tantos sapos juntos. Tive a sensação de que era Frank

quem os atraía, e não passou muito tempo até eu po-

der contar mais de vinte exemplares. Senti uma espé-

cie de aversão ao ver tantos sapos juntos. Acendi um

cigarro. — Continuo pensando nessa bebida de que

você falou — disse. — Nem todo mundo ousaria

prová-la. Acho que a maioria não provaria.

Pus o isqueiro na mesa, apontei para ele e sus-

surrei: — Esse é um isqueiro mágico. Se você o acen-

der agora, viverá eternamente na Terra.

Ele me encarou fixamente, sem sorrir. Suas

pupilas pareceram se iluminar.

— Mas tem que pensar muito bem nisso —

precisei —, porque só vai ter uma oportunidade e

nunca poderá voltar atrás na decisão que tomar.

— Não tem importância — replicou com alti-

vez, e não tive certeza da escolha que ele faria.

— Quer viver até a idade normal do ser huma-

no? — perguntei solenemente. — Ou quer ficar na

Terra por todos os séculos dos séculos?

Frank ergueu o isqueiro lenta mas decidida-

mente e o acendeu.

Aquilo me impressionou. Fazia quase uma se-

mana que eu estava na ilha, e finalmente não me sen-

tia tão só.

— Não somos muitos — comentei.

Afinal sorriu, um sorriso largo. Creio que nosso

encontro o surpreendeu tanto quanto a mim.

— Não, parece que não somos tantos assim —

admitiu. Endireitou-se e me estendeu a mão por cima

do copo de cerveja.

Foi como se tivéssemos confiado um ao outro

que pertencíamos à mesma ordem seleta. Nem a

Frank nem a mim metia medo a idéia de viver eter-

namente. O que nos aterrorizava era o contrário.

Faltava pouco para o jantar, e insinuei que de-

víamos celebrar a confraternização com um drinque.

Sugeri um gim puro, e ele concordou.

Os sapos continuaram se multiplicando no co-

queiral, e voltei a sentir nojo. Confessei a Frank que

ainda não tinha me acostumado com os gecos no

quarto. Chegaram os copos de gim, e enquanto o pes-

soal começava a arrumar as mesas para o jantar, con-

tinuávamos sentados, brindando aos anjos do céu.

Também brindamos àquele pequeno grupo de pesso-

as que não era capaz de reprimir sua inveja dos anjos

por viverem eternamente. Por fim, Frank apontou

para os sapos do coqueiral. Julgou que, por educação,

também deveríamos fazer um brinde a eles.

— Afinal de contas, são nossos irmãos de san-

gue — comentou. — Somos mais aparentados a eles

do que aos anjos do céu.

Frank era assim. Um sujeito excepcional mas

que tinha os pés solidamente plantados no chão. No

dia anterior tinha me confessado que não se sentira

nada à vontade no táxi aéreo que o levara de Nadi a

Matei. Os ventos estavam extremamente desfavorá-

veis, disse, e ainda por cima não gostara nem um pou-

co de saber que não havia co-piloto no avião.

Enquanto bebíamos, o norueguês me contou

que em fins de abril participaria de um congresso na

velha cidade universitária de Salamanca e que na vés-

pera tomara conhecimento, por um telefonema à se-

cretaria do congresso, de que Vera também tinha se

inscrito. Mas não sabia se ela estava a par de que iriam

se encontrar em Salamanca.

— E você, espera que isso aconteça? — per-

guntei. Espera poder se encontrar com Vera em abril?

Ele não respondeu. Tampouco pude notar se

assentiu com um gesto de cabeça.

Naquela noite, todas as mesas do restaurante

do Maravu se juntaram, formando uma comprida e

única mesa. A idéia fora minha, pois muitos dos hós-

pedes eram pessoas sozinhas. Quando Ana e José en-

traram, lancei um derradeiro olhar para o cartão-

postal com as oito torres antes de devolvê-lo a Frank.

— Pode ficar com ele! — exclamou. — Eu me

lembro de cada palavra.

Não me passou despercebido o tom amargo da

sua voz, e tentei fazê-lo mudar de idéia. Mas ele não

se deixou convencer. Soou como se tivesse tomado

uma decisão importante quando disse:

— Se eu o guardar, em algum momento pode-

ria picá-lo em pedacinhos; por isso é melhor você fi-

car com ele. E, depois, quem sabe não voltamos a nos

ver em algum lugar?

Apesar disso, decidi que o devolveria no dia em

que Frank fosse embora. Mas na manhã em que ele

deixou o Maravu, muitas coisas aconteceram.

Encontrar-me novamente com o norueguês

quase um ano depois foi um desses acasos estranhos

que condimentam a existência e criam a esperança de

que, apesar dos pesares, existem forças ocultas que

conduzem nossas vidas fora de cena e de vez em

quando dão uma puxadinha nos fios do destino.

O acaso quis que eu já não tenha diante dos

meus olhos apenas um velho cartão-postal. Desde

hoje conto também com uma longa carta que Frank

escreveu a Vera depois de encontrá-la em abril. Con-

sidero uma vitória pessoal o fato de esse documento

escrupuloso estar enfim em minhas mãos, o que com

certeza não teria acontecido se uma coincidência ex-

traordinária não tivesse me levado a topar com Frank

em Madri. Aliás, encontrei-o no mesmo hotel em que

ele havia escrito a carta a Vera em maio.

Nosso encontro ocorreu no Hotel Palace, no

mês de novembro de 1998.

Na carta a Vera, Frank descreve vários episó-

dios que nós dois tínhamos vivido naquela ilha do

arquipélago Fiji. Centralizava a carta, logicamente, em

Ana e José, mas também fazia referência a algumas

conversas que ele e eu tivemos a sós.

Já que resolvi trazer a lume essa longa carta,

poderia me sentir tentado a interromper o relato de

Frank com comentários adicionais meus. Mas optei

por apresentar a carta a Vera em sua totalidade e a-

crescentar um amplo epílogo.

Naturalmente, estou muito contente por possu-

ir essa missiva, sobretudo porque ela me permitiu es-

tudar as cinqüenta e duas máximas do manifesto.

Permito-me precisar que não me apoderei de uma

carta pessoal. Não é o caso, de maneira nenhuma.

Mas também sobre essa questão falarei no epílogo.

Faltam apenas alguns meses para entrarmos no

século XXI Parece-me que o tempo passa depressa

demais. Parece-me que o tempo passa cada vez mais

depressa.

Desde que eu era pequeno — o que não faz

tanto tempo assim —, sabia que teria sessenta e sete

anos se chegasse a viver a mudança de milênio. Esse

sempre foi para mim um pensamento fascinante e

aterrador ao mesmo tempo. Tive de me despedir de

Sheila neste século. Ela só chegou a fazer cinqüenta e

nove anos.

Talvez volte a visitar a ilha da linha de mudança

de data antes da passagem de século. Estou pensando

em encerrar a carta a Vera numa cápsula do tempo,

para que aí permaneça selada por mil anos. Quem sa-

be não se deva publicá-la até então, e o mesmo se po-

de dizer do manifesto. De qualquer modo, mil anos

não são nada se comparados aos enormes períodos de

tempo esboçados pelo manifesto. No entanto, mil

anos são mais que suficientes para que se tenha apa-

gado grande parte dos vestígios do que agora vivemos

na Terra, e a história de Ana Maria Maya parecerá, na

melhor das hipóteses, uma saga de um passado remo-

to.

Sou velho o bastante para não me incomodar

com o momento em que virá à luz o que quero con-

tar. O mais importante é que seja contado, mais cedo

ou mais tarde, e tampouco é necessário que seja eu a

contar. Talvez por isso mesmo eu tenha começado a

ruminar a idéia de uma cápsula do tempo. Espero que

daqui a mil anos haja um pouco menos de barulho no

mundo.

Depois de ter lido mais uma vez a carta a Vera,

sinto-me por fim capaz de organizar as roupas de

Sheila. Já chegou a hora. Amanhã de manhã virão al-

gumas pessoas do Exército da Salvação buscar tudo.

Vão levar também os vestidos velhos, embora eu não

acredite que consigam vendê-los. É uma sensação pa-

recida com a de remover um ninho de andorinhas em

que faz anos não há nenhum passarinho.

Logo terei me acostumado à vida de viúvo.

Também é uma forma de existir. Ao olhar para a

grande foto em cores de Sheila, já não estremeço tan-

to quanto antes.

Apesar de toda essa retrospecção que preen-

cheu minha vida nos últimos tempos, pode parecer

um paradoxo o fato de que nem mesmo agora eu teria

hesitado em tomar a bebida mágica de Vera. Teria

tomado sem pestanejar, mesmo sem ter certeza de

encontrar uma pessoa a quem pudesse dar a outra me-

tade. Para Sheila é tarde demais.

Ela não recebeu muito mais do que quimiote-

rapia no último ano de vida.

Amanhã tenho um encontro. Convidei Chris

Batt para jantar. Chris é o bibliotecário-chefe da nova

biblioteca aqui de Croydon. Sou um dos seus freqüen-

tadores mais assíduos. Parece-me ser uma grande

honra para este bairro contar com uma biblioteca

moderna, com escadas rolantes ligando os andares.

Chris é um homem muito ativo.

Não creio que ele tivesse acendido aquele is-

queiro no bar do Maravu. Também não teria sentido

nojo ao ver todos aqueles sapos.

Resolvi perguntar a Chris se ele acha que o pró-

logo de um livro deve ser escrito antes ou depois de

se escrever o livro. Minha teoria é que o prólogo deve

ser escrito no fim de todo o processo. Isso estaria em

consonância com outra coisa em que tenho pensado,

sobretudo depois de ler a carta de Frank.

Transcorreriam centenas de milhares de anos

desde o momento em que os primeiros anfíbios saí-

ram da água até aquele em que um ser vivo deste pla-

neta fosse capaz de descrever o que aconteceu então.

Hoje por fim podemos escrever o prólogo da história

da humanidade, isto é, muitíssimo tempo depois de a

história, em si, ter acabado.

Dessa maneira, a essência das coisas morde o

próprio rabo. Talvez isso seja válido para todos os

processos de criação, inclusive o das composições

musicais. Imagino que a última coisa que se compõe

numa sinfonia é o seu compasso inicial. vou perguntar

a Chris o que ele acha disso. Ele tem muito senso de

humor, e também acho que é um homem sábio. Du-

vido que Chris Batt seja capaz de mencionar uma só

opereta cuja abertura tenha sido composta antes de a

opereta estar terminada em sua versão derradeira e

final. Só se tem uma visão global de uma sucessão de

fatos quando estes deixam de ter utilidade. Quem ti-

ver a pretensão de entender o destino tem de sobrevi-

ver a ele.

Não sei se Chris Batt entende muito de astro-

nomia, mas vou lhe perguntar o que acha do seguinte

breve resumo da história deste nosso Universo:

O aplauso à grande explosão só chegou quinze

bilhões de anos depois de a explosão ocorrer.

Em seguida, a carta a Vera está reproduzida em

sua totalidade.

Croydon, junho de 1999

John Spooke