Maze Runner-A Cura Mortal por James Dashner - Versão HTML

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JAMES DASHNER

TRADUÇÃO: MAGDA LoPEs

Foi o cheiro que começou a enlouquecer Thomas pouco a pouco.

Não o fato de estar sozinho há mais de três semanas. Não mais as

paredes, o teto e o chão brancos.Tampouco a ausência de janelas ou o fato

de nunca apagarem as luzes. Nada disso. Haviam levado seu relógio e lhe

davam para comer a mesmíssima refeição três vezes por dia - fatias

grossas de presunto, purê de batatas, cenoura crua, unia fatia de pão e

água. Jamais falavam com ele; jamais tinham permitido a presença de

outra pessoa no quarto. Sem livros, sem filmes, sem jogos.

Isolamento completo, por mais de três semanas - embora

começasse a duvidar da contagem do tempo, que se baseava puramente

em seu instinto. Tentava adivinhar da melhor maneira possível quando a

noite caía; certificava-se de dormir apenas o que achava ser o número

normal de horas de sono. As refeições ajudavam, apesar de não parecerem

vir regularmente. Como se o objetivo fosse mesmo deixá-lo desorientado.

Sozinho. Em uni quarto acolchoado desprovido de cor - as únicas

exceções eram uni pequeno vaso sanitário de aço inoxidável, quase

escondido num dos cantos, e uma velha escrivaninha de madeira para a

qual Thomas não via uso. Só em meio a um silêncio insuportável, com

tempo ilimitado para pensar sobre a doença enraizada dentro dele: o Fulgor,

aquele vírus silencioso e rastejante que lentamente ia destruindo todas as

carcterísticas humanas.

Porém, nada disso o fazia enlouquecer.

Mas ele fedia, e, por alguma razão, isso o deixava com os nervos à

flor da pele - o mau cheiro era algo que perfurava o sólido bloco da

sanidade. Não haviam permitido que tomasse banho, nem de chuveiro nem

de banheira; não haviam lhe dado sequer uma muda de roupa limpa desde

que tinha chegado ali, ou qualquer coisa com a qual pudesse higienizar o

corpo. Um simples trapo teria ajudado; podia mergulhá-lo na água que lhe

davam para beber e limpar pelo menos o rosto. Mas não tinha nada, exceto

as roupas, agora sujas, que vestia quando o haviam trancado ali. Não tinha

sequer uni colchão e roupas de cama - dormia todo encolhido, o traseiro

encostado num dos cantos do quarto, os braços enlaçados, tentando

conseguir algum calor em si mesmo, muitas vezes tremendo.

Não sabia por que o fedor do próprio corpo era o que mais o

apavorava. Talvez esse fato, eni si, fosse um sinal de que havia perdido o

controle sobre ele. Por alguma razão, as más condições de higiene

pressionavam-lhe a mente, provocando pensamentos terríveis. Estava

apodrecendo, decompondo-se; seu interior se tornava repugnante à mesma

proporção que o exterior ficava frágil.

Era isso que o preocupava, por mais irracional que pudesse parecer.

Recebia alimento e água suficiente para dissipar a sede; conseguia

descansar bastante e se exercitava o máximo que podia naquele espaço

limitado, com frequência correndo no mesmo lugar durante horas. A lógica

lhe dizia que estar sujo não significava deterioração das funções do coração

ou do pulmão. Mesmo assim, sua mente começava a acreditar que o

incessante mau cheiro representava a iminência da morte, prestes a

devorá-lo por inteiro.

Esses pensamentos sinistros, por sua vez, faziam-no ponderar que

Teresa, afinal, talvez não houvesse mentido na última vez em que tinham

se comunicado, quando dissera que era tarde demais para Thomas e

insistira que ele havia sucumbido ao Fulgor com rapidez, enlouquecendo e

tornando-se violento. Teresa lhe dissera que já havia perdido a sanidade

antes de ir para aquele lugar horrível. Até Brenda tinha lhe advertido de que

as coisas ficariam piores para ele. Talvez ambas estivessem certas.

E, além de tudo isso, ainda havia a preocupação com seus amigos.

O que havia acontecido a eles? Onde estavam? Que estragos mentais o

Fulgor já teria lhes causado? Depois de tudo a que haviam sido submetidos,

era assim que a história terminava?

A raiva o invadiu, como um rato trêmulo que busca uni lugar para

se aquecer, unia migalha de comida. E, cada dia que passava, unia raiva

crescente o assaltava, tão intensa que Thomas às vezes se surpreendia

tremendo incontrolavelmente antes de poder dominá-la. Não queria que

fosse embora para sempre; desejava apenas armazená-la e deixá-la

crescer. Esperar pelo momento certo, o lugar adequado para liberá-la. O

CRUEL fizera aquilo com ele. O CRUEL lhe tirara a vida, e a dos amigos, e

os usava agora para qualquer propósito que julgasse necessário. Não

importavam as consequências.

Mas pagariam por isso de alguma forma, jurava Thomas a si

mesmo milhares de vezes ao dia.

Todas essas coisas passavam por sua mente quando se sentou, as

costas contra a parede, encarando a porta - e a escrivaninha de mau gosto

diante dela -, no que supunha ser o final da manhã do seu vigésimo segundo

dia como cativo no quarto branco. Sempre fazia isso após tomar o café da

manhã e se exercitar. Esperava, contra todas as provas em contrário, que a

porta se abrisse - na verdade, que se abrisse inteira, não apenas aquela

diminuta abertura embaixo, através da qual passavam as refeições.

Já havia tentado incontáveis vezes abri-la à força. Também tinha

verificado as gavetas da escrivaninha: vazias; nada ali, exceto o cheiro de

mofo e cedro. Checava-as todas as manhãs, só para conferir se algo não

havia aparecido ali magicamente enquanto dormia. Não era incomum

acontecer esse tipo de coisa quando se tratava do CRUEL.

Continuou a olhar fixamente para a porta. Esperando. Paredes

brancas e silêncio. O odor do próprio corpo. Pensou nos amigos - Minho,

Newt, Caçarola, os outros poucos Clareanos sobreviventes. Em Brenda e

Jorge, que haviam sumido de vista depois do resgate do gigantesco Berg.

Harriet e Sonya, as outras garotas do Grupo B, e Aris. De novo em Brenda,

e na advertência que lhe fizera após ter acordado pela primeira vez no

quarto branco. Como havia conseguido se comunicar telepaticamente

comThomas? Estaria ou não do lado dele?

Mas, sobretudo, pensava em Teresa. Não conseguia tirá-la da

cabeça e a odiava um pouco mais a cada instante. Suas últimas palavras

para ele haviam sido: o CRUEL é bom, e, bem ou mal, ela passara a

simbolizar tudo de horrível que tinha lhe acontecido. Toda vez que pensava

nela, a raiva fervilhava dentro dele.

Talvez a raiva fosse o último fio que o ligasse à sanidade durante

aquela espera interminável.

Comer. Dormir. Exercitar-se. Sede de vingança. Foi essa a vida de

Thomas durante mais três dias. Sozinho.

No vigésimo sexto dia, a porta se abriu.

Thomas imaginou inúmeras vezes aquilo acontecendo. O que faria,

o que diria. Como se precipitaria e atacaria qualquer um que entrasse e

sairia correndo para fugir dali. Mas esses pensamentos lhe ocorriam, mais

que por qualquer outra coisa, quase por diversão. Sabia que o CRUEL não

deixaria que algo assim acontecesse. Não; precisava planejar todos os

detalhes antes de arriscar sequer um movimento.

Quando aquilo realmente aconteceu - quando a porta se abriu, com

um ruído leve como uni sopro, e começou a se escancarar -, Thomas ficou

surpreso diante da própria reação: não fez absolutamente nada. Algo lhe

dizia que uma barreira invisível havia surgido entre ele e a escrivaninha -

como acontecera após terem saído do Labirinto. O momento da ação não

havia chegado. Não ainda.

Sentiu apenas uma ligeira surpresa à entrada do Homem-Rato - o

sujeito que havia contado aos Clareanos sobre os Experimentos no Deserto,

o último pelo qual tinham passado. O mesmo nariz comprido, os olhos

semelhantes aos de uma doninha; aquele cabelo seboso, poucos fios

penteados sobre uma careca evidente, que tomava metade de sua cabeça. E

o mesmo terno branco ridículo. No entanto, parecia mais pálido que da

última vez. Segurava uma grossa pasta repleta de papéis amassados e

amontoados na dobra de um dos cotovelos, arrastando uma cadeira de

encosto reto.

- Bom dia, Thomas - cumprimentou ele com um aceno formal da

cabeça. Sem esperar resposta, fechou a porta, colocou a cadeira atrás da

escrivaninha e sentou. Colocou a pasta diante dele, abriu-a e passeou a

folhear as páginas. Quando encontrou a que buscava, parou e a pegou nas

mãos. Em seguida, esboçou um sorriso patético, os olhos pousando

vagarosamente sobre Thomas.

Só quando o garoto fez menção de se manifestar foi que se deu

conta de que não o fazia havia semanas, e a voz surgiu como um grasnado:

- Só será um bom dia se me deixar sair daqui.

A expressão do homem não exibiu nem um vislumbre de

movimentação.

- Sim, sim, eu sei. Não precisa se preocupar; hoje você vai ouvir

novidades muito positivas. Confie em mim.

Thomas refletiu a respeito, envergonhado por deixar que o Homem-

Rato despertasse suas esperanças, ainda que por um segundo. Àquela

altura, não deveria mais ser tão ingênuo.

- Notícias positivas? Não nos escolheram, afinal, porque achavam

que fôssemos inteligentes?

O Homem-Rato permaneceu em silêncio por vários segundos antes

de responder:

- Inteligentes, sim. Entre muitas outras razões importantes. - Fez

uma pausa e estudou Thomas antes de continuar: - Acha que gostamos

disso tudo? Por acaso pensa que nos divertimos vendo-os sofrer? Isso tudo

aconteceu por um propósito, que logo fará sentido para você. - A

intensidade de sua voz foi aumentando até praticamente gritar a última

palavra, o rosto agora vermelho.

- Uau! - disse Thomas, sentindo-se corajoso pelo menos durante

aquele minuto. - Esfrie a cabeça aí, meu velho.Você parece a três passos

de um ataque cardíaco. - Sentiu-se bem ao deixar as palavras fluírem.

O homem se levantou da cadeira e se inclinou para a frente, sobre

a escrivaninha. As veias do pescoço incharam como cordas tensas de um

instrumento. Tornou a sentar-se lentamente e respirou fundo várias vezes.

- Seria de esperar que quase quatro semanas nesta caixa branca

tornariam um garoto humilde. Mas você parece mais arrogante que nunca.

- Então vai me dizer que não estou louco? Que não tenho o Fulgor?

Que nunca tive? -Thomas não conseguia se conter.A raiva crescia dentro

dele, até que se sentiu prestes a explodir. Mas se obrigou a impor calma à

voz. - Foi isso que me manteve são durante todo esse tempo. No fundo, sei

que mentiu para Teresa, que este é apenas mais uni de seus Experimentos.

E então? Para onde eu vou agora? Vão me mandar para a mértila da Lua?

Vão me obrigar a nadar no oceano só de cuecas? - Sorriu para enfatizar a

ironia das palavras.

O Homens-Rato observava Thomas com olhos inexpressivos

durante seu desvario.

- Acabou?

- Não, não acabei. - Havia dias e dias aguardara uma oportunidade

para falar, mas, agora que ela havia surgido de fato, sua mente ficara

vazia.Tinha esquecido de todos os cenários projetados na mente. - Quero...

que me conte tudo. Agora.

- Oh, Thomas - falou o Homem-Rato cone calma, como se fosse

dar unia notícia triste a uma criança pequena. - Não mentimos sobre isso.

Vocês têm o Fulgor.

Thomas se sentiu embaraçado; um calafrio cortou o ímpeto de sua

raiva. Será que mesmo depois de tudo o Homem-Rato continuava a mentir?,

ponderou. Mas deu de ombros, como se fosse indiferente àquela notícia.

- Bem, não comecei a enlouquecer ainda. -Até certo ponto, após

todo aquele tempo atravessando o Deserto, convivendo com Brenda e

cercado por Cranks, conformara-se com o fato de que tivesse mesmo

contraído o vírus. Mas se convencera de que por ora estava bem; estava

são. E era isso o que importava.

O Homem-Rato deixou escapar um suspiro.

-Você não entende. Não entende o que vim aqui para lhe dizer.

- Por que deveria acreditar em unia só palavra que saísse de sua

boca? Como pode esperar isso de mim?

Thomas percebeu que estava em pé, embora não tivesse lembrança

de ter se levantado. Seu peito se agitou em inspirações pesadas. Precisava

se controlar. O olhar do Homem-Rato era frio, os olhos semelhantes a dois

poços negros. Não importava se o homem havia mentido ou não; Thomas

sabia que teria de ouvi-lo se quisesse algum dia sair daquele quarto branco.

Obrigou-se a se tranquilizar. E esperou.

Depois de vários segundos de silêncio, o visitante prosseguiu:

- Sei que mentimos para você. Muitas vezes. Fizemos coisas

terríveis com você e seus amigos. Mas era tudo parte de um plano com o

qual vocês não apenas concordaram, mas ajudaram a planejar. Tivemos de

levá-lo um pouco mais adiante do que pretendíamos no início; não há dúvida

sobre isso. Entretanto, tudo permaneceu em conformidade com o espírito

do que os Criadores vislumbraram, do que vocês mesmos vislumbraram.

Thomas sacudiu a cabeça lentamente; lembrava-se de já ter um

dia, de algum modo, se envolvido com aquelas pessoas; mas a ideia de

fazer qualquer um passar pelo que tinha passado era inconcebível.

- Você não me respondeu. Como pode esperar que eu acredite em

qualquer coisa que me diga? - Recordava de mais coisas do que deixava

transparecer, é claro. Embora a janela para o passado estivesse embaçada

de sujeira, revelando pouco mais que vislumbres enevoados, sabia que havia

trabalhado com o CRUEL. Sabia que Teresa também o tinha feito e que

haviam ajudado a criar o Labirinto. Além destes, existiam outros flashes de

memória.

- Ora, Thomas, não há razão de mantê-lo no escuro - respondeu o

Homem-Rato. - Não mais.

Thomas sentiu um repentino cansaço, como se todas as forças

houvessem se esvaído de seu corpo. Deixou-se cair no chão com um

profundo suspiro. Balançou a cabeça.

- Não sei o que está dizendo. - Qual era a razão de ter uma

conversa se não se podia confiar nas palavras?

O Homem-Rato continuou falando, mas seu tom mudou; tornou-se

menos objetivo e clínico, e mais professoral.

- Obviamente você tem consciência de que temos uma terrível

doença devorando a mente dos humanos no mundo todo.Tudo o que fizemos

até agora foi calculado com um único propósito: analisar padrões cerebrais

e construir uni plano segundo os dados obtidos. O objetivo é usar esse

plano para desenvolver uma cura para o Fulgor. As vidas perdidas, a dor e o

sofrimento, você conhecia esses riscos mesmo antes de começar. Todos

conhecíamos. Tudo foi feito para garantir a sobrevivência da raça humana.

E estancos muito perto. Muito, muito perto.

Várias lembranças atravessaram a mente de Thomas. A

Transformação, os sonhos que havia tido desde então, vislumbres fugazes

aqui e ali, como lampejos velozes de luz riscando-lhe a consciência. E,

naquele exato momento, ouvindo a conversa do homem de terno branco,

parecia estar à beira de uni penhasco, de cujas profundezas as respostas

viriam à tona, a qualquer instante, para que as compreendesse por

completo. A urgência em obter as respostas era quase perigosa demais

para continuar olhando dali o desfiladeiro.

Mas não perdera a consciência. Havia sido unia parte daquilo tudo,

tinha ajudado a planejar o Labirinto, havia assumido a liderança depois que

os Criadores originais tinham sucumbido e mantido o progresso do

programa com novos recrutas.

- Lembro o suficiente para me envergonhar de mim mesmo -

admitiu. - Mas suportar esse tipo de abuso é bem diferente de planejá-lo.

Isso não está certo.

O Homem-Rato coçou o nariz e mudou de posição na cadeira. Algo

que Thomas dissera o havia afetado.

-Vamos ver o que você pensa no final do dia,Thomas.Vamos ver.

Mas deixe-nie perguntar o seguinte: está me dizendo que a vida de alguns

não tem valor se for para salvar outras, incontáveis? - De novo o homem

se expressou com paixão, inclinando-se para a frente. - É uni clichê, eu sei,

mas você não acredita que o fim justifica os meios quando não há outra

escolha?

Thomas o encarou fixamente. Era uma pergunta para a qual não

havia unia boa resposta.

O Homem-Rato poderia ter sorrido, mas parecia mais propenso a

um comentário zombeteiro.

- Lembre-se apenas de que em certa ocasião você acreditou que

justificasse, Thomas. - Começou a juntar os papéis como se estivesse de

saída, mas não fez menção de se levantar. - Estou aqui para lhe dizer que

tudo está pronto e que nossos dados estão quase completos. Estamos a um

passo de algo imenso. Quando tivermos o Esboço em mãos, pode se

queixar com seus amigos sobre o quanto fomos injustos.

Thomas queria atingir o homem com palavras ásperas, mas tentou

se conter:

- Como nos torturar poderia resultar nesse Esboço do qual está

falando? O que poderia justificar o envio de um bando de adolescentes,

contra a própria vontade, a lugares terríveis, ou mesmo observar alguns

deles morrer? De que maneira todo esse horror pode se relacionar com a

cura de uma doença?

- Tem tudo a ver com isso. - O Homem-Rato suspirou

pesadamente. - Garoto, logo você vai se lembrar; e tenho a sensação de

que vai se arrepender uni bocado. Nesse meio-tempo, há algo que precisa

saber. Talvez a informação o faça recuperar a razão.

- E o que é? -Thomas não tinha a menor ideia do que o homem

queria dizer.

O visitante se levantou, alisou o vinco da calça e ajeitou o paletó.

Depois juntou as mãos às costas numa postura solene.

- O vírus do Fulgor está em todas as partes de seu corpo, mas não

tem efeito sobre você, e jamais terá. Você faz parte de um grupo

seleto,Thomas, porque é Imune ao Fulgor.

Thomas engoliu em seco, incapaz de articular as palavras.

- Lá fora, nas ruas, chamam pessoas assim de Privilegiados. - O

Homem- -Rato prosseguiu: - E eles odeiam, odeiam mesmo gente como

você.

Thomas não conseguia concatenar os pensamentos. Apesar de

todas as mentiras que haviam lhe contado, tinha certeza de que o que

acabara de ouvir era verdade. Se levado em conta em relação aos últimos

Experimentos, fazia muito sentido. Ele, e provavelmente os outros

Clareanos, bem como todos do Grupo B, eram Imunes ao Fulgor. Por isso

haviam sido escolhidos para os Experimentos. Tudo o que acontecia a eles -

todas as peças que haviam lhes pregado, as mentiras, os monstros

colocados no cantinho - tinha sido parte de uni plano bem elaborado. E, de

algum modo, aquilo conduzia o CRUEL a uma cura.

Tudo se encaixava. Mais que isso, a revelação provocou um lampejo

de lembrança. Parecia algo familiar.

- Posso ver que acredita em mim - disse o Homem-Rato por fim,

rompendo o longo silêncio. - Quando descobrimos que havia pessoas como

você, com o vírus enraizado dentro delas, mas sem exibir os sintomas,

procuramos os melhores e os mais brilhantes desse grupo. Foi assim que o

CRUEL nasceu. É claro que alguns do seu grupo experimental não são

Imunes; foram escolhidos como indivíduos-controle. Quando se realiza um

Experimento, é necessário um grupo-controle,Thomas. Eles são como uma

liga que mantém os dados no contexto.

Essa última parte fez o coração de Thomas se oprimir.

- Quem não é... - A pergunta não saiu. Estava apavorado demais

para ouvir a resposta.

- Quem não é Imune? -As sobrancelhas do Honieni-Rato se

arquearam. - Bem, acho que eles vão descobrir antes de você, não concorda

comigo? Mas façamos unia coisa de cada vez.Você fede como um cadáver,

morto há unia semana.Vou levá-lo para um banho e lhe arranjarei roupas

limpas. - Com isso, pegou a pasta e se virou na direção da porta. Estava

prestes a transpô-la, quando a mente de Thomas entrou em foco.

- Espere! - gritou.

O visitante se virou para trás para encará-lo.

- O que foi?

- Quando falou sobre o Refúgio Seguro, por que mentiu a respeito

de existir uma cura para o Fulgor?

O Homens-Rato deu de ombros.

- Não acho que tenha sido unia mentira.Ao completar os

Experimentos e chegar ao Refúgio Seguro, vocês de fato nos ajudaram a

coletar riais dados. E, por causa deles, haverá unia cura. Para todos.

- Por que está me contando tudo isso? Por que agora? E por que me

mantiveram aqui durante quatro semanas? - Thomas andou a esmo pelo

quarto, examinando o teto e as paredes acolchoadas, e o patético vaso

sanitário a uni canto.As lembranças esparsas não estavam suficientemente

sólidas para extrair qualquer sentido das coisas bizarras pelas quais havia

passado. - Por que mentiram para Teresa, dizendo-lhe que fiquei louco e

violento, e me mantiveram aqui todo esse tempo? Qual é a razão disso?

- Variáveis - respondeu o Homem-Rato. - Tudo o que fizemos com

você foi cuidadosamente calculado pelos Psis e pelos médicos. Provocamos

essas situações para estimular respostas na Zona de Conflito Letal, onde o

Fulgor causa danos; para estudar os padrões de diferentes emoções,

reações e pensamentos, e ver como trabalham nas profundezas do vírus

enraizado em você. Desejamos entender por quê, em você, não há uni efeito

debilitante. E tudo isso está relacionado aos padrões da Zona de Conflito

Letal, Thomas. Mapeamos suas reações cognitivas e fisiológicas para criar

uni Esboço para a cura potencial. Tudo o que fazemos é visando à cura.

- Onde é a Zona de Conflito Letal? - perguntou Thomas, tentando se

lembrar, mas deparando apenas com um vácuo mental. - Responda-me

apenas esta última pergunta, e vou com você.

- Por quê,Thomas? - replicou o homem. - Estou surpreso que ter

sido atormentado pelos Verdugos não o tenha feito se lembrar de mais

coisas.A Zona de Conflito Letal é o seu cérebro; é nele que o vírus se

instala e se apodera da pessoa. Quanto mais infectada a Zona de Conflito

Letal, mais paranoico e violento é o comportamento do infectado. O CRUEL

está usando seu cérebro, e o dos poucos outros sobreviventes, para nos

ajudar a achar uma cura. - O Homem-Rato parecia satisfeito consigo

mesmo. Quase feliz. - Agora, venha. É hora do banho. E, apenas para que

saiba, estamos sendo observados. Tente qualquer coisa, e haverá

consequências.

Thonias sentou-se, tentando processar todas as informações que

acabara de ouvir. As palavras soavam verdadeiras, e os dados se

encaixavam, levando em conta as lembranças das últimas semanas. No

entanto, a desconfiança que sentia pelo Homem-Rato e pelo CRUEL ainda

lançava dúvidas sobre tudo o que ouvira.

Então se levantou, deixando a mente trabalhar em meio às novas

revelações, no aguardo de que se associassem em belas e pequenas pilhas

para análise posterior. Sem mais uma palavra, atravessou o quarto e seguiu

o Homem-Rato porta afora, deixando atrás de si a cela alva e ofuscante.

Nada chamava a atenção no prédio em que se encontrava. Um longo

corredor de piso ladrilhado, paredes bege com quadros emoldurados que

retratavam cenas da natureza: ondas rebentando numa praia, uni beija-flor

pairando ao lado de unia flor vermelha, chuva e névoa encobrindo uma

floresta. Lâmpadas fluorescentes acima deles iluminavam o caminho. O

Homem-Rato o conduziu por uni trajeto sinuoso, até pararem diante de unia

porta. Ele a abriu e fez uni gesto para que Thomas entrasse. Era uni grande

banheiro com armários e chuveiros alinhados. Uni dos armários tinha a

porta aberta, exibindo roupas limpas e uni par de tênis. E até mesmo uni

relógio de pulso.

- Você tem cerca de trinta minutos - instruiu o Homem-Rato. -

Quando estiver pronto, é só sentar e virei buscá-lo. Depois vai se juntar a

seus amigos.

Por alguma razão, diante da palavra amigos, a imagem de Teresa

surgiu na mente de Thomas. Tentou chamá-la mentalmente, mas nada

aconteceu. Apesar do crescente desdém que sentia por ela, o vazio de sua

ausência ainda pairava como unia bolha de ar inquebrável dentro dele. Era

um vínculo com o passado, e tinha certeza, sem sombra de dúvida, de que

ela fora sua melhor amiga - aliás, essa era uma das únicas coisas em sua

existência de que tinha certeza. Thomas teve muita dificuldade em afastá-

la do pensamento.

O Homem-Rato lhe fez um aceno com a cabeça.

-Vejo você daqui a meia hora - falou. Em seguida, abriu a porta e a

fechou atrás de si, deixando Thomas sozinho mais unia vez.

Ainda não tinha outro plano além de encontrar os amigos, mas pelo

menos estava um passo mais próximo dele. E, embora não tivesse ideia do

que esperar, pelo menos saíra daquele quarto. Enfim. E, agora, uni banho

quente.A oportunidade de se limpar. Nada jamais lhe soara tão agradável.

Deixando as preocupações de lado por ora,Thomas tirou as roupas imundas

e foi tratar de se tornar humano de novo.

Camiseta, jeans e tênis, como os que usava no Labirinto. Meias

limpas e macias. Depois de se lavar da cabeça aos pés pelo menos cinco

vezes, sentiu-se renascer. Não conseguia impedir o pensamento de que dali

em diante as coisas iriam melhorar. Que a partir daquele momento

assumiria o controle da própria vida. Se pelo menos o espelho não lhe

lembrasse da tatuagem - aquela que aparecera antes de irem para o

Deserto. A tatuagem era uni símbolo permanente do que havia enfrentado, e

gostaria de poder esquecer aquilo tudo.

Ficou de pé do lado de fora do banheiro, encostado à parede com os

braços cruzados, só esperando. Ponderou se o Homem-Rato voltaria mesmo

ou se deixaria Thomas perambulando pelo lugar, para dar início a mais uni

Experimento. Mal havia iniciado aquela linha de reflexão, quando ouviu

passos e viu a roupa branca surgir na extremidade do corredor.

- Ora, ora. Não é que está com um aspecto bem agradável? -

comentou o Homem-Rato, os cantos da boca se curvando para cima, em

direção às maçãs do rosto, fazendo despontar um sorriso aparentemente

desconfortável.

Umas cem respostas sarcásticas cruzaram o pensamento de

Thonias, mas optou por se comportar direito. Tudo o que importava no

momento era reunir o máximo de informações possíveis e, em seguida,

encontrar coai os amigos.

- Sinto-me ótimo, realmente. Bem... obrigado. - Obrigou-se a

estampar uni sorriso casual no próprio rosto. - Quando verei os outros

Clareanos?

-Agora mesmo. - O Homem-Rato era todo profissionalisnio. Apontou

com a cabeça o lugar de onde tinha vindo e fez uni gesto para que Thomas

o seguisse. -Todos vocês foram submetidos a diferentes tipos de testes

para a Terceira Fase dos Experimentos. Esperávamos ter os padrões da

Zona de Conflito Letal mapeados no final da Segunda Fase, mas tivemos de

improvisar e seguir adiante. No entanto, como lhe disse, estancos muito

perto. Agora, todos serão parceiros no estudo, o que nos ajudará no ajuste e

aprofundamento necessários, até resolvermos este quebra-cabeça.

Thomas revirou os olhos. Supunha que sua Terceira Fase havia sido

o quarto branco, mas e quanto aos outros? Por mais que houvesse odiado o

próprio Experimento, não conseguia evitar o pensamento de que o CRUEL

seria capaz de outras formas ainda piores de tortura. Quase desejava

jamais descobrir o que haviam planejado para seus amigos.

O Homem-Rato chegou a unia porta.Abriu-a sem hesitação e a

transpôs.

Adentraram uni pequeno auditório, e Thomas sentiu uni alívio

imediato. Espalhados por cerca de unia dúzia de fileiras de cadeiras

estavam seus amigos, em segurança e com aparência bastante saudável.

Os Clareanos e as garotas do Grupo B. Minho, Caçarola, Newt,Aris, Sonya,

Harriet.Todos pareciam felizes - falavam e sorriam -, embora pudessem,

até certo ponto, fingir toda aquela descontração. Thomas supôs que

também haviam contado a eles que o sofrimento tinha chegado ao fim,

mas duvidava que qualquer uni deles houvesse acreditado na história. Ele,

por certo, não acreditara. Não ainda.

Olhou pela sala procurando por Jorge e Brenda; desejava rever a

amiga. Estava ansioso com relação a seu desaparecimento depois que o

Berg os resgatara, preocupado que o CRUEL a tivesse enviado, na

companhia de Jorge, ao Deserto, como ameaçara fazer a princípio. Mas ali

não havia nem sinal dos dois. Entretanto, antes que pudesse perguntar

sobre eles ao Homens-Rato, unia voz sobressaiu em meio ao burburinho, e

Thomas não conseguiu evitar que uni sorriso largo se abrisse em seu rosto:

- Digani se me enganei, se é que não estou em algum paraíso de

niértila, mas não é nosso amigo Thomas? - gritou Minho. O anúncio foi

seguido por saudações e assobios. Uma onda de alívio, mesclada a

preocupação, fazia o estômago de Thomas revirar, e ele continuou a

esquadrinhar rostos na sala. Emocionado demais para falar, continuou

apenas sorrindo, até que seus olhos encontraram os de Teresa.

Ela se levantou e ajeitou a cadeira no fim da fila para observá-lo

melhor. O cabelo negro, bem tratado, escovado e brilhante caía-lhe sobre os

ombros, emoldurando o rosto de pele muito clara. Os lábios vermelhos se

abriram em um enorme sorriso, que iluminou suas feições, fazendo os

olhos azuis cintilar. Thomas quase foi até ela, mas se conteve, a mente

enevoada com vivas lembranças do que Teresa havia feito com ele, a

afirmação de que o CRUEL era bom, mesmo depois de tudo o que ocorrera.

Consegue me ouvir?, dirigiu-se a ela telepaticamente, apenas para

verificar se a habilidade retornara.

Mas Teresa não respondeu, e ele não sentia, de fato, a presença da

voz dela dentro dele; apenas um vazio. Ficaram os dois ali de pé,

entreolhando-se, os olhos imóveis pelo que pareceu ter durado um minuto

inteiro, embora pudesse ter sido apenas alguns segundos. Logo Minho e

Newt estavam ao lado dele, dando-lhe tapinhas nas costas, pegando sua

mão e o arrastando para dentro da sala.

- Bem, pelo menos não foi ferido nem sangrou até morrer, Tommy

- disse Newt, apertando com firmeza a mão dele. O tom de voz parecia

mais nervoso que o habitual, especialmente considerando que não se viam

há semanas. No entanto, estava inteiro - era algo a agradecer.

Minho tinha um sorriso forçado no rosto, mas um brilho duro no

olhar evidenciava que havia passado por situações difceis. Que ainda não

tinha voltado a ser inteiramente o que era, embora se esforçasse ao

máximo para agir como se fosse o mesmo de antes.

- Os poderosos Clareanos, juntos de novo. É bom saber que está

vivo, seu cara de mértila. Imaginei você morto em cerca de cem maneiras

diferentes. Aposto que chorou todas as noites com saudades de mim.

- Claro que sim - murmurou Thomas, entusiasmado por rever todos

eles, mas ainda se esforçando para encontrar as palavras. Separou-se do

grupo e se dirigiu aonde Teresa estava. Sentia uma urgência esmagadora

em fitá-la, para ver se lhe transmitia algum tipo de paz, até poder decidir o

que fazer. - Oi.

- Oi - respondeu ela. -Você está bem?

Thomas assentiu.

- Acho que sim. Foram semanas bastante difíceis. Você consegue...

- Deteve-se. Quase tinha confessado sua tentativa de chamá-la

mentalmente, mas não quis lhe dar o gostinho de saber que havia tentado

algo parecido.

- Eu tentei, Tom. Todos os dias, tentei me comunicar com você.

Eles cortaram nossa comunicação, mas acho que valeu a pena. - Ela

estendeu a mão e pegou a dele, o que desencadeou uni coro de gozações

por parte dos Clareanos.

Thomas se desvencilhou das mãos dela com rapidez, sentindo o

rosto enrubescer. Por alguma razão, as palavras dela o haviam deixado

zangado de repente, embora os demais interpretassem a violência do gesto

como mero constrangimento.

- Puxa! - falou Minho. - É quase tão doce quanto aquela vez que ela

atingiu sua cara de mértila com a ponta de uma lança.

- Isso é que é amor de verdade - acrescentou Caçarola, e a frase

foi acompanhada pela peculiar gargalhada animalesca. - Mal posso esperar

para ver o que acontecerá quando os dois tiverem a primeira briga de

verdade.

Thomas não se importava com o que os amigos pensavam, mas

estava determinado a mostrar a Teresa que não escaparia sem mais

consequências de todo o sofrimento pelo qual o fizera passar. Fosse qual

fosse o elo de confiança que tivessem compartilhado antes dos

Experimentos e o relacionamento que houvessem tido, não significavam

mais nada agora. Podia até experimentar uma espécie de paz ao lado dela,

mas decidiu naquele exato momento que só confiaria em Minho e Newt. E

eni ninguém mais.

Fez menção de abrir a boca para responder, aias o Homem-Rato

passou a andar pelo corredor entre as fileiras de cadeiras, enquanto batia

palmas.

- Sentem-se todos. Temos coisas para tratar antes de removermos

a perturbação causada pelo Dissipador.- Disse aquilo de maneira tão casual

que Thomas quase não captou a informação. Quando registrou as palavras

removermos a perturbação causada pelo Dissipador, congelou.

A sala ficou em silêncio, e o Homem-Rato subiu ao tablado na

frente da sala, aproximando-se da mesa. Apoiando em suas extremidades,

repetiu o mesmo sorriso desconfortável de antes e prosseguiu:

- Muito bem, senhoras e senhores.Vocês estão prestes a receber

todas as lembranças de volta. Até a última delas.

Thomas ficou estupefato. Com a mente em um turbilhão, foi

sentar-se ao lado de Minho.

Depois de lutar por tanto tempo para recordar sua vida, sua família

e sua infância, ou mesmo o que havia feito no dia anterior ao que acordara

no Labirinto, a ideia de ter tudo aquilo de volta era quase demais para

elaborar. Mas, à medida que a informação ia se assentando na cabeça,

percebeu que algo havia mudado. Lembrar-se de todo o passado não parecia

mais tão agradável. E as entranhas revirando dentro dele confirmaram o

que vinha sentindo desde que o Homem-Rato lhe dissera que estava tudo

acabado: aquilo parecia fácil demais.

O Homens-Rato pigarreou para limpar a garganta.

- Tal como informado nas entrevistas individuais, os Experimentos

como os conheceram foram finalizados hoje. Uma vez que a memória de

vocês seja restaurada, tenho certeza de que acreditarão em mim, e

poderemos ir adiante.A todos foi transmitido um breve resumo sobre o

Fulgor e as razões para os Experimentos. Estamos muito perto de concluir

o Esboço da Zona de Conflito Letal. Os dados que necessitamos para

aprimorar o que já temos serão mais adequados se servidos pela plena

cooperação de vocês, com a mente em estado de perfeita consciência.

Portanto, parabéns.

- Devia ir até aí para quebrar esse seu nariz de mértila -

resmungou Minho. O tom da voz estava terrivelmente calmo, considerando

a ameaça das palavras. - Estou farto de você agir como se tudo fosse

lindo; como se mais da metade de nossos amigos não tivesse morrido.

- Adoraria ver o nariz desse rato esmagado! - acrescentou Newt.

A raiva em sua voz impressionou Thomas, que nem sequer pôde

imaginar a que coisas horríveis Newt fora submetido durante a Terceira

Fase.

O Homem-Rato revirou os olhos e deixou escapar um suspiro.

- Antes de qualquer coisa, vocês têm de ser advertidos de que

haverá consequências caso tentem me ferir. E fiquem informados de que

todos ainda estão sob vigilância. Em segundo lugar, sinto muito pela morte

de entes queridos, mas no fim terá valido a pena. O que me preocupa, no

entanto, é que nenhuma palavra minha parece ter despertado vocês para a

gravidade do assunto: falamos aqui da sobrevivência da raça humana.

Minho tomou fôlego, como se fosse iniciar uma briga, mas se

conteve e fechou a boca.

Para Thomas, não importava quanta sinceridade o Homem-Rato

deixasse transparecer em suas palavras, aquilo tinha de ser um truque.

Tudo era um truque. Mas, àquela altura, sabia que nada de bom resultaria

em combatê-lo, nem com palavras, nem com os punhos. Por enquanto,

precisavam mesmo era de paciência.

-Vamos nos acalmar, pessoal - comentou Thomas com

tranquilidade. -Vejamos o que ele tem a nos dizer.

No momento em que o Homem-Rato fez menção de prosseguir,

Caçarola o interrompeu:

- Nos dê apenas um motivo para confiar que vocês vão... como foi

que chamou? Dissipador? Depois de tudo o que fizeram com a gente, com

nossos amigos, querem remover a perturbação causada pelo tal do

Dissipador? Não, obrigado. Prefiro continuar ignorando meu passado, mas

me sinto profundamente sensibilizado e agradecido.

- O CRUEL é bom - ouviu-se a voz de Teresa num rompante, como

se falasse consigo mesma.

- O quê? - perguntou Caçarola. Todos se viraram para encará-la.

- O CRUEL é bom - repetiu, muito alto, ajeitando-se melhor na

cadeira para enfrentar o olhar de todo o grupo. - De todas as coisas que

poderia ter escrito em meu braço quando acordei do coma, escolhi essas

palavras. Já refleti sobre o assunto, e tem de haver uma razão para isso.

Precisamos nos calar e fazer o que o homem diz. Só poderemos entender