Melancolia e questões estéticas Giorgio De Chirico por Paulo Roberto Amaral Barbosa - Versão HTML

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Melancolia e Questões Estéticas

Giorgio De Chirico

Universidade de São Paulo

Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais

MELANCOLIA E QUESTÕES ESTÉTICAS

Giorgio De Chirico

Paulo Roberto Amaral Barbosa

Escola de Comunicações e Artes

ECA USP

São Paulo

2011

MELANCOLIA E QUESTÕES ESTÉTICAS

Giorgio De Chirico

Paulo Roberto Amaral Barbosa

Tese de doutorado a ser apresentada ao Programa de

Artes Visuais da Escola de Comunicações e Artes da

Universidade de São Paulo – ECA-USP, na área de

concentração Teoria, Ensino e Aprendizagem da Arte,

na Linha de Pesquisa História, Crítica e Teoria da Arte,

sob a orientação da Profa. Dra. Elza Maria Ajzenberg.

São Paulo, 2011

ECA USP

FOLHA DE APROVAÇÃO

Autor: Paulo Roberto Amaral Barbosa

Título: Melancolia e Questões Estéticas – Giorgio De Chirico

Tese defendida e aprovada em: ____ /____ /_______ pela banca

examinadora:

______________________________________

______________________________________

______________________________________

______________________________________

______________________________________

Para Emília e Zeni que, incondicionalmente, estão comigo sempre.

Aos meus irmãos

AGRADECIMENTOS

Quero agradecer com especial carinho à Profa. Lisbeth, ao Prof.

Percival, ao Prof. Kabengele, ao Prof. Frayze-Pereira, e ao Prof. Edson

Leite que muito contribuíram para o desenvolvimento desta tese.

Com grande entusiasmo agradeço também: Ana Farinha, Beatriz

Cavalcanti, Claudia Assir, Regina Pavão, Elaine Maziero, Roseli, Cida,

Renata, Rejane, Ariane, Márcia, Cris Cabral, Gabriel Borba e Sara.

Ao meu cunhado Valter, aos meus sobrinhos Tatiana, Daniel e Denise

pelas nossas conversas durante o desenrolar deste trabalho.

À Lígia e Eliany pela preciosa assistência na tradução de textos

contributivos para a tese.

À Aleca por todos os motivos.

À Profa. Elza pela tenacidade e esmero com que me orientou nesta viagem

poética.

RESUMO

A reflexão sobre a melancolia, na produção estética de Giorgio De

Chirico, compõe o arcabouço da presente pesquisa. Neste estudo,

são considerados sentimentos e ressentimentos que permeiam

aspectos biográficos e estéticos ligados direta e/ou indiretamente

às questões da melancolia na obra do artista Giorgio De Chirico.

A constituição melancólica de sua produção seria sustentada pelas

referências do artista? Isto é, a reconhecida influência de filósofos

como, Nietzsche e Schopenhauer e de artistas como Arnold

Böcklin e Max Klinger forneceria o embasamento à postura

melancólica de De Chirico? O contexto vivido na Europa, no

século XX (cercado por duas Guerras Mundiais) contribuiu para a

adoção

desta

condição?

As

circunstâncias

biográficas

direcionariam o artista para a expressão da melancolia em seus

trabalhos? E, por fim, De Chirico utilizaria o que poderia se

chamar de uma “estética da melancolia” como um dos eixos de

sua reflexão poética? A elucidação dessas perguntas pode residir

nas fontes históricas que unem melancolia e arte desde os escritos

dos filósofos gregos, passando pelas questões do Renascimento e

chegando ao ideário moderno – do qual De Chirico é fruto.

ABSTRACT

The melancholy reflection on the aesthetic production of Giorgio De

Chirico makes up the framework of this research. In this study, the

feelings and resentments that permeate biographical aspects and

aesthetic and linked directly or indirectly with issues of melancholy

in the work of artist Giorgio De Chirico, are considered. Would the

melancholy constitution of his production be sustained by the

references of the artist? That is, would the recognized influence of

philosophers like Nietzsche and Schopenhauer and artists such as

Arnold Böcklin and Max Klinger provide the basis for de Chirico's

melancholy posture? Would the context experienced in Europe in the

twentieth century (surrounded by two world wars) contribute to the

adoption of this condition? Would the biographical circumstances

steer the artist to the expression of melancholy in his works? Finally,

would De Chirico utilize what might be called an "aesthetics of

melancholy” as one of the pillars of his poetic reflection? The

elucidation of these questions may lie in the historical sources that

combine art and melancholy from the writings of the Greek

philosophers, through questions of the Renaissance and coming to

modern ideas - of which De Chirico is the fruit.

PALAVRAS-CHAVE

Melancolia; Giorgio De Chirico; Arte Moderna

KEY WORDS

Melancholy; Giorgio De Chirico, Modern Art

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO............................................................................12

ESTÉTICA DA MELANCOLIA................................................20

Os Humores e a Bílis Negra...............................................21

O Anjo de Dürer e os Herdeiros de Saturno....................30

“A Doce Melancolia” – Séculos XVIII e XIX...................44

LEITURAS DA MODERNIDADE............................................62

O Estado Melancólico.........................................................63

A “Revelação” e A Guerra.................................................72

O Retorno ao Passado e/ou Rumo ao Futuro...................82

DE CHIRICO E A “SOLIDÃO DOS SIGNOS”.......................91

“O Poder da Ruína”............................................................92

As Metáforas Plásticas......................................................102

A Atmosfera (Luz e Sombra)...........................................134

CONSIDERAÇÕES FINAIS....................................................139

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.....................................145

ANEXO: BIOGRAFIA DE GIORGIO DE CHIRICO..........153

11

Por que todos os homens considerados excepcionais

( perittói), no que concerne à filosofia, à política, à

poesia ou às artes, são manifestamente melancólicos

( melancholikói) e alguns a ponto de serem tomados por

males da bílis negra ( melaínes cholés)?

Aristóteles, Problèmes. Tome III, Problema XXX, 953 a 10. Sections XXVII à XXXVIII et

index. Texte et traduit par Pierre Louis. Paris, Les Belles Lettres, 1994.

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12

INTRODUÇÃO

13

Inerente à condição humana, a expressão da melancolia se faz presente

em muitos momentos da História da Arte. Manifestações artísticas remotas,

clássicas ou mais recentes, têm buscado expressar esse “mal-estar”. O termo

melancolia vem do grego (μέλας "negro" e χολή "bilis"). Hipócrates de Cós, no

século V a.C, elabora a teoria dos quatro humores corporais (sangue, fleugma ou

pituíta, bílis amarela e bílis negra). Para o filósofo, esses humores são

responsáveis pelo equilíbrio ou desequilíbrio do indivíduo, indicando a saúde

( eucrasia), a enfermidade e a dor ( discrasia).1 Hipócrates sugere que a influência

de Saturno leva o baço a secretar mais bílis negra, escurecendo-o, alterando o

humor do indivíduo, levando-o ao estado de melancolia.2 A conexão estreita

entre melancolia (Saturno), a disposição sanguínea (Júpiter), o sentimento

colérico (Marte) e o fleumático (Lua), parece ter sido estabelecida, pela primeira

vez, por escritores árabes, no século IX. Al-Kindt, por exemplo, distingue quatro

partes do círculo do dia segundo os quatro humores ou temperamentos.3

A tradição dos estudos sobre a melancolia tem como marco o Problema

XXX, 1 de Aristóteles (no qual os gênios teriam uma pré-disposição ao

sentimento). Passa pelas ideias de Galeno (nas quais, configura-se em doença do

corpo e da alma) e recebe variadas interpretações de diversos outros pensadores

da Antiguidade. Torna-se uma questão discutida, particularmente nos períodos de

crise da cultura ocidental, como por exemplo, durante a Idade Média,

1 SCLIAR, Moacyr. Saturno nos Trópicos: A Melancolia Europeia Chega ao Brasil. São Paulo:

Companhia das Letras, 2003, p. 32.

2 (...) cada humor tem no corpo sua fonte específica: a cabeça é a fonte do flegma, o coração a

do sangue, o baço a da água e o “pequeno sítio” sobre o fígado (...) é a da bile. PIGEAU, Jackie.

Metáfora e Melancolia: ensaios médico-filosóficos. Rio de Janeiro: PUC Rio/Contraponto,

2009, p. 56.

3 Os nascidos no primeiro quadrante, desde o ascendente até o meio-céu, são sanguíneos; os do

segundo são coléricos; os do terceiro, melancólicos e os do quarto quadrante são os fleumáticos.

(Alvarenga, Aline. “Melancolia, esperança e genialidade ou melancolia generosa”.

www.constelar.com.br. Acesso em 24 de julho de 2007.

14

transformando-se em acedia, uma afeição da alma, uma disposição do espírito e

do corpo que atinge principalmente os monges, conduzindo à inatividade e à

perda da fé na salvação. No Renascimento, a melancolia é considerada como uma

doença “bem-vinda”, uma experiência que enriquece a alma e pode despertar a

imaginação criativa. No Humanismo, a vida contemplativa somente pode existir

a partir do princípio melancólico. Já no Romantismo, para viver a melancolia,

descrita por Goethe, é necessário se acompanhar de paz, quietude, silêncio e

ócio4, considera-se, então, que essas são características da melancolia produtiva e

companheira de todo o indivíduo que atinge elevado grau de intelectualidade –

retornando à escola peripatética.5

No âmbito da estética, as representações em torno da melancolia podem

ser explícitas, revelando sofrimento físico (feridas abertas, corpos dilacerados,

moléstias, entre outros flagelos). Podem, também, desvelar os suplícios morais,

psicológicos e políticos. Por toda a história, os artistas – por meio de seus

trabalhos – expõem sentimentos e ressentimentos, registros de suas memórias, ou

ainda o ar resignado frente ao irreversível da mortalidade: as ambiguidades do ser

humano são evidenciadas, demonstrando sua frágil condição.6

Na História da Arte e da Literatura, alguns artistas e escritores abordam

questões estéticas, relacionadas à melancolia, em suas produções. Imagens

literárias que expressam tal sentimento surgem nas obras renascentistas, como

por exemplo, nos escritos de Cervantes ou Shakespeare. O artista renascentista

Albert Dürer, em sua gravura Melancolia I (1514), evoca a “melancolia

imaginativa” – própria dos artistas, arquitetos e artesãos – em oposição à

“melancolia racional”, típica dos médicos, cientistas e políticos e, ainda, contra a

“melancolia mental”, aspecto da personalidade de estudiosos de teologia e

4 SCLIAR, Moacyr. Saturno nos Trópicos... op. cit., p. 53.

5 Idem. Aqui se apresenta o princípio do Problema XXX de Aristóteles que levanta a questão de

que todo o “homem genial” teria uma natureza melancólica.

6 ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p. 50 e

seguintes.

15

segredos divinos.7 Dos quatro humores, a melancolia é o que se torna alegoria8·,

ou seja, transforma-se em personagem que compõe a ação pictórica.

Jean-Antoine Watteau, no século XVIII, surge para todos os seus

biógrafos como um espírito melancólico. A interpretação de sua produção como

frívola é algo superficial que não leva em consideração seu temperamento

instável, cerebral e meditativo.9 A “doce melancolia”, preconizada por Watteau,

torna-se um conceito discutido por pensadores franceses, tal como Diderot, e

encontra na obra de Joseph-Marie Vien sua expressão: a mulher serena e

meditativa. Contudo, no Iluminismo, a atração pelo temperamento melancólico é

considerada aspecto negativo. Para o “homem racional” a busca da felicidade não

passa por tal sentimento, pelo contrário, a melancolia é algo que precisa ser

domado.

É através do Romantismo, no século XIX, que a melancolia retorna às

discussões estéticas. O interesse do homem pela natureza, pelo exótico e pelo

selvagem revigora a tradição aristotélica. Nessa perspectiva, as poéticas de

Arnold Böcklin e Max Klinger unem elementos míticos à beleza e à tristeza. O

sentir-se melancólico torna-se atributo para a aquisição de conhecimento, isto

porque a autorreflexão proporcionada pelo sentimento levaria às novas

percepções do mundo. As fontes românticas inspiram diretamente os primeiros

exercícios estéticos de Giorgio De Chirico10, em meados do século XX.

7 BERLINCK, Luciana Chauí. Melancolia – Rastros de Dor e Perda. São Paulo: Humanitas,

2008, p. 29 e seguintes.

8 Alegoria: s.f. Expressão de uma ideia através de uma imagem, uma tela, um ser vivo, entre

outros elementos; obra literária ou artística que utiliza esta forma de expressão: os autos das

barcas de Gil Vicente são alegorias. Na estética ocidental, a alegoria é retórica metafórica

continuada com significado diverso daquele diretamente enunciado. Na representação alegórica

da melancolia, a figura da mulher reclinada e pensativa torna-se a personagem que corporifica a

melancolia em muitas telas. A “posição do pensador” também é colocada como uma alegoria da

melancolia. TAROBINSKI, Jean. “LÉncre de la Mélancolie”. In: GALERIES NATIONALES

DU GRAND PALAIS, Mélancolie: Genie et Folie en Occident. Paris: Gallimard, 2005, p. 24.

9 FAROULT, Guilherme. “La Douce Mélancolie – Selon Watteau et Diderot – Représentations

Mélancoliques dans les Arts en France au XVIII Siècle”. In: GALERIES NATIONALES DU

GRAND PALAIS, Mélancolie: Genie et Folie en Occident… op. cit., p. 274 e seguintes.

10 Giorgio De Chirico estuda em Atenas. Segue para Munique em 1905, tendo recebido nessa

época influências do romantismo de Böcklin, do simbolismo de Klinger e da filosofia de

Nietzsche e Schopenhauer. De Chirico alcança grande projeção dentro das correntes artísticas

vigentes, contribuindo, decisivamente, para o Surrealismo, proposto por Breton, em 1924. Mais

16

De Chirico assimila o sentimento melancólico como elemento

constitutivo de sua produção artística. Na Pintura Metafísica, o artista

desempenha a função de um autor que ao narrar uma trama enigmática, desvela a

sátira embutida no “desejo da cultura ocidental de tudo saber e conhecer”.11 Em

outros trabalhos, a melancolia é representada pela figura de Ariadne ou pelas

luzes e sombras que cercam seus cenários entre ruínas e máquinas, entre

símbolos da antiguidade e da modernidade. A reflexão sobre a melancolia na

produção estética de Giorgio De Chirico compõe o arcabouço da presente

pesquisa.

As “memórias vivas” do pintor são responsáveis pela produção de uma

poética instigante que leva o espectador à contemplação, à reflexão e a um

universo de múltiplas citações. As metáforas, criadas pelo artista, carregam,

invariavelmente, uma atmosfera melancólica escondida atrás dos objetos

heterogêneos sem uma aparente lógica. Em suas obras repletas de citações

destacam-se: praças desertas, arcadas irreais; pesadas torres; dominantes

chaminés industriais e a presença da máquina, algumas vezes representada pelo

trem. As cenas retratadas são acrescidas por sombras projetadas e manequins nus

ou vestidos em estilo clássico (desprovidos de fisionomia e com expressão

enigmática), provocando a estranheza do elemento humano à cidade. Em outras

fases surgem cavalos, gladiadores, nuvens e as naturezas-mortas completam a

produção plástica de De Chirico.

Dentro desse quadro repleto de metáforas é possível levantar os seguintes

questionamentos: o sentimento melancólico, na produção de Giorgio De Chirico,

parte de sua vivência (experiências e estado de saúde)? Seria derivado de seu

contexto (a inesperada perda do pai, período entre guerras, da sua identidade

nacional ambígua, entre outros fatores)? Da influência do repertório romântico de

Böcklin e de Klinger e da filosofia de Nietzsche e Schopenhauer (centrada na

questão existencial)? Ou, ainda, derivaria do seu repertório consubstanciado por

tarde, rompe com o modernismo e pesquisa técnicas de pintura renascentista. BARBOSA, Paulo

Roberto Amaral. Giorgio De Chirico no Acervo MAC USP. São Paulo: ECA USP, 2006

(Dissertação de Mestrado), p. 32 e seguintes.

11 Idem.

17

metáforas e pelo forte impacto da arquitetura em seus trabalhos? Estes são os

principais eixos de reflexão do presente estudo. Resume-se, daí, que o problema

central deste trabalho reside em saber: de que forma De Chirico insere a questão

da melancolia em sua produção? Como identificá-la?

Na busca de possíveis respostas, é importante lembrar que a trajetória

artística de Giorgio De Chirico é marcada por diversas fases e séries. Nos

Enigmas 12, por exemplo, a herança greco-romana funde-se com o contexto

urbano-industrial e nessa composição o humano é, aparentemente, destituído de

significado, ou levado a ser figura secundária, perante a arquitetura. Os seres

antropomórficos existentes nesse mundo inconsciente são estátuas e manequins –

elementos também privados de humanidade. Então, como a melancolia – um

sentimento tão humano está inserido nessas metáforas? É possível que a resposta

esteja no conjunto de representações que assume uma impressão cenográfica de

dramaticidade, na qual a sobreposição dos elementos enigmáticos, somados à

iluminação, provoca inquietações ao espectador e o remete às sensações

despertadas pela melancolia (como, por exemplo, solidão, silêncio,

contemplação, introspecção e tristeza).

O recorte desta pesquisa dirige atenções para as obras de Giorgio De

Chirico – muitas com denominações expressas, evocando a melancolia, como por

exemplo, A Melancolia de uma Bela Tarde (1913), Melancolia e Mistério na Rua

(1914), Melancolia de Um Belo Dia (1916), entre outras. Acrescentem-se, ainda,

obras, tal como o Autorretrato (1911) que não dispõe do termo “melancolia” no

título, mas evoca o estado melancólico em sua produção. Nestas obras, existe um

vínculo entre o passado e as intervenções do mundo moderno. As composições

são simbólicas e convidam o espectador à contemplação e aos mistérios da vida.

A condução da pesquisa orienta-se no método histórico crítico, proposto

por Giulio Carlo Argan, utilizando a análise estética na obra de Giorgio De

12 A série de Enigmas de De Chirico data de 1909 e prossegue pelos primeiros anos da década

seguinte. É o marco da pintura metafísica do pintor. Porém, o termo somente surge em 1915,

quando este encontra Carlo Carrá (1881-1966) no hospital militar de Ferrara, em decorrência da

I Guerra Mundial. Idem, p. 46.

18

Chirico. As estratégias metodológicas voltam-se aos contatos com fontes

primárias, tais como documentos, obras de arte, registros fotográficos e fílmicos,

além de estreitar o relacionamento com acervos de instituições artístico-culturais

nacionais e internacionais, especialmente na Itália, nos Estados Unidos, na

Alemanha, na França e na Espanha (lugares que concentram grande parte da

produção de Giorgio De Chirico). Nesse sentido, acervos e exposições foram

visitados, em Pádua, Veneza, Paris, Madri, Valencia, Munique, Londres e Nova

York e importante material bibliográfico foi coletado, tal como o livro

Mélancolie: Genie et Folie en Occident, organizado pelo Grand Palais, com

pesquisadores que exploram a melancolia e a sua influência nas grandes

produções da História da Arte .

O exercício de investigação remete à organização de um levantamento

bibliográfico e a uma leitura sistemática sobre o tema Melancolia. Autores como

Aristóteles, Agrippa, Marsílio Ficino, Robert Burton, entre outros são evocados

para a compreensão do histórico do tema. Todavia, sublinha-se que o interesse do

estudo está focado na origem da relação existente entre estética e melancolia.

Essa vertente é apoiada por autores, tais como: Paolo Baldacci (especialista em

De Chirico), com o livro De Chirico – The Metaphysical Period; Marie-Claude

Lambotte, autora do estudo Estética da Melancolia; Moacyr Scliar através dos

seus escritos em Saturno nos Trópicos; Julia Kristeva com Sol Negro e Jackie

Pigeau com a publicação Metáfora e Melancolia.

***

Desse modo, o trabalho que ora se apresenta divide-se em:

Na primeira parte, Estética da Melancolia, evoca-se a história do tema,

iniciando essa trajetória a partir da teoria dos quatro humores e a ação da bílis

negra no organismo e no temperamento dos homens. Em seguida, parte-se para a

análise do tema melancolia nas artes a partir dos exemplos de artistas que

refletem sobre este sentimento em suas produções. Na sequência, tem-se a

afirmação do sentimento como distinção dos pensadores, filósofos e artistas à luz

19

das noções da “doce melancolia”, nos séculos XVIII, XIX e seus desdobramentos

no Romantismo.

Na segunda parte, Leituras da Modernidade, debruça-se sobre o estudo da

melancolia vista pelos elementos que compõem o século XX e a biografia de

Giorgio De Chirico, entre esses: a “revelação” de De Chirico, vivenciada na

Piazza Santa Croce (Florença/Itália), os efeitos da guerra em larga escala, as

decorrências da Revolução Industrial e a produção artística que vê a modernidade

com sentimentos dúbios – entre o retorno ao passado e a iminência do futuro.

Exploram-se esses aspectos a partir do percurso estético de Giorgio De Chirico,

suas leituras e estudos sobre a filosofia de Nietzsche e Schopenhauer, seu estado

melancólico e os desdobramentos desses fatores sobre sua produção até o seu

relacionamento com o grupo surrealista.

Já na terceira parte, De Chirico e a “Solidão dos Signos” , o estudo dedica-

se à produção artística de Giorgio De Chirico e aos indícios que trazem o

sentimento melancólico ao seu repertório criativo. Nessa abordagem as

referências filosóficas, literárias, estéticas e biográficas do artista são as

principais fontes. As ideias, o discurso e as questões estéticas que envolvem a

melancolia imersa na poética de Giorgio De Chirico são elementos perscrutados

a partir da análise de suas obras, particularmente, as da fase metafísica.

Formulam-se, ainda, novos caminhos para conectar o contexto histórico ao

momento vivido pelo artista em questão. Sugere-se que o sentido da melancolia

encontrada na trajetória de Giorgio De Chirico é resultante de uma estética

construída desde Aristóteles, passando pelas leituras medievais, renascentistas e

românticas. Na poética de De Chirico instaura-se uma concepção relacionada aos

signos herméticos de uma tradição que nasce na Antiguidade, mas que no início

do século XX torna-se a consciência do homem moderno.

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20

ESTÉTICA DA MELANCOLIA

21

Os Humores e a Bílis Negra.

A tradução grega para melancolia é melaina cholè, ou ainda, bílis negra – do

mesmo modo que atrabílis é seu similar latino. A bílis negra, por sua vez, é um dos

quatro humores, ou fluídos, estabelecidos pela tradição médica que tem início no

século V a.C., na Grécia, com Hipócrates e a escola de Cós. Os conhecimentos sobre

os humores são reunidos durante o século III a.C., na Alexandria de Ptolomeu e

retomados no século I d.C., em Roma, pelo físico Galeno, que faz a síntese das ideias

de Hipócrates, de Platão e de Aristóteles, assim como, de outros pensadores antigos.1

Para esses pensadores, os humores são as substâncias que explicam a

constituição dos seres humanos ou a crasis, os temperamentos, as disposições, as

características, os estados de saúde e as doenças. Essa concepção orienta, durante mais

de dois mil anos, a farmacopeia, os diagnósticos e os tratamentos.2 De acordo com

essa tradição, a saúde é uma questão de equilíbrio, de harmonia ou de isonomia, entre

os quatro humores. O mais puro entre os humores é o sangue; os outros são: a fleuma,

a bílis amarela (ou cholè) e a bílis negra (ou melancolia).3 Um desequilíbrio no

organismo humoral – dyscrasia – causa doença, corrigida pela administração de

substâncias, tais como os alimentos, as bebidas ou os preparos farmacêuticos que

contrabalanceiam a ausência ou o excesso no organismo e restauram, então, o

equilíbrio.4

Segundo a “teoria dos humores”, esses são constituídos a partir do calor

produzido no estômago pelos processos digestivos: o alimento é transformado no

1ARIKHA, Noga “La Mélancolie et les Passions Humorales”. In: GALERIES NATIONALES DU

GRAND PALAIS, Mélancolie: Genie et Folie en Occident…op. cit., p. 232.

2 Idem.

3 Idem, p. 233.

4 Idem, p.234.

22

fígado, de onde os espíritos vitais no sangue são enviados ao coração e ao cérebro,

assegurando um fluxo contínuo entre as paixões e a cognição, a fisiologia e a

psicologia, o indivíduo e o ambiente.5 Para os estudiosos da Antiguidade, a ordem do

corpo físico reflete a ordem do mundo. Os humores correspondem às quatro

qualidades naturais – o frio, o calor, o úmido, o seco – e aos quatro elementos – o ar, o

fogo, a água, a terra – de que são constituídos.6 Dos elementos originalmente

pitagóricos, surgem qualidades humanas; e destas, os temperamentos cujos estados

variam em função das quatro estações.

O temperamento sanguíneo é quente e úmido; o temperamento colérico,

quente e seco; o temperamento fleumático, frio e úmido e o melancólico, frio e seco.7

Os humores não estão presentes em quantidades iguais em cada indivíduo; é a

preponderância de alguns humores sobre outros que determina o seu temperamento. O

sangue predomina na pessoa que se mostra serena, de preferência sensual, otimista e é

dotada de boa natureza; a bile amarela predomina na pessoa colérica que tende a ser

rancorosa e invejosa; a fleuma está presente na pessoa que age e reage lentamente é,

por vezes, preguiçosa. E a melancólica tende a ser pensativa e introspectiva.8

Os ensinamentos hipocrate-galênicos perduram por muito tempo, perdendo

sua acuidade no Ocidente após a queda do Império Romano, porém, continuam vivos

na cultura bizantina, reaparecendo em versões árabes nas terras conquistadas.

Ressuscitam adiante, no sul da Europa antes de ser, progressivamente, reintroduzidos

no mundo medieval europeu.9 Desse período em diante, o esquema dos humores passa

para a ortodoxia médica até mesmo depois da Renascença.10

5 O cerebelo refina alguns desses espíritos tornando-os menores e mais ágeis. O quente e o frio, a

secura e a umidade afetam de modo crucial o curso desses espíritos; e os efeitos dos humores sobre a

disposição, o pensamento, a saúde mudam de acordo com o grau de calor, de agitação, de umidade

presente no organismo. Idem, p. 235.

6 Idem.

7 Idem.

8 Idem, p.236.

9 Idem.

10 Idem, p.237.

23

As dissecações humanas são retomadas no século XIV, porém, o

procedimento não se torna suficiente para corrigir os antigos mestres. Com a chegada

da imprensa e a circulação de fontes gregas primitivas, o estudo comparativo da

tradição torna-se possível e os trabalhos críticos em anatomia surgem com maior

profundidade. As primeiras contestações à “teoria dos humores” ocorrem em 1540, por

Vesalius que, por meio de demonstrações em corpos vivos, aponta incorreções na

teoria.11 Por sua vez, em 1620, Willian Harvey mostra que o sangue realmente circula

e que o coração funciona como uma bomba.12 Posteriormente a essas novas

descobertas, os conhecimentos (medicina, filosofia e astronomia), sustentados pelos

humores, caem em descrédito.

Essas reformas, especialmente a de Harvey, são sérias; mas têm influências

sobre a teoria, não sobre a prática. Thomas Willis, por exemplo – físico harviano que

sugere o termo “neurologia” ou ciência dos nervos e escreve Carebri Anatome

abandona os humores e não acredita que um “humor” tenha algum papel

representativo na “doença” melancólica,13 porém, na prática, Willis sangra seus

pacientes. O tratamento dos doentes permanece igual até meados de 1800; de um lado

porque as ideias revolucionárias levam tempo para se estabelecer, de outro porque o

que constitui uma evidência em medicina pode ser ambíguo; enfim, porque o