Memórias da Rua do Ouvidor por Joaquim Manuel de Macedo - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.
MEMÓRIAS DA RUA DO OUVIDOR

Joaquim Manoel de Macedo

CAPÍTULO 1

Como a atual Rua do Ouvidor, tão soberba e vaidosa que é, teve a sua origem em um desvio,

chamando-se primitivamente Desvio do Mar, e começando então (de 1568 a 1572) do ponto em

que fazia ângulo com a Rua Direita, neste tempo com uma só linha de casas e à beira do mar.

Como em 1590, pouco mais ou menos, o Desvio do Mar recebeu a denominação de Rua de

Aleixo Manoel, sendo ignorada a origem dessa denominação; o autor destas Memórias recorre a

uns velhos manuscritos que servem em casos de aperto, e acha neles a tradição de Aleixo

Manoel, cirurgião de todos e barbeiro só de fidalgos; começa a referi-la, mas suspende-a no

momento em que vai entrar em cena a heroína, que é mameluca, jovem e linda, e deixa os

leitores a esperar por ele sete dias.

A Rua do Ouvidor, a mais passeada e concorrida, e mais leviana, indiscreta, bisbilhoteira,

esbanjadora, fútil, noveleira, poliglota e enciclopédica de todas as ruas da cidade do Rio de

Janeiro, fala, ocupa-se de tudo; até hoje, porém, ainda não referiu a quem quer que fosse a sua

própria história.

Se tão elegante, vaidosa, tafulona e rica no século atual, por ventura lhe apraz esquecer o

passado, para não confessar a humildade de seu berço, pois que é do Ouvidor, cerre bem, os

ouvidos; porque tomei a peito escrever-lhe a história, mas com tanta verdade e retidão que se

lembrando-lhe seus tempos primitivos ela tiver de amuar-se pelo ressentimento de sua soberba

de fidalga nova, há de sorrir depois a algumas saudosas e gratas recordações que avivarei em

seu espírito perdidamente absorvido pela garridice e pelo governo da moda.

As Memórias da Rua do Ouvidor têm, em falta de outras, um incontestável, grande e precioso

merecimento, pois começa já e imediatamente, sendo os seus hipotéticos leitores poupados aos

tormentos do prólogo, proêmio, introdução, ou coisa que o valha, em que, de costume, o autor,

abismado em dilúvios de modéstia, abusa da paciência do próximo com a exibição de sua

própria pessoa afixada no frontispício do monumento.

*

Salvo o respeito devido à sua atual condição de rica, bela e ufanosa dama, tomo com a minha

autoridade de memorista-historiador, e exponho ao público a Rua do Ouvidor em seus

coeirinhos de menina recém-nascida e pobre.

A atual rainha da moda, da elegância e do luxo nasceu...

É indeclinável principiar por triste confissão de ignorância: não sei, não pude averiguar a data do

nascimento da rua que desde 1780 se chama do Ouvidor, do que a ela disso não resulta

prejuízo algum, e pelo contrário ganha muito em sua condição de senhora; porque, isenta de

aniversário natalício conhecido, não há quem ao certo lhe possa marcar a idade, questão

delicadíssima na vida do belo sexo. Que afortunada predestinação dessa Rua do Ouvidor!

São menos felizes que ela as próprias senhoras nascidas no último dia de fevereiro ano

bissexto, as quais têm o condão de aniversário natalício só de quatro em quatro anos...

Mas memorista-historiador que sou, não hesito em atraiçoar o segredo da idade aproximada da

Rua do Ouvidor, que tão louçã, namoradeira e galante conta com certeza mais de trezentos

janeiros.

Sabem todos que a cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, fundada por Mem de Sá em

1567, teve o seu assento sobre o monte de S. Januário (depois chamado de Castelo); mas,

perdido o receio de ataques inopinados dos Tamoios, começaram, logo, os colonos a descer do

monte e a estabelecer-se na planície.

Primeiramente levantaram à beira do mar casas e choupanas com uma só linha, formando o

que alguns anos mais tarde recebeu o nome de Rua da Misericórdia; em seguida foram

adiantando suas rudes construções pela praia de Nossa Senhora do Ó, que a mudar de

denominação se foi chamando Lugar do Ferreiro da Polé, Praça do Carmo, Terreiro do Paço,

Largo do Paço, e enfim Praça D. Pedro II.

Da praia de Nossa Senhora do Ó (onde logo depois de 1567 um devoto erguera pequena capela

com essa santa invocação) as casas e palhoças continuaram a levantar-se mais ou menos

separadas uma das outras e ainda á beira do mar, e também em uma só linha, que muito em

breve formaram a primitiva Rua Direita que é desde 1870 Rua Primeiro de Março.

Tudo isso foi obra de 1568 a 1572, e não admira, porque as primeiras casas eram de construção

muito ligeira e evidentemente provisória.

Mas em ano que correu entre o de 1568 e o de 1572 alguns colonos abriram à pouca distância

do começo da rua que se denominou Direita uma entrada em ângulo reto com ela, e cada qual

foi improvisando grosseiro ubi para si e para sua família aos lados dessa aberta feita sobre

areias e por entre mesquinha vegetação denunciadora de antigo domínio do mar.

E, curiosa, interessante, notável, notabilíssima idéia ou inspiração daqueles colonos

portugueses tão bisonhos e tão sem malícia!... como aquela aberta ainda não era rua, e eles

precisavam designá-la por algum nome, chamaram-na Desvio do Mar. Desvio!...

Eis o berço da bonita, vaidosa e pimpona atual Rua do Ouvidor! Fica, pois, historiado que ela

nasceu de um desvio, e desvio da Rua Direita, ou do caminho direito, o que, a falar a verdade,

não era de bom agouro.

Todavia foi ali aumentando logo o número dos tetos abrigadores; como, porém, se já estivesse

prevendo e prelibando seus destinos futuros, o Desvio do Mar ostentou desde os seus primitivos

anos suas duas séries de cabanas de aspecto rústico, mas agradável, e perfeitamente alinhadas

e paralelas.

O Desvio teve por primeiros moradores gente pobre, no trabalho, porém ativa; peões que

exerciam misteres, operários, e um cirurgião que era barbeiro dos nobres.

Mas no ano de 1590 e sem intervenção nem audiência da Câmara Municipal, o Desvio do Mar

por acordo geral dos colonos subiu ao grau honorífico de rua urbana com o nome de Aleixo

Manoel.

Tal foi a primeira denominação que recebeu, deixando de chamar-se - Desvio - a rua, cujas

Memórias escrevo, Aleixo Manoel! nome masculino, feio, ingrato, peão sem raiz de fidalguia,

nem carta de nobreza.

Procurei nas crônicas do tempo, e nas obras de Monsenhor Pizarro e de Baltazar da Silva

Lisboa algum Aleixo Manoel que tivesse deixado nome na história; mas foi trabalho baldado,

não encontrei entre os fidalgos da nascente colônia esse positivo e irrecusável avô da atual Rua

do Ouvidor; não há, porém, meio de dissimular o parentesco, porque em livros que escaparam

ao incêndio do arquivo da Câmara Municipal da cidade do Rio de Janeiro em 1791 se acha

escrita e mencionada a tal denominação de Rua de Aleixo Manoel.

Ah! que nem por isso se arrepie ressentida, e que não maldiga do seu memorista a Exma. Rua

do Ouvidor.

Até aqui o pouco que deixo relatado é seriamente tradicional quanto ao Desvio, e em tudo mais

positivamente histórico; quero, porém, em honra e glória da Rua do Ouvidor dar a todo transe,

em falta de origem aristocrática impossível, origem romanesca a denominação de Aleixo

Manoel que ela teve no outro tempo.

Para casos de aperto como este, o memorista, que se reserva direitos confessos de imaginação,

deve ter sempre velhos manuscritos ricos de tradições que expliquem o que se ignora.

Não exijo dos meus leitores que tenham por incontestável a tradição que apanhei nos meus

velhos manuscritos. Liberdade ampla de aceitá-la ou não.

Aleixo Manoel, colono português, era cirurgião e também barbeiro, mas barbeiro só de fidalgos;

morava no monte de S. Januário perto do colégio dos padres jesuítas; como porém poucos

doentes tivesse, e ainda menos fidalgos a barbear, lembrou-se um dia de procurar fortuna,

explorando a guerra.

Neste ponto a minha tradição se aproveita de uma lúgubre página da história.

Como os índios Tamoios, irreconciliáveis e odientos inimigos dos portugueses, hostilizassem a

estes quase constantemente, atacando e destruindo seus estabelecimentos rurais na capitania

de S. Vicente, e ainda mais na do Rio de Janeiro, o Governador Antônio Salema, resolvendo

exterminar aquela tribo selvagem, fez partir contra ela duas colunas expedicionárias, uma de S.

Vicente e outra da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, para nesta capitania levarem a

ferro e fogo o extermínio a essa tribo funesta e indomável.

Aleixo Manoel alistou-se voluntário na coluna expedicionária fluminense, que foi comandada por

Cristóvão de Barros.

A história guarda a lembrança da justificada, mas horrorosa, guerra: o incêndio devorou dezenas

de aldeias de índios, e destes mais de dez mil foram mortos, mais de sete mil prisioneiros e

reduzidos à escravidão, e os Tamoios que puderam escapar meteram-se pelas florestas,

emigrando para muito longe, e para sempre.

Mas o que a história não diz, e a minha tradição informa, é que a tremenda expedição rendeu a

Aleixo Manoel dois escravos tamoios, a quem ele generoso e a Custo salvara da medonha

hecatombe de uma horda apanhada de surpresa em sua aldeia, nas proximidades de Cabo Frio.

Os dois escravos eram um índio quase sexagenário, e uma índia, sua neta, de três anos de

idade; - um homem já a envelhecer, e uma menina a criar; mas para conseguir salvá-los da

morte, Aleixo Manoel os tomou à sua conta.

A menina evidentemente não era de raça pura tupi; era uma linda mameluca: a aldeia selvagem

estabelecida perto de Cabo Frio ocupado por franceses e as relações amigas e freqüentes

destes com os tamoios das vizinhanças, seus aliados, explicavam o cruzamento das duas raças

naquela bonita e interessante criança.

De volta á cidade, Aleixo Manoel não quis continuar a residir no monte de S. Januário, e,

fazendo construir boa e espaçosa cabana no Desvio do Mar, nela se estabeleceu como cirurgião

e ainda barbeiro, mas barbeiro só de fidalgos.

Os dois escravos receberam o batismo: o índio já meio velho chamou-se Tomé, e a menina

ainda criança Inês.

Deus abençoa sempre as boas ações e sobre todas as virtudes, a caridade.

Aleixo Manoel colheu em breve proveitoso e merecido prêmio de seu nobre e generoso impulso

de amor ao próximo para com os dois infelizes. Tomé, mandado por seu senhor a trazer-lhe do

monte do Desterro (depois de Santa Tereza) a famosa e ótima água de Carioca, internava-se na

floresta, e nela recolhia ervas, folhas, cortiças e raízes de árvores, cujas virtudes medicinais por

experiência, embora rude, conhecia, e as levava ao cirurgião, a quem indicava as moléstias em

cujo tratamento elas aproveitavam.

Com esses novos recursos terapêuticos, Aleixo Manoel começou, graças ao pobre escravo, a

distinguir-se por admiradas vitórias médicas, ganhou fama; teve clínica extensa e rendosa,

reconstruiu sua cabana que se tornou casa muito regular e de bonito aspecto exterior, bem que

de um só pavimento, e adicionou-lhe a um lado uma cerca ou gradil de varas, fechando pela

frente pequeno jardim e canteiros de legumes, seguindo-se para o fundo o quintal.

E com todo esse luxo o cirurgião não teve ânimo de privar-se da glória de barbear fidalgos.

No entanto, Inês ia crescendo a traquinar pela casa e pelo jardim, e o senhor de dia em dia cada

vez se deixava enfeitiçar mais pela escrava.

Mas Aleixo Manoel já era notabilidade, cirurgião famoso, o mais considerado dos moradores do

Desvio do Mar, e não havia quem pensasse em dar ao Desvio a denominação de Rua Aleixo

Manoel.

Ao correr do ano de 1590 o cirurgião principiou a observar certa mudança de costumes em

alguns fidalgos, que em vez de mandá-lo chamar a suas casas, como dantes, vinham barbear-

se na dele.

Nos primeiros dias ufanou-se muito daquela alteração de costumes, atribuindo-a à honraria e

consideração pessoal que lhe queriam prestar pelo crédito e pela estima que gozava.

Depois notou que os fidalgos que para barbear-se vinham a sua casa eram Gil Eanes, Lopo de

Melo e mais quatro ou cinco, todos de nobres famílias mas também todos célebres na cidade

por vida licenciosa e pervertida.

Tendo notado isso, desconfiou logo de fregueses tais, pôs-se de observação dissimulada e

cuidadosa, e bem depressa certificou-se de que os seus fidalgos, quando chegavam para

barbear-se, metiam os olhos pela porta do interior da casa, e que afora essa curiosidade

impertinente faziam ronda diária e suspeita pelo Desvio do Mar.

Aleixo Manoel não levou muito tempo a procurar a explicação do fenômeno, mas caiu das

nuvens, lembrando-se de Inês.

A mameluca fulgurava então entre os 17 e os 18 anos de idade, e com seus belos olhos negros,

sua boca lindíssima, seu rosto encantador e seu corpo de contornos admiráveis maravilhava

pela formosura. Era uma arrebatadora morena esperta, faceira, e - sem o pensar, voluptuosa.

Aleixo Manoel caiu das nuvens, porque só então refletiu do que já sabia, só então reconheceu

muito séria e gravemente que a menina sua escrava já era mulher.

Ele adorava Inês com enlevos e cultos de amor inocente e santo: até esse dia, porém, da queda

do alto das nuvens onde se iludia nos segredos ainda não manifestos da natureza da sua

afeição, ou deveras só amava Inês com o ardor e a pureza de pai estremecido.

Os fidalgos libertinos lhe alvoroçavam o ânimo: sabia que seus escândalos e atentados ficavam

sempre impunes, quando as vitimas eram gente do povo.

Gil Eanes, Lopo de Melo e os outros que o procuravam para barbear-se que intenções

trariam?... Nenhum por certo pensava em casar com uma moça que, além de filha de índia, era

escrava; que queriam então fazer dela?...

Nessa aflitiva e revoltante conjuntura, Aleixo Manoel apenas escapou de ter sido o primeiro

republicano da Rua do Ouvidor, e aí o mais antigo patriarca das idéias do meu bom amigo o Sr.

Otaviano Hudson.

Mas que havia de fazer Aleixo Manoel?... era impossível, ou seria loucura meter-se em briga

com fidalgos.

Fidalgos! a classe humana super-humanizada, privilegiada e purificada, a classe do seu culto e

da sua paixão!... quem diria que o seu maior tormento lhe viria de fidalgos?

Aleixo Manoel velou uma noite inteira a meditar, e a imaginar; mas na manhã seguinte achou-se

senão tranqüilo, ao menos, porém, esperançoso do bom resultado do plano que forjara.

Nesse plano a primeira e essencial condição era em casa a defesa e a segurança de Inês,

quando ele estivesse ausente.

O cirurgião não procurou auxílio fora da família: tinha sob seu teto cão fiel, velho, mas robusto e

forte; um índio, o avô de Inês.

Pôs de sobreaviso, mas em segredo absolutamente recomendando o já octogenário Tomé, que

se endireitou garboso, como o jacatirão, e murmurou surda e ameaçadoramente:

- Deixa eles!

Além das instruções que deu ao velho índio, o que mais fez Aleixo Manoel, ele lá o soube e nós

provavelmente o iremos sabendo; continuou, porém, respeitoso e humilde a receber em casa os

tais fidalgos, e a barbeá-los, como dantes, salva a idéia sinistra e repulsada, que às vezes lhe

vinha, de experimentar o corte da navalha nas gargantas dos privilegiados sedutores de

donzelas pobres.

Entretanto, o cirurgião muitas vezes ficava cismando, e a lembrar-se e relembrar-se de que não

era nem pai, nem tio, nem irmão, nem primo de Inês, e que por conseqüência não havia

impedimentos...

É verdade que ele tinha cinqüenta anos e a menina dezessete; mas por isso mesmo! velho que

se apaixona por menina perde logo com o coração a medida do tempo, principalmente futuro,

para ela a florescer, e para ele a murchar.

Inês estava percebendo mil coisas, mas era uma inocentinha que não via coisa alguma; divertia-

se muito assim; mimo e princesa de casa, a linda escrava era, desde pequenina, a senhora de

seu senhor.

Uma tarde Inês...

Evidentemente é este o momento em que a linda mameluca entra, manifesta-se em cena, e pois

que a minha tradição da Rua de Aleixo Manoel não pôde caber toda neste folhetim, eu seria o

mais inexperiente e insensato dos folhetinistas, se não interrompesse a narração, deixando os

meus leitores curiosos de contemplar a bela e voluptuosa Inês em sua primeira hora de

travessa, viva e um pouco maliciosa revelação.

Esperar é o tormento do desejo, mas vale a pena esperar sete dias pela contemplação de uma

jovem formosa.

CAPÍTULO 2

Continuação e fim da tradição achada nos velhos manuscritos. Como Inês, a mameluca

depois de pentear e despentear a cabeleira do seu senhor de direito e seu escravo de

fato e depois de rir e de zombar muito dele, vê e ouve, fingindo não ver nem ouvir os

pervertidos fidalgos que a namoravam, fica cismando, deixa de cismar, apura-se em

feceirice, e Aleixo Manoel põe-se de cabeleira nova. Conseqüências do apuro da

feceirice, da cabeleira nova e das denuncias confidenciais de João de Pina e da mãe

Sebastiana. Casamento e ceia com dois convidados em desapontamento e contra

vontade á mesa, e outras coisas que saberá, quem ler este capítulo, e etc. Fim da

tradição da romanesca origem da denominação de Rua de Aleixo Manoel que em 1590

recebeu a atual de Rua do Ouvidor.

Era uma tarde...

Convém não esquecer os costumes do tempo.

No século décimo sexto e ainda até quase o fim do décimo oitavo, os antigos colonos

portugueses não tinham no Brasil café para tomá-lo com a aurora, mas almoçavam com o sol às

seis ou sete horas da manhã, e jantavam com ele em pino ao meio-dia, salvo o direito de

merendar (hoje se diz fazer lunch) às dez horas da manhã.

Atualmente a sociedade civilizada almoça à hora em que os velhos portugueses jantavam, e

jantam de luzes à mesa à hora em que se levantavam da ceia aqueles nossos avós.

História de progresso e de civilização, que levam e estendem o sol de seus dias até depois da

meia-noite com a iluminação a gás, e, ainda preguiçosos, saúdam o rompimento de suas

auroras às 9 horas da manhã, quando abrem as cortinas dos seus macios leitos, e tomam, ainda

bocejantes, o seu café madrugador.

Portanto, a tarde tem hoje horas novas, que se confundem com a noite, e eu começava este

capítulo, indicando a tarde do outro tempo, que atualmente é a hora em que almoçam a

começar o dia o progresso e a civilização.

Estamos entendidos.

Era uma tarde (em 1590), uma hora depois do meio-dia, meia hora depois de suculento jantar.

Aleixo Manoel sentado em grande cadeira de encosto desejava, empenhava-se debalde em

dormir sua sesta eminentemente portuguesa; mas com a cabeça levemente inclinada, com os

olhos meio cerrados queria e não conseguia adormecer excitado pela lembrança dos fidalgos

libertinos, e pelos cuidados ansiosos do objeto do seu amor já um pouco anacrônico; em

erupções porém irresistíveis, embora ainda contidas pelos vexames do anacronismo

sentimental.

E quando mais de olhos cerrados, e mais de alma em vigília ativa estava Aleixo Manoel, Inês, a

linda mameluca, sua escrava de direito, e sua soberana de fato, Inês que sabia bem o que de

fato era, entrou na sala pé por pé, bem de manso, e parando atrás da cadeira do velho em

suposta sesta, travessa a brincar, e certa da impunidade do abuso traquinas, começou a pentear

e a despentear, a arranjar e a desarranjar com seus dedos mimosos a cabeleira e o rabicho da

cabeleira do seu senhor.

Aleixo Manoel sentia, gozava o contato das mãos ou de asas de anjo a traquinar suave e

deliciosamente em sua cabeleira feliz, e após alguns minutos quase animado por aqueles

afagos de mãos de cetim quase esquecido de que qüinquagenário bem pudera ter sido avô da

mameluca, menina de dezessete para dezoito anos, sem mover a cabeça que conservava meio

curva, e abandonada às travessuras dos dedos da bela mameluca, perguntou com voz

comovida, e um pouco hesitante por aquele vexame, que é a consciência do desmerecimento, e

que poderia chamar-se o pudor da velhice:

- Inês, se eu te desse a liberdade, tu me deixarias?...

A mameluca puxou pelo rabicho da cabeleira do senhor seu escravo, como subitamente

impulsada pela impressão de idéia insólita e súbita:

- A liberdade?... que história é essa?... de que liberdade é que eu preciso?...

- Tu és minha escrava, Inês.

- Pois não sou!... disse a mameluca rindo e dando com os dedinhos leve piparote no nariz do

velho.

Aleixo Manoel riu-se também daquele sinal de reconhecimento da escrava, e logo depois

tornou, dizendo:

- Falemos seriamente, é necessário.

Inês, curiosa, respondeu:

- Vamos!... seriamente...

- Dize a verdade: tens visto a rondar-nos a casa... certos fidalgotes vadios e insolentes...

- Tenho, tenho; às vezes, quando estou no jardim, vejo-os...

- E eles?... vêem o teu rosto... as formas de teu corpo?...

- É possível... provável... quase certo...

- Ah!... tu te mostras a eles, Inês?...

- Eu?... que aleive me levanta!... que pecados me quer pôr em cima do coração inocente!... está

virado em rabugento padre confessor...

- Mas então como é que os perversos te vêem o rosto, e...

- Ah!... é o vento...

- A que vem aqui o vento?...

- Vem como o único pecador; o vento às vezes levanta o véu que esconde o rosto, desarranja a

mantilha que esconde as formas do corpo.

- Inês, tu te confessas vaidosa; o vento é a tua vaidade.

A mameluca pechou pelos cabelos do senhor e disse-lhe:

- Que velho impertinente!... suponhamos que assim seja: então a gente há de ser bonita e viver

e morrer sem amigo vento que levantando-lhe o véu e desarranjando-lhe a mantilha dê

testemunho da sua boniteza?...

- Ah! portanto gostas de algum daqueles fidalgos libertinos, sedutores malvados...

- Não, não! eu gosto somente de que eles e todos me achem bonita.

- Inês!

- Tal e qual; não nego, nem dissimulo.

- E eu?... eu te acho bonita, Inês?

- Sim! sim! e muito! e a escrava beijou docemente a fronte de seu senhor.

Aleixo Manoel estremeceu todo, e disse:

- Inês! tu és filha de índia, e minha escrava: aqueles fidalgos desmoralizados, embora elegantes

mancebos e fingidos namorados, só pensam em seduzir-te e lançar-te depois no desprezo da

ignomínia...

- Também eu desconfio disso...

- Ah! pois bem: Inês, tu precisas de protetor legítimo...

- E não o tenho já?

- Falta-lhe condição essencial!

- Qual é?... eu ainda não senti a falta.

- Inês, queres passar e subir de minha escrava à minha legítima esposa?..,.

A dominante e leviana mameluca desatou a rir.

- De que te ris, doida?

- De três tolices na sua proposta: primeira, a escrava, que é senhora, passar a senhora escrava;

- segunda, uma menina casar com um velho; - terceira, filha da segunda, por ser menina casada

com velho usar dois véus em lugar de um e de duas mantilhas em vez de uma.

- E se a escrava que é senhora se tornasse ainda mais soberana, sendo esposa?...

- Não é muito seguro.

- E se o velho esposo fosse a proteção salvadora e o amor mais extremoso?...

- Isso eu creio.

- E se perfeitamente confiado na virtude da esposa o velho esposo só lhe impusesse véu e

mantilha quando ela saísse à rua?...

- Oh! duvido!...

Aleixo Manoel pôs-se em pé, voltou-se para a mameluca, e, vendo-lhe nos lábios zombeteiro

riso, disse-lhe triste:

- Apesar do meu amor e da minha proteção, tu és filha da índia e escrava: pensa!

- E, tendo ajustado a cabeleira, saiu.

Inês foi passear no jardim.

Gil Eanes e logo depois Lopo de Melo, que eram os mais assíduos, passaram e tornaram a

passar por junto da cerca do jardim, olharam e sorriram para Inês, que não os olhou nem lhes

sorriu.

Gil Eanes, demorando os passos, disse-lhe:

- Linda tamoia, se queres ser minha catecúmena, eu te ensinarei a cultivar as flores em lições

de amor: queres?...

Lopo de Melo passou pouco depois e disse-lhe:

- Bela selvagem, resolve-te a fugir comigo para as florestas que eu juro tornar-me selvagem

também.

A mameluca fingiu não os ter ouvido, como fingira não tê-los visto. Era a primeira vez que eles

lhe falavam.

Inês sentiu o desprezo da sua condição no modo por que lhe falaram os dois fidalgos que a

namoravam.

E lembrou-se que Aleixo Manoel tinha acabado de dizer-lhe: - pensa.

E sem o pensar Inês pensou.

Nos seguintes dias quem mais cismava não era Aleixo Manoel, era Inês.

Quase logo famílias da amizade do cirurgião principiaram a visitá-lo a miúdo, vindo cear com

ele, e, enquanto os homens conversavam com Aleixo Manoel, as senhoras, em círculo

separado, tinham sempre a contar casos escandalosos de seduções e de raptos de meninas

pobres, vítimas de Gil Eanes, de Lopo de Melo e de seus companheiros de libertinagem.

Inês escutava essas histórias sinistras, fingindo-se indiferente a elas, se bem que às vezes

dissimulada sorrisse, adivinhando a encomenda, não menos se sentia impressionada.

Gil Eanes e Lopo de Melo fizeram mais e melhor do que as comadres de Aleixo Manoel.

Gil Eanes mandou propor a Inês que em noite aprazada fugisse da casa do cirurgião para doce

retiro, onde ele lhe assegurava, além do. seu amor, felicidade e riqueza. Lopo de Melo mandou

oferecer-lhe a liberdade por dinheiro, prestando-se ela a ficar para sempre sob sua amorosa

proteção.

Inês repeliu as proposições; mas desde que lhas trouxeram, deixou de cismar, voltou ao seu

natural caráter alegre e travesso, e ainda mais faceira se mostrou.

E por isso ou por alguma outra razão Aleixo Manoel pôs-se de cabeleira nova.

Entretanto ele não perdia de vista os libertinos rondantes do Desvio do Mar.

Cirurgião caridoso e com numerosa clínica gratuita, Aleixo Manoel tinha corações agradecidos

entre a gente pobre e desgraçada de quem era benfeitor.

Uma noite veio um embuçado falar-lhe: entrou meio atarantado e descobriu o rosto.

- Oh! és tu João de Pina?... temos história?...

João de Pina era um degradado, vadio e desordeiro valentão, que muitas vezes servia a Gil

Eanes em suas empresas mais arriscadas.

- Temos... respondeu João de Pina: amanhã é domingo de entrudo, não é?...

- É.

- Pois amanhã, às onze horas da noite, venho eu e mais meia dúzia, aqui com o Sr. Gil Eanes, e

arrombada a sua porta com berraria de entrudo, havemos de roubar-lhe a menina sua escrava,

a pesar seu e dela.

- Podes ter mais dez vezes ataques de fígado e de bofes, que eu te hei de curar, como já o fiz o

ano passado, e neste: vai-te embora, bom tratante, e toma lá para molhar a garganta...

João de Pina recebeu uma moeda de prata, embuçou-se bem, cobrindo o rosto, e disse, saindo:

- Até amanhã às onze horas da noite...

Aleixo Manoel tomou o chapéu e a bengala, e pôs-se em marcha; mas ao dobrar pela Rua

Direita, tomou-lhe o braço uma mulher de mantilha, que lhe disse:

- Sr. Aleixo, eu ia lá... a sua casa...

- Inútil; nem que fosse o Sr. Capitão-mor Governador; morra quem morrer, esta noite não vejo

doentes...

- Más não é caso de doença... é do seu crédito... eu sou a velha Sebastiana...

- Oh! mãe Sebastiana! então que há?

- Amanhã não é domingo de entrudo?...

- É, que diabo!...

- Foi meu filho que me mandou em segredo...

E a velha agarrou-se ao cirurgião, que lhe curava as erisipelas e ao filho tinha curado de uma

vômica, e disse-lhe baixinho ao ouvido:

- Amanhã às onze horas da noite o senhor não estará em casa...

- Eu?... pode ser... mas... por quê?...

- Porque meia hora antes hão de bater-lhe à porta, e chamá-lo para acudir a um ataque de

cabeça do Sr. Governador...

- E depois que eu sair a acudi-lo?

- Meu desgraçado filho e outros sequases do Sr. Lopo de Melo (que conta com o seu escravo

Tomé), entrando pela porta que abre para o jardim de sua casa tomarão e à força levarão, não

sei para onde, a menina Inês, sua escrava.

- Obrigado, mãe Sebastiana; eu lhe darei notícias minhas... agora tenho pressa...

E Aleixo Manoel foi dizendo consigo:

- Dois à mesma noite e à mesma hora!... Que canalha de fidalgos!... mas... Tomé... duvido.

Era quase meia-noite quando Aleixo Manoel, de volta do monte do Castelo, recolheu-se à sua

casa. Estava tranqüilo e contente; mas, ao entrar, disse a Tomé, que lhe abrira e depois trancara

a porta:

- Vem cá.

E na sala perguntou-lhe:

- Inês?...

- Dorme.

- E que há de novo?...

- Lopo hoje me pagou traição: amanhã onze horas da noite ele vem roubar a menina. Deixa

ele!...

- Queres que deixe roubá-la?...

O velho índio riu-se horrivelmente, saiu da sala, e quase logo voltou, trazendo na mão uma clava

de gentio, a tacape pesada e terrível:

- Deixa! repetiu Tomé; eu mato!

- Vai dormir, disse Aleixo Manoel: amanhã te direi o que hás de fazer.

No dia seguinte, domingo de entrudo, e do entrudo selvagem e delirante daqueles tempos, era

pouco antes das onze horas da noite, quando bateram fortemente à porta da casa do cirurgião,

e o chamaram a alto bradar em socorro do governador, o venerado Salvador Correia de Sã, que

se achava em perigo de morte.

O índio Tomé abrindo uma janela despediu os emissários, dizendo-lhes que seu senhor ia partir

imediatamente, e com efeito, minutos depois, saiu apressado da casa um homem embuçado,

que era sem dúvida o famoso cirurgião da cidade.

Às onze horas da noite gritaria infernal rompeu em frente à casa de Aleixo Manoel, cuja porta

cedeu, quebrada a fechadura.

Mais minuto, menos minuto, a porta do jardim abriu-se a toque de sinal dado por gente que

entrava pelos fundos do quintal.

E, penetrando no interior da casa, esbarraram-se em face um do outro, Gil Eanes e Lopo de

Melo, cada qual seguido de seus cúmplices.

Aleixo Manoel e Inês estavam ausentes; na sala de jantar, porém, achava-se servida a mais

profusa e rica ceia que então se podia dar na colônia.

O índio Tomé, arrimado à sua dava, disse aos dois fidalgos:

- Senhor tem ceia... e convida senhores... não tarda.

Gil Eanes e Lopo de Melo mediam-se furiosos: mas não tiveram tempo nem de trocar palavras e

provocações, porque sentiu-se logo ruído de gente que entrava.

Os cúmplices saíram todos para o jardim, e dali fugiram, vendo quem chegava.

Os dois fidalgos libertinos ficaram como fulminados, quando lhes apareceram o Governador

Salvador Correia, e o Prelado Simões Pereira, precedendo a Aleixo Manoel e Inês, de cujo

casamento acabavam de ser testemunhas, e seguidos de alguns dos principais da nobreza da

colônia, e entre eles dois respeitáveis parentes de Gil Eanes e de Lopo de Melo.

- Os Srs. Gil Eanes e Lopo de Melo serão também meus convidados, se o Sr. Governador o

permitir, disse Aleixo Manoel.

O venerando Salvador Correia de Sã olhou para os dois com sobrolho carregado, como o

traziam também os parentes deles.

- Ceemos! disse o governador.

Sentaram-se todos, ficando o prelado à direita, e Inês e Aleixo Manoel à esquerda de Salvador

Correia.

Só Gil Eanes e Lopo de Melo, abatidos e trêmulos, tinham-se conservado em pé.

O Governador lhes disse com voz severa:

- A empenho de Aleixo concedo-vos perdão do crime desta noite; mas só deixais de servir-nos à

mesa como baixos criados; porque devo poupar mais vergonhas a estes dois ilustres fidalgos,

que bem quereriam não ter parentes como vós. Sentai-vos à mesa!...

A ceia começou: na ocasião do primeiro brinde Salvador Correia falou ainda a Gil Eanes e a

Lopo de Melo.

- Enchei vossos copos!...

Os dois obedeceram.

- Agora de pé! e saudai e bebei à felicidade dos noivos!...

E cumprida a sua ordem, Salvador Correia pôs a mão espalmada sobre a cabeça de Inês, e

disse aos dois:

- Lembrai-o bem!... é minha afilhada.

Logo depois expandiu o rosto, e acrescentou alegremente:

- Senhor Gil Eanes, senhor Lopo de Melo, tudo está esquecido. Não haja tristezas nem vexames

a perturbar o júbilo dos noivos e o nosso!...

E a ceia continuou e acabou vivamente animada.

Desde o dia seguinte propalou-se a notícia das duas escandalosas tentativas de rapto de Inês, e

da famosa logração que habilmente preparara aos indignos e pervertidos fidalgos Aleixo

Manoel.

O povo aplaudiu muito o ardil do cirurgião, e o seu feliz casamento: nas noites da segunda e

terça-feira foi numeroso bando de colonos cantar à porta da casa dos noivos, e creio que as

serenatas teriam ainda continuado, se a quarta-feira de cinzas não fosse começo da quaresma,

que era muito respeitada.

Aleixo Manoel, porém, subira ao galarim da fama e da moda; fizeram-lhe cantigas, e no fim de

poucos dias o povo sem audiência da Câmara nem licença do Governador deu ao Desvio do

Mar a denominação de Rua de Aleixo Manoel.

CAPÍTULO 3

Como a Rua de Aleixo Manoel estendeu-se para o interior até a dos Latoeiros, ficando

por muitos anos, onde começara em Desvio do Mar, e viu ali nas tardes de verão moças

a pescar no mar e em terra. Como se aterrou aquele mar da Rua Direita, a de Aleixo

Manoel já com a denominação de Rua do Padre Homem da Costa avançou até a atual

do Mercado, e aí na praia se estabeleceu o primitivo mercado com o nome de Quitanda

das Cabanas que depois se trocou pelo de Praia do Peixe. Refere-se uma tradição

duvidosa do Padre Homem da Costa, e diz-se, como se abriu a vala da Carioca, e a rua

daquele leio nome, até á qual se alongou a do Padre Homem da Costa; fala-se dos

inconvenientes da vala e dos aplausos que por mandar cobri-la de grossos lajedos

recebeu o Vice-Rei Conde da Cunha, que aliás pouco influíra na obra, tendo sido esse

melhoramento determinado por grotesco e infeliz caso, história romanesca que se

contará no capítulo seguinte.

Adiantava-se o século XVII e a Rua de Aleixo Manoel que peio lado de terra não se estendia

além da dos Latoeiros que a corta em ângulos retos, e que hoje se denomina de Gonçalves

Dias, pelo lado do mar ainda começava onde rompera em Desvio.

Na Rua Direita a praia era em pouco irregular: em alguns pontos o mar muito baixo sem a

menor dúvida se mostrava retirante, e acumulava aqui e ali areias, formando ilhotas brancas e

privadas de vegetação.

Mas entre esses pontos o mar ainda investia menos baixo sobre o continente, como teimoso a

negar-se ao recuamento de suas águas.

E naqueles tempos a praia e o mar (onde ele era mais fundo ou menos entupido de areias)

serviram de lugares de recreio, se o recreio não servia de pretexto para exibições ardilosas.

Envolvidas em suas mantilhas, e cobrindo o rosto com seus véus, as senhoras da Rua Direita, e

principalmente (dizem) as da de Aleixo Manoel, tinham por costume ir à tardinha nos meses de

verão pescar de caniço sentadas ou em pé na praia. As mães ou as tias já velhas

acompanhavam as filhas e sobrinhas moças, zelando sua pundicícia e o seu decoro.

Todavia as pescadoras jovens sabiam perfeitamente o segredo de Inês - a mameluca, e ao

deitarem os anzóis ao mar, o amigo vento vinha sempre desarranjar suas mantilhas e levantar

seus véus, de modo que os observadores curiosos podiam ver e admirar olhos formosos,

bonitos semblantes e soberbos colos.

E muitas vezes as vaidosas arteiras eram tão felizes na pesca que chegavam a pescar

duplamente - peixes no mar e corações em terra.

Vejam como se mudaram os costumes!...

Naquele tempo, as jovens da Rua de Aleixo Manoel iam pescar para se mostrar; e hoje

freqüenta a Rua do Ouvidor certo bando de pescadoras que andam se mostrando para pescar.

Mas não há bem que sempre dure!...

Tratando-se de construir a fortaleza da Lage à custa do povo, e, achando-se este

sobrecarregado de impostos, a Câmara Municipal (que ainda não era ilustríssima), como não

bastassem para essa obra algumas rendas que propusera aplicar à fortaleza, deliberou vender

alguns terrenos das marinhas da cidade, sendo o produto da venda destinado àquele fim.

Uma das marinhas vendidas foi a que fazia frente à primitiva linha de casas da Rua Direita.

E assim lá se foi a praia de exposição ardilosa de bonitas pescadoras.

Ganharam com isso as Ruas Direita e de Aleixo Manoel.

Em poucos anos aterrou-se o mar que ajudava o aterro, amontoando areias, e tão rapidamente

que no fim do mesmo século décimo sétimo já era regular e contínua a edificação e série de

casas fronteiras às da única linha antiga da Rua Direita. Em 1698 já estava construída a casa

que por ordem régia então se comprou para residência dos governadores e que é aquela onde

desde anos se achavam estabelecidos o Correio Geral e a Caixa da Amortização.

É casa histórica: em 1710 Carlos Duclerc atacando por terra a cidade do Rio de Janeiro entrou

com a sua falange nesta casa, e em rígido combate foi dela expelido por Gurgel do Amaral com

os seus estudantes e paisanos armados.

Agora a casa dos governadores vai ser demolida. Que haja ao menos quem lhe assista às

últimas horas de existência e lhe escreva a necrologia.

(Prevenção ao Instituto Histórico).

Mas a Rua de Aleixo Manoel, vendo aterrado o mar do qual fora Desvio, atravessou a Rua

Direita, ou foi além dela estender-se até ao lugar que ficou sendo então praia, e que era pouco

mais ou menos onde hoje a Rua do Mercado corta em ângulo reto a do Ouvidor.

No fim do mesmo século décimo sétimo essa praia tornou-se lugar de mercado de peixe, de

verduras e de algumas frutas, que se vendiam não debaixo de barracas de lona, mas sob

pequenas palhoças, pelo que foi denominado e conhecido por

Quitanda das Cabanas - primeiro nome da atual Praça do Mercado.

Assim, pois, a rua que desde um século menos dois anos se chama do Ouvidor começava então

em face da Quitanda das Cabanas.

Quitanda das Cabanas! Apesar de Quitanda, graças porém às Cabanas, era nome rústico, mas

um pouco lírico o tinha laivos de poesia de civilização primitiva; a mais chata e infeliz das

lembranças eivada de maresia mais tarde trocou essa denominação pela de Praia do Peixe.

Mil vezes antes Quitanda das Cabanas!

É certo que naquele mercado o que predominava era o peixe, e peixe ótimo e a fartar

baratíssimo a cidade, e peixe miúdo que se vendia então a cinco réis por quantidade abundante.

As verduras eram poucas e limitadíssimas em variedades. As frutas estavam no mesmo caso.

Flores ninguém vendia nem comprava, davam-se como davam-se e trocavam-se as mudas e

sementes das que já se cultivavam; quais eram além das do país?... Não estudei a questão

floriantiquária, mas que havia cultivo de flores juro-o, porque havia senhoras.

Mas, em todo caso, não há desculpa que aproveite a quem mandou rebaixar a Quitanda das

Cabanas para Praia do Peixe.

Em memórias históricas o anacronismo é naufrágio, e eu estava deveras naufragando em

anacronismo.

A rua chamada de Aleixo Manoel quando atravessou a Rua Direita e foi parar na Quitanda das

Cabanas não tinha mais aquele nome, pois que desde o ano de 1659 se denominou Rua do

Padre Homem da Costa.

Certamente o cirurgião Aleixo Manoel já tinha morrido sem deixar filhos ricos, e a linda

mameluca Inês, se ainda vivia, era viúva maior de oitenta anos, e por isso desde muito

esquecida do amigo vento, que outrora oportunamente lhe desarranjava a mantilha e lhe

levantava o véu, e portanto um por morto sem herdeiros de seu nome com herança de áureo

prestígio e a suposta viúva já por velha, ex-adorada mameluca, foram despojados da glória

daquela denominação da rua.

Quem foi porém na ordem das coisas, e qual o merecimento do Padre Homem da Costa

positivamente morador à rua que tomou o seu nome?... Não sei.

Naqueles tempos encontro um Padre Pedro Homem Albernaz que foi Vigário da freguesia da

Candelária, e Prelado do Rio de Janeiro; mas, embora fosse Homem, não foi da Costa; além

disso, descobri um Padre Pedro Homem da Costa que depois de paroquiar por alguns anos a

freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Angra dos Reis entregou-a em 1636 ao Padre

Roque Lopes de Queirós, e recolheu-se à cidade do Rio de Janeiro.

Seria esse o padre cujo nome passou à rua que se chamava de Aleixo Manoel?... ignoro-o, e

não devo expor-me a falsos juízos.

Sei de uma tradição - que não se encontra nos meus velhos manuscritos, mas que me foi

transmitida por um antigo fluminense honradíssimo, carpinteiro e mestre-de-obras, a quem devi

curiosíssimas informações de coisas do fim do século passado e do princípio do atual; esta

tradição, porém, que é a do Padre Homem da Costa, só a esse meu amigo ouvi, e portanto é

apenas individual, e não popular, e, tratando-se de caso passado há duzentos anos, não a

posso reproduzir sem previamente declará-la muito duvidosa.

Quando imagino episódios para suavizar a leitura destas Memórias, indico-os sempre com

bastante clareza: Agora não imagino, não invento a tradição, mas refiro-a, porque se não é

verdadeira é bem achada.

O Padre Homem da Costa (que só esses dois nomes tinha) era padre de letras gordas, mas

passava por bom cantoconista, porque sabia um pouco de música: indulgente, agradável e de

benigno coração, era geralmente estimado, e como gostasse de cantar modinhas e lundus,

todos o queriam nos seus saraus; tinha ele porém uma fraqueza ou uma paixão predominante -

a da gastronomia.

Padre e já velho, mas ainda rei da viola ou do cravo acompanhadores de suas cantigas nas

sociedades, as senhoras o festejavam à porfia; e por fim de contas as moças solteiras e

desejosas de casar descobriram nele a mais preciosa qualidade, um talento sublime.

O Padre Homem da Costa era maravilhoso a facilitar e promover casamentos.

Qual foi a primeira ardilosa que fez a descoberta de tão rico tesouro não se sabe e isso pouco

importa: o certo é que conhecido o milagre do padre as moças o tomaram em devoção.

Mas a candidata a casamento e o padre firmavam a rir e brincar, contrato que aliás era cumprido

sem falha.

A candidata abria seu coração ao Padre Homem da Costa, dizia-lhe o nome do seu namorado,

e, expondo-lhe as dificuldades que se opunham ao seu casamento, pedia intervenção protetora.

O Padre Homem da Costa respondia rindo e como a gracejar:

- Bem, bem: mas eu quero uma garopa de forno no dia do ajuste do noivado e convite para o

banquete do casamento.

Não havia nada mais barato!

E o padre a entender-se com os pais do namorado e depois com os pais da candidata era tão

persuasivo e hábil que acabava sempre por ganhar a garopa de forno, e ir ao banquete do

casamento.

E era sempre feliz nos empenhos tomados; porque, quando a pretensão lhe parecia

inconveniente ou desajuizada, não hesitava em desenganar a candidata.

É claríssimo que se multiplicavam as candidatas a casamento e os contratos de aparência

zombeteira e de realidade gastrônoma.

As confidências e as expansões das candidatas eram pouco mais ou menos semelhantes,

edições mais ou menos corretas e emendadas do mesmo romance de amor.

Nos contratos gastrônomos havia alguma variedade, mas sem importância para as candidatas:

em vez de garopa de forno, vinha neste peru recheado -; naquele um prato de chouriço, etc.;

mas em regra predominavam em primeiro lugar a garopa de forno e em segundo o peru

recheado.

Em pouco tempo o Padre Homem da Costa promoveu e abençoou ou fez abençoar mais

casamentos do que o prelado do Rio de Janeiro, e os vigários das freguesias da cidade.

E as noivas e casadas agradecidas e as novas candidatas em devoção, querendo honrar o

milagroso casamenteiro, começaram a chamar a rua onde ele morava, que era a de Aleixo

Manoel, Rua do Padre Homem da Costa.

Não houve nem Câmara Municipal, nem clero, nobreza e povo que pudessem resistir àquela

proclamação do belo sexo.

A Rua de Aleixo Manoel passou a denominar-se - Rua do Padre Homem da Costa.

E o velho padre continuou a adotar e proteger candidatas a casamentos, até que no fim de

alguns anos, em uma noite, morreu de apoplexia fulminante, depois de uma ceia em que

devorara metade de uma garopa de forno, uma fritura de camarões e ostras, e um pratarraz de

chouriço.

Não se pôde levantar da mesa, e expirou sem agonia, sentado, risonho e provavelmente a

pensar no almoço do dia seguinte.

Se esta tradição pudesse correr com fundamentos de veracidade, o Padre Homem da Costa,

pondo-se de lado a sua paixão gastrônoma, que não foi nociva senão a ele, deveria ser

aplaudido pela sua influência benigna, moralizadora e social, e bem merecera a honra de passar

seu nome à rua onde morava e onde enfim morreu.

Ah! se hoje em dia florescesse algum padre como aquele Homem da Costa, certamente o preço

das garopas e dos perus seria já fabuloso na Praça do Mercado; porque o número das devotas

do padre casamenteiro chegaria pelo menos a igualar ao dos candidatos a empregos públicos:

mas também seria menor o número daquelas mártires, a quem chamam solteironas.

Mas enfim a Rua de Aleixo Manoel passou a chamar-se do Padre Homem da Costa, nome que

conservou por cento e vinte anos, tendo trocado a casaca e a cabeleira do cirurgião pela batina

e pelo solidéu do padre, e faz vontade de rir imaginar beata e clerical durante um século e anos

esta Rua do Ouvidor filósofa sensualista, e até rua um pouco ou muito endemoninhada pela

multiplicação das tentações.

Em meados do século XVIII a Rua do Padre Homem da Costa estendeu-se um pouco mais para

o lado do continente, avançando até a rua que se chamou da Vala; deveras, porém, que não

devia aplaudir-se desse prolongamento.

Construída a fonte ou chafariz da Carioca no lugar; depois largo e hoje Praça da Carioca, nome

que tomou do das vertentes ótimas que recebeu canalizadas, sobravam tanto as águas que,

para dar-lhes esgoto, abriu-se grande vala com leito e paredes de pedra desde a Carioca

(chafariz) até o mar no sítio chamado Prainha.

(Entre parênteses: carioca quer dizer em língua tupi - casa do homem: - donde proveio

semelhante denominação?... quem era o homem da casa?... pretendiam os selvagens tamoios

que aquelas águas como as da fabulosa Cabalina tinham a virtude de inspirar estro poético:

donde provinha essa falsa crença?... o homem da casa teria sido algum pajé poeta, algum

tamoio solitário, homem notável pelo talento poético que os índios julgassem devido às águas

que corriam perto da sua - oca -?... deixo aos meus ilustrados amigos os Srs. Drs. Brigadeiro

Couto de Magalhães e Batista, os juizes mais competentes que conheço na matéria, o empenho

de resolver este problema, e fecho o parênteses).

A vala foi de considerável utilidade, porquanto serviu para dar vazão àquelas águas que caíam

sobrepujantes da fonte e dos tanques de pedra, e também às das chuvas então muito

freqüentes e algumas torrenciais, que tornavam como rios as ruas, e inundavam as casas da

cidade.

Além disso a vala teve durante anos certa importância administrativa, porque foi considerada

muro da cidade, ou linha extrema urbana.

Entretanto a vala ficou exposta, destapada, e como de tudo se abusa, abusaram da inocente e

benfeitora os colonos moradores das vizinhanças que a fizeram servir, para o despejo de quanto

de pior serviço de suas casas era preciso despejar.

Em breve e necessariamente a desvirtuada vala tornou-se imunda, repugnante, fétida e foco de

miasmas, e a Rua do Padre Homem da Costa que avançou até ela devia ser nesse seu novo

limite de habitação muito desagradável e anti-higiênica.

Mas apesar das ruins condições determinadas pelo abuso que ficou mencionado, casas se

foram construindo aos lados da vala e principiou a formar-se a rua que tomou dela o nome e

que hoje se chama de Uruguaiana.

Além da vala, o espaço que se estendia entre o monte de Santo Antônio e o mar, e dessa linha

para o centro até a depois chamada cidade nova inclusive, tudo era campo do Rosário.

Em 1764 ou 1765 o Vice-Rei Conde da Cunha ordenou à Câmara Municipal da cidade que

fizesse cobrir com lajes grossas a vala fétida e pestífera; a obra executou-se prontamente, e

para que não fosse de todo prejudicado o esgoto das águas das chuvas, a vala recebeu ralos de

pedra no encruzamento das ruas.

E todavia ainda houve abuso de ralos!

Em todo caso foi considerável o melhoramento olfativo e higiênico, sendo o Conde da Cunha

muito aplaudido e louvado por isso nas memórias do tempo.

E eis aí como se escreve a história!

O Vice-Rei Conde da Cunha, doente e velho, que raro se mostrava, passeando pelas ruas da

cidade, porventura nunca tinha recebido em seu vice-real nariz o gasoso testemunho das

exalações da vala aberta, e entrou na obra melhoradora apenas com a sua indispensável

assinatura na ordem expedida para que a vala fosse coberta com lajes grossas.

O que inspirou e determinou esse melhoramento foi noturno e ridículo caso, cuja história parece

romance, e há de divertir os meus leitores no capítulo seguinte.

CAPÍTULO 4

Como e por que o ajudante oficial da sala do Vice-Rei Conde da Cunha meteu-se a jogar

a banca na casa de João Fusco; desenvolve-se a história que parece romance, e na qual

são personagens João Fusco e a Sra. Helena, a menina Águeda, a mãe Jacoba, o cão

Degola, o oficial da sala, o sacristão da Igreja de S. José e um lobisomem que uma noite

põe em desordem a banca, e perseguido pelos jogadores escapa abismado na vala,

enquanto o sacristão de S. José, aproveitando o ensejo, bate a linda plumagem com a

menina Águeda, logo depois sua esposa: diz-se como o banho do lobisomem foi o

motivo de se cobrir a vala com lajedos; o oficial da sala faz prender por falsas suspeitas

de pasquineiro o sacristão, que é solto por intervenção do vigário, e transcreve-se um

pasquim que apareceu em frente à Rua do Padre Homem da Costa junto da vala.

O Vice-Rei Conde da Cunha foi mas não foi quem mandou que a Câmara Municipal fizesse

cobrir com lajedos a vala nauseabunda e pestífera. Este foi mas não foi parece absurdo; é,

porém, uma das verdades mais verdadeiras, que ainda às vezes se revelam em fatos. Foi -

porque assinou a ordem, mas não foi - porque de outrem partiu a iniciativa e a determinação.

O Conde da Cunha, velho, achacado e sem atividade, era o Vice-Rei; via, porém, pelos olhos, e

governava pela cabeça de seu ajudante oficial da sala, o Tenente-Coronel Alexandre Cardoso

de Menezes, que por muito hábil, inteligente e insinuante ganhara sua inteira e cega confiança e

se tornara o vice-rei de fato.

Infelizmente Alexandre Cardoso era de mau caráter, de costumes dissolutos, jogador, libertino,

desenfreado em suas paixões, e tanto mais perigoso, que além de valente e corajoso,

dobravam-lhe a ousadia, o poder de que dispunha e a certeza da impunidade.

No tempo do vice-reinado do Conde da Cunha jogava-se muito, jogava-se demasiadamente na

cidade do Rio de Janeiro, muito e apenas um pouco menos do que atualmente. O jogo

dominante era então a banca.

Alexandre Cardoso jogava quase todas as noites; mas só em rodas de gente rica e a mesas

cobertas de ouro; uma vez, porém, fez exceção a essa regra.

Uma noite, em 1764 ou em 1765, passando ele pela Rua da Vala, entrou como por acaso na

loja de João Fusco e pediu ao caixeiro biscoitos de carimã, balas, e mais ia pedir quando se

interrompeu perguntando:

- Que fazem lá dentro?

- Jogam a banca; sim senhor.

- Chama João Fusco.

João Fusco correu logo ao chamado.

- Eu também quero jogar, disse Alexandre Cardoso.

E entrou sem-cerimônia, dizendo aos jogadores que respeitosos e surpresos se levantaram.

- Não há nada de novo, é apenas mais um parceiro.

Alexandre Cardoso mostrou-se agradável, desfez o acanhamento da companhia, jogou, perdeu

duzentos cruzados, e alegre, e brincalhão levantou-se e disse:

- Basta por hoje, voltarei porém à desforra, João Fusco! na tua casa joga-se liso. Adeus.

E saiu.

Agora breve explicação.

João Fusco, a quem tinham alcunhado Fusco pela cor muito trigueira, era ilhéu açoriano, e

morava na Rua da Vala, logo além da Rua do Cano (hoje Sete de Setembro) em pequena casa

de duas portas e com sótão, a qual abria portão do quintal para a Rua dos Latoeiros.

João Fusco tinha consigo uma irmã, a Sra. Helena, ilhoa como ele, e que no Brasil enviuvara,

ficando-lhe do casamento uma filha, a menina Águeda, então com 18 anos, carioca lindíssima,

mas previamente condenada a casar com o tio já qüinquagenário, - homem de bem, mas

genioso, desconfiado, ciumento e terrível como um turco.

Aproveitando a habilidade e prática da irmã e da sobrinha, que eram doceiras magistrais, João

Fusco abrira na frente da casa loja de doces, espécie de confeitaria daquele tempo, e ali vendia

excelentes biscoitos, bolos, amêndoas de castanhas de caju, balas e confeitos, e em vez de

sorvetes, que somente setenta anos mais tarde se tornaram na cidade do Rio de Janeiro, o

refrigerante e saboroso aloá.

Além de Helena e Águeda, João Fusco tinha em casa o caixeiro que o ajudava no serviço da

loja, mas que era absolutamente privado de comunicação com a família, uma negra sexagenária

escrava de Águeda, cuja ama-de-leite fora, e enfim um grande cão.

A mãe Jacoba (a escrava) e Degola (o cão) eram os guardas do quintal e do portão, do qual em

todo o caso João Fusco à noite guardava a chave.

Helena e Águeda de dia trabalhavam na sala de jantar e na cozinha, e às oito horas da noite se

recolhiam ao sótão, que constava de uma saleta na frente, e outra no fundo: a primeira era

ocupada por Helena, a segunda pela menina. As janelas das saletas eram fechadas de cima a

baixo por varões de ferro.

Águeda tinha em horror o tio, e a idéia de lhe pertencer como esposa fazia o tormento da sua

vida; no entanto dissimulada e sonsa ela ria, e cantava de dia, e rezava muito de noite; mas

Santo Antônio sabia o que a menina, sua devota, nas rezas e em promessas lhe pedia.

Coitadinha! todos contra ela: Helena, que era a ilhoa mais áspera e desalmada, querendo-a

todo o transe casada com o irmão, vigiava incessantemente a filha e não a deixava pôr pé em

ramo verde.

As moças aproveitam ainda o mais fraco recurso para satisfazer sua vaidade de boniteza, e o

único recurso de Águeda era, duas ou três vezes por dia, e quando a mãe se achava mas

atarefada, correr por minutos à sua saleta do sótão, e pondo-se à grade da janela, mostrar seu

rosto, seu colo e seus ombros aos que por acaso passavam pela Rua dos Latoeiros.

Quase sempre atrás da menina era mandada a escrava, que, ao vê-la à janela, benzia-se,

dizendo:

- Ah, Nené! você faz pecado! olha senhô João!

Águeda ria-se.

Oh! mas é claro, que Jacoba era mais vigilante e mais terrível do que o dragão das Hesperides,

e tanto que João Fusco para experimentá-la já tinha pago falazes tentativas de sedução para

recados à Águeda, e a negra se mostrava sempre incorruptível e ameaçadora de denunciar à

mãe e ao tio da menina.

Que escrava modelo!... ela porém quase tanto como Helena criara em seu colo Águeda, e

amava-a com idolatria de quase avó.

Ainda mesmo com os seus varões de ferro as duas janelas do fundo do sótão da casa de João

Fusco tornaram célebre a beleza de Águeda, na cidade do Rio de Janeiro.

Fora daquelas janelas, e aí mesmo, através das grades, e só por breves minutos, ninguém

conseguia ver a sabida noiva de João Fusco, que apenas aos domingos saia com a irmã e com

a sobrinha para ouvir missa na Igreja de S. José; mas então irmã e sobrinha levavam mantilhas

e véus impenetráveis.

E nem a simples hipótese de amigo vento em socorro de Águeda!

Ao entrar na igreja era sempre o sacristão (santo rapaz, sobrinho do vigário, e que não

levantava os olhos do chão) quem apresentava às duas senhoras o hissope para que elas se

persignassem com água-benta.

Foi num desses momentos rápidos de oferecimento e tomada de água-benta que o libertino

Alexandre Cardoso, sem poder apreciar bem, adivinhou a beleza de Águeda.

Dias depois ele viu-lhe o rosto à janela do sótão, e, aceso em criminosas flamas, resolveu

seduzi-la e apoderar-se dela.

Perdeu tempo, mandando tentar a todo o preço a conivência e o concurso da negra Jacoba.

Perdida a esperança de entrar pelo portão, determinou introduzir-se pela porta da frente.

E foi jogar na casa de João Fusco.

A roda dos jogadores não era indigna; toda, porém, de gente da classe média, e de banca

modesta, estava longe de satisfazer o oficial da sala, freqüentador de sociedade aristocrática e

jogador delirante.

Todavia, Alexandre Cardoso voltou a jogar em casa de João Fusco mais de dez vezes,

perdendo quase sempre cem, duzentos e muitos mais cruzados.

O jogo durava ali até muito depois da meia-noite; mas de ordinário Alexandre Cardoso, quando

perdia, retirava-se antes de terminada a banca.

Já se desenganara do esperançoso plano de chegar a introduzir-se, mercê do jogo, no interior

da casa, porque a banca tinha por limite absoluto o fundo da saleta contígua à loja, e a porta de

comunicação interna sempre estava trancada; já estava disposto a libertar-se do sacrifício

daquele jogo plebeu, quando uma noite, saindo pouco antes da meia-noite da banca de João

Fusco, ao tomar no Largo da Carioca a Rua da Cadeia viu um vulto de homem embuçado ao

portão do quintal da casa que era o seu objetivo.

Alexandre Cardoso recuou, e, pregando-se à quina da Rua dos Latoeiros, estendeu o pescoço,

adiantou a cabeça até os olhos, e apurando a vista, e no silêncio geral aproveitando o ouvido,

observou curioso...

O vulto bateu de leve e compassadamente três vezes no portão, que quase logo se abriu com

abafado ruído da chave...

O vulto entrou, e o portão se trancou com o mesmo cuidado.

Alexandre Cardoso estava informado de que havia bravíssimo cão no quintal, mas não ouviu

nem latido, nem enfezado rosnar de cão.

- É um amante feliz! disse entre si com ciúme e contusão o soberbo oficial da sala do vice-rei.

Havia explicável erro no pensamento íntimo de Alexandre Cardoso. Águeda não era vítima de

um sedutor; mas, graças à segunda chave fabricada por artifícios de exaltado amor, e confiada

à velha escrava protetora, a menina recebia algumas vezes em entrevistas o escolhido de seu

coração, e seu desejado noivo.

Helena cansada dos trabalhos do dia inteiro, desde que dormia, era sono de pedra; João Fusco,

desde que começava a jogar, e tinha no bolso a chave do portão, só ia aos fundos da casa, se o

Degola rosnava, ou assanhava-se no quintal; a negra Jacoba velava protegendo o amor da

menina: em noites ajustadas, ouvindo os três toques de sinal, abria o portão que outra vez

trancava depois de dar entrada a um mancebo, e enquanto ia anunciá-lo a Águeda, o Degola

festejava o seu já conhecido, que lhe trazia sempre algum regalo à gulodice canina.

No entanto, Águeda chegava, mas a sua entrevista com o namorado nunca se estendia além de

um quarto de hora, nunca se passava livre da presença da escrava, nisso ao menos prudente.

O namorado de Águeda era o sacristão, sobrinho muito querido do Vigário da freguesia de S.