Memórias da Rua do Ouvidor por Joaquim Manuel de Macedo - Versão HTML

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José.

Mas Jacoba precauta a preparar defesa para si, ou fonte de astúcias para os seus protegidos

amantes, andava a fingir-se assustada, dizendo a João Fusco e a Helena que havia lobisomem

a correr de noite pelas vizinhanças.

A crença insensata nos lobisomens era muito comum então entre a gente rude; João Fusco deu

a coisa por certa, e Helena chegou a assegurar que o lobisomem de que Jacoba falava devia

necessariamente ser um meirinho que morava na Rua do Cano e que era muito amarelo.

Pelo medo que o lobisomem causava Jacoba se presumia de domínio mais seguro no quintal

durante as noites.

Nem tudo, porém, havia de ir correndo á medida dos desejos da velha escrava que, ao

amanhecer de um dia, achou morto no pé do portão o bravo Degola, que era tão amigo do

sacristão. Debulhada em lágrimas correu ela a dar parte do caso, e João Fusco, tendo

examinado o corpo do pobre animal e não encontrando nem ferimento, nem contusão, declarou

o cão morto de peste e consolou a escrava, prometendo dar-lhe em breve um outro Degola, o

que aliás era do seu interesse.

Quem sabia perfeitamente de que mal tinha morrido o Degola era Alexandre Cardoso.

O extravagante e dissoluto oficial da sala descobrira depois de algumas noites de espreita que o

ama e suposto sedutor de Águeda era o sacristão e sobrinho do Vigário de S. José.

Alexandre Cardoso delineou então atrevido ou antes adoidado plano só explicável em quem

muito contava com o respeito que impunha a sua posição oficial, além de confiar não menos na

própria valentia.

Continuou a jogar na casa de João Fusco; mas às 11 horas da noite saía, indo encontrar-se no

Largo da Carioca com um soldado do seu regimento, que ali o esperava.

Perdeu três noites assim; na quarta, porém, viu o embuçado, reconheceu o sacristão que

dobrava da Rua da Cadeia para a dos Latoeiros.

- É aquele... murmurou.

O soldado avançou rápido e, chegando ao pé do embuçado, disse-lhe vivamente:

- Sr. Sacristão, o reverendíssimo Sr. Vigário o manda chamar já e já à igreja.

O sacristão atarantado por terem-no reconhecido, e não sabendo que pensar do que àquelas

horas tinha de fazer na igreja, voltou apressadamente.

Alexandre Cardoso despediu o soldado, chegou-se ao portão da casa de João Fusco e bateu de

leve três vezes.

O portão abriu-se, e ele que não se arreceava mais do Degola entrou imediatamente.

Jacoba trancou de novo o portão, e tão escura estava a noite, que ela não deu logo pela troca

do namorado da menina.

Mas Alexandre Cardoso, sentindo-a tirar a chave do portão, e querendo ter saída livre, disse

baixinho e disfarçando a voz:

- Dê-me a chave.

A negra recuou desconfiada, e perguntou:

- Você quem é?... fala!

Alexandre Cardoso, em vez de falar, avançou dois passos, e Jacoba recuou quatro, e um a

avançar, e a outra a recuar chegaram, isto é, a negra meteu-se pela cozinha, e o tresloucado

substituto do sacristão parou à porta, e à fraca luz de ruim candeia mostrou uma bolsa,

sacudindo-a para assinalar que estava cheia de ouro.

Jacoba, verificando que não era o sacristão, soltou um grito, e, atirando-se para dentro da casa,

começou a bradar:

- Tem lobisomem em casa!... lobisomem entrou!

Alexandre Cardoso sentiu alvoroço na sala de jogo, e não tendo retirada pelo quintal, perdida a

cabeça, lançou-se além da cozinha pela sala de jantar, tomou por estreito corredor, e ao ouvir o

ruído que faziam os jogadores, que acudiam aos gritos da negra, foi subindo uma escada que

achou no fim do corredor sem saída...

Mas no tope da escada apareceram Helena e Águeda a bradar:

O lobisomem vem para o sótão!... o lobisomem está aqui!...

Alexandre Cardoso precipitou-se pela escada abaixo, tornou à sala de jantar, viu os jogadores

que voltavam apressados do quintal, tomou por outro corredor, chegou à saleta do jogo, e enfim,

orientado, saiu veloz pela porta ainda entreaberta da loja.

Estava livre do maior perigo; não querendo, porém, que o reconhecessem, e certo de ser

perseguido, como de fato logo o foi, fugiu, correndo pela Rua da Vala, e aturdido pela vozeria

dos jogadores já a segui-lo, ao chegar diante da extrema da Rua do Padre Homem da Costa,

deu infeliz salto para vencer a vala, e caiu dentro dela.

Pior do que isso! João Fusco e os companheiros da banca aproximaram-se, e Alexandre

Cardoso, furioso, sem medo, mas envergonhado do ridículo de sua situação, e para escapar à

publicidade do seu escandaloso procedimento, abismou-se até o pescoço na vala nauseabunda

e mal cheirosa.

Os perseguidores o procuravam... alguns diziam que ele se escondera dentro da vala, já

falavam em mandar vir luzes e archotes, o poderoso oficial da sala do vice-rei estava em

torturas, quando angustioso brado veio salvá-lo.

O lobisomem carregou com Águeda!... gritava Helena desesperada.

João Fusco e seus amigos acudiram ao clamor de Helena.

O caso era simples.

O sacristão achara a igreja fechada e a casa do vigário seu tio também de porta trancada, e

amante apaixonado a imaginar traição, voltara à Rua dos Latoeiros, ouvira grande ruído na casa

de João Fusco, e apreensivo se dirigira para a Loja de Doces.

Quando ali chegava, Helena saía como espavorida agarrando-se ao irmão que com os sócios

da banca iam em perseguição do lobisomem.

À porta da loja ficaram somente Águeda e Jacoba que lhe contaram quanto se passara.

O sacristão, adivinhando pela ousadia da tentativa algum poderoso rival, disse com ansiedade a

Águeda:

- Oh!... em tal caso, ou já ou nunca!

E ofereceu a mão à menina.

Águeda o compreendeu, e, tomando-lhe a mão, fugiu com ele.

Pouco depois Helena menos aterrada, lembrando-se da filha, voltou cuidadosa para casa; mas

debalde procurou Águeda, encontrando apenas Jacoba caída no chão e em terríveis

contorções.

Tudo obra do lobisomem!

João Fusco e os outros chegaram para reconhecer a triste verdade.

Águeda tinha desaparecido.

Alexandre Cardoso, aproveitando a súbita retirada dos perseguidores, saiu da vala, e

desapontado e prestes recolheu-se à sua casa, onde, livre da roupa imunda, só depois de três

sucessivos banhos, foi no leito pedir ao sono o esquecimento das suas extravagâncias e do seu

desastre dessa noite.

O epílogo desta tradição tem o merecimento de dois bonitos quadros: um o da felicidade de dois

jovens amantes; outro o de um benefício público.

O Vigário de S. José perdoou facilmente a travessura do sobrinho, casando-o com Águeda, a

despeito dos impedimentos que João Fusco protestava que ia apresentar, mas que não ousou

fazer.

Alexandre Cardoso, o ajudante oficial da sala do vice-rei, tomara em aversão a vala, e sem

dúvida para obviar iguais e possíveis desastres futuros fez com que o Conde da Cunha

ordenasse à Câmara Municipal que a mandasse cobrir com lajedos.

Precaução de useiro salteador amoroso noturno.

Veio ex-fumo a luz, do mal o bem; de um banho fétido na vala a pétrea coberta desta.

Meses depois de realizada a obra beneficiadora da cidade, e de quase de todo esquecida a

famosa história do lobisomem na casa de João Fusco, lobisomem de que principalmente as

velhas davam testemunho até jurado da aparição, da correria e do desaparecimento misterioso

por arte diabólica, Alexandre Cardoso que era vingativo e mau, explorando a freqüência de

pasquins injuriosos que amanheciam pregados nas esquinas das ruas contra ele próprio, e

contra o Vice-Rei Conde de Cunha, um dia mandou prender o sacristão da Igreja de S. José

como suspeito de pasquineiro.

Era suspeita imaginada, calúnia indigna e perversa, vingança de opressor cruel.

Mas, ainda bem que a vítima, o sacristão, era sobrinho de padre, e ainda mais e melhor,

sobrinho de padre vigário.

O marido de Águeda tinha averiguado, ponto por ponto, a história toda do lobisomem; guardara-

a, porém, consigo a medo do oficial de sala.

O tio vigário, sabendo da prisão do sobrinho, foi ter com ele à cadeia, e ouvindo-o então narrar o

caso do lobisomem, que explicava a injusta prisão, correu logo a referi-lo ao Bispo D. Frei

Antônio do Desterro, e o bispo deu conhecimento de tudo ao Conde da Cunha, que mandou

soltar o sacristão, bem que não acreditasse no que diziam contra o seu ajudante oficial de sala.

Propalou-se logo a história do lobisomem, e dias depois amanheceu em frente da rua do Padre

Homem da Costa, junto da vala, fincado um poste e nele pregado o seguinte pasquim:

Mude-se o nome da rua,

Tenha outro nome e mais gala;

Seja, em vez de Homem da Costa;

Do Ajudante da sala,

Que uma noite um lobisomem

Aqui se banhou na vala.

Horas depois vieram soldados arrancar o pasquim, e derrubar o poste; muitas pessoas, porém,

já tinham lido e decorado o malicioso versinho, que a tradição popular conservou.

Graças ao medo das perseguições do terrível oficial de sala do Vice-Rei Conde da Cunha, a

atual tafulona Rua do Ouvidor escapou ao vexame de passar então a denominar-se não - Rua

do Ajudante Oficial de Sala, como propusera o pasquim, mas Rua do Lobisomem, conforme

alguns mancebos janotas do tempo, e mais atrevidos pela influência de suas famílias nobres ou

ricas, durante semanas a chamaram por zombaria ao aborrecido Alexandre Cardoso.

A rua manteve a sua denominação de Padre Homem da Costa; mas parece que a proposição do

pasquim e a alcunha sarcástica dada por aqueles mancebos destemidos já eram prenúncios da

próxima deposição do Padre Homem da Costa no seu domínio denominativo da rua, que

começava a ser anacrônica pela batina e o solidéu que ele usara.

A rua vai receber nome novo, e é de honra e de etiqueta que o receba em novo capítulo nestas

Memórias.

CAPÍTULO 5

Como a Rua do Padre Homem da Costa chegou pele lado de terra em seu - plus ultra -

abrindo-se na atual Praça de S. Francisco de Paula: referem-se os tormentos de Cabido

de Rio de Janeiro, e a história da Sé Nova, que nunca chegou a ser Sé. Transformação

da cidade de Rio de Janeiro nos vice-reinados do Marquês de Lavradio e de Luís de

Vasconcelos; diz-se como a Rua do Padre Homem da Costa andou, ou permaneceu

pouco lembrada até que e Marquês de Lavradio que, como Henrique IV, era devoto do

belo sexo, fez nela das suas costumadas proezas noturnas, amando a viuvinha Zezá,

cunhada de Amotinado verdadeiro, que foi logrado pelo falso Amotinado. Como houve

idéia e questão de mudança da denominação da rua, que acabou chamando-se do

Ouvidor, em honra de Dr. Berquó. Anuncia-se a festa do primeiro centenário da Rua do

Ouvidor e promete-se e programa da grandiosa solenidade.

Quando o Tenente-Coronel Alexandre Cardoso, oficial de sala, perseguido como lobisomem na

noite desastrosa, caiu dentro da vala no encruzamento da rua deste nome com a do Padre

Homem da Costa, já esta há dezessete ou dezoito anos tinha pelo lado de terra chegado à

extrema, onde pudera escrever - plus-ultra -; pois que acabara em sua embocadura na atual

Praça de S. Francisco de Paula.

Breves explicações me parecem necessárias.

A Rua do Padre Homem da Costa fora obrigada a fazer alto quando chegou a Rua da Vala (hoje

Uruguaiana): porque, além desta, o campo era do logradouro público, e não se permitiu o

prolongamento da rua, e nem ainda um pouco mais tarde, bem que perto do campo que lhe

vedavam já estivesse edificada a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, de particular devoção

dos homens pretos livres, libertos e escravos.

Mas enfim veio o Cabido do Rio de Janeiro resolver o problema da revogação daquele

logradouro público.

O Cabido do Rio de Janeiro desde muito que reclamava Sé própria e condigna.

Arruinada a Sé primitiva, a Igreja de S. Sebastião do Castelo, hospedou-se o Cabido na então

simples Capela de S. José; mas, faltando-lhe aí cômodos, invadiu quase à força a Igreja da

Santa Cruz dos Militares.

É curiosa, mas triste, a história da campanha dos cônegos contra as irmandades donas da casa,

estas a empurrar para fora os hóspedes, e os hóspedes a resistir, e opor-se à despedida; não

cabe, porém, nestas Memórias a narração de quanto se passou nesse longo pleito.

Vencido na luta, e perdida a esperança de estabelecer-se na Igreja da Candelária, o Cabido

acolheu-se a pesar seu na de Nossa Senhora do Rosário.

A prova do pesar do Cabido é dada pelo Monsenhor Pizarro, que em suas Memórias repete sem

caridade a queixa do forçado e inevitável contato com os pretinhos, aliás seus e nossos irmãos

em Deus.

Mas o governo da Metrópole (reinado de D. João V), aprovando o plano apresentado, mandou

construir nova igreja para Sé do Rio de Janeiro, e o Governador Gomes Freire de Andrade, o

bispo, e o engenheiro diretor das obras de acordo escolheram para o templo lugar no Campo do

Rosário a curta distância da Rua da Vala, defronte da extrema imposta à Rua do Padre Homem

da Costa.

No assinalado histórico dia aniversário, 20 de janeiro de 1749, foi lançada com aparatosa

solenidade a primeira pedra da Sé nova, cujos alicerces e grossas paredes haviam de servir não

para ela, vic vos nos vobis, mas para o edifício de que é última herdeira a Escola Politécnica do

Rio de Janeiro.

Para o solene lançamento da primeira pedra limpara-se, aterrara-se em alguns pontos, e todo se

igualara o terreno fronteiro à futura igreja, o qual, ou no mesmo dia 20 de janeiro, ou pouco

depois, recebeu a denominação de Largo da Sé Nova.

E então a Rua do Padre Homem da Costa, vendo um largo aberto no campo do logradouro

público, usou do seu bom direito, saltando a vala, e estendendo ou continuando suas duas filas

de casas até abrir-se no Largo da Sé Nova.

As obras da Sé, que ficaram em provérbio popular perpetuadas, após ativo ardor dos primeiros

meses, caíram em desalento, e ora interrompidas, por faltar azeite à lâmpada, ora continuadas

muito preguiçosamente, chegaram por isso a excitar o ridículo que feriu a negligência e a

desídia do governo com aquele provérbio fulminador das obras em que se consome o dinheiro

público e nunca chegam ao fim.

Mais afortunada que a Sé, a Igreja de S. Francisco de Paula, começada a construir-se em 1759

(dez anos depois daquela) no mesmo largo, em 1801 já estava acabada pelos seus Mínimos,

que assim deram quinau aos máximos do governo, e em prêmio do seu zelo o povo mudou o

nome do largo, que ficou sendo chamado de S. Francisco de Paula.

A Rua do Padre Homem da Costa desde 1749 não teve mais prolongamento a aspirar; ainda,

porém, era cedo para as glórias que a esperavam com outro nome.

De 1770 a 1791 a cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro se transformou como por

metamorfose rápida. Era feia lagarta, e o Vice-Rei Marquês de Lavradio fez sair do casulo a

borboleta, asseando, calçando as ruas e praças, abrindo novas ruas, banindo as rudes peneiras

das portas e janelas, e removendo para longe dos centros urbanos a aglomeração pestífera dos

míseros negros trazidos da África para imundos recintos de mercado de escravos.

O Vice-Rei Luís de Vasconcelos, achando a borboleta fora do casulo e a ensaiar as asas de

seda, deu-lhe água e flores em chafarizes, na Fonte das Marrecas, e no Jardim Público, e deu

ainda à cidade novas ruas, uma das quais foi a das Belas Noites, então a romanesca das noites

de luar crescente e pleno.

A Rua do Padre Homem da Costa não recebeu nesses vinte e um anos de florescimento na

cidade melhoramento algum, à exceção do banimento das peneiras que a afeavam, como as

outras; dois anos porém, depois do começo do vice-reinado de Luís de Vasconcelos, perdeu o

nome que lhe tinham dado em 1659.

Escapara à denominação de Rua do Lobisomem no vice-reinado do Conde da Cunha, e como

se vai ver, escapou de outras que lhe quiseram dar, para denominar-se Rua do Ouvidor.

O Marquês de Lavradio, o Vice-Rei estadista, era varão de alto saber, de grande experiência e

de virtudes; tinha, porém, a fraqueza de Henrique IV, e pecou não pouco por apaixonado do belo

sexo. No seu tempo o doido Romualdo dizia que o vice-rei limpava as ruas e sujava as casas.

O ilustre Marquês estava muito longe de ser ostentoso, delirante e corrompido perversor, como

fora o ajudante da sala do Conde da Cunha; foi, porém, conquistador famoso, e teve ligações

amorosas que o prenderam muito, e amores furtivos e passageiros que autorizaram o mordaz

epigrama do doido Romualdo.

A princípio, e a supor-se cauto, ele dissimulou suas fraquezas de um modo singular e

espirituoso.

O Marquês adotara o costume de sair sob diversos disfarces depois das dez horas da noite em

passeio pela cidade para zelar a polícia e ver com os seus olhos o que se passava, e ouvir com

os seus ouvidos o que se dizia.

Em suas rondas ou passeios levava ele sempre por companheiro único um oficial de milícias, o

Tenente João Moreira, conhecido pela alcunha de Amotinado pelos fáceis arrebatamentos de

seu gênio ardente e desordeiro.

O Tenente Amotinado era de prodigiosa força, de ânimo inflamável e talvez o mais antigo

capoeira do Rio de Janeiro, Jogando perfeitamente a espada, a faca, o pau e ainda e até de

preferência a cabeçada e os golpes com os pés.

Não se temia de dois ou de dez inimigos, multiplicava-se na defesa e ataque pela agilidade.

Tinha medo somente do Vice-Rei e do Ouvidor da comarca.

Era delicadíssimo como ufanoso escravo do Marquês de Lavradio, a cujo serviço não punha

limites.

O Marquês, quando tinha de pescar por devoção ao belo sexo, aproveitava para isso os seus

disfarces e horas de passeio noturno, pondo em ridículo e abusivo tributo a baixa

condescendência do Tenente.

À noite e a prazo dado, batendo de leve à porta que havia de se abrir a sinal de ajuste, se fraca

voz perguntava:

- Quem é?...

- Tenente Amotinado, respondia sempre o Marquês.

E o Tenente não protestava.

Durante alguns meses por isso, e pelos falsos boatos que se faziam espalhar para explicação

de amorosas travessuras, cujo mistério era malguardado, ou por acaso descoberto, o Tenente

Amotinado gozou na cidade do Rio de Janeiro imerecida celebridade de feliz conquistador de

invejados amores e de traquinas beija-flores inconstantes em jardins pouco vedados.

Em breve, porém, o ardil foi conhecido e o Tenente Amotinado caiu no ridículo, que devia ser o

seu primeiro castigo.

O povo que amava o seu bom e sábio vice-rei era indulgente, repetindo a rir as notícias

indiscretas de suas travessuras amorosas, e, a zombar do cúmplice desbrioso, continuava já

então malicioso a nomear como autor das noturnas traquinadas o Tenente Amotinado.

Mas todos sabiam bem que nome e que titulo se escondiam na pobre alcunha do Amotinado.

Mas acontecem coisas neste mundo!...

O Tenente João Moreira, o Amotinado, o companheiro ou caudatário do Marquês de Lavradio

em seus passeios noturnos, era casado e tinha em sua companhia uma cunhada, Josefa,

chamada em família Zezé, viúva há um ano.

A esposa do Amotinado era bonita e jovem; mas a Zezé, dois anos mais moça, mais bonita

ainda.

O Tenente morava à Rua do Padre Homem da Costa, um pouco acima da dos Ourives, e sua

casa de um só pavimento tinha além da porta da entrada uma outra em curto muro contíguo, a

qual só se abria para o serviço dos escravos.

Ora, no último ano do seu vice-reinado o Marquês, apanhado uma noite na Rua do Padre

Homem da Costa por súbita e grossa chuva, aceitou o oferecimento do Tenente, recolheu-se à

casa deste, e viu Leonor, ou Lolora, como o marido e parentes a chamavam, e a Zezé, sua irmã.

O Marquês ficou encantado, e creio que só em lembrança dos serviços que devia ao Amotinado

não pensou em apaixonar-se por ambas.

Enamorado da Zezé, e castigando assim e sem idéia de castigo as vis cumplicidades do

Tenente, fez chegar seus recados e proposições amorosas à linda viuvinha, conseguindo

comovê-la com a ternura prestigiosa e com a sua singular beleza de Vice-Rei.

Não sei como o Amotinado descobriu o namoro e os projetos do Marquês, e pôs-se alerta para

impedir que o vice-real namorado penetrasse em sua casa.

O cem vezes baixo e aviltado cúmplice de entradas noturnas em casas alheias não queria

graças pesadas na sua: com outro qualquer teria logo posto fim à história, rompendo em

escandaloso conflito do seu costume; com o vice-rei, porém, o caso era outro, e o Tenente sabia

que a mais pequena cabeçada levá-lo-ia à forca ou pelo menos ao desterro, ficando não só

Zezé mas também Lolora indefesas e à mercê do Marquês, e de outros depois dele.

O Amotinado não fez bulha na família, guardou o seu segredo, e esperou, zelando vigilante e

desconfiado a casa.

O Marquês tinha, no entanto, chegado a sorrir a mais tenra esperança.

Uma noite o Tenente achou o Vice-Rei de cama em conseqüência de um resfriamento e em uso

de sudoríficos.

- Tenente, disse o Vice-Rei com voz trêmula, eu hoje não posso sair; vai rondar até à meia-noite,

e vigia bem o Jogo da Bola e a cadeia. Amanhã às oito horas vem dar-me parte do que houver.

O Amotinado saiu.

Às onze horas da noite em ponto, o Marquês, disfarçado em oficial de marinha, parou na Rua

do Padre Homem da Costa junto à porta do muro contíguo à casa do Tenente e bateu de leve

cinco vezes.

Uma voz comprimida e como ansiosa perguntou de dentro.

- Quem é?...

O Marquês respondeu sorrindo:

- Sou o Tenente Amotinado.

O portão abriu-se, e o Marquês recuou um passo, vendo o Tenente que trazia na mão uma

lanterna, e disse logo

- Perdão, Sr. Vice-Rei! eu sei que há dois Amotinados na cidade, mas nessa casa só entra sem

pedir licença o Amotinado verdadeiro.

E trancou a porta.

O Marquês quase que se encolerizou, mas faltou-lhe o quase; porque imediatamente desatando

a rir voltou sobre seus passos e foi dormir e sonhar com a linda viuvinha Zezé.

No outro dia recebeu às oito horas da manhã o Tenente, tratou-o com a maior bondade, riu-se,

lembrando-lhe o desapontamento por que passara no portão, louvou-lhe o zelo pela honra da

Zezé, e, a rir ainda mais, recomendou-lhe que tivesse cuidado com o falso Amotinado.

Continuaram como dantes em noites determinadas Os passeios noturnos do Marquês e do

Tenente; este, porém, velava sempre em desconfiança daquele.

Algumas semanas depois, em noite de falha de ronda, o Amotinado, ouvindo o toque das dez

horas no sino de S. Bento, correu para casa, porque era a essa hora que o Marquês costumava

sair. Chegou, bateu à porta que Lolora veio abrir-lhe um pouco morosa; quando, porém, ia

entrando, o Tenente sentiu leve ruído... voltou a chave, fingindo ter trancado a porta e esperou...

Quase logo a ponta do muro abriu-se, e por ela saiu um embuçado.

O Tenente deu um salto em fúria de tigre, mas estacou, murmurando com os dentes cerrados:

- Sr. Vice-Rei!...

- Aqui não há Vice-Rei, disse-lhe em voz baixa o Marquês; há dois homens; mas, se o achas

melhor, há o falso Amotinado a sair pela porta do muro quando o verdadeiro entra pela porta da

casa. E vê lá! não ofendas aquela que protejo!...

O embuçado afastou-se, deixando o Tenente em convulsão de raiva estéril.

Um vice-rei deveras fazia medo.

Mas às dez horas da noite ainda havia gente acordada na Rua do Padre Homem da Costa, e no

dia seguinte toda a cidade sabia do caso das duas portas e dos dois Amotinados. Apareceram

pasquins, compuseram-se cantigas e lundus, que eram as armas da censura popular do tempo,

e alguns malévolos propuseram que a rua deixasse o antigo nome pelo do Amotinado.

O tenente celebrizou-se por brigas, em que ele só espalhou e espancou grupo de dez ou doze

maldizentes.

E chegou então o novo Vice-Rei Luís de Vasconcelos.

O Marquês, despedindo-se do Amotinado a quem pagara sempre liberalmente a exagerada e

servil dedicação, deu-lhe larga bolsa cheia de ouro; este, porém, pediu-lhe com ardor a patente

de capitão.

O Marquês respondeu-lhe:

- Pobre Amotinado!... os postos do exército são do rei, que os confere a quem presta serviços a

seu governo; os teus serviços foram prestados só à minha pessoa e eu não posso pagá-lo

senão com o meu dinheiro. Vejo que uma bolsa foi pouco, e dou-te outra.

E foi buscá-la, e deu-lha, e o miserável aceitou-a.

O povo chorou, vendo partir para Lisboa o Marquês de Lavradio, a quem todos perdoavam as

travessuras amorosas pelo bom, sábio, justo e benemérito governo.

A linda viuvinha Zezé ficou com seu dote que lhe aumentou bastante a boniteza para achar,

como achou, marido de seu gosto e escolha.

Mas a Rua do Padre Homem da Costa não podia mais conservar a denominação envelhecida.

Continuava a teima dos zombeteiros e dos inimigos do tenente valentão e espalha-brasas em

querer chamá-la Rua do Amotinado.

Acresceu logo depois a pretensão de alguns cônegos e de gente devota, que propunham a

denominação de Rua do Cabido ou Rua da Sé Nova, em honra da Sé Nova que então, embora

já desanimadamente, se construía no largo ainda desse nome, e onde se abria a Rua do Padre

Homem da Costa.

E quando mais fervente se achava esta contenda, chegou de Lisboa nomeado ouvidor da

comarca para o Rio de Janeiro o Dr. Francisco Berquó da Silveira (da família Berquó da qual foi

membro ulteriormente o Marquês de Cantagalo, amigo dedicadíssimo e estimado de D. Pedro I),

e logo ou pouco depois de sua chegada à capital do Brasil colônia foi morar em 1780 à Rua do

Padre Homem da Costa, na casa de sobrado, que é hoje de n.º 62-A, e ocupada pela loja de

papéis pintados do Sr. Anacoreta.

Um ouvidor de comarca era naquele tempo muito mais do que um simples mortal, era um

potestade, que o povo respeitava mais do que hoje respeita ao presidente do Supremo Tribunal

de Justiça, e não havia quem deixasse de pôr-se de chapéu na mão quando ele passava.

Desde que o Dr. Berquó estabeleceu sua residência à Rua do Padre Homem da Costa;

desfizeram-se as pretensões denominativas de Rua do Amotinado e do Cabido, e todos de

acordo a chamaram Rua do Ouvidor.

E, portanto, o defunto Padre Homem da Costa, muito depois de morto, deu em 1780 à costa,

não nos baixios, mas nas alturas do ouvidor da comarca.

1780!... não esqueçam a data, que marca o começo da época que tinha de ser tão gloriosa para

a rua por excelência poliglota e enciclopédica, labirinto, vulcão, mina de ouro e abismo de

fortunas, rainha dos postiços e das artes arteiras, fonte de belos sonhos, armadilha de enganos,

et coetera, et coetera, et coetera, somando tudo - Torre de Babel.

Principiara sendo - Desvio - desvio do caminho reto, e essa origem não foi lisonjeira.

Passara de Desvio à Rua de Aleixo Manoel, plebeu raso, que, embora só de fidalgos, era

barbeiro, segundo os meus velhos manuscritos.

Subiu, tomou solidéu e batina, entrou para a categoria do clero, elevando-se à Rua do Padre

Homem da Costa.

E enfim exaltou-se, mostrando-se com a toga da magistratura em sua nova e última

denominação de Rua do Ouvidor.

E notem: o ouvidor chamava-se Berquó, nome cujas letras combinadas de outro modo formam o

presente do indicativo do verbo quebrar, isto é - quebro, o que quer dizer: não resisto, rendo-me.

O Berquó, o tal ouvidor, tinha pois nas letras do seu nome cabalisticamente encerrado o

segredo dos encantos da rua, a que ninguém resiste, a que todos se rendem; porque todos

quebram, e até se requebram escravos do seu poder.

Mas não o esqueçam, a rua começou a denominar-se do Ouvidor em 1780.

Mais dois anos passados, e fulgirá esplendíssimo e supermemorável o primeiro centenário da

brilhante e famosa Rua do Ouvidor.

Que festa! quem viver em 1880 verá o que há de haver.

Em 1880 - o centenário!...

Preparai-vos, ó modistas, floristas, fotografistas dentistas, quinquilharistas, confeitarias,

charutarias, livrarias, perfumarias, sapatarias, rouparias, alfaiates, hotéis, espelheiros,

ourivesarias, fábricas de instrumentos óticos, acústicos, cirúrgicos, elétricos e as de luvas, e as

de postiços, e de fundas, de indústria, comércio e artes, e as de lamparinas, luminárias, faróis, e

os focos de luz e de civilização e vulcões de idéias que são as gazetas diárias e os armazéns de

secos e molhados representantes legítimos da filosofia materialista, e a democrata,

popularíssima e abençoada carne-seca no princípio da rua, e no fim Notre Dame de Paris, a

fada misteriosa de três entradas e saídas e com labirintos, tentações e magias no vasto seio -

preparai-vos todos para a festa deslumbrante do centenário da Rua do Ouvidor!...

A festa é de nosso dever e de nossa honra!...

Preparai- vos!

O centenário é em 1880!...

Se eu tiver paciência, animação e confiança, proporei no fim destas Memórias que ainda têm

muito que dar de si, o programa da grande festa do primeiro centenário da Rua do Ouvidor.

Vejam lá se me deixam ficar mal.

CAPÍTULO 6

Como se revela em burlesca proeza o primeiro ou mais antigo herói da Rua do Ouvidor;

conta-se a história de duas ceias no fundo da taberna de Manoel Gago e como pela sua

singular habilidade pregou famosa logração a três amigos o Belo Senhor, interessante

celebridade do Rio de Janeiro, rematando-se esta tradição com o conselho um pouco

profético dado por Agostinho Fuas, um dos logrados, ao Belo Senhor.

A rua que em 1780 recebeu a denominação do Ouvidor teve por seu primeiro herói em burlesca

proeza o Belo Senhor.

Talvez que bem poucos dos meus leitores saibam quem foi o Belo Senhor; aliás a mais famosa

personagem travessa e infelizmente muito pior do que travessa da cidade do Rio de Janeiro no

último quartel do século passado e que acabou ignorado morrendo não sei em que ano do

princípio do atual.

O Belo Senhor chamava-se José Joaquim de...; nascera na cidade do Rio de Janeiro, onde seus

pais (creio que pelo menos o pai era de Portugal) o fizeram receber limitada instrução acima da

primária, mostrando-se ele, porém, muito inteligente, e sobretudo, maravilhoso em caligrafia.

Era de tanta beleza varonil no rosto como bem talhado de corpo; de espírito sutil, de gênio

alegre e folgazão, dançando com o maior primor, cantando agradavelmente, merecera por tudo

isso a desvanecedora alcunha de Belo Senhor, que por certo não foram os homens que lhe

puseram.

Em sua juventude gozou o Belo Senhor a vida, esbanjando o tempo, e só ocupado de folguedos

e de prazeres; ao menos, porém, isento de abusos e de atos criminosos que mancham o

homem.

É nessa idade louçã, de alegrias e de devaneios, que se apresenta o mais antigo herói de

travessura curiosa passada na Rua do Ouvidor.

O que passo a referir é tradição que ouvi não só a um, mas a alguns velhos que conheceram o

Belo Senhor, e entre esses há um respeitável e estimadíssimo cirurgião que em idade muito

avançada faleceu em 1877.

Nesta tradição pertencem-me os nomes dos tafuis amigos do Belo Senhor, a data precisa da

segunda ceia, e os diálogos; porque não fui informado daqueles nomes, e nem da data que

marquei para dar certa vida à tradição.

Tudo mais, isto é, a primeira e a segunda ceia, as fivelas e a casaca novas, e a surpresa

causada pela presença da Rosinha, atriz da casa da ópera, devem considerar-se, e pelo menos

eu reputo de tradição verdadeira.

E agora conto a proeza do Belo Senhor, sem mais prelúdios, nem cerimônias.

Companheiro assíduo dos mais elegantes e ricos tafuis do seu tempo, o Belo Senhor; que,

muitas vezes, por seus dotes naturais, pelo seu espírito e por suas prendas ganhava, mais do

que eles, agrados das senhoras nas reuniões e saraus, quase sempre baldo ao trunfo não os

podia igualar no luxo dos vestidos sempre novos, e na magia do ouro, com que era posto em

derrota na disputa de certos amores.

Uma noite, em 1783, ou pouco depois, em companhia de alguns desses tafuis, todos de boas e

ricas famílias, o que não os impedia de render vassalagem à extravagância, que também é

rainha da mocidade, ceava o Belo Senhor peixe frito com pimentões, chouriço de porco e rim de

vaca assado e bebia vinho do Ponto, em saleta reservada do fundo da famosa taberna de

Manoel Gago, sita à Rua do Ouvidor; esquina da Rua dos Latoeiros.

Ninguém se admire da escolha de uma taberna para uma ceia desses tafuis.

Ainda depois de estabelecidos os hotéis e em anos que chegavam ao termo da primeira metade

do nosso estupendo século, não faltavam hóspedes muito sérios às saletas dos fundos de

certas tabernas para cear sardinhas fritas com pimentões, e rim assado com o indispensável

molho de pimenta de cheiro.

Era costume do século passado, que se conservava no atual, e as tabernas preferidas só

admitiam nas saletas fregueses conhecidos e de boa companhia.

Trata-se, porém, da ceia dos tafuis.

Em ajuntamento de mancebos que só pensam em divertir-se e rir, há de ordinário uma vítima de

escolha ocasional.

Nesta noite a vítima era o Belo Senhor.

Afonso Martinho tinha dito que ele trazia nos sapatos o testemunho de impostura e falsidade;

porque as fivelas que tinham passado por ser de ouro já estavam por velhas perdendo o

dissimulo e denunciando a prata que nem era de lei.

O Belo Senhor comia então uma posta de pescada, e não respondeu.

As fivelas dos sapatos do Belo Senhor estão em harmonia com a sua casaca de uso ordinário,

como hoje, e que, como todos vêem, já está perdendo o pêlo! exclamou Domingos Lopo.

- É avareza desse demônio: devemos castigá-lo; proponho que de hoje a oito dias o Belo

Senhor seja obrigado a pagar-nos aqui mesmo ceia dez vezes melhor do que esta, que eu hoje

pago; disse a zombar Antônio Pereira.

Mas quando Domingos Lopo falava, o Belo Senhor estava-se regalando de chouriço com farinha

de mandioca; e quando Antônio Pereira o emprazou para a ceia que havia de pagar, ele

saboreava o rim assado, temperando-o no molho de pimenta de cheiro, e não deu resposta nem

a um, nem a outro, e menos ainda pareceu ressentir-se.

Não havia maligna intenção nos gracejos dos três amigos; mas realmente era pouco generoso,

e de mau gosto em mancebos ricos zombar do que era manifesta prova dos poucos recursos

pecuniários da vítima do ridículo.

Risadas acompanhavam, no entanto, os remoques provocadores de reação que o Belo Senhor

não costumava conter.

Mas então ele comia, e não falava.

Agostinho Fuas tomou por sua vez a palavra e disse:

- O Belo Senhor está hoje triste, silencioso e abatido: querem saber por quê? Há um mês que

apaixonado, perdido de amor pela Rosinha Feitiço, a mais bela dama da Casa da Ópera,

cantava-lhe de noite modinhas à porta e de dia mandava-lhe ramalhetes de rosas, e de não-me-

deixes; mas coitado! soube ontem que eu sem modinhas nem flores, e só com uma chave, que

tirei da minha bolsa, abri a porta que não lhe abriam, e tomei-lhe a namorada!... Tem paciência,

Belo Senhor! espera dois ou três meses pelo termo do meu capricho: eu te pus no purgatório,

mas não te condenei ao inferno.

Gargalhadas gerais agravaram a zombaria de Agostinho Fuas, tanto mais cruel, quanto era

absolutamente expresso de verdade.

O Belo Senhor por acaso ou por abafado ímpeto de ira cobriu de pimentas de cheiro uma

garfada de rim e comeu, parecendo regalar-se.

Agostinho Fuas, um pouco picado da indiferença da vítima, tirou do bolso uma carta e mostrou-a

aos companheiros.

- Ai está um bilhete que a Rosinha me escreveu hoje...

- Mas que diabo! ela escreve Gostinho em vez de Agostinho? disse Afonso Martinho.

- É assim que me trata: vê agora a assinatura...

- Feitiço...

- É como eu a chamo. E tu, Belo Senhor; não queres ver a carta da Rosinha Feitiço?

Era demais.

O Belo Senhor que inalterável não tinha levantado os olhos do prato saboreou o último pedaço

de rim assado, encheu de vinho o copo, bebeu vagarosa e deliciosamente, depôs o copo na

mesa e disse com perfeita serenidade:

- Agora eu.

Todos os olhos se fitaram no Belo Senhor que, voltando-se primeiro para Antônio Pereira, disse-

lhe:

- Antônio Pereira! de hoje a oito dias cearemos nesta taberna profusa e grandiosamente!...

convide a todos os presentes e a mais alguns amigos, mas eu juro que tu, Antônio Pereira, hás

de pagar a ceia.

- Eu?... aposto que não!...

- E nessa noite de ceia, de hoje a oito dias, eu me apresentarei de ricas fivelas de ouro nos

sapatos, e tu, Afonso Martinho, hás de pagar as fivelas.

- Eu?... também aposto que não!

- E tu, Domingos Lopo, hás de pagar a casaca nova com que me apresentarei a honrar a ceia!

- Terceira aposta!... juro que não.

- Quanto a Agostinho Fuas, não pretendo que ele me pague coisa alguma; pelo contrário, serei

eu quem o há de felicitar com a mais agradável surpresa.

- Explica-te, Belo Senhor!

- Impossível! será o encantamento da ceia; mas é segredo que guardarei comigo até de hoje a

oito dias.

- São, portanto, quatro apostas, disse Antônio Pereira; vê em que te metes, Belo Senhor!

- Não faço aposta alguma; respondeu este: contento-me com a ceia profusa, com as fivelas de

ouro, com a casaca nova e com o surpreendente efeito do meu segredo.

Levantaram-se todos para sair.

- A propósito! exclamou o Belo Senhor; quero saber a hora precisa da ceia: Antônio Pereira é

quem deve marcar a hora, porque as despesas correrão por sua conta.

- O Belo Senhor paga-nos aqui boa ceia, de hoje a oito dias, às nove horas da noite precisas,

disse Antônio Pereira.

- Muito bem! de hoje a oito dias, 20 de julho de 1783, às nove horas da noite em ponto, disse o

Belo Senhor.

E logo acrescentou:

- Daqui até lá nem mais meia palavra sobre este assunto.

E todos se retiraram da taberna a rir e a gracejar, como amigos que eram.

Passaram-se os oito dias do prazo marcado, chegou a noite de 20 de julho, e ainda antes das

nove horas já se achavam reunidos na saleta do fundo da taberna de Manoel Gago, além de

alguns outros todos os mancebos que ali tinham ceado oito dias antes.

Faltava somente o Belo Senhor.

Havia curiosidade como que ansiosa.

Nenhum dos convidados ousava supor que ele faltasse ao prazo e à ceia.

A questão do pagamento da ceia, das fivelas de ouro, da casaca nova, e enfim a surpresa

prometida a Agostinho Fuas preocupavam a todos.

A ceia já estava servida e era na verdade profusa para a habilidade culinária de Manoel Gago, o

dono da taberna, que até então se limitara a dar aos seus fregueses peixe frito, camarão,

chouriço e rim de vaca.

Os nossos leitores dispensam a descrição da ceia.

Ao toque de nove horas entrou pela taberna o Belo Senhor trajando fina casaca nova e trazendo

nos sapatos ricas fivelas de ouro.

Os amigos nem tiveram tempo de aplaudi-lo, porque logo em seguida dois robustos negros se

mostraram conduzindo elegante cadeirinha que depuseram a entrada da saleta.

- Agostinho Fuas, disse o Belo Senhor, sem dúvida que eu devia começar pela agradável

surpresa que te prometi.

E, abrindo as cortinas da cadeirinha, ofereceu a mão e ajudou a sair dela uma bonita moça

morena.

- Apresento-lhes a linda e mimosa Rosinha Feitiço, que nos dará a glória de cear conosco, se

Agostinho Fuas o permitir.

A surpresa foi realmente grande, e até a bela Rosinha também a partilhou, vendo Agostinho

Fuas confundido e amuado.

- Antônio Pereira! podemos sentar-nos à mesa?

- Eu não me sentarei à mesa com a senhora Rosinha sem que ela me explique como se

apresenta aqui!... disse Agostinho Fuas.

- Camarada! que ciúmes de mau gosto!... observou o Belo Senhor a sorrir.

- Então isso é Ópera do Judeu?... perguntou a bonita morena.

E tirou do bolso e entregou a Agostinho uma carta.

O amante ciumento leu alto com admiração e ainda com maior surpresa:

"Feitiço: - Quero que venhas cear comigo em boa companhia; como porém não me é possível ir

buscar-te, entendi-me com o meu amigo Belo Senhor, que vai receber-te às oito e meia horas

da noite, levando cadeirinha para te conduzir. Podes confiar-te a ele, e vem sem falta; eu o exijo:

é questão de honra! até logo, Feitiço. - Teu Gostinho."

- E então? perguntou a atriz da casa da ópera.

- O mesmo tratamento que me dás, e que te dou!... e a minha letra!... porque é a minha letra... a

minha assinatura.. é, juro que é; mas juro também que não escrevi esta carta! exclamou

Agostinho Fuas.

- Oh! ceemos, Agostinho Fuas! disse o Belo Senhor.

Sentaram-se todos; mas imediatamente Manoel Gago chegou-se a Antônio Pereira, e entregou-

lhe a conta da ceia.

- Que diabo é isso?... que tenho eu com o rol e com a conta da ceia? disse Antônio Pereira.

Manoel Gago nem pode falar; mas, correndo a taberna, tirou da gaveta um papel e veio

apresentá-lo a Antônio Pereira.

O papel dizia assim:

"Sr. Manoel Gago, a 20 de julho de 1783 quero que às 9 horas da noite precisas tenha pronta e

servida à mesa para 20 pessoas ceia constante dos pratos e vinhos seguintes... (estendia-se o

rol): não olhe as despesas; quero, porém, que, logo ao começar a ceia, me apresente a conta

diante de todos, é caso de aposta. - Seu freguês, Antônio Pereira."

O papel correu pela mão de todos, e todos deram testemunho de que a letra e a assinatura

eram de Antônio Pereira, que puxou pela bolsa e pagou a ceia a rir alegremente, dizendo aos

amigos:

- Tal e qual como Agostinho Fuas!... reconheço por minhas a letra e assinatura... não há

questão... mas leve-me o demo, se eu escrevi e assinei isso!...

O Belo Senhor ceava gulosamente e sem falar.

Mas antes das dez horas entraram na saleta um alfaiate e um ourives, que, desfazendo-se em

desculpas, e protestando que se mostravam ali só por obediência às ordens escritas e positivas,

entregaram o primeiro a Domingos Lopo a conta de uma casaca do mais fino pano e o segundo

a Afonso Martinho a de primorosas fivelas de ouro, que também por ordem escrita e assinada

um tinha feito e o outro entregado ao Belo Senhor; sob a condição de cobrança realizada

naquela noite e àquela hora na taberna de Manoel Gago, e durante a ceia que ali se daria.

O ourives e o alfaiate, fregueses dos dois ricos tafuis, tinham obedecido ao extravagante

capricho de mancebos notáveis por devaneios e originalidades travessas de juventude, e, além

disso, seus fregueses de maiores despesas e do mais pronto pagamento.

Afonso Martinho e Domingos Lopo riram-se ainda mais do que Antônio Pereira, e todos com

eles verificaram, depois de acurado exame, que era impossível negar a letra das ordens e as

assinaturas dos dois pagantes da casaca de pano fino e das fivelas de ouro do Belo Senhor.

E Domingos Lopo e Afonso Martinho pagaram ao som dos aplausos da companhia ao alfaiate e

ao ourives.

Tanto eles como Antônio Pereira podiam negar-se aos pagamentos que fizeram; eram porém

cavalheiros amigos do Belo Senhor, e julgaram de bom-gosto dar-se por vencidos pela

habilidade caligráfica daquele, a quem aliás tinham provocado com as suas zombarias.

O Belo Senhor foi o herói da ceia que se prolongou até a meia-noite.

A essa hora, e ao dissolver-se a reunião, o Belo Senhor ainda zombeteiro perguntou a

Agostinho Fuas:

- Queres que eu me encarregue de acompanhar a tua bela Rosa ao seu jardim?...

Rosinha Feitiço fez um momo a indicar negativa.

- Não, respondeu Agostinho Fuas, quero porém que saiamos juntos.

E saíram.

A pequena distância da taberna de Manoel Gago, e vendo-se livre de ouvidos indiscretos,

Agostinho Fuas deixou o braço de Rosinha, a quem conduzia, e, afastando-se dela alguns

passos com o Belo Senhor; apertou as mãos deste e disse-lhe em voz muito baixa:

- Belo Senhor! gosto de ti e vou dar-te boa prova disso.

- Que é?...

- Lembra-te sempre do conselho de Fuas, na Rua do Ouvidor!...

- Mas... enfim!.. falas tão sério!...

- Desdenha e perde a tua admirável e extraordinária perfeição imitativa da escrita e da

assinatura alheias.

- Ah!... o que fiz hoje...

- O que fizeste hoje foi simples, mas lamentável brinquedo com amigos, e mais tarde o que

poderás fazer será crime. Lembra-te!

E Agostinho Fuas voltou a tomar o braço da bonita atriz da casa da ópera.

O Belo Senhor ficou parado e quase triste.

E mais tarde lembrou-se muito, e lembrou-se em dias sinistros - do conselho de Fuas na Rua do

Ouvidor.

Provavelmente hei de ter ocasião de lembrar também a sabedoria do conselho de Agostinho

Fuas, dando, embora de passagem, notícia de lamentável crime, e de adversa fortuna à que a

maravilhosa habilidade caligráfica levou o Belo Senhor, já infelizmente corrompido.

CAPÍTULO 7

Como o vice-reinado do Conde de Rezende obumbrou a cidade do Rio de Janeiro e

nesta a Rua do Ouvidor com sinistras perseguições, e com o terror que espalhou, fala-se

da conspiração dos inconfidentes de Minas Gerais, e refere-se a uma tradição que não

saiu toda dos velhos manuscritos suspeitos de tradições imaginárias. Como e por que

Perpétua Mineira veio em 1784 morar à Rua do Ouvidor e aí, não ganhando bastante a

costurar, abriu em sua casa saleta de pasto à mineira, acontecendo que depois de certo

tempo ela começou a rir fora de propósito, cultivou perpétuas roxas, teve muitos amores,

até que se apaixonou pelo Tiradentes, e, enfim, desapareceu na noite de 21 de abril de

1792, depois de ter andado à roda da forca, onde fora morto o seu amante, a procurar

uma perpétua, achando somente ensangüentado um pedaço de lenço que reconheceu e

guardou.

O último decênio do século passado e os primeiros dez meses do ano de 1801 marcaram

obumbrado e sinistro período na história da cidade do Rio de Janeiro, e deixaram triste episódio

às Memórias da Rua do Ouvidor.

Em 1789 tinha sido denunciada a conspiração dos inconfidentes de Minas Gerais, estes presos

e a devassa posta em andamento.

Em 1790 (a 4 de junho) começou o vice-reinado do Conde de Rezende para tormento do Rio de

Janeiro. Suspeitoso, aterrador, desapiedado, o Conde de Rezende, ainda depois de enforcado o

Tiradentes, e de saídos em desterro os principais chefes da conspiração, isto é, ainda depois de

abril de 1792 até o fim do seu vice-reinado, foi cruel opressor do povo, e implacável perseguidor

de poetas e de literatos, a alguns dos quais encerrou por longo tempo em negras prisões pelo

crime de se reunirem em palestras literárias e científicas, às quais ele atribuía injustamente

dissímulos de clubes revolucionários e reincidências em tramas republicanas.

A Rua do Ouvidor sofreu, como toda a cidade, a influência sinistra do governo do Conde de

Rezende, obumbrando-se pela desconfiança e pelo terror, e para dar idéia dessa triste situação,

preciso lembrar a famosa conspiração chamada do Tiradentes, as perseguições e abusos do

vice-rei, e vou fazê-lo, vestindo com as roupas, isto é, com as cores e com os costumes do

tempo, uma tradição que colhi nos meus velhos manuscritos.

É a tradição-romance de Perpétua Mineira, que aliás não saiu toda desses manuscritos

suspeitos de fonte imaginária.

Dois amigos meus que tinham sido jovens no primeiro quartel do século atual, e que se

presumiam de sabedores de coisas dos fins do último século, informaram-me em anos que me

viram atarefado recolhedor de notícias do nosso passado na cidade do Rio de Janeiro,

informaram-me, repito, da seguinte historieta:

- Uma mulher moça e bonita, a quem chamavam Perpétua Mineira, vivera durante anos dos

vice-reinados de Luís de Vasconcelos e do Conde de Rezende morando na Rua do Ouvidor

entre as ruas Direita e Detrás do Carmo (hoje do Carmo), e que em sua casa abrira saleta de

pasto, ou de jantar e ceias de cozinha á mineira.

Perpétua, a princípio de costumes irrepreensíveis, tornara-se depois fácil em amar e inconstante

em amores, contando entre os seus felizes apaixonados o Tiradentes, e enfim subitamente

desaparecera, sem que houvesse dela mais notícia alguma, no mesmo dia em que subiu à

forca, seu capitólio da história, aquele impávido conjurado, de quem ela fora amante.

Atiçado e impelido pelo interesse romanesco de tais informações, procurei então com ardor no

processo dos inconfidentes de Minas, em publicações, em documentos arquivados, em

conversações com amigos fluminenses e mineiros distintos, e curiosos investigadores destas

coisas da pátria, alguns vestígios da existência ao menos daquela Perpétua Mineira, que

floresceu ou murchara na Rua do Ouvidor.

Perdi o meu tempo.

Os meus dois informantes continuavam a asseverar o que me diziam sobre a interessante

Perpétua Mineira; mas em falta de testemunho mais seguro, limitei-me a tomar notas das

informações sem poder aceitá-las como incontestáveis.

Agora, escrevendo as Memórias da Rua do Ouvidor e chegando nelas à época da conjuração

dos inconfidentes de Minas Gerais, das perseguições e do terror do vice-reinado do Conde de

Rezende, lembrei-me daquelas informações, e tomando-as por base, recorri sem cerimônia aos

meus velhos manuscritos e achei logo neles a tradição completa, a tradição-romance de

Perpétua Mineira, que passo a contar.

Não asseguro, mas inclino-me a crer, a admitir ao menos o fato da existência de Perpétua

Mineira com a saleta de pasto, ou de jantar e ceias, na sua casa da Rua do Ouvidor; admito a

probabilidade dos amores de Perpétua e do Tiradentes. O mais vai sair dos meus velhos

manuscritos por conta e risco exclusivamente deles e sem responsabilidade do memorista

consciencioso.

É tradição-romance de Perpétua Mineira para diante.

Em pequena casa térrea de porta e janela que em princípio do século atual ainda se via, na Rua

do Ouvidor ao lado direito e pouco antes da quina da Rua Detrás do Carmo, como triste amostra

das acanhadas e rudes construções dos primeiros tempos da cidade, morava uma mulher a

quem chamavam Perpétua Mineira.

Perpétua era com efeito o seu nome de batismo; o de família ninguém o conhecia, porque ela

não o tinha e a alcunha de mineira lha puseram no Rio de Janeiro pela sua naturalidade da

capitania de Minas Gerais.

Era ainda mais infeliz do que se fora órfã, era ou fora enjeitada, e nunca a procuraram os pais.

No seio da família caridosa que a recolhera, aprendera ao menos a trabalhar; aos dezoito anos

de idade, porém, fora segunda vez enjeitada, expulsa da casa beneficente pelo crime de ter sido

seduzida pelo filho mais velho dos seus protetores.

O sedutor apaixonado amante da enjeitada quis, a despeito da oposição de seus pais ricos e

presunçosos de nobre sangue, desposá-la, e dar-lhe, como devia, o seu nome; Perpétua,

porém, a chorar e a maldizer de sua fraqueza, lembrou quanto por ela tinham feito os caridosos

adotadores da inocente e mísera recém-nascida exposta, abandonada à porta de estranhos, e

agradecida até ao sacrifício de sua honra, impôs ao filho revoltado obediência aos pais, deu-lhe

em despedida um, o último beijo, e, fugindo à capitania do seu berço, veio para a cidade do Rio

de Janeiro no ano de 1784, e quase logo foi ocupar a casa da Rua do Ouvidor, que ficou

mencionada, e que houve a preço de seis cruzados de aluguel por mês.

Perpétua pôs-se a costurar, foi ela a primeira, não modista, mas costureira da Rua do Ouvidor;

tão pouco, porém, rendiam-lhe as costuras, que para viver começou a explorar outro recurso,

abrindo ao concurso do público na pequena saleta de sua casa mesa muito asseada, na qual

vendia lombo de porco em vários guisados primorosamente preparados, lingüiças e bolos, e

diversos acepipes culinários de farinha de milho.

Em linguagem moderna combinada com a antiga, inglesa abrasileirada, a pobre e infeliz

Perpétua abriu casa de lunch - à mineira.

Foi daí que começou a sua alcunha Perpétua Mineira.

E sem o pensar ela foi ali na Rua do Ouvidor a precursora de Mme Joséphine, costurando, e do

Sr. Guimarães, fazendo lunch à mineira.

De estatura alta, e bem talhada de corpo, Perpétua tinha negros e belos os cabelos e os olhos,

o rosto branco e de encantador oval, trazendo nas faces as pulcras rosas de além das serranias

do Ocidente.

Apenas lhe amesquinhavam as graças físicas, as mãos trigueiras e ásperas pela rudeza do

trabalho e os modos e falas agrestes que denunciavam a sertaneja, pouco afeita aos costumes

e aos lavores da sociedade urbana.

Bonita como era, Perpétua adquiriu logo boa freguesia freqüentadora da sua saleta de pasto,

onde muitos dos mineiros que vinham à cidade do Rio de Janeiro também e de preferência iam

para jantar ou cear à moda da capitania.

Tão jovem que ainda se poderia dizer menina, Perpétua, vivendo só, manteve durante um ano

procedimento irrepreensível, foi casta depois de seduzida, bem que não lhe faltassem

namoradores e apaixonados entre os fregueses da saleta de pasto.

Mas um dia alguns mineiros chegados da capitania deram à pobre enjeitada a notícia do

casamento do seu querido sedutor. Por explicável contradição de sentimentos em alma

exaltada, ela, que generosa impusera ao amante obediência à vontade dos pais, ao saber que a

obediência se cumprira, sentiu o peso da morte no coração, adoeceu gravemente, foi levada

para a Santa Casa da Misericórdia, donde no fim de dois meses saiu restabelecida da moléstia

cerebral que lhe ameaçara a vida, mas trazendo alteração lamentável em seu caráter.

Restaurando a sua saleta de pasto, Perpétua Mineira não zelou mais e como dantes o seu

proceder honesto, e ainda o repetirei casto depois do erro: fingida ou realmente alegre, faceira e

garrida escapou apenas às abjeções do vício venal, mas desceu às baixezas da impudicícia por

amores, cuja duração era marcada pela sua inconstância e pelo seu capricho.

A jovem mineira parecia feliz; era tão fácil e freqüente o riso em seus lábios, que às vezes até

ria fora de propósito; além disso, notava-se que ela, tendo mandado preparar no quintalzinho de

sua casa canteiros de jardim, só cultivava nesses canteiros perpétuas, a flor do seu nome;

exclusivamente, porém, perpétuas roxas, a flor das sepulturas ou da morte.

Entretanto, Perpétua Mineira adquiriu celebridade imodesta na cidade do Rio de Janeiro, e entre

os seus sucessivos amantes contou o Belo Senhor, e dizem que (muito às escondidas e com

imposição de segredo) o Vice-Rei Luís de Vasconcelos, que foi sempre muito mais cauto do que

o Marquês de Lavradio.

Por fim, em 1787, apareceu-lhe em casa José Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes, que já não

era moço, nem distinto por beleza varonil, mas que impressionava a quase todos por

arrebatamentos apaixonados, pelas expansões francas e ardentes do sentimento, pela

coragem, pelo entusiasmo fácil, e até pelas leviandades e estouvamentos de seu ânimo

imprudente, e a que faltava sobretudo o bom-senso.

O Tiradentes inflamou-se de amor pela bela Perpétua, e esta perdidamente se apaixonou por

ele.

Capricho ou predileção de mineira?...

É quase ou de todo insensato pretender arrasar segredos de sentimento.

Perpétua amou o Tiradentes, amou-o terna e fiel, e desde então ria-se ainda; mas só a

propósito: nenhum outro homem pôde mais passar além da saleta de pasto para o interior da

casa, nem mesmo (dizem) aquele que a horas mortas de noite às vezes entrava misterioso.

Pode-se amar deveras mais de uma vez na vida?... pode haver outro depois do primeiro amor

que enche e perfuma completa e perfeitamente o coração?...

Perpétua não ousaria responder, porque depois do seu primeiro amor amava ternamente o

Tiradentes; mas, cumpre dizê-lo, amante estremecida e fiel do Tiradentes, ela continuou sempre

a cultivar no seu quintalzinho perpétuas e exclusivamente perpétuas roxas.

As ligações de Perpétua e do Tiradentes duravam com interrupções longas pelas ausências

deste, mas com exemplar fidelidade respeitadas por ela já há dois anos, quando em 1789

aquele conspirador indiscreto chegou à cidade do Rio de Janeiro e no fim de alguns dias, na

véspera de sua volta para Vila Rica, revelando à amante o segredo da conspiração mineira, em

terna despedida, pediu-lhe que colhesse e lhe desse uma perpétua, a flor do seu nome, como

lembrança de amor.

A bela jovem cortou um basto anel de seus cabelos, e, dando-o ao Tiradentes, disse-lhe:

- Dou-te melhor lembrança: a perpétua não, não! olha: só tenho perpétuas ro xas, as flores da

morte.

O Tiradentes beijou e guardou o anel de cabelos, mas exigiu com tanta insistência a flor, que a

amante colheu e entregou-lhe uma perpétua, dizendo:

- Leva-a, é porém de mau agouro. Sê feliz! Adeus! Qualquer que seja o teu destino, eu te

amarei perpétua. Lembra-o bem: perpétua!...

No mesmo ano o Tiradentes tornando ao Rio de Janeiro, mas já perseguido para ser preso,

como em Minas o tinham sido os outros conspiradores, não ousou ir à casa de Perpétua

Mineira, mas ainda assim caiu em poder dos agentes do governo.

A generosa e exaltada amante, a pobre Perpétua Mineira, sonhou, imaginou planos doidos para

salvar o Tiradentes, facilitando-lhe a fuga dos cárceres subterrâneos da ilha das Cobras, para

onde o tinham levado, e, desatinada e vaidosa, começava a calcular com repugnantes traições

ao seu amor, com sublimes sacrifícios já para ele horríveis, contando com o poder dos seus

encantos a fazer milagres no coração de Luís de Vasconcelos, aliás severo e inflexível no

cumprimento do seu dever, quando a 4 de junho de 1790 o vice-reinado passou ao Conde de

Rezende.

Adeus, embora ilusórias, vaidosas esperanças de Perpétua Mineira!...

O Conde de Rezende chegava carrancudo, ameaçador, e temendo conspirações a tramar-se

em toda a cidade, e para mais se agravarem suas turvas suspeitas, e as sinistras prevenções do

seu ânimo, logo na noite de 20 de junho, incêndio violento devorou a casa onde a Câmara

Municipal celebrava suas sessões e tinha o seu arquivo (casa do Teles na Praça de Pedro II, até

à quina da Rua do Mercado).

O Vice-Rei passou a noite em ânsias, vendo no incêndio ensejo preparado para pronunciamento

revolucionário, ao mesmo tempo que o povo só via na horrível fogueira mau agouro do novo

governo.

Não foi possível ao Conde de Rezende descobrir a origem do incêndio; mas por isso mesmo o

atribuiu aos revolucionários, e multiplicou precauções aterradoras.

Perpétua por ter sido amante do Tiradentes, e porque recebia mineiros a jantar e a cear em sua

saleta de pasto, foi objeto de incessante espionagem, e teve a casa por vezes varejada, de

modo que em breve temerosos e espantados quase todos os freqüentadores da saleta de pasto

dela desertaram, e a Rua do Ouvidor cobriu-se com o véu da tristeza e anuviou-se pelo medo.

Mas a corajosa Perpétua deixou-se ficar em sua casa à espera...

À espera de que?... ela nem podia ter notícias do Tiradentes, considerava como os seus

companheiros do infortúnio em segredo nas masmorras da ilha das Cobras.

E todavia ela esperou quase dois anos... esperou até abril de 1792.

A 19 deste mês, o Belo Senhor, que nunca a abandonara, embora Perpétua desde que amara o

Tiradentes só lhe permitisse inocentes relações, foi triste anunciar-lhe a horrível sentença

proferida pela alçada no dia antecedente.

A pobre moça nem pôde chorar nos primeiros momentos, e convulsa e como atônita, murmurou

estupidamente: