Memórias e Cotidiano do Rio de Janeiro no Tempo do Rei por Luíz Joaquim dos Santos Marrocos - Versão HTML

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Entre 1811 e 1821

Meu prezadíssimo Pai e Senhor do meu Coração:

21/7/1811

Eu tenho curtido um grande defluxo procedido do ar infernal desta terra e Estado físico e

tenho sofrido uma grande hemorragia de sangue (sic) pelo nariz, por cuja conduta

causa estou temendo os grandes calores do verão, porque me hão de afligir muito. Aqui estou na livraria de companhia com o padre Joaquim Damaso (das Necessidades) e frei Gregório (Borra) com outros três serventes, todos pessoas aliás capazes, mas só próprias para uma biblioteca fradesca: têm ficado abismados dos meus trabalhos anteriores e nada fazem sem concordarem comigo. Eu aqui principiei a adotar o sistema de Maria-vai-com-as-outras e fui advertido por um figurão desta terra para não adotar outro diferente.

Escravidão

PS. Comprei um negro por 93$600 réis.

24/10/1811

Eu tenho passado com uma tosse infernal, que me incomoda muito, e Estado físico

alguma impressão me faz ao peito, por cuja causa estou em uso de alguns

remédios para atalhar o pior, mas sempre trabalhando. Obrigam-me os

médicos a tomar vinho quinado em jejum e a não beber a água desta terra

sem a mistura da Genebra e bem cedo principio com mezinhices.

É coisa muito de ponderar-se o incômodo que sofre qualquer pessoa não A viagem

acostumada a embarcar e muito principalmente quem tem moléstias de

maior perigo e cuidado, a quem é nocivo o tossir, o espirrar, o assoar-se,

etc.; é perniciosíssimo, e de toda a conseqüência, expor-se ao enjôo

marítimo que faz (parece) arrancar as entranhas e rebentar as veias do

corpo, durando este tormento dias, semanas e muitas vezes a viagem

inteira; além disto o susto do mar, trovoadas e aguaceiros, balanços,

submersões do navio não são coisas ridículas para quem não é grosseiro.

(..) porque havendo nela [Cidade do Rio de Janeiro] sempre uma contínua Saúde pública

epidemia de moléstias pelos vapores crassos e corruptos do terreno e humores pestíferos da negraria e escravatura que aqui chega da Costa de Leste, contando-se cada ano desembarcarem neste porto 22.000 pretos para cima.

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26/10/1811

S.A.R (Sua Alteza Real) tem estado há dias na Ilha do Governador, Costumes da

divertindo-se e gozando do belo ar que estes políticos modernos lhe acham.