Memórias e Estórias por Leonel Paulino da Assunção - Versão HTML

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SOBRE O AUTOR

Leonel Paulino da Assunção nascido em

Diamantina, filho de família pobre, seu pai era

garimpeiro, sua mãe lavadeira. Viveu em sua terra

natal até completar dezoitos anos. Depois, ao sentir necessidade de estudar e aprender uma profissão,

para ajudar a família, transferiu-se para o Rio de

Janeiro. Em Diamantina, estudou no Grupo Escolar

Matta Machado, fez o curso Primário e o Ginasial.

Lembra-se com muito carinho da professora do

curso primário, Dona Maria do Carmo, ela um dia

lhe aconselhou a continuar os estudos, pois o

achava inteligente, devido às suas boas notas, e

bom comportamento na sala de aula.

No Rio de Janeiro, conseguiu o primeiro

emprego de carteira assinada, trabalhando como

entregador de remédios, depois passou a office-boy,

e auxiliar de escritório. Graduou-se em

contabilidade, e seguiu carreira de contador até se

aposentar. Apaixonado pela leitura, jamais

descartou o sonho e o desejo de um dia poder

escrever seu próprio livro, acreditando sempre na

idéia de que os acontecimentos na vida das pessoas

podem ser transformados em livros.

PREFÁCIO

Quando estou só, sentado na varanda de

minha casa, olhando para os jovens que conversam

na calçada da rua, vêm à minha cabeça

pensamentos que me fazem lembrar da minha

juventude. Sinto saudades dos momentos

marcantes, vividos numa época de alegria, de paz e

sem violência, momentos que nos faziam pensar

que a vida para os jovens era eternamente

composta de prazeres, alegria e felicidade. Não se

falava em morte, nem havia brigas, futebol se

discutia numa roda de amigos, entre um copo e

outro de cerveja. Terminada a discussão, o

perdedor da aposta era quem pagava a conta. Para

nós, jovens, as pessoas só morriam quando a

velhice chegava, ou quando não se queria mais

viver.

No decorrer de nossas vidas passamos por

momentos inesquecíveis. Sejam eles bons ou ruins,

ficam gravados na memória. Momentos que se

forem selecionados, interpretados em forma de

textos agrupados em folhas de papel, poderão ser

transformados em uma obra literária interessante

de se ler. Por isso que sempre digo que a vida de

cada pessoa é um verdadeiro livro. Um livro que

fala sobre os acontecimentos que fazem parte da

vida, que relata coisas do nosso passado. E aquele

que desconhece a importância de se lembrar dos

fatos de sua própria história vive sem guardar na

memória a razão e o porquê de sua própria

existência.

Todos nós neste mundo temos uma história

para contar, todos nós já passamos por momentos

marcantes que deixam saudades, ou que causam

tristeza se forem lembrados. Por pensar assim é

que escrevo este pequeno livro, para narrar sobre

alguns acontecimentos que marcaram a minha vida

no tempo em que eu ainda era garoto, e recontar

algumas histórias que meu pai gostava de contar.

Em noites de lua cheia, meu pai reunia as

crianças à sua volta para contar histórias. Algumas

delas eram tão engraçadas que, até hoje quando eu

conto, as pessoas acham graça, principalmente as

crianças. Por isso, decidi incluí-las neste livro. As memórias são fatos verdadeiros, porém salpicados

de fantasias para torná-los um pouco mais de bem-

humorados.

DEDICATÓRIA

Dedico este livro aos meus pais, José Paulino,

que levou a vida sonhando encontrar a riqueza no

garimpo, sonho que nunca se tornou realidade, e

Maria Luiza, mulher guerreira, lavava roupas para

ajudar meu velho a sustentar a família. Eles não

puderam me educar em boas escolas, nem me dar

tudo o que uma criança precisa, mas me amaram e

me deram educação familiar, que é a base para a

formação de um filho. Ensinaram-me, desde

criança, a ser um garoto humilde e educado,

respeitar os mais velhos e trabalhar para ter as

coisas; o caminho a ser seguido para vencer

obstáculos na vida. Ensinaram-me a acreditar

sempre na existência da força chamada Deus.

SUMÁRIO

José Paulino ......................................................................11

O mendigo forasteiro misterioso ...................................26

Meus amigos de meu tempo de garoto ........................34

Tudo para entrar no cabaré da zona quente ................37

Domingo de sol, banho de rio .......................................40

A diarréia do árbitro .......................................................45

Pancadaria no circo .........................................................55

A banda do sapo seco .....................................................61

A história de Joãozinho ..................................................63

Você me paga, seja aqui ou na Bahia ............................70

A bola de fogo que seqüestrou o garimpeiro ..............76

Tudo para namorar Teresa .............................................80

A viagem para o Rio .......................................................90

Morando na pensão .......................................................103

Eu sou sua gueixa, você é meu samurai ......................108

Morando com um casal de velhinhos ..........................115

Trabalho no escritório ....................................................119

O que os livros de história não contam .......................123

Memórias e Estórias

JOSÉ PAULINO

José Paulino era um garimpeiro que sonhava um

dia encontrar um diamante grande, se tornar um homem rico ou pelo menos ter condições de proporcionar a sua família uma vida de conforto. Achava que sua sorte

estava escondida no meio dos cascalhos, por isso não se cansava de passar dias abrindo crateras às margens dos rios, na esperança de ser presenteado pela natureza. O

velho levava meses escavando o solo sem nada

encontrar, mas quando calhava de achar uma pedrinha, ou até mesmo um pedacinho de ouro, lhe subia uma

adrenalina tão grande que, se alguém visse sua euforia, pensaria que tivesse sido surpreendido pela sorte com que tanto sonhava. Gritava bem alto: “Louvado seja

Nosso Senhor Jesus Cristo!” E os outros garimpeiros que estavam por perto respondiam: “Para sempre seja

louvado!”

Em suas conversas, ele sempre dizia que sua

primeira família tinha sido criada com dinheiro do

garimpo, e com a segunda não ia ser diferente. Era pai de onze filhos: dez homens e uma mulher, um

verdadeiro time de futebol! Depois de todos criados, ficou viúvo e se apaixonou por uma jovem de dezesseis anos. Os rapazes, insatisfeitos com a decisão que tomara ao se casar com uma menina que poderia ser sua filha, abandonaram o velho. Foram embora para São Paulo, e

nunca mais deram as caras. Um deles, depois de muito tempo, até que apareceu para saber se ainda era vivo, ou se havia ficado rico, mas depois de constatar uma das duas coisas, desapareceu de vez. Os filhos de sua

segunda esposa jamais tiveram oportunidade de

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Leonel Paulino da Assunção

conhecer os irmãos por parte de pai. José Paulino,

quando falava deles, demonstrava certa tristeza, mas nada poderia fazer para tê-los de volta.

Ao contrário da primeira, a sua segunda esposa,

Maria Luiza, tinha apenas dezesseis anos quando se

casou com ele. Tiveram nove filhas e um filho. Maria Luiza era uma pobre menina sem pai. Sua mãe, temendo não poder criá-la sozinha, obrigou-a a se casar com um homem de cinqüenta anos, mesmo contra sua vontade.

Com pouco tempo de casados, a garota começou a

demonstrar desinteresse pelo marido, e um belo dia,

durante suas discussões, sem querer ela deixou escapulir de sua boca que ele era “um velho cansado, e que ela nunca gostou de seus carinhos, casando-se apenas para satisfazer os gostos da mãe”. Ao descobrir que a jovem garota não o amava, o velho nunca mais foi o mesmo. O

ciúme tomou conta de sua cabeça; as brigas tornaram-se cada vez mais constantes.

Mesmo brigando ao ponto até de se agredirem, a

cada ano que passava uma carinha nova feminina ia

surgindo na casa. Maria Luiza acabou se acostumando

com o velho, e o time de mulheres foi crescendo, até que um dia acabaram sendo presenteados. Tiveram um

único filho homem, “bendito é o fruto entre as

mulheres”, que por sorte era eu.

Meu pai vivia desconfiado da fidelidade de sua

mulher. Por isso, no dia em que eu nasci, quando a

parteira me entregou enrolado no lençol, ele se sentou no banco do terreiro da casa comigo no colo e me

desenrolou dos panos, só para checar se eu era mesmo seu filho. Depois de me examinar todinho, dando mais atenção ao meu pequenino birro, se convenceu de que

eu era mesmo o fruto de sua relação com Maria Luiza.

Após se certificar, acendeu seu cachimbo e saiu soltando fumaça pelo bairro onde morava, dizendo para todo 12

Memórias e Estórias

mundo que estava comemorando o nascimento de seu

filho homem.

Eu era o xodó da família. Apelidaram-me de Neco,

e era um tal de “Neco pra cá, Neco pra lá”, que não

acabava mais. Minha mãe, ainda jovem, não poupou

esforços para me amamentar. Disse que até os três anos de idade eu vivia dependurado em suas tetas, e logo que comecei a falar, quando terminava de mamar em um

peito, apalpava o outro e dizia: “Quelo outo peto, mama!

Minhas irmãs, já um pouquinho mais velhas,

adoravam brincar comigo. Botavam-me peladinho em

cima da mesa, e brincavam com o meu pequeno birro,

como se fosse uma coisinha boa de se apalpar. Aos

poucos fui crescendo, e já aos cinco anos de idade

comecei a sentir uma sensação gostosa: o pequeno birro reagia às brincadeiras!

E então foi o bastante para que meu pai proibisse as meninas de brincarem comigo. Ele dizia que eu já estava me tornando um moleque safadinho, e que não era bom

me deixar sozinho no meio de meninas. Bastava me ver quietinho em um canto que ele me perguntava o que

estava se passando pela minha cabeça. Com a proibição de meu pai, aos poucos fui me sentindo isolado no meio delas, pois não tinha com quem brincar.

Era véspera de Natal. Só para me ver feliz,

Francelina, minha irmã, passou perto de uma loja de

brinquedos e, sem que ninguém notasse, apanhou um

carrinho e saiu em disparada. À noite, colocou o

carrinho debaixo do meu travesseiro. Quando acordei, a minha felicidade era tanta que sai correndo dizendo que Papai Noel tinha me dado um presente.

Só não entendi por que meu pai deu uma surra em

minha irmã, pedindo explicações sobre aquele objeto

estranho que apareceu em casa. O velho não admitia

nada que não fosse comprado com o dinheiro de seu

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Leonel Paulino da Assunção

suor, e quando Francelina confessou que havia roubado o brinquedo, ele a obrigou a devolvê-lo, debaixo de uma sessão de castigos. E o meu sonho de brincar de carrinho se acabou...

Meu pai não me dava brinquedos, e eu não levava

jeito para brincar de bonecas. Foi aí que comecei a dar minhas escapulidas para tirar uma casquinha dos

brinquedos dos meninos da minha rua. Brincando com

os moleques, foi que eu comecei a descobrir a razão de toda a minha transformação. Eu era um menino homem,

não podia me envolver com os brinquedos das meninas, nem me deixar excitar com a curiosidade delas, já que meu corpo era diferente. Elas também eram crianças,

não sabiam por quê. Quando descobri o motivo de meu

pequeno birro reagir às brincadeiras das minhas irmãs, me arrependi tanto que na minha primeira comunhão

contei tudo ao padre. O caro sacerdote me aliviou

dizendo que era normal, e que bastava eu rezar dez Pais-Nossos e dez Ave-Marias. Eu estaria perdoado, livre dos maus pensamentos.

Ao perceber que meu desenvolvimento era precoce,

meu pai não parava de dizer que quando eu estivesse

crescido me levaria para trabalhar junto com ele no

garimpo, que lugar de homem era no trabalho pesado, e não em casa junto com as meninas, inventando modas! E

então, quando eu concluí o ensino fundamental, naquele tempo “o primário”, ele me chamou e disse que, embora aos doze anos, eu já era quase um homem. Era chegado o tempo de esquecer as brincadeiras com os amigos da rua, e começar a pensar em aprender a trabalhar. “Quero que você me acompanhe no trabalho, vou te ensinar a

ser um garimpeiro. Já estou ficando velho e cansado. O

legado que posso lhe deixar quando morrer é a técnica da minha profissão. Não posso te manter na escola. Para estudar, é preciso que se tenha comida boa e muita

14

Memórias e Estórias

saúde para poder se concentrar nas matérias da escola.

Eu não tenho recursos para dar a você tudo o que

precisa para continuar nos estudos.”

Foi aí que pela primeira vez discuti com o velho.

Aquele homem já com a pele enrugada trabalhava como

louco na esperança de um dia mudar de vida, e como eu já sabia que raramente a sorte andava do seu lado, torci logo o nariz em sinal de protesto. Dei como resposta exatamente o que o velho não esperava ouvir. Disse que não queria ser garimpeiro como ele, eu queria estudar para ter um futuro melhor! Mas meu pai, usando de

toda a sua autoridade, olhou para mim com cara de

mau: “Já falei e está falado, pode se preparar que

amanhã de manhã estaremos com os pés na estrada.

Quero que você conheça o segredo da profissão de seu pai. A viagem é longa, temos que sair bem cedo.”

Já que não tive escolha, senão concordar com a

decisão do meu velho, preparei-me para no dia seguinte acordar cedo, para uma viagem de um dia a caminho do trabalho. Logo que o dia amanheceu, pulei da cama,

lavei o rosto, calcei a sandália de borracha, coloquei a merenda no saco e parti para a minha primeira jornada.

Despedi-me da minha mãe, das irmãs, e fui fazer carinho no Pluto. Foi então que notei que até o meu cachorro não estava gostando da idéia: o bicho latia tanto que parecia protestar contra a decisão do meu pai, de me levar para longe de casa.

O lugar era distante, e não havia estrada. Para

conseguir chegar até lá, teríamos que andar através das trilhas feitas por cavalos e burros carregados de frutas e legumes que os tropeiros traziam para vender na cidade.

Meu pai, já acostumado a andar por caminhos

pedregosos, caminhava tão rápido que acabava me

deixando para trás. Eu só conseguia me aproximar

quando chegava a hora de pararmos debaixo de alguma

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Leonel Paulino da Assunção

árvore para poder descansar e comer do bolo de fubá

que trazíamos de casa. Ao mesmo tempo apreciávamos

os pássaros que cantavam no topo das árvores, que

torciam para que fôssemos logo embora e eles pudessem comer os pedacinhos de bolo que caíam no chão.

Por não conseguir acompanhar o velho, eu acabava

tendo que manter distância dele, como se estivesse

seguindo suas pegadas. Quando estávamos caminhando

pelo mato afora, de vez em quando deparávamos com

diferentes espécies de pássaros, cobras e outros animais selvagens. O silêncio dentro da mata era quebrado pelo cantar dos pássaros, chocalho de cobras cascavéis e

ruídos de lagartos que corriam por debaixo das folhas secas, assustados com o barulho que faziam nossas

sandálias de borracha. Num dado momento, meu pai

quase pisa numa jararaca. Sorte dele foi que vi o perigo antes e gritei para alertar.

Meu pai caminhava distraído olhando para as

árvores, procurando avistar frutas silvestres e pássaros para abater. Esquecia-se do perigo que vinha do chão.

Naquele dia, ele saltou sobre a bicha venenosa, antes mesmo que ela pulasse em direção a sua perna.

Conseguiu se livrar da picada, pegou sua espingarda, que carregava nas costas sempre que viajava, disparou uma carga de chumbo na cabeça da peçonhenta, e deu

uma risada de homem mau, mostrando a falha dos

dentes frontais, que lhe dava uma fisionomia de fazer horror. Os dois enormes dentes caninos faziam-no

parecer um leão faminto. Após enrolar a venenosa

desfalecida em um pedaço de pau, jogou-a dentro do

mato e disse: “Cobra que não morde morre; esta nunca morderá alguém.”

Ao longo de nossa caminhada tivemos que

atravessar pequenos rios e subir serras. Quando

estávamos bem no topo de uma serra, assobiávamos só

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Memórias e Estórias

para escutar o barulho retumbar atrás das montanhas.

Apesar da dor nas pernas de tanto andar pelos caminhos pedregosos, e pular de rocha em rocha, eu me sentia

como se estivesse numa aventura de cinema, e a cada

momento que passava a sensação que eu tinha era de

que a viagem se tornava mais alegre e prazerosa.

Já era quase noite, o sol começava a se esconder

atrás das montanhas, quando por fim avistamos de

longe os primeiros sinais do sítio. Era uma casa velha, perto de um enorme terreno onde pastavam algumas

cabeças de gado. Ao lado do terreno, às margens de um rio que brotava da montanha, estava o local que íamos escavar para procurar diamantes. Em frente da casa

havia uma cruz de madeira. Meu pai dizia que era para espantar o “capeta” que de noite rondava a fazenda, e servir também de proteção contra mau-olhado. Aquilo

me dava arrepios, e eu então lhe perguntei se existia mesmo algum capeta. E então ele disse que sim, capeta em forma de gente e em forma de lobisomens, que ao

verem a cruz de madeira se espantavam e corriam para dentro da floresta.

Quando finalmente chegamos, recebemos as boas-

vindas do homem que tomava conta da casa. Depois que nos apresentou a sua família, após alguns minutos de bate-papo, ele nos conduziu até o quarto de dormir. A cama era um conjunto de paus amarrados com cipó,

sustentados por quatro forquilhas. O colchão era de

palha, coberto com um lençol amarelado. Parecia que há muito tempo não era lavado. Banhei minhas pernas na

água quente com sal, para evitar inflamação, e depois de jantarmos um prato de feijão com carne seca e farinha de mandioca, caí naquela cama e apaguei. Nem senti que

mosquitos zumbiam e faziam uma festa sobre minha

cabeça durante toda a noite.

17

Leonel Paulino da Assunção

Acordei no dia seguinte com meu pai me chamando,

dizendo que já era hora do “tira-jejum”. Lavei o rosto, fiz gargarejo com água e sabão para matar as bactérias, e caí dentro do prato de fubá de milho soado e leite. Depois fomos para a beira do rio, estudar o solo, como se

entendêssemos de geologia, e procurar o que a natureza escondia no meio do cascalho. Só a sorte poderia nos ajudar a encontrar.

Quando meu pai me entregou a ferramenta, uma

enxada e uma bateia de madeira, eu senti que a tarefa não ia ser fácil. Ele me mandou carregar o cascalho na cabeça, dentro da bateia, até que se formasse um grande paiol numa banca de areia, perto de um pequeno lago, e então ele faria a lavagem do cascalho usando uma

peneira de arame. Quando o velho girava a peneira, a areia se separava das pedras. No girado da peneira ele mexia tanto com os quadris que eu até achava graça.

Depois de serem lavadas, meu pai selecionava as

pedras, usando um pequeno pedaço de pau. Tentando

encontrar a mais preciosa de todas, o tão sonhado

diamante, ele separava as pedras boas das ruins. As

ruins eram coloridas e bonitas, que se trazidas para a cidade grande poderiam ser transformadas em arte, ou qualquer objeto de decoração. As pedras que ele julgava serem boas não passavam de cristais lapidados pela

própria natureza, em forma de pirâmide. Cada uma que aparecia o velho arregalava os olhos, demonstrando

surpresa, mas depois caía na real e entristecia, dizendo:

“Só cristal, só cristal.”

Enquanto meu pai trabalhava, eu o observava por

trás com os dedos cruzados, torcendo para que ele

encontrasse alguma coisa que pudesse compensar

aquele trabalho pesado. O tempo passava sem que ele

encontrasse nada que pudesse nos fazer felizes, e no final do trabalho ele dizia que ainda não havia chegado 18

Memórias e Estórias

o dia da sorte. “Ainda não foi hoje, poderá ser amanhã!”

Quando voltávamos para o sítio, meu pai, cabisbaixo, tentava me alegrar, dizendo para que eu não ficasse

triste, pois, mesmo não encontrando um diamante, ele compraria minha bicicleta tão logo voltássemos para

casa.

Era inverno. Como as noites estavam frias, os

homens que trabalhavam no sítio e os forasteiros que paravam para pedir pousada acendiam fogueira em

frente à casa para nos aquecermos antes de ir dormir.

Sentados em volta do fogo, eles bebiam cachaça,

estalavam os dedos, contavam piadas, histórias de

assombração e de lobisomens. A escuridão da noite era tão intensa que o fogo iluminava apenas a frente da casa; e na escuridão do bosque só se ouvia o cantar de sapos e corujas.

Os homens se divertiam quando contavam as

histórias porque amedrontavam as crianças que estavam perto. Elas insistiam em ficar acordadas para escutar os causos. Eu também adorava ouvir. Eram engraçadas e

me enchiam de adrenalina.

Um homem chamado Zé Bigode contou que muitos

anos atrás, no tempo da escravidão, um coronel de

engenho morou naquele sítio. Ele tinha o hábito de

espancar os escravos e engravidar as mulheres negras.

No dia em que morreu, botaram o corpo em cima de

uma mesa para ser enterrado no dia seguinte.

Acenderam velas e, quando a noite chegou, várias

pessoas apareceram para velar o coitado.

Enquanto os homens bebiam cachaça no terreiro e

contavam seus causos, as mulheres beatas contratadas para derramar suas lágrimas em volta do caixão fingiam que choravam. Elas cobriam a cabeça com um véu

branco, olhavam disfarçadamente para os homens e

ensaiavam uma crise de soluços.

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Leonel Paulino da Assunção

Quando o relógio cuco anunciou meia-noite, uma

delas pediu que todos ficassem em volta do falecido, para fazerem uma prece em prol daquela alma. Seria

para que o coitado descansasse em paz, e para que São Pedro abrisse as portas do céu para ele. Já no meio das orações, aconteceu o que ninguém esperava: um dos

dedos do pé do homem se mexeu.

As pessoas que ali estavam se entreolharam

desconfiadas. Minutos depois o defunto encolheu uma

das pernas. Foi o bastante para que ninguém ficasse na sala. Todos correram apavorados, gritando e dizendo

que o homem era um morto-vivo. O medo era tanto que

ninguém mais teve coragem de chegar perto daquele

corpo pálido e de olhos arregalados. Até o Juca, que dizia ser um rapaz corajoso, saiu correndo como um

cavalo assustado. Ele pulou a cerca de arame farpado e caiu do outro lado sem a metade da calça. Deixaram o defunto sozinho até o dia seguinte, quando apareceu um corajoso para endireitar a perna do falecido e lhe fechar os olhos.

Sete dias depois que enterraram o homem,

começaram então as aparições ao redor da casa. Vultos e barulhos eram freqüentes. Quando a noite chegava, as pessoas se reuniam e rezavam para se livrar do tormento, mas nada adiantava. Um dia, um padre que estava a

caminho para dar absolvição em um outro lugar parou

para pedir água e descansar. Foi aí que as pessoas

atraídas pela presença do padre se aglomeraram e

pediram que benzesse aquele lugar. O padre então

optou por celebrar uma pequena missa na porta da casa, em prol daquela alma perdida. Depois da missa, ele se despediu das pessoas e continuou sua viagem. Daquela noite em diante, a paz então voltou a reinar naquela casa.

As coisas misteriosas que amedrontavam as pessoas que 20

Memórias e Estórias

ali moravam deixaram de acontecer, e nunca mais nada foi visto.

Meu pai também aproveitou para contar sua

mentira. Ele relembrou que, em uma de suas viagens

longínquas à procura de riqueza, quando andava pelas matas e planícies numa noite de lua cheia, sentiu uma enorme vontade de dar umas baforadas em seu

cachimbo, e então resolveu parar, cortar o fumo e

abastecer o seu produtor de fumaça. Quando terminou

de encher seu cachimbo de fumo, descobriu que não

possuía fogo para acendê-lo. Olhou para os lados e

avistou ao longe dois objetos que brilhavam no meio da escuridão. Aquilo apagava e acendia, parecendo um

pisca-pisca. Meu pai então pensou: “Alguém deve ter

botado fogo no mato. Devem ser duas brasas

remanescentes. Vou aproveitar para acender o meu

cachimbo.”

E então ele andou em direção àquela coisa, e quanto

mais perto chegava, mais ele achava que aquilo era um toco preto com duas brasas na ponta. Lá pegou sua faca pontuda e foi cutucar uma das brasas para extrair um pedaço e pôr no cachimbo. De repente, o que parecia ser um pedaço de madeira queimando deu um pulo e saiu

berrando como um animal selvagem. O bicho se

embrenhou no mato, e meu pai caiu para trás por causa do susto que levou.

Quando se recuperou do pesadelo, descobriu que o

toco preto era na verdade uma onça hipnotizada pela

lua cheia. Aqueles olhos vermelhos e arregalados da fera fizeram com que meu pai pensasse que fossem duas

brasas incandescentes no meio da escuridão. O velho

desistiu do cachimbo e seguiu sua viagem com medo de ser engolido pelo bicho.

E então chegou minha vez de participar e contar

minha história. Numa sexta-feira da quaresma, a noite 21

Leonel Paulino da Assunção

estava escura, não havia luz nas ruas do lugar onde eu morava. Eu voltava de uma festa de aniversário. Ao

chegar perto de casa, avistei no meio da escuridão dois vultos brancos que se balançavam de um lado para

outro. Pensei que fossem fantasmas, arrepiei-me de

medo, tomei distância dos vultos, e disparei a correr como um cavalo assustado.

Ao chegar em casa, pálido como uma vela de cera,

minha mãe foi logo me perguntando o que eu tinha visto.

Eu disse que acabara de ver duas assombrações vestidas de branco dançando perto da cerca. Ela sorriu e mandou que eu fosse dormir. No dia seguinte, quando abri a

janela do meu quarto e olhei para a cerca, vi dois lençóis brancos dependurados, que minha mãe havia deixado

para secar. De tão medroso que eu era, pensei que

fossem duas assombrações!

Eu me divertia muito com aqueles causos. Os

homens diziam que quando uma pessoa muito ruim

morre sua alma não consegue entrar no céu, e o capeta, para evitar concorrente, não concede a entrada no

inferno. A alma penada fica sem lugar para parar, e

então acaba permanecendo em volta da terra a fim de

atormentar as pessoas. Ela aparece em forma de

assombração durante a noite nas casas para assustar os vivos. E então vultos e barulhos se tornam freqüentes, até aparecer alguém com poderes extraterrenos, para

entrar em contato com o espírito do falecido e pedir que deixe de perturbar as pessoas.

Naquela noite, do lado de fora da casa, sapos

cantavam, gatos miavam, cavalos faziam barulho com as patas. Fui para cama, mas não conseguia dormir. Olhava para o teto, e não parava de pensar no homem que ali viveu e morreu sem ninguém para socorrê-lo. Disseram-me que ele era muito rude com seus escravos. Coitado daquele homem, um dia caiu doente, precisava de

22

Memórias e Estórias

alguém que lhe desse um remédio. Pediu socorro aos

escravos, mas a raiva que tinham dele era tanta que não fizeram nada para aliviar a sua dor.

Os dias se passaram e eu acabei me esquecendo

daquelas histórias macabras. Trabalhamos duro durante o mês inteiro, não encontramos sequer um pedacinho de ouro. Decepcionado e cansado, decidi dizer ao velho que queria voltar para casa. Sentia saudades da minha mãe e dos amigos. Eu queria voltar a estudar. Não queria mais ficar naquele lugar.

Eu e meu pai discutimos por um momento, chorei

como criança desmamada e expliquei para ele que não

era aquela vida que eu desejava para mim. O velho ficou tão furioso que deixou de falar comigo. No dia seguinte já estávamos com as tralhas nas costas a caminho de casa.

A viagem de volta não foi tão dolorida, mas um

pouco mais difícil. Havia chovido muito e o pequeno rio que dava acesso à fazenda estava cheio e não tinha

ponte. A solução era atravessá-lo a nado, lutando contra a correnteza. Eu não sabia nadar, tinha desistido de aprender desde o dia em que quase morri afogado no

lago de Água Limpa. Meu pai então pediu para que eu

montasse em suas costas; não sei como o velho

conseguiu atravessar o rio nadando comigo enganchado em seu pescoço. Felizmente chegamos do outro lado

sãos e salvos!

No percurso da viagem, encontramos ao longo

do caminho um casal de lavradores. A mulher

montava em um cavalo magro, o homem puxava na

frente. Ele conversava com meu pai sobre a vida dura que levava na roça, dizia que a falta de médicos e

remédios era a principal causa que o levava a trocar o campo pela cidade, e que sua esposa estava muito

doente devido a uma picada de cobra. Ele havia

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Leonel Paulino da Assunção

deixado os filhos menores em casa e estava levando a mulher para se tratar na cidade.

Conversa vai, conversa vem, até chegar o

momento em que decidimos parar debaixo de uma

árvore para descansar e beber água. A pobre mulher

mal conseguia manter-se de pé, estava queimando

em febre. Meu pai, como entendia um pouco de

curandeirismo, meteu a mão em sua capanga de

couro e tirou um pó feito de erva medicinal. Enrolou o pó em um pedaço de pano, molhou em um córrego

que passava perto, depois amarrou o pano na cabeça

da coitada.

Alguns minutos depois a febre desaparecera, e

então ajudamos o homem a colocar a mulher no

cavalo e prosseguimos a viagem. O homem não

parava de agradecer a meu pai pelo que fez. Ele dizia que o velho tinha salvado a vida de sua mulher,

agradecia a todo o momento, repetindo que só Deus

podia nos compensar.

Não satisfeito com os agradecimentos, o homem

ofereceu dividir sua merenda conosco. Já que estava

com fome, não hesitei, e caí dentro do prato de farofa com carne seca. Pensei: “Deus está mesmo nos

ajudando.”

Quando estávamos quase chegando, o homem

seguiu um outro caminho. Foi embora dizendo que

um dia mandaria um presente da roça para meu pai.

E um belo dia um tropeiro apareceu em nossa casa

com duas sacas de pequis. Era um presente vindo da

roça, mandado por um homem cuja esposa meu pai

havia salvado a vida.

Já era quase noite quando avistamos de longe as

luzes da cidade. Quanto mais perto chegávamos,

mais as luzes iam aumentando, e eu mais ansioso

ficava para chegar. Já bem próximo de casa, notei a

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Memórias e Estórias

janela aberta e o clarão da lamparina vindo de dentro da cozinha. Depois senti cheiro de feijão fresquinho, sinal de que minha mãe estava preparando o jantar.

Botei os dois dedos indicadores na boca e assobiei

bem alto.

Meu cachorro veio correndo e pulou sobre mim.

Minha mãe notou que estávamos chegando, abriu a

porta e, quando nos viu, limpou a mão no avental e

saiu correndo ao nosso encontro. Abraçou-me forte e

disse que estava com saudades. Depois abraçou meu

pai e perguntou: “O que você tem feito com meu

garoto? Por que ele está tão magrinho?” Meu pai

respondeu: “Ele estava aprendendo a trabalhar.”

Minha mãe então lhe disse que não deixaria me levar

para longe dela nunca mais.

Fui trabalhar em um armazém. Trabalhava

durante o dia e à noite estudava. O dinheiro que

ganhava dividia com minha mãe para ajudar nas

despesas da casa, o que sobrava eu comprava roupas

da moda, para nos fins de semana me juntar aos

amigos na praça em frente à igreja, bater papo e

paquerar as meninas do bairro onde eu morava.

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Leonel Paulino da Assunção

O MENDIGO FORASTEIRO