Mensagem por Fernando Pessoa - Versão HTML

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Mensagem

Fernando Pessoa

Fonte: http://www.cfh.ufsc.br/~magno/mensagem.htm Benedictus Dominus Deus noster qui dedit nobis signum Nota Preliminar

O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles.

A primeira é a simpatia; não direi a primeira em tempo, mas a primeira conforme vou citando, e cito por graus de simplicidade. Tem o intérprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar.

A segunda é a intuição. A simpatia pode auxiliá-la, se ela já existe, porém não criá-

la. Por intuição se entende aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja.

A terceira é a inteligência. A inteligência analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo; tem, porém, que fazê-lo depois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia no exame dos símbolos, é o de relacionar no alto o que está de acordo com a relação que está embaixo. Não poderá fazer isto se a simpatia não tiver lembrado essa relação, se a intuição a não tiver estabelecido. Então a inteligência, de discursiva que naturalmente é, se tornará analógica, e o símbolo poderá ser interpretado.

A quarta é a compreensão, entendendo por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia ter dito, pois a erudição é uma soma; nem direi cultura, pois a cultura é uma síntese; e a compreensão é uma vida. Assim certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes.

A quinta é a menos definível. Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros, que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e a Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma destas coisas, que são a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo.

PRIMEIRA PARTE: BRASÃO

Bel um sine bello.

I. OS CAMPOS

PRIMEIRO / O DOS CASTELOS

A Europa jaz, posta nos cotovelos: De Oriente a Ocidente jaz, fitando, E toldam-lhe românticos cabelos

Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;

O direito é em ângulo disposto.

Aquele diz Itália onde é pousado; Este diz Inglaterra onde, afastado, A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar sphyngico e fatal, O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

SEGUNDO / O DAS QUINAS

Os Deuses vendem quando dão.

Comprase a glória com desgraça.

Ai dos felizes, porque são

Só o que passa!

Baste a quem baste o que Ihe basta O bastante de Ihe bastar!

A vida é breve, a alma é vasta:

Ter é tardar.

Foi com desgraça e com vileza

Que Deus ao Cristo definiu:

Assim o opôs à Natureza

E Filho o ungiu.

II. OS CASTELOS

PRIMEIRO / ULISSES

O mytho é o nada que é tudo.

O mesmo sol que abre os céus

É um mytho brilhante e mudo —-

O corpo morto de Deus,

Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,

Foi por não ser existindo.

Sem existir nos bastou.

Por não ter vindo foi vindo

E nos criou.

Assim a lenda se escorre

A entrar na realidade,

E a fecundá-la decorre.

Em baixo, a vida, metade

De nada, morre.

SEGUNDO / VIRIATO

Se a alma que sente e faz conhece Só porque lembra o que esqueceu,

Vivemos, raça, porque houvesse

Memória em nós do instinto teu.

Nação porque reencarnaste,

Povo porque ressuscitou

Ou tu, ou o de que eras a haste —

Assim se Portugal formou.

Teu ser é como aquela fria

Luz que precede a madrugada,

E é ja o ir a haver o dia

Na antemanhã, confuso nada.

TERCEIRO / O CONDE D. HENRIOUE

Todo começo é involuntáario.

Deus é o agente.

O herói a si assiste, vário

E inconsciente.

À espada em tuas mãos achada

Teu olhar desce.

«Que farei eu com esta espada?»

Ergueste-a, e fez-se.

QUARTO / D. TAREJA

As naçôes todas são mystérios.

Cada uma é todo o mundo a sós.

Ó mãe de reis e avó de impérios,

Vela por nós!

Teu seio augusto amamentou

Com bruta e natural certeza

O que, imprevisto, Deus fadou.

Por ele reza!

Dê tua prece outro destino

A quem fadou o instinto teu!

O homem que foi o teu menino

Envelheceu.

Mas todo vivo é eterno infante

Onde estás e não há o dia.

No antigo seio, vigilante,

De novo o cria!

QUINTO / D. AFONSO HENRIQUES

Pai, foste cavaleiro.

Hoje a vigília é nossa.

Dá-nos o exemplo inteiro

E a tua inteira força!

Dá, contra a hora em que, errada, Novos infiéis vençam,

A bênção como espada,

A espada como benção!

SEXTO / D. DINIS

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo O plantador de naus a haver,

E ouve um silêncio múrmuro consigo: É o rumor dos pinhais que, como um trigo De Império, ondulam sem se poder ver.

Arroio, esse cantar, jovem e puro, Busca o oceano por achar;

E a fala dos pinhais, marulho obscuro, É o som presente desse mar futuro, É a voz da terra ansiando pelo mar.

SÉTIMO (I) / D. JOÃO O PRIMEIRO

O homem e a hora são um só

Quando Deus faz e a história é feita.

O mais é carne, cujo pó

A terra espreita.

Mestre, sem o saber, do Templo

Que Portugal foi feito ser,

Que houveste a glória e deste o exemplo De o defender.

Teu nome, eleito em sua fama,

É, na ara da nossa alma interna,

A que repele, eterna chama,

A sombra eterna.

SÉTIMO (II) / D. FILIPA DE LENCASTRE

Que enigma havia em teu seio

Que só gênios concebia?

Que arcanjo teus sonhos veio

Velar, maternos, um dia?

Volve a nós teu rosto sério,

Princesa do Santo Graal,

Humano ventre do Império,

Madrinha de Portugal!

III. AS QUINAS

PRIMEIRA / D. DUARTE, REI DE PORTUGAL

Meu dever fez-me, como Deus ao mundo.

A regra de ser Rei almou meu ser, Em dia e letra escrupuloso e fundo.

Firme em minha tristeza, tal vivi.

Cumpri contra o Destino o meu dever.

Inutilmente? Não, porque o cumpri.

SEGUNDA / D. FERNANDO, INFANTE DE PORTUGAL

Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça A sua santa guerra.

Sagrou-me seu em honra e em desgraça, Às horas em que um frio vento passa Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me A fronte com o olhar;

E esta febre de Além, que me consome, E este querer grandeza são seu nome Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá Em minha face calma.

Cheio de Deus, não temo o que virá, Pois venha o que vier, nunca será Maior do que a minha alma.

TERCEIRA / D. PEDRO, REGENTE DE PORTUGAL

Claro em pensar, e claro no sentir, É claro no querer;

Indiferente ao que há em conseguir Que seja só obter;

Dúplice dono, sem me dividir,

De dever e de ser —

Não me podia a Sorte dar guarida

Por não ser eu dos seus.

Assim vivi, assim morri, a vida,

Calmo sob mudos céus,

Fiel à palavra dada e à idéia tida.

Tudo o mais é com Deus!

QUARTA / D. JOÃO, INFANTE DE PORTUGAL

Não fui alguém. Minha alma estava estreita Entre tão grandes almas minhas pares, Inutilmente eleita,

Virgemmente parada;

Porque é do português, pai de amplos mares, Querer, poder só isto:

O inteiro mar, ou a orla vã desfeita —

O todo, ou o seu nada.

QUINTA / D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL

Louco, sim, louco, porque quis grandeza Qual a Sorte a não dá.

Não coube em mim minha certeza;

Por isso onde o areal está

Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem Com o que nela ia.

Sem a loucura que é o homem

Mais que a besta sadia,

Cadáver adiado que procria?

IV. A COROA

NUN'ÁLVARES PEREIRA

Que auréola te cerca?

É a espada que, volteando.

Faz que o ar alto perca

Seu azul negro e brando.

Mas que espada é que, erguida,

Faz esse halo no céu?

É Excalibur, a ungida,

Que o Rei Artur te deu.

'Sperança consumada,

S. Portugal em ser,

Ergue a luz da tua espada

Para a estrada se ver!

V. O TIMBRE

A CABEÇA DO GRIFO / O INFANTE D. HENRIOUE

Em seu trono entre o brilho das esferas, Com seu manto de noite e solidão, Tem aos pés o mar novo e as mortas eras —

O único imperador que tem, deveras, O globo mundo em sua mão.

UMA ASA DO GRIFO / D. JOÃO O SEGUNDO

Braços cruzados, fita além do mar.

Parece em promontório uma alta serra —

O limite da terra a dominar

O mar que possa haver além da terra.

Seu formidavel vulto solitário

Enche de estar presente o mar e o céu E parece temer o mundo vário

Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu.

A OUTRA ASA DO GRIFO / AFONSO DE ALBUQUEROUE

De pé, sobre os países conquistados Desce os olhos cansados

De ver o mundo e a injustiça e a sorte.

Não pensa em vida ou morte

Tão poderoso que não quer o quanto Pode, que o querer tanto

Calcara mais do que o submisso mundo Sob o seu passo fundo.

Três impérios do chão lhe a Sorte apanha.

Criou-os como quem desdenha.

SEGUNDA PARTE: MAR PORTUGUEZ

Possessio maris.

I. O INFANTE

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

Deus quis que a terra fosse toda uma, Que o mar unisse, já não separasse.

Sagrou-te, e foste desvendando a espuma, E a orla branca foi de ilha em continente, Clareou, correndo, até ao fim do mundo, E viu-se a terra inteira, de repente, Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te portuguez..

Do mar e nós em ti nos deu sinal.

Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.

Senhor, falta cumprir-se Portugal!

II. HORIZONTE

O mar anterior a nós, teus medos

Tinham coral e praias e arvoredos.

Desvendadas a noite e a cerração, As tormentas passadas e o mistério, Abria em flor o Longe, e o Sul sidério

'Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa —

Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta Em árvores onde o Longe nada tinha; Mais perto, abre-se a terra em sons e cores: E, no desembarcar, há aves, flores, Onde era só, de longe a abstrata linha O sonho é ver as formas invisíveis Da distância imprecisa, e, com sensíveis Movimentos da esp'rança e da vontade, Buscar na linha fria do horizonte A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —

Os beijos merecidos da Verdade.

III. PADRÃO

O esforço é grande e o homem é pequeno.

Eu, Diogo Cão, navegador, deixei

Este padrão ao pé do areal moreno E para diante naveguei.

A alma é divina e a obra é imperfeita.

Este padrão sinala ao vento e aos céus Que, da obra ousada, é minha a parte feita: O por-fazer é só com Deus.

E ao imenso e possível oceano

Ensinam estas Quinas, que aqui vês, Que o mar com fim será grego ou romano: O mar sem fim é português.

E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma E faz a febre em mim de navegar

Só encontrará de Deus na eterna calma O porto sempre por achar.

IV. O MOSTRENGO

mostrengo que está no fim do mar

Na noite de breu ergueu-se a voar; A roda da nau voou três vezes,

Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar Nas minhas cavernas que não desvendo, Meus tetos negros do fim do mundo?»

E o homem do leme disse, tremendo:

«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?

De quem as quilhas que vejo e ouço?»

Disse o mostrengo, e rodou três vezes, Três vezes rodou imundo e grosso.

«Quem vem poder o que só eu posso, Que moro onde nunca ninguém me visse E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse:

«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu, Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:

«Aqui ao leme sou mais do que eu: Sou um povo que quer o mar que é teu; E mais que o mostrengo, que me a alma teme E roda nas trevas do fim do mundo, Manda a vontade, que me ata ao leme, De El-Rei D. João Segundo!»

V. EPITÁFIO DE BARTOLOMEU DIAS

Jaz aqui, na pequena praia extrema, O Capitão do Fim. Dobrado o Assombro, O mar é o mesmo: já ninguém o tema!

Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro.

Vl. OS COLOMBOS

Outros haverão de ter

O que houvermos de perder.

Outros poderão achar

O que, no nosso encontrar,

Foi achado, ou não achado,

Segundo o destino dado.

Mas o que a eles não toca

É a Magia que evoca

O Longe e faz dele história.

E por isso a sua glória

É justa auréola dada

Por uma luz emprestada.

VII. OCIDENTE

Com duas mãos — o Ato e o Destino —

DesvendAmos. No mesmo gesto, ao céu Uma ergue o fecho trêmulo e divino E a outra afasta o véu.

Fosse a hora que haver ou a que havia A mão que ao Ocidente o véu rasgou, Foi a alma a Ciência e corpo a Ousadia Da mão que desvendou.

Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal A mão que ergueu o facho que luziu, Foi Deus a alma e o corpo Portugal Da mão que o conduziu.

VIII. FERNÃO DE MAGALHÃES

No vale clareia uma fogueira.

Uma dança sacode a terra inteira.

E sombras desformes e descompostas Em clarões negros do vale vão

Subitamente pelas encostas,

Indo perder-se na escuridão.

De quem é a dança que a noite aterra?

São os Titãs, os filhos da Terra, Que dançam na morte do marinheiro Que quis cingir o materno vulto

— Cingiu-o, dos homens, o primeiro —, Na praia ao longe por fim sepulto.

Dançam, nem sabem que a alma ousada Do morto ainda comanda a armada,

Pulso sem corpo ao leme a guiar

As naus no resto do fim do espaço: Que até ausente soube cercar

A terra inteira com seu abraço.

Violou a Terra. Mas eles não

O sabem, e dançam na solidão;

E sombras disformes e descompostas, Indo perder-se nos horizontes,

Galgam do vale pelas encostas

Dos mudos montes.

IX. ASCENSÃO DE VASCO DA GAMA

Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra Suspendem de repente o ódio da sua guerra E pasmam. Pelo vale onde se ascende aos céus Surge um silêncio, e vai, da névoa ondeando os véus, Primeiro um movimento e depois um assombro.

Ladeiam-no, ao durar, os medos, ombro a ombro, E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões.

Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta Cai-lhe, e em êxtase vê, à luz de mil trovôes, O céu abrir o abismo à alma do Argonauta.

X. MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu.

XI. A ÚLTIMA NAU

Levando a bordo El-Rei D. Sebastião, E erguendo, como um nome, alto o pendão Do Império,

Foi-se a última nau, ao sol azíago Erma, e entre choros de ânsia e de presago Mistério.

Não voltou mais. A que ilha indescoberta Aportou? Voltará da sorte incerta Que teve?

Deus guarda o corpo e a forma do futuro, Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro E breve.

Ah, quanto mais ao povo a alma falta, Mais a minha alma atlântica se exalta E entorna,

E em mim, num mar que não tem tempo ou 'spaço, Vejo entre a cerração teu vulto baço Que torna.

Não sei a hora, mas sei que há a hora, Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora Mistério.

Surges ao sol em mim, e a névoa finda: A mesma, e trazes o pendão ainda

Do Império.

XII. PRECE

Senhor, a noite veio e a alma é vil.

Tanta foi a tormenta e a vontade!

Restam-nos hoje, no silêncio hostil, O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou, Se ainda há vida ainda não é finda.

O frio morto em cinzas a ocultou: A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —

Com que a chama do esforço se remoça, E outra vez conquistaremos a Distância —

Do mar ou outra, mas que seja nossa!

TERCEIRA PARTE: O ENCOBERTO

Pax in excelsis.

I. OS SÍMBOLOS

PRIMEIRO / D. SEBASTIÃO

'Sperai! Cai no areal e na hora adversa Que Deus concede aos seus

Para o intervalo em que esteja a alma imersa Em sonhos que são Deus.

Que importa o areal e a morte e a desventura Se com Deus me guardei?

É O que eu me sonhei que eterno dura É Esse que regressarei.

SEGUNDO / O QUINTO IMPÉRIO

Triste de quem vive em casa,

Contente com o seu lar,

Sem que um sonho, no erguer de asa Faça até mais rubra a brasa

Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!

Vive porque a vida dura.

Nada na alma lhe diz

Mais que a lição da raiz

Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem

No tempo que em eras vem.

Ser descontente é ser homem.

Que as forças cegas se domem

Pela visão que a alma tem!

E assim, passados os quatro

Tempos do ser que sonhou,

A terra será teatro

Do dia claro, que no atro

Da erma noite começou.

Grécia, Roma, Cristandade,

Europa — os quatro se vão

Para onde vai toda idade.

Quem vem viver a verdade

Que morreu D. Sebastião?

TERCEIRO / O DESEJADO

Onde quer que, entre sombras e dizeres, Jazas, remoto, sente-te sonhado,

E ergue-te do fundo de não-seres

Para teu novo fado!

Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo, Mas já no auge da suprema prova,

A alma penitente do teu povo

À Eucaristia Nova.

Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido, Excalibur do Fim, em jeito tal

Que sua Luz ao mundo dividido

Revele o Santo Graal!

QUARTO / AS ILHAS AFORTUNADAS

Que voz vem no som das ondas

Que não é a voz do mar?

E a voz de alguém que nos fala,

Mas que, se escutarmos, cala,

Por ter havido escutar.

E só se, meio dormindo,

Sem saber de ouvir ouvimos

Que ela nos diz a esperança

A que, como uma criança

Dormente, a dormir sorrimos.

São ilhas afortunadas

São terras sem ter lugar,

Onde o Rei mora esperando.

Mas, se vamos despertando

Cala a voz. e há só o mar.

QUINTO / O ENCOBERTO

Que símbolo fecundo

Vem na aurora ansiosa?

Na Cruz Morta do Mundo

A Vida, que é a Rosa.

Que símbolo divino

Traz o dia já visto?

Na Cruz, que é o Destino,

A Rosa que é o Cristo.

Que símbolo final

Mostra o sol já desperto?

Na Cruz morta e fatal

A Rosa do Encoberto.

II. OS AVISOS

PRIMEIRO / O BANDARRA

Sonhava, anônimo e disperso,

O Império por Deus mesmo visto,

Confuso como o Universo

E plebeu como Jesus Cristo.

Não foi nem santo nem herói,

Mas Deus sagrou com Seu sinal

Este, cujo coração foi

Não português, mas Portugal.

SEGUNDO / ANTÓNIO VIEIRA

O céu 'strela o azul e tem grandeza.

Este, que teve a fama e à glória tem, Imperador da língua portuguesa,

Foi-nos um céu também.

No imenso espaço seu de meditar,

Constelado de forma e de visão,

Surge, prenúncio claro do luar,

El-Rei D. Sebastião.

Mas não, não é luar: é luz do etéreo.

É um dia, e, no céu amplo de desejo, A madrugada irreal do Quinto Império Doira as margens do Tejo.

TERCEIRO

'Screvo meu livro à beiramágoa.

Meu coração não tem que ter.

Tenho meus olhos quentes de água.

Só tu, Senhor, me dás viver.

Só te sentir e te pensar

Meus dias vácuos enche e doura.

Mas quando quererás voltar?

Quando é o Rei? Quando é a Hora?

Quando virás a ser o Cristo

De a quem morreu o falso Deus,

E a despertar do mal que existo

A Nova Terra e os Novos Céus?

Quando virás, ó Encoberto,

Sonho das eras português,

Tornar-me mais que o sopro incerto De um grande anseio que Deus fez?

Ah, quando quererás voltando,

Fazer minha esperança amor?

Da névoa e da saudade quando?

Quando, meu Sonho e meu Senhor?

III. OS TEMPOS

PRIMEIRO / NOITE

A nau de um deles tinha-se perdido No mar indefinido.

O segundo pediu licença ao Rei

De, na fé e na lei

Da descoberta, ir em procura

Do irmão no mar sem fim e a névoa escura.

Tempo foi. Nem primeiro nem segundo Volveu do fim profundo

Do mar ignoto à pátria por quem dera O enigma que fizera.

Então o terceiro a El-Rei rogou

Licença de os buscar, e El-Rei negou.

Como a um cativo, o ouvem a passar Os servos do solar.

E, quando o vêem, vêem a figura

Da febre e da amargura,

Com fixos olhos rasos de ânsia

Fitando a proibida azul distância.

Senhor, os dois irmãos do nosso Nome

— O Poder e o Renome —

Ambos se foram pelo mar da idade

À tua eternidade;

E com eles de nós se foi

O que faz a alma poder ser de herói.

Queremos ir buscá-los, desta vil

Nossa prisão servil:

É a busca de quem somos, na distância De nós; e, em febre de ânsia,

A Deus as mãos alçamos.

Mas Deus não dá licença que partamos.

SEGUNDO / TORMENTA

Que jaz no abismo sob o mar que se ergue?

Nós, Portugal, o poder ser.

Que inquietação do fundo nos soergue?

O desejar poder querer.

Isto, e o mistério de que a noite é o fausto...

Mas súbito, onde o vento ruge,

O relâmpago, farol de Deus, um hausto Brilha e o mar 'scuro 'struge.

TERCEIRO / CALMA

Que costa é que as ondas contam

E se não pode encontrar

Por mais naus que haja no mar?

O que é que as ondas encontram

E nunca se vê surgindo?

Este som de o mar praiar

Onde é que está existindo?

lha próxima e remota,

Que nos ouvidos persiste,

Para a vista não existe.

Que nau, que armada, que frota

Pode encontrar o caminho

A praia onde o mar insiste,

Se à vista o mar é sozinho?

Haverá rasgões no espaço

Que dêem para outro lado,

E que, um deles encontrado,

Aqui, onde há só sargaço,

Surja uma ilha velada,

O país afortunado

Que guarda o Rei desterrado

Em sua vida encantada?

QUARTO / ANTEMANHÃ

O mostrengo que está no fim do mar Veio das trevas a procurar

A madrugada do novo dia

Do novo dia sem acabar

E disse: Quem é que dorme a lembrar Que desvendou o Segundo Mundo

Nem o Terceiro quere desvendar?

E o som na treva de ele rodar

Faz mau o sono, triste o sonhar,

Rodou e foi-se o mostrengo servo

Que seu senhor veio aqui buscar.

Que veio aqui seu senhor chamar —

Chamar Aquele que está dormindo

E foi outrora Senhor do Mar.

QUINTO / NEVOEIRO

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, Define com perfil e ser

Este fulgor baço da terra

Que é Portugal a entristecer —

Brilho sem luz e sem arder,

Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.

Ninguém conhece que alma tem,

Nem o que é mal nem o que é bem.

(Que ânsia distante perto chora?) Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

Valete, Frates.

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