Mentes Perigosas- O Psicopata Mora Ao Lado por Ana Beatriz Barbosa Silva - Versão HTML

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Livro: Mentes Perigosas - O Psicopata Mora ao Lado

Autora: Ana Beatriz Barbosa Silva

Editora: FONTANAR

Gênero: Psiquiatria/Psicologia

Páginas: 213

Numeração de páginas: rodapé

Edição: 1

Acabamento: Brochura

Mentes Perigosas - O psicopata mora ao lado

Ana Beatriz Barbosa Silva

Como reconhecer e se proteger de pessoas frias e perversas, sem sentimento de culpa,

que estão perto de nós.

FONTANAR

SUMÁRIO

AGRADECIMENTOS 9

INTRODUÇÃO 11

1 RAZÃO E SENSIBILIDADE: UM SENTIDO CHAMADO CONSCIÊNCIA 17

2 OS PSICOPATAS: FRIOS E SEM CONSCIÊNCIA 29

3 PESSOAS NO MÍNIMO SUSPEITAS 43

4 PSICOPATAS: UMA VISÃO MAIS DETALHADA- PARTE 1 61

5 PSICOPATAS: UMA VISÃO MAIS DETALHADA- PARTE 2 77

6 OS PSICOPATAS NO MUNDO PROFISSIONAL 89

7 FOI MANCHETE NOS JORNAIS 101

8 PSICOPATAS PERIGOSOS DEMAIS 123

9 MENORES PERIGOSOS DEMAIS 133

10 DE ONDE VEM ISSO TUDO? 145

11 O QUE PODEMOS FAZER? 163

12 MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA 171

13 ALGUMA COISA ESTÁ FORA DA ORDEM 183

ANEXOS

A DSM-IV-TR - (301.7) 191

B CID-10 - (F60.2) 195

DSM-IV-TR - (312.8) 199

SITES ÚTEIS 205

TELEFONES ÚTEIS 207

BIBLIOGRAFIA 209

AGRADECIMENTOS

A Celinha, pela cumplicidade, pelo carinho, pela torcida e por ser a pessoa mais "do

bem" que eu já conheci.

A Mónica Cristina dos Santos, pelo material pesquisado e pela ajuda preciosa.

A Roberta Nunes de Oliveira, Rogério Nunes de Oliveira, Alexandre Oliveira Tavares,

Anik Rebello A. Machado, Lúcio Campinho, Ana Cristina H. M. Viana e Cecília Gross,

pela troca generosa de ideias e incentivos.

A Sandrinha, Susi e Miti, pelo carinho e pela parceria profissional.

Aos meus pais e minha irmã, pelo amor incondicional.

A Vânia e a Gigi, por alegrarem meus dias de trabalho caseiro.

A Mirian Pirolo, por compartilhar as dúvidas, as angústias e as alegrias que envolveram

a realização deste livro.

A todos aqueles que de alguma forma me ajudaram a colocar as idéias no papel.

INTRODUÇÃO

O escorpião aproximou-se do sapo que estava à beira do rio. Como não sabia nadar,

pediu uma carona para chegar à outra margem. Desconfiado, o sapo respondeu: "Ora,

escorpião, só se eu fosse tolo demais! Você é traiçoeiro, vai me picar, soltar o seu

veneno e eu vou morrer."

Mesmo assim o escorpião insistiu, com o argumento lógico de que se picasse o sapo

ambos morreriam. Com promessas de que poderia ficar tranquilo, o sapo cedeu,

acomodou o escorpião em suas costas e começou a nadar.

Ao fim da travessia, o escorpião cravou o seu ferrão mortal no sapo e saltou ileso em

terra firme.

Atingido pelo veneno e já começando a afundar, o sapo desesperado quis saber o porquê

de tamanha crueldade. E o escorpião respondeu friamente:

- Porque essa é a minha natureza!

Vez por outra, essa fábula surge em minha mente, seja no cotidiano profissional ou

através do acompanhamento das notícias diárias, pelos jornais e TV. Trata-se de uma

história arquetípica, que ilustra exemplarmente a natureza das pessoas que serão

analisadas e descritas, ao longo deste livro.

A idéia de escrever sobre psicopatas surgiu em razão do momento violento, desumano e

marcado por escândalos que nos abatem, mas também serve como um alerta aos

desprevenidos quanto à ação destruidora desses indivíduos. Devo admitir minha

ousadia, mas não pude resistir às inúmeras solicitações dos meus leitores, pacientes,

conhecidos e amigos.

Quando pensamos em psicopatia, logo nos vem à mente um sujeito com cara de mau,

truculento, de aparência descuidada, pinta de assassino e desvios comportamentais tão

óbvios que poderíamos reconhecê-lo sem pestanejar. Isso é um grande equívoco!

Para os desavisados, reconhecê-los não é uma tarefa tão fácil quanto se imagina. Os

psicopatas enganam e representam muitíssimo bem! Seus talentos teatrais e seu poder

de convencimento são tão impressionantes que chegam a usar as pessoas com a única

intenção de atingir seus sórdidos objetivos. Tudo isso sem qualquer aviso prévio, em

grande estilo, doa a quem doer.

Mas quem são essas criaturas tão nocivas? São pessoas loucas ou perturbadas? O que

fazem, o que sentem? Como e onde vivem? Todos são assassinos?

Este livro discorre sobre pessoas frias, insensíveis, manipuladoras, perversas,

transgressoras de regras sociais, impiedosas, imorais, sem consciência e desprovidas de

sentimento de compaixão, culpa ou remorso. Esses "predadores sociais" com aparência

humana estão por aí, misturados conosco, incógnitos, infiltrados em todos os setores

sociais. São homens, mulheres, de qualquer raça, credo ou nível social. Trabalham,

estudam, fazem carreiras, se casam, têm filhos, mas definitivamente não são como a

maioria das pessoas: aquelas a quem chamaríamos de "pessoas do bem".

Em casos extremos, os psicopatas matam a sangue-frio, com requintes de crueldade,

sem medo e sem arrependimento. Porém, o que a sociedade desconhece é que os

psicopatas, em sua grande maioria, não são assassinos e vivem como se fossem pessoas

comuns.

Eles podem arruinar empresas e famílias, provocar intrigas, destruir sonhos, mas não

matam. E, exatamente por isso, permanecem por muito tempo ou até uma vida inteira

sem serem descobertos ou diagnosticados. Por serem charmosos, eloquentes,

Página 12

"inteligentes", envolventes e sedutores, não costumam levantar a menor suspeita de

quem realmente são. Podemos encontrá-los disfarçados de religiosos, bons políticos,

bons amantes, bons amigos. Visam apenas o benefício próprio, almejam o poder e o

status, engordam ilicitamente suas contas bancárias, são mentirosos contumazes,

parasitas, chefes tiranos, pedófilos, líderes natos da maldade.

A realidade é contundente e cruel, entretanto, o mais impac-tante é que a maioria

esmagadora está do lado de fora das grades, convivendo diariamente com todos nós.

Transitam tranquilamente pelas ruas, cruzam nossos caminhos, frequentam as mesmas

festas, dividem o mesmo teto, dormem na mesma cama...

Apesar de mais de vinte anos de profissão, ainda fico muito surpresa e sensibilizada

com a quantidade de pacientes que me procuram com suas vidas arruinadas, totalmente

em frangalhos, alvejadas por esses "seres bípedes" que sugam o nosso sangue e

vampirizam a nossa alma.

É importante ressaltar que os psicopatas possuem níveis variados de gravidade: leve,

moderado e severo. Os primeiros se dedicam a trapacear, aplicar golpes e pequenos

roubos, mas provavelmente não "sujarão as mãos de sangue" ou matarão suas vítimas.

Já os últimos, botam verdadeiramente a "mão na massa", com métodos cruéis

sofisticados, e sentem um enorme prazer com seus atos brutais. Mas não se iluda!

Qualquer que seja o grau de gravidade, todos, invariavelmente, deixam marcas de

destruição por onde passam, sem piedade.

Além de psicopatas, eles também recebem as denominações de sociopatas,

personalidades anti-sociais, personalidades psicopáticas, personalidades dissociais,

personalidades amorais, entre outras. Embora alguns estudiosos prefiram diferenciá-los,

no meu entendimento esses termos se equivalem e descrevem o mesmo perfil. No

entanto, por uma questão de foro íntimo e visando facilitar a compreensão, o termo

psicopata será o utilizado neste livro.

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A parte racional ou cognitiva dos psicopatas é perfeita e íntegra, por isso sabem

perfeitamente o que estão fazendo. Quanto aos sentimentos, porém, são absolutamente

deficitários, pobres, ausentes de afeto e de profundidade emocional. Assim, concordo

plenamente quando alguns autores dizem, de forma metafórica, que os psicopatas

entendem a letra de uma canção, mas são incapazes de compreender a melodia.

Com base nessa premissa, optei por não inserir trechos de letras de canções brasileiras

na abertura dos capítulos, recurso narrativo que costumo adotar em minhas obras.

Música é emoção, sentida com a alma. Entendo que repetir a mesma fórmula ao

descrever o comportamento de criaturas desprovidas de afetividade seria, no mínimo,

um contra-senso.

Aqui não me proponho, sob qualquer hipótese, a oferecer ajuda terapêutica aos

indivíduos com esse perfil. Ao contrário, o meu objetivo é informar o público em geral,

para que fique de olhos e ouvidos bem abertos, despertos e prevenidos. Suas vítimas

prediletas são as pessoas mais sensíveis, mais puras de alma e de coração...

Também tenho como propósito expor parâmetros para que possamos avaliar, em que

escala, cada um de nós está contribuindo para promover uma cultura social na qual a

psicopatia encontra um terreno fértil para prosperar.

Esta obra contém histórias reais que me foram relatadas por vítimas de psicopatas,

direta ou indiretamente, e casos tratados com destaque na imprensa. Não estou

afirmando que os exemplos aqui citados representam autênticos psicopatas, e sim que

ilustram de forma bastante didática comportamentos que um psicopata típico teria.

Além disso, todos os casos apresentados se prestam muito bem à exemplificação dos

mais diversos níveis de psicopatia, desde os mais leves até os moderados e severos.

Dessa forma, tentei esquadrinhar e tornar o tema o mais abrangente possível, a fim de

responder a uma série de perguntas que, na maioria das vezes, nos deixa absolutamente

confusos. Assim

Página 14

espero contribuir para que as pessoas se previnam das ameaças que nos rondam de

forma silenciosa. Estou convencida de que falhas em nossas organizações familiares,

educacionais e sociais são dados importantes e merecem estudos aprofundados e toda a

nossa atenção, mas por si só não são suficientes para explicar o fenômeno da psicopatia.

A natureza dos psicopatas é devastadora, assustadora, e, aos poucos, a ciência começa a

se aprofundar e a compreender aquilo que contradiz a própria natureza humana.

O conteúdo aqui exposto é denso e intrigante. As páginas percorrem as mentes sombrias

de criaturas cujas vidas parecem não ter se desenvolvido totalmente. Saber identificá-las

pode ser um antídoto (talvez o único) contra seu veneno paralisante e mortal.

Infelizmente a desinformação nos torna vulneráveis, indefesos como "sapos tolos",

fisgados pelas habilidades camaleonicas dos "escorpiões". Prepare-se, porque

certamente você conhece, já ouviu falar ou convive com um deles. Ana Beatriz Barbosa

Silva.

Página 15

Qualquer história sobre consciência é relativa à conectividade que existe entre todas as

coisas do universo. Por isso, mesmo de forma inconsciente, alegramo-nos frente à

natureza gentil dos a tos de amor.

Capítulo 1

Razão e sensibilidade: um sentido chamado consciência

Lembro como se fosse hoje. Fecho os olhos e lá estou eu e meus colegas no anfiteatro

principal do Hospital Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro. Aquilo que a princípio deveria

ser mais uma das palestras do nosso vasto currículo do curso de medicina foi

fundamental na minha vida profissional.

Era sexta-feira, nove horas da manhã, e eu me encontrava sonolenta e exausta, em

função do plantão que havia feito na noite anterior. Confesso que por uns dez a 15

minutos quase rezei para que o palestrante faltasse ao seu compromisso. Dessa forma,

poderia ir para casa, tomar um belo banho e dormir o sono dos justos sem nenhuma

pontinha de culpa.

Por volta de 9h15, um homem franzino e muito branco, que trajava uma calça jeans e

um discreto blusão azul, adentrou o auditório repleto de alunos, subiu no tablado e

desenhou na lousa o seguinte gráfico: [no texto original em tinta aparece um esquema

de duas linhas que se cruzam e na ponta de casa uma está uma seta. Ao norte está

escrito “estar” e a leste a palavra “ser”].

Em tom provocador e entusiasmado, ele entonou em voz firme e forte a seguinte

questão: "O que é consciência?".

Ainda sob o impacto daquela estranha presença, que sequer se apresentou, a turma

entreolhava-se de forma discreta na

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expectativa de que alguém quebrasse o silêncio constrangedor que inundava o

anfiteatro.

Por mais estranho que possa parecer, aquele silêncio me despertou, ou melhor, toda

aquela situação me intrigou de alguma forma. Senti-me desafiada pelo questionamento

que aquele homem havia jogado no ar!

Rapidamente ajeitei-me na cadeira, esfreguei os olhos e impulsivamente disparei: "Bom

dia, mestre, sou estudante do terceiro ano desta faculdade (UERJ) e gostaria de saber o

seu nome, a sua especialidade e uma pequena explicação sobre o gráfico na lousa."

Por uma fração de segundos percebi que tinha sido ligeiramente indelicada e também

desafiadora. Quando deparei com o professor à minha frente, pude observar certo bom

humor em sua fisionomia, o que foi confirmado por suas palavras: "Bom dia a todos os

académicos aqui presentes! Meu nome é Osvaldo e sou médico psiquiatra, professor

assistente da cadeira de psiquiatria desta faculdade."

Sem pestanejar, o professor Osvaldo, dirigindo-se a mim, fez valer a lei da ação e

reação: "Vejo que você está muito interessada no tema de hoje. Então vamos iniciar

nossa aula com a sua descrição sobre a consciência."

Naquele momento percebi que o ditado "quem está na chuva é pra se molhar" era

inteiramente verdadeiro e, sem possibilidades de fuga, falei: "Professor, quando ouço a

palavra consciência dois sentimentos me vêm à cabeça: um de ordem prática, ou seja, se

estou acordada ou não; e outro de ordem subjetiva, que me remete ao fato de eu ter

consciência de quem eu sou e qual o meu papel no mundo."

Com um sorriso de aprovação nos lábios, o professor continuou: "Em parte você já

explicou o gráfico aqui colocado. De certa forma, seu ponto de vista está correto. Mas

vamos nos aprofundar um pouco mais nessas questões". Apontando para o desenho na

lousa, ele prosseguiu:

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"ESTAR consciente é fazer uso da razão ou da capacidade de raciocinar e de processar

os fatos que vivenciamos. ESTAR consciente é ser capaz de pensar e ter ciência das

nossas ações físicas e mentais. Na clínica médica, podemos averiguar o estado de alerta

ou lucidez que uma pessoa apresenta num determinado momento.

Assim, podemos perceber num exame clínico o estado ou nível de consciência, no qual

podemos encontrar as seguintes palavras: lúcido, vigil, hipovigil, hipervigil, confuso,

coma profundo etc. Todas elas atestam o nível de percepção que temos em relação ao

mundo.

"Alguém que utilize certas doses de álcool, por exemplo, pode apresentar o seu nível de

consciência reduzido (hipovigil) ou até mesmo atingir o estado de coma. De forma

inversa, as anfe-taminas (estimulantes) - muito utilizadas em dietas de emagrecimento -

costumam fazer o cérebro trabalhar mais depressa, deixando as pessoas mais 'acesas',

mais 'elétricas', com a fala rápida, e podem provocar insónia e muita irritabilidade. Esse

estado é conhecido como hipervigilância".

Finalmente alguém falava de forma clara como deveríamos iniciar um exame clínico

dos nossos futuros pacientes. Entusiasmados e atentos às explicações do professor,

fizemos inúmeras perguntas sobre acidentes automobilísticos, traumatismos cranianos,

substâncias tóxicas e tantas outras situações que podem alterar nossos níveis de

consciência.

A segunda parte da aula não se tratava mais de identificar o estado ou nível de

consciência de alguém, mas sim de algo muito mais complexo. Agora a questão era

"SER OU não SER".

"SER consciente não é um estado momentâneo em nossa existência, como falamos

anteriormente, SER consciente refere-se à nossa maneira de existir no mundo. Está

relacionado à forma como conduzimos nossas vidas e, especialmente, às ligações

emocionais que estabelecemos com as pessoas e as coisas no nosso dia-a-dia. Ser

dotado de consciência é ser capaz de amar", concluiu o professor.

Página 21

Ao soar o sinal, a maioria da turma se levantou, esvaziando o anfiteatro. Por alguns

minutos, fiquei ali pensativa como se algo tivesse me atingido de forma estranha e

paralisante. Vi o professor Osvaldo saindo; de longe fez um gesto discreto de despedida

que, sem querer, não consegui responder. Na minha mente duas palavras ecoavam

estridentes: consciência e amor! Não sabia explicar o porquê, mas naquele momento fui

tomada por duas inquestionáveis certezas: eu estava lúcida (vigil) e experimentava uma

emoção maravilhosa e transcendente de ser uma pessoa consciente.

De lá para cá, muitos anos se passaram, mas aquela aula - em especial a sua parte final -

foi decisiva na minha vida. A partir daquele dia, exercer a psiquiatria passou a ser parte

inseparável da minha existência. Eu tinha a consciência de que a minha profissão seria

um canal por onde emoções muito boas transitariam por toda a vida. Ser consciente é

ser capaz de amar.

Como visto na aula do professor Osvaldo, o termo consciência é ambíguo, sugerindo

dois significados totalmente distintos. E por isso mesmo, é compreensível que a esta

altura o leitor esteja confuso. Na realidade, a consciência é um atributo que transita

entre a razão e a sensibilidade. Popularmente falando, entre a "cabeça" e o "coração".

Falar sobre consciência pode ser uma tarefa "fácil" e "difícil" ao mesmo tempo. O

"fácil" são as explicações científicas sobre o desenvolvimento da consciência no

cérebro, que envolvem engrenagens como atenção, memória, circuitos neuronais e

estruturas cerebrais, que só serviriam para confundir um pouco mais. Nada disso vem ao

caso agora, pelo menos não é esse o meu propósito. Portanto, esqueça! Aqui, vou

considerar o lado "difícil", subjetivo e relativo ao sentido ético da existência humana: o

SER consciente.

Mostrar apreço às condutas louváveis, ser bondoso ou educado, ter um comportamento

exemplar e cauteloso, preocupar-se

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com o que os outros pensam a nosso respeito nem de longe pode ser definido como

consciência de fato. Afinal, a consciência não é um comportamento em si, nem mesmo

é algo que possamos fazer ou pensar. A consciência é algo que sentimos. Ela existe,

antes de tudo, no campo da afeição ou dos afetos. Mais do que uma função

comportamental ou intelectual a consciência pode ser definida como uma emoção.

Peço licença e vou um pouco além. No meu entender, a consciência é um senso de

responsabilidade e generosidade baseado em vínculos emocionais, de extrema nobreza,

com outras criaturas (animais, seres humanos) ou até mesmo com a humanidade e o

universo como um todo. É uma espécie de entidade invisível, que possui vida própria e

que independe da nossa razão. É a voz secreta da alma, que habita em nosso interior e

que nos orienta para o caminho do bem.

A consciência nos impulsiona a tomar decisões totalmente irracionais e até mesmo com

implicações de risco à vida. Ela permeia as nossas atitudes cotidianas (como perder uma

reunião de negócios porque seu filho está ardendo em febre) e até as nossas ações de

extrema bravura e de auto-sacrifício (como suportar a dor de uma tortura física e

psicológica em função de um ideal). E, assim, a consciência nos abraça e conduz pela

vida afora, porque está em plena comunhão com o mais poderoso combustível afeti-vo:

o amor.

De forma bem prosaica, imagine a seguinte situação:

Você está no aconchego do seu apartamento, depois de um dia exaustivo de trabalho e

reuniões. Momentos depois, o interfone toca anunciando a visita inesperada de uma

grande amiga. Ela está grávida de sete meses e chegou abarrotada de sacolas com as

últimas compras do enxoval. Apesar do cansaço, você fica verdadeiramente feliz com

sua presença.

Por alguns momentos, vocês conversam alegremente sobre o bebé, os planos para o

futuro e colocam as "fofocas" em dia. Lá pelas tantas da noite, sua amiga diz que

precisa ir embora.

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Em frações de segundos, você pensa: "Preciso tomar um banho e dormir, será que ela

vai entender se eu não acompanhá-la até a portaria do prédio?", "Mas ela está grávida e

tem tanta coisa pra carregar!", "É melhor eu ir junto, não foi isso que me ensinaram".

Bom, essa tagarelice mental, que azucrina tal qual um crime cometido, sem dúvidas não

é imoral. É absolutamente humana, natural e foge ao nosso controle. Mas também não é

a sua consciência soprando no seu ouvido.

Ao contrário do "vou ou não vou", você é imediatamente tomado por um impulso

generoso e se flagra no elevador com sua amiga, suas bolsas e sacolas. Chama um táxi,

abre a porta do carro, diz ao motorista para ir com cuidado e se despedem felizes.

Hum! A consciência é assim mesmo: chega sem avisar e não complica, apenas faz!

Uma história mais comovente:

São Paulo, domingo, novembro de 2007. Cerca de três minutos após ter decolado do

aeroporto Campo de Marte, um Learjet 35 caiu de bico sobre uma residência, onde

moravam 14 pessoas de uma mesma família. No acidente morreram o piloto, o co-piloto

e seis pessoas que estavam na casa. Os vizinhos Airton, de 47 anos, e seu pai, o sr.

Ângelo, de 75, correram para o sobrado da família Fernandes assim que ouviram o

barulho da queda do avião. Pai e filho conseguiram salvar Cláudia Fernandes, de 16

anos. Eles ouviram o choro da garota, que é autista e brincava com sua amiga Laís na

hora do acidente. Airton, emocionado, descalço e com a blusa suja de sangue e cinzas,

lamentava ter conseguido salvar apenas uma única vida. O sr. Ângelo queimou a mão

ao salvar Cláudia e, após ser atendido por médicos no local, permaneceu na rua tentando

furar o bloqueio policial para voltar aos escombros.

Sem qualquer sombra de dúvidas, podemos afirmar que Airton e Ângelo possuem

consciência. E naquela tarde de domingo, eles não pensaram, simplesmente agiram:

isso é pura consciência em exercício.

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Todas as pessoas portadoras de consciência se emocionam ao testemunhar ou tomar

conhecimento de um ato altruísta, seja ele simples ou grandioso. Qualquer história sobre

consciência é relativa à conectividade que existe entre todas as coisas do universo. Por

isso, mesmo de forma inconsciente (sem nos darmos conta), alegramo-nos frente à

natureza gentil dos atos de amor.

A consciência genuína

No decorrer da nossa história, muitos estudos e teorias se formaram em torno da

consciência e das inevitáveis polémicas sobre o "bem" e o "mal". Com o passar dos

séculos, a consciência foi e ainda é alvo de discussões entre teólogos, filósofos,

sociólogos e, mais recentemente, desafia e intriga cientistas e juristas.

De fato, conceituar ou definir consciência é algo extremamente complexo que pode

gerar controvérsias por anos a fio. Isso porque ela está acima de teorias religiosas ou

mesmo psicológicas e científicas.

A meu ver, ter consciência ou ser consciente trata-se de possuir o mais sofisticado e

evoluído de todos os sentidos da vida humana: o "sexto sentido". Atrevo-me a afirmar

que tal sentido foi o último a se desenvolver na história evolutiva da espécie humana.

Nossa humanidade, benevolência e condescendência devem ser atribuídas a esse nobre

sentido. A consciência é criadora do significado de nossa existência e, de forma

subjetiva, também é criadora do significado da vida de cada um de nós.

Ela influencia e determina o papel que cada um terá na sociedade e no universo.

Como disse anteriormente, a consciência é tão espetacular que só podemos senti-la, e

talvez esteja aí toda a sua grandeza. Se existe alguma coisa de divino em nós, entendo

que a nossa consciência seja essa expressão e, quem sabe, uma fração incalculável do

tão falado e pouco praticado amor universal ou incondicional.

Na verdade, esse "sexto sentido" é essencialmente baseado na compaixão e na

verdadeira prática do amor.

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Uma vez que a consciência está profundamente alicerçada em nossa habilidade de amar,

em criar vínculos afetivos e nos abastecer dos mais nobres sentimentos, ela nos faz

subjetiva-mente únicos, porém integrados e sincrônicos com o TODO maior e

transcendente (tenha ele o nome que tiver, nos diversos povos ao redor do mundo).

A consciência genuína nos impulsiona a ir ao encontro do outro, colocando-nos em seu

lugar e entendendo a sua dor. Somos tomados por gestos simples como desejar "bom

dia" àqueles que não conhecemos ou ligar para um amigo só para dizer: "Olá, como vai?

Estou aqui para o que der e vier!"

Inundados de consciência, pedimos desculpas sinceras àqueles que magoamos ou

ferimos num momento de equívoco. Agradecemos aos nossos pais pela oportunidade da

vida e pelos ensinamentos de retidão. Vibramos e nos emocionamos frente à superação

de um atleta, que derrama lágrimas ao subir no degrau mais alto do pódio.

Esse "sexto sentido" é que nos comove com as situações trágicas e também com a

felicidade do encontro de irmãos separados desde a infância. Ele nos traz indignação

frente ao preconceito, ao desrespeito às regras sociais, à intolerância ao próximo, à falta

de educação, à corrupção e à impunidade.

A consciência nos inspira a zelar pelo nosso animal de estimação e a nos desesperar

pelo seu desaparecimento. Inspira-nos a chorar copiosamente com o nascimento de um

filho e acompanhá-lo rumo à descoberta do mundo ao seu redor. Permite-nos sentir a

profundidade de uma bela melodia, apreciar a exuberância de uma flor e exclamar:

"Nossa, que linda!"

A consciência gera movimentos de extrema grandeza pela paz e leva milhares de

pessoas às ruas para protestar contra a violência; impulsiona o sacrifício voluntário e

incondicional de pessoas que lutam em prol da humanidade. Ela alegra nossos corações

com os primeiros raios de sol, anunciando que o dia será

Página 26

mais colorido, e também com a chuva que faz brotar a plantação, garantindo o nosso

"pão de cada dia".

É a consciência que nos impele a doar órgãos em momentos de extrema dor e a torcer

por um final feliz. Impulsiona indivíduos a salvar muitas vidas, mesmo sabendo que

pode ser o seu próprio fim. Leva-nos às preces, às orações e às correntes do bem na

esperança de dias melhores.

Movimenta-nos contra a seca, a fome, o desmatamento das florestas e a destruição da

camada de ozônio, que colocam em risco o rumo do planeta e o futuro das novas

gerações. Enfim, nos pequenos ou nos grandes gestos, a consciência genuína - e

somente ela - é capaz de mudar o mundo para melhor.

Página 27

Capítulo 2

Os psicopatas: frios e sem consciência

Eles vivem entre nós, parecem fisicamente conosco, mas são desprovidos deste sentido

tão especial: a consciência.

Muitos seres humanos são destituídos desse senso de responsabilidade ética, que

deveria ser a base essencial de nossas relações emocionais com os outros. Sei que é

difícil de acreditar, mas algumas pessoas nunca experimentaram ou jamais

experimentarão a inquietude mental, ou o menor sentimento de culpa ou remorso por

desapontar, magoar, enganar ou até mesmo tirar a vida de alguém.

Admitir que existem criaturas com essa natureza é quase uma rendição ao fato de que o

"mal" habita entre nós, lado a lado, cara a cara. Para as pessoas que acreditam no amor e

na compaixão como regras essenciais entre as relações humanas, aceitar essa

possibilidade é, sem dúvida, bastante perturbador. No entanto, esses indivíduos

verdadeiramente maléficos e ardilosos utilizam "disfarces" tão perfeitos que

acreditamos piamente que são seres humanos como nós. Eles são verdadeiros atores da

vida real, que mentem com a maior tranquilidade, como se estivessem contando a

verdade mais cristalina. E, assim, conseguem deixar seus instintos maquiavélicos

absolutamente imperceptíveis aos nossos olhos e sentidos, a ponto de não percebermos

a diferença entre aqueles que têm consciência e aqueles que são desprovidos desse

nobre atributo.

Por esse motivo, é natural que você esteja agora se perguntando, de forma íntima e

angustiada, se as pessoas com as quais convive ou que fazem parte do seu mundo são

dotadas de consciência ou não. Por isso, neste exato momento proponho um passeio

virtual (mental). Pare e pense nos seus vizinhos; nos jovens nas escolas; nos

trabalhadores da sua rua; nos profissionais de várias áreas; nos amigos dos seus amigos;

nas mães que zelam pelos

Página 31

seus filhos; nos líderes religiosos e nos políticos de sua nação. Pare e pense agora nos

seus familiares, no seu chefe, no seu subordinado. Será que todos, sem exceção, são

dotados de consciência?

Torcemos para que SIM! Contudo, lamentavelmente, não é bem assim que a realidade

se mostra. Poderíamos responder a essa mesma pergunta com um vigoroso NÃO!

Qualquer uma das pessoas mencionadas como exemplo poderia, de fato, ser desprovida

de quaisquer vestígios de consciência. Em outras palavras, elas estão absolutamente

livres de constrangimentos ou julgamentos morais internos e podem fazer o quiser, de

acordo com seus impulsos destrutivos.

Estamos pisando agora num terreno assustador, intrigante e desafiador: a mente

perigosa dos psicopatas. Como já foi exposto na introdução deste livro, eles recebem

outros nomes, tais como: sociopatas, personalidades anti-sociais, personalidades

psicopáticas, personalidades dissociais, entre outros. Muitos estudiosos preferem

diferenciá-los, com explicações ainda subjetivas que, no meu entender, poderiam apenas

confundir o leitor. Devido à falta de um consenso definitivo, a denominação dessa

disfunção comportamental tem despertado acalorados debates entre muitos autores,

clínicos e pesquisadores ao longo do tempo. Alguns utilizam a palavra sociopata por

pensarem que fatores sociais desfavoráveis sejam capazes de causar o problema. Outras

correntes que acreditam que os fatores genéticos, biológicos e psicológicos estejam

envolvidos na origem do transtorno adotam o termo psicopata. Por outro lado, também

não encontramos consenso entre instituições como a Associação de Psiquiatria

Americana (DSM-IV-TR)1 e a Organização Mundial de Saúde (CID-10).2 A primeira

utiliza o termo Transtorno da Personalidade Anti-social, já a segunda prefere Transtorno

de Personalidade Dissocial.

___________

1 Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 4a edição - Texto Revisado. Vide Anexo A.

2 Classificação Internacional das Doenças. Vide Anexo B.

Página 32

Em face de tantas divergências e com o intuito de facilitar o entendimento, resolvi

unificar as diversas nomenclaturas e empregar apenas a palavra psicopata. Seja lá como

for, uma coisa é certa: todas essas terminologias definem um perfil transgressor. O que

pode suscitar uma pequena diferenciação entre elas é a intensidade com a qual os

sintomas se manifestam.

É importante ressaltar que o termo psicopata pode dar a falsa impressão de que se trata

de indivíduos loucos ou doentes mentais. A palavra psicopata literalmente significa

doença da mente (do grego, psyche = mente; e pathos = doença). No entanto, em termos

médico-psiquiátricos, a psicopatia não se encaixa na visão tradicional das doenças

mentais. Esses indivíduos não são considerados loucos, nem apresentam qualquer tipo

de desorientação. Também não sofrem de delírios ou alucinações (como a

esquizofrenia) e tampouco apresentam intenso sofrimento mental (como a depressão ou

o pânico, por exemplo).

Ao contrário disso, seus atos criminosos não provêm de mentes adoecidas, mas sim de

um raciocínio frio e calculista combinado com uma total incapacidade de tratar as outras

pessoas como seres humanos pensantes e com sentimentos.

Os psicopatas em geral são indivíduos frios, calculistas, inescrupulosos, dissimulados,

mentirosos, sedutores e que visam apenas o próprio benefício. Eles são incapazes de

estabelecer vínculos afetivos ou de se colocar no lugar do outro. São desprovidos de

culpa ou remorso e, muitas vezes, revelam-se agressivos e violentos. Em maior ou

menor nível de gravidade e com formas diferentes de manifestarem os seus atos

transgressores, os psicopatas são verdadeiros "predadores sociais", em cujas veias e

artérias corre um sangue gélido.

Os psicopatas são indivíduos que podem ser encontrados em qualquer raça, cultura,

sociedade, credo, sexualidade, ou nível financeiro. Estão infiltrados em todos os meios

sociais e profissionais, camuflados de executivos bem-sucedidos, líderes religiosos,

trabalhadores, "pais e mães de família", políticos etc. Certamente,

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cada um de nós conhece ou conhecera algumas dessas pessoas durante a sua existência.

Muitos já foram manipulados por elas, alguns vivem forçosamente com elas e outros

tentam reparar os danos materiais e psicológicos por elas causados.

Por isso, não se iluda! Esses indivíduos charmosos e atraentes frequentemente deixam

um rastro de perdas e destruição por onde passam. Sua marca principal é a

impressionante falta de consciência nas relações interpessoais estabelecidas nos

diversos ambientes do convívio humano (afetivo, profissional, familiar e social).

O jogo deles se baseia no poder e na autopromoção às custas dos outros, e eles são

capazes de atropelar tudo e todos com total egocentrismo e indiferença. Muitos passam

algum tempo na prisão, no entanto para a infelicidade coletiva, a grande maioria deles

jamais esteve numa delegacia ou qualquer presídio. Como animais predadores,

vampiros ou parasitas humanos, esses indivíduos sempre sugam suas presas até o limite

improvável de uso e abuso. Na matemática desprezível dos psicopatas, só existe o

acréscimo unilateral e predatório, e somente eles são os beneficiados.

Cabe aqui uma breve ressalva. Todos nós dotados de consciência podemos, em um

momento qualquer da vida, magoar ou insultar o próximo; cometer injustiças ou

equívocos e, em casos extremos, matar alguém sob forte impacto emocional. Afinal,

somos humanos e nem sempre estamos com nossa consciência funcionando a 100%:

somos influenciados pelas circunstâncias ou pelas necessidades.

Além disso, vivemos numa sociedade com valores distorcidos, competitiva, de poucas

referências, que nos levam a querer tirar vantagens aqui e acolá. Essas derrapagens e

esses deslizes a que estamos sujeitos em nossa jornada, definitivamente, não nos tornam

psicopatas. Um belo dia o senso ético nos faz refletir sobre nossas condutas, voltar atrás

e rever nossos conceitos do que é certo e errado. Caso contrário, o remorso vai nos

perseguir, torturar e, dependendo da extensão, jamais nos deixará em paz. Por

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isso, é sempre bom que o leitor tenha em mente que aqui me refiro às pessoas de má

índole, que cometem suas maldades por puro prazer e diversão e sem vestígios de

arrependimento. Esta última palavra simplesmente não existe no parco repertório

emocional dos psicopatas.

Como exemplo de uma pessoa capaz de assassinar alguém, tomada por violenta emoção

- e nem por isso pode ser considerada uma psicopata -, cito o caso da dona de casa

Maria do Carmo Ghislotti, de 31 anos. Em fevereiro de 2006, ela matou o adolescente

Robson Xavier de Andrade, de 15 anos, com uma facada no pescoço, por este ter

estuprado seu filho de apenas 3 anos. Maria do Carmo e seu marido flagraram Robson

cometendo o delito sexual quando ouviram o choro e os gritos no quintal da casa deles.

Na Delegacia de Defesa da Mulher em São Carlos, interior de São Paulo, horas depois

do estupro, Maria do Carmo se reencontrou com Robson e o atacou.

Ao ser questionada sobre seu ato, ela declarou: "Na delegacia achei uma faquinha velha

num cantinho. Coloquei na cintura. O rapazinho me falou: 'Não vai dar nada, sou de

menor.' Ele me olhava e dava risada. Perdi o juízo. Quando vi, já tinha feito. Ele

estragou a vida do meu filho. Qual mãe ia aguentar?".

Maria do Carmo foi inocentada pelo júri popular, que acatou os argumentos dos

advogados de defesa Hélder Clay e Arlindo Basílio. Eles alegaram que no momento do

crime Maria do Carmo ainda estava sob forte abalo psicológico, em função da violência

praticada contra seu filho.

Fonte: Jornal O Globo, 15 de novembro de 2006.

É claro que não estou, em absoluto, defendendo que façamos justiça com as próprias

mãos. Mas, no meu entender, essa trágica história é perfeitamente compreensível.

Considero Maria do Carmo uma vítima que, no calor da emoção, agiu por amor ao seu

filho.

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O fenômeno da psicopatia precisa ser exposto e explicitado a toda sociedade da forma

como o tema é de fato: um enigma sombrio com drásticas implicações para todas as

pessoas "de bem", que lutam diariamente para a construção de uma sociedade mais justa

e humana. Após séculos de especulações e décadas de estudos - a maioria deles

baseados na experiência dos seus autores -, esse mistério começa a ser revelado.

Segundo o psiquiatra canadense Robert Hare, uma das maiores autoridades sobre o

assunto, os psicopatas têm total ciência dos seus atos (a parte cognitiva ou racional é

perfeita), ou seja, sabem perfeitamente que estão infringindo regras sociais e por que

estão agindo dessa maneira. A deficiência deles (e é aí que mora o perigo) está no

campo dos afetos e das emoções. Assim, para eles, tanto faz ferir, maltratar ou até matar

alguém que atravesse o seu caminho ou os seus interesses, mesmo que esse alguém faça

parte de seu convívio íntimo. Esses comportamentos desprezíveis são resultados de uma

escolha, diga-se de passagem, exercida de forma livre e sem qualquer culpa.

A mais evidente expressão da psicopatia envolve a flagrante violação criminosa das

regras sociais. Sem qualquer surpresa adicional, muitos psicopatas são assassinos

violentos e cruéis. No entanto, como já dito, a maioria deles está do lado de fora das

grades, utilizando, sem qualquer consciência, habilidades maquia-vélicas contra suas

vítimas, que para eles funcionam apenas como troféus de competência e inteligência.

Reafirmo que é comum depararmos com pessoas de boa índole (até mesmo de alto nível

intelectual e cultural) que duvidam que os psicopatas possam existir de fato. Para sanar

essa dúvida, basta observar a grande quantidade de pessoas mostradas na mídia

diariamente: assassinos em série, pais que matam seus filhos, filhos que matam seus

pais, estupradores, ladrões, golpistas, estelionatários (os famosos "171"), gangues que

ateiam fogo em pessoas, homens que espancam as esposas, criminosos de colarinho

branco, executivos tiranos, empresários e políticos corruptos, seqüestradores...

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Todos os crimes cometidos por esses indivíduos, de pequena ou grande monta, deixam-

nos tão perplexos que a nossa tendência inicial é buscar explicações que sejam no

mínimo razoáveis. E aí especulamos: "Ele parecia tão bom, o que será que aconteceu?",

"Será que ele não regula muito bem, estava drogado ou perturbado?", "Será que foi

maltratado na infância?". E, mergulhados em tantas perguntas, incorremos no erro de

justificar e até entender as ações criminosas dos psicopatas.

Passe a ler os jornais sob esse novo prisma (a falta de consciência) e você perceberá

rapidamente que a extensão desse problema é amedrontadora. Convenhamos, não é

chocante saber que tais comportamentos moralmente incompreensíveis são exibidos por

pessoas aparentemente "normais" ou comuns?

É preciso estar atento para o fato de que, ao contrário do que se possa imaginar, existem

muito mais psicopatas que não matam do que aqueles que chegam à desumanidade

máxima de cometer um homicídio. Cuidado, os psicopatas que não matam não são, em

absoluto, inofensivos! Eles são capazes de provocar grande impacto no cotidiano das

pessoas e são igualmente insensíveis. Estamos muito mais propensos e vulneráveis a

perder nossas economias ao cair na lábia manipuladora de um golpista do que perder a

vida pelas mãos dos assassinos.

Dizem que a vida imita a arte e vice-versa. Desse ponto de vista, costumo acreditar na

segunda opção: a arte imita a vida. Se observarmos bem, existem diversos filmes em

que os personagens principais ou secundários dão vida, voz e ação aos diversos tipos de

psicopatas, sejam eles golpistas ou estelionatários, grandes empresários ou políticos

inescrupulosos, ou ainda os assassinos cruéis e impiedosos que agem de forma

repetitiva e sistemática (os ditos serial killers).

Desde que o cinema existe, os psicopatas sempre estiveram presentes entre seus grandes

personagens. Sob esse aspecto, os filmes sobre vampiros são, a meu ver, os que sempre

tiveram os psicopatas como os grandes astros em cena. Assim como os

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vampiros da ficção, os psicopatas estão sempre de tocaia. Nesse exato instante em que

você lê este livro, eles estão agindo por aí: nas ruas, em plena luz do sol, procurando

suas "presas", às mesas de seus escritórios envolvidos em negociações escusas ou

mesmo sob o teto acolhedor de um lar que em instantes será devastado.

Eles estão por toda parte, perfeitamente disfarçados de gente comum, e assim que suas

necessidades internas de prazer, luxúria, poder e controle se manifestarem, eles se

revelarão como realmente são: feras predadoras.

Os psicopatas são os vampiros da vida real. Não é exata-mente o nosso sangue que eles

sugam, mas sim nossa energia emocional. Podemos considerá-los autênticas criaturas

das trevas. Possuem um extraordinário poder de nos importunar e de nos hipnotizar com

o objetivo maquiavélico de anestesiar nosso poder de julgamento e nossa racionalidade.

Com histórias imaginárias e falsas promessas nos fazem sucumbir ao seu jogo e,

totalmente entregues à sorte, perdemos nossos bens materiais ou somos dominados

mental e psicologicamente.

O mais surpreendente é que, a princípio, os psicopatas aparentam ser melhores que as

pessoas comuns. Mostram-se tão inteligentes, talentosos e até encantadores como o

próprio conde romeno que o cinema imortalizou como o Conde Drácula. Inicialmente

nos despertam confiança, simpatia e acabamos por esperar mais deles do que das outras

pessoas. Ilusórias expectativas! Esperamos, mas não recebemos nada positivo e, no fim

das contas, amargamos sérios prejuízos em diversos setores das nossas vidas.

Sem nos darmos conta, acabamos por convidá-los a entrar em nossas vidas e quase

sempre só percebemos o erro e o tamanho do engodo quando eles desaparecem

inesperadamente, dei-xando-nos exaustos, adoecidos, com uma enorme dor de cabeça, a

carteira vazia, o coração destroçado e, nos piores casos, vidas perdidas. Para os

psicopatas, essa sucessão de fatos irresponsáveis é absolutamente "normal". Afinal de

contas, seduzir e atacar

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