Miguel Tales por Davi Antunes - Versão HTML

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1

MIGUEL TALES

2

Durante estes 22 anos da minha vida, jamais pensei

que pudessem morar dentro de mim pensamentos

negativos e atitudes destrutivas. Abandoná-los, jogá-los ao

solo, pisar e repisar o faria se consciência tivesse desta

onda enegrecida. A repulsa sempre me foi visível para tais

procedimentos. Esse monstro cresceu no silêncio; dentro

da alma. Quando me recolho, introspectivo, refletindo

sobre a maneira como a vida humana se desloca através

dos tempos, não encontro compreensão, não consigo

racionalizar para explicar o porquê de a intolerância

dominar certos indivíduos.

Meu nome: Miguel Tales. E já declaro: matei não por

amor, nem por ódio. No ambiente de trabalho escuto

relatos de homens nos quais, por trás da aparente

sociabilidade, vive escondida uma fera. Essa se mostra ao

mundo com palavras doces, manejadas habilmente. Busca,

no jogo de argumentos premeditados, seduzir, atrair

ancorada na enganação; levada pelo hábito de subjugar e

alegrar-se com o desespero do sexo oposto. E, percebendo

o gosto dessas pessoas em relatar momentos íntimos e de

falcatruas, retiro-me. O escárnio dilacera-me.

Ventre meu invadido era por amor puro. Verdadeiro.

Sincero. Contudo, não conseguiu barrar a infidelidade. Se

matei, foi por desgosto.

O dia de hoje resplandece com luz diáfana. Ao pousar

sobre meu corpo, transparecem as intenções perversas. Se

soubesse que a maligna perturbação da alma, através de

um canal mágico, transferir-se-ia para os olhos e a face,

provavelmente, teria me recolhido ao leito. Se matei,

matei para não morrer travado, entalado, sufocado.

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Parado em frente à pia da cozinha, sigo com os olhos

o caminho do vento mundano. Mergulhado nos meus

processos mentais, procuro respostas. Ando em direção à

porta que acessa a rua. Sento-me na sarjeta. Observo

crianças que jogam bola. O filho da vizinha, de quinze

anos, olhando de cima, diz que estou “diferente” e, em

seguida, corre atrás da bola. Ignoro o comentário.

Um rodamoinho na sarjeta faz com que um pedaço de

jornal velho seja lançado em minha direção. Pego. Corro

os olhos. Preparo-me para jogá-lo fora quando, na coluna

à esquerda da folha, chama-me a atenção o título: A

Mulher e o Mundo Moderno. Leio o artigo uma vez, duas,

na terceira vez uma irritação toma conta de mim e se

acumula na boca, estimulando a salivação acre. Mordo o

canto do lábio direito. O texto fala sobre a sobrevivência

da mulher no mundo masculinizado. Penso, por curto

período de tempo, na exposição da colunista, que assina

como Narrimam Nardaki. Defesa feita com tamanha

veemência... Amasso a folha e a jogo fora. Também teria

jogado todo o meu ventre na valeta se soubesse que o

amor de Suzette era manipulador. Apossou-se de mim. Fui

cego. Fiquei cego. Vedei-me com a cortina da volúpia. Ela

fechou as portas do meu coração. Portas que Narrimam

Nardaki escancarou. Se fui induzido a cometer a execução,

serei perdoado.

Ao meu lado, algumas mulheres conversam assuntos

que eu não consigo e nem quero entender. A vida urbana

se agita mais com as temperaturas elevadas; ruas, parques,

esquinas, bares e vielas se enchem de pessoas. Conversam,

bebem, riem, fazem algazarras e debatem temas diversos.

Antes de visualizar a folha de jornal, o frescor da rua me

atraía, mas agora... Leve indisposição me acomete.

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Desloco-me, passos indecisos. Uma amiga me intercepta o

caminho. Diz que meus olhos brilham sinistramente.

Sorrio sem intenção.

Entro em casa. Pego na geladeira suco gelado e um

sanduíche. Degusto mecanicamente. A televisão espanta

os meus fantasmas. O sol, como espada cintilante, corta o

espaço do cômodo. A fina cortina na veneziana priva-me

de olhares alheios. Soturno, me blindo. Nos quintais de

muitas casas, de muitas vidas, o murmúrio das donas de

casa, juntamente com o berreiro das crianças, embala-me o

sono. Se eu soubesse o que me reservava o futuro, teria

dormido para sempre. Se... se... se…

Como pode o amor metamorfosear o ódio? O ódio

banindo a razão. O julgamento incorreto das ações. Posso

julgar? Perguntas que surgem hoje, agora. Ontem eu não

amava.

No dia seguinte, pela manhã, o calor já é escaldante.

Respiro fundo. Levanto num salto. O café desce

mecanicamente. Vou para a rua. Sigo pelo calçamento:

saber aonde se quer chegar, nem sempre é preciso. A

idiossincrasia: pegar o carro e conduzi-lo em autoestrada,

ou transportar-me em conduções coletivas para bairros

periféricos? Geralmente, escolho a segunda opção, desço

no ponto final, olho pessoas, hábitos e o comércio. Mas,

hoje, acordei com vontade de sair pelo bairro onde moro a

pé. Na banca de jornal, leio as manchetes. O assunto do

dia é: “Manobras Orçamentárias - Cartão corporativo”.

De relance, me atualizo. Exaspera-me, novamente, uma

coluna que defende direitos iguais entre homens e

mulheres. Relembro o primeiro nome da colunista,

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Narrimam, talvez por ser um nome forte… Sei lá, gravei.

Outra vez aquela mulher encoleriza-me. Rasgo a folha. O

ato insano é suspenso quando o jornaleiro me chama a

atenção e ameaça chamar a polícia, caso eu não pague o

jornal. Pago.

Ideias invertidas no meu modo de pensar

desnudaram-me o íntimo que, até os dias de hoje, parecia

calmo e equilibrado. A intolerância, como semente,

germinou no âmago sem que eu pudesse sufocar o seu

crescimento. Anoto o e-mail impresso no rodapé da

coluna. Decido mostrar à tal Narrimam que as opiniões

impressas fazem mal para o comportamento da mulher, e,

consequentemente, à sociedade. Julgo e condeno. Sem

clemência. Sem perdão.

Releio o endereço. Amasso-o, com raiva. Guardo

dentro do bolso. O cyber café fisga-me. O atendente pede

os meus documentos para cadastro. Respondo que não os

tenho em mãos no momento, mas, como moro perto,

terminado o jogo irei buscá-los. Ligo o computador. Para

descontrair, jogos de carros de corrida, caça a monstros e

ação em primeira pessoa. Uma hora se passa. Nela, cresce

a minha ira. Resolvo, então, começar o meu atentado à

paz. Envio e-mail malcriado e ameaçador. Calmamente

levanto-me, pago as horas em que estive on-line e vou

embora.

Na redação, segundos antes da mensagem eletrônica

chegar, Narrimam conversa com o editor-chefe. Ele pede a

ela textos contundentes. Alerta: “A notícia pode ser mal

contada, o ingrediente principal é a repercussão.

Repercussão significa mais tiragem de jornal, mais

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tiragem significa dinheiro e pessoas que passam a

conhecê-la. Isso é sucesso! Não adianta escrever para meia

dúzia de pessoas, Narrimam”!

Honorato Graciam, este é o nome do editor-chefe.

De estatura mediana, os óculos de aro moderno e lentes

sensíveis à claridade local não escondem os olhos de sapo,

esbugalhados. A barba, comprida e em desalinho, deixa à

mostra o caráter que se desmorona. (Fora promovido ao

posto de editor-chefe por ser bajulador.) Sabe utilizar as

mentes que têm à disposição. Prefere dar oportunidade de

emprego a jornalistas recém-saídos da faculdade. Diz

encontrar neles a garra juvenil e a pureza da inexperiência

de que tanto gosta: desconhecem as manobras sutis e

obscuras possíveis em uma frase e, mesmo que as

reconheçam, antes, precisam do trabalho, do dinheiro que

advém deste.

Narrimam

conheceu

Honorato

Graciam

por

intermédio de Tânia, uma amiga que trabalhava lá, quando

ele decidiu contratar meia dúzia de jornalistas para

lançamento de uma revista direcionada aos jovens. Ela se

mostrou solícita ao lobo velho. Conquistou a vaga, a

amizade de Honorato e se sobressaiu. Hoje trata o pequeno

espaço conquistado (a coluna semanal) com carinho e

dedicação. Procura seguir as normas da empresa e lapidar-

se com os argumentos que lhe são passados pelo editor-

chefe. Nem sempre defende teses a favor do que no íntimo

julga ser a posição correta. A lei da sobrevivência, aliada à

vaidade, fazem-na interpretar a verdade como convém no

momento.

Depois da reunião, Narrimam deixa a sala de

Honorato. O computador alerta para a chegada de

mensagem. Lê. Seus olhos lacrimejam à medida que as

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palavras vão sendo absorvidas. O medo misturado com a

raiva provoca o pranto. Os amigos vêm em seu socorro.

Honorato escuta o burburinho, ergue a cabeça mirando o

horizonte do escritório. Vê o ajuntamento de pessoas em

frente à mesa da protegida. Junta-se ao grupo. Narrimam,

com a cabeça debruçada sobre as mãos, ouve palavras

carinhosas e recebe afagos dos companheiros. O chefe

direciona um olhar de réptil para os subordinados. Todos

se afastam. Pergunta o que está acontecendo. Ela mexe o

mouse e a tela se abre. Honorato lê, dá risada. Narrimam

se irrita. Questiona o por quê do riso. O chefe a tranquiliza

com o argumento de que os textos estão causando

repercussão: “Isso é bom para você e para o jornal”. Ela,

assustada, pergunta se é possível que o agressor lhe cause

algum mal. Honorato desconversa. Aplaude com suaves

palmas a iniciativa que ela teve ao criar aquela linha de

raciocínio que mexe com o leitor. “Fique sossegada, essa

atitude é de machista covarde! Você é talentosa!” Arrasta

a moça por trás do assunto, omitindo a dimensão do

problema por ele detectada. Honorato termina a palestra

com a subordinada. Envaidecida, Narrimam, com o lenço

descartável sempre presente ao lado do teclado, retira a

maquilagem borrada. Remexe a bolsa e o pequeno espelho

para retoques rápidos aparece. Feliz, se entrega à pintura

do rosto. A vermelhidão dos olhos é disfarçada com rímel

e o blush faz surgir uma face que transborda vivacidade.

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Um mês após o envio do e-mail, Miguel Tales ainda

manifesta desvios de conduta. Incidentes, mesmo

pequenos, despertam sua má índole. Procura esconder,

mas o rancor alastra-se silenciosamente.

Frequentemente, ouvimos falar de homens que tratam

as mulheres como enfeites ou peças ornamentais para

saciar a vaidade; e de outros que as fazem de sacos de

pancadas,

humilhando-as,

submetendo-as

às

mais

vexatórias situações. Quase não acreditamos que pessoas

assim ainda circulem pelo mundo, mas elas existem.

Partilham, muitas vezes, o nosso dia-a-dia: dividem

conosco a mesa de almoço no restaurante da empresa ou

da moda, estão no bate-papo com amigos... Escondidas em

capas de bondade, sobrevivem ao tempo.

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Sem saber que tipo de reação teve a colunista ao

receber o e-mail, passo os dias com a ideia fixa de feri-la.

Tive noção, ainda que fragmentada, do grau de desespero

que causei com o envio da correspondência eletrônica,

porém, necessito mais. Gostaria de presenciar sinais de

medo e de pavor. Ficaria feliz vendo os colegas de

trabalho ao derredor dela dando-lhe conselhos. Ela,

nervosa, com as mãos trêmulas, levando um copo de água

à boca. Rio ao construir a cena mentalmente; um riso

maligno.

A visão do desconforto faz o meu cérebro abrir um

arquivo. Nele guardei fórmulas de como chegar à redação

sem levantar suspeitas. Imaginei o momento em que o

correio entrega, em mãos, o sedex. A violência cometida

por mente doentia retratada numa fotografia; imagens

capturadas na internet. Fascinado fiquei ao saber que

posso observar, desde o princípio, a segurança dela, de

mulher atual, rolar na sarjeta do desespero.

Tintas enegrecidas tingem as paredes da minha

mente. Mente que se perde a cada dia. Caminhos confusos.

A falsa verdade de que ir avante com esta revolta é o certo

clareia meu horizonte.

Sento-me em frente ao teclado. Transfiro o arquivo

criado na mente para uma pasta no computador. Acesso

sites contendo cenas violentas. Corpos mutilados pela

truculência humana. O retrato de uma mulher, de

aproximadamente trinta e cinco anos, atrai o meu

interesse. Imprimo. Por impreciso tempo, observo os

detalhes retratados no espetáculo repugnante. Uma voz me

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chama na porta da cozinha. Guardo a foto na gaveta e vou

atender. Cauê, menino de dez anos, me entrega 12 revistas

antigas, compradas no sebo da feira livre a pedido meu.

Como prometi, deito-lhe nas mãos duas moedas de

R$1,00. Tranco a porta. Capturo mais algumas fotos e as

transfiro para o arquivo de nome “ELLA”. Examino as

revistas. Edito mentalmente as palavras que comporão,

mais uma vez, o atentado contra a paz daquela mulher.

No domingo, passo o dia inteiro traçando caminhos

insuspeitos que me levem para perto dela. Consulto o

relógio: dezoito horas. Uma ideia me nasce. No banho a

amadureço. Na cozinha, a comida requentada sacia-me.

Pego o carro, sigo para a cidade. Localizo o prédio onde

trabalha Narrimam. Em que andar? Ao lado do prédio, o

pequeno bar com mesinhas na calçada oferece-me o lugar

ideal. Sentado, observo. Vigília maligna. Conversando

com o garçom, descubro que a turma do jornal,

diariamente, toma cafezinhos, almoça e, não raramente, ao

final do expediente, faz ali o happy hour. Peço uma

cerveja. Sorvo-a, saboreando cada gole. O painel

eletrônico, localizado na parte externa do prédio, com

informações de fatos que acontecem no mundo e na

cidade, traz-me, também, o número do telefone da

redação: “Para reclamações ou sugestões, ligue: 54400...”

Li em voz baixa.

De volta ao lar, na frente do computador, abro o

arquivo “ELLA”, acrescento as informações recolhidas na

noite e com elas vem a fantasia: a teia de aranha que se

estende sobre os apontamentos nos locais reais e

imaginados. Todos os caminhos levam-me ao centro da

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teia. Nela, debatendo-se, Narrimam, embalada nas linhas

da

minha

violência,

tenta

evadir-se.

Em

vão.

Compenetrado na transferência de informações, não vejo

que algumas letras recortadas das revistas antigas caem ao

chão.

Duas horas da manhã, exausto, olho para os pés com

o intuito de lhes fazer uma massagem. E, só então, vejo as

palavras recortadas que caíram. Recolho-as todas. Decido

rasgá-las.

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O mês de março chega e com ele o dia de número

oito, quando as mulheres são homenageadas com o Dia

Internacional da Mulher.

As defensoras da causa organizam a festa que mexe

com a rotina da cidade. Várias entidades se mobilizam.

Narrimam, Telma e Tânia são defensoras ardorosas.

Panfletos rodam na impressora da pequena gráfica de

Telma. Empenhadas, labutam. Incansáveis. Driblam as

dificuldades. Percorrem os escritórios de empresas

localizadas na região central da cidade, pedem

colaborações.

A massa humana colorida corta o centro da cidade,

obstruindo o tráfego nas vias, nos viadutos e nas portas

dos estabelecimentos. Passo a passo, com palavras de

ordem, do palanque montado sobre um caminhão, as

líderes mandam recados para as autoridades e para a

sociedade. Caminham em direção ao vão livre do Masp.

Narrimam e Telma conheceram Tânia na faculdade

de Jornalismo. E foi justamente na festa de formatura ─

não a festa oficial, mas a paralela, aquela em que os alunos

alugam casarões, sítios e prostíbulos. Nesse caso, foi

alugado um prostíbulo; as prostitutas foram dispensadas ─

que ficaram amigas inseparáveis. Tânia, que trabalhava

em uma redação de imprensa escrita, providenciou uma

visita à empresa para as amigas. Algo em Narrimam

chamou a atenção do editor-chefe. Algumas horas após a

visita, ele chamou Tânia à sua sala. Disse-lhe: “Em breve

teremos vagas na redação para seis pessoas. Gostaria que

as duas moças preenchessem a proposta e fizessem a

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entrevista”. Tânia não esperou o dia terminar para

telefonar relatando o ocorrido. Assim, Tânia, Telma e

Narrimam passaram a trabalhar juntas na redação.

Telma, a libertina, paralelamente organiza uma

balada no centro da cidade para depois da passeata do Dia

Internacional da Mulher.

A iniciativa foi aplaudida pelos amigos da redação.

Eles classificam as baladas organizadas por Telma como

as melhores para se curtir música eletrônica, ver amigos se

transformando em outras pessoas depois da terceira dose

de destilados, e, também, ouvir muitas fofocas; esta, por

sinal, a melhor parte do agrupamento de pessoas.

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Quando Narrimam remexeu e expôs a minha alma

escura, rumei, inconscientemente, a atenção para causas e

eventos de interesse feminino. Não apoiando, apenas

buscando, através de informações, caminhos que me

levassem para perto dela. Queria feri-la pela prepotência

que julguei existir em sua coluna semanal. Por e-mail e

com palavras certas, como fiz da primeira vez, atinge-se o

alvo.

Ela acertou-me com palavras. Apunhalou-me.

Fiquei sabendo, nestas buscas insanas, que as

mulheres não suportam o assédio sexual banal, a diferença

salarial em relação aos homens, estando os dois na mesma

profissão, e, ainda, discriminações de raça, força e

inteligência. Não existe mais a cobrança de certos

procedimentos tidos, em outras épocas, como elegantes e

obrigatórios. Por exemplo: um aceno respeitoso quando a

mulher cruza o caminho do homem, o lugar privilegiado

em uma fila qualquer, o acento preferencial na condução

ou repartição pública, o cavalheiro abrindo a porta do

carro, cerimoniosamente, rosas vermelhas no aniversário,

etc. Com o passar dos anos, perceberam que, muitas vezes,

a mão que oferece rosas é a mesma que dá socos; que a

voz que cumprimenta respeitosamente em lugares públicos

diz gracejos indecentes em lugares onde há ausência de

outros olhos e ouvidos. Quando elas se deram conta de

que tinham que ficar à mercê de homens somente para

satisfazer a vaidade destes, proclamaram reciprocidade.

Reivindicaram respeito. O frescor da liberdade penetrou-

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lhes o espírito. Não são bonecas de porcelana, nem

querem ser entregues como mulher de dote a homem

desconhecido. Detestam receber joias ao entardecer e, na

madrugada, maus tratos. Como formigas, cada uma traz,

desde tempos remotos, pequenos pedaços de suas vontades

e desejos para a vida concreta, para o mundo atual, para

dentro do lar. Lutam, reivindicam espaços que antes eram

exclusivamente de homens. Doam o amor a quem seu

coração incendiar. E, diferente do que se pensava, não são

frágeis. São sensíveis.

Em cada descoberta feita, mais motivo encontro para

continuar a caçada. Consciente das leis, dos julgamentos e

com medo da prisão, uno a cada dia um laço na teia que

envolveu minha querida vagabunda; com cuidado, com

desvelo. E em cada ponto dessa teia detalhes são anotados,

sensações são registradas. A busca cega pelo crime

perfeito. Metódico, circulo em torno da presa, como

animal carniceiro que para localizar o alimento fareja o ar

e avança lentamente, esgueirando-se nos arbustos; espera

horas se preciso for, à espreita. O bote certeiro. A carne

macia e saborosa pagará o esforço exigido.

Rumo para o centro financeiro da capital. Preciso

espairecer, aliviar tensões internas. No bolso da calça, o

contato frio da navalha faz-me pensar no corte preciso do

aço afiado. Prédios altos, modernos, lindos; em contraste

com meu âmago em ruína, destruído. Chego cedo, não

sabia que ali aconteceria o ato contestatório. Estranho a

movimentação nas ruas. Fitas isolam algumas alamedas.

Muitas pessoas aglomeradas, a maioria mulheres,

conversam, riem alto. Olho-as com desprezo. Pergunto-me

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o que está acontecendo, por que estão ali e não em casa?

Para acalmar repentina ira, entro em um bar. Sento. Tomo

refrigerante. A meia distância do aglomerado, observo.

Mulheres, muitas: negras, brancas, loiras, ruivas,

amarelas... tez multicor. Altas, baixas, feias, bonitas,

lésbicas, femininas, de tênis, de salto alto. No carro de

som, Elis Regina − a voz ultrapassa a morte fazendo-se

ouvir pela cidade. A mestra de cerimônia sobe ao palco. A

voz firme relata casos de discriminação. É aplaudida com

entusiasmo. Apresenta ao público as conquistas mais

recentes e as que estão por vir. Dá como exemplo a

batalha para conseguir a aposentadoria para a trabalhadora

do lar – a esposa – e a diarista. E discorre sobre vários

outros temas, abordando a atual situação da mulher no

mundo globalizado: a lei Maria da Penha que promete

punir agressores severamente; a lei que regulariza o

divórcio…

Ouço, em determinado momento, palavras vindas do

palanque e as associo à forma como escreve a pessoa que

procuro. Levanto-me num salto. O sangue circula veloz.

Palpitações levam-me a apoiar em outras pessoas. A

labirintite brinca com o meu equilíbrio. Respiro fundo.

Recomponho-me. Estou a cem metros do palco, a

multidão, aliada à distância, não permite que eu veja o

rosto de quem fala. Pressinto que é a minha presa.

Empurrando o povaréu, forço curtos passos em direção ao

palco. A caminhada é lenta, exaustiva. A voz penetra-me

na alma. As palavras, atiradas ao ar com violência, me dão

a certeza de que é a mulher que procuro. Aflito, vejo por

uma fresta a mulher que discursava dar as costas e se

retirar da frente do microfone. A mestra de cerimônia

agradece a colaboração da colunista Narrimam Nardaki.

Ao ouvir esse nome, desespero incendeia-me. As pessoas

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me empurram. Olham-me com caras feias. Eu sigo em

frente. A esperança de conhecer a jornalista me dá forças.

Quando estou em frente ao palco analiso as mulheres que,

de pé, aplaudem, gritam palavras de ordem. Não consigo

identificar a voz que há pouco falava. Irritado, pergunto a

um dos seguranças quem é Narrimam Nardaki. Ele olha-

me com indiferença. Responde estupidamente que não

sabe. Pergunto a outro e a resposta: “sei lá”. Tento subir

no palco pela parte traseira, sou impedido. Nervoso, sento-

me na sarjeta, lágrimas de ira molham o asfalto.

Às dezesseis e quarenta e cinco, Narrimam encerrou

o seu discurso. Após entregar o microfone, desceu pela

parte traseira do palco e juntou-se a Telma e Tânia.

Celulares trabalhavam. Narrimam, com um bloco de

anotações em uma das mãos, grifava s e n sim ou não –

em frente aos nomes dos convidados. Quando a resposta

era não, havia uma argumentação para que a pessoa

mudasse. Após quinze minutos de conversações, as três

confirmaram a presença de trinta e cinco pessoas para a

balada na boate. Apenas seis não podiam ir por causa da

escala de trabalho. A mestra de cerimônia olhou para elas

e as convidou a subirem ao palco. Ao som do Hino

Nacional,

entoado

pela

multidão,

encerrou-se

a

manifestação.

A última cena que marcou o encontro do Dia

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Internacional da Mulher deste ano foi o voo desesperado

de uma pomba negra ao sair das mãos da ativista. Com

aplausos e gritos de “unidas venceremos” a multidão se

dispersou.

Narrimam convida Telma e Tânia para uma bebida.

As amigas chegam primeiro, sentam-se próximas a mim.

Eu as vejo com desdém. Roo as unhas freneticamente.

Acendo um cigarro na bagana do outro. A mão direita no

bolso acaricia a navalha.

Eufóricas, tagarelam. A todo momento os celulares

tocam. Tânia comenta qualquer coisa com Telma.

Risinhos provocantes me são dirigidos. Acomodo o corpo

na cadeira. Percebo que somente eu estou sozinho. O

garçom se aproxima. Estende a mão e me entrega um

bilhete. Leio: “Você está sozinho? Se estiver, venha para a

nossa mesa”. Estaciono a visão na mesa das três moças.

Uma delas acena discretamente. Fico sem ação. A revolta

por ter deixado escapulir a presa deixa-me carrancudo.

Percebendo a minha indecisão, me ignoram. Furioso, me

retiro no momento em que leve descontrole domina o meu

corpo. Apoio-me na mesa. O garçom segura meu braço.

Desvencilho-me com brutalidade e sigo para a rua.

Virando a esquina, deparo-me com uma mulher que anda

sozinha. Para chamar sua atenção, expilo no ar o silvo

agudo das serpentes. Ela acelera os passos. Acelero os

meus também. Quando estou a uns três metros de

distância, com o aço forjado comprimido na palma da

mão, mão que está no bolso da calça, prestes a saltar e a

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riscar-lhe profundamente o pescoço, uma viatura da

polícia cruza nosso caminho lentamente. Ela aproveita o

desvio de atenção a que sou obrigado e desaparece

dobrando a esquina. Sigo, angustiado, o caminho que

somente me leva a andar a esmo.

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Narrimam vai à casa de Paulo e Jane, no domingo de

manhã. O jovem casal organizou uma pequena

confraternização. Nesta casa, Narrimam conheceu outro

tipo de vida social. Visão diferenciada lhe oferecia a

família solidamente constituída. As festas eram totalmente

diferentes das baladas que curtia com os colegas da

redação. Havia sempre muitas crianças correndo entre os

convidados. Os fumantes se afastavam para o quintal. E

mesmo entre as pessoas que falavam alto, o volume era

muito baixo se comparado à turma da pesada, como

costumava dizer Telma, referindo-se ao povo da redação.

Narrimam fazia uma espécie de laboratório entre os dois

modos de vida. Na casa de Jane e Paulo, aprende-se que é

possível viver respeitando limites. Os convidados não

abusam da bebida. As palavras, quando de baixo calão,

são cochichadas ao pé da orelha. Narrimam observa a

discussão sobre temas que desconhece ou que estão bem

distantes da sua rotina diária, como o preço da carne, a

promoção feita por tal hipermercado, o custo das ligações

telefônicas. E o que mais prende a sua atenção: a relação

dos homens com as suas mulheres, das mulheres com os

seus homens; o pensamento que estas mulheres têm em

relação a outros homens, que não o seu, e a relação que os

homens têm com as outras mulheres, que não as suas. Um

rapaz, defendendo o direito da mulher de ter ou não filhos,

abraça a causa sobre a legalização do aborto com

veemência. Argumenta para a sua ouvinte que é melhor o

aborto legalizado do que mulheres de baixa renda

entrarem em verdadeiros açougues, como são conhecidas

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as clínicas clandestinas. Muitas morrem, a maioria sai

mutilada; traumas que as acompanham até o último respiro

de vida.

A alguns passos dali, outro rapaz parla agitando os

braços. O conviva pergunta ao colega, em voz dois tons

acima do normal, o porquê da nova colega de trabalho –

funcionária há sete meses – ganhar a promoção que ele

pleiteia há anos. Apesar de ressaltar as qualidades

profissionais da mulher, defende a tese de que a promoção

veio, talvez – ao dizer a palavra talvez gesticula as mãos

como a colocar aspas na palavra – por ela ter se deitado

com o diretor financeiro.

Numa outra observação, Narrimam escuta o sussurro

do marido machista que tenta obrigar a mulher a ficar de

olho nas duas filhas enquanto ele destila palavras torpes

no ouvido do colega. A mulher retruca rispidamente, diz

que ele tem participação nesses bens e sai a passos firmes.

Pego de surpresa, ante a rebelião da mulher o marido se vê

obrigado a parar a conversa. Socorre a filha mais nova,

que chora após ter o seu pedido negado pela mãe. A amiga

Marcela

cochicha

sobre

as

qualidades

estéticas,

ressaltando as faciais e lombares, do anfitrião. O risinho

malicioso desenha-se em ambas as faces. Narrimam

também sorri, às escondidas para que as duas não notem

que estão sendo observadas. Quando o relógio marca zero

hora, alguns casais se despedem: compromisso na casa da

sogra no dia seguinte, plantões, precisam descansar.

Alguns dormirão ali. Narrimam é uma das pessoas que

sairão depois do almoço do dia seguinte.

Com as informações da noite, a colunista constrói os

textos que estarão nas bancas em breve. Procura ampliar a

visão para que comentários tendenciosos não fluam para o

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papel. Apesar de pender para o lado do interesse da

mulher, se esforça para não pecar.

Quando compara a maneira como a sociedade vê a

moça que sai com vários rapazes e o rapaz que sai com

várias moças, nota o abismo entre um julgamento e outro.

Ao focar as ideias no campo das visões masculinas, a

certeza de que o homem quer a fêmea para acasalar, para o

prazer carnal e a submissão. E, quando esta observação é

feita com olhos femininos, a evidência é de que essas

moças se sentem sujas. Isto desnivela a balança, fazendo-a

simpatizar com a luta feminina.

Apesar do juramento feito ao receber o diploma de

jornalista, quando em frente à realidade e à argumentação

feroz de Honorato Graciam alia-se ao perjuro,

enveredando

por

caminhos

confusos,

às

vezes

desnorteadores. Não dorme com a culpa quando,

tendenciosamente, joga letras nas páginas dos jornais.

Querida entre os amigos e com leitores assíduos, passa

uma borracha quando comentários contrários – críticas –

vêm afrontar-lhe.

23

Dias após a manifestação, em profunda análise, me

isolo. Busco com a razão o motivo que me fez odiar uma

pessoa apenas por ser o pensamento dela contrário ao meu.

A possibilidade de procurar um psicólogo é avaliada

mas descartada assim que minha namorada, Suzette, abre a

porta da sala e olha-me com ternura. Nesse olhar descubro

que a amo e, portanto, inexiste o problema com o sexo

oposto. Sendo ela, Suzette, mulher de ideias polêmicas,

contrárias ao meu modo de enxergar a vida, julgo minhas

atitudes com a jornalista como coisa banal, puro fruto da

vaidade. Corro para os braços da minha amada. Ela

pergunta o que acontece comigo, ao ver meu semblante

enevoado. Diante da minha carência, corresponde com

afagos. Digo-lhe que leve desespero passeou pelo meu

corpo. Mas ressalto que a chegada dela levou o sofrimento

para bem longe. Ficamos por cinco minutos em pé, no

centro da sala, abraçados. Murmúrios da rua e do quintal

coletivo são os sons que ecoam, pairando sobre o nosso

aconchego.

Sem coragem de dizer-lhe o meu drama, passo os

dias me escondendo, negando-me o gosto estranho de

querer ver Narrimam Nardaki sangrar. Procuro não mais

ler noticiários policiais, muito menos a coluna de

Narrimam. Quando vou à feira livre peço para o feirante

embrulhar o peixe fresco ou as bananas em papel que não

seja jornal, apesar da prática costumeira. Constato que ao

afastar-me de lembranças que me ligam a Narrimam

Nardaki minha conduta torna-se razoável. Consciente do

problema,

administro

o

distanciamento.

Mas,

internamente, uma pergunta está sempre presente: Por que

24

uma pessoa do bem, de repente, se desgoverna a ponto de

perseguir outra que nem ao menos conhece?

Em frente ao espelho, questiono muitas vezes.

Nenhuma resposta vem do subconsciente.

A volta de Suzette me fez bem. Três meses de

distanciamento. Desgovernei-me; período em que ela

viajou na busca de familiares que moram em outro estado.

A harmonia paira no horizonte. A mulher que incitou

o meu ódio, como sopro se dispersou na atmosfera.

Ocultou-se na minha mente. Em companhia de Suzette

passo partes do dia e da noite emendando ideias,

terapeuticamente, aliviando a culpa, sem, contudo, relatar-

lhe o inopinado fato. Ronda o medo de perdê-la ao

confessar. Em vigília permanente. Isolado, recluso na pena

imposta por mim mesmo. Com dificuldade, caminho sobre

as manhãs. Atravesso os dias atolado no pantanal do

desconhecido e, noutras horas, radiante, vadio sob a luz do

sol. Afasto-me da vida rotineira. Submeto-me às mais

variadas tempestades mentais.

Quando os dias claros resplandecem no meu ser,

travestido de alegria me apresento a Suzette, falando

suave, com soluções para os problemas do mundo e em

particular para as dores da alma. Direciono a atenção dela

para longe do meu espírito. O medo de ser descoberto

ronda.

Ela cede aos meus encantos. Procura descobrir, por

25

trás de olhos investigativos, minhas dissimulações. Já sabe

ela que, quando ausente, um novo homem nascera. O que

lhe apetece é a descoberta do inusitado. Finge crer no que

vê.

Suzette, atenta aos menores detalhes. Dificilmente

deixa escapar algo acontecido à sua volta. No começo do

namoro estranhei. Cheguei a confundi-la com pessoa

bisbilhoteira. Com a aproximação, que na intimidade

cresce, percebi que ela simplesmente anota mentalmente

de oitenta a noventa por cento dos eventos ao seu redor.

Ao passar um cachorro, quando estamos andando pela rua,

sabe dizer se porta ou não coleira, o carro que trafega se é

dirigido por idoso ou jovem. A pessoa que lhe cruza o

caminho, a cor dos cabelos é fotografada, se os cabelos

estão fixados com presilhas de madeira ou de plástico, se o

vestido é com ou sem pregas. Perspicaz na visão e de

agudez espiritual. E esta agudez se revelou a mim quando,

dias antes de viajar, perguntou o porquê da turva energia a

cobrir-me como manta. Pego de surpresa, levei a atenção

dela para assuntos pendentes do nosso relacionamento.

Fitou-me arisca. Aceitou o desvio dado, aliás, como

sempre fazia quando percebia a fuga.

Hoje, quando penso que plantei a semente sem saber

que espécie de fruto colheria, sinto que poderia ter

escancarado o subconsciente para Suzette, sem medos e

sem bloqueios. Quem sabe não é ela a pessoa na Terra

encarregada de dar clareza à estrada escura trilhada por

mim? A pessoa que pode dar rumo diferente à minha

passagem por este planeta? Sei que seria a vida sem graça

se acontecimentos futuros relampejassem no presente.

26

Mas, quando se turva o cotidiano, pedimos redenção. As

mudanças feitas em nossas vidas, sem a experiência das

conquistas e as agruras da derrota, nos deixariam muito

frágeis para atravessar décadas. É certo que, no meu caso,

gostaria de ter acesso a informações que me levassem a

saber o que o futuro apresentar-me-ia após os 22 anos de

idade. Preferiria o esfacelamento molecular a viver o

ranço do ódio, da tocaia, do esgotamento nervoso, do

desequilíbrio. Se fosse senhor do meu destino, tomaria as

rédeas da situação pelas mãos e na curva da intolerância

desviar-me-ia. Ensinado fui, desde pequeno, a tratar bem

as pessoas. Meu pai dizia: “quem não vive para servir não

serve para viver”. Guardo a sete chaves este ensinamento.

Elegi-o como uma das maiores verdades da vida. E me

acostumei a servir pessoas, desde apoio moral a um chá da

tarde. As amigas da escola, quando necessitavam de

ombro amigo, sabiam onde encontrar; cabisbaixas

derramavam em meu ombro as lágrimas de desventura.

Quando em atrito com os pais, desorientadas, vinham a

mim clamar por palavras que amenizassem as dores da

alma. Almejava eu que estas palavras, se não as fizessem

entender a regra imposta pelo patriarca, pelo menos as

orientassem a não se deixarem levar pela prática de atos

banais, induzidas em momentos impuros, e mais tarde

viessem elas saber que o evento acorrentou-as a nocivas e

irreversíveis situações. Palavras de boa índole plantava-

lhes no coração. Quando em uma disputa por território,

coisas de moleque, ou na defesa da fêmea desejada, meus

amigos podiam contar com a minha elasticidade de

argumentação e dureza na aplicação do golpe certeiro.

Acredito que estas habilidades natas ─ de interpretar

os vendavais da vida como simples movimentação de ar ─

fez o interesse de Suzette se voltar para minha pessoa. Ela

27

vivenciou muitos desses acontecimentos. Não lhe

causavam ciúme. Se um dia afetaram-na, nunca se deixou

flagrar. Eu a recebi como amiga, no princípio sem

nenhuma intenção que não fosse a de ajudar. Conforme os

dias foram passando notei que havia algo mais intenso do

que a simples necessidade de boa conversa. Meu coração,

virgem, delineou a lânguida curva do seu perfil. No rosto

de Suzette a vida refletia beleza; o sincronismo de

imagens e sons. Era como se cada palavra correspondesse

a uma cor e, quando soltas no ar, refletiam nuances. Aos

poucos foi me conduzindo a um mundo onde somente ela

existia. E nela, somente nela, o meu foco era corrigido, de

embaçado para a plenitude da imagem. Fui sem medo me

embrenhando

na

floresta

dos

sentimentos.

Nos

descampados da alegria brincava, roçando as digitais nos

lampejos da beleza. Escalava a maciez da pele, com

malícias secretas. No apogeu do descaminho, deleitava; no

semblante, o pouso do jovem feliz. Suzette conduz-me

com a experiência da mulher madura. Finjo ignorar o seu

jogo, mas diante dos meus olhos está tudo claro.

Vidrado na beleza, os sentimentos rumaram sem

freios ou precauções. Não há prevenção quando perigo

não há aparente. À minha frente o corpo, o hálito, a voz, a

perspicácia, a sabedoria, os lindos cabelos, o pescoço

delicado, o equilibrado andar elegante desequilibravam

qualquer julgamento que eu viesse a ter. Só sabia que essa

mulher era perfeita. Algumas amigas me diziam: Suzette é

bruxa; pelo domínio que ela exercia sobre mim. Sopraram-

me no ouvido a meta de Suzette: afastar-me de todas as

colegiais inseguras, que não sabiam dominar as perdas e

indiferenças que a vida lhes impunha. Meninas fracas que

precisavam recorrer ao namorado alheio na busca de luz

para as suas trevas. Cego, eu não conseguia ver nenhuma

28

atitude por parte da amada que me denunciasse tais

objetivos. Julgava-os maldosos. Estava convicto de que as

mulheres não são solidárias entre si em se tratando de

namorados. Torcem para que as amigas o percam, e junto

percam o rumo da conquista e deem alguns tropeços na

vida. Assim analisando, desvio a atenção dos mexericos.

Fixo meu mundo no de Suzette.

Quem me apresentou a Suzette foi o Júnior, amigo de

infância. Sempre estivemos juntos nas brincadeiras de rua,

na escola, no time de futebol. Inseparáveis. Ele com os

cabelos compridos, olhos negros brilhantes. No rosto,

quando em situação delicada, a cor levemente rosada nas

bochechas dava o charme que as adolescentes amavam.

Mas, como todas as pessoas, algo em seu corpo não lhe

agradava, a ponto de evitar sair quando as crises surgiam.

Várias vezes o socorri aconselhando, arrastando-o para

baladas, persuadindo-o a aceitar as ingratidões que

julgamos ter a vida nos obrigado a vestir. Certo dia,

alegrou-se quando a moda o apresentou ao último

lançamento: sapato plataforma de 10 centímetros de altura.

Juntou dinheiro durante dois meses, comprou os sapatos.

Júnior media 1m67cm de altura, com 10 centímetros a

mais desfilava feliz pelas ruas. A diferença de sentimento

transparecia no falar, no olhar e na conduta. Certo dia,

numa roda de amigos, todos rindo da sua eloquência

áspera e cômica, ele conquistou a simpatia de Suzette.

Fiquei enciumado. Tentava me aproximar dela, sem

sucesso, há meses. Júnior, bom caráter, vendo-me

envolvido e sem coragem de falar com a moça, resolveu

conquistar a amizade dela e depois apresentou-a a mim,

29

numa manhã de domingo, logo após a missa. Estávamos

na calçada da igreja conversando. Ele pediu para eu o

esperar. Correu para dentro do templo. Poucos minutos

depois me apareceu com Suzette. Meu coração acelerou.

Senti no ar a fragrância que a envolvia. Direcionei meus

olhos a outro interesse com medo de travar-me o maxilar.

Meu amigo, percebendo meu desconserto, se adiantou e

fez as apresentações.

─ Mãos geladas!

Foi o que ela disse assim que as tocou. Paralisado,

nada respondi. Apenas leve contração muscular se fez

presente em meu rosto. Parecia um sorriso

Depois daquele domingo consegui ter algum assunto

para poder barrar-lhe o caminho. Ela deixava transparecer,

pela alegria com que os seus olhos miravam-me, que eu a

agradava. Passo a passo, cautelosamente, eu jogava no ar

palavras que a seduziam. E, assim, com dois meses de

relacionamento passamos da amizade ao namoro.

─ Quero lhe fazer um pedido Suzette. Vacilando

pronunciei.

─ Se for possível, eu atendo. Aproximou o corpo, o

calor da pele me incendiando.

Fitei-a com ternura. A voz travada na garganta saiu

aos trancos.

─ Quero namorar você.

Ela percorreu com os olhos o meu rosto. Hoje penso

que ela procurava saber a profundidade do meu

sentimento.

─ Eu quero, mas posso dar a resposta daqui a quatro

dias?

30

─ Claro que pode. Escondi a decepção.

Espero. Espero um, dois meses, duas semanas,

pensei. O tempo que for preciso.

Suzette preencheu-me a mente, todo o tempo, nesses

quatro dias, com a sua fisionomia. Meu amigo Júnior,

percebendo o que acontecia comigo, aos poucos se

afastou. Não me preocupei com o distanciamento, nem

senti sua falta. Meu amor por Suzette supria todas as

minhas necessidades.

No terceiro dia, dentro dos quatro previstos, levei

Suzette para a minha casa. Mamãe a recebeu

entusiasmada. Tanto que, enquanto na sala trocávamos

confidências, preparou um bolo de fubá. Ofereceu-o a

Suzette e disse:

─ Gosto de você, menina!

─ Isso é raro mamãe dizer, Suzette. Brinquei. Minha

mão esquerda procurou os dedos dela.

─ Miguel, a menina vai pensar que sou má pessoa!

Repreendeu-me mamãe.

─ Dona Eulália – assim que o nome foi pronunciado

pela boca de Suzette mamãe chegou-se a ela e acariciou-

lhe a bochecha – sei que a senhora é boa. Miguel me

contou muitas coisas legais sobre a família. Especialmente

sobre a senhora.

─ Comam um pedaço de bolo.

Mamãe estava envaidecida com o carinho. E eu,

adorando o rumo que o destino traçava. Torcia para que

antes que o portão da casa de Suzette se fechasse, quando

eu a levasse, tivesse a resposta tão esperada.

31

Mamãe se afastou da cozinha. Ficamos a sós. Nossos

olhares se encontravam a cada mordida no pedaço de bolo.

Lentamente, por baixo da mesa, encostei meu pé direito

nas coxas dela. O tecido, por mais que pudesse reter o

calor dos corpos, não blindava a nossa sensibilidade que, à

flor da pele, sentia cada pelo. Suzette aproximou o rosto

meigo, lindo. Seus lábios pediam os meus. Beijei-a.

─ Eu aceito. Disse ela quase num sussurro.

Flutuando, como algas em correntes marítimas, estas

palavras seguiram em direção aos meus ouvidos. Quando

o cérebro teve consciência do que representava aquela

resposta para o corpo, liberou substâncias que me

deixaram zonzo. Era como se a minha vida tomasse o

sopro que foi dado em Gênesis. Tive vontade de chorar,

me segurei, mesmo assim os olhos marejaram. Ela se

levantou e me abraçou. Deslizando as mãos sobre a minha

face corada, acariciou e beijou levemente os meus lábios.

Planejei dizer-lhe muitas coisas nesse momento.

Fazer convite para passearmos, porém, vencido pela

emoção, o abraço dado por ela foi meu ponto de apoio

para não falsear e cair no chão. Agarrados pelo olhar

permanecemos.

Mamãe, a pretexto de pegar alguma coisa na cozinha,

entrou sorrindo.

─ Meninos, tenham juízo! Revistou a prateleira,

depois perguntou:

─ Gostaram do bolo?

─ Está ótimo, dona Eulália! Qualquer dia a senhora

me dá a receita. Desvencilhou-se de mim para se

aproximar de mamãe.

─ Será um prazer.

32

Degustei o restante do meu pedaço de bolo. Suzette

se serviu de mais um pedaço assim que mamãe se

ausentou.

Em silêncio permanecemos. Germinando, as palavras

se formavam na alma; dialogávamos o dialeto dos

corações apaixonados: o gesto, o olhar cúmplice, o

mutismo carregado de declarações.

As recordações que tenho de papai são de um homem

que gozava de muita saúde, mas que, de uma hora para

outra, começou a definhar. Totalmente sem forças. Para se

locomover ao banheiro, somente com muito esforço. Para

levantar-se da cama de manhã, o mesmo emprego de

energia. Morreu deitado dentro de uma ambulância. O

trânsito infernal do horário de pico de uma segunda-feira

cinzenta abafou-lhe o último gemido. Mamãe assim me

relatou.

Lembro-me que a notícia não me abalou como previ

em um dia de angústia. Talvez o sofrimento que o castigou

durante um ano e oito meses tenha amenizado a minha

dor.

Agradeci a Deus por tê-lo levado. Poupado do

padecimento físico e moral. Mamãe, indolente, não ficou

enlutada. Como se a vida tivesse lhe tirado fardo pesado

dos ombros, prosseguiu vivendo com mais alegria. Muitas

vezes perguntei a ela que doença abateu o meu pai.

Relatou-me que vários exames foram feitos, porém os

33

resultados nada indicavam além de um corpo sadio.

“Talvez, filho, males do espírito”. Disse ela.

Um dia antes do falecimento de papai, à noite,

Timóteo uivou desesperadamente. Eu ralhava, ele ficava

quieto; o silêncio, no entanto, não durava mais do que

trinta minutos. Horas depois, vencido pelo cansaço, o cão

se aquietou. Retomou no outro dia o canto lamuriante.

Procurei esquecer a tragédia que fora a doença de

papai. O tempo é mestre em deslocar nosso pensamento

para outros interesses. Novidades se apresentam

suavizando as dores do passado.

As lembranças do homem trabalhador que fora papai,

sempre estivera presentes na minha memória. Quando em

casa, ele se aninhava em um canto que reservou para suas

dissertações escritas. Os assuntos abordados distavam do

meu entendimento. Passava horas e horas lendo livros e

rascunhando palavras, frases que lhe atiçavam o interesse.

No dia-a-dia, a relação entre ele e mamãe sempre foi

exemplar. Nunca presenciei uma discussão. Se isso ocorria

era na intimidade do quarto. Sua conduta perante a vida

era digna de aplauso. De maneira que não entendi o

porquê da punição imposta pela vida sobre papai. Quando

faltavam três meses para eu completar 19 anos, ele se foi.

Mamãe tentou, novamente, me explicar, dez meses

após a morte, o que talvez tivesse ocorrido para levá-lo ao

estado mórbido. Disse-me que ele se isolara dois anos

antes de morrer. As súplicas para que ele lhe relatasse o

que ocorrera foram em vão. Simplesmente a mirava, com

olhar vazio, e dizia estar tudo bem. Foram várias

inquirições sobre o motivo do distanciamento a que se

impôs. Sempre que a conversa seguia para este caminho,

ele fugia. Mamãe revelou-me que no começo não se

34

preocupou, pois pensou tratar-se de algum problema de

ordem profissional e, sendo assim, logo estaria sanado o

transtorno. Porém, à medida que os dias e meses

passavam, a distância entre eles transformou-se em

abismo. Neste período, ela intensificou o cerco. Encostou-

o muitas vezes na parede. Pressionado, pensava ela,

poderia fazer as nódoas que lhe manchavam o brio

dissolverem-se através do diálogo. Irredutível, ele se

trancava ainda mais.

Eu vivi esse período alheio. Hoje busco compreender

o porquê do desfoque. Apenas uma resposta me vem:

parasitava em cima dos troncos da juventude.

Mamãe, ao relatar pormenores da vida a dois,

transcodificava flashes de lembranças que teimavam em

vir à tona, cinzentos. Percebi fragmentos descoloridos,

diluídos nas palavras que bailavam no ar. A sinceridade

reflete matizes nítidos. Ao vacilar, a memória de mamãe

resgatava dados sem filtrá-los. Não interrompi o vômito de

lembranças. Esperava dessa incursão respostas para

interrogações que me assaltavam nas madrugadas.

Sombras suaves nas lamúrias me inquietavam. Para

decodificar estas sombras, interrompia meu ciclo de

alegrias próprias da idade jovem e mergulhava na

escuridão do cinismo. Busco na invasão silenciosa pontos

desconectados das incursões de mamãe.

1985. Júnior toca a campainha de casa. Convida-me a

ir ao centro da cidade. Precisa comprar um par de sapatos.

Ótima ideia, disse eu. Espairecer me fará bem. Acordara

perturbado, com sonhos que não deixaram imagens,

35

apenas sons e atmosfera gélida.

Sem dar trégua às mandíbulas, seguimos rumo ao

centro da metrópole.

A cidade se exibia com prédios diferenciados,

contrastes próprios de civilização mista: colunas góticas,

telhados imitando templos japoneses; armações de aço e

madeira, vidro e cimento; ferros em linhas paralelas

seguiam rumo ao céu. Verticalidade vertiginosa. A

madeira unida ao bronze, o bronze ao concreto armado.

No chão de mosaico, o mapa da cidade. As portas abertas

das lojas deixavam à mostra decorações elaboradas. O

bom gosto e o ridículo pendiam ora para um lado, ora para

outro. Eu e Júnior gostamos da cidade e de sua articulação

nervosa. Nascemos a cinco quilômetros daqui. Ela, a

cidade, tem o poder de, a cada dia, surpreender a quem

circula por suas ruas; seja diariamente, semanalmente ou

raramente. Estes últimos, muitas vezes, nem acreditam no

que seus olhos veem. Obras executadas sobre outras que

outrora foram surpresa. Pessoas apressadas atravessando

no semáforo vermelho. Pessoas lentas parando e olhando

tudo, reclamando do buraco na calçada, elogiando o corte

do tecido que de relance desfilou; encostando-se nos

dourados canos metálicos do viaduto para observar os

carros a seus pés. A namorada e a briga com o relógio: o

namorado

se

atrasou.

O

ambulante

oferecendo

descascador de legumes: demonstrações da versatilidade

do aparelho que ora descasca, ora abre garrafas.

Andávamos acelerados, apesar de não estarmos com

pressa. A cidade e a juventude empurram avante. Um

vendedor interceptou nosso caminho, segurando-nos pelos

braços. Oferecia calças jeans. Olhamos fixamente para o

vendedor e demos risada. O rapaz não entendeu nada. Não

havia o que entender.

36

Júnior indica a direção. Quando chegamos à frente da

vitrine decorada com motivos florais, entramos. Nas

prateleiras e gôndolas, variados pares de calçados: o

comércio é a fêmea; os humanos, machos, ambos no cio.

Júnior busca, visualmente, em cada canto o sapato que fez

ele se deslocar de casa à loja. O vendedor aparece. Júnior

indica o objeto do desejo. Sentamos. O rapaz vai buscar os

sapatos. Júnior me diz:

─ Miguel, tem uma garota me deixando doido!

─ Quem é?

─ Acho que você ainda não a conhece. É linda!

Eu ia prosseguir com as perguntas mas o vendedor

apareceu.

Júnior experimentou os sapatos nas cores marrom e preta.

O preto foi o escolhido. Saímos da loja no mesmo ritmo

que entramos: acelerados.

Num determinado ponto do caminho, Júnior segurou

em meu braço. Paramos no meio da calçada. Olhávamos

uma camiseta com a estampa de Che Guevara exposta em

uma banca hippye. Enquanto Júnior admirava a camiseta,

meus olhos se desviaram e passearam pela multidão. De

repente, um ponto em especial me chamou a atenção. Tive

a impressão de conhecer a mulher que conversava com um

homem. Melhorei o ângulo de visão com pequena

movimentação de corpo. Minha surpresa foi reconhecer

mamãe a uns cem metros de mim, sorrindo feliz ao

dialogar com o homem. Busquei, mentalmente, imagens

de rostos guardadas na memória para associá-los, mas não

encontrei. Percebendo que eles se despediam, apressei

Júnior e saímos do local. A mudança repentina do meu

comportamento chamou a atenção do Júnior:

37

─ Miguel, aconteceu alguma coisa?

─ Não.

Durante o retorno, por mais que tentasse desviar o

pensamento da imagem de mamãe e do homem, não

conseguia. Um amigo antigo ou parente que eu

desconhecia; podia ser colega de papai, talvez um vizinho.

Pensei em todas estas possibilidades. Mas o sorriso dado

por ela mostrou algo perturbador. Na curta viagem de

volta pra casa, desvincular da mente a imagem de mamãe

junto com o desconhecido foi impossível.

Em casa, papai lia concentrado, um livro. Fiz menção

de perguntar o paradeiro de mamãe, desisti. Ele me olhou

e sorriu. Fechou o livro. Abraçou-me pela cintura.

Afaguei-lhe o cabelo. Sem dizer palavras. Ele se levantou

e foi ao banheiro. A capa do livro eu li: “Pessoas se

Conhecem?”

Por alguns segundos me passou pela cabeça relatar o

que vira. Calei-me.

Na manhã do dia seguinte, meu cachorro uivou sem

trégua. Chamei-lhe a atenção por várias vezes.

─ Timóteo, cale-se! Ele obedecia. Cinco minutos

durava a trégua. Recomeçava.

Enquanto sorvia o café, pensava: o que está

acontecendo com este cão? Meu amigo Silas me disse,

certa vez, que quando cachorro amanhece uivando é sinal

de que a morte ronda.

─ Isso é superstição, Silas!

─ Pode ser. Mas que os uivos caninos causam má

impressão, isso causam.

─ É arrepiante. Concordei.

38

Lembrando-se das histórias que Silas contava, eu ria

sozinho, pois ele era deveras criativo.

Certa vez, esperando um balão cair do céu ─ oito

meninos sentados no muro da casa do nosso amigo Jamila

─ às 2 horas da manhã, temporada de festas juninas, o

nevoeiro encobria boa parte da região onde aguardávamos

coágulos surgirem no céu. Raramente caíam com as tochas

acesas, por isso nos guiávamos por vultos. Silas

aproveitou o momento, a atmosfera sombria, e contou a

história tenebrosa:

─ Um dia, eu e alguns amigos do antigo bairro em

que morei resolvemos acampar. Aprontamos as mochilas.

Cobertores enrolados, panelas presas em alças, enfim, toda

a parafernália que nos diferencia dos viajantes comuns,

afinal somos a juventude transviada. Alugamos uma Van,

todos contagiados pela alegria. Mas esquecemos que era

sexta-feira 13. Quando eu me lembrei deste detalhe e o

revelei aos amigos e ao motorista da Van, tive que

aguentar a gozação que fizeram comigo. Assim que o

silêncio reinou, uma corrente de ar gelado passou por nós.

Brinquei: sentiram o vento fúnebre. Sorriram nervosos.

Alguém disse: fecha a janela. O motorista perguntou se

nós queríamos ouvir algumas histórias de terror. Dissemos

que sim. E o camarada começou a narrar. Uma, duas, três,

quatro. Histórias que povoavam nossa imaginação: almas

penadas, monstros e sombras com poder de pegar você e

arrastar para labirintos. Ele detinha o dom de narrar

histórias escabrosas. Uma dessas, em particular, me

chamou a atenção. Dizia ele que os espíritos podiam se

comunicar com as pessoas, dependendo da importância do

assunto. Não terminou de contar, pois chegávamos ao

camping. Assim que nos organizamos, armamos as tendas

39

e sentamos em volta da fogueira, ele continuou a narração.

Porém, o que se sucedeu naquela madrugada foi

assombroso... Céu sem lua. Resolvemos comer, lanche

rápido e simples, apenas para preencher o buraco que se

abriu em nossos estômagos. Satisfeitos, preparamos nossas

camas e fomos dormir. A uma e meia da manhã, mais ou

menos, escutamos gritos pedindo ajuda.

─ Socorro! Socorro!

Assustados, levantamos. Ao colocarmos os pés para

fora da barraca vimos uma mulher no meio da mata,

desesperada. Chorava e pedia por auxílio. Corremos para

ajudá-la. Ao chegarmos ela disse:

─ O meu filho está no carro. E apontou o dedo para a

perambeira. O carro se desgovernou e caiu no barranco.

Concluiu aos prantos.

─ Descemos. A mãe, paralisada, ficou na beira da

estrada. Resgatamos a criança, subimos a penedia,

colocamos a criança no chão. Ouvimos gemidos vindos do

carro. Nervosos, descemos novamente. Quando chegamos

e nos abaixamos, sabe quem estava lá? Houve suspense.

Procurou brincar com a nossa imaginação. Estávamos

ressabiados, nos perguntando quem poderia ser. Dentro do

carro, continuou fixando em cada um de nós um olhar

penetrante e perturbador, estava a mesma mulher que

pedira socorro para o filho. Ao ouvir isso, alguns

esfregaram as palmas das mãos no antebraço, para

dispersar o arrepio. Continuou: aterrorizados, acionamos o

resgate. A mulher foi colocada na ambulância.

Perguntamos se ela estava bem. O paramédico nos

informou que sim, sobreviveriam.

Ficamos em silêncio, travados. Perguntamos a nós

mesmos se isso seria possível.

40

Um vulto no céu fez com que abandonássemos a

paralisia e corrêssemos, pois o balão que caía era enorme.

41

Bela Mulher!

Este foi o título com que minha curiosidade se

deparou ao olhar o jornal aberto ao meu lado. O velho

passeava a vista sobre os blocos de textos. Notando o meu

interesse, perguntou-me se eu o queria ler. Pedi desculpas

pela invasão. Ele insistiu. Aceitei. Não sem antes

agradecer. Li silenciosamente a coluna que me interessou.

Ao termino da leitura sussurro o nome da colunista: