Modernização capitalista e reprodução social da classe trabalhadora na periferia de Salvador/BA:... por James Amorim Araújo - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

MODERNIZAÇÃO CAPITALISTA E REPRODUÇÃO SOCIAL DA CLASSE

TRABALHADORA NA PERIFERIA DE SALVADOR/BA: o Pero Vaz e as formas e

práticas derivadas da escravidão

JAMES AMORIM ARAÚJO

SÃO PAULO

2010

1

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

MODERNIZAÇÃO CAPITALISTA E REPRODUÇÃO SOCIAL DA CLASSE

TRABALHADORA NA PERIFERIA DE SALVADOR/BA: o Pero Vaz e as formas

e práticas derivadas da escravidão

JAMES AMORIM ARAÚJO

Versão corrigida da tese apresentada ao Programa

de Pós-graduação em Geografia Humana da

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

da Universidade de São Paulo, como requisito à

obtenção do título de Doutor em Geografia.

ORIENTAÇÃO PROFA. DOUTORA AMÉLIA LUISA DAMIANI

SÃO PAULO

2010

2

Dedico a minha família e, em especial,

ao meu saudoso pai que um pouco antes

de perder sua memória, declarou seu

amor por mim.

3

AGRADECIMENTOS

Agradecer pela realização deste trabalho significa que o percurso está próximo de

seu fim. É verdade, estou particularmente cansado, afinal tenho trabalhado

incessantemente há muito tempo, mas também não nego o prazer de tê-lo acabado.

Contudo, sei que não foi uma jornada solitária, porque tive comigo a colaboração e o

apoio de muita gente, por isso quero manifestar minha gratidão.

Agradeço à Profa. Dra. Amélia Luisa Damiani pelo acolhimento que me foi dado.

Dificilmente teria encontrado em outro orientador tanto respeito e incentivo para

realizar uma pesquisa da maneira como eu a conduzi. Estendo também ao

Laboratório de Geografia Urbana – LABUR, do Departamento de Geografia da

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, meus agradecimentos pelo

profícuo ambiente de pesquisa e debates.

Agradeço à Universidade do Estado da Bahia e, em particular, ao Campus V que

possibilitaram meu afastamento das aulas para realizar o curso de doutoramento.

Incluo também o apoio institucional recebido da CAPES, através do Programa

PICDT, ao me disponibilizar uma bolsa de estudo.

A lista de agradecimentos aos amigos e familiares é extensa (ainda bem!). Aos da

Bahia quero manifestar meu sincero obrigado a Luciana Teixeira, Marco Martins,

Marcos Gonçalves, Ana Rita Machado, Suzane Tosta, Marcelo do Ó, Wagner

Coutinho (Joey), Stéfano Lima (Téo), Oswaldo Fernandes, Érico Nascimento,

Cristóvão Brito, Ricardo Leal, Elisa Morinaka, Saulo Daniel, Tânia e Vânia

Vasconcelos. Aos amigos de Pernambuco agradeço a Roberto de Souza e Carlos.

Em São Paulo, a lista também não é pequena. Primeiramente quero agradecer aos

meus tios e primos, pois sei que mesmo nos vendo pouco, sempre fui incentivado

por todos. Aos amigos agradeço pelo incentivo e apoio a Carlos Bonancêa, Eduardo

Rocha Junior, Nara Policarpo, Kátia Luli, Alexandre Teixeira, Gill Sampaio, Rildo dos

Santos, Ailton Ribeiro, Marcelo Viana, Renata Pires, Vanessa Carpentieri, Thiago

4

Nogueira, Daiana Deda, Renata Fogaça, Daniel Sanfelici, Márcio Rufino, Ricardo

Baitz, Walter Rosa, Sinei Sales, Julio Santos, José Junior e Renata.

Quero finalmente agradecer aos moradores do Pero Vaz, inclusive assistentes

sociais e lideranças de bairro que tornaram este trabalho possível. Além disso,

gostaria de manifestar meu profundo respeito e admiração pelas pessoas comuns e

anônimas, mas possuidoras de coragem de viver que as torna singulares.

5

RESUMO

Esta tese se propôs a pesquisar a reprodução social da classe trabalhadora na

periferia da metrópole soteropolitana. O objetivo era compreender, no bojo do

processo de modernização capitalista, o relacionamento entre as formas sociais de

reprodução com as práticas da classe trabalhadora a partir de duas dimensões

específicas: a do habitar e a do trabalho. Para tanto, buscamos dialogar com duas

abordagens teóricas: a marxista de Henri Léfèbvre e a da resistência de Michel de

Certeau. Este trabalho se compõe de cinco capítulos, além da introdução e

considerações finais. No primeiro apresentamos nosso referencial teórico-

metodológico. No segundo e terceiro capítulos são descritas as formas e práticas de

reprodução da classe trabalhadora, respectivamente, nos níveis espaciais da cidade

e do bairro. O quarto capítulo é o dedicado à análise formal do objeto. Enquanto no

quinto a análise é de caráter dialético. Concluímos que parte significativa da

reprodução da classe trabalhadora na periferia ocorre através de formas e práticas

derivadas da escravidão, porque é uma condição necessária e contraditória da

modernização capitalista típica em nossa formação social.

Palavras-chave: modernização. capitalismo típico. reprodução social. classe

trabalhadora. periferia.

6

ABSTRACT

This thesis set out to investigate the social reproduction of working class in the

outskirts of the city of Salvador. The goal was to understand in the middle of the

process of capitalist modernization, the relationship between social forms of

reproduction with the practices of the working class through two specific dimensions:

that of dwelling and of the work. To do so, we tried to dialogue with two theoretical

approaches: the Marxist of Henri Lefebvre and the resistance of Michel de Certeau.

This work consists of five chapters, plus introduction and closing remarks. At first we

present our theoretical method. In the second and third chapters the forms and

practices of reproduction of the working class are describing, respectively, in the

space levels of the city and neighborhood. The fourth chapter is devoted to formal

analysis of the object. While in the fifth analysis is dialectical. We conclude that a

significant proportion of the reproduction of the working class in the outskirts occurs

through forms and practices derived from slavery because it is a necessary and

contradictory condition of the typical capitalist modernization in our social formation.

Key words: modernization. typical capitalism. social reproduction. working class.

outskirts.

7

LISTA DE TABELAS

1. Salvador: lançamentos de loteamentos populares – 1925-1943 .............

104

2. Salvador: preço médio do metro quadrado em três localidades do Vetor

1 em US$ - 1970 – 2004 ..........................................................................

112

3. Salvador: preço médio do metro quadrado em três localidades do Vetor

2 em US$ - 1970 – 2004 ..........................................................................

113

4. Salvador: preço médio do metro quadrado em três localidades do Vetor

3 em US$ - 1970 – 2004 ..........................................................................

113

5. Salvador: preço médio do metro quadrado em três localidades do Vetor

4 em US$ - 1970 – 2004 ..........................................................................

113

6. Salvador: evolução do mercado de trabalho – 1950 – 2000 ....................

124

7. Classe de rendimentos nominais da PEA do Pero Vaz – 2000 ...............

156

8. Pero Vaz: condição de ocupação dos domicílios - 2000 – 2010 .............

189

9. Pero Vaz: condição do trabalho – 2000 – 2010 .......................................

190

8

LISTA DE QUADROS

1. Custo para aquisição de uma “casa popular padrão” no mercado

imobiliário de Salvador – 1946 ................................................................

107

2. Síntese dos dados da amostra e estimação da proporção de domicílios

..................................................................................................................

191

9

LISTA DE FIGURAS

1. Etapas de desenvolvimento da morfologia hierárquica estratificada

brasileira ..............................................................................................

79

2. Evolução da morfologia hierárquica estratificada de Salvador............

92

3. Mancha urbana de Salvador – 1850 ...................................................

93

4. Mancha urbana de Salvador – 1940 ...................................................

93

5. Mancha urbana de Salvador –1968.....................................................

94

6. Mancha urbana de Salvador – 1998....................................................

94

7. Salvador: vetores de produção espacial e áreas consolidadas de

“invasão” – 2008 ..................................................................................

99

8. Salvador: condição de ocupação do solo – 2008 ................................

101

9. Salvador: evolução do preço do solo urbano por vetor espacial – 1970 -

2004 ........................................................................................................

114

10. A “Grande Liberdade” e de seus sub-bairros ......................................

129

11. Estrada da Liberdade, aspectos do comércio de rua ..........................

131

12. Salvador: localização das primeiras “invasões” – 1946 - 1951 ...........

140

13. Construção de uma casa de taipa no Pero Vaz ..................................

142

14. Pero Vaz atual ....................................................................................

158

15. Perfis A-B e A-C do relevo da Liberdade/Pero Vaz .............................

159

16. Etapas de ocupação/formação do Pero Vaz .......................................

161

17. Vias de circulação externa ao bairro do Pero Vaz ..............................

162

18. Sistema de circulação interno do Pero Vaz .........................................

165

19. Tipologias de comércio do Pero Vaz ...................................................

167

20. Territórios do tráfico no Pero Vaz ........................................................

174

21. Correlação entre os níveis do espaço e os momentos de

descontinuidade ..................................................................................

195

22. Correlação entre formas e práticas jurídicas de acesso ao solo urbano

.................................................................................................

198

23. Correlação entre formas e práticas urbanísticas .................................

203

24. Correlação entre os níveis espaciais e renda domiciliar .....................

215

10

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO. ..........................................................................................................

14

1 REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO .....................................................

23

1.1 A PRODUÇÃO ESPACIAL ..................................................................................

23

1.2 A REPRODUÇÃO SOCIAL .................................................................................

36

1.2.1 As dimensões da reprodução social na pesquisa ......................................

40

1.2.2 Os níveis espaciais da reprodução social na pesquisa..............................

45

1.2.3 As práticas de reprodução social .................................................................

48

1.2.3.1 A classe trabalhadora e suas práticas de reprodução social ......................

53

1.3 METODOLOGIA DA PESQUISA .......................................................................

56

2 A REPRODUÇÃO SOCIAL DA CLASSE TRABALHADORA AO NÍVEL

ESTRUTURAL: O PROCESSO DE MODERNIZAÇÃO CAPITALISTA E A

FORMAÇÃO DOS MERCADOS IMOBILIÁRIO E DE TRABALHO EM

SALVADOR ..............................................................................................................

61

2.1 O PROCESSO DE MODERNIZAÇÃO DO BRASIL – DO REGIME DE

ACUMULAÇÃO AGRÁRIO PARA O URBANO-INDUSTRIAL .................................

63

2.2 SALVADOR: DE CIDADE PORTUÁRIA E COMERCIAL À METRÓPOLE

REGIONAL ...............................................................................................................

80

2.3 A REPRODUÇÃO SOCIAL CAPITALISTA TÍPICA EM SALVADOR: O

MOVIMENTO DE IMPOSIÇÃO DOS MERCADOS IMOBILIÁRIO E DE

TRABALHO FORMAL PARA A CLASSE TRABALHADORA ...................................

102

2.3.1 A constituição e atuação do mercado imobiliário ......................................

102

2.3.2 O desenvolvimento do mercado formal de trabalho...................................

115

2.3.3 Síntese da evolução estrutural da reprodução da classe trabalhadora ... 123

3 A REPRODUÇÃO SOCIAL DA CLASSE TRABALHADORA AO NÍVEL DO

BAIRRO ....................................................................................................................

127

3.1 A “GRANDE LIBERDADE” E O PERO VAZ .......................................................

127

11

3.2 A ORIGEM DO PERO VAZ .................................................................................

132

3.2.1 Os primeiros moradores e as condições de reprodução social ...............

141

3.3 O PERO VAZ DA DÉCADA DE 2000 .................................................................

151

3.3.1 O Pero Vaz pelos dados do IBGE: demografia, infraestrutura, emprego

e renda ......................................................................................................................

151

3.3.2 O Pero Vaz através do trabalho de campo.. .................................................

157

3.3.3 A condição de reprodução social da classe trabalhadora pelos

levantamento de dados (amostra) ........................................................................

175

3.3.3.1 Síntese dos dados e estimação do contingente de domicílios por níveis de

rendimento ................................................................................................................

188

4

ANÁLISE

FORMAL

DA

REPRODUÇÃO

SOCIAL

DA

CLASSE

TRABALHADORA: DA ESTRUTURA À CONJUNTURA .......................................

193

4.1 CORRELAÇÃO ENTRE O ESPAÇO DE CATÁSTROFE CAPITALISTA E A

PRODUÇÃO DO PERO VAZ: RESSIGNIFICAÇÃO DA RELAÇÃO CENTRO-

PERIFERIA................................................................................................................

194

4.2 CORRELAÇÃO ENTRE AS FORMAS E AS PRÁTICAS DO HABITAR .............

198

4.2.1 As formas e práticas jurídicas do habitar ....................................................

198

4.2.2 As formas urbanísticas e as práticas do habitar ........................................

202

4.3 CORRELAÇÃO ENTRE AS FORMAS E PRÁTICAS DO TRABALHO ...............

206

4.4 A REPRODUÇÃO DA CLASSE TRABALHADORA EM SEU CONJUNTO: O

PROCESSO DE IMPOSIÇÃO DA FORMA CAPITALISTA TÍPICA E A

SUBSUNÇÃO REAL .................................................................................................

214

5 ANÁLISE DIALÉTICA DA REPRODUÇÃO SOCIAL: AS CONTRADIÇÕES DA

ESTRUTURA REVELADAS PELA CONJUNTURA ................................................

218

5.1 REPRODUÇÃO SOCIAL E PRODUÇÃO ESPACIAL: AS CONTRADIÇÕES

DOS PROCESSOS ...................................................................................................

218

5.2 O SENTIDO DA REPRODUÇÃO CAPITALISTA É O DA ACUMULAÇÃO .......

223

5.3 A PERIFERIA É UM ESPAÇO DIFERENCIAL? .................................................

227

CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................................................

234

12

REFERÊNCIAS .........................................................................................................

240

APÊNDICES .............................................................................................................

252

13

INTRODUÇÃO

As periferias das grandes cidades brasileiras são um imenso laboratório social.

Nelas, as manifestações da vida ganham contornos que marcam diferenças

profundas com as formas sociais consideradas referenciais à reprodução da vida.

No caso da periferia de Salvador, os exemplos de práticas de reprodução realizadas

através de formas sociais subjacentes não faltam. Mesmo a cidade tendo passado

pelo mesmo processo de modernização que marcou a sociedade brasileira no

século XX, o que constatamos é que a reprodução da vida acontece através do

colmatar de formas ditas modernas com outras pretéritas. Além disso, as

representações construídas acerca da periferia, até mesmo nos meios acadêmicos,

reforçam ideias sobre seu atraso e incompletude. No entanto, decidimos que outra

“leitura” a respeito da periferia poderia ser construída.

Na realidade, o interesse em estudar a periferia começou por volta de 1995, quando

fomos morar em Salvador e atuar como professor de Geografia no ensino público

municipal. Foi a partir de então que passamos a conhecer a realidade da periferia

soteropolitana, mas somente durante a realização do curso de mestrado, na

Universidade Federal da Bahia entre 1999 e 2002 é que efetivamente aconteceram

os primeiros contatos com a Liberdade e o bairro do Pero Vaz. Os momentos que se

sucederam, desde então, foram decisivos para nos provocar alterações perceptivas

que iam da admiração à indignação diante das condições de vida. De fato, a

problemática da pesquisa é sim tributária desses momentos ímpares e não poderia

ter sido de outra maneira, até porque não éramos implicados com a realidade na

qual desenvolvemos esta pesquisa. Daí as nossas primeiras indagações: como os

moradores da Liberdade/Pero Vaz conseguem lidar com tantas dificuldades no seu

dia-a-dia? Por quais mecanismos de sobrevivência as pessoas organizam suas

vidas?

14

Esses questionamentos preliminares constituíram, portanto, um primeiro nível de

problematização. Doravante, precisávamos encontrar uma abordagem que nos

auxiliasse na construção de uma problemática de pesquisa e oferecesse outra

possibilidade de interpretação da periferia. Esta abordagem só começou a ser

delineada quando da nossa participação no Simpósio Nacional de Geografia Urbana

(SIMPURB), em 2003 no Recife, afinal, foi neste evento que entramos em contato

com os trabalhos realizados pelo Laboratório de Geografia Urbana (LABUR) da

USP.

Da problemática de pesquisa

À medida que íamos conjugando leituras teóricas a respeito de conceitos amplos

como produção, inclusive produção do espaço, reprodução social, como também o

aprofundamento do conhecimento da própria história singular que envolvia o bairro

do Pero Vaz, haja vista que ali havia ocorrido a primeira ocupação de terras para fins

de moradia em 1946, encaminhávamo-nos em direção à problemática de pesquisa,

isto é, a definição do objeto, do problema e de uma hipótese de trabalho. Contudo, o

trajeto exigiu a definição do campo de abordagem que não só ajudasse a

problematizar a proposição da pesquisa, mas que fosse amplo o suficiente para

pensar a realidade na qual se insere o Pero Vaz. Isso exigiu pensar os termos da

sociedade capitalista.

Entendemos que a reprodução capitalista é uma forma de organização da vida

social com vistas a uma sociedade programada para o consumo – o que inclui

praticamente tudo que nos cerca. A ideia de programação da vida está sustentada

em uma longa cadeia de argumentos elaborados pelo filósofo francês Henri Léfèbvre

e parte, inicialmente, do processo de modernização da sociedade, fruto da

industrialização, e a correspondente e meticulosa programação da vida através de

estratégias de controle da reprodução social. Daí advém todas as violências que

esta sociedade reproduz, porque todas e quaisquer possibilidades de felicidade e/ou

de satisfação dos desejos estariam encerradas nos termos do consumo, então

quanto menos se está ajustado ao consumo, mais violentas são as manifestações

15

de insatisfação que se pode experimentar, desde as simbólicas, até aquelas que se

sente no corpo.

Outra abordagem que consideramos possível para refletirmos sobre a sociedade

capitalista advém do historiador francês Michel de Certeau. Seu interesse para com

os “fracos” dessa sociedade o levou a considerar toda uma “arte” de sobrevivência

frente às ordens de consumo. Mesmo não fazendo parte de uma abordagem

marxista, seus estudos são referenciais para se pensar o embate entre classes

sociais e a violência inerente às ordens do consumo de mercadorias.

O pressuposto da violência da sociedade do consumo programado advém, na teoria

marxista, do processo global de alienação. O marco teórico da discussão do

conceito de alienação refere-se à obra seminal de Karl Marx intitulada Manuscritos

econômico-filosóficos de 1844. A alienação ou estranhamento é o resultado de uma

complexa equação social para aqueles que se reproduzem de acordo com os termos

desta sociedade na condição de trabalhadores. Por outro lado, o estranhamento,

enquanto ato de negatividade, encerra em si uma potência de transformação social

porque revela aquilo que esta sociedade camufla – a espoliação da classe

trabalhadora.

Foi com base nestes termos gerais da sociedade capitalista que o estudo do Pero

Vaz ganhou relevância suficiente à pesquisa, pois, na sua história de formação um

ato de negação à reprodução capitalista parecia ter ocorrido, uma vez que os

trabalhadores ocuparam um terreno particular para construir suas moradias. Por

este trajeto, havíamos chegado ao objeto que buscávamos pesquisar na periferia – a

reprodução social da classe trabalhadora.

Então já tínhamos definido dois termos da pesquisa: a periferia, no caso o bairro do

Pero Vaz em Salvador e a reprodução social, mas o que da reprodução social se

constituiria em um problema de pesquisa? Em termos simples percebemos que no

Pero Vaz a habitação, assim como em muitos outros bairros periféricos da cidade,

16

não se realizou através de formas e práticas sociais referenciadas, ou seja, ela

conflitava com as regulamentações jurídicas e urbanísticas as quais definiam a

“legalidade” do habitar. Mas esse conflito era apenas a ”ponta do iceberg”, pois

havia conflitos em praticamente todas as dimensões da vida daqueles moradores do

Pero Vaz, basicamente porque interagiam com o modo de vida capitalista em um

jogo complexo de reprodução social, logo, passível de investigação.

Neste outro nível de reflexão, passamos a construir questões acerca dos termos

contraditórios de reprodução, a exemplo de: como entender o fenômeno das

“invasões” em Salvador em relação ao processo global de reprodução social

capitalista? Seria apenas um desvio ou uma possibilidade de negação a esta

sociedade? Como os moradores lidam com a necessidade de sobrevivência e o

apelo ao consumo? Somente através da pesquisa poderíamos responder a estas

perguntas, mas ainda não tínhamos, de fato, um problema de pesquisa.

Este só começou a ser efetivamente delineado através da reflexão teórica acerca da

constituição da classe trabalhadora no Brasil, no bojo do processo de modernização

brasileira e da formação de mercados. Foi nesse contexto que se impôs uma

reconversão dos trabalhadores ao regime urbano-industrial de acumulação de

capitais e, portanto, de reprodução social. Por outro lado, o aprofundamento do

conhecimento da história do Pero Vaz por uma via não acadêmica, mas literária,

também contribuiu para a formulação do problema de pesquisa. Havíamos entrado

em contato com um romance pouco conhecido, escrito pelo jornalista Ariovaldo

Matos nos anos 50, chamado “Corta-braço”. Neste romance, o autor narra a

formação do Pero Vaz, definindo-o como um “bairro proletário”, isso através de uma

riqueza de detalhes tão grande que nos fez perceber a condição de quase anomia

social vivida pela população pobre e afrodescendente nos primórdios de formação

da periferia soteropolitana.

Logo, considerando esses dois movimentos, isto é, um amplo de ressignificação da

vida dos trabalhadores e outro restrito, da formação do bairro, é que conseguimos

identificar o problema desta pesquisa, pois, entendemos ser possível refletir a

17

respeito da modernização brasileira e, portanto, das condições de reprodução da

classe trabalhadora, a partir desta pequena parte da realidade que é o Pero Vaz.

Logo, nosso questionamento busca saber de que maneira tem se realizado a

reprodução da classe trabalhadora, a partir do exemplo Pero Vaz, com os termos

mais amplos ou estruturais da reprodução social capitalista.

Que resposta provisória teríamos para esse problema de pesquisa? Que a periferia

representada pelo Pero Vaz seria um produto da modernização capitalista, logo, de

seu desenvolvimento desigual. Ademais, também entendemos ser a periferia uma

condição necessária para que os termos estruturais da sociedade de classes e,

portanto, de exploração sejam mantidos estáveis. Assim, enquanto produto e

condição, a periferia nos revelaria as próprias contradições do processo de

modernização capitalista em direção a sua forma típica ou urbano-industrial.

A partir desse patamar de problematização, passamos a considerar os elementos

que definiram a reprodução da classe trabalhadora enquanto força de trabalho. O

percurso partiu então da própria modernização capitalista que definiu, a partir de

1930, um “custo” mínimo socialmente necessário para que o trabalhador se

reproduzisse ao modo e nível de vida definido pelas estruturas. Este “custo” mínimo

está representado na criação do salário mínimo em 1938.

O movimento de instauração do salário mínimo na vida da classe trabalhadora não

se desvinculava, muito pelo contrário, da formação dos mercados que compõem a

estrutura reprodutiva do capitalismo sob um regime urbano-industrial, em especial, o

imobiliário e o de trabalho. Estes tipos de mercado, na dimensão concreta da vida,

são também mercadorias passíveis de compra e venda. Pareceu-nos, portanto,

pertinente pesquisar, na realidade em que se encontra o objeto de pesquisa, o nível

de custeio da reprodução da classe trabalhadora enquanto força de trabalho, e

assim, refletir sobre o desenvolvimento da reprodução capitalista.

18

Por este encadeamento de proposições, definimos os indicadores e variáveis

necessários à coleta de dados. Assim sendo, e considerando o exposto até aqui,

optamos por dois grandes conjuntos: um que diz respeito ao habitar e outro

relacionado ao trabalho. Além disso, estes conjuntos de indicadores e variáveis

deveriam possibilitar a coleta de dados em dois níveis espaciais - o nível estrutural

(a cidade) e o conjuntural (o bairro).

Em relação ao habitar, o indicador principal está relacionado à estruturação do

mercado imobiliário, portanto, trabalhamos com as seguintes variáveis: demanda

habitacional, lançamento de loteamentos, evolução do preço médio do solo urbano,

custo social mínimo de participação no programas de habitação e quantidade de

moradias autoconstruidas.

Para o trabalho, o indicador se refere também à estruturação deste mercado em

Salvador, assim, as variáveis são: População em Idade Ativa (PIA), População

Economicamente Ativa (PEA), taxa de ocupação (PEA/PIA), População Inativa,

distribuição da PEA entre as ocupações formais e precárias e os níveis de renda

nominal.

Dos objetivos e da justificativa

A proposição desta pesquisa tem como objetivo principal compreender como os

termos da reprodução social da classe trabalhadora se realiza em uma dimensão

socioespacial tão importante nas grandes cidades como é a periferia. Também

poderíamos dizer que o objetivo desta pesquisa é compreender em que condições

concretas a classe trabalhadora tem conseguido sobreviver em uma periferia como o

Pero Vaz. Além desse objetivo principal, há outros que fazem parte do conjunto da

pesquisa, como:

- Descrever a história da produção espacial de Salvador, referenciando-a à

modernização brasileira e aos processos de formação do mercado imobiliário e o de

19

trabalho, os quais elevaram a cidade portuária à condição de metrópole, o que

consequentemente produziu uma nova relação entre o centro e a periferia. Este

objetivo está relacionado ao nível estrutural ou sociológico da pesquisa;

- Descrever as formas e práticas do habitar e de trabalho da reprodução social no

bairro do Pero Vaz. Este objetivo compõe o nível conjuntural ou microssociológica

da pesquisa. No movimento de descrição das formas e práticas sociais de

reprodução, também foram descritos o bairro, sua história e as condições de vida;

- Analisar a reprodução social a partir das implicações formais entre estrutura e

conjuntura. O método é o da correlação histórico-genética das formas e práticas de

reprodução identificadas ao longo dos segundo e terceiro capítulos;

- Analisar a reprodução social pela dialética entre as formas e os conteúdos sociais.

O método põe em destaque as contradições da reprodução social da classe

trabalhadora no bojo do processo de modernização brasileira; e,

- Interpretar as análises e responder à problemática da pesquisa. Neste último

objetivo almejamos alcançar à totalização do conhecimento produzido pela

pesquisa, através do retorno à problemática da pesquisa e suas questões.

Estes objetivos nos remetem a justificar a pesquisa em pelo menos três aspectos:

um de natureza política e os demais referentes ao escopo teórico-metodológico.

Porém, antes de explicá-las, há uma justificativa que as antecede, trata-se do por

que escolhemos o Pero Vaz como área de estudo.

O bairro do Pero Vaz é uma espacialidade consolidada no conjunto da cidade de

Salvador. As casas de palha e restos de materiais de construção, de lá do início da

ocupação, foram substituídas pelas de alvenaria. Ruas foram abertas e um comércio

estabelecido; há igrejas, terreiros de candomblé, bares, enfim, há vida. Se esta

20

descrição aparenta ser banal, e é sob um olhar formal, ela aponta, por outro lado,

para um percurso no qual a força de uma gente que sobreviveu aos “nãos” de uma

reprodução social que reiteradamente os manteve na condição de subalternizados.

Por isso, o Pero Vaz é um marco de resistência na história da cidade de Salvador e,

portanto, serve-nos como referencial para pensarmos a luta invisível daqueles que

vivem nas bordas do processo social.

Justificamos ainda esta pesquisa porque desejávamos contribuir com estudos sobre

a vida de bairro e, portanto, do vivido. Indagar sobre práticas de reprodução, não é

usual em nossa disciplina, salvo algumas importantes contribuições. Portanto,

trabalhamos nesse sentido também, isto é, o de trazer para o conhecimento

elementos que parecem banais, sem importância, fragmentos da vida comum, mas

que revelassem a complexidade da vida da classe trabalhadora, a partir dessa

espacialidade chamada periferia. Entendemos que contribuir dessa forma tem um

sentido político também.

Em relação à contribuição especificamente teórica destacamos que o diálogo entre

duas abordagens distintas das ciências sociais, a de Léfèbvre e a de Certeau, foi

muito gratificante, mesmo considerando os desafios envolvidos. Este diálogo entre

abordagens acabou por pavimentar a construção de uma metodologia que procurou

abarcar o movimento do objeto da pesquisa em níveis e dimensões de realidade.

Por isso, consideramos este caminho metodológico uma contribuição à pesquisa

social.

Esta tese está organizada em cinco capítulos, além desta introdução e das

considerações finais.

O primeiro capítulo é o que trata do referencial teórico-metodológico construído a

partir da problemática apresentada. Subdividido em três itens apresenta, no

primeiro, a discussão empreendida da relação entre a produção espacial e as

transformações no regime de acumulação de capitais da formação social brasileira;

21

no segundo item é onde realizamos a reflexão do conceito de reprodução social a

partir do diálogo de abordagens teóricas diferentes – a marxista de Henri Léfèbvre e

a da resistência de Michel de Certeau. No último está a metodologia empregada na

apreensão do objeto.

No segundo capítulo descrevemos a produção espacial de Salvador referenciada

nos processos de modernização do regime de acumulação de capital, de agrário

para urbano-industrial. O trajeto parte, portanto, de uma leitura histórico-estrutural da

transformação da cidade em metrópole e a consequente constituição de uma nova

relação do centro e das periferias, como loci da reprodução social.

No terceiro capítulo, descrevemos a produção espacial específica do bairro do Pero

Vaz no movimento de modernização e formação da metrópole soteropolitana.

Também descrevemos as formas e práticas de reprodução social ao nível do vivido

no bairro em períodos para fins comparativos: um primeiro no final da década de

1940 e um segundo durante a realização da pesquisa de campo, entre 2008 e 2010.

No quarto capítulo iniciamos uma sequência de análises das descrições realizadas

do objeto por meio de uma análise formal. Esta buscou correlacionar a

complexidade vertical à horizontal por meio do método histórico-genético.

No último capítulo conduzimos a análise para o nível dialético, haja vista que a

busca de compreensão do objeto exigia reflexões do movimento contraditório

(processo) entre as formas de reprodução e os conteúdos sociais da formação social

brasileira.

E, por fim, as considerações finais, onde encaminhamos os resultados das análises

empreendidas à totalização teórica, através da recuperação da problemática da

pesquisa.

22

1 REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO

A consecução da pesquisa proposta na introdução requereu a definição dos termos

teóricos e, consequentemente, metodológicos nos quais

se balizou o

encaminhamento desta pesquisa. De acordo com o objeto foi necessário que duas

discussões teóricas fossem empreendidas: uma inicial que trata da produção do

espaço e suas transformações a partir do fenômeno da modernização capitalista; e

uma posterior que se detém na discussão da reprodução social nos níveis e

dimensões correlacionadas à problemática de pesquisa. E, como consequência

dessas duas discussões apresentamos, na terceira parte deste capítulo, a

metodologia de pesquisa aplicada.