Modificações na qualidade da madeira de Eucalyptus grandis causadas pela adubação com lodo de... por Ricardo Marques Barreiros - Versão HTML

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Universidade de São Paulo

Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”

Modificações na qualidade da madeira de Eucalyptus grandis

causadas pela adubação com lodo de esgoto tratado

Ricardo Marques Barreiros

Tese apresentada para obtenção do título de Doutor em

Recursos Florestais, com opção em Silvicultura e Manejo

Florestal

Piracicaba

2005

Ricardo Marques Barreiros

Engenheiro Florestal

Modificações na qualidade da madeira de Eucalyptus grandis causadas pela adubação com lodo de esgoto tratado

Orientador:

Prof. Dr. JOSÉ LEONARDO DE MORAES GONÇALVES

Tese apresentada para obtenção do título de Doutor em

Recursos Florestais, com opção em Silvicultura e Manejo

Florestal

Piracicaba

2005

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

DIVISÃO DE BIBLIOTECA E DOCUMENTAÇÃO - ESALQ/USP

Barreiros, Ricardo Marques

Modificações na qualidade da madeira de Eucalyptus grandis causadas pela adubação com lodo de esgoto tratado / Ricardo Marques Barreiros. - - Piracicaba, 2005.

111 p.

Tese (Doutorado) - - Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, 2006.

1. Adubação orgânica 2. Celulose 3. Energia 4. Eucalipto 5. Nutrição vegetal 6

Resíduo urbano I. Título

CDD 634.9734

“Permitida a cópia total ou parcial deste documento, desde que citada a fonte – O autor”

3

À minha esposa Sueli, à minha filha Amanda, aos meus

pais Antonio e Vitória, e aos meus irmãos Sérgio, Sônia,

Rosana e Regina, pelo amor que nos une, convívio que nos

fortalece e incentivo que nos impulsiona ...

Dedico.

4

Agradecimentos

A Deus pela sua grandiosidade e por fazer-nos crer que sempre podemos ser mais;

ao professor José Leonardo de Moraes Gonçalves, pela paciente orientação, pelos sinceros incentivos pessoal e profissional, e pela amizade conquistada;

ao professor Cláudio Angeli Sansígolo pelos apoios logístico e de infra-estrutura, e pela amizade cultivada;

à Universidade de São Paulo, através da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, especialmente pelo Programa de Pós-Graduação em Recursos Florestais, pela oportunidade de realizar o Curso de Pós-graduação;

à Universidade Estadual Paulista, através do Departamento de Recursos Naturais/FCA e do Departamento de Química/IB, por cederem os laboratórios e reagentes para a realização deste trabalho;

à Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (SABESP) e ao Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (IPEF), pelo financiamento de parte desta tese e do projeto de pesquisa coordenado pelo professor Fábio Poggiani intitulado “Estudo de parâmetros de aplicação do lodo da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) de Barueri no plantio de eucaliptos”;

aos amigos do Departamento de Recursos Naturais da FCA/UNESP pela amizade de longa data e por todo o apoio prestado;

5

aos amigos do Departamento de Ciências Florestais da ESALQ/USP pela amizade e por todo o apoio prestado;

aos meus mestres da Pós-graduação pelos ensinamentos prestados, incentivos e amizades conquistadas;

aos novos amigos do Curso de Engenharia Industrial Madeireira da Unidade de Itapeva/UNESP pela amizade recente, apoio e grandioso incentivo;

aos amigos Antonio Carlos Maringoni, Carlos Alberto Oliveira de Matos, Carmen Regina Marcati, Fábio Minoru Yamaji, Gustavo Ventorim, Iraê Amaral Guerrini, José Luiz Stape, José Nivaldo Garcia, José Pedro Serra Valente e Marcelino Carneiro Guedes por terem contribuído e acompanhado mais de perto esta jornada;

a todos os outros que colaboraram de alguma forma para a realização deste trabalho...

Muito Obrigado!

6

SUMÁRIO

LISTA DE FIGURAS ................................................................................................ 8

LISTA DE TABELAS ............................................................................................... 13

LISTA DE ABREVIATURAS, SIGLAS E SÍMBOLOS .............................................. 14

RESUMO ................................................................................................................. 18

ABSTRACT ............................................................................................................. 19

1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................... 20

2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA ................................................................................. 22

2.1 O lodo de esgoto ............................................................................................... 22

2.2 Efeitos da adubação nos atributos da madeira e na polpação .......................... 24

Atributos físicos ....................................................................................................... 27

Massa específica básica da madeira ...................................................................... 27

Poder calorífico da madeira ..................................................................................... 29

Atributos químicos ................................................................................................... 30

Celulose ................................................................................................................... 32

Hemiceluloses ......................................................................................................... 33

Lignina ..................................................................................................................... 34

Extrativos ................................................................................................................. 34

Cinzas ...................................................................................................................... 35

Atributos Anatômicos ............................................................................................... 36

Efeitos das dimensões das fibras da madeira na polpa .......................................... 38

Polpação .................................................................................................................. 39

3 MATERIAL E MÉTODOS ..................................................................................... 43

3.1 Caracterização da área experimental ................................................................ 43

3.2 Tratamentos e delineamento experimental ....................................................... 46

3.3 Amostragem das árvores .................................................................................. 48

3.4 Caracterização física da madeira ...................................................................... 50

Massa específica básica da madeira ...................................................................... 50

Massa específica básica média ............................................................................... 50

Poder calorífico ........................................................................................................ 51

7

3.5 Caracterização química da madeira .................................................................. 51

3.6 Caracterização anatômica da madeira .............................................................. 53

3.7 Polpação da madeira ......................................................................................... 54

3.8 Caracterização dendrométrica das árvores ....................................................... 56

3.9 Análise dos dados ............................................................................................. 57

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO ............................................................................ 58

4.1 Produtividade de madeira .................................................................................. 58

4.2 Qualidade da madeira ....................................................................................... 60

Atributos físicos ....................................................................................................... 60

Atributos químicos ................................................................................................... 65

Atributos anatômicos ............................................................................................... 70

Polpação .................................................................................................................. 73

4.3 Concentração de nutrientes na madeira ........................................................... 77

4.4 Concentração de nutrientes na folha ................................................................. 80

4.5 Relação entre qualidade da madeira e teor de nutrientes na madeira e na folha ................................................................................................................... 83

5 CONCLUSÕES .................................................................................................... 90

REFERÊNCIAS ....................................................................................................... 91

8

LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Valores da precipitação média (P) e da temperatura média (T), em cada mês do período em que o experimento foi conduzido, desde a

aplicação do biossólido até a coleta das amostras ............................... 44

Figura 2 - Médias anuais da temperatura medida diariamente às 9:00h (Ta), da temperatura do mês mais quente (Tq) e mais frio (Tf) de cada ano

com os respectivos nomes dos meses, e valores totais da

precipitação anual (P) ............................................................................ 45

Figura 3 - Produção de madeira por árvore de E. grandis aos cinco anos de idade em volume (a) e em massa seca (b) nos diferentes tratamentos.

As barras junto às médias são os desvios padrões .............................. 58

Figura 4 - Correlação entre o volume e a massa seca de madeira por árvore de E. grandis aos cinco anos de idade nos diferentes tratamentos ........... 59

Figura 5 - Correlação entre o volume (a) e a massa seca (b) de madeira por árvore de E. grandis aos cinco anos de idade e a variável combinada DAP2.H nos diferentes tratamentos. DAP é o diâmetro médio à altura

do peito e H é a altura da árvore até 6 cm de diâmetro ....................... 59

Figura 6 - Correlação entre a espessura (a) e o lume (b) de fibra e a densidade básica da madeira de E. grandis aos cinco anos de idade nos

diferentes tratamentos .........................................................................

62

Figura 7 - Correlação entre o consumo específico de madeira e a densidade básica da madeira de E. grandis aos cinco anos de idade nos

diferentes tratamentos .......................................................................

63

Figura 8 - Densidade básica (a) e poder calorífico (b) da madeira das árvores de 9

E. grandis aos cinco anos de idade nos diferentes tratamentos. As barras junto às médias são os desvios padrões .................................. 64

Figura 9 - Teores de lignina (a), de celulose (b), de hemiceluloses (c), de extrativos (d) e de cinzas (e) da madeira de E. grandis aos cinco anos de idade nos diferentes tratamentos. As barras junto às médias

são os desvios padrões .......................................................................

66

Figura 10 - Correlação entre os teores de celulose (a), de hemiceluloses (b) e de extrativos (c) e o teor de lignina da madeira de E. grandis aos cinco anos de idade nos diferentes tratamentos ............................................. 67

Figura 11 - Correlação entre o teor de extrativos e o teor de celulose da madeira de E. grandis aos cinco anos de idade nos diferentes tratamentos ...... 68

Figura 12 - Correlação entre a espessura do lume das fibras e o teor de

hemiceluloses da madeira de E. grandis aos cinco anos de idade nos diferentes tratamentos ........................................................................... 68

Figura 13 - Correlação entre a espessura da parede (a) e do lume (b) das fibras e o teor de cinzas da madeira de E. grandis aos cinco anos de idade nos diferentes tratamentos .................................................................... 70

Figura 14 - Comprimento (a), largura (b), espessura de parede (c) e espessura de lume (d) de fibra da madeira de E. grandis aos cinco anos de

idade nos diferentes tratamentos. As barras junto às médias são os

desvios padrões ................................................................................... 72

Figura 15 - Número kappa da polpa (a), rendimento bruto gravimétrico da

polpação (b) e consumo específico de madeira (c) de E. grandis aos cinco anos de idade nos diferentes tratamentos. As barras junto às

10

médias são os desvios padrões ........................................................... 75

Figura 16 - Correlação entre o comprimento (a) e a espessura (b) das fibras e o rendimento bruto gravimétrico da polpação da madeira de E. grandis

aos cinco anos de idade nos diferentes tratamentos ............................ 76

Figura 17 - Correlação entre o consumo específico de madeira e o rendimento bruto gravimétrico da polpação de E. grandis aos cinco anos de idade nos diferentes tratamentos .................................................................... 76

Figura 18 - Correlação entre o comprimento das fibras e o consumo específico de madeira de E. grandis aos cinco anos de idade nos diferentes

tratamentos ............................................................................................ 77

Figura 19 - Teores de N (a), P (b), K (c), Ca (d), Mg (e) e S (f) da madeira de E.

grandis aos cinco anos de idade nos diferentes tratamentos. As

barras junto às médias são os desvios padrões .................................. 78

Figura 20 - Teores de B (a), Mn (b), Zn (c), Fe (d) e Cu (e) da madeira de E.

grandis aos cinco anos de idade nos diferentes tratamentos. As

barras junto às médias são os desvios padrões .................................. 79

Figura 21 - Teores de N (a), P (b), Ca (c), Mg (d) e S (e) da folha de E. grandis aos cinco anos de idade nos diferentes tratamentos. As barras junto

às médias são os desvios padrões ...................................................... 82

Figura 22 - Teores de Mn (a) e Zn (b) na folha de E. grandis aos cinco anos de idade nos diferentes tratamentos. As barras junto às médias são os

desvios padrões ................................................................................... 83

Figura 23 - Correlação entre o teor de lignina da madeira de E. grandis aos 11

cinco anos de idade com o teor de N da madeira nos diferentes

tratamentos ..........................................................................................

84

Figura 24 - Correlação entre espessura de lume de fibra e o teor de N da madeira de E. grandis aos cinco anos de idade nos diferentes

tratamentos ..........................................................................................

84

Figura 25 - Correlação entre o teor de cinzas da madeira com o teor de Ca da madeira de E. grandis aos cinco anos de idade nos diferentes

tratamentos ..........................................................................................

84

Figura 26 - Correlação entre o número kappa da polpa e o teor de S da madeira de E. grandis aos cinco anos de idade nos diferentes tratamentos ....

85

Figura 27 - Correlação entre espessura de parede de fibra e o teor de Fe da madeira de E. grandis aos cinco anos de idade nos diferentes

tratamentos ..........................................................................................

85

Figura 28 - Correlação entre o teor de cinzas da madeira e o teor de Ca da folha de E. grandis aos cinco anos de idade nos diferentes tratamentos ....

86

Figura 29 - Correlação entre a largura (a) e a espessura (b) de fibra da madeira e o teor de Ca da folha de E. grandis aos cinco anos de idade nos diferentes tratamentos .........................................................................

87

Figura 30 - Correlação entre o teor de cinzas da madeira e o teor de Mg da folha de E. grandis aos cinco anos de idade nos diferentes

tratamentos ..........................................................................................

87

Figura 31 - Correlação entre espessura de parede de fibra da madeira e o teor de Mg da folha de E. grandis aos cinco anos de idade nos diferentes 12

tratamentos .......................................................................................... 87

Figura 32 - Correlação entre espessura de lume de fibra da madeira e o teor de S da folha de E. grandis aos cinco anos de idade nos diferentes

tratamentos ..........................................................................................

88

Figura 33 - Correlação entre o volume (a) e a massa (b) da madeira e o teor de Mn da folha de E. grandis aos cinco anos de idade nos diferentes tratamentos ..........................................................................................

88

Figura 34 - Correlação entre largura de fibra da madeira e o teor de Mn da folha de E. grandis aos cinco anos de idade nos diferentes tratamentos ....

88

Figura 35 - Correlação entre a largura (a) e a espessura (b) de fibra da madeira e o teor de Zn da folha de E. grandis aos cinco anos de idade nos diferentes tratamentos .........................................................................

89

13

LISTA DE TABELAS

Tabela 1 - Concentrações limites permissíveis de metais em biossólido para uso agrícola e florestal ................................................................................. 23

Tabela 2 - Atributos químicos1 do Latossolo Vermelho-Amarelo por ocasião da instalação do experimento ..................................................................... 45

Tabela 3 - Composição química total do biossólido, base seca a 65oC, tipo B, produzido na Estação de Tratamento de Esgoto - ETE de Barueri-SP . 46

14

LISTA DE ABREVIATURAS, SIGLAS E SÍMBOLOS

% - Percentagem

α - Alfa

µm - Micrometro

‘ - Minuto

‘’ - Segundo

< - Menor

= - Igual

> - Maior

º - Grau

a.s. - absolutamente seco

ABNT - Associação Brasileira de Normas Técnicas

ABTCP - Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel

Al - Alumínio

AQ - Adubação química

As - Arsênio

B - Boro

B - Biossólido

C:N - Relação Carbono-Nitrogênio

Ca - Cálcio

Cal - Caloria

Cal g-1 - Caloria por grama

Cd - Cádmio

CEM - Consumo Específico de Madeira

CETESB - Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental

Cl - Cloro

Cm - Centímetro

cm3 - Centímetro cúbico

Cr - Cromo

Cu - Cobre

15

Cwa - Mesotérmico úmido

D - Diâmetro

DAP - Diâmetro à Altura do Peito

dm - Decímetro

E. - Eucalyptus

ESALQ - Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”

et al. - E outros

ETE - Estação de Tratamento de Esgoto

FCA - Faculdade de Ciências Agronômicas

Fe - Ferro

g - Grama

g cm-3 - Grama por centímetro cúbico

g dm-3 - Grama por decímetro cúbico

g kg-1 - Grama por quilo

H - Hidrogênio

H - Altura Comercial

H2O - Água

ha - Hectare

Hg - Mercúrio

HT - Altura Total

IB - Instituto de Biociências

K - Potássio

K2O - Óxido de potássio

Kcal - Quilocaloria

kcal kg-1 - Quilocaloria por quilo

KCl - Cloreto de Potássio

Kg - Quilograma

kg m-3 - Quilo por metro cúbico

kg t-1 - Quilo por tonelada

L - Litro

m - Metro

16

m - Saturação por alumínio

MO - Matéria Orgânica

m2 - Metro quadrado

m3 - Metro cúbico

mesh - Quantidade de furos por polegada linear

Mg - Magnésio

mg - Miligrama

mg dm-3 - Miligrama por decímetro cúbico

mg kg-1 - Miligrama por quilo

Mg ha-1 - Megagrama por hectare

mL - Mililitro

mm - Milímetro

mmolc - Milimol de carga

mmolc dm-3 - Milimol de carga por decímetro cúbico

Mn - Manganês

Mo - Molibdênio

N - Nitrogênio

n - Número de amostras por tratamento

Na - Sódio

NBR - Norma Brasileira

NaOH - Hidróxido de sódio

Na2O - Óxido de sódio

Ni - Níquel

Nk - Número kappa

NMP gST-1 - Número Mais Provável por grama de Sólidos Totais

n.s. - Não significativo

O - Oxigênio

ºC - Graus Celsius

P - Fósforo

P - Precipitação

p - Nível de significância

17

P2O5 - Pentóxido de fósforo

Pb - Chumbo

pH - Potencial Hidrogeniônico

r - Coeficiente de correlação

R2 - Coeficiente de determinação

RBG - Rendimento Bruto Gravimétrico

rpm - Rotação por minuto

s.a. - Seco ao ar

s.e. - Seco em estufa

SP - São Paulo

SB - Soma de Bases

Se - Selênio

t - Tonelada

T - Capacidade de troca catiônica em pH 7,0

T - Temperatura

t ha-1 - Tonelada por hectare

Ta - Temperatura anual

TAPPI - Technical Association of the Pulp and Paper Industry

Test - Testemunha

Tf - Temperatura do mês mais frio

Tq - Temperatura do mês mais quente

U.E. - União Européia

UNESP - Universidade Estadual Paulista

USP - Universidade de São Paulo

V - Saturação por bases

Z - Comprimento do segmento entre dois discos

Zn - Zinco

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RESUMO

Modificações na qualidade da madeira de Eucalyptus grandis causadas pela adubação com lodo de esgoto tratado

No Brasil, o Eucalyptus grandis tem sido uma das espécies mais cultivadas dentro do gênero, devido ao seu potencial produtivo e às desejáveis características da madeira. Vários estudos têm avaliado o efeito da adubação na produtividade de florestas plantadas, mas poucos avaliaram os efeitos na qualidade da madeira, sobretudo as espécies latifoliadas. Recentemente, o lodo de esgoto tem sido usado como adubo em plantios florestais. No presente estudo, avaliou-se o efeito da aplicação de lodo de esgoto tratado (biossólido) (0 a 40 t ha-1 base seca) e de adubo mineral nos atributos físicos, químicos, anatômicos e de polpação da madeira de Eucalyptus grandis Hill Ex Maiden (Coff’s Harbour) com cinco anos de idade. A área experimental localiza-se no município de Itatinga, São Paulo. O tipo de solo ocorrente na área foi caracterizado como Latossolo Vermelho-Amarelo Distrófico psamítico (argila = 120 g kg-1 na camada 0-20 cm). O clima foi caracterizado como mesotérmico úmido (Cwa), segundo a classificação de Köeppen. O delineamento experimental foi o de blocos ao acaso com 4 repetições. As parcelas experimentais tinham 100 plantas, plantadas no espaçamento de 3,0 m x 2,0 m. Nas avaliações dendrométricas, considerou-se as parcelas com bordadura dupla. Foi medido o diâmetro à altura do peito (DAP), a altura e o volume sólido das árvores. Para as avaliações relativas à qualidade da madeira, amostraram-se 8 árvores com DAP dentro da classe de maior freqüência de cada tratamento. De cada árvore foram retirados 5 discos com 4 cm de espessura a 0%, 25%, 50%, 75% e 100% da altura comercial, definida como aquela correspondente ao diâmetro de 6,0 cm com casca. De cada disco descascado foram retiradas quatro cunhas de 90º. A primeira cunha foi utilizada para a determinação da massa específica básica, a segunda e a terceira dera origem a amostras compostas por árvore para as análises de polpação e produção de serragem, respectivamente; e a quarta cunha foi mantida como reserva. As caracterizações físicas, químicas, anatômicas e a polpação da madeira foram realizadas de acordo com as normas da ABTCP, TAPPI e ABNT. Os resultados mostraram que o lodo de esgoto diminuiu a densidade básica da madeira, o que se constatou está relacionado à diminuição da espessura da parede das fibras. O

teor de celulose não foi modificado. O decréscimo de densidade da madeira, promovido pela adubação com lodo de esgoto, foi compensado pelo aumento de produtividade de madeira. O rendimento bruto gravimétrico da polpação aumentou e o número kappa diminuiu com a aplicação de lodo de esgoto. O poder calorífico da madeira não foi alterado. O lodo de esgoto diminuiu o teor de elementos de transição (Mn, Fe, Cu e Zn) na madeira, o que pode ser um efeito benéfico, pois implica em menor consumo de reagentes durante o branqueamento da polpa.

Palavras-chave: Eucalipto; Resíduo urbano; Adubação orgânica; Nutrição mineral; Celulose; Energia

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ABSTRACT

Modifications in the wood quality of Eucalyptus grandis caused by sewage sludge application

Eucalyptus grandis is the most planted species in Brazil due to its wood productivity and quality. Several studies have evaluated the effect of fertilization on productivity of forest plantations, but few evaluated this silvicultural practice on wood quality, especially to hardwood species. Recently, the sewage sludge has been used as fertilizer in forest plantations. In this paper, the effect of growing rates of treated sewage sludge (biosolid) (0 to 40 Mg ha-1 dry base) and one rate of mineral fertilizer on anatomical, chemical, physical attributes and pulping of Eucalyptus grandis wood were evaluated. The trees were with five years old. The experimental area locates at Itatinga county, state of São Paulo, Brazil. The soil in the area was characterized as a Red-Yellow Latosol Dystrophic (clay = 120 g kg-1 at 0-20 cm layer). The climate was characterized as a humid mesothermic (Cwa), according to the classification of Köeppen. The plots were established in a randomized complete block design, with 6

treatments and 4 replicates. Each plot consisted of 100 trees (10 x 10), planted at a spacing of 3.0 m x 2.0 m. Tree growth was measured In all plots as: height, diameter at breast height (DBH) and volume of wood. Samples of 8 trees belonging to more often DBH were collected. Of each tree were removed 5 disks (4 cm thick) at 0, 25, 50, 75 and 100% of the commercial height. From each disk barked were removed four wedges of 90º. The first wedge was used for the determination of the basic density, the second and third gave origin to composed samples for tree used for pulping analyses and sawdust production, respectively; and the fourth wedge was maintained as reservation. The physical, chemical and anatomical characterization and the wood pulping were made in agreement with the norms of the Brazilian Pulp and Paper Technical Association, Brazilian Technical Norms Association and Technical Association of the Pulp and Paper Industry. The sewage sludge reduced the basic density of wood, which was related to the decrease of the wall thickness of the fibers. The cellulose content was not modified.

The decrease of wood density promoted by sewage sludge application was

compensated by increase of wood growth. The rough yield gravimetric of the pulping increased and the kappa number reduced with the sewage sludge application. The calorific power of the wood was not altered. The sewage sludge reduced the transition elements content (Mn, Fe, Cu and Zn) in the wood, what maybe a beneficial effect because imply in minor consume of reagents during the pulp bleaching.

Keywords: Eucalypt; Urban residue; Organic fertilization; Mineral nutrition; Cellulose; Energy

20

1 INTRODUÇÃO

No Brasil, o Eucalyptus grandis é a espécie florestal mais plantada (SOUZA et al., 2004). Seu potencial produtivo e as características da madeira são os principais motivos desta preferência. Dentre os diversos usos industriais, sua madeira presta-se para produção de celulose e papel, painéis de fibra e aglomerado, combustível industrial e doméstico e produtos de serrarias (SOARES et al., 2003).

A crescente demanda da sociedade por melhores condições ambientais tem

exigido de empresas públicas e privadas a definição de políticas ambientais mais avançadas, dentre as quais se inclui a que destaca o tratamento de efluentes de esgotos (águas residuárias). Conseqüentemente, a quantidade de efluentes de esgoto tratados tende a aumentar progressivamente nos próximos anos, como verificado nas últimas décadas. Esse tratamento tem gerado um resíduo denominado lodo de esgoto, que depois de tratado e higienizado, torna-se sólido e é popularmente conhecido por biossólido (FARIA; RODRIGUEZ, 2000; ROCHA, 2002; VAZ; GONÇALVES, 2002;

GUEDES; POGGIANI, 2003; MARTINS et al., 2004; MOLINA, 2004).

Em plantações florestais com espécies de interesse silvicultural, particularmente do gênero Eucalyptus, a adubação química e/ou orgânica é uma prática silvicultural eficiente, tornando-se potencial o uso do lodo de esgoto tratado também como alternativa promissora para uma disposição final adequada desse resíduo. A sua utilização como fertilizante pode resultar em melhoria significativa da fertilidade do solo, conseqüentemente, do potencial produtivo das florestas. O uso do lodo de esgoto como fertilizante em plantações florestais tem se mostrado bastante promissor no Brasil e no exterior (PHILLIPS et al., 1986; WEETMAN et al., 1993; HENRY et al., 1994; POLGLASE; MYERS, 1996; VAZ; GONÇALVES, 2002; ROCHA et al., 2004; MOLINA, 2004 e outros).

A grande maioria dos estudos que testaram os efeitos de fertilizantes minerais e/ou orgânicos sobre a produtividade de povoamentos de Eucalyptus não avaliaram o 21

efeito desta prática na qualidade da madeira. Analisando os trabalhos referentes à adubação em povoamentos de Eucalyptus grandis, observa-se que ocorre significativo aumento de produtividade (GUEDES, 2000; ROCHA, 2002; VAZ; GONÇALVES, 2002), porém, não se sabe quais são os efeitos na qualidade da madeira.

Questão essencial como esta expressa a preocupação de técnicos na indústria madeireira, em especial, na indústria de celulose e papel, pois a qualidade da madeira tem reflexo direto no consumo de energia e substâncias químicas. Por conseguinte, no custo de produção de celulose e papel e na produção de resíduos industriais. Observa-se na literatura que poucos estudos (VITAL, 1990; ANDRADE et al., 1994; RAYMOND; MUNERI, 2000; GONÇALVES et al., 2004) avaliaram o efeito da adubação mineral e da adubação orgânica sobre a qualidade da madeira oriunda de plantações latifoliadas homogêneas. Entre as principais conclusões desses estudos destaca-se que as alterações nas condições de crescimento, devido à aplicação de adubos, são freqüentemente associadas com importantes alterações na qualidade da madeira, sobretudo a fatores físicos, químicos e anatômicos. Neste contexto, este trabalho teve como objetivo avaliar o efeito da aplicação de lodo de esgoto tratado nos atributos físicos, químicos e anatômicos da madeira de Eucalyptus grandis.

22