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MOLL FLANDERS

DANIEL DEFOE

MOLL FLANDERS

Tradução de Antônio Alvez Cury

Digitalização: Argonauta

DANIEL DEFOE

(1660-1731)

Daniel Defoe foi um dos fundadores do romance na língua

inglesa. Viveu em uma época de grande crise política e

religiosa, quando o absolutismo estava no apogeu na Grã-

Bretanha e as disputas religiosas, com suas brutais perseguições,

asfixiavam o nascente Império Britânico. Ele foi um dos

escritores que —como Jonathan Swift e Alexander Pope —

ajudaram a renovar a literatura inglesa.

Numa época em que a literatura era caracterizada por uma

visão acentuadamente idealista, influenciada pela religião,

Daniel Defoe elevou-a a uma nova expressão de elegância

formal, marcada por um realismo descritivo e, não raro,

caricatural. Era o período histórico durante o qual a Grã-

Bretanha se preparava para a futura Revolução Industrial, e

quando o comércio ultramarino começava a expandir-se com

uma rapidez nunca vista.

Diante desse quadro, Daniel Defoe pode ser considerado

como o primeiro representante dessa nova mentalidade. Escritor

de talento multiforme e, ao mesmo tempo, um dos maiores

jornalistas de sua época, tornou-se mundialmente conhecido e

passou a ser lido por sucessivas gerações de leitores graças,

especialmente, à criação de seu personagem Robinson Crusoe,

que se imortalizou como um dos grandes heróis da literatura de

viagens.

Com o pomposo título de A Vida e as Estranhas e Surpreendentes

Viagens de Robinson Crusoe de York, Marinheiro, mais tarde

reduzido para As Aventuras de Robinson Crusoe, este livro chegou

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OS IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL

a ser visto pela crítica uma alegoria irônica do expansionismo

inglês, sendo considerado um dos maiores clássicos da literatura

universal.

Mas a vastíssima e variada produção literária de Defoe

apresentou outros notáveis trabalhos como, por exemplo, Moll

Flanders (no original, As Venturas e Desventuras da Famosa

Moll Flanders), excepcional história de uma prostituta, saída da

prisão de Newgate, é que depois de uma série de tragédias

pessoais, converteu-se à religião, no final de sua vida, para

expiar seus numerosos pecados.

UMA INFÂNCIA MARCADA PELA RELIGIÃO

Daniel Defoe nasceu em Londres em 1660 (não se sabe a data

exata de seu nascimento), filho de um "dissidente", nome dado

aos protestantes não anglicanos, grupo duramente perseguido

durante a infância do escritor por não aceitar os dogmas da Igreja

oficial. Seu pai, James Foe, era um simples açougueiro, mas,

orgulhoso de sua fé, negava-se a ceder às pressões do governo.

Atingido por uma das medidas que reprimiam os dissidentes,

Daniel foi proibido de ingressar na universidade. Mas, apesar disso,

graças ao seu esforço pessoal e à ajuda de amigos do pai, teve uma

educação excelente. Chegou a estudar, inclusive, grego e latim.

Com todos esses conhecimentos, pretendia seguir a carreira

eclesiástica, mas como isso se tornou irrealizável, seguiu a única

carreira possível entre os membros de sua classe: o comércio.

Como empresário bastante empreendedor, foi proprietário de

uma mercearia, armador e fabricante de tijolos. Como

comerciante, teve a oportunidade de viajar pela Inglaterra,

chegando a conhecer seu país em toda sua extensão. Viajou

também para o exterior, chegando a morar durante algum tempo na

Suíça e na Espanha.

Apesar disso, não enriqueceu, ao contrário: foi à falência em

1692 e em 1703. As dívidas que contraiu durante esse período

viriam a atormentá-lo pelo resto de sua vida.

Como compensação ao seu fracasso financeiro, em 1683,

Daniel Defoe passou a dedicar-se também ao jornalismo, quando

começou a usar o sobrenome Defoe, em vez do de seu pai, Foe,

para dar ênfase à sua origem flamenga.

Tomado de uma revolta interior profunda, em razão de seus

fracassos no comércio e pela ausência de uma melhor perspectiva

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MOLL FLANDERS

de vida, Defoe começou a escrever panfletos raivosos, e como era

politicamente contrário ao rei católico Jaime II (um déspota

obscurantista), chegou a participar da malograda rebelião de

Mon-mouth (1685), mas não foi preso.

UM ARDOROSO DEFENSOR DO PARLAMENTARISMO

Em 1688, Defoe estava entre os que acolheram com

entusiasmo a chegada do holandês Guilherme de Orange ao

poder. Mesmo não sendo o líder político com quem Daniel Defoe

sonhara, a Inglaterra, sob o novo regime, passou por um período

de prosperidade, o comércio se desenvolveu e a perseguição

religiosa que dividia o país foi atenuada.

Entusiasmado pelas transformações sociais do país, quando o

absolutismo até então imperante vinha sendo gradativamente

substituído pelo espírito das leis, Defoe deu-se ao luxo de

escrever uma série de panfletos políticos. O primeiro, lançado em

1700, O Verdadeiro Inglês, era um texto vigoroso e, ao mesmo

tempo, engraçado em defesa do regime parlamentarista.

Embalado pelo sucesso do primeiro trabalho, no mesmo ano

escreveu A Sucessão da Coroa Inglesa, no qual defendeu a

revolucionária tese de que todo o poder emana do povo, ao qual

devem se submeter, sempre, o rei e o parlamento. Baseando-se

nas mesmas idéias, publicou em seguida Memorial da Legião,

saindo em defesa de um grupo de whigs (partido liberal, ligado

aos "dissidentes"), cujas atividades políticas estavam sendo

reprimidas pejo governo.

No começo do século 18, depois de um breve intervalo, a questão

religiosa ligada à política voltou a tomar conta da Inglaterra.

Ligados ao problema da sucessão de Guilherme de Orange,

católicos e anglicanos lutavam arduamente para ver quem conseguia

chegar ao poder. Na disputa, participavam facções dos partidos

Whigs e Tory (partido conservador). Como sempre, os "dissidentes"

foram derrotados. Em 1702, indignado, Defoe resolveu produzir um

panfleto irônico, O Caminho Mais Curto com os Dissidentes, no

qual abordou a questão religiosa de maneira agressiva e mordaz.

O panfleto levou-o inevitavelmente à prisão. Mas, a essa

altura, Defoe já era uma personalidade conhecida e respeitada.

Sua prisão provocou uma certa comoção entre os leitores.

Enquanto centenas de pessoas ocupavam as ruas de Londres para

protestar contra a atitude do governo, outras centenas mandavam-

lhe flores no presídio. Mesmo assim, inflexíveis, os juizes o

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OS IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL

condenaram a um ano de cadeia.

Ao sair da prisão, em novembro de 1703, Defoe era um

homem mudado. Sentindo-se traído e abandonado, perdera a fé

nos amigos e em muitas das crenças antigas. Voltou aos jornais,

mas não importava mais para quem trabalhasse. Passou a

colaborar indiferentemente ora com os whigs, ora com os tories.

No período de 1714 a 1715, escreveu durante mais de um ano

para o periódico The Review, colocando sua pena a serviço da

rainha Ana.

Porém, mesmo com essa atitude cínica, diante de sua descrença

nas instituições e nos políticos, no jornalismo e, principalmente,

como repórter, Defoe desenvolveu um estilo próprio de redação.

Suas narrativas eram minuciosas e detalhadas, com um agudo

senso de observação, atendo-se meramente aos fatos, os quais

relatava de uma forma lógica e coerente. Mas, ao mesmo tempo,

como todo grande humanista, seu espírito permanecia irônico e

mordaz, nunca perdendo a capacidade crítica, que foi se tornando

mais feroz com o passar dos anos.

Como exemplo de seu trabalho de repórter restam alguns

livros, que foram publicados mais tarde, e que revelam um

escritor original e inovador, à frente de sua época, cujas

características de estilo são imitadas até hoje.

Em Diário do Ano da Peste (1724), por exemplo, relatou com

enorme riqueza de detalhes as conseqüências da trágica doença

entre a população mais pobre de Londres e o descaso das

autoridades em relação ao grande número de mortos. Por sua vez,

em Viagem Por Toda a Ilha da Inglaterra (1724-1727), ele

produziu um estudo detalhado de suas viagens pela Inglaterra,

descrevendo com clareza e objetividade a vida social, os

costumes e as características típicas de cada localidade.

Finalmente, em Relato Autêntico da Aparição da Sra. Veal

(1706), o escritor mostrou, de forma irônica e contundente, um

caso místico que intrigou os britânicos.

NASCE UM GRANDE ROMANCISTA

Por volta de 1715, definitivamente descrente da vida pública,

Daniel Defoe decidiu abandonar o jornalismo e passou a dedicar-

se em tempo integral à literatura. Em 1719r depois de quase três

anos de preparação, saiu publicado seu romance mais famoso e

que o tornaria célebre. Intitulado inicialmente A Vida e Estranhas

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MOLL FLANDERS

e Surpreendentes Aventuras de Robinson Crusoe de York,

Marinheiro, o livro ficaria mais tarde conhecido como As

Aventuras de Robinson Crusoe.

Ao narrar a história de um náufrago que luta para sobreviver na

floresta, o romance, de imediato, provocou enorme repercussão.

O tema aparentemente romântico é abordado de forma realista.

Robinson é um pícaro que, longe do mundo civilizado, procura

recriar no ambiente da selva hostil a mesma sociedade de seu

tempo. Procura educar o ingênuo Sexta-Feira, com seus

conhecimentos e sua fé, de forma a transformá-lo num ser

civilizado (como faziam então os colonizadores ingleses em todo

o mundo).

O livro é tão rico e detalhado que chega a ter o aspecto de um

manual de sobrevivência na selva, propondo soluções imaginosas

para cada situação. Mas, apesar de seu estilo simples, e de

aparentemente relatar uma simples aventura na selva, a história de

Robinson Crusoe pode ser vista à luz de diferentes interpretações.

Para alguns críticos, Robinson, como o próprio Daniel Defoe, é

um produto típico da classe média inglesa, um espírito ativo que

acredita no progresso, no comércio e na religião. Contudo, ao

mesmo tempo, vê essa evolução, que acredita positiva, de uma

forma rigorosa e irônica. Mas sua ironia é tão sutil que no

primeiro momento foi observada por poucos críticos. A sua

história é, em certo sentido, a do burguês típico, náufrago em sua

própria ilha, numa sociedade de ilhas isoladas.

Mas, se, com o decorrer do tempo, sua história foi perdendo a

atualidade política, restou o maravilhoso relato das aventuras na

selva, que continuou por séculos à frente encantando milhões de

leitores, sobretudo as crianças, e que criou um estilo narrativo que

passou a ser imitado em lugares e tempos diferentes.

Por outro lado, o sucesso memorável de Robinson Crusoe, que

o tornou um dos livros mais lidos em todos os tempos, ofuscou

durante 200 anos outro romance excepcional do escritor: Moll

Flanders, publicado inicialmente em 1722.

Nessa obra, inspirada nos romances picarescos do século 17,

Defoe recria, de maneira realista, sem qualquer preconceito ou

hipocrisia, o mundo pitoresco dos aventureiros e das prostitutas

no início do século 18. Moll Flanders vai da prisão à conversão

religiosa, passando por uma série de "tragédias", especialmente

enviadas pela Providência Divina, para, finalmente, conduzi-la ao

arrependimento.

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OS IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL

Não importa que o romance acabe como um tratado moralista.

Na verdade, o livro é pouco moral. Trata com realismo e

objetividade de personagens que eram então ignorados pela

literatura da época. Não é por acaso que provocou escândalo

quando de seu lançamento e acabou propositadamente esquecido.

Esse fato colocou na obscuridade um dos mais completos relatos da

vida social inglesa do século 18. Seus personagens, narrados na

primeira pessoa, são descritos com tal riqueza de detalhes que os

torna verossímeis.

Apenas nas últimas décadas críticos e leitores puderam re-

descobrir essa obra que se coloca entre os melhores romances do

século 18. Desde então, Moll Flanders tornou-se uma obra

popular, cujas sucessivas edições provam o crescente interesse

dos leitores pelo livro.

Depois de escrever duas obras menores, hoje totalmente

esquecidas, como O Perfeito Comerciante Inglês (1727) e

Memórias de um Oficial Inglês, pelo Capitão George Carleton

(1728), já cansado e doente, Daniel Defoe deixou de escrever.

Mas sua aposentadoria durou pouco, pois ele veio a falecer em

Londres, no dia 24 de abril de 1731.

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Venturas e Desventuras da Famosa

MOLL FLANDERS & Cia.

que viu a luz nas prisões de Newgate

e que, ao longo de uma .vida rica em vicissitudes,

a qual durou três vezes vinte anos,

sem levar em conta sua infância,

foi durante doze anos prostituta,

durante doze anos ladra, casou-se cinco vezes

(uma das quais com seu próprio irmão),

foi deportada oito anos na Virgínia

e que, enfim, fez fortuna, viveu muito

honestamente e morreu arrependida;

vida contada segundo suas próprias memórias.

PREFÁCIO DO AUTOR

Os romances e as novelas estão de tal forma na moda hoje em

dia que é difícil acreditar-se verdadeira uma história pessoal, se o

nome e demais características da personagem não forem

revelados; por isso, ficaremos satisfeitos em permitir que o leitor

forme sua opinião a respeito das páginas apresentadas e que as

receba como melhor lhe aprouver.

Presume-se nesta obra que a autora esteja escrevendo sua

biografia, e, desde o início da narrativa, ela expõe os motivos por

que deseja ocultar seu verdadeiro nome, sendo que depois não

retornará ao assunto.

É verdade que a história original foi narrada em outros termos,

e o estilo da famosa mulher à qual nos referimos foi modificado.

Principalmente, fizemo-la utilizar, em sua narrativa, palavras

mais discretas do que as do original; a cópia que inicialmente veio

ter às nossas mãos foi escrita numa linguagem muito semelhante

à de qualquer prisioneiro de Newgate e em nada recordava a de

uma humilde arrependida, como parece ter sido mais tarde.

A pena empregada para terminar sua história, transformando-a

na que agora apresentamos, encontrou grande dificuldade para

expô-la e fazê-la falar de maneira adequada à leitura. Se uma

mulher que se corrompeu em juventude, ou, mais ainda, que é o

fruto da devassidão e do vício, deseja contar suas práticas

viciosas, descendo aos pormenores das ocasiões e circunstâncias

que inicialmente a perverteram e esmiuçando seus progressos no

mundo do crime, realizados ao longo de três vintenas de anos, é

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OS IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL

claro que um escritor terá dificuldades em tornar decentes suas

memórias, de forma a não ensejar, especialmente aos leitores

maldosos, a ocasião de se voltarem contra ele próprio.

Todas as precauções possíveis, portanto, foram tomadas para

não reproduzir idéias licenciosas ou incitar tendências

indecorosas, evitando a reprodução dos piores trechos e das

expressões que aí existiam. Com tal propósito, algumas das partes

condenáveis de sua vida, que não poderiam ser expostas com a

devida decência, foram inteiramente excluídas, abreviando-se

ainda outras. Esperamos que o leitor — mesmo o mais puro — e

o ouvinte — mesmo o mais pudico — não se ofendam com o

restante. E, como é possível fazer um bom uso da pior narrativa, a

moral contida nesta levará o leitor a manter a seriedade, ainda que

se incline a agir de modo contrário. Para que se relate a vida de

uma corrupta e seu arrependimento, é preciso que se apresentem

os trechos menos inocentes com a mesma crueza da história

verídica, até onde seja suportável, a fim de que ilustre ou ressalte

o trecho do arrependimento que é com certeza o melhor e o mais

belo, caso venha apresentado espirituosa e vivamente.

Aqui insinuamos que não se pode transmitir vida, vivacidade e

beleza com a mesma intensidade na história da penitência como

na do pecado. E, se esta insinuação é de algum modo verdadeira,

o leitor concederá que digamos que a causa da diferença reside

em não existir idêntico prazer e deleite em sua leitura; pois é

óbvio que a diferença reside menos no valor real do assunto que

no gosto e paladar do leitor.

Mas, como esta obra se destina principalmente aos que saibam

lê-la e utilizar-se bem do que é recomendado ao longo de toda ela,

pode-se esperar que esses leitores fiquem mais interessados pela

moral que pela fabulação; mais com a aplicação daquela que com

a narrativa; mais com a intenção do escritor que com a existência

da personagem a respeito da qual escreve.

Existe também nesta história uma boa quantidade de deliciosos

incidentes, todos eles exemplares por sua utilidade. E o estilo

agradável que artisticamente se empresta à narrativa haverá de, por

diversas maneiras, instruir o leitor. A primeira parte da vida

licenciosa da heroína com o jovem cavalheiro de Colchester

concedemos tanto espaço para que, demonstrado o crime, todos

aqueles que vivem em semelhantes circunstâncias se acautelem

com o fim ruinoso dessas coisas, e com o tolo, impensado e

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MOLL FLANDERS

detestável comportamento de ambos os implicados, já que a tudo

isto compensam sobejamente todas as reais descrições que a

mulher faz de sua própria loucura e perversidade.

O arrependimento de seu amante, em Bath, e de como ele teve

de abandoná-la por causa da justificada apreensão que sentiu, ao

sofrer um ataque de doença; e a bem fundada cautela que aí se

recomenda contra as relações íntimas com os amigos mais

queridos, e de como estes são impotentes para manter as mais

solenes resoluções, se não forem amparados pela assistência

divina — são episódios que, para quem tiver uma compreensão

criteriosa, parecerão possuir beleza mais verdadeira do que a

simples trama amorosa que os relata.

Resumindo, assim como a narrativa foi cuidadosamente

expurgada de qualquer leviandade e libertinagem que continha,

assim se aplicou, sempre e com a máxima precaução, a objetivos

virtuosos e religiosos. E ninguém poderá encontrar em nós a

menor culpa, salvo se a imputarem com manifesta injustiça, ou

endereçar-nos a mínima recriminação, a nós ou ao nosso desígnio

de publicar esta história.

Os defensores do teatro sempre empregaram este grande

argumento como elemento importante de persuasão: que seus

dramas são úteis e devem ser permitidos pelos governos mais

civilizados e religiosos, ou seja, que suas peças visam a fins

honestos e que, pela aparência de realidade da apresentação,

nunca deixam de recomendar as virtudes e a generosidade,

desencorajando e denunciando toda espécie de vício e de

corrupção dos costumes. Se fosse verdade que procedem desta

maneira, e que invariavelmente se atem a essa norma, como

critério do que deva ser representado nos teatros, muito se poderia

dizer em seu favor.

Através da imensa variedade deste livro, apegamo-nos

estritamente a uma idéia básica: não incluir, em nenhuma parte,

alguma ação perversa que não dê origem a conseqüências

infelizes; não pôr em cena um autêntico vilão sem que acabe mal

ou seja levado a se arrepender; não mencionar qualquer ato

criminoso sem condená-lo na própria narrativa, e nenhuma ação

virtuosa e justa que deixe de receber o seu louvor.

Que coisas, pois, poderão corresponder com maior exatidão à

regra que nos propusemos, para que se recomende a apresentação

daquilo contra o que se fazem tantas e tão justas objeções — por

exemplo, as más companhias, a linguagem obscena e outros

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OS IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL

males semelhantes?

Estas são as razões por que o livro é recomendado: como obra

em que cada uma das partes pode ensinar algo, e de que se podem

extrair algumas justas e piedosas conclusões, por meio das quais o

leitor se instruirá, se desejar aproveitar-se delas.

Todas estas façanhas de uma mulher famosa por suas

indignidades perante a humanidade se transformam em outros

tantos conselhos, com a finalidade de alertar as pessoas honestas,

indicando-lhes os processos pelos quais gente inocente é atraída,

espoliada e roubada, e mostrando, por conseguinte, o meio de

evitá-las. Quando essa mulher rouba de uma criança inocente,

ricamente vestida pela vaidade da mãe que a quer concorrendo à

escola de dança, fornece um excelente exemplo a pessoas

parecidas, assim como será um bom exemplo o roubo do relógio

de ouro, retirado do cinto de uma jovem no parque. O roubo de

um embrulho pertencente a uma moça desmiolada na estação de

coches da St. John Street, o saque a que procedeu durante um

incêndio e a repetição do mesmo ato em Harwich — todos esses

casos proporcionam magníficas advertências que devem ser

lembradas, para que estejamos atentos diante dos imprevistos.

Sua adaptação a um tipo de vida mais sensata e finalmente a

um trabalho assíduo na Virgínia, em companhia do marido

deportado, são fatos ricos em instrução para todas as infelizes

criaturas obrigadas a buscar reabilitação no além-mar (aconteça

isto por causa da desgraça da deportação ou por outros desastres

quaisquer), permitindo-lhes que saibam que a diligência e a

aplicação encontram a recompensa devida até nas terras mais

distantes do mundo, e que nenhuma situação, por mais vil,

desprezível e sem perspectivas para o futuro, é motivo bastante

para que uma atividade incansável não possa contribuir para nos

livrar dela, ou, no momento propício, acabar por exaltar a mais

miserável das criaturas, dando-lhe a posição que ela merece e

proporcionando-lhe na vida novas perspectivas.

Ficam ainda por publicar duas das mais belas partes desta

história, das quais a presente narrativa, fazendo-nos conhecer

alguns trechos, nos dá uma pequena idéia. Qualquer das duas,

entretanto, é por demais longa para que seja incluída neste

volume, visto que cada uma preenche sozinha todo um livro.

Queremos mencionar, primeiramente, a vida da governanta da

famosa mulher (era assim que a chamavam), e que num par de

anos percorreu, quer-nos parecer, os principais degraus da

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MOLL FLANDERS

aristocracia, da prostituição e da alcovitice; parteira e agente de

parteira (conforme são chamadas tais mulheres), agiota, ladra de

crianças, protetora de ladrões e freguesa deles — equivale a dizer,

receptadora de mercadorias roubadas —, numa palavra, sendo ela

própria uma ladra, formadora de ladrões e coisas semelhantes e,

no entanto, ao fim da vida, uma mulher arrependida.

A segunda parte concerne à vida do seu marido, um salteador

deportado que, segundo parece, viveu doze anos de delinqüência

bem-sucedida como ladrão de estrada e que, finalmente, obteve

tanto êxito que se deportou voluntariamente, não como

sentenciado, e cuja vida é de uma incrível diversidade.

Mas, como aqui já declaramos, são obras demasiadamente

extensas para que se exponham aqui, se bem que não possamos

prometer que venham algum dia a ser publicadas separadamente.

Não podemos afirmar também que a presente narrativa atinja

até os últimos dias da famosa Moll Flanders, apelido pelo qual ela

se fazia chamar; não há quem seja capaz de contar sua própria

existência até o último momento, a não ser que venha a fazê-lo

após a morte. A vida do marido, porém, foi escrita por um

terceiro e completa o relato das peripécias de ambos, de como

passaram juntos naquele país e, depois de oito anos, retornaram

riquíssimos à Inglaterra, de como ela atingiu uma idade avançada,

e não tão extraordinariamente arrependida como de início, mas

apenas referindo-se com algum desprazer à sua vida anterior, ou a

qualquer período dela.

Na última cena, que decorre nos Estados de Maryland e

Virgínia, muitas coisas agradáveis aconteceram; não são,

contudo, narradas com a mesma elegância que contêm as que ela

própria relatou. Portanto, é preferível que nos interrompamos

aqui.

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A INFÂNCIA

Meu verdadeiro nome é bastante conhecido nos arquivos ou

registros das prisões de Newgate e Old Bailey, e certos processos

de maior ou menor importância relativos à minha conduta pessoal

encontram-se ainda pendentes. Por isso não se deve esperar a

inclusão de meu nome ou de especificações sobre a minha

família, nesta obra. Quem sabe se, após a minha morte, tudo

venha a ser mais bem esclarecido. Mas isso não seria conveniente

no momento, nem mesmo se uma anistia geral fosse promulgada,

sem fazer exceção ou reserva de pessoas ou crimes.

Basta dizer que alguns dos meus piores camaradas, que já não

têm a possibilidade de me fazer mal, pois deixaram este mundo

pelo caminho da escada e da corda, como eu mesma

freqüentemente acreditei que me ocorreria, conheciam-me por

Moll Flanders. Seja-me, pois, permitido falar de mim sob esse

nome, até que ouse reconhecer quem fui eu e quem sou.

Disseram-me que numa nação vizinha, na França ou noutro

lugar qualquer, não sei bem, existe uma ordem do rei a respeito

do condenado à morte, às galeras ou à deportação. Caso o

criminoso deixe filhos, geralmente sem recursos, porque ele é

pobre ou teve seus bens confiscados, essas crianças são

imediatamente postas sob a proteção do governo, numa

instituição de caridade denominada "orfanato", onde são

educadas, vestidas, alimentadas e instruídas. E, quando chega a

época de saírem, são empregadas como aprendizes ou domésticas,

estando então aptas a ganhar a vida honestamente, através de suas

habilidades.

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OS IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL

Se esse fosse o costume de nosso país, eu não teria sido uma

moça desolada, abandonada sem amigos, sem roupas, sem nada,

sem ninguém que me auxiliasse, como aconteceu, razão por que

eu fui não somente exposta a grandes desgraças, antes mesmo de

poder compreender minha situação ou de saber como remediá-la,

mas também levada a uma existência escandalosa em si própria e

cujo curso normal leva, de uma só vez, a alma e o corpo a uma

rápida destruição.

Mas aqui as coisas eram diferentes. Minha mãe foi declarada

culpada do crime de um roubo insignificante que mal merece ser

contado: ter encontrado a ocasião de tomar três peças de fino

tecido de Holanda a um certo negociante de Cheapside. Os

pormenores são demasiadamente longos para serem repetidos, e

eu os ouvi narrados com tanta diversidade que não estou certa de

qual tenha sido a versão exata.

Qualquer que seja ela, todos concordam num ponto: minha mãe

apelou para seu ventre, e, tendo sido verificada a gravidez, obteve

uma suspensão da pena por aproximadamente sete meses; mas,

depois que ela me deu à luz, mandou-se executar seu primeiro

julgamento, como me foi dito. Ela conseguiu o favor de ser

deportada para as plantações e me abandonou, quando eu tinha

cerca de seis meses; e em péssimas mãos, como será fácil

reconhecer.

Tudo isso, contudo, está muito próximo das primeiras horas da

minha existência, para que eu possa falar de mim, a não ser por

ouvir dizer. Basta mencionar que nasci num lugar tão miserável

que não havia sequer uma paróquia a que pudesse recorrer para

me alimentar durante a primeira infância; e não tenho a menor

noção de como permaneci viva. Contaram-me que uma parenta de

minha mãe cuidou de mim por algum tempo, mas às custas ou sob

as ordens de quem, eu ignoro.

A primeira coisa de que me posso lembrar, ou que pude saber a

meu respeito, foi ter vagabundeado com uma corja de indivíduos,

conhecidos como boêmios ou ciganos. Mas creio que permaneci

com eles por pouco tempo, pois não me bronzearam ou

enegreceram a pele, como costumam fazer com as crianças que

roubam. E eu não sou capaz de dizer de que modo vim parar entre

eles ou como os abandonei.

Foi em Colchester, no Essex, que esses indivíduos me

abandonaram; e tenho a sensação de que fui eu quem os

abandonou (quer dizer, fiquei escondida e não quis mais segui-los),

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MOLL FLANDERS

mas não posso precisar nada a esse respeito. Eu me recordo tão-

somente disto: tendo sido recolhida por funcionários da paróquia

de Colchester, contei-lhes que havia chegado à cidade com os

boêmios, mas que não queria segui-los e por isso me haviam

abandonado. Não sabia, entretanto, para onde tinham ido. E, apesar

de terem saído à procura deles através dos campos, parece, não

encontraram ninguém.

Nesse momento eu precisava ser socorrida, embora não

estivesse legalmente a cargo daquela paróquia, segundo a lei. Os

magistrados, depois de ouvirem a minha história e sendo eu muito

pequena para trabalhar — tinha apenas três anos —, apiedados,

ordenaram que cuidassem de mim e eu me tornei uma de suas

assistidas, como se tivesse nascido nessa cidade.

Entre as medidas tomadas, um feliz acaso me colocou como

pensionista, segundo dizem, em casa de uma mulher pobre, é

verdade, mas que havia conhecido melhores dias e ganhava a vida

modestamente, educando crianças como eu e não lhes deixando

faltar nada, até que atingissem a idade a partir da qual se permite

sejam empregadas e ganhem a própria subsistência.

Essa boa mulher tinha ainda uma pequena escola, em que

ensinava as crianças a ler e a costurar, e, tendo vivido na alta

sociedade, como já o disse, educava com bastante habilidade e

muito cuidado as crianças que lhe tinham sido confiadas. Porém,

mais importante que o resto é que as educava religiosamente,

sendo ela própria muito séria, piedosa, boa dona de casa e limpa,

muito honesta e de boa conduta. Numa palavra, afora a comida

simples, a cama rústica e as roupas pobres, fomos educados com

tanta honestidade e distinção como se tivéssemos freqüentado um

pensionato para senhoritas de sociedade.

Aí permaneci até os oito anos, quando me aterrorizou a notícia

de que os magistrados (eram assim chamados, segundo penso)

tinham decidido que eu poderia ser empregada. Eu não servia

senão para ir à rua ou ser ajudante de uma cozinheira. Era o que

me haviam dito com freqüência e me causava horror, pois eu

tinha uma profunda aversão por ser criada, como se diz (isto é,

tornar-me uma doméstica), apesar de minha pouca idade. Disse

então à minha protetora, como nós a chamávamos, que acreditava

poder ganhar a vida sem ser uma criada, se assim ela mo

permitisse, visto ter-me ensinado a realizar trabalhos de agulha e

a fiar a lã, que era a principal indústria dessa cidade. E

– 21 –

OS IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL

acrescentei: se desejasse manter-me junto a si, eu trabalharia para

ela, com todo o esforço de que era capaz.

E quase todo dia eu lhe repetia que poderia trabalhar pesado.

Em breve, eu não fazia mais que trabalhar e chorar durante o dia

inteiro. Isso penalizava tanto a excelente mulher, que ela começou

a inquietar-se, porque gostava muito de mim.

Foi assim que um dia, vindo à sala onde trabalhávamos nós,

pobres crianças, sentou-se à minha frente, e não em seu lugar de

mestra, como se tivesse a intenção de me observar e verificar meu

trabalho. Eu realizava uma tarefa que me havia dado; se me

lembro bem, tratava-se de marcar camisas confeccionadas por ela.

Depois de alguns instantes, começou a falar-me.

— Tolinha — disse —, você chora sempre. — Porque eu já

estava quase chorando. — Diga-me, por que chora?

— Porque eles querem levar-me — respondi — e empregar-

me, e eu não sei fazer os trabalhos de casa.

— Pois bem, minha filha — acrescentou ela —, se você não

sabe fazer os trabalhos de casa, como afirma, acabará aprendendo

com o tempo, e, além do mais, não a porão imediatamente em

trabalhos pesados.

— Mas, se me puserem — retruquei — e eu não for capaz de

fazê-los, vão-me bater, e as criadas me castigarão para que eu

faça o trabalho pesado, e eu sou apenas uma criança e não

consigo fazê-los.

E pus-me novamente a chorar, tanto que não pude dizer mais

nada. Minha boa protetora ficou muito comovida e nesse preciso

momento resolveu que eu não seria empregada ainda. Pediu-me

para que não chorasse mais; ela haveria de falar com o senhor juiz

e eu não me tornaria uma criada antes de ser maior.

Pois bem, não fiquei satisfeita, porque a idéia de ser criada me

horrorizava. Se ela me tivesse prometido que eu só iria trabalhar

depois dos vinte anos, o efeito seria exatamente o mesmo. Creio

que teria chorado pela simples idéia de que um dia a coisa

acabaria por acontecer. Quando percebeu que não me havia

apaziguado, encolerizou-se:

— O que você quer ainda? — perguntou-me. — Já não lhe

disse que não será empregada antes de crescer?

— Sei, mas um dia eu vou ter de tornar-me criada.

— Como? O quê? Essa menina está ficando louca? O que você

pretende ser? Uma dama de sociedade?

— É isso mesmo — disse, e continuei chorando tanto que o

– 22 –

MOLL FLANDERS

meu coração parecia querer saltar do peito.

Tais palavras fizeram rir a velha senhora, como é possível imaginar.

— Pois bem, madame — indagou ela, ironizando —, a senhora

quer ser uma dama de sociedade. Mas, por favor, explique-me,

como haverá de conseguir isso? Será com as pontas de seus dedos?

— É claro — disse eu inocentemente.

— Mas como? O que é que você pode ganhar? O que

conseguirá com o seu trabalho?

— Três pence quando fiar e 4, quando fizer roupas pesadas.

— Triste dama de sociedade — acrescentou ela, rindo —, você

não irá longe dessa maneira.

— Mas isso será o suficiente, se a senhora deixar que eu more aqui.

Essa frase foi dita num tom de súplica humilde e encheu o

coração da pobre mulher de compaixão, como ela afirmaria mais

tarde.

— Mas — acrescentou ela ainda — isso não bastará para

comprar alimentos e roupas; e quem haverá de providenciar as

roupas para a senhorita? — E agora ela já sorria.

— Então trabalharei pesado e a senhora receberá tudo o que eu

receber.

— Pobre criança! Isso não seria suficiente para mantê-la. Mal

daria para a comida.

— Pois então, eu ficarei sem comer — acrescentei

inocentemente, pela segunda vez. — Mas deixe que eu fique com a

senhora.

— Mas como você pode viver sem comer?

— Como fazem as crianças pequenas — insisti ainda —, a

senhora pode crer. — E de novo desatei a chorar.

Eu não fazia nenhum cálculo naquele momento. E evidente que

só a natureza falava, embora acompanhada de tanta inocência e de

tanta paixão que, numa palavra, a boa e maternal criatura

começou a chorar também, e a soluçar tão forte quanto eu.

Depois, ela me tomou pela mão e me levou para fora da classe.

— Venha — disse —, você não irá trabalhar como criada,

porque viverá comigo.

E isso me tranqüilizou. Algum tempo depois, indo visitar o

prefeito e conversando com ele sobre suas atividades, minha

história surgiu e minha protetora fez um relato pormenorizado do

que se passava. O senhor prefeito mostrou-se tão encantado que

chamou a mulher e as duas filhas para ouvirem. Elas se

divertiram muito, não se tenha dúvida.

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OS IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL

Em todo caso, uma semana ainda não havia transcorrido

quando, imprevistamente, a esposa do prefeito apareceu com as

filhas, a fim de visitar minha velha protetora, sua escola e as

crianças. Depois de as ter examinado durante algum tempo, a

esposa do prefeito perguntou à protetora:

— Muito bem, minha senhora! Mas qual é, por favor, a menina

que deseja ser uma dama de sociedade?

Eu a ouvi e, a princípio, fiquei terrivelmente transtornada,

mesmo sem saber por que razão queria conhecer-me. A esposa do

prefeito, no entanto, veio ao meu encontro, dizendo:

— Olá, senhorita, qual o trabalho que está fazendo neste

momento? A palavra "senhorita" pertencia a uma linguagem a

que não estávamos acostumados na escola e eu me perguntei de

que triste nome me havia chamado. Apesar do que me levantei,

fiz uma reverência, enquanto ela apanhava meu trabalho,

examinava-o e dizia que estava muito bom. Em seguida, tomou-

me a mão.

— Com efeito, esta menina pode tornar-se uma grande dama,

pelo que se vê. Tem as mãos de uma dama de sociedade.

Tais palavras me agradaram muito, sem dúvida, mas a esposa

do prefeito não parou aí. Devolvendo-me o trabalho, pôs a mão

no bolso e retirou 1 xelim, que me deu, recomendando atenção ao

trabalho, porque eu poderia vir a ser uma dama de sociedade,

conforme observara.

Durante todo o tempo, porém, minha boa protetora, a esposa do

prefeito e todas as outras pessoas não haviam compreendido bem,

já que entendiam a expressão "dama de sociedade" de uma

maneira e eu, de outra completamente diferente. Isso porque,

pobre de mim, tudo o que eu compreendia por ser uma dama de

sociedade era trabalhar por minha conta e ganhar o suficiente para

o meu sustento, sem ser perseguida pelo terrível espantalho de vir

a ser uma criada, enquanto para os outros a expressão significava

levar vida farta, rica e nobre e não sei mais o quê.

Pois bem, depois da partida da esposa do prefeito, suas filhas

retornaram e pediram também para ver a dama de sociedade.

Falaram comigo por longo tempo. Respondi-lhes com minhas

maneiras inocentes. E, sempre que me perguntavam se estava

decidida a me tornar uma dama de sociedade, afirmava que sim.

Por fim, uma delas indagou o que era uma dama de sociedade.

Fiquei muito embaraçada. Mas, apesar disso, expliquei, de

maneira negativa, tratar-se de alguém que não era uma criada, que

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MOLL FLANDERS

não arrumava a casa. Minha familiaridade agradou-lhes bastante e

minha tagarelice as divertiu. Acabaram dando-me dinheiro

também.

Quanto ao dinheiro, entreguei-o à mestra-protetora, como a

chamava, afirmando que ela receberia tudo o que eu ganhasse,

quando fosse uma dama de sociedade, exatamente como agora.

Por estas e outras palavras, a velha tutora acabou compreendendo

aquilo que eu entendia por ser uma grande dama. E que eu não

queria dizer nada mais do que ganhar o pão com meu próprio

trabalho. Finalmente, ela indagou se havia compreendido bem.

Disse-lhe que sim e insisti: viver desse modo era o que tornava

alguém uma dama de sociedade.

— Porque eu conheço uma — dizia-lhe, nomeando uma

mulher que consertava rendas e lavava toucas de senhoras.

— É uma grande dama a quem se chama de madame.

— Minha pobre filha — respondeu minha boa e velha protetora

—, você bem pode vir a ser uma grande dama como essa, que é

pessoa de má reputação e teve dois ou três bastardos.

Não cheguei a perceber o que dizia, mas respondi:

— Estou certa de que a chamam de "madame" e não trabalha

como empregada nem faz arrumação de casas.

Esta era a razão pela qual eu sustentava tratar-se de uma grande

dama e desejava, seguindo o seu exemplo, tornar-me uma dama

de sociedade.

Evidentemente, a conversa foi repetida às senhoras, que se

divertiram muito. E a todo momento as filhas do senhor prefeito

vinham ver-me e indagavam onde estava a jovem dama de

sociedade, o que me deixava muito lisonjeada. Tais fatos duraram

algum tempo e freqüentemente eu recebia a visita dessas jovens.

Por vezes traziam com elas outras moças, de tal maneira que acabei

ficando conhecida em quase toda a cidade como a jovem dama de

sociedade.

Eu tinha então cerca de dez anos e começava a parecer uma

mulherzinha, visto ter um ar sério e modesto, muito honesto. E,

como tinha ouvido as senhoras dizerem que eu era bonita e que

me tornaria uma bela mulher, fiquei extremamente orgulhosa,

sem dúvida. Todavia, esse orgulho não teve más conseqüências

sobre meu caráter. Constantemente me davam dinheiro, que eu

entregava à minha protetora. Esta mulher era suficientemente

desinteressada e gastava a totalidade desse dinheiro comigo,

comprando-me chapéus, roupa branca, luvas e rendas. Assim, eu

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OS IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL

me vestia com decência e estava sempre limpa. Por causa disso,

ainda quando estava com as roupas remendadas, apresentava-me

limpa, pois eu mesma as lavava. Mas, como eu dizia, minha boa

protetora, quando me davam dinheiro, gastava-o muito

honestamente comigo e mencionava sempre às senhoras que isto

ou aquilo tinha sido comprado com o dinheiro que me haviam

dado. O que acarretava com freqüência que me dessem mais. Até

que um dia os magistrados julgaram que deveria começar a

trabalhar. Só que eu me tinha tornado tão boa operária, e as

senhoras eram tão gentis comigo, que era óbvio que eu poderia

manter-me, isto é, poderia ganhar suficiente dinheiro para minha

protetora para lhe ser possível hospedar-me. Foi o que ela lhes

disse: se quisessem dar-lhe permissão, ficaria com a dama de

sociedade, como costumava chamar-me, para ajudá-la e para dar

aulas às crianças, coisa de que eu já era capaz, pois trabalhava

com presteza, costurava muito bem, embora fosse ainda muito

jovem.

Mas a gentileza das senhoras da cidade não ficou por aí,

porque, quando souberam que eu não receberia mais o socorro

público como até então, passaram a dar-me dinheiro com mais

freqüência do que antigamente. E, quando cresci, deram-me

trabalho, roupa branca para confeccionar, rendas para consertar,

chapéus para fazer, e não somente me pagaram o devido, mas

ainda me ensinaram como realizar tais serviços. Dessa forma,

agora, eu era, de fato, uma dama de sociedade, no sentido que

emprestara ao termo e como o tinha desejado. Aos doze anos eu

me bastava, não apenas comprando roupas e pagando minha

hospedagem, mas também guardando minhas economias.

Era comum ainda que as senhoras me dessem suas roupas e as

de suas filhas: meias, saias, vestidos, uma coisa ou outra; cuidavam

de mim como o faria minha mãe. E a velha protetora consertava os

meus vestidos, obrigava-me a remodelá-los, a virá-los, tirando

deles o melhor proveito, pois ela era uma dona de casa excepcional.

Foi então que uma das senhoras teve um capricho quanto a

mim: pretendia que eu permanecesse na casa dela durante um

mês, para que fizesse companhia às filhas, afirmava. Ainda que

fosse excessivamente gentil de sua parte, como a boa e velha

protetora o afirmou, a não ser que ela resolvesse ficar comigo

definitivamente, faria à jovem dama de sociedade mais mal do que

bem.

— Pois bem! — retrucou a senhora. — É verdade. E por isso

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MOLL FLANDERS

eu a levarei para casa apenas por uma semana. E assim que eu

possa certificar-me de que minhas filhas e ela se entenderão bem