Moll Flanders por Daniel Defoe - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

e tenha apreciado seu temperamento, eu direi à senhora qual a

decisão. Durante esse tempo, se alguém vier vê-la, basta dizer que

foi passar uns dias em minha casa, por ordem sua. — Esse acerto

era muito prudente e eu fui para a casa da senhora. Mas lá eu

fiquei tão satisfeita em companhia das filhas, e elas tão satisfeitas

comigo, que foi difícil ir-me embora, pois elas não queriam mais

separar-se de mim.

Fui embora, porém, e vivi quase um ano ainda com minha

honesta e velha protetora. E nessa época fui-lhe de grande

utilidade, pois tinha quase catorze anos, era grande para a minha

idade e possuía aspecto de uma jovem mulher. Mas adquirira um

tal gosto pelo ambiente fino que encontrara na casa da outra

senhora, que pensava como seria agradável tornar-me

imediatamente uma dama de sociedade, uma vez que agora eu

tinha outra noção do que era ser uma grande dama. E eu pensava

que seria lindo transformar-me numa dama de sociedade, e

adorável estar entre grandes damas. E por essa razão eu desejava

retornar para a casa dela.

Quando eu tinha aproximadamente catorze anos e três meses,

minha boa e velha protetora — seria melhor chamá-la de minha

mãe — caiu doente e morreu. Em verdade, eu fiquei numa triste

situação, pois não é difícil regularizar as questões de família dos

pobres logo após terem sido enterrados. As crianças da paróquia

foram imediatamente retiradas pelos curadores; a escola foi

fechada e os alunos não tiveram outra alternativa senão

permanecer em casa, até que os mandassem para outra. E quanto

ao que ela havia deixado, sua filha, uma mulher casada que tinha

seis ou sete filhos, veio e levou tudo de imediato, e, retirando os

móveis, não hesitou em me dizer, ironicamente, que a dama de

sociedade podia estabelecer-se por conta própria, se o desejasse.

Eu estava quase louca de terror e não sabia o que fazer; estava,

por assim dizer, jogada pela porta no vasto mundo. E o que era

ainda pior: a velha e honesta mulher guardava 22 xelins meus,

que era tudo o que a dama de sociedade possuía. Quando eu

reclamei a quantia, a filha empurrou-me, riu e afirmou no meu

nariz que tal assunto não lhe interessava.

É bem verdade que a boa e pobre senhora havia mencionado o

fato à filha, indicando-lhe o lugar onde se encontrava o dinheiro

que era meu. E havia-me chamado uma ou duas vezes para que

– 27 –

index-28_1.jpg

OS IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL

me fosse devolvido, mas eu, infelizmente, havia saído, e quando

retornei ela já não se encontrava em situação de falar. A filha, no

entanto, foi muito honesta e acabou por me entregar a soma, se

bem que me houvesse tratado inicialmente com crueldade a esse

respeito.

Agora eu era definitivamente uma pobre dama de sociedade e

estava a ponto de ser lançada, nessa mesma noite, no imenso

mundo, porque a filha retirou todos os móveis e eu não tinha um

abrigo para onde ir, nem mesmo um pedaço de pão para comer.

Mas parece que algum dos vizinhos, sabendo o que ocorrera, teve

bastante compaixão para avisar a senhora da família junto à qual

eu passara uma semana, como já contei anteriormente. E

imediatamente essa senhora mandou uma empregada à minha

procura e duas de suas filhas vieram com a doméstica sem que

ninguém as tivesse mandado. E eu parti com elas, bolsa e

bagagem na mão e o coração muito feliz, como se pode imaginar.

O medo em relação ao meu estado me havia causado tal

impressão, que eu não desejava mais ser uma dama de sociedade,

mas estava pronta para tornar-me uma doméstica e aceitar

qualquer serviço para o qual me julgassem apta.

Mas minha nova e generosa mestra devia superar em tudo a

boa mulher em casa da qual estivera antes. Tanto a superava em

bens, como em tudo, diria eu, menos em honestidade. E, ainda

que esta senhora fosse justa no mais alto grau, eu não posso

esquecer de sempre dizer que a primeira, embora pobre, era tão

fundamentalmente honesta, que era impossível ser mais.

Mal havia sido levada por esta boa senhora de sociedade,

quando a primeira senhora, ou seja, a esposa do prefeito, enviou

suas duas filhas à minha procura. E ainda uma outra família que

me havia notado na época em que eu era uma pequena dama de

sociedade, e que me havia dado trabalho, saiu também no meu

encalço. Eu estava tremendamente lisonjeada. Mas o pior é que

ficaram muito zangadas, sobretudo a esposa do prefeito, a qual

declarou que sua amiga a traíra, porque eu lhe pertencia,

afirmava, por direito, já que ela fora a primeira a me descobrir.

Mas a família que me havia recolhido não quis separar-se de

mim. E, no que me toca, eu teria sido bem tratada junto a

qualquer delas, mas não poderia estar melhor do que agora me

encontrava.

– 28 –

0 IRMÃO MAIS VELHO

Ali fiquei dos dezessete aos dezoito anos, e tive todas as

vantagens de educação que se possa imaginar. Esta senhora fazia

vir à sua casa professores que ensinavam às filhas a dança, o

francês, ortografia, e outros que lecionavam música. Como eu

estivesse sempre presente, aprendia tão depressa quanto elas, se

bem que os professores não se ocupassem comigo. Aprendia,

através de imitação e de perguntas, tudo aquilo que elas

aprendiam por instrução e direção. Assim, em breve, eu dançava e

falava francês tão bem quanto elas, e cantava muito melhor, pois

tinha a voz mais bonita que a delas. Por outro lado, eu não

conseguia tocar bem o cravo e a espineta, visto não possuir

instrumentos para os exercícios e não poder tocar nos delas, só o

fazendo nos momentos em que não se exercitavam, o que não me

permitia um trabalho regular. Entretanto, aprendi a tocar de

maneira satisfatória. E quando, finalmente, as senhoritas

ganharam dois instrumentos, um cravo e uma espineta, elas

próprias me ensinaram as lições. Quanto à dança, não puderam

deixar de me ensinar a quadrilha, pois sempre tinham necessidade

de mim para completar o par. Por outro lado, estavam sempre

prontas a me ensinar aquilo que haviam aprendido, e eu, disposta

a aprender.

Foi dessa forma, como já disse anteriormente, que tive todas

as vantagens da educação que poderia ter tido, se fosse da

mesma condição daqueles com os quais vivia. E, sob certos

aspectos, levava vantagem sobre as senhoritas de sociedade,

apesar de elas serem superiores a mim, pois eu possuía dons da

– 29 –

OS IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL

natureza que toda a fortuna delas não poderia proporcionar.

Antes de mais nada, eu era a mais bonita; em segundo lugar, era

mais bem-feita; e, em terceiro, cantava melhor. Quero dizer que

tinha uma voz melhor, fato sobre o qual não estou dando minha

apreciação, mas a opinião, permitam-me dizê-lo, de todos aqueles

que conheciam a família.

Tudo isso me dava a vaidade comum ao meu sexo, ou seja,

sendo julgada muito bonita, ou, se quiserem, tomada como uma

rara beleza, eu reconhecia essas qualidades e fazia tão bom juízo

a meu respeito quanto qualquer outra pessoa. Adorava, em

especial, ouvir alguém falar disso, o que acontecia algumas vezes

e me dava grande prazer.

Até aqui foi fácil contar minha história. Durante todo esse

período da minha vida, eu tinha não só a reputação de viver numa

família muito boa, conhecida e respeitada por todos, por sua

virtude e seriedade, como também possuía a fama de uma jovem

séria, modesta e virtuosa, como até então realmente sempre fora.

Não tinha tido ainda a ocasião de pensar no mal ou de saber o que

significa uma tentação ou um vício.

A minha vaidade foi a causa da perdição. A dona da casa onde

eu morava tinha dois filhos, jovens, elegantes e bonitos, que

prometiam muito. E essa foi a minha desgraça, a de ser bem-vista

por ambos, embora eles se comportassem em relação a mim de

maneira totalmente diferente.

O mais velho, um rapaz alegre, conhecia a cidade tão bem

quanto o campo. Suficientemente leviano, não hesitaria em

cometer uma má ação. Tinha, porém, bastante bom senso para

pagar um preço muito alto por seus prazeres. Ele armou esta triste

peça em que caem todas as mulheres: não deixava escapar

ocasião para afirmar que eu era bonita, que eu era agradável, que

eu tinha um belo porte, e assim por diante. Tudo maquinou com a

sutileza de quem sabe fazer uma mulher cair em sua rede tão bem

quanto levantar uma perdiz na caça. Fazia questão de conversar

com suas irmãs em ocasiões em que, não estando eu presente mas

encontrando-me nas proximidades, podia ouvi-lo claramente.

Suas irmãs lhe respondiam a meia voz: "Silêncio, irmão, ela vai

ouvir, pois encontra-se no cômodo vizinho". Aí ele parava e

começava a falar mais baixo, como se não soubesse, dizendo que

havia feito mal. Em seguida, como por distração, recomeçava a

falar em voz alta. Eu ficava tão contente de ouvi-lo, que não

evitava escutar o que ele dizia, toda vez que a ocasião se

– 30 –

MOLL FLANDERS

apresentava.

Tendo assim colocado a isca no anzol e encontrado tão

facilmente um meio de pô-la ao meu alcance, acabou por adotar

um jogo mais franco. Um dia, ao passar pelo quarto de sua irmã, no

momento em que eu a ajudava a vestir-se, ele entrou com um ar

contente.

— Oh! Srta. Betty, como tem passado? Suas orelhas não estão

ardendo? — disse ele.

Fiz uma reverência, fiquei ruborizada, mas não respondi.

— Por que pergunta isso? — indagou a senhorinha.

— Ora, faz meia hora que falamos dela, lá embaixo.

— Bem — acrescentou a irmã —, você podia estar falando mal

dela, suponho. Logo, pouco importa o que disse.

— Qual nada! — exclamou ele. — Longe de falar mal, nós

falávamos muito bem. E a srta. Betty recebeu ótimos

cumprimentos, posso assegurar a você. Em particular, dizia-se

que é a mais bela jovem de Colchester. Dentro em breve, toda a

cidade beberá à sua saúde.

— Estou surpresa, meu irmão. Nada falta a Betty, mas talvez

fosse melhor que lhe faltasse tudo, já que nosso sexo tem pouco

valor nos dias que correm. Se uma jovem é bela, de boa origem,

educada, espirituosa, de bom senso, boas maneiras, modesta,

ainda que fosse ao máximo, não vale nada, se não tiver dinheiro.

Se faltar tudo, menos dinheiro, ela se torna desejável. Os homens

jogam com cartas marcadas.

O irmão mais novo, que aí se encontrava, discordou:

— Um momento, minha irmã, você vai muito depressa. Eu sou

uma exceção à regra. E lhe asseguro que, encontrando uma

mulher tão completa como você descreve, não me preocuparei

com o dinheiro.

— Ah! — respondeu a irmã. — Então terá o cuidado de não se

apaixonar por uma que não tenha dinheiro.

— Você não sabe o que diz.

— Mas por que, minha irmã? — interrompeu o mais velho. —

Por que opor-se ao interesse que a fortuna desperta nos homens?

Não lhe falta dinheiro, mesmo que, por acaso, lhe faltassem

outras coisas.

— Eu compreendo bem, meu irmão — replicou a senhorita em

tom mordaz —, que você pretende que eu tenha dinheiro sem

beleza. Mas nos dias de hoje o primeiro exercerá a função da

segunda e eu estou mais bem servida que as minhas vizinhas.

– 31 –

OS IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL

— Bem — acrescentou o irmão mais novo —, mas as suas

vizinhas, como você as chama, podem encontrar-se em pé de

igualdade com você, pois, às vezes, a beleza pode fascinar um

marido, apesar de não existir o dinheiro. E quando a empregada

tem a oportunidade de ser mais bonita que a patroa, pode fazer,

como já aconteceu, um bom casamento.

Julguei que era oportuno retirar-me, deixando-os a sós. Foi o

que fiz, sem me afastar demais, para que pudesse ouvir o que

diziam. Ouvi uma série de abundantes elogios a meu respeito que

excitaram minha vaidade, mas que, como descobri rapidamente,

serviam mal aos meus interesses na família, já que a irmã e o

irmão mais novo discutiram violentamente. E como ele tivesse a

meu respeito alguns propósitos que eram desagradáveis a ela,

pude perceber facilmente que ela ficou rancorosa, pelo modo

como se comportou em relação a mim posteriormente. O que, na

verdade, era injusto, uma vez que eu não tinha a menor idéia dos

sentimentos que ela suspeitava existirem em seu irmão mais

novo. Em compensação, o irmão mais velho, mantendo-se a

distância, havia mencionado todas as suas intenções, que eu tive a

loucura de supor sérias e que me enchiam de esperança. Eu não

devia ter acreditado que ele tivesse intenção de alimentá-la, nem

mesmo que tivesse sequer pensado nisso.

Aconteceu um dia que ele subiu correndo as escadas, em

direção ao quarto onde as irmãs costumavam ficar e trabalhar,

como freqüentemente ele o fazia. Comumente, ele as chamava,

antes de entrar. Eu estava sozinha no quarto e encaminhei-me até

a porta, dizendo:

— Senhor, as senhorinhas não estão aqui. Estão passeando

pelos jardins.

Como eu avançasse rumo à porta, enquanto falava, ele a abriu

bruscamente, e, tomando-me nos braços, como se fosse por acaso,

disse:

— Oh! Srta. Betty, você aqui? Ainda bem. Desejo falar mais

com você do que com elas.

E então, tendo-me nos braços, beijou-me três ou quatro vezes.

Eu me debati para me livrar, mas fi-lo tão sem vontade que ele

me manteve presa e continuou a me beijar até quase perder o

fôlego. Depois, sentando-se, disse-me:

— Betty, querida, estou apaixonado por você.

Essas palavras, devo confessar, fizeram-me ferver o sangue.

Meu coração dilatou-se e eu fiquei tão perturbada que ele o pôde

– 32 –

MOLL FLANDERS

verificar sem dificuldade, através do meu rosto. Em seguida, ele

repetiu várias vezes que estava apaixonado por mim e meu

coração dizia com a clareza de uma voz que eu estava encantada

com isso. Mais ainda, cada vez que ele dizia: "Estou apaixonado

por você", respondia nitidamente: "Bem que eu gostaria de que

fosse verdade, meu senhor".

Nada mais, porém, se passou dessa vez. Foi uma surpresa e,

quando ele partiu, eu me recompus depressa. Ele teria

permanecido por mais tempo perto de mim, mas por acaso,

olhando pela janela, percebeu que suas irmãs retornavam do

jardim. Então, ele se despediu, beijou-me novamente e afirmou

que era sério o que eu ouviria falar dele dentro em breve. E foi-se

embora, deixando-me infinitamente encantada, ainda que

surpresa. Não havia senão uma infelicidade nisso tudo, caso

contrário eu teria razão. Mas o mal-entendido consistia em que a

srta. Betty levava o caso a sério, o que não acontecia com o

cavalheiro.

A partir desse momento, minha cabeça se encheu de estranhos

pensamentos, e posso dizer, sem faltar à verdade, que eu não era

mais a mesma. Depois de um tal cavalheiro dizer que estava

enamorado e que eu era uma pessoa fascinante, como de fato ele

me havia dito, eu não sabia mais como comportar-me. Minha

vaidade subiu ao último grau. Com a cabeça cheia de orgulho e

não sabendo da perversidade da época, não havia um pensamento

que me salvaguardasse a virtude. E, se meu jovem senhor mo

houvesse proposto desde o início, teria podido tomar comigo

todas as liberdades que lhe apetecessem. Mas ele não

compreendeu sua superioridade, o que me salvou nesse momento.

Depois desse ataque, não demorou muito que encontrasse uma

ocasião para me abordar de novo e quase nas mesmas

circunstâncias. De fato, houve premeditação de sua parte, mas

não da minha. Foi assim: as senhoritas tinham ido com a mãe

fazer visitas; o irmão não estava na cidade e, quanto a seu pai,

encontrava-se em Londres já fazia uma semana. Ele havia notado

onde eu estava, enquanto eu não sabia sequer que ele se

encontrava em casa. Ele subiu rapidamente as escadas e, vendo

que eu trabalhava, encaminhou-se diretamente para mim, no

quarto, e começou, como da vez anterior, a beijar-me

seguidamente durante aproximadamente um quarto de hora.

Era no quarto de sua irmã mais moça que eu me encontrava, e,

– 33 –

OS IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL

como não houvesse ninguém em casa, senão os empregados, na

parte de baixo, ele foi mais impetuoso. Logo, ele começou a ser

intrépido de verdade. Talvez me julgasse um pouco fácil demais,

já que Deus é testemunha de que não lhe opus a menor

resistência. Tanto que ele se contentou de ter-me entre seus

braços e de me dar beijos. Com efeito, eu estava demasiadamente

deslumbrada para resistir-lhe.

Quando nos cansamos desse gênero de ocupação, sentamo-nos

e ele conversou comigo durante um longo tempo. Afirmou que

estava apaixonado por mim e que, dia e noite, não podia encontrar

repouso, de tal modo me amava. Disse ainda que, se eu retribuísse

o seu amor e o fizesse feliz, eu salvaria sua vida. Disse muitos

outros galanteios. Eu falei pouco, mas descobri sem muito custo

que era uma tola e não compreendia bem o que ele desejava.

Pôs-se a andar pelo quarto; tomando-me pelo braço,

caminhamos juntos. Súbito, usando sua força, jogou-me sobre a

cama e beijou-me ardentemente. Fazendo-lhe justiça, porém, não

se permitiu nenhuma grosseria, somente beijando-me durante

muito tempo. Depois disso, acreditando ouvir alguém subir as

escadas, saltou da cama e levantou-me, confessando ter um

infinito amor por mim. Falou que era uma afeição pura e que não

queria causar-me nenhum mal. Deixou 5 guinéus na minha mão e

desceu.

Fiquei mais atrapalhada por causa do dinheiro do que

anteriormente por causa do amor. A cabeça começou a girar de tal

modo que não sabia mais se meus pés tocavam a terra. Insisto

sobre isso, pois, se minha história vier a ser lida por qualquer

inocente jovem, ela deve aprender a ter cuidado com o prejuízo

que pode resultar quando se tem um conhecimento prematuro da

própria beleza. Desde que uma jovem se acredita bonita, ela não

pode colocar em dúvida a boa fé do primeiro pretendente que se

diz apaixonado por ela, pois, se ela acredita ter muitos encantos

para cativá-lo, é natural esperar o resultado disso.

Aquele cavalheiro tinha inflamado seus desejos tanto quanto

minha vaidade. Como se tivesse desconfiado que perdera uma

oportunidade, e lamentando não a ter aproveitado, ele retornou

dentro de meia hora, mas agora entrando diretamente no assunto.

E logo, assim que entrou no quarto, voltou-se e fechou a porta.

— Srta. Betty — disse ele —, tinha pensado ainda há pouco

que alguém tinha subido a escada, mas não era o caso. Todavia —

acrescentou ele —, se eles me encontrarem com você no quarto,

– 34 –

MOLL FLANDERS

não me apanharão beijando-a.

Eu lhe disse que não sabia quem poderia ter subido, pois

acreditava que não havia ninguém em casa senão a cozinheira e

outra empregada, e que elas nunca utilizavam a escada.

— Perfeito, minha querida — disse ele —, o melhor é ficar em

segurança.

Dito isto, assentou-se e recomeçamos a falar. Eu estava ainda

excitada com sua primeira visita e falando pouco. Ele colocou-me

as palavras na boca dizendo-me que me amava apaixonadamente

e que, embora não pudesse revelar o fato antes de herdar os bens,

ele já tinha decidido fazer a nossa felicidade, isto é, esposar-me. E

ainda me fez muitos elogios, pobre de mim, que não via a sua

intenção e me comportava como se não houvesse outra espécie de

amor senão aquele que conduz ao casamento. Se ele tivesse

falado sobre isso eu não teria razão nem poderia recusá-lo, mas

nós não havíamos chegado a esse ponto.

Não fazia muito tempo que estávamos sentados. Ele se

levantou e, cortando-me a respiração à custa de beijos, jogou-me

de novo sobre a cama. Estando ambos excitados, ele foi mais

longe do que a decência me permite contar. Eu não poderia

recusar-lhe nada, se ele tivesse ido mais longe do que foi.

Todavia, embora tivesse essas intimidades comigo, ele não foi

até aquilo que se chama "os últimos favores", e, sendo-lhe justa,

nem mesmo tentou. Esta renúncia lhe serviu de justificativa para

todas as liberdades que tomaria depois comigo. Quando isto

terminou, ele não ficou senão um breve momento. Colocou-me

um punhado de moedas na mão e deixou-me, fazendo mil juras de

sua paixão por mim, dizendo que me amava acima de todas as

mulheres do mundo.

Não pareceria estranho que eu começasse agora a pensar, mas,

pobre de mim, minhas reflexões não tinham nada de sério. Eu

tinha muita vaidade e orgulho. Nada ou quase nada de virtude.

Realmente, eu pensava, por vezes, onde meu jovem patrão queria

chegar, mas eu não me preocupava senão com os elogios e o

dinheiro. Se ele tinha ou não a intenção de casar-se comigo, isto

não me interessava. Antes de capitular, não pensava que pudesse

impor condições antes que ele viesse a me fazer uma espécie de

proposição formal, como ireis compreender mais à frente.

Desta maneira, eu me entregava à destruição sem o menor

cuidado. Forneço às jovens um belo exemplo de que a vaidade

triunfa sobre a virtude. Nada de mais estúpido de ambos os lados.

– 35 –

OS IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL

Se eu tivesse agido como convinha, e resistido como a virtude e a

honra exigiam, ou aquele cavalheiro teria renunciado aos seus

assédios, não tendo oportunidade de gozar a realização de suas

intenções, ou então ele teria feito honradas e dignas propostas de

casamento. Neste caso, se alguém tivesse que ser censurado,

ninguém poderia censurar a mim. Em suma, se ele tivesse

adivinhado e sabido como era fácil ter aquela bagatela que ele

desejava, não teria titubeado: dar-me-ia 4 ou 5 guinéus e dormiria

comigo na próxima vez em que viesse tentar-me. Se eu tivesse

adivinhado seus pensamentos, se soubesse o quanto ele acreditava

ser difícil conquistar-me, conseguiria impor minhas condições. E,

se eu não tivesse cedido por causa de um casamento imediato,

exigiria ser sustentada até o casamento, e obteria o que quisesse,

pois ele era muitíssimo rico. Mas eu tinha renunciado a tais

pensamentos e não me ocupava senão com o orgulho que a minha

beleza e o amor de um semelhante cavalheiro me davam. Quanto

ao dinheiro, eu passava horas e horas a olhá-lo; contava e recontava

os guinéus mil vezes por dia. Em verdade, creio que mais aspirava

à ruína do que procurava evitá-la.

Nesta época, eu era muito astuciosa para fornecer à família

qualquer suspeita da menor relação que pudesse ter com este

cavalheiro. Quando ele me falava em público, mal olhava para ele

ou lhe respondia. Mas, apesar de tudo, nós conseguíamos, de

quando em vez, um encontro que nos permitia trocar uma ou duas

palavras e um beijo acidental, mas sem surgir ainda uma ocasião

conveniente para o mal planejado; sobretudo, considerando que ele

dava mais voltas do que seria preciso, se tivesse lido meus

pensamentos... Mas, como a coisa lhe parecia difícil, ele procedia

assim.

O diabo, porém, é um tentador incansável, nunca deixa de

encontrar oportunidade para o pecado a que convida. Uma tarde,

eu estava, alegremente, no jardim, com suas duas irmãs. Ele

encontrou um meio de me deixar um bilhete nas mãos, onde me

fazia entender que desejava pedir-me, à vista de todos, que eu

fosse à cidade no dia seguinte para encontrar-me, desse modo,

com ele, em algum ponto do caminho. De fato, no dia seguinte,

depois do jantar, na presença das irmãs, ele falou seriamente:

— Srta. Betty, quero pedir-lhe um favor.

— O que é? — perguntou a segunda irmã.

— Bem, minhas irmãs — disse ele gravemente —, se vocês

não podem passar hoje sem a srta. Betty, ficará para outro dia.

– 36 –

MOLL FLANDERS

Não haveria problemas, disseram elas, e a irmã pediu

desculpas, pois fizera a pergunta sem nenhuma má intenção.

— Bem, meu irmão — disse a irmã mais velha —, você deve

explicar à srta. Betty de que se trata; se for um negócio pessoal que

nós não devamos ouvir, você falará com ela em lugar adequado.

— Como, minha irmã — disse o cavalheiro muito seriamente

—, que insinua você? Quero somente que ela passe na High

Street, numa loja. — E tirou do bolso um peitilho.

Então contou uma longa história de duas gravatas lindas que

ele pechinchara, e desejava que eu fosse comprar uma delas, para

combinar com o peitilho que ele mostrava. Eu deveria ver quanto

queriam pela gravata, regatear no preço e chegar até 1 xelim. Em

seguida, encarregou-me de outras encomendas e deu-me qualquer

trabalho para que eu pudesse ausentar-me por um bom tempo.

Quando me deu tudo o que tinha para fazer, contou uma longa

história de uma visita que tinha que fazer a uma família amiga,

onde devia encontrar certos cavalheiros, para se divertirem. Muito

cerimoniosamente, pediu às irmãs para acompanhá-lo, e elas se

desculparam, também cerimoniosamente, em virtude de

esperarem visitas para aquela tarde. Tudo isto, diga-se de

passagem, ele já tinha planejado. Mal terminara de falar e de me

indicar a tarefa, seu criado veio dizer-lhe que a carruagem de sir

W. H. acabava de chegar. Ele correu a ver e voltou rapidamente.

— Raios! — disse em voz alta. — Todo o meu prazer está

estragado. Sir W. H. mandou-me chamar, pois precisa discutir

negócios importantes.

Parece que este sir W. H. era um cavalheiro que morava a três

milhas da vila, a quem ele tinha manifestado a intenção, na

véspera, de lhe pedir a carruagem emprestada para um negócio

particular, e com quem tinha combinado que viria buscá-lo às três

horas, como o fez.

Rapidamente, pediu sua melhor peruca, seu chapéu, sua

espada, ordenou a seu criado que fosse desculpá-lo em outro lugar

— esta desculpa foi para livrar-se do criado — e subiu à

carruagem. Saindo, deteve-se um momento, falou a sério sobre

sua recomendação e disse baixinho:

— Venha, minha querida, o mais breve possível.

Eu não disse nada e apenas fiz a reverência, como para

responder àquilo que ele tinha dito em voz alta. Um quarto de

hora depois, saí, sem mesmo trocar a roupa, levando, porém, no

bolso uma touca, um véu, um leque e um par de luvas. Assim, não

– 37 –

index-38_1.jpg

OS IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL

levantei a menor suspeita em casa. Ele me esperava na

carruagem, na rua de trás, pela qual sabia que eu devia passar. O

cocheiro já sabia aonde devia ir: a um lugar chamado Mile-End,

onde morava um de seus amigos. Entramos. Aí encontramos

todas as comodidades do mundo para fazermos toda orgia que nos

agradasse.

Estando juntos, ele começou a me falar, muito gravemente, que

não estava ali para me enganar, que sua paixão por mim não lhe

permitiria abusos, que ele estava resolvido a me esposar tão logo

entrasse na posse dos seus bens. Portanto, se eu atendesse ao seu

pedido, ele me manteria honradamente. Jurou seu amor e sua

sinceridade, dizendo que jamais me abandonaria, e fez mil

preâmbulos sem necessidade.

Todavia, como ele me obrigasse a falar, eu lhe disse que não

tinha razão para duvidar de sua sinceridade, de seu amor por mim,

de suas juras, mas... aqui eu me detive para deixá-lo adivinhar o

resto.

— Que foi, minha querida? — disse ele. — Adivinho o que

quer dizer. O que aconteceria se ficasse grávida, não é isso? Pois

bem — continuou —, eu tomaria conta de você e da criança; para

que veja que não estou brincando, eis algo sério para você. Tirou

uma bolsa de seda com 100 guinéus e deu-ma. — Eu lhe darei —

prosseguiu ele — outro tanto, todos os anos, até nos casarmos.

Fiquei vermelha e depois empalideci, por causa da bolsa e de

sua proposta. Não lhe pude responder. Ele percebeu isso.

Colocou, então, a bolsa sobre meu seio. Não lhe fiz a menor

resistência, deixando-o fazer tudo o que lhe agradasse, quantas

vezes quisesse. Permiti, assim, de uma só vez, minha própria

destruição, pois, a partir daquele dia, minha virtude e meu pudor

me abandonaram. Eu não tinha mais nada que merecesse a bênção

de Deus ou a assistência dos homens.

Mas as coisas não ficaram neste pé. Voltei à vila. Fiz as

compras de que ele me tinha encarregado e voltei antes que

alguém tivesse notado minha longa ausência. Quanto ao meu

cavalheiro, ficou fora até bem tarde da noite, como ele me tinha

prevenido. A família não desconfiou de nada.

Depois, tivemos freqüentes ocasiões de continuar nosso caso,

especialmente em casa, quando sua mãe e as jovens partiam em

visitas, o que ele observava muito cuidadosamente, nunca

falhando. Sabia de antemão quando elas saíam, não deixando de

apanhar-me senão quando sozinha e em absoluta segurança. De

– 38 –

MOLL FLANDERS

modo que nos saciamos de nossos prazeres condenáveis durante

quase seis meses, e, para minha satisfação, eu não estava grávida.

– 39 –

0 IRMÃO MAIS MOÇO

Mas, antes que terminassem esses seis meses, seu irmão mais

moço, ao qual já fiz referência no começo desta história, entrou

no mesmo jogo comigo. Uma tarde, encontrando-me só no

jardim, iniciou a mesma história, fez-me boas e honestas juras de

amor e, logo, falou-me em casamento, com toda a honra, e isto

antes de fazer-me alguma proposta indecorosa.

Eu fiquei de tal maneira surpresa e fui conduzida a um tal

estado como nunca tinha experimentado antes em minha vida.

Recusei a proposta obstinadamente e comecei a arrumar

argumentos. Expliquei-lhe a nossa diferença social, o tratamento

que me dispensaria sua família, a ingratidão que isto representaria

para seus pais, que tinham me abrigado em sua casa de uma

maneira tão generosa quando eu me achava em situação precária.

Em suma, disse tudo o que pude para dissuadi-lo do seu intento,

salvo a verdade, que teria terminado com tudo, mas à qual eu não

ousaria sequer fazer alusão.

Aqui, contudo, aconteceu um fato que eu não esperava

realmente e que me deixou num beco sem saída: esse jovem

cavalheiro era franco e honesto, e não pretendia nada a não ser o

que fosse correto. Inocente que era, não tinha o cuidado de seu

irmão em guardar segredo na casa sobre sua inclinação pela srta.

Betty. Se bem que ele não tivesse demonstrado que me tinha

falado, fez o bastante para deixar claro a suas irmãs e sua mãe que

me amava. Se bem que elas não deixassem transparecer nada com

relação a mim, falaram com ele, e rapidamente eu percebi que

suas atitudes para comigo tinham mudado: não eram como antes.

– 40 –

MOLL FLANDERS

Vi a nuvem sem prever a tempestade. Era manifesto que sua

conduta tinha mudado e que cada dia tornava-se pior, até que

soube através dos criados que teria de ir-me em breve.

Esta notícia não me assustou, pois eu estava certa de que me

manteriam de outro modo, sobretudo considerando que eu poderia

ficar grávida de uma hora para outra, e que, então, teria de ser

mandada embora sem qualquer escusa.

Depois de algum tempo, o irmão mais moço aproveitou a

ocasião para revelar-me que seu amor por mim fora descoberto

pela família. Ele não me culpava, disse, pois conhecia como

tinham sabido do fato. Ele disse que suas palavras o tinham

traído, pois não tinha guardado segredo de seu amor por mim. Se

eu quisesse, ele diria abertamente a todos que me amava e que

desejava esposar-me. Seus pais poderiam ficar furiosos,

mostrando-se intratáveis, mas ele estava agora seguro de ganhar

sua própria vida, tendo terminado os estudos de direito, e não

temia ter de sustentar-me, como eu poderia esperar que

acontecesse. Em resumo, como ele acreditasse que eu não teria

vergonha dele, ele não teria vergonha de mim. Parecia-lhe

desprezível o medo de confessar seu amor por aquela que ele

tinha decidido fazer sua esposa. E, assim, eu não teria outra coisa

a fazer senão dar-lhe minha mão e ele responderia pelo resto.

Eu estava, de fato, numa terrível situação, e arrependia-me de

coração de minha leviandade com o irmão mais velho, não por

uma reflexão séria sobre minha conduta, mas em consideração à

felicidade que poderia gozar e que eu agora tinha tornado

impossível. Se bem que não estivesse a lutar com grandes

remorsos de consciência, como disse, não podia consentir em ser

amante de um irmão e esposa de outro. Lembrei-me então de que

o irmão mais velho me tinha prometido casar-se comigo quando

dispusesse de seus bens. Mas, ao mesmo tempo, lembrei-me de

que ele jamais havia dito uma palavra sobre casamento após ter-

me ganho como amante, e, na verdade, até agora, se bem que eu

dissesse estar constantemente prevenida sobre isso, não tinha

nenhuma dúvida a respeito, pois sua afeição por mim não parecia

ter diminuído em nada, bem como sua generosidade. Porém, tinha

ele a discrição de pedir-me que não gastasse nada do que ele me

dava em roupas, nem fizesse a menor exibição, pois isso

produziria, necessariamente, inveja na família, onde cada um

sabia que eu não podia conseguir essas coisas de uma maneira

normal, mas somente através de uma ligação secreta, da qual

– 41 –

OS IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL

suspeitariam imediatamente.

Mas eu estava agora num grande embaraço e não sabia

verdadeiramente o que fazer. A principal dificuldade era a

seguinte: o irmão caçula não somente me fazia a corte, como

permitia que o vissem fazê-lo. Ele entrava no quarto da irmã ou

da mãe, sentava-se e proferia mil elogios à minha pessoa, e em

minha presença, mesmo diante delas. Isso tornou-se de tal

maneira público que toda a casa comentava, e sua mãe o

censurava por isto; e a conduta delas a meu respeito mudou

completamente. Em suma, sua mãe havia deixado escapar

algumas palavras, como se tivesse a intenção de me excluir da

família, ou, em outras palavras, de me colocar na rua. Eu estava

certa de que seu irmão estava a par disso. Somente podia não lhe

haver ocorrido, como a ninguém ocorrera, que seu irmão mais

moço me havia feito uma proposta. Mas, como eu via facilmente

que as coisas não se conteriam, percebi que havia necessidade

absoluta de lhe falar sobre isso ou de que ele tocasse no assunto.

Eu não sabia o que fazer: calar o sujeito ou esperar que ele se

calasse.

Após séria reflexão, pois na verdade, agora, começava a fazê-

lo, o que até então não era meu hábito, resolvi falar-lhe

primeiramente. Não tardei a encontrar ocasião, pois no dia

seguinte seu irmão foi a Londres a negócios e a família saiu para

visita, como era comum. Ele chegou, segundo o seu costume,

disposto a passar uma ou duas horas com a srta. Betty.

Ao entrar e sentar-se, por um momento, ele percebeu a

alteração de minha fisionomia. Eu não tinha a mesma

desenvoltura livre e agradável de costume, e, além disso, havia

chorado. Observando meu estado, ele me perguntou com

gentileza o que me havia causado aborrecimento. Eu teria

disfarçado bem, se pudesse, mas não podia dissimular. Depois

de ter-me importunado por muito tempo para extrair justamente

o que eu tanto desejava descobrir, eu lhe disse que, em verdade,

alguma coisa me atormentava, e de tal maneira que não podia

encobri-la. Entretanto, eu não sabia como revelá-la. Era algo que

não somente me surpreendia como me lançava numa grande

perplexidade, não sabendo que resolução tomar, a menos que ele

quisesse aconselhar-me. Disse-me com grande ternura que

qualquer coisa que fosse, eu não devia inquietar-me, porque ele

me protegeria contra o mundo inteiro.

Comecei então a dizer-lhe que temia que sua gente tivesse

– 42 –

MOLL FLANDERS

sabido de nossa ligação, pois não era difícil ver que sua conduta

para comigo mudara muito desde algum tempo. Censuravam-me

por banalidades e algumas vezes repreendiam-me seriamente, se

bem que nunca lhes desse o menor motivo. Enquanto,

anteriormente, eu dormia sempre com a irmã mais velha, agora

faziam-me dormir só ou com uma das empregadas. Eu as havia

ouvido, diversas vezes, falando muito maldosamente sobre mim.

Mas o que comprovava tudo era que uma das criadas me contara

que ouvira dizer que eu seria posta na rua, não podendo ficar mais

tempo na casa, para segurança da família.

Ele sorriu quando ouviu tudo isso e perguntei-lhe como podia

aceitar esta situação tão levianamente, pois sabia que a menor

descoberta me deixaria perdida, assim como a ele causaria dano,

embora não o arruinasse tanto quanto a mim. Eu lhe censurei

por ser como todos os homens que, na ocasião em que tivessem

à sua mercê a reputação e a honra de uma mulher, fariam disso

objeto de zombaria e olhá-las-iam como uma bagatela, não

levando em conta a ruína daquelas que seduziam de acordo com

suas vontades.

Percebendo que eu me inflamava e me mantinha séria, logo

mudou de estilo. Disse-me que estava irritado por eu fazer tal

idéia dele. Ele nunca me havia dado o menor motivo e tinha

estado tão preocupado com minha reputação quanto com a dele.

Estava certo de que nossa ligação tinha sido dirigida com tanto

cuidado que ninguém da família não possuía senão suspeitas. Se

ele havia sorrido quando eu lhe revelei meus pensamentos, era

porque estava seguro de que ninguém observara nem adivinhara

nosso relacionamento. E tão logo me dissesse suas razões de estar

feliz, eu sorriria com ele, pois estava certo de que elas me dariam

inteira satisfação.

— Eis um mistério que eu não posso entender — disse eu. —

Como estarei satisfeita de ser colocada no olho da rua? Pois, se

nossa ligação não estiver descoberta, ignoro o que fiz e o que faço

para mudar a atitude da família a meu respeito e fazer-me tratar

como eles o fazem agora. Eles outrora me mostravam tanta

ternura como se fosse uma de suas próprias filhas.

— Mas veja você, minha menina — disse ele —, é verdade

que estão inquietos quanto à sua pessoa, mas que tenham a

menor suspeita do caso que concerne a nós, está muito longe da

verdade. Eles suspeitam de meu irmão Robin. Em suma, estão

completamente convencidos de que ele lhe fez a corte. Pois

– 43 –

OS IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL

bem, foi o próprio pateta que lhes revelou, pois não cessa de

fazê-los crer nisso, mostrando ser pessoa de galanteios.

Confesso que é errado agir assim, pois ele deveria ver que isso os

irrita, indispondo-os contra você. Mas eu fico satisfeito com isso,

porque não se suspeita o mínimo de mim, e espero que você fique

contente também sabendo disso.

— Estou contente, de uma certa forma. Mas isso ainda não me

deixa tranqüila e não é minha principal preocupação, porque

estou muito apreensiva.

— O que é agora? — disse ele.

No íntimo, eu me pus a chorar, e não consegui dizer-lhe nada.

Ele tentou acalmar-me da melhor forma, mas começou a

atormentar-me para que dissesse o que estava havendo.

Finalmente, respondi que pensava dever dizer-lhe, pois ele tinha o

direito de sabê-lo. Além disso, eu precisava de seus conselhos,

pois estava tão perplexa que não sabia que partido tomar. Contei-

lhe tudo. Disse-lhe quão imprudente seu irmão havia sido,

espalhando a coisa, pois, se ele tivesse guardado segredo, como

convinha em semelhante caso, eu teria podido refutar tudo

categoricamente sem dar nenhuma razão, e ele teria renunciado

ao seu objetivo. Mas logo tivera a vaidade de se vangloriar,

pensando que eu não o refutaria. Em seguida, tomara a liberdade

de contar a todos da casa sobre sua resolução de me conquistar, e

eu lhe disse até que ponto resisti e como as ofertas foram sinceras

e honradas.

— Mas — continuei — minha situação tornar-se-á duplamente

difícil, pois, se eles me tratam mal agora, porque ele quer

conquistar-me, tratar-me-ão ainda muito pior quando descobrirem

que eu o recusei. Dirão, então, que deve haver outra coisa

encoberta, possivelmente que já sou casada, do contrário não

recusaria uma aliança tão acima de mim como esta.

Certamente este discurso o surpreendeu muito. Disse-me que

era verdadeiramente uma situação crítica e não via como eu

poderia livrar-me desse embaraço, mas que refletiria sobre o

assunto e me comunicaria no nosso próximo encontro qualquer

resolução que tomasse. Entrementes, solicitava que eu não desse

meu consentimento a seu irmão, nem uma recusa brutal, mas que

eu o mantivesse em suspense por algum tempo.

Fingi sobressaltar-me às suas palavras "não desse meu

consentimento". Disse-lhe que sabia muito bem que não teria

– 44 –

MOLL FLANDERS

consentimento a dar. Ele prometera casar-se comigo e eu lhe

havia dado o meu "sim". Havia-me repetido, por todo esse tempo,

que eu era sua mulher; portanto, que me considerava como tal,

como se a cerimônia se tivesse realizado; que agira de acordo

com suas próprias palavras; que ele me convencera a chamar-me

sua esposa.

— Bem, minha querida, não precisa preocupar-se com isso por

agora. Se não sou seu marido, gostaria de fazer as vezes de um

esposo. Não permita que essas coisas a perturbem. Deixe-me

aclarar um pouco esta questão e poderei dizer-lhe algo mais em

nosso próximo encontro.

Acalmou-me como pôde. Porém, achei que ele ficou pensativo;

embora se mostrasse muito delicado comigo, me beijasse mil

vezes e também me desse dinheiro, creio, entretanto, que não

empreendeu mais nada durante o tempo em que ficamos juntos —

mais de duas horas. Na verdade, isso muito me surpreendeu,

considerando seus hábitos e a ocasião em que nos encontrávamos.

Seu irmão só voltou de Londres depois de cinco ou seis dias, e

só dois dias depois é que teve ocasião de lhe falar. Então,

chamando-o em particular, ele começou a falar-lhe muito

secretamente. Na mesma tarde, teve ocasião (já que nós ficamos

muito tempo conversando) de me repetir toda a conversa, que, se

bem me lembro, tomou o seguinte rumo: ele lhe disse que ouvira

estranhas notícias a seu respeito, desde sua partida, ou seja, que

ele cortejava a srta. Betty.

— Perfeitamente — disse seu irmão com um pouco de raiva

—, é o que eu faço. Que lhe importa isso?

— Não fique zangado, Robin, eu não me importo e não

pretendo meter-me nisso. Mas acho que elas se preocupam com o

fato e têm sido rigorosas com a pobre moça, e sofro com isso

como se fosse comigo.

— O que você quer dizer por "elas"? — perguntou Robin.

— Eu quero dizer minha mãe e suas filhas — disse o irmão

mais velho. — Mas escute, está falando sério? Você ama

realmente a moça? Sabe que pode ser franco comigo...

— Então — disse Robin —, serei franco com você. Eu a amo

mais do que a todas as mulheres do mundo, e desejo possuí-la.

Digam elas o que quiserem, acredito que a moça não me recusará.

Fiquei amargurada quando ele me disse isso, pois, ainda que

fosse muito razoável crer que eu não o repeliria, eu sabia,

conscientemente, que devia afastá-lo e isso seria minha perdição.

– 45 –

OS IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL

Entretanto, sabia que era de meu interesse falar de outro modo

nesse momento, tanto que o interrompi.

— Muito bem — disse eu —, se ele pensa que não posso

repeli-lo, está muito enganado.

— Bem, minha querida — disse ele —, deixe-me contar-lhe

toda a história, tal qual se passou entre nós, e, em seguida, você

dirá o que quiser.

Continuou então o relato, dizendo que replicou desta maneira:

"Mas, meu irmão, você sabe que ela não tem nada, e você pode

conseguir várias moças com fortunas enormes". Aí Robin disse:

"Não se trata disso, eu a amo, e nunca me casarei por dinheiro, e

sim por amor".

— E veja, minha querida — continuou ele —, não há nada que

lhe resista.