Na Ilha por Tracey Garvis Graves - Versão HTML

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Copyright © Tracey Garvis Graves, 2012

TÍTULO ORIGINAL

On the Island

TRADUÇÃO

Maria Carmelita Dias

PREPARAÇÃO

Rafael Rodrigues

FOTOS DE CAPA

PhotoAlto/Frederic Cirou/Getty Images, Monica & Michael Sweet/Getty Images

ADAPTAÇÃO DE CAPA

ô de casa

GERAÇÃO DE EPUB

Simplíssimo Livros

REVISÃO DE EPUB

Juliana Pitanga

E-ISBN

978-85-8057-403-6

Edição digital: 2013

Todos os direitos desta edição reservados à

Editora Intrínseca Ltda.

Rua Marquês de São Vicente, 99, 3º andar

22451-041 – Gávea

Rio de Janeiro – RJ

Tel./Fax: (21) 3206-7400

www.intrinseca.com.br

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Para Meira

CAP Í TULO 1

Anna

Junho de 2001

Eu tinha trinta anos quando o hidroavião no qual T.J. Callahan e eu estávamos viajando caiu no oceano Índico. T.J. tinha dezesseis e estava havia três meses em remissão de um linfoma de

Hodgkin. O nome do piloto era Mick, mas ele morreu antes de atingirmos a água.

Meu namorado, John, me levou até o aeroporto, embora ele fosse o terceiro na lista das pessoas que eu gostaria que me levassem, atrás da minha mãe e da minha irmã, Sarah. Atravessamos a

multidão, puxando malas pesadas com rodinhas, e fiquei pensando se todos em Chicago tinham

decidido voar para algum lugar naquele dia. Quando finalmente chegamos ao guichê da US Airways, o atendente do check-in sorriu, etiquetou minha bagagem e me entregou o cartão de embarque.

— Obrigado, Srta. Emerson. Já fiz seu check-in para Malé. Tenha uma boa viagem.

Enfiei meu cartão de embarque na bolsa e virei para me despedir de John.

— Obrigada por me trazer.

— Eu acompanho você, Anna.

— Não precisa — falei, balançando a cabeça.

Ele hesitou.

— Mas eu quero.

Arrastamos os pés em silêncio, seguindo a turba dos passageiros que avançava lentamente. No

portão, John perguntou:

— Como ele é?

— Magro e careca.

Esquadrinhei a multidão e sorri quando avistei T.J., porque agora sua cabeça estava coberta por cabelos castanhos curtos. Acenei, e ele me respondeu com um movimento de cabeça enquanto o

garoto sentado ao lado dele o cutucava nas costelas com o cotovelo.

— Quem é o outro? — perguntou John.

— Acho que é um amigo dele, Ben.

Esparramados nas cadeiras, os dois vestiam-se como a maioria dos garotos de dezesseis anos:

camisetas, bermudas esportivas largas e compridas e tênis com cadarços desamarrados. Uma mochila azul-marinho estava no chão aos pés de T.J.

— Tem certeza de que quer fazer isso? — perguntou John.

Ele enfiou as mãos nos bolsos de trás e fitou o carpete surrado do aeroporto.

Bem, um de nós tem que fazer alguma coisa.

— Tenho.

— Por favor, não tome nenhuma decisão antes de voltar.

Vindo da parte dele, era um pedido no mínimo irônico, mas achei melhor não tocar no assunto.

— Eu disse que não iria tomar.

Mas, na verdade, só havia mesmo uma opção. Eu só decidira adiá-la até o fim do verão.

John colocou os braços em volta da minha cintura e me beijou, por muitos segundos a mais do

que deveria fazê-lo em público. Constrangida, me afastei. Pelo canto do olho, percebi que T.J. e Ben observavam tudo.

— Amo você — disse ele.

Fiz que sim com a cabeça.

— Eu sei.

Resignado, ele pegou minha mala de mão e pendurou a alça no meu ombro.

— Boa viagem, meu amor. Ligue quando chegar.

— Tudo bem.

John foi embora, e fiquei observando até que a multidão o engolisse; então, alisei a frente da minha saia e andei até os garotos. Eles foram baixando o olhar enquanto eu me aproximava.

— Oi, T.J. Você está ótimo. Pronto para ir?

Seus olhos castanhos encontraram os meus brevemente.

— Claro.

Ele tinha ganhado peso, e seu rosto não estava tão pálido. Usava aparelho odontológico, fato que eu não notara antes, e tinha uma pequena cicatriz no queixo.

— Oi, sou Anna — apresentei-me para o garoto sentado ao lado de T.J. — Você deve ser Ben.

Como foi sua festa?

Ele deu uma olhadela para T.J., confuso.

— Hum, foi legal.

Puxei meu celular e verifiquei a hora.

— Já volto, T.J. Vou checar nosso voo.

Enquanto eu me afastava, ouvi Ben dizer:

— Cara, sua babá é uma gata.

— Ela é minha tutora, idiota.

Não dei importância àquelas palavras. Eu era professora de ensino médio e considerava os

ocasionais comentários de garotos com hormônios em ebulição um risco profissional razoavelmente benigno.

Depois de confirmar que ainda estávamos na hora, voltei e me sentei na cadeira vazia ao lado de T.J.

— Ben foi embora?

— Foi. A mãe dele se cansou de ficar dando voltas no aeroporto. Ele não queria que ela entrasse com a gente.

— Quer comer alguma coisa?

Ele negou com um aceno de cabeça.

— Não estou com fome.

Ficamos sentados em um silêncio constrangedor até a hora do embarque. T.J. me seguiu pelo

corredor estreito até nossos assentos na primeira classe.

— Quer ficar na janela? — perguntei.

T.J. deu de ombros.

— Claro. Obrigado.

Eu me afastei e esperei até que ele estivesse sentado, e então afivelei meu cinto de segurança ao lado dele. Ele tirou um CD player portátil da mochila e colocou os fones de ouvido. Era sua

maneira sutil de me dizer que não estava interessado em conversar. Tirei um livro da minha mala de mão, o piloto decolou, e deixamos Chicago para trás.

* * *

As coisas começaram a dar errado na Alemanha. Deveria ter levado pouco mais de dezoito horas

para voarmos de Chicago até Malé — capital das Maldivas —, porém, depois de problemas

mecânicos e atrasos por conta do clima, acabamos passando o restante do dia e metade da noite no Aeroporto Internacional de Frankfurt, esperando que a companhia aérea nos realocasse. Finalmente, depois de termos sido confirmados no voo seguinte, T.J e eu nos vimos sentados em cadeiras duras de plástico às três horas da madrugada. Ele esfregou os olhos.

Apontei para uma fileira de cadeiras vazias.

— Pode deitar se quiser.

— Estou bem — disse ele, controlando um bocejo.

— Só vamos partir daqui a muitas horas. Você devia tentar dormir.

— E você? Não está cansada?

Eu estava exausta, mas T.J. provavelmente precisava descansar mais do que eu.

— Estou bem. Vá em frente.

— Tem certeza?

— Absoluta.

— Tudo bem. — Ele sorriu timidamente. — Obrigado. — Esticou-se nas cadeiras e caiu no

sono imediatamente.

Olhei pela janela e observei os aviões que pousavam e decolavam, as luzes vermelhas piscando

no céu noturno. O ar-condicionado gelado me causava arrepios nos braços, e, como eu vestia saia e blusa sem mangas, tremia de frio. Em um banheiro próximo, troquei a roupa por jeans e uma

camiseta de mangas compridas que trouxera na mala de mão. Depois, comprei um café. Quando

voltei a me sentar ao lado de T.J., abri meu livro e fiquei lendo até o momento de acordá-lo, três horas depois, quando chamaram nosso voo.

Houve mais atrasos depois de chegarmos ao Sri Lanka — dessa vez devido à escassez de

tripulação —, e, quando aterrissamos no Aeroporto Internacional de Malé, a casa alugada pelos

Callahan para o verão ainda ficava a duas horas via hidroavião, e eu estava acordada havia trinta horas. Minhas têmporas latejavam e meus olhos, secos e ardendo, queimavam. Quando disseram que não havia reservas para nós, pisquei para afastar as lágrimas.

— Mas tenho o código de confirmação — expliquei para o atendente do check-in, deslizando o

pedaço de papel pelo balcão. — Atualizei nossa reserva antes de sairmos do Sri Lanka. Dois assentos.

T.J. Callahan e Anna Emerson. Pode olhar novamente, por favor?

O atendente verificou no computador.

— Desculpe-me — disse ele. — Seus nomes não estão na lista. O hidroavião está cheio.

— E o próximo voo?

— Vai escurecer logo. Hidroaviões não voam depois do pôr do sol. — Percebendo minha

expressão desolada, ele me lançou um olhar solidário, digitou algo no computador e pegou o

telefone. — Vou ver o que posso fazer.

— Obrigada.

T.J. e eu entramos em uma pequena loja de presentes, e comprei duas garrafas de água.

— Você quer uma?

— Não, obrigado.

— Por que não coloca na sua mochila? — sugeri, entregando uma garrafa para ele. — Você

pode querer mais tarde.

Tirei um frasco de analgésico da bolsa, joguei dois comprimidos na mão e engoli com a água.

Nós nos sentamos em um banco, e liguei para a mãe de T.J., Jane, para avisar que não nos esperasse antes da manhã seguinte.

— Pode ser que eles consigam outro voo, mas acho que não vamos viajar hoje à noite. Os

hidroaviões não voam depois de escurecer, então talvez tenhamos que passar a noite no aeroporto.

— Sinto muito, Anna. Você deve estar exausta — disse ela.

— Está tudo bem. Vamos chegar aí amanhã, com certeza. — Cobri o telefone com a mão. —

Quer falar com sua mãe? — T.J. fez careta e negou com a cabeça.

Reparei no atendente do check-in acenando para mim. Ele sorria.

— Jane, ouça, acho que talvez... — E então a ligação caiu.

Coloquei o telefone de volta na bolsa e me aproximei do balcão, apreensiva.

— Um piloto de um voo fretado pode levar vocês até a ilha — disse o atendente. — Os

passageiros que ele deveria levar tiveram um atraso no Sri Lanka e só vão chegar amanhã.

Sorri, aliviada.

— Que maravilha! Obrigada por encontrar um voo para nós. Agradeço de verdade. — Tentei

ligar para os pais de T.J. de novo, mas meu celular estava sem sinal. Minha esperança era conseguir ligar quando chegássemos à ilha. — Está pronto, T.J.?

— Estou — respondeu ele, pegando a mochila.

Um micro-ônibus nos levou para o terminal de táxi aéreo. O atendente fez nosso check-in no

balcão e saímos.

O clima das Maldivas me lembrava o da sauna a vapor da academia de ginástica que eu

frequentava. Imediatamente, gotas de suor brotaram na minha testa e na minha nuca. O jeans e a camiseta de mangas compridas mantinham o ar quente e úmido na minha pele, e desejei ter trocado a roupa novamente por outra mais fresca.

O calor é tão sufocante assim o tempo todo?

Um funcionário do aeroporto estava no cais perto de um hidroavião que oscilava suavemente na

superfície da água. Ele fez um sinal para nós. Quando T.J. e eu o alcançamos, ele abriu a porta, e então baixamos a cabeça e subimos a bordo do avião. O piloto estava sentado e sorriu com a boca cheia de cheeseburger.

— Oi, eu sou o Mick. — Ele acabou de mastigar e engoliu. — Espero que não se importem se

eu terminar meu jantar.

Ele parecia ter cinquenta e tantos anos e estava tão acima do peso que mal cabia no assento do piloto. Usava bermuda cargo e a camiseta tie-dye mais larga que eu já vira. Estava descalço. Gotas de suor salpicavam seu lábio superior e sua testa. Comeu o último pedaço do cheeseburger e enxugou o rosto com o guardanapo.

— Sou Anna, e esse é T.J. — apresentei-nos, sorrindo e estendendo a mão para cumprimentá-

lo. — E é claro que não nos importamos.

O DHC-6 Twin Otter tinha lugar para dez pessoas e cheirava a mofo e combustível de avião.

T.J. afivelou o cinto de segurança e ficou olhando pela janela. Eu me sentei do outro lado do

corredor na mesma fileira que ele, coloquei a bolsa e a mala de mão embaixo do banco e esfreguei os olhos. Mick ligou os motores. O barulho sufocava a voz dele, mas, quando ele virou a cabeça, percebi que seus lábios se moviam enquanto ele se comunicava com alguém pelo rádio. Ele nos

levou para longe do píer, ganhou velocidade e levantamos voo.

Amaldiçoei minha incapacidade de dormir em aviões. Sempre invejei aqueles que desmaiavam

no minuto em que o avião decolava e não acordavam até que o trem de pouso tocasse a pista.

Tentei cochilar, mas a luz do sol entrando pela janela e meu relógio biológico confuso não

permitiram que eu relaxasse. Quando desisti e abri os olhos, deparei com T.J. me encarando. Se a expressão em seu rosto e o calor no meu significavam alguma coisa, nós dois ficamos constrangidos.

Ele se virou, ajeitou a mochila sob a cabeça e adormeceu alguns minutos depois.

Sem conseguir descansar, desafivelei meu cinto de segurança e fui perguntar a Mick quanto

tempo demoraria até que pousássemos.

— Mais ou menos uma hora. — Ele fez um gesto na direção da cadeira do copiloto. — Pode se

sentar aí se quiser.

Eu me sentei e afivelei o cinto de segurança. Protegendo os olhos do sol, admirei a vista de tirar o fôlego. Em cima, o céu, sem nuvens e cor de cobalto. Embaixo, o oceano Índico, um redemoinho de verde-menta e azul-turquesa.

Mick esfregou o meio do peito com o punho. Depois pegou um pote de antiácidos e colocou

um comprimido na boca.

— Azia. É isso que ganho por comer cheeseburger. Mas é tão mais gostoso do que uma maldita

salada, não é?

Ele riu, e concordei com a cabeça.

— Então, de onde vocês são?

— De Chicago.

— O que você faz em Chicago? — Ele jogou outro antiácido na boca.

— Ensino inglês no ensino médio.

— Ah, férias de verão.

— Bem, não para mim. Normalmente, trabalho como tutora de alunos no verão. — Fiz um

gesto em direção a T.J. — Os pais dele me contrataram para ajudá-lo a alcançar a turma. Ele tem linfoma de Hodgkin e perdeu muitas aulas.

— Achei mesmo você muito nova para ser mãe dele.

Sorri.

— Os pais e as irmãs dele já estão lá há alguns dias.

Não pude partir tão cedo quanto os Callahan porque as férias de verão da escola pública onde eu lecionava começavam depois das da escola privada que T.J. frequentava. Quando T.J. descobriu,

convenceu os pais a deixá-lo ficar em Chicago no fim de semana e voar comigo. Jane Callahan me ligara para ver se estava tudo bem.

— O amigo dele, Ben, vai dar uma festa. Ele realmente quer ir. Tem certeza de que não se

importa? — perguntou ela.

— Nem um pouco — respondi. — Vai ser uma oportunidade de nos conhecermos.

Eu só havia encontrado T.J. uma vez, na entrevista com os pais dele. Levaria um tempo para ele se sentir à vontade comigo; era sempre assim quando eu começava com um aluno novo,

principalmente um adolescente.

A voz de Mick interrompeu meus pensamentos.

— Quanto tempo você vai ficar?

— Durante o verão. Eles alugaram uma casa na ilha.

— Então ele está bem agora?

— Está. Os pais disseram que ele ficou bastante mal por um tempo, mas está em remissão há

alguns meses.

— Belo lugar para um trabalho de verão.

Sorri.

— Ganha da biblioteca.

Voamos em silêncio por um tempo.

— São realmente mil e duzentas ilhas aqui? — perguntei. Eu só tinha contado três ou quatro,

espalhadas pela água como peças gigantes de um quebra-cabeça. Esperei pela resposta. — Mick?

— O quê? Ah, sim, mais ou menos. Somente cerca de duzentas são habitadas, mas acho que isso

vai mudar com todas as construções. Tem um hotel ou resort novo abrindo todo mês. — Ele deu

uma risada. — Todos querem um pedaço do paraíso.

Mick esfregou o peito novamente e tirou o braço esquerdo do manche, esticando-o na frente

dele. Percebi sua expressão de dor e o brilho luminoso de suor na sua testa.

— Você está bem?

— Estou. Só que nunca tive uma azia tão forte assim. — Ele colocou mais dois antiácidos na

boca e amassou o envelope vazio.

Uma sensação inquietante tomou conta de mim.

— Você quer que eu ligue para alguém? Se me mostrar como usar o rádio, posso ligar para

você.

— Não precisa, vou ficar bem assim que esses antiácidos começarem a fazer efeito. — Ele

respirou profundamente e olhou para mim. — Obrigado de qualquer forma.

Ele pareceu bem por um tempo, mas dez minutos depois tirou a mão direita do manche e

esfregou o ombro esquerdo. O suor gotejava pela lateral do seu rosto. Sua respiração parecia leve, e ele se mexeu na cadeira como se não conseguisse achar uma posição confortável. Minha sensação de inquietação se transformou em pânico absoluto.

T.J. acordou.

— Anna — chamou ele, alto o suficiente para que eu ouvisse mesmo com os motores. Eu me

virei. — Já estamos chegando?

Desafivelei o cinto de segurança e voltei a me sentar do lado de T.J. Sem querer gritar, puxei-o para mais perto e disse:

— Ouça, tenho quase certeza de que Mick está tendo um ataque cardíaco. Ele está com dor no

peito e parece muito mal, mas está colocando a culpa em uma azia.

— O quê?! Você está falando sério?

Confirmei com a cabeça.

— Meu pai sobreviveu a um ataque cardíaco grave no ano passado, então sei como é. Acho que

ele está assustado demais para admitir que tem algo errado.

— E nós? Ele ainda consegue pilotar o avião?

— Eu não sei.

T.J. e eu nos aproximamos da cabine. Mick tinha os dois punhos pressionados contra o peito e os olhos fechados. Seus fones de ouvido estavam tortos, e o rosto estava cinzento.

Eu me agachei perto do assento dele, o medo me rasgando por dentro.

— Mick. — Meu tom era urgente. — Precisamos pedir ajuda.

Ele concordou com a cabeça.

— Vou pousar o avião na água primeiro, e então um de vocês vai ter que pegar o rádio. — Ele

arfou, tentando cuspir as palavras. — Coloquem os coletes salva-vidas. Estão no compartimento de bagagem perto da porta. Depois sentem-se nos seus lugares e afivelem os cintos. — Ele fez uma

careta de dor. — Agora!

Meu coração estava aos pulos, e a adrenalina inundava meu corpo. Corremos para o

compartimento de bagagem e fizemos uma busca.

— Por que temos que colocar coletes salva-vidas, Anna? O avião tem flutuadores, certo?

Porque ele está com medo de não conseguir baixar a tempo.

— Não sei, talvez seja um procedimento operacional padrão. Estamos pousando no meio do

oceano. — Encontrei os coletes salva-vidas apertados entre um recipiente em forma de cilindro que dizia BOTE SALVA-VIDAS e diversos cobertores. — Aqui — falei, entregando um a T.J. e colocando o meu.

Nós nos sentamos e apertamos os cintos de segurança; minhas mãos tremiam tanto que tentei

duas vezes antes de conseguir.

— Se ele perder a consciência, vou precisar começar os primeiros socorros imediatamente.

Você vai ter que descobrir como funciona o rádio, T.J., tudo bem?

Ele concordou com um aceno de cabeça, com os olhos arregalados.

— Posso fazer isso.

Agarrei os braços do meu assento e olhei pela janela, percebendo a superfície ondulada do

oceano se aproximando. Mas então, em vez de diminuir a velocidade, aceleramos, descendo em um

ângulo íngreme.

Olhei a parte da frente do avião. Mick estava caído sobre o manche, sem se mexer. Desafivelei

meu cinto de segurança e me lancei no corredor.

— Anna! — gritou T.J. A barra de minha camiseta escapou de suas mãos.

Antes que eu conseguisse chegar ao cockpit, Mick deu um solavanco para trás no assento, as

mãos ainda no manche, quando sofreu um enorme espasmo no peito.

O nariz do avião deu uma guinada para cima, e atingimos a água com a cauda primeiro,

quicando nas ondas. A ponta de uma asa atingiu a superfície e o avião rodopiou fora de controle.

O impacto me tirou do chão, como se alguém tivesse amarrado uma corda em volta dos meus

tornozelos e puxado com força. O som de vidro estilhaçado encheu meus ouvidos, e tive a sensação de voar. Em seguida, senti uma dor ardente no momento em que a aeronave se partiu.

Afundei no oceano, a água do mar entrando pela minha garganta. Eu estava completamente

desorientada, mas o poder de flutuação do meu colete salva-vidas me fez aos poucos voltar à tona.

Minha cabeça emergiu na superfície, e tossi incontrolavelmente, tentando pegar ar e expulsar água.

T.J.! Ah, meu Deus, onde está T.J.?

Eu o imaginei amarrado em seu assento, incapaz de desafivelar o cinto de segurança, e o

procurei pela água freneticamente, piscando por causa do sol e gritando o nome dele.

Quando pensei que ele certamente tinha se afogado, ele apareceu à tona, cuspindo água e

lutando para respirar.

Nadei na direção dele, sentindo gosto de sangue, a cabeça latejando tanto que achei que fosse

explodir.

Quando alcancei T.J., agarrei sua mão e tentei dizer a ele como eu estava feliz de que ele

estivesse bem, mas minhas palavras não saíram direito e flutuei para dentro e para fora de um

nevoeiro confuso.

T.J. gritou para que eu acordasse. Eu me lembro das ondas altas e de engolir mais água, e então não me lembro de mais nada.

CAP Í TULO 2

T.J.

A água do mar batia violentamente à minha volta, subindo pelo meu nariz, descendo pela minha

garganta, dentro dos meus olhos. Eu não conseguia respirar sem engasgar. Anna nadou na minha

direção, chorando, sangrando e gritando. Ela agarrou minha mão e tentou falar, mas as palavras saíram todas atrapalhadas, e não entendi porra nenhuma do que ela falou. A cabeça dela bamboleou, e ela caiu de cara na água. Eu a puxei pelo cabelo.

— Acorde, Anna, acorde! — As ondas estavam tão altas que fiquei com medo de nos

separarmos; então enfiei meu braço embaixo da tira do colete salva-vidas dela e segurei. Levantei seu rosto. — Anna! Anna! — Ai, meu Deus. Seus olhos continuavam fechados, e ela não reagia; então enfiei o braço esquerdo embaixo da outra tira do colete e me inclinei para trás, deixando seu corpo deitado no meu peito.

A correnteza nos levou para longe dos destroços. Os pedaços do avião desapareceram da

superfície, e não demorou para que não restasse nada. Tentei não pensar em Mick amarrado no

assento.

Boiei, atordoado, o coração aos pulos. Rodeado apenas pelas ondas, tentei manter nossas cabeças acima da água e me controlei para não entrar em pânico.

Será que eles vão saber que caímos? Será que estavam nos monitorando pelo radar?

Talvez não, porque ninguém apareceu.

O céu escureceu, e o sol se pôs. Anna murmurou. Pensei que ela estivesse acordando, mas o

corpo dela se agitou, e ela vomitou em mim. As ondas me lavaram, mas ela tremia, e eu a puxei

para mais perto, tentando mantê-la aquecida. Eu também estava com frio, mesmo que a água tivesse parecido morna logo depois da queda. Não havia luz da lua, e eu mal conseguia ver a superfície da água, negra agora, não mais azul.

Eu estava preocupado com os tubarões. Liberei um dos braços e coloquei minha mão embaixo

do queixo de Anna, levantando a cabeça dela do meu peito. Senti alguma coisa quente logo abaixo do meu pescoço, onde a cabeça dela repousava. Será que Anna ainda estava sangrando? Tentei

acordá-la, mas ela só reagia quando eu balançava sua cabeça. Ela não falava, mas gemia. Eu não queria machucá-la, mas queria saber se estava viva. Ela não se mexeu por muito tempo, o que me apavorou, mas então vomitou de novo e estremeceu nos meus braços.

Tentei ficar calmo, respirando devagar. Lidar com as ondas era mais fácil boiando de costas, e Anna e eu vagávamos enquanto a correnteza nos levava. Os hidroaviões não faziam voos noturnos, mas eu tinha certeza de que eles mandariam socorro quando o sol nascesse. Alguém teria que saber que caímos até amanhecer.

Meus pais nem sabem que estávamos naquele avião.

As horas se passaram, e eu não conseguia ver nenhum tubarão no escuro. Talvez estivessem lá,

eu é que não sabia. Exausto, cochilei um pouco, deixando minhas pernas penderem, em vez de lutar para mantê-las perto da superfície. Tentei não pensar nos tubarões que pudessem estar rodeando abaixo de nós.

Quando sacudi Anna de novo, ela não reagiu. Achei que pudesse sentir o peito dela subindo e

descendo, mas não tinha certeza. Houve um som alto de água espirrando e me sobressaltei. A cabeça de Anna pendia para o lado, e eu a puxei de volta para meu peito. Os espirros continuaram, quase ritmados. Imaginando não apenas um tubarão, mas cinco, dez, talvez mais, girei várias vezes. Algo emergiu e levei um segundo para perceber o que era. Os espirros eram as ondas batendo em recifes que circundavam uma ilha.

Nunca senti tanto alívio na vida, nem mesmo quando o médico nos disse que o tratamento

finalmente havia funcionado e que meu câncer tinha ido embora.

A correnteza nos levava para mais perto da ilha, mas não estávamos indo em direção a ela. Se eu não fizesse alguma coisa, não conseguiríamos alcançá-la.

Eu não podia usar os braços porque eles ainda estavam embaixo das tiras do colete salva-vidas de Anna; por isso, continuei de costas e bati os pés. Perdi meus sapatos, mas não me importei; eu já devia tê-los tirado horas antes.

A terra ainda estava a pelo menos uns quarenta metros. Mais longe do que antes, não tive outra opção senão usar um dos braços e nadei com braçadas laterais, arrastando o rosto de Anna pela água.

Levantei a cabeça. Estávamos perto. Batendo as pernas freneticamente, meus pulmões

queimando, nadei o mais rápido que pude.

Alcançamos as águas calmas na laguna na parte interior dos recifes, mas não parei de nadar até meus pés tocarem o fundo de areia. Só tive energia para arrastar Anna para fora da água. Logo

depois, desabei perto dela e desmaiei.

* * *

O sol escaldante me acordou. Tenso e dolorido, eu só conseguia enxergar com um dos olhos. Eu me

sentei, tirei o colete salva-vidas e depois olhei para Anna. Seu rosto estava inchado e ferido, e havia cortes em suas bochechas e na testa. Ela estava deitada imóvel.

Meu coração martelava no peito, mas me obriguei a me inclinar para a frente e tocar o pescoço

dela. A pele estava quente, e o alívio me inundou uma segunda vez quando senti seu pulso sob meus dedos. Ela estava viva, mas a única coisa que eu sabia sobre traumatismos cranianos é que ela

provavelmente tinha um. E se ela nunca mais despertasse?

Tentei acordá-la, com cuidado.

— Anna, está me ouvindo?

Ela não respondeu, e eu a sacudi novamente.

Esperei que ela abrisse os olhos. Eles eram impressionantes, grandes e de um tom escuro de azul-acinzentado. Foram a primeira coisa que notei quando a conheci. Ela fora ao nosso apartamento para a entrevista com meus pais, e fiquei constrangido porque ela era linda, e eu era magro e careca, e minha aparência estava uma merda.

Vamos, Anna, me deixe ver seus olhos.

Eu a sacudi com mais força e, quando ela enfim abriu os olhos, lentamente soltei o ar que estava prendendo.

CAP Í TULO 3

Anna

Duas imagens borradas de T.J. pairavam sobre mim, e pisquei até que elas se fundissem. Ele tinha cortes no rosto, e o olho esquerdo estava fechado de tão inchado.

— Onde estamos? — perguntei.

Minha voz soava rascante e minha boca tinha gosto de sal.

— Não sei. Em alguma ilha.

— E Mick? — perguntei.

T.J. fez um gesto negativo com a cabeça.

— O que restou do avião afundou rápido.

— Não consigo me lembrar de nada.

— Você desmaiou na água e, como não consegui acordar você, pensei que estivesse morta.

Minha cabeça latejava. Toquei na testa e gemi quando meus dedos roçaram um grande calombo.

Alguma coisa pegajosa cobria a lateral do meu rosto.

— Estou sangrando?

T.J. debruçou-se sobre mim e afastou meu cabelo com os dedos, procurando a origem do

sangramento. Gritei quando ele encontrou.

— Desculpe-me — disse ele. — É um corte profundo. Não está mais sangrando tanto. Sangrou

muito mais quando estávamos na água.

O medo me dominou, viajando pelo meu corpo como uma onda.

— Havia tubarões?

— Não sei. Não vi nenhum, mas fiquei preocupado.

Respirei profundamente e me sentei. A praia girou. Apoiando minhas mãos abertas na areia, me

segurei até que o pior da tontura passasse.

— Como chegamos aqui? — perguntei.

— Enrolei meus braços entre as tiras do seu colete salva-vidas e boiamos com a correnteza até

chegarmos à praia. Aí arrastei você para a areia.

E então percebi o que ele tinha feito. Olhei para a água e não falei nada por um minuto. Pensei no que poderia ter acontecido se ele me soltasse ou se os tubarões tivessem aparecido — ou se não houvesse uma ilha.

— Obrigada, T.J.

— De nada — disse ele, encontrando meus olhos por apenas alguns segundos antes de olhar para

o outro lado.

— Você está ferido? — perguntei.

— Estou bem. Acho que bati o rosto na cadeira da frente.

Tentei levantar e não consegui, dominada pela tontura. T.J. me ajudou, e desta vez fiquei de pé.

Desafivelei meu colete salva-vidas e deixei que caísse na areia.

Eu me virei de costas para o mar e olhei em direção à terra. A ilha parecia com as das fotos que eu vira na internet, exceto por não ter um hotel de luxo nem casas de veraneio. A areia branca imaculada parecia açúcar sob meus pés descalços; eu não tinha ideia do que havia acontecido com meus sapatos. A praia dava lugar a arbustos floridos e uma vegetação tropical, e depois a uma área de mata onde as árvores cresciam próximas umas às outras, as folhas formando uma cobertura. Do sol, alto no céu, emanava um calor intenso. A brisa do oceano não conseguia abrandar a minha

temperatura corporal, que só aumentava, e o suor gotejava pelo meu rosto. Minhas roupas estavam grudadas na pele.

— Preciso me sentar de novo.

Meu estômago revirava, e pensei que talvez estivesse prestes a vomitar. T.J. se sentou ao meu

lado e, quando o enjoo finalmente passou, eu disse:

— Não se preocupe. Eles devem saber que caímos e vão mandar um avião de resgate.

— Você tem alguma ideia de onde estamos? — perguntou ele.

— Na verdade, não.

Usei o dedo para desenhar na areia.

— As ilhas são agrupadas em uma corrente de vinte e seis atóis correndo do norte para o sul. É

para lá que estávamos indo. — Apontei para uma das marcas que fiz. Enfiei meu dedo na areia e

apontei para outra. — Aqui é Malé, de onde partimos. Estamos em algum lugar no meio, eu acho, a não ser que a correnteza tenha nos levado para leste ou para oeste. Não sei se Mick se manteve no curso e não sei se hidroaviões seguem um plano de voo ou se são rastreados pelo radar.

— Minha mãe e meu pai devem estar enlouquecendo.

— Devem mesmo. — Os pais de T.J. com certeza tinham tentado ligar para meu celular, que

provavelmente a essa altura estava no fundo do oceano.

Devíamos fazer uma fogueira? Não é isso que se deve fazer quando se está perdido? Fazer uma fogueira para que saibam onde você está?

Eu não tinha ideia de como fazer uma fogueira. Minhas habilidades de sobrevivência eram

limitadas ao que eu tinha visto na TV ou lido. Nenhum de nós usava óculos; senão, podíamos

colocar as lentes em um ângulo contra o sol. Tampouco tínhamos pederneira ou aço. Restava-nos a fricção, mas será que esfregar gravetos realmente funcionava? Talvez não precisássemos nos

preocupar com fogo, ao menos por enquanto. Eles nos veriam se estivessem voando e ficássemos

perto da praia.

Tentamos desenhar um SOS. Primeiro usamos nossos pés, mas achamos que não ficaria visível.

Depois, tentamos usar folhas, mas o vento as espalhava antes que pudéssemos formar as letras. Não havia pedra grande para segurá-las, somente pedregulhos e fragmentos do que eu acreditava ser um coral. O fato de nos movermos nos deixava com mais calor, e a dor na minha cabeça piorava.

Desistimos e nos sentamos.

Meu rosto queimava no sol, e os braços e as pernas de T.J. ficaram vermelhos. Logo não tivemos outra opção a não ser nos afastarmos da beira da água e nos abrigarmos embaixo de um coqueiro. Os cocos cobriam o chão, e eu sabia que eles continham água. Nós os jogamos contra o tronco de uma árvore, mas não conseguimos abri-los.

O suor descia pelo meu rosto. Juntei meu cabelo em um rabo de cavalo e segurei no alto da

cabeça. Minha língua inchada e minha boca seca dificultavam a deglutição.

— Vou dar uma olhada por aí — disse T.J. — Talvez haja água em algum lugar.

Ele não tinha saído há muito tempo quando voltou para o coqueiro segurando algo.

— Não consegui encontrar água, mas achei isto.

Era verde, do tamanho de um pomelo, caroços espinhentos cobrindo sua superfície.

— O que é? — perguntei.

— Não sei, mas talvez tenha água aqui dentro, como nos cocos.

T.J. descascou usando as unhas. O que quer que fosse, os insetos tinham chegado primeiro. Ele

largou no chão, chutando para longe com o pé.

— Achei embaixo de uma árvore — disse ele. — Havia vários deles pendurados, mas estavam

muito altos para eu alcançar. Se você subir nos meus ombros, talvez consiga derrubar um. Acha que consegue andar?

Fiz que sim com a cabeça.

— Se formos devagar.

Quando chegamos à árvore, T.J. pegou minha mão e me ajudou a subir nos seus ombros. Eu

media um metro e sessenta e oito e pesava cinquenta e quatro quilos. T.J. tinha ao menos dez

centímetros e provavelmente quinze quilos a mais do que eu, mas cambaleou um pouco tentando

me manter estável. Eu me alonguei o máximo que pude, meus dedos se esticando em direção à

fruta. Como não conseguia agarrá-la, bati nela com meu punho. Nas primeiras duas vezes, a fruta não se mexeu, mas bati com um pouco mais de força, e ela voou. T.J. me colocou de volta no chão, e eu a peguei.

— Ainda não sei o que é — disse ele, depois de eu entregar a fruta.

— Deve ser fruta-pão.

— O que é isso?

— É uma fruta que supostamente tem gosto de pão.

T.J. a descascou e a fragrância me lembrou goiaba. Nós dividimos a fruta ao meio e a chupamos, o sumo inundando nossas bocas secas. Mastigamos e engolimos os pedaços. A textura que lembrava borracha provavelmente indicava que a fruta-pão deveria amadurecer mais, mas nós comemos assim mesmo.

— Não acho que isso tenha gosto de pão — disse T.J.

— Talvez tivesse se fosse cozido.

Depois que terminamos, subi novamente nos ombros de T.J. e derrubei mais duas, que

comemos imediatamente. Em seguida, retornamos para perto do coqueiro, nos sentamos e

esperamos mais uma vez.

De tardinha, sem nenhum aviso, o céu fechou, e uma chuva forte caiu sobre nós. Saímos de

debaixo da árvore, viramos nossos rostos para o céu e abrimos nossas bocas, mas a chuva terminou dez minutos depois.

— É a estação das chuvas — falei. — Deve chover todos os dias, provavelmente mais de uma

vez.

Não tínhamos nada para coletar a água, e as gotas que consegui pegar com a língua só me

deixaram com mais sede.

— Onde eles estão? — perguntou T.J. quando o sol se pôs. O desespero na voz dele combinava

com o meu estado emocional.

— Não sei. — Por motivos que eu não podia entender, não apareceu nenhum avião. — Eles

vão nos encontrar amanhã.

Voltamos para a praia e nos esticamos na areia, descansando a cabeça nos coletes salva-vidas. O

ar esfriou, e o vento que vinha do mar me fez estremecer. Abracei-me e me encolhi, ouvindo o

ritmado bater das ondas atingindo os recifes.

Ouvimos o barulho antes de descobrir do que se tratava. Um som de bater de asas encheu o ar,

seguido pela silhueta de centenas, talvez milhares de morcegos. Eles bloquearam parte da luz da lua, e fiquei pensando se eles estavam pendurados em algum lugar acima de nós enquanto andávamos

para a árvore de fruta-pão.

T.J. se sentou.

— Nunca vi tantos morcegos.

Nós os observamos por um tempo, até que finalmente eles se dispersaram e foram caçar em

outro lugar. Alguns minutos depois, T.J. adormeceu. Mirei o céu, sabendo que ninguém estava nos procurando no escuro. Qualquer missão de resgate em andamento não recomeçaria até a manhã

seguinte. Imaginei os pais de T.J. consternados, esperando o sol nascer. A possibilidade de a minha família receber uma ligação encheu meus olhos de lágrimas.

Pensei na minha irmã, Sarah, e em uma conversa que tivemos alguns meses atrás. Havíamos nos

encontrado para jantar em um restaurante mexicano e, quando o garçom trouxe nossas bebidas,

tomei um gole da margarita e disse:

— Aceitei aquele trabalho de tutora de que eu tinha falado. Com o garoto que teve câncer. —

Coloquei meu drinque na mesa, mergulhei um nacho no molho e o enfiei na boca.

— Aquele em que você tem que viajar com eles nas férias? — perguntou ela.

— É.

— Você vai ficar fora por um bom tempo. O que John acha disso?

— Eu e John tivemos a conversa sobre casamento novamente. Mas dessa vez eu disse a ele que

também queria um bebê. — Encolhi os ombros. — Pensei: por que não arriscar tudo?

— Ah, Anna. — Foi o comentário de Sarah.

Até recentemente, eu não pensava muito em ter um filho. Estava perfeitamente satisfeita sendo

tia dos filhos da Sarah: Chloe, de dois anos, e Joe, de cinco. Mas então todo mundo que conheço começou a jogar bebês embrulhados em mantinhas para eu segurar, e percebi que eu queria um para mim. A intensidade do meu desejo por um bebê e o subsequente tique-taque do meu relógio

biológico me surpreenderam. Sempre pensei que o desejo por um filho fosse uma coisa que

acontecesse de forma lenta, mas um dia simplesmente apareceu.

— Não consigo mais continuar assim, Sarah — prossegui. — Como ele poderia suportar um

bebê se nem consegue se comprometer com o casamento? — Balancei a cabeça. — Outras

mulheres fazem parecer tão fácil. Elas conhecem alguém, se apaixonam e se casam. Talvez em um

ano ou dois comecem uma família. Simples, não é? Quando John e eu discutimos nosso futuro, é tão romântico quanto uma transação imobiliária, com quase a mesma quantidade de cálculos. — Agarrei meu guardanapo e enxuguei os olhos.

— Sinto muito, Anna. Sinceramente, não sei como você aguentou tanto tempo. Sete anos me

parecem tempo suficiente para que John descubra o que quer.

— Oito, Sarah. Já são oito anos. — Levantei meu drinque e o terminei em dois grandes goles.

— Ah. Perdi um ano por aí.

Nosso garçom parou e perguntou se queríamos outra rodada.

— Acho que você pode continuar trazendo — disse Sarah a ele. — Então, como a conversa

terminou?

— Contei a ele que ia viajar no verão, que precisava me afastar por um tempo para pensar no

que queria.

— O que ele disse?

— A mesma coisa de sempre. Que me ama, mas que ainda não está pronto. Ele sempre foi

honesto, mas acho que pela primeira vez percebeu que a decisão não é só dele.

— Você conversou com a mamãe sobre isso? — perguntou Sarah.

— Conversei. Ela disse para eu me perguntar se a minha vida seria melhor com ou sem ele.

Sarah e eu tínhamos sorte. Nossa mãe aperfeiçoara a arte de dar conselhos simples, mas práticos.

Ela se mantinha neutra e nunca julgava. Uma anomalia parental, de acordo com muitas das nossas amigas.

— Bem, qual é sua resposta?

— Não tenho certeza, Sarah. Amo o John, mas não acho que isso vá ser suficiente para mim.

Eu precisava de tempo para pensar, para ter certeza, e Tom e Jane Callahan haviam me

oferecido a oportunidade perfeita para conseguir me distanciar. Espaço, literalmente falando, para tomar uma decisão.

— Ele vai ver isso como um ultimato — disse Sarah.

— Claro que vai. — Tomei um gole da minha margarita recém-preparada.

— Você está lidando muito bem com a situação.

— Isso é porque ainda não terminei de verdade com ele.

— Talvez seja uma boa ideia você ficar sozinha um tempo, Anna. Pensar nas coisas e decidir o

que quer para o resto da vida.

— Não tenho que ficar sentada esperando por ele, Sarah. Tenho muito tempo para encontrar

alguém que queira as mesmas coisas que eu.

— Tem mesmo. — Ela terminou sua margarita e sorriu para mim. — E olhe para você: vai

pegar um jato e ir a lugares exóticos, só porque pode. — Ela suspirou. — Eu queria poder ir com você. O mais perto que tive de férias no ano passado foi quando David e eu levamos as crianças para ver os peixes tropicais no Shedd Aquarium.

Sarah fazia malabarismo para equilibrar casamento, filhos e um emprego em tempo integral.

Voar sozinha para um paraíso tropical provavelmente soava como o nirvana para ela.

Pagamos nossa conta e, enquanto andamos até o trem, pensei que talvez, apenas dessa vez, minha grama estava um pouco mais verde. Se a minha situação tinha um lado bom, era a liberdade de

passar o verão em uma linda ilha se eu quisesse.

Mas, até o momento, o plano não havia funcionado muito bem.

Minha cabeça doía, meu estômago revirava, e eu nunca sentira tanta sede na vida. Tremendo,

com a cabeça repousando no colete salva-vidas, tentei não pensar sobre quanto tempo levaria para que nos achassem.

CAP Í TULO 4

T.J.

Dia 2

Despertei assim que o céu clareou. Anna já estava acordada, sentada na areia, olhando para o céu.

Meu estômago roncava e minha boca não tinha saliva nenhuma.

Eu me sentei ao lado dela.

— Ei, como está a sua cabeça?

— Ainda dói bastante — respondeu Anna.

O rosto dela também não tinha uma aparência muito boa. Hematomas roxos cobriam suas

bochechas inchadas, e havia sangue seco e com casca perto do couro cabeludo.

Andamos até a árvore de fruta-pão, e Anna subiu nos meus ombros e derrubou duas. Eu me

sentia fraco, desequilibrado, e foi difícil segurá-la. Ela desceu e, enquanto ainda estávamos ali embaixo da árvore, uma fruta-pão caiu de um galho e aterrissou nos nossos pés. Olhamos um para o outro.

— Isso vai facilitar as coisas — disse ela.

Tiramos as frutas podres do chão embaixo da árvore; assim, se voltássemos e encontrássemos

alguma fruta no chão, saberíamos que ela era boa para comer. Peguei a que havia caído e descasquei.

O sumo pareceu mais doce, e a fruta não estava tão dura para mastigar.

Precisávamos desesperadamente conseguir uma maneira de estocar água, então andamos ao longo

da beira da água procurando latas vazias, garrafas, recipientes, enfim, qualquer coisa impermeável que pudesse guardar a água da chuva. Avistamos escombros, que imaginei serem pedaços do avião, mas nada mais. A falta de qualquer lixo humano me fez pensar onde diabo estávamos.

Adentramos a ilha. As árvores bloqueavam a luz do sol, e os mosquitos aglomeravam-se em

volta de nós. Eu batia neles e limpava o suor da testa com o braço. Vimos o lago quando chegamos a uma pequena clareira. Estava cheio de água turva e mais parecia uma poça grande, mas a minha sede aumentou.

— Será que podemos beber isso? — perguntei.

Anna se ajoelhou e enfiou a mão lá dentro. Ela fez círculos na água e torceu o nariz com o

cheiro.

— Não, está estagnada. Provavelmente não é seguro beber.

Continuamos andando, mas não conseguimos encontrar nada que pudesse guardar água, então

voltamos para perto do coqueiro. Peguei um dos cocos do chão e esmaguei-o novamente contra o

tronco da árvore; depois joguei-o para longe quando não consegui abri-lo. Dei um chute na árvore, o que machucou meu pé.

— Merda!

Se eu pudesse abrir um coco, poderíamos beber a água, comer a polpa e usar a casca para

guardar água.

Anna não pareceu notar meu acesso de raiva. Ficou balançando a cabeça para a frente e para trás e disse:

— Só não entendo por que ainda não avistamos um avião. Onde eles estão?

Eu me sentei do lado dela, respirando forte e suando.

— Não sei.

Ficamos sem falar por um tempo, perdidos em nossos próprios pensamentos. Finalmente, eu

disse:

— Você acha que deveríamos fazer uma fogueira?

— Você sabe como? — perguntou Anna.

— Não. — Morei em cidade grande a vida inteira e podia contar nos dedos a quantidade de

vezes em que tinha ido acampar, e ainda sobrariam dedos. Além disso, acendíamos a fogueira com um isqueiro. — E você? Sabe?

— Também não.

— Podíamos tentar — sugeri. — Acho que temos tempo de sobra.

Ela sorriu com minha tentativa de fazer uma piada.

— Tudo bem.

Durante a hora seguinte, esfregamos dois gravetos um no outro. Anna conseguiu aquecer o dela

o suficiente para queimar o dedo antes de desistir. Eu me saí um pouco melhor — achei que tivesse visto alguma fumaça —, mas nada de fogo. Meus braços ficaram doendo.

— Desisto — falei, largando meus gravetos e usando a parte de baixo da camiseta para enxugar o suor antes que pingasse nos meus olhos.

Começou a chover. Eu me concentrei em tentar capturar os pingos com a língua, agradecido

pela pequena quantidade de água que engoli. A chuva cessou depois de alguns minutos.

Ainda suando, andei até a beira do lago, tirei a camiseta e entrei na água apenas de short. A

temperatura da laguna me lembrava a água do banho, mas eu mergulhei a cabeça e senti um pouco

mais de frescor. Anna me seguiu, parando antes de chegar à água. Sentou-se na areia e usou uma das mãos para afastar os longos cabelos da nuca. Devia estar torrando dentro de sua camiseta de manga comprida e jeans. Alguns minutos depois, ela se levantou, hesitou e depois tirou a camiseta pela cabeça. Em seguida, desabotoou e abriu o zíper da calça, saiu de dentro dela e andou na minha

direção, usando apenas sutiã e calcinha pretos.

— Apenas finja que eu estou de biquíni, está bem? — disse ela ao se juntar a mim na água.

O rosto dela estava vermelho, e ela mal olhava para mim.

— Claro.

Eu estava tão atordoado que mal consegui responder.

Anna tinha um corpo incrível. Pernas compridas, sem barriga. Vê-la assim era uma tortura.

Reparar no corpo dela devia ser a última coisa em minha mente, mas não era. Podem até pensar

que eu não seria capaz de ficar duro, considerando a sede e a fome que eu sentia e quão fodida a situação era, mas estão completamente enganados. Nadei para longe dela até conseguir me controlar.

Ficamos na água por um bom tempo e, quando saímos, ela virou as costas para mim e colocou as

roupas de novo. Fomos checar a árvore de fruta-pão, mas não havia nenhuma caída. Anna subiu nos meus ombros e, quando a equilibrei pressionando suas coxas, a imagem das suas pernas nuas surgiu na minha mente.

Ela derrubou duas frutas. Eu não estava com muita fome, o que era estranho, já que eu deveria

estar. Anna também parecia não sentir muita fome, porque não comeu a fruta depois de sugar todo o sumo.

Quando o sol se pôs, nós nos esticamos perto da beira da água e observamos os morcegos

encherem o céu.

— Meu coração está batendo muito rápido — falei.

— É um sinal de desidratação — disse Anna.

— Quais são os outros sinais?

— Perda de apetite. Falta de vontade de fazer xixi. Boca seca.

— Estou com tudo isso.

— Eu também.

— Quanto tempo podemos ficar sem água?

— Três dias. Talvez menos.

Tentei me lembrar da última vez em que bebi algo. Talvez no aeroporto de Sri Lanka? Nós

conseguíamos pegar um pouco de água quando chovia, mas não seria suficiente para nos manter

vivos. A percepção de que nosso tempo se esgotava me deixou completamente assustado.

— E o lago?

— É uma má ideia — respondeu ela.

Nenhum de nós disse o que estava pensando. Se o que nos restasse fosse a água do lago ou

nenhuma água, talvez tivéssemos que tomar aquilo mesmo.

— Eles vão aparecer amanhã — disse Anna, mas ela não parecia acreditar nisso.

— Espero que sim.

— Estou com medo — sussurrou ela.

— Eu também.

Rolei para deitar de lado, mas levou muito tempo até que eu conseguisse dormir.

CAP Í TULO 5

Anna

Dia 3

Quando T.J. e eu acordamos, nós dois estávamos enjoados e com dor de cabeça. Comemos um

pouco de fruta-pão, e achei que talvez vomitasse a minha, mas não vomitei. Embora tivéssemos

muito pouca energia, retornamos à praia e decidimos tentar fazer uma fogueira. Eu estava

convencida de que um avião voaria acima de nós naquele dia e sabia que uma fogueira era nossa

melhor chance de ter certeza de que nos veriam.

— Fizemos tudo errado ontem — disse T.J. — Fiquei pensando nisso a noite passada, antes de

adormecer, e me lembrei de ter assistido a um programa de TV em que o cara tinha que fazer fogo.

Ele girava o graveto em vez de esfregar um no outro. Tenho uma ideia. Vou ver se consigo achar o que eu preciso.

Enquanto ele não voltava, juntei qualquer coisa que pudesse ser inflamável para o caso de

realmente conseguirmos produzir alguma chama. O ar estava tão úmido que a única coisa na ilha

que estava seca era o interior da minha boca. Tudo o que eu pegava estava úmido, mas enfim

encontrei algumas folhas secas na parte de baixo de uma planta florida. Também puxei os bolsos da minha calça para fora e achei alguns fiapos, que adicionei à pilha na minha mão.

T.J. voltou com uma vareta e um pequeno pedaço de madeira.

— Você tem fiapos no bolso? — perguntei. Ele virou os bolsos para fora, encontrou alguns e me

entregou.

— Obrigada.

Fiz um ninho com os fiapos e as folhas. Também juntei pequenos gravetos e fiz um montinho de

folhas verdes e úmidas que poderíamos adicionar para fazer fumaça.

T.J. sentou-se e segurou a vareta na vertical, perpendicular ao pedaço de madeira sobre o qual a apoiava.

— O que você está fazendo? — perguntei.

— Estou tentando descobrir uma maneira de girar a vareta. — Ele meditou por um minuto. —

Acho que o cara usava uma corda. Queria não ter jogado meus sapatos fora; eu poderia usar os

cadarços.

Ele girou o graveto com a mão, mas não conseguiu fazer isso rápido o suficiente para fazer a

fricção. O suor escorria por seu rosto.

— Isso é impossível, porra — xingou, descansando por alguns minutos.

Com determinação renovada, usou as mãos e esfregou uma na outra com a vareta entre elas. O

giro foi muito mais rápido, e logo ele encontrou um ritmo estável. Depois de vinte minutos, a vareta girando produziu uma pequena porção de poeira preta no entalhe que ele havia feito no pedaço de madeira.

— Olhe para isso — disse T.J., quando uma pequena nuvem de fumaça surgiu.

Pouco depois, muito mais fumaça apareceu. O suor corria para dentro dos seus olhos, mas T.J.

não parava de girar a vareta.

— Preciso do ninho.

Eu o coloquei do lado dele e prendi a respiração, observando enquanto ele soprava suavemente

no entalhe da madeira. Ele usou a vareta para retirar a brasa vermelho-brilhante com cuidado e transferi-la para a pilha de fiapos e folhas secas. Em seguida, levantou o ninho e o segurou na frente da boca, soprando delicadamente, e o ninho incandesceu nas suas mãos. Ele largou no chão.

— Meu Deus! — exclamei. — Você conseguiu.

Empilhamos pequenos materiais inflamáveis no topo. O fogo cresceu rapidamente e logo usamos

os gravetos que eu havia juntado. Corremos para achar mais e estávamos correndo em direção ao

fogo com os braços cheios quando o céu fechou e a tempestade caiu. Em segundos, o fogo se

transformou em uma pilha encharcada de madeira chamuscada.

Fitamos o que havia sobrado. Eu queria chorar. T.J. afundou de joelhos na areia. Eu me sentei

ao lado dele, e então levantamos as cabeças para apanhar os pingos com a boca. Choveu por um

bom tempo, e pelo menos alguma água desceu pela minha garganta, mas eu só conseguia pensar na

água encharcando a areia.

Eu não sabia o que dizer a ele. Quando parou de chover, nos deitamos embaixo do coqueiro,

sem falar nada. Como não podíamos fazer outra fogueira logo, porque tudo estava excessivamente molhado, tiramos uma soneca, letárgicos e desesperançados.

Quando acordamos à tardinha, nenhum de nós queria fruta-pão. T.J. não tinha energia suficiente para fazer outra fogueira e, mesmo que tivesse, não conseguiríamos mantê-la acesa se não fizéssemos algum tipo de abrigo. Meu coração esmurrava meu peito, e meus braços e pernas formigavam. Eu

havia parado de suar.

Quando T.J. se levantou e saiu dali, eu o segui. Eu sabia para onde ele estava indo, mas não

conseguia me obrigar a dizer para ele parar. Eu também queria ir para lá.

Quando chegamos ao lago, me ajoelhei na beira da água, coloquei um pouco nas minhas mãos

em concha e levei até a boca. O gosto era horrível, quente e ligeiramente salobro, mas eu

imediatamente quis mais. T.J. se ajoelhou ao meu lado e bebeu direto do lago. Depois que

começamos, nenhum de nós conseguiu parar. Depois de beber tudo o que podíamos, desmoronamos

no chão e eu pensei que fosse vomitar tudo aquilo, mas consegui segurar. Os mosquitos nos

rodeavam, e eu os afastava do meu rosto.

Voltamos para a praia. Já estava quase escuro. Nós nos esticamos um ao lado do outro na areia, apoiando a cabeça nos coletes salva-vidas. Pensei que tudo ia ficar bem. Conseguimos ganhar um pouco de tempo. Eles viriam amanhã, com certeza.

— Sinto muito pelo fogo, T.J. Você se esforçou tanto e fez um trabalho excelente. Eu nunca

conseguiria descobrir como fazer aquilo.

— Obrigado, Anna.

Adormecemos, mas acordei pouco tempo depois. O céu estava negro, e achei que

provavelmente estava no meio da noite. Foi quando comecei a sentir cólicas. Ignorei e rolei para o lado. Outra cólica me atingiu, dessa vez com mais intensidade. Eu me sentei e gemi. O suor escorria da minha testa.

T.J. acordou.

— O que foi?

— Minha barriga está doendo. — Rezei para as cólicas pararem, mas elas só pioraram, e eu sabia o que iria acontecer. — Não me siga.

Cambaleei para entre as árvores e mal consegui tirar o jeans e a calcinha antes de o meu corpo purgar tudo. Quando não havia restado mais nada, eu me contorci no chão, as cólicas continuaram em ondas, uma após a outra. Eu estava encharcada de suor. A dor irradiava da minha barriga para as pernas. Fiquei deitada, imóvel, por um bom tempo, com medo de que o menor dos movimentos

pudesse causar mais desgraça. Os mosquitos zumbiam ao redor do meu rosto.

E então apareceram os ratos.

Para todo lugar que eu olhava, pares de olhos brilhantes espreitavam na escuridão. Um correu

por cima do meu pé, e eu gritei. Vacilante, fiquei de pé e subi o jeans e a calcinha novamente, mas o movimento me fez sentir uma dor intensa e desmoronei mais uma vez. Pensei que estava

morrendo e que o que quer que tivesse contaminado o lago fosse algo a que eu não conseguiria

sobreviver. Fiquei imóvel depois disso. Exausta e fraca, sem ideia de onde T.J. estava, desmaiei.

Um barulho de zumbido me acordou. Mosquitos. Mas o sol estava alto, e a maioria dos insetos e dos ratos já tinha sumido. Lutei para levantar a cabeça enquanto estava deitada de lado com meus joelhos junto ao peito.

Era o som de um avião.

Eu me coloquei de quatro e engatinhei até a praia, gritando por T.J. Levantando-me, cambaleei

até a linha da água, tentando, com o que restava das minhas forças, levantar os braços sobre a cabeça e acenar para a frente e para trás. Eu não conseguia ver o avião, mas eu conseguia ouvi-lo, o som se afastando.

Eles estão nos procurando. Vão chegar a qualquer minuto.

O som do avião ficou cada vez mais distante, até eu não conseguir mais ouvir. Minhas pernas se dobraram, e eu caí na areia e chorei até ficar ofegante. Deitei de lado, os soluços diminuindo, mirando a água, sentindo-me entorpecida.

Eu não fazia ideia de quanto tempo havia se passado, mas, quando desviei o olhar, T.J. estava

deitado ao meu lado.

— Foi um avião — falei.

— Eu ouvi. Não consegui me mexer.

— Eles vão voltar.

Mas não voltaram.

Chorei muito naquele dia. T.J. ficou em silêncio. Ele mantinha os olhos fechados, e eu não tinha certeza se estava dormindo ou fraco demais para falar. Não fizemos outra fogueira nem comemos

mais fruta-pão. Nenhum de nós saiu de debaixo do coqueiro, só quando choveu.

Eu não queria estar perto das árvores quando escurecesse, e por isso voltamos para a praia.

Enquanto eu estava deitada na areia perto de T.J., só havia uma coisa da qual eu tinha certeza. Se outro avião não viesse ou não descobríssemos uma maneira de coletar água, T.J. e eu morreríamos.

Eu tive um sono leve e cheio de espasmos durante toda a noite e, quando finalmente caí em um

sono mais profundo, acordei gritando porque sonhei que um rato estava mordendo meu pé.

CAP Í TULO 6

T.J.

Dia 4

Quando o sol saiu, eu mal conseguia levantar a cabeça da areia. Dois assentos de poltronas do avião tinham chegado à costa durante a noite, e alguma coisa azul perto delas chamou minha atenção.

Rolei até Anna e a sacudi para acordá-la. Ela olhou para mim com olhos fundos, os lábios rachados e sangrando.

— O que é aquilo?

Apontei para a coisa azul, mas o esforço necessário para manter minha mão erguida era demais e deixei meu braço cair novamente na areia.

— Onde?

— Lá, perto dos assentos.

— Não sei — respondeu ela.

Levantei a cabeça e protegi os olhos do sol. Parecia familiar, e de repente percebi o que era.

— É a minha mochila . Anna, é a minha mochila!

Fiquei de pé com as pernas trêmulas, andei até a linha da água e a agarrei. Quando voltei, me

ajoelhei ao lado da Anna, abri a mochila e tirei a garrafa de água que ela tinha me entregado no aeroporto de Malé.

Ela se sentou.

— Ah, meu Deus.

Tirei a tampinha e passamos a garrafa um para o outro, com cuidado para não bebermos rápido

demais. Tinha um litro e nós bebemos tudo, mas mal deu para começar a matar minha sede.

Anna segurou a garrafa vazia.

— Se usarmos uma folha como funil, podemos coletar a água da chuva aqui.

Trêmulos e fracos, andamos até a árvore de fruta-pão e arrancamos uma folha grande de um dos

galhos mais baixos. Anna a rasgou até que estivesse do tamanho certo e enfiou no gargalo da garrafa de água vazia, deixando a abertura o mais larga possível. Havia quatro frutas-pão no chão. Nós as levamos para a praia e as comemos.

Joguei na areia tudo o que tinha na mochila. Meu boné dos Chicago Cubs estava ensopado, mas

eu o coloquei assim mesmo. Havia também um casaco cinza com capuz, duas camisetas, dois shorts, uma calça jeans, cuecas e meias, uma escova e uma pasta de dentes, e o meu CD player. Peguei a escova e a pasta. Minha boca tinha gosto de algo que eu nem conseguia começar a descrever. Tirei a tampa da pasta de dentes, apertei um pouco na escova e estendi a Anna.

— Você pode dividir comigo minha escova de dentes se não se importar.

Ela sorriu.

— Eu não me importo, T.J. Mas escove você primeiro. É sua.

Escovei os dentes, enxaguei a escova no mar e entreguei a ela. Ela apertou mais pasta na escova e escovou os dentes. Quando acabou, enxaguou e me entregou de volta.

— Obrigada.

Esperamos pela chuva e, quando ela veio, no começo da tarde, vimos a garrafa se encher de

água. Eu a entreguei a Anna; ela bebeu metade e me devolveu. Depois de eu terminar, colocamos a folha de volta, e a chuva a encheu de novo. Anna e eu bebemos mais. Precisávamos de mais, muito mais, provavelmente, mas comecei a pensar que talvez não fôssemos morrer, afinal.

Tínhamos um modo de coletar água, tínhamos fruta-pão e sabíamos como fazer fogo. Agora

precisávamos de abrigo, porque, sem isso, não conseguiríamos manter o fogo aceso.

Anna queria construir o abrigo na praia, porque os ratos a apavoravam. Quebramos dois galhos

com formato de Y e os enfiamos na areia, colocando o galho mais longo que conseguimos encontrar entre eles. Fizemos uma cabana com uma única inclinação muito tosca colocando mais galhos de

cada lado. Folhas de fruta-pão forravam o chão, com exceção do pequeno círculo onde construímos nossa fogueira. Anna pegou algumas pedras para fazer um círculo em volta dela. Ficaria enfumaçado do lado de dentro, mas isso ajudaria a afastar os mosquitos.

Decidimos esperar até a manhã seguinte para fazer outra fogueira. Agora que tínhamos abrigo,

podíamos juntar madeira e guardá-la na cabana para que secasse.

Choveu de novo, e enchemos nossa garrafa de água três vezes; eu nunca tinha provado alguma

coisa tão boa na minha vida.

Quando o sol se pôs, levamos os assentos, os coletes salva-vidas e a minha mochila para dentro da cabana.

— Boa noite, T.J. — disse Anna, repousando a cabeça em um dos assentos, com o espaço para a

fogueira entre nós.

— Boa noite, Anna.

CAP Í TULO 7

Anna

Dia 5

Abri os olhos. A luz do sol entrava por entre as fendas da cabana. A pressão da minha bexiga — algo que eu não sentia havia algum tempo — me confundiu por um segundo, e então eu sorri.

Preciso ir ao banheiro.

Saí da cabana sem acordar T.J. e entrei na floresta. Agachei-me atrás de uma árvore, franzindo o nariz com o forte odor de amônia da minha urina. Quando levantei minhas calças de volta, me

encolhi com a umidade entre minhas pernas.

T.J. estava acordado e parado perto da cabana quando voltei.

— Onde você estava? — perguntou ele.

Sorri e disse:

— Fazendo xixi.

Ele bateu a palma da mão na minha, em sinal de vitória.

— Também preciso fazer.

Quando ele voltou, fomos até a árvore de fruta-pão e apanhamos três delas caídas no solo. Nós

nos sentamos e comemos nosso café da manhã.

— Deixe-me ver sua cabeça — disse T.J.

Eu me inclinei para a frente, e ele passou os dedos por entre o meu cabelo até encontrar o corte.

— Está melhor. Mas você provavelmente teria que ter tomado pontos. Não consigo ver

nenhum sangue seco, mas seu cabelo é tão escuro que é difícil dizer. — Ele apontou para minhas bochechas. — Os machucados estão sumindo. Aquele ali está ficando amarelo.

A aparência de T.J. havia melhorado também. Seu olho não estava mais fechado pelo inchaço, e

seus cortes estavam sarando. Ele ficou melhor do que eu por causa do cinto de segurança. Seu rosto

— muito bonito, embora ainda bem juvenil — não ficaria com nenhuma cicatriz do acidente de

avião.

Eu não sabia se podia dizer o mesmo do meu, mas não estava preocupada com aquilo no

momento.

Depois do café da manhã, T.J. fez outra fogueira.

— Bem impressionante, garoto da cidade — falei, apertando o ombro dele.

Ele sorriu, adicionando pequenos pedaços de lenha e fazendo as chamas ficarem mais altas,

claramente orgulhoso de si mesmo. Enxugou o suor dos olhos e agradeceu:

— Obrigado.

— Deixe-me ver suas mãos.

Ele as estendeu para mim, com as palmas para cima. Bolhas cobriam a pele crua e cheia de

calos, e ele se retraiu quando as toquei.

— Isso deve doer.

— Dói mesmo — admitiu.

O fogo encheu nosso abrigo de fumaça, mas não apagaria quando chovesse. Se ouvíssemos um

avião, poderíamos derrubar a cabana e jogar folhas verdes no fogo para criar fumaça.

Eu nunca tinha ficado tanto tempo sem um banho, e meu cheiro estava horrível.

— Vou tentar me limpar — informei. — Você tem que ficar aqui, está bem?

Ele balançou a cabeça em um aceno afirmativo e me entregou uma camiseta de manga curta da

sua mochila.

— Você quer usar isso em vez da sua camiseta de manga comprida?

— Sim. Obrigada.

A camiseta era muito grande e comprida e ficaria como um vestido em mim, mas eu não me

importava.

— Eu daria uns shorts também, mas sei que vão ficar muito grandes.

— Tudo bem. A camiseta vai ajudar muito.

Caminhei pela beira da água, parando para tirar todas as minhas roupas somente quando não

pudesse mais ver T.J. ou a cabana. Olhei para o céu azul e sem nuvens.

Agora seria uma hora excelente para um avião sobrevoar. Claro, alguém iria notar uma mulher nua na praia.

Entrei na laguna, e os peixes dispersaram. Por causa do sol, minhas mãos e meus pés haviam

assumido um tom mais escuro, que contrastava com o branco de meus braços e pernas. Meu cabelo

caía pela minha escápula em um emaranhado ninho de ratos.

Lavei meu corpo com as mãos e depois peguei minhas roupas na areia, enxaguando-as no mar.

Penteei o cabelo com os dedos e desejei ter um elástico para fazer um rabo de cavalo.

Ligeiramente mais limpa ao sair da água, coloquei minha calcinha e meu sutiã molhados e vesti a camiseta de T.J. Ficou até a altura do meio das coxas, então não me preocupei em vestir o jeans.

— Sei que não estou usando calças — expliquei quando voltei para a cabana —, mas estou com

calor e queria que elas secassem.

— Sem problemas, Anna.

— Queria que tivéssemos algo para pescar. Havia uma tonelada de peixes na laguna. — Salivei e

meu estômago roncou.

— Podíamos tentar caçá-los. Depois que eu me limpar, podemos procurar galhos compridos.

Nosso suprimento de lenha está baixo também.

T.J. voltou à cabana cinco minutos depois, com o cabelo molhado, usando roupas limpas. Seus

braços envolviam algo grande e volumoso.

— Olhe o que eu encontrei na água.

— O quê?

Ele colocou o objeto no chão e o girou para que eu pudesse ler o que estava escrito do lado.

— É o bote salva-vidas do avião. — Ajoelhei-me perto dele. — Eu me lembro de ter visto isso

quando estava procurando os coletes salva-vidas.

Abrimos o compartimento que o guardava e puxamos o bote para fora. Rasguei a bolsa à prova

d’água no qual estava envolvido e tirei um pedaço de papel que listava o conteúdo. Li alto:

— Cobertura do bote salva-vidas, localizada no interior da caixa de acessórios, contendo duas portas enroláveis e um coletor de água da chuva no alto. Pacotes padronizados disponíveis, incluindo radiotransmissores de posição e localizadores de emergência.

Minhas esperanças aumentaram.

— T.J., onde está a caixa de acessórios?

T.J. olhou dentro do compartimento e puxou outra bolsa à prova d’água. Minhas mãos tremiam

enquanto eu rasgava o plástico e, assim que fiz um buraco grande o suficiente, virei a caixa de cabeça para baixo e joguei todo o conteúdo na areia. Procuramos, nossas mãos batendo umas nas

outras enquanto examinávamos cada item.

Não encontramos nada que levasse a um resgate.

Nenhum localizador de emergência. Nenhum radiotransmissor, telefone de satélite ou outro

transceptor.

Minhas esperanças despencaram vertiginosamente.

— Acho que eles pensaram que o pacote padronizado era uma melhoria desnecessária.

T.J. balançou a cabeça devagar.

Pensei no que poderia acontecer se tivéssemos encontrado um localizador de emergência.

Você apenas o liga e espera que venham resgatá-lo?

Meus olhos se encheram de lágrimas. Piscando para afastá-las, comecei a fazer um inventário do conteúdo da caixa de acessórios: faca, kit de primeiros socorros, lona, dois cobertores, corda e dois recipientes de plástico desmontáveis de dois litros.

Abri o kit de primeiros socorros: analgésico, antialérgico, pomada antibiótica, creme de

cortisona, Band-Aid, lenços umedecidos com álcool e antidiarreico.

— Deixe-me examinar suas mãos — disse a T.J.

Ele as estendeu, e coloquei pomada antibiótica e Band-Aid nas bolhas.

— Obrigado.

Peguei um frasco de antialérgico.