Na Ilha por Tracey Garvis Graves - Versão HTML

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— Isso pode salvar sua vida.

— Como?

— Parando uma reação alérgica.

— E aquele outro? — perguntou T.J., apontando para um frasco branco.

Olhei para ele e depois para o outro lado.

— É um antidiarreico.

Ele bufou quando ouviu aquilo.

O bote inflava com um tubo de dióxido de carbono. Quando apertamos o botão, ele encheu de

gás tão rápido que tivemos que pular para sair do caminho.

Prendemos a cobertura e o coletor de água da chuva. O bote salva-vidas lembrava uma daquelas

casas infláveis nas quais meus sobrinhos adoravam pular, embora não tão alta.

— Aqui devem caber quase doze litros de água — falei, apontando para o coletor de água.

Com sede novamente, eu esperava que a chuva da tarde viesse cedo.

Abas de náilon pendiam dos lados e eram presas no bote com velcro. Levantá-las durante o dia

permitia a entrada de luz e ar no interior. As portas de enrolar forneciam uma pequena abertura.

Empurramos o bote para perto da cabana e colocamos mais lenha na fogueira antes de andarmos

até o coqueiro. T.J. cortou a casca de um coco. Ele abriu a fruta ao meio enfiando a lâmina da faca no coco e batendo no cabo com o punho. Coletei a água que saiu em um dos recipientes de

plástico.

— Achei que fosse mais doce — disse T.J., depois de tomar um gole.

— Eu também.

O gosto era levemente amargo, mas não era ruim.

T.J. tirou a polpa com a faca. Morrendo de fome, eu queria comer todos os cocos do chão.

Dividimos cinco antes de a minha fome ardente dissipar. T.J. comeu mais um, e imaginei qual seria a quantidade de comida necessária para satisfazer um garoto de dezesseis anos.

A chuva chegou uma hora depois. T.J. e eu ficamos ensopados, sorrindo e comemorando,

observando os recipientes se encherem até a borda. Agradecidos pela completa abundância, bebi até não caber mais nada dentro de mim, a água fazendo barulho no meu estômago quando eu me

mexia.

No espaço de uma hora, conseguimos urinar novamente. Comemoramos comendo outro coco e

duas frutas-pão.

— Gosto mais de coco do que de fruta-pão — comentei.

— Eu também. Mas, agora que temos fogo, talvez possamos assar a fruta-pão e ver se o gosto

fica melhor.

Juntamos mais lenha e encontramos galhos compridos para caçar peixes. Jogamos a lona por cima

do topo da cabana e amarramos com a corda para protegê-la melhor da chuva.

T.J. fez cinco marcas no tronco de uma árvore. Nenhum de nós dois voltou a mencionar outro

avião.

Na hora de dormir, deixamos a fogueira o mais alto que pudemos sem queimar a cabana. T.J.

engatinhou para dentro do bote. Fui atrás dele, usando a camiseta que ele tinha me dado e que agora servia como camisola. Fechei a porta de enrolar atrás de mim; pelo menos teríamos uma proteção contra os mosquitos.

Abaixamos as abas de náilon e as prendemos com o velcro. Estiquei os cobertores e coloquei as

almofadas dos assentos como travesseiros. Os cobertores pinicavam, mas nos manteriam aquecidos quando o sol se pusesse e a temperatura baixasse. As almofadas das poltronas eram finas e cheiravam a mofo, mas eram luxuosamente confortáveis em comparação a dormir no chão.

— Isso está fantástico! — exclamou T.J.

— Eu sei.

O bote era um pouco menor do que uma cama de casal. Dividi-lo com T.J. nos deixaria a

apenas alguns centímetros um do outro. Eu estava cansada demais para me importar.

— Boa noite, T.J.

— Boa noite, Anna.

Ele já parecia sonolento e rolou para o lado e desmaiou.

Segundos depois, também desabei.

Acordei no meio da noite para verificar o fogo. Só restavam brasas ardentes, então coloquei mais lenha e cutuquei com um galho, mandando fagulhas para o ar. Quando o fogo voltou a queimar

forte, retornei para a cama.

T.J. acordou quando me deitei ao lado dele.

— O que houve? — perguntou.

— Nada. Coloquei mais lenha na fogueira. Volte a dormir.

Fechei os olhos, e dormimos até o sol nascer.

CAP Í TULO 8

T.J.

Acordei com uma ereção.

Acontecia com frequência, e eu não tinha muito controle sobre isso. Agora que não estávamos

mais quase mortos, meu corpo devia ter decidido que todo o meu organismo estava funcionando

bem. Dormir tão perto de uma garota, principalmente uma como Anna, certamente ia garantir que

eu acordasse duro.

Ela estava deitada de lado, virada para mim, ainda dormindo. Os cortes no rosto estavam sarando e, para a sorte dela, nenhum parecia profundo o suficiente para deixar uma cicatriz. Ela havia se livrado do cobertor em algum momento durante a noite, e eu acabei olhando para as pernas dela, o que era uma coisa errada considerando o que estava acontecendo dentro do meu short naquele

momento. Se ela abrisse os olhos, me pegaria olhando para ela, então me arrastei para fora do bote e pensei em geometria até que minha ereção passasse.

Anna acordou dez minutos depois. Comemos coco e fruta-pão de café da manhã, e depois

escovei os dentes, enxaguando com água da chuva.

— Aqui — falei, entregando a escova e a pasta de dentes para ela.

— Obrigada. — Anna colocou pasta na escova e escovou os dentes.

— Talvez haja outro avião hoje — refleti.

— Talvez — disse Anna.

Mas ela não olhou para mim enquanto falava.

— Quero dar mais uma olhada por aí. Ver o que mais tem nesta ilha.

— Temos que ter cuidado — alertou ela. — Não temos sapatos.

Dei a ela um par das minhas meias para que seus pés não ficassem completamente descalços. Eu

me abaixei atrás da cabana, coloquei minha calça jeans para proteger as pernas dos mosquitos e entramos na floresta.

O ar úmido se instalou na minha pele. Passei por uma nuvem de mosquitos, mantendo a boca

fechada e espantando-os com as mãos. Fomos mais para o interior da ilha, e o cheiro de plantas podres ficou mais forte. As folhagens acima de nós bloqueavam quase toda a luz do sol, e os únicos sons que ouvíamos eram os galhos se partindo e a nossa respiração enquanto inalávamos o ar pesado.

O suor empapava minhas roupas. Continuamos em silêncio, e imaginei quanto tempo levaria para

abrirmos caminho entre as árvores e chegarmos até o outro lado.

Chegamos lá quinze minutos depois. Anna estava logo atrás de mim, então eu vi primeiro.

Parando bruscamente, me virei e fiz um sinal para ela se apressar.

Ela me alcançou e sussurrou:

— O que é aquilo?

— Não sei.

Uma choupana de madeira, mais ou menos do tamanho de um trailer, se erguia quinze metros à

frente. Talvez outra pessoa morasse na ilha. Alguém que não se preocupara com apresentações.

Andamos até a choupana com cuidado. A porta da frente pendia aberta, com as dobradiças

enferrujadas, e demos uma espiada no interior.

— Olá? — disse Anna.

Como ninguém respondeu, atravessamos a soleira da porta e pisamos no chão de madeira. Havia

outra porta do lado oposto do cômodo sem janelas, mas estava fechada. Não havia nenhum móvel.

Cutuquei uma pilha de cobertores no canto, e pulamos para trás quando uns insetos voaram de lá.

Quando meus olhos se ajustaram à pouca luminosidade, percebi que havia uma grande caixa de

ferramentas de metal no chão. Eu me abaixei e a abri. Havia um martelo, diversos pacotes de pregos e parafusos, uma fita métrica, alicates e um serrote. Anna encontrou algumas roupas. Pegou uma camisa, mas a manga se soltou.

— Pensei que talvez pudéssemos usar isso, mas deixa para lá — disse ela, fazendo uma careta.

Abri a porta do segundo cômodo, e entramos bem devagar. Sacos vazios de batatas fritas e

embalagens de balas estavam espalhados no chão. Perto, havia um recipiente de plástico com uma abertura larga. Eu o peguei e olhei para dentro. Vazio. Quem quer que morasse aqui,

provavelmente o usava para coletar água. Talvez, se tivéssemos explorado a ilha mais um pouco, andado além e encontrado a choupana mais cedo, não tivéssemos sido forçados a beber a água do

lago. Talvez estivéssemos na praia quando o avião sobrevoou nossas cabeças.

Anna olhou para o recipiente na minha mão. Deve ter pensado o mesmo, porque disse:

— O que está feito está feito, T.J. Não há nada que possamos fazer a respeito.

Um saco de dormir mofado estava embolado no chão. No canto, encostado na parede, havia

uma grande caixa preta. Abri as fivelas e levantei a tampa. Dentro, havia um violão em boas

condições.

— Isso é estranho — disse Anna.

— Você acha que alguém morava aqui?

— Parece que sim.

— O que estariam fazendo?

— Além de encarnar o cantor country Jimmy Buffett? — Anna balançou a cabeça. — Não faço

ideia. Mas, quem quer que seja, não vem para casa há muito tempo.

— Isso não é madeira de demolição — refleti. — Foi cortada em uma marcenaria. Não sei

como ele trouxe para cá, de barco ou avião, mas esse cara sabia o que estava fazendo. Então, para onde ele foi?

— T.J. — disse Anna, os olhos se arregalando —, talvez ele volte.

— Tomara.

Coloquei o violão no estojo e entreguei a Anna. Peguei a caixa de ferramentas e refizemos o

caminho até a praia.

Na hora do almoço, Anna assou fruta-pão em uma pedra chata perto do fogo, enquanto eu abria

cocos. Comemos tudo o que ela havia assado — a fruta-pão ainda não tinha gosto de pão, na minha opinião — com a água do coco, que nos ajudou a engolir. O calor do fogo e a temperatura

ambiente, que devia estar próxima a trinta graus, tornavam difícil ficar dentro da cabana por muito tempo. O suor escorria pelo rosto vermelho de Anna, e seus cabelos estavam grudados no pescoço.

— Quer entrar na água?

Eu me arrependi das palavras assim que elas saíram da minha boca. Ela provavelmente pensaria

que eu só queria que ela tirasse a roupa na minha frente de novo.

Ela hesitou, mas respondeu:

— Quero. Estou torrando.

Andamos até a beira da água. Eu não colocara meu short de novo, então tirei as meias, a

camiseta e o jeans. Estava usando uma cueca boxer cinza.

— Finja que estou de sunga — falei para Anna.

Ela deu uma olhadela para minha cueca e sorriu.

— Tudo bem.

Esperei por ela na água, tentando não encará-la enquanto ela tirava as roupas. Se Anna tinha

coragem de se despir na minha frente, eu não ia ser um idiota.

Fiquei duro de novo, entretanto, e esperei que ela não percebesse.

Nadamos por um tempo e, quando saímos da água, nos vestimos e sentamos na areia. Anna

olhou para o céu.

— Eu tinha certeza de que aquele avião passaria novamente — disse ela.

Quando voltamos para a cabana, joguei mais lenha no fogo. Anna pegou um dos cobertores do

bote, esticou no chão e se sentou. Peguei o violão e me sentei ao lado dela.

— Você toca? — perguntou ela.

— Não. Quer dizer, um dos meus amigos me ensinou parte de uma música. — Dedilhei as

cordas e então toquei as notas da introdução de “Wish You Were Here”.

Anna sorriu.

— Pink Floyd.

— Você gosta de Pink Floyd?

Ela confirmou com um aceno de cabeça.

— Adoro essa música.

— Verdade? Isso é o máximo. Nunca passaria pela minha cabeça.

— Por quê? Que tipo de música você acha que eu escuto?

— Não sei, tipo, Mariah Carey?

— Não, gosto de coisa mais antiga. — Ela encolheu os ombros. — O que posso dizer? Nasci em

setenta e um.

Calculei a idade dela.

— Você tem trinta anos?

— Tenho.

— Achei que você tivesse vinte e quatro ou vinte e cinco.

— Não.

— Você não age como se tivesse trinta.

Ela balançou a cabeça e riu suavemente.

— Não sei se isso é bom ou ruim.

— Só quis dizer que é fácil conversar com você.

Ela sorriu para mim. Dedilhei mais um pouco, tocando o mesmo riff do Pink Floyd, mas tive

que parar porque minhas mãos doíam por ter feito o fogo.

— Se tivéssemos alguma coisa para usar como anzol, eu podia transformar isso em uma vara de

pescar — falei. — As cordas do violão provavelmente dariam uma linha razoável.

Pensei em usar um prego da caixa de ferramentas, mas os peixes não eram muito grandes. Eu

precisava de algo menor e mais leve.

Mais tarde, quando fomos para a cama, ela disse:

— Espero que aquela festa que fez você ficar para trás tenha valido a pena.

— Na verdade, não foi uma festa. Só disse para meus pais que era.

— E o que era, afinal?

— Os pais do Ben estavam viajando. O primo dele tinha acabado de chegar da universidade para

passar o verão e ficou de ir à casa do Ben com a namorada. Ela ia levar duas amigas. Ben se

convenceu de que ia se dar bem com uma delas. Apostei vinte dólares que isso não ia acontecer.

Não contei a Anna que eu também planejava tentar.

— E ele se deu bem?

— Eles não apareceram. Ficamos sentados a noite inteira bebendo cerveja e jogando video

game. Dois dias depois, peguei o avião com você.

— Nossa, T.J., sinto muito — disse Anna.

— Tudo bem.

Esperei um minuto e então perguntei:

— Quem era aquele cara no aeroporto?

— Meu namorado, John.

Eu me lembrei do beijo que ele tinha dado nela. Parecia que ele estava tentando enfiar a língua na sua garganta.

— Você deve estar com saudades dele.

Ela não respondeu logo, mas depois finalmente disse:

— Não tanto quanto deveria.

— Como assim?

— Deixa para lá. É complicado.

Eu me virei para o lado e apertei a almofada do assento embaixo da cabeça.

— Por que você acha que o avião não voltou, Anna?

— Não sei.

Mas eu achava que ela sabia.

— Eles acham que estamos mortos, não é?

— Espero que não — disse ela. — Porque senão vão parar de procurar.

CAP Í TULO 9

Anna

Na manhã seguinte, T.J. usou a faca para aparar as extremidades de dois grandes galhos, deixando-os com as pontas afiadas.

— Pronta para caçar alguns peixes com um arpão? — perguntou ele.

— Com certeza.

Quando chegamos à beira da água, T.J. se ajoelhou e pegou algo.

— Isso deve ser seu — disse ele, me entregando uma sapatilha azul-escura.

— É, sim. — Olhei para a água. — Talvez a outra apareça.

Entramos na água, com a profundidade até os quadris. O calor não estava tão insuportável de

manhã, por isso, usei a camiseta do T.J. em vez de ficar só de calcinha e sutiã. A barra da camiseta empapou de água como uma esponja e grudou nas minhas coxas. Durante mais de uma hora

tentamos sem sucesso caçar um peixe com o arpão improvisado. Pequenos e rápidos, eles se

dispersavam assim que fazíamos qualquer tipo de movimento.

— Você acha que teríamos mais sorte se fôssemos mais para o fundo? — perguntei.

— Não sei. Os peixes provavelmente são maiores, mas deve ser mais difícil usar o arpão.

Foi então que notei alguma coisa boiando.

— O que é aquilo, T.J.? — Protegi os olhos com as mãos.

— Onde?

— Bem à frente. Você está vendo algo que afunda e vem à tona? — Apontei.

T.J. semicerrou os olhos por causa da distância.

— Ai, merda. Não olhe, Anna.

Tarde demais.

Logo depois de ele me dizer para não olhar, entendi. Larguei meu arpão e vomitei na água.

— Ele vai ser carregado pelo mar até aqui, então vamos voltar para a praia — disse T.J.

Eu o segui para fora da água. Quando chegamos à areia, vomitei novamente.

— Ele já está aqui? — perguntei, enxugando a boca com as costas da mão.

— Quase.

— O que vamos fazer?

A voz de T.J. soava trêmula e incerta.

— Vamos ter que enterrar o corpo em algum lugar. Poderíamos usar um dos nossos cobertores,

a não ser que você se oponha.

Por mais que eu odiasse abrir mão de uma das nossas posses, enrolá-lo em um cobertor parecia o mais respeitoso a fazer. E se eu fosse honesta comigo mesma, sabia que não conseguiria tocar o corpo dele sem alguma proteção.

— Vou pegar — falei, agradecida por ter uma desculpa para não estar lá quando o cadáver

chegasse.

Quando retornei com o cobertor, entreguei-o a T.J. Empurrando com os pés, rolamos o corpo

para cima do cobertor. O cheiro de decomposição, de carne saturada de água, invadiu meu nariz, e enterrei meu rosto na parte interna do braço.

— Não podemos enterrar na praia — falei.

T.J. negou com um gesto de cabeça.

— Não.

Escolhemos um lugar embaixo de uma árvore, bem longe da cabana, e começamos a cavar na

terra macia com nossas mãos.

— Está grande o suficiente? — perguntou T.J., olhando para o buraco.

— Acho que sim.

Não precisávamos de uma cova grande porque os tubarões haviam comido as pernas de Mick e

parte do torso. E um braço. Algo mais havia trabalhado no seu rosto branco inchado. Tiras da

camiseta tie-dye que ele usava estavam penduradas no seu pescoço.

T.J. esperou passar as ânsias de vômito que me acometeram, depois, agarrei uma ponta do

cobertor e ajudei-o a arrastar Mick para a cova e colocá-lo no buraco. Nós o cobrimos com terra e ficamos de pé.

Lágrimas silenciosas rolavam pelo meu rosto.

— Ele já estava morto quando atingimos a água — falei, com firmeza, como uma declaração.

— Estava — concordou T.J.

E então começou a chover. Voltamos para o bote e nos arrastamos para dentro. A cobertura nos

deixava secos, mas eu tremia. Puxei o cobertor — que agora dividiríamos — para nos cobrir e

dormimos.

Quando acordamos, T.J. e eu pegamos fruta-pão e cocos. Nenhum de nós falou muito.

— Toma. — T.J. me entregou um pedaço de coco.

Afastei sua mão.

— Não, não consigo. Coma você.

Meu estômago revirava. Eu nunca tiraria a imagem de Mick da cabeça.

— Seu estômago ainda não está legal?

— Não.

— Tente tomar um pouco de água de coco — sugeriu ele, passando para mim.

Levantei o recipiente de plástico e tomei um gole.

— Desceu bem?

Fiz que sim com a cabeça.

— Talvez eu fique com isso por pouco tempo.

— Vou pegar lenha.

— Tudo bem.

Ele só havia se afastado por alguns minutos quando senti o gotejar.

Ah, meu Deus, não.

Esperando ser um alarme falso, andei na direção oposta de onde T.J. fora e baixei minha calça.

Lá estava, no fundo da minha calcinha branca de algodão, a prova de que eu havia acabado de ficar menstruada.

Corri para a nossa cabana tosca e peguei minha camiseta de manga comprida. De volta à floresta, rasguei uma tira, enrolei e coloquei na minha calcinha.

Preciso que esse dia horroroso acabe.

Quando o sol se pôs, os mosquitos fizeram um banquete nos meus braços.

— Você deve ter decidido que ficar fresca era melhor do que levar algumas mordidas — disse

T.J. quando notou que eu estava batendo nos mosquitos.

Ele havia colocado o casaco e o jeans assim que os insetos apareceram.

Pensei na minha camiseta de manga comprida, escondida embaixo de um arbusto que eu

esperava conseguir encontrar novamente.

— É, tipo isso.

CAP Í TULO 1 0

T.J.

Não comemos nada além de coco e fruta-pão nos dezoito dias seguintes, e nossas roupas estavam

largas. O estômago de Anna roncava enquanto ela dormia, e eu sentia uma dor constante na barriga.

Eu duvidava de que ainda estivessem nos procurando, e um sentimento vazio, oco, que não tinha

nada a ver com fome, se juntava à dor nas minhas vísceras sempre que eu pensava na minha família e nos meus amigos.

Pensei que fosse impressionar Anna se conseguisse caçar um peixe com o arpão. Em vez disso,

consegui furar meu pé, e isso doeu para cacete, mas fingi não ter doído tanto.

— Quero colocar pomada antibiótica no machucado — disse Anna. Ela aplicou a pomada de

leve no corte e cobriu com um Band-Aid. Ela disse que a umidade da ilha era perfeita para os

germes e que pensar em um de nós dois pegando uma infecção a deixava em pânico. — Você vai

ter que ficar fora da água até isso sarar, T.J. Quero que você mantenha a ferida seca.

Ótimo. Sem pescar e sem nadar.

Os dias passavam lentamente. Anna ficou quieta. Ela dormia mais, e eu a pegava enxugando os

olhos quando eu voltava depois de catar lenha ou explorar a ilha. Um dia a encontrei sentada na praia, olhando o céu.

— É mais fácil se você parar de pensar que eles estão voltando — falei para ela.

Anna olhou para mim.

— Então só devo esperar que um avião sobrevoe a ilha algum dia por acaso?

— Não sei, Anna.

Eu me sentei ao lado dela.

— Podíamos ir embora no bote salva-vidas — falei. — Encher de comida e usar os recipientes

de plástico para coletar água da chuva. Apenas começar a remar.

— E se a comida acabasse ou alguma coisa acontecesse com o bote? Seria suicídio, T.J.

Obviamente não estamos na rota de voo para nenhuma dessas ilhas habitadas, e não há garantias de que um avião vá nos sobrevoar. Essas ilhas estão espalhadas por milhares de quilômetros de água.

Não posso enfrentar isso. Não depois de ver o Mick. Eu me sinto mais segura aqui, na ilha. E sei que eles não vão voltar, mas dizer isso em voz alta parece uma desistência.

— Eu costumava me sentir assim, mas não me sinto mais.

Anna me examinou.

— Você se adapta fácil.

Concordei com um gesto de cabeça.

— Nós moramos aqui, agora.

CAP Í TULO 1 1

Anna

T.J. gritou meu nome. Eu estava sentada perto da cabana, olhando para o nada. Ele correu em

minha direção, arrastando uma mala.

— Anna, é sua?

Eu me levantei e voei para encontrá-lo no meio do caminho.

— É!

Por favor, permita que seja a mala certa.

Eu me joguei na areia em frente à mala e puxei o zíper; abri-a completamente e sorri.

Empurrei as roupas molhadas e procurei pelas joias. Encontrei a sacola Ziploc, abri-a e espalhei tudo. Escolhendo com cuidado, meus dedos se fecharam em volta de um brinco pendente, que

levantei radiante para T.J. ver.

Ele sorriu, estudando o arame em curva usado para pendurar o brinco na orelha.

— Vai dar um excelente anzol, Anna.

Tirei tudo da mala: escova de dentes e dois tubos de pasta de dentes normal, além de um tubo

de pasta Crest branqueadora, quatro sabonetes, dois vidros de sabonete líquido, xampu e

condicionador, hidratante, creme e aparelho de barbear, além de dois pacotes de lâminas. Três

desodorantes — dois em barra e um em gel —, óleo de bebê e bolas de algodão para tirar a

maquiagem, protetor labial sabor cereja e — graças a Deus — duas caixas de absorvente interno.

Esmalte de unha e removedor de esmalte, pinça, cotonetes, lenços de papel, um frasco de sabão para lavar minha roupa de banho à mão e dois tubos de filtro solar fator de proteção 30. T.J. e eu já estávamos tão bronzeados que não achei que o protetor solar fosse fazer alguma diferença.

— Uau! — exclamou T.J. quando terminei de colocar todos os artigos de higiene pessoal em

ordem.

— A ilha para onde supostamente íamos não tinha drogaria — expliquei. — Verifiquei isso.

Também embalei um pente e uma escova, elásticos e pregadores de cabelo, um baralho, minha

agenda e uma caneta, dois pares de óculos escuros — um modelo Ray-Ban de aviador e outro com

uma enorme armação preta — e um chapéu de vaqueiro de palha que eu sempre usava na piscina.

Apanhei cada peça de roupa, torci todas para retirar o excesso de água e as espalhei na areia para secar. Quatro biquínis, calças compridas largas de algodão, shorts, alguns tops, camisetas e um vestido de verão. Um par de tênis e diversos pares de meias. Uma camiseta de um show da banda REO

Speedwagon e uma camiseta cinza da Nike com uma pincelada vermelha e os dizeres “JUST DO

IT” na frente. As duas eram de tamanho grande, e eu as usava para dormir.

Joguei minha roupa de baixo e o sutiã de volta na mala e a fechei. Eu ia tratar deles outra hora.

— Estamos com sorte de ser esta a mala que a maré trouxe.

— E a outra tinha o quê?

— Seus livros de estudos e os exercícios. — Eu havia preparado aulas, organizando toda a tarefa que T.J. teria que completar. Os romances que eu havia planejado ler durante o verão estavam

naquela mala também, e pensei, saudosa, em como eles teriam ajudado a passar o tempo. Olhei para T.J., com uma expressão esperançosa. — Talvez consigamos encontrar a sua mala também.

— Sem chance. Meus pais levaram com eles. É por isso que eu carregava algumas roupas e

minha escova de dentes na mochila. Minha mãe queria que eu carregasse alguma coisa no caso de o avião atrasar e eu ter que passar a noite em algum lugar.

— Verdade?

— Verdade.

— Hum. Imagine.

* * *

Juntei tudo de que eu precisava.

— Vou tomar um banho — falei. — Você não pode se aproximar da água enquanto eu estiver

lá. Tudo bem?

T.J. confirmou com a cabeça.

— Não vou. Prometo. Vou ver se consigo fazer um caniço de pescar enquanto você estiver

ocupada. Vou quando você voltar.

— Ok.

Quando cheguei à praia, tirei a roupa, caminhei até a água e mergulhei de cabeça. Lavei meu

cabelo imundo, enxaguei e lavei de novo. O xampu tinha um cheiro incrível, mas talvez fosse

porque eu cheirava tão mal. Depois de passar o condicionador, me ensaboei da cabeça aos pés e me sentei na praia, raspando as pernas e as axilas. Entrei na água para enxaguar e boiei durante algum tempo, satisfeita e limpa.

Vesti o biquíni amarelo e passei o desodorante; desembaracei os cabelos e os prendi com um

prendedor. Escolhi os óculos escuros de armação preta, decidindo que T.J. devia usar o Ray-Ban.

Ele teve que me olhar duas vezes quando finalmente apareci. Eu me sentei perto dele, que se

inclinou, me cheirou e disse:

— Os mosquitos vão comer você viva.

— Eu me sinto tão bem que nem me importo.

— O que você acha? — perguntou ele, me mostrando a vara de pescar.

Ele tinha feito um furo na extremidade de uma longa vara e prendido a corda do violão ali.

Enfiou a outra ponta da corda em uma abertura no gancho do meu brinco.

— Parece ótimo. Quando você voltar do banho, vamos tentar. Deixei tudo perto da água. Pode

usar à vontade.

Ao voltar, T.J. tinha uma aparência limpa e um cheiro tão bom quanto o meu. Entreguei para

ele os óculos Ray-Ban.

— Oba, obrigado — agradeceu ele, colocando-os no rosto. — São legais. — E pegou a vara de

pescar.

— O que vamos usar como isca? — perguntei.

— Minhocas, eu acho.

Cavamos a terra por baixo das árvores até encontrarmos algumas minhocas. Pareciam larvas —

eram brancas e se contorciam —, e estremeci. T.J. colocou um punhado nas mãos, e fomos até a

beira da água.

— A corda não é muito comprida — disse T.J. — Não quis usar toda a corda do violão, com

medo de que se partisse ou algo acontecesse com a vara.

Entramos na água até a altura da cintura, e ele jogou o anzol. Ficamos imóveis.

— Alguma coisa está beliscando — falou T.J.

Ele puxou rápido a vara e apanhou a corda. Gritei de animação quando vi um peixe pendurado

nela.

— Ei, funcionou! — comemorou ele.

T.J. pescou mais sete peixes em menos de meia hora. Quando voltamos para a cabana, ele foi

procurar madeira para usarmos como lenha, e comecei a limpar os peixes com a faca.

— Onde aprendeu a fazer isso? — perguntou T.J. quando voltou.

Ele esvaziou a mochila cheia de galhos na pilha de lenha da cabana.

— Meu pai. Ele costumava nos levar, minha irmã Sarah e eu, para pescar o tempo todo, na casa

que tínhamos quando eu era criança. Ele sempre usava um chapéu de pescador esquisito, com iscas presas em volta. Eu ajudava meu pai a limpar os peixes que pescávamos.

T.J. observava enquanto eu limpava o último peixe, raspando as escamas com a faca e cortando a cabeça. Passei a lâmina ao longo do peixe, separando o filé da pele. Despejei água de chuva nas mãos para lavar o sangue e as tripas, e depois cozinhei o peixe na pedra plana que usávamos para assar fruta-pão. Comemos todos os oito, um após o outro. O sabor era melhor do que o de qualquer

outro peixe que eu já tinha comido.

— Que tipo de peixe você acha que é? — perguntei a T.J.

— Não sei. Mas é muito bom.

Sentamo-nos no cobertor depois do jantar, com os estômagos cheios pela primeira vez em

semanas. Abri minha mala e puxei a agenda, alisando as páginas enrugadas.

— Há quantos dias estamos aqui? — perguntei a T.J.

Ele caminhou até a árvore e contou as marcas de contagem de tempo que fizera com a faca.

— Vinte e três.

Fiz um círculo ao redor da data no calendário. Já estávamos quase em julho.

— Vou controlar a partir de agora. — Foi então que lembrei. — Quando você tinha que

retornar ao médico?

— Final de agosto. Tenho um exame marcado.

— Vão nos encontrar até lá.

Eu não contava com isso, na verdade. Pela expressão de T.J., ele também não.

* * *

Eu estava indo para o banheiro atrás de uma árvore quando ouvi o barulho. O som agitado e de asas batendo me pegou de surpresa e quase caí na minha poça de xixi. Fiquei de pé, puxei rápido a

calcinha e o short e parei para ouvir, mas não escutei o barulho novamente.

— Acho que ouvi o barulho de um animal — falei para T.J. quando voltei.

— Que tipo de animal?

— Não sei. Era um barulho de agitação e de asas batendo. Você ouviu alguma coisa?

— Ouvi, sim. O mesmo que você.

Fomos juntos para o lugar onde eu tinha ouvido o barulho, mas não encontramos nada. Juntamos

toda a lenha que podíamos carregar no caminho de volta e colocamos na nossa pilha.

— Você quer nadar? — perguntou T.J.

— Claro.

Agora que eu tinha uma roupa de banho, nadar me parecia uma ótima ideia.

Aquelas águas transparentes teriam sido perfeitas para usar um snorkel. Nadamos durante meia hora e, pouco antes de sairmos da água, T.J. pisou em algo. Ele mergulhou e, quando emergiu,

segurava um pé de tênis.

— É seu? — perguntei.

— É. Imaginei que ia acabar aparecendo.

Ficamos sentados na praia, a brisa do oceano secando nossos corpos.

— Por que seus pais escolheram essas ilhas? — perguntei. — São tão distantes.

— Mergulho autônomo. Supostamente são os melhores locais de mergulho do mundo. Meu pai

e eu temos certificado — explicou T.J., enfiando os dedos dos pés na areia branca. — Quando eu estava bem doente, ele fazia a maior propaganda, dizendo para todo mundo que, assim que eu ficasse bom, íamos tirar essas grandes férias. Como se eu me importasse.

— Você não queria vir para cá?

T.J. negou com um gesto de cabeça.

— Por que não?

— Ninguém quer passar o verão inteiro com a família. Eu queria ficar em casa e sair com os

meus amigos. Aí eles me disseram que você vinha e que eu precisava compensar todo o estudo que eu tinha perdido ou repetiria o ano. Isso realmente me deixou puto. — Ele me olhou como se

pedisse desculpas. — Sem ofensas.

— Não ofendeu.

— Mas eles não me escutaram. Meus pais se convenceram de que esta viagem seria a melhor

coisa do mundo para a nossa família. Mas até minhas irmãs ficaram chateadas. Elas queriam ir para a Disney.

— Sinto muito, T.J.

— Tudo bem.

— Quantos anos têm as suas irmãs?

— Alexis tem nove, e Grace, onze. Às vezes elas me deixam maluco. Não param de falar. Mas

são legais. Você tem irmãos?

— Tenho uma irmã, Sarah. Ela é três anos mais velha do que eu e é casada com um rapaz

chamado David. Eles têm dois filhos: Joe tem cinco anos, e Chloe, dois. Sinto muito a falta deles todos. Não consigo parar de imaginar o que estão passando, principalmente meus pais.

— Também sinto falta da minha família — disse T.J.

Observei o céu azul-brilhante e voltei o olhar para a água turquesa, escutando o som

tranquilizador das ondas batendo contra o rochedo.

— É realmente muito bonito aqui — falei.

— É — concordou T.J. — É mesmo.

CAP Í TULO 1 2

T.J.

Uma das coisas mais difíceis de enfrentar na ilha era o tédio. Levava tempo juntar comida e lenha, além de pescar duas ou três vezes por dia; ainda assim, tínhamos muitas horas ociosas. Explorávamos a ilha e nadávamos, mas também conversávamos. E não demorou muito para eu me sentir quase tão

à vontade com a Anna quanto ficava com os meus amigos. Ela realmente ouvia o que eu dizia.

Anna perguntou como eu estava me sentindo emocionalmente. Supõe-se que homens devem ser

fortes, e é óbvio que Ben e eu nunca ficávamos conversando sobre os nossos sentimentos, mas

confessei para Anna que sentia uma sensação estranha no estômago toda vez que me indagava se

algum dia seríamos encontrados. Contei que às vezes eu ficava com medo e que nem sempre

dormia bem. Ela me disse que acontecia o mesmo com ela.

Eu gostava de dividir a cama com Anna. Às vezes ela se encolhia pertinho de mim, com a

cabeça no meu ombro, e uma vez, quando eu estava dormindo de lado, ela pressionou o peito

contra as minhas costas e encaixou os joelhos no espaço atrás dos meus. Fez isso dormindo, e não significou nada, mas foi uma sensação boa. Eu nunca tinha passado uma noite inteira com uma garota antes. Emma e eu só tínhamos dormido juntos por algumas horas, e o motivo principal era ela estar doente.

Eu gostava da Anna. Muito. Sem ela, realmente a ilha teria sido um saco.

* * *

Ninguém nos resgatou; por isso, perdi minha consulta de revisão com o oncologista no final de

agosto. Anna mencionou isso no café da manhã, um dia.

— Estou preocupada por você não ter ido ao médico — disse ela, me passando um pedaço de

peixe cozido. — Cuidado, está quente.

— Estou bem — falei, soprando o pedaço de peixe para esfriá-lo um pouco antes de colocar

tudo na boca.

— Sim, mas você esteve bastante doente, não foi?

— Foi.

Ela me passou a garrafa de água. Tomei um gole e baixei a garrafa.

— Conte como foi — pediu Anna.

— Minha mãe achou que eu estivesse gripado. Eu estava com febre e comecei a suar de noite.

Perdi muito peso. Então, o médico descobriu um caroço no meu pescoço, e ficamos sabendo que

era um nódulo linfático inchado. Fizeram alguns exames depois disso: radiografias, biópsia,

ressonância magnética e uma tomografia por emissão de pósitrons, que eles chamam de PET. Aí me disseram que eu tinha um linfoma de Hodgkin de estágio três.

— Você começou a quimioterapia logo?

— Comecei. Mas não funcionou. Também encontraram uma massa no meu peito, e então

também passei por sessões de radioterapia.

— Parece horrível.

Ela cortou um pedaço de fruta-pão e me deu o resto.

— É, não foi divertido. Eu entrava e saía do hospital o tempo todo.

— Você ficou doente durante quanto tempo?

— Mais ou menos um ano e meio, acho. Durante um tempo, não fiquei bem. Os médicos não

sabiam o que pensar.

— Deve ter sido bastante assustador, T.J.

— Na verdade, eles tentaram esconder o que estava realmente acontecendo, o que eu detestava.

Eu só sabia que estava mal porque de repente ninguém me olhava direto nos olhos quando eu fazia as perguntas. Ou mudavam de assunto. Isso, sim, me dava medo.

— Aposto que sim.

— No começo, meus amigos me visitavam o tempo todo, mas, como não melhorei, alguns

pararam de aparecer. — Bebi outro gole de água e devolvi a garrafa para a Anna. — Sabe o meu

amigo Ben?

— Sei.

— Ele vinha todo santo dia. Passava horas vendo televisão comigo, ou apenas ficava lá, sentado em uma cadeira perto da minha cama no hospital, quando eu me sentia mal demais para me mexer

ou falar. Meus pais e o médico costumavam ter umas conversas demoradas, no saguão ou em

qualquer outro lugar, e eu pedia para Ben tentar escutar. Ele me contava tudo o que eles

conversavam, por pior que fosse. Ele sabia que eu queria ouvir a história toda, sem rodeios, sabe?

— Claro — concordou ela. — Ele parece um ótimo amigo, T.J.

— E ele é, mesmo. Você tem uma melhor amiga?

— Tenho, Stefani. Nós nos conhecemos desde o jardim de infância.

— É muito tempo.

Ela concordou.

— Os amigos são importantes. Entendo por que você queria passar o verão com eles.

— É — falei, pensando sobre todo o pessoal em Chicago. Eles devem estar pensando que morri.

Anna se levantou e se aproximou da pilha de lenha.

— Você vai me contar se notar algum sintoma?

Ela apanhou um tanto de lenha e jogou no fogo.

— Claro. Só não fique perguntando o tempo todo se eu me sinto bem. Minha mãe fazia isso e

me deixava maluco.

— Tudo bem. Mas vou ficar um pouco preocupada.

— É... Eu também.

CAP Í TULO 1 3

Anna

O brilho da luz do sol me acordou, iluminando o interior do bote salva-vidas. T.J. já tinha se levantado e saído para apanhar lenha ou pescar. Dei um bocejo, espreguicei os braços e as pernas e engatinhei para fora da cama. Minha mala estava na cabana, e fui até lá. Peguei um biquíni e voltei para o bote para me trocar. Depois de me vestir, levantei as abas de náilon para arejar um pouco.

T.J. apareceu com os peixes que pescara para o café da manhã. Ele sorriu.

— Oi.

— Bom dia.

Fui verificar a árvore de fruta-pão e o coqueiro, carregando tudo o que estava caído no chão e trazendo para a cabana. T.J. quebrou os cocos enquanto eu limpava e cozinhava os peixes.

Depois do café da manhã, escovamos os dentes, enxaguando com a água da chuva, e anotei a

data na minha agenda. Já era setembro. Difícil de acreditar.

— Quer nadar? — perguntou T.J.

— Claro.

Na semana passada, T.J. tinha avistado duas barbatanas logo fora dos recifes. Entramos em pânico e saímos da água, mas, enquanto observávamos, eles entraram na laguna. Golfinhos. Voltamos para a água e eles não se afastaram, esperando pacientemente que nos aproximássemos.

— Eles agem quase como se quisessem se apresentar — falei, maravilhada.

T.J. deu tapinhas em um deles e riu quando o golfinho soltou água pelo respiradouro. Eu nunca

tinha visto criaturas tão sociáveis. Eles nadaram conosco por um tempo e depois se afastaram de repente, como se houvesse algum tipo de programação marinha.

— Talvez os golfinhos voltem hoje — falei e segui T.J. em direção à praia.

Ele tirou a camisa e entrou na laguna.

— Isso seria o máximo. Eu queria montar em um.

Nós nos divertimos usando um dos recipientes plásticos desmontáveis como máscara de

mergulho. Havia cardumes de peixes de cores brilhantes: roxo, azul, laranja e de listras amarelas e pretas. Avistamos uma tartaruga e uma enguia colocando a cabeça acima da superfície do oceano.

Nadei rápido, para me afastar, quando vi aquilo.

— Nada de golfinhos — comentei após T.J. e eu termos nadado por pelo menos uma hora. —

Nós nos desencontramos, provavelmente.

— Podemos tentar de novo depois de um cochilo. — De repente, ele apontou para a beira da

água. — Anna, olhe lá.

Era possível ver uma pata de caranguejo saindo da areia, a pinça abrindo e fechando. Saímos

correndo da água.

— Vou pegar meu casaco — disse ele.

— Rápido! Ele está tentando se enterrar.

T.J. voltou em tempo recorde, enrolou o casaco ao redor do caranguejo e o puxou para fora da

areia. Votamos para a cabana, e T.J. o jogou no fogo.

— Ah, meu Deus! — exclamei, pensando por um segundo sobre o fim violento do caranguejo.

Superei rapidamente esse sentimento.

Quebramos as patas com o alicate da caixa de ferramentas, nos fartando. A carne de caranguejo

— mesmo sem o molho de manteiga derretida — tinha um sabor melhor do que qualquer outra

coisa que já tinha comido desde que havíamos chegado à ilha. Agora que sabíamos onde eles se

escondiam, T.J. e eu teríamos que verificar a beira da água todo dia. Eu estava tão saturada de peixe, coco e fruta-pão que às vezes mal conseguia engolir esses alimentos. Acrescentar a carne de

caranguejo forneceria um pouco de variedade, algo de que nossa dieta precisava desesperadamente.

Quando o caranguejo não era nada além de uma pilha de pedaços de cascas, peguei o cobertor

no bote salva-vidas e o estendi embaixo do coqueiro. Nós nos deitamos um ao lado do outro. A

sombra da árvore nos ajudava a nos manter frescos na parte mais quente do dia, e aquele tinha se tornado nosso local favorito para um cochilo depois do “almoço”.

Uma aranha enorme, peluda e assustadora, com o corpo quase do tamanho de uma bola de

golfe, se arrastou preguiçosamente pelo ombro de T.J., e eu logo a expulsei com um peteleco.

— Até eu fiquei com calafrios com esta aqui — falei.

T.J. estremeceu. Ele odiava aranhas e sempre balançava o nosso cobertor, verificando se havia

alguma escondida, antes de recolocá-lo no bote salva-vidas. Eu, pessoalmente, detestava cobras. Já tinha pisado em uma, e a única coisa que me impediu de ficar traumatizada por completo foi o fato de estar calçando tênis. Odiava pensar na hipótese de pisar descalça em uma cobra; se elas eram venenosas ou não, era estressante demais para pensar.

Achei que T.J. já tivesse adormecido, mas então ele disse:

— O que acha que vai acontecer com a gente, Anna? — A voz dele soou sonolenta.

— Não sei. Acho que temos que continuar fazendo o que estamos fazendo e tentar aguentar até

que alguém nos encontre.

— Não estamos nos saindo tão mal assim — disse T.J., rolando para ficar de bruços. — Aposto

como tem gente que ficaria surpresa com isso.

— Eu fico surpresa. — Meu estômago cheio também estava me deixando sonolenta. — Não é

como se tivéssemos escolha, T.J. Ou encontrávamos uma maneira de nos virarmos ou morreríamos.

T.J. levantou a cabeça do cobertor e me olhou de uma forma contemplativa.

— Você acha que nossas famílias fizeram funerais para nós?

— Acho que sim.

A ideia de nossas famílias preparando cerimônias em nossa homenagem me magoou tanto que

fechei os olhos com força e me obriguei a dormir, com a esperança de fugir das imagens de uma

igreja lotada, um altar vazio e as expressões chorosas de meus pais.

Depois do cochilo, fomos pegar lenha, uma tarefa monótona e interminável. Mantínhamos o

fogo aceso, em parte porque T.J. não teria que fazer outro, e em parte porque ambos ainda tínhamos esperança de que um avião pudesse voar acima dele. Quando isso acontecesse, estaríamos prontos, nossa pilha de folhas verdes enviando sinais de fumaça assim que as jogássemos nas chamas.

Aumentamos a pilha de lenha da cabana. Depois, enchi o recipiente que havia acomodado o

bote salva-vidas com água do mar, juntei uma medida de sabão para lavar roupas e fiquei mexendo nossas roupas sujas lá dentro.

— Deve ser dia de lavar roupa — disse T.J.

— Isso.

Esticamos uma corda entre duas árvores e penduramos a roupa para secar. Não era muita coisa;

T.J. não usava nada além de um short. Eu passava os dias de biquíni e dormia à noite com uma

camiseta do T.J. e um short.

Mais tarde, nessa mesma noite, após o jantar, T.J. perguntou se eu queria jogar baralho.

— Pôquer?

Ele riu.

— O quê? Você já não apanhou o suficiente da última vez?

T.J. me ensinara a jogar, mas eu não era muito boa. Pelo menos, ele pensava isso. Eu começava

a pegar o jeito e estava pronta para ganhar.

Seis mãos depois, das quais ganhei quatro, ele disse:

— Hum, acho que não estou no melhor dos meus dias. Quer jogar damas, então?

— Tudo bem.

Ele desenhou um tabuleiro de damas na areia. Usávamos pedrinhas como peças e jogamos três

partidas.

— Mais uma? — perguntou T.J.

— Não, vou tomar banho.

Eu já estava preocupada com o nosso estoque de sabonete e xampu. Eu tinha levado um bocado

dos dois, mas T.J. e eu tínhamos concordado em tomar banho dia sim, dia não, para economizar.

Estávamos sempre limpos, porque nadávamos bastante, mas nem sempre exalávamos o melhor dos

odores.

— Sua vez — falei, quando voltei da praia.

— Sinto falta de um chuveiro — falou T.J.

Depois que T.J. tomou banho, fomos para a cama. Ele fechou a portinhola móvel do bote salva-

vidas e se deitou perto de mim.

— Daria qualquer coisa por uma Coca-Cola — falou T.J.

— Eu também. Daquelas grandes, cheias de gelo.

— E eu queria pão também. Não fruta-pão. Pão de verdade. Um sanduíche enorme, com

batatas fritas e picles.

— Uma pizza à moda de Chicago — completei.

— Um cheeseburger enorme e cheio de molho.

— Bife — falei. — E uma batata assada com queijo e creme azedo.

— Torta de chocolate de sobremesa.

— Eu sei fazer torta de chocolate. Minha mãe me ensinou.

— Daquela com lascas de chocolate em cima?

— É. Quando sairmos desta ilha, vou fazer uma para você. — Suspirei. — Estamos só nos

torturando.

— Eu sei. Agora estou com fome. Bom, eu já estava meio com fome.

Eu me virei de lado e me acomodei confortavelmente.

— Boa noite, T.J.

— Boa noite.

* * *

T.J. colocou os peixes que apanhara no chão ao meu lado e se sentou.

— As aulas recomeçaram há duas semanas — falei.

Marquei um X no calendário, coloquei a agenda de lado e comecei a limpar nosso café da

manhã.

T.J. deve ter reparado minha expressão, porque disse:

— Você parece triste.

Confirmei com um aceno de cabeça.

— É difícil, para mim, saber que outra professora está exatamente agora na frente de todos os

meus alunos, no meu lugar.

Eu lecionava inglês no ensino médio e adorava comprar os suprimentos da escola e selecionar os livros para as minhas estantes. Eu sempre deixava em cima da minha mesa uma grande caneca cheia de canetas, e não sobrava nenhuma no final do ano.

— Então, você gosta do seu trabalho?

— Adoro. Minha mãe era professora. Ela se aposentou no ano passado, e eu sempre soube que

seguiria a mesma profissão. Quando eu era criança, queria brincar de professora o tempo todo, e ela costumava me dar estrelas douradas para que eu pudesse dar notas no dever de casa de meus bichos de pelúcia.

— Aposto que você é uma professora maravilhosa.

— Tento ser. — Sorri. Coloquei os peixes limpos na minha pedra de cozinhar e a levei para

perto das chamas. — Você acredita que estaria começando o terceiro ano?

— Não. Parece que estou fora da escola há muito tempo.

— Você gosta da escola? Sua mãe me disse que você era um bom aluno.

— Mais ou menos. Eu queria alcançar a minha turma. Também tinha esperanças de voltar à

equipe de futebol americano. Tive que abandonar quando fiquei doente.

— Então você gosta de esportes? — perguntei.

Ele confirmou com a cabeça.

— Principalmente futebol americano e basquete. E você gosta?

— Claro.

— Você pratica algum esporte?

— Bom, eu corro. Participei de duas meias maratonas no ano passado, pratiquei corrida e joguei basquete na escola. Às vezes, faço ioga. — Verifiquei os peixes e afastei a pedra do fogo para que esfriasse. — Sinto falta de me exercitar.

Não conseguia me imaginar correndo agora. Mesmo que tivéssemos alimento suficiente para

justificar, correr em volta da ilha iria fazer eu me lembrar de um hamster em uma roda. Correr e não chegar a lugar algum.

* * *

T.J. caminhava com uma mochila cheia de madeira para usarmos como lenha.

— Feliz aniversário — falei.

— Hoje já é dia vinte de setembro? — Ele jogou uma tora no fogo e se sentou perto de mim.

Confirmei com a cabeça.

— Desculpe, não comprei presente para você. O shopping da ilha é uma droga.

T.J. riu.

— Tudo bem, não preciso de um presente.

— Talvez você possa dar uma grande festa quando sairmos da ilha.

T.J. deu de ombros.

— É. Pode ser.

T.J. parecia ter mais que seus dezessete anos. Reservado, até. Talvez o fato de enfrentar

problemas graves de saúde tenha eliminado parte do comportamento imaturo que vinha à tona

quando as únicas preocupações eram tirar a carteira de motorista, matar aula ou chegar mais tarde em casa.

— Não acredito que outubro já está chegando — falei. — Provavelmente as folhas estão

começando a mudar de cor lá em casa.

Eu adorava o outono: assistir a jogos de futebol americano, levar Joe e Chloe para os eventos de Halloween e sentir um friozinho no ar. Eram algumas das minhas coisas favoritas.

Fitei as palmeiras, as folhagens verdes se agitando com a brisa. O suor escorria lentamente pelo meu rosto, e o constante odor de coco em minhas mãos me lembrava do cheiro de loção

bronzeadora.

Seria sempre verão na ilha.

CAP Í TULO 1 4

T.J.

A chuva caía lateralmente. Trovões estrondeavam, raios iluminavam o céu. O vento balançava o

bote salva-vidas, e eu estava preocupado, achando que ele pudesse nos deslocar a caminho da praia.

Fiz uma anotação mental: Encontrar algo para ancorar o bote salva-vidas amanhã.

— Você está acordada? — perguntei a Anna.

— Estou.

A tempestade mostrou sua ira durante horas. Nós nos aconchegamos um ao outro cobrindo

nossas cabeças com o cobertor. O fino náilon que cobria o teto e descia pelas laterais do bote salva-vidas era toda a proteção que tínhamos contra os raios, ou seja: proteção nenhuma. Não falamos muito, apenas esperamos que a tempestade passasse e, quando isso finalmente aconteceu, voltamos a dormir, ambos exaustos.

Na manhã seguinte, Anna trouxe diversos coquinhos verdes que caíram da árvore com a

tempestade. Nós os abrimos. A carne tinha um sabor adocicado, e a água não era tão amarga quanto os cocos castanhos.

— São tão bons — disse Anna.

A cabana tinha desabado, e nosso fogo se extinguira. Por isso, tive que fazer outro, desta vez usando meu cadarço. Eu o amarrei às extremidades de uma vara curva. Dando um nó no cordão,

enfiei outra vara de forma que ficasse perpendicular ao pedaço de madeira onde eu a apoiava.

— O que está fazendo? — perguntou Anna.

— Vou usar isso aqui para rodar a vara. Foi isso que o cara na TV fez.

Ajustei a tensão na corda e mantive a vara em ângulos diferentes. Levei um tempo para

conseguir fazer a vara girar na velocidade certa. Mas, quando isso aconteceu, obtive fumaça em cerca de quinze minutos, e as chamas, logo depois.

— Uau! — exclamou Anna. — Ótima ideia.

— Obrigado.

Empilhei o material combustível e observei o fogo crescer. Anna e eu recolocamos a cabana no

lugar. Enxuguei o suor dos olhos e disse:

— Espero que não haja tempestade pior que essa. — Inclinei a última vara contra a cabana. —

Porque não sei o que vamos usar como abrigo se houver uma mais forte.

* * *

Anna se afastou para tomar um banho. Vasculhei a mala dela, tentando encontrar a camiseta do

REO Speedwagon. Ela me disse que eu podia usar, assim como a da Nike: as duas cabiam em mim.

Não encontrei a camiseta, mas encontrei duas caixas de absorventes internos enfiados por baixo de uns shorts.

O que será que ela vai fazer quando os absorventes acabarem?

Remexi um pouco mais nas coisas e reparei nos sutiãs, dobrados e empilhados com cuidado. O

preto estava em cima. Peguei um frasco de loção de baunilha, abri a tampa e cheirei.

É por isso que às vezes ela cheira a cupcakes.

Abri um recipiente redondo de plástico. Continha pílulas bem pequenas, com um círculo

marcando os dias da semana. Faltavam cinco pílulas. Levei um tempo para perceber que eram

anticoncepcionais. Encontrei mais dois pacotes fechados.

Anna não se importava que eu mexesse na mala dela: eu guardava as minhas roupas lá também,

porque usávamos minha mochila para carregar a lenha. Mas ela provavelmente não queria que eu

mexesse em todas as coisas dela. Eu já ia fechar a mala quando descobri as calcinhas. Estavam no fundo, perto dos tênis. Olhei por cima do ombro, depois apanhei uma calcinha rosa e levantei.

Será que daria para ver através desta calcinha quando ela estiver usando?

Coloquei de volta no lugar e peguei uma preta, fio dental.

Muito sexy. Mas deve ser desconfortável à beça.

Toquei uma calcinha vermelha e olhei com mais cuidado um lacinho preto no meio do elástico

da cintura.

Uau. Isso seria um tesão de presente.

Aí apanhei um amontoado de cinco ou seis calcinhas de uma vez só, levei até o meu rosto e

cheirei.

— O que você está fazendo? — perguntou Anna.

Eu me virei rapidamente.

— Nossa, você me deu o maior susto!

Meu coração estava aos pulos, e meu rosto parecia pegar fogo.

Há quanto tempo ela estava ali?

— Estou procurando a sua camiseta do REO Speedwagon.

Eu ainda segurava uma calcinha, que deixei cair de volta na mala.

— Verdade? Porque está me parecendo que você está brincando com a minha roupa de baixo.

— Ela colocou o sabonete e o xampu na mala.

Ela não parecia zangada, então puxei o fio dental, levantei para ela ver e disse:

— Isso aqui me parece totalmente desconfortável.

— Devolva isso.

Ela tirou da minha mão e jogou de volta na mala enquanto apertava os lábios e tentava não rir.

Quando percebi que ela não tinha ficado brava comigo, sorri e disse:

— Sabe de uma coisa, Anna? Você é legal.

— Fico contente de você pensar assim.

— Eu realmente estava procurando a sua camiseta do REO Speedwagon, mas não consegui

encontrar.

— Está pendurada na corda. Já deve ter secado.

— Obrigado.

— Por nada. Mas não fique cheirando minha roupa de baixo de novo, está bem?

— Você viu, não foi?

— Vi.

CAP Í TULO 1 5

Anna

Os golfinhos nadavam à minha volta na laguna. Eles mergulhavam por baixo do meu corpo e

submergiam do outro lado. Faziam os barulhos de guinchos mais engraçados e, quando eu falava

com eles, agiam como se me entendessem. T.J. e eu gostávamos de agarrar as barbatanas dos

golfinhos e ríamos quando nos deixavam montar neles. Eu era capaz de brincar com eles durante

horas.

T.J. correu para a laguna.

— Anna, adivinhe o que eu encontrei.

O outro pé do tênis de T.J. chegara à costa e, como ele não precisava mais se preocupar em

machucar os pés, passava horas na mata, procurando algo interessante. Até então, não encontrara nada além de picadas de mosquitos, mas continuava procurando assim mesmo. Pelo menos tinha algo para se entreter.

— O que você encontrou? — perguntei, dando tapinhas em um dos golfinhos.

— Coloque seus tênis e venha ver.

Eu me despedi dos golfinhos, o segui até a cabana e coloquei os sapatos e as meias.

— Tudo bem, agora estou curiosa. O que foi?

— Uma caverna. Saí para pegar uma pilha de galhos e, quando a puxei, vi a abertura. Quero ver

o que tem dentro.

Só levamos alguns minutos até chegarmos à caverna. T.J. se ajoelhou na entrada e engatinhou

para dentro.

— É mais estreito do que eu pensei — gritou T.J. — Deite no chão de barriga para baixo e se

arraste. É apertado, mas tem espaço.

— De jeito nenhum — gritei de volta. — Não vou entrar nessa caverna nunca.

Meu coração bateu mais rápido, e comecei a suar só de pensar na possibilidade.

— Estou tentando ver alguma coisa, mas não consigo enxergar nada.

— Por que você quer fazer isso? E se encontrar uns ratos ou uma aranha enorme assustadora?

— O quê? Você acha que pode ter alguma aranha aqui?

— Não, deixa para lá.

— Não acho que tenha nada aqui além de pedras e galhos. Mas não tenho certeza.

— Se os galhos estiverem secos, traga para fora. Podemos colocar na pilha de lenha.

— Tudo bem.

T.J. engatinhou para fora da caverna e se levantou com algo que parecia uma tíbia, em uma

mão, e algo que era decididamente um crânio, na outra. Ele largou os ossos e exclamou:

— Puta merda!

— Ai, meu Deus — falei. — Não sei quem era, mas as coisas não acabaram bem para ele.

— Você acha que é a pessoa que construiu aquela choupana? — perguntou T.J. enquanto

fitávamos o crânio.

Concordei com um aceno de cabeça.

— Seria o meu palpite.

Andamos até a nossa cabana e tiramos um pedaço de madeira incandescente do fogo para usar

como tocha. Voltamos correndo para a caverna, e T.J. engatinhou para dentro, segurando a tocha na frente.

— Não se queime — gritei para ele.

— Pode deixar.

— Você entrou?

— Entrei.

— O que está vendo?

— Definitivamente, é um esqueleto. Mas não tem mais nada aqui. — T.J. saiu e me entregou a

tocha. — Vou colocar os ossos de volta na caverna, com o resto.

— Boa ideia.

T.J. e eu voltamos para a cabana.

— Bom, aquilo foi assustador — falei.

— Quanto tempo um corpo demora para virar um esqueleto? — perguntou T.J.

— No calor e na umidade? Provavelmente não muito.

— Definitivamente acho que é do cara da choupana.

— Você deve ter razão. E, se for ele, lá se vai uma das nossas chances de resgate. — Balancei a cabeça. — Ele não vai voltar porque nunca saiu daqui. Mas de que ele terá morrido?

— Não sei. — T.J. jogou uma lenha na fogueira e se sentou ao meu lado. — Por que você não

quis entrar na caverna? Quer dizer, antes de saber do esqueleto.

— Não suporto lugares pequenos e fechados. Entro em pânico. Sabe a casa no lago de que falei?

Aquela onde eu e meu pai pescávamos?

— Sei.

— Sarah e eu sempre brincávamos com outras crianças que passavam as férias lá com as famílias.

Havia uma estrada que rodeava o lago e por baixo dela passava uma tubulação de drenagem. As

crianças sempre desafiavam umas às outras para atravessarem engatinhando até o outro lado. Uma vez, Sarah e eu decidimos ir e convencemos todo mundo a ir junto. Na metade do caminho, entrei em pânico. Eu não conseguia respirar, e a pessoa na minha frente não se movia. Eu não podia ir para trás porque havia crianças atrás de mim também. Eu tinha uns sete anos e não era muito grande, mas a tubulação era estreita. Finalmente, chegamos até o outro lado, e Sarah teve que chamar nossa mãe porque eu não parava de chorar. Eu me lembro disso como se fosse ontem.

— Não é de admirar que você não quisesse entrar lá.

— O que não consigo entender é por que Esqueleto se arrastaria lá para dentro para morrer.

— Esqueleto?

— Acho que ele merece um nome. Esqueleto soa melhor do que “o cara da choupana”.

— Está bom para mim — concordou T.J.

* * *

Eu me sentei perto da nossa cabana para jogar paciência. Quando T.J. chegou, percebi na hora que

algo estava errado porque ele segurava o braço colado ao corpo e o apoiava com a outra mão. Seu ombro estava caído para baixo.

Eu me levantei.

— O que aconteceu?

— Caí de um coqueiro.

— Venha aqui.

Coloquei meu braço em volta da cintura dele e o guiei lentamente até o bote salva-vidas. Ele se retraía ao menor movimento e tentou, sem sucesso, reprimir um gemido quando eu o ajudei a se

deitar. A forte e súbita urgência de tomar conta dele, de diminuir a dor que ele sentia, me

surpreendeu.

— Já volto. Vou pegar um analgésico.

Despejei dois comprimidos na palma da mão e enchi uma garrafa com água do coletor. Coloquei

os comprimidos na boca de T.J. e levantei a cabeça dele para que pudesse tomar um gole. Ele

engoliu e respirou lentamente.

— Por que estava subindo na árvore?

— Eu estava tentando alcançar aqueles coquinhos verdes de que você gosta.

Sorri.

— Isso foi muito gentil da sua parte, mas acho que a sua clavícula está quebrada. Vou esperar o analgésico fazer efeito e então vou tentar improvisar alguma espécie de tipoia.

— Tudo bem — disse ele, fechando os olhos.

Olhei na minha mala e encontrei uma camiseta regata comprida branca. Depois de vinte