Nada Por Acaso por Richard Bach - Versão HTML

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Richard Bach

nada

por

acaso

Fotografias de Paus E. Hansen

Título original Nothing by Chance

© 1969 by Creature Enterprises, Inc.

© 1978 by HEMUS - Livraria Editora Ltda.

Tradução de Norberto de Paula Lima e Danuza Scarton Rabello Alves

Digitalizado por: SCS

Completado em 18/06/2010

"Se estivermos alertas, mentes e olhos abertos, encontraremos sentido no lugar-comum; veremos propósitos definidos em situações, às quais, de outro modo, daríamos de ombros, e chamaríamos 'acaso'."

(de uma conferência por Roland Bach)

Assim, este livro é para Papai

Que tem, voejando naqueles aeroplanos barulhentos, um filho que concorda com ele.

Contracapa:

Será que as coisas

realmente mudaram...

desde os dias em que os pilotos errantes

levavam a alegria de voar num teco-teco de uma cidade para outra? Será que as pessoas ficaram demasiado

sofisticadas para se aglomerarem em "shows"

aéreos à moda antiga, ou para pagar alguns dólares para subir num pequeno biplano e verem suas fazendas e

cidades lá em baixo?

Richard Bach não pensa assim, e para prová-lo,

partiu com dois amigos, num verão, vagando pelo espaço.

O resultado foi um caso de amor, com centenas de

homens, mulheres, e crianças descobrindo

as maravilhas do "voar de verdade" e o próprio Bach, como em Fernão Capelo Gaivota, volta ao ar

para captar toda a excitação e o romance de voar,

redescobrindo a verdadeira beleza e força de

um lindo universo.

Nota Biobibliográfica

Richard Bach nasceu em Oak Park, Illinois, mas logo mudou-se para Long Beach, Califórnia, onde freqüentou o Long Beach State College. Sua paixão pelo ar e pelos aviões, e pelo vôo em si, começou já aos dezessete anos, quando polia o avião de um amigo, em troca de lições de pilotagem.

Abandonou a faculdade em 1956, após um ano de curso, para se alistar na Força Aérea, ganhando seu breve em 1957. Acumulou 1000 horas de vôo em avião a jato e quando foi designado para a intendência, na base de Stead, Nevada, não se conformou a limitar-se à burocracia, e pediu baixa, em 1959. Enquanto morava em Belmont Shore, na Califórnia, ainda no ano de 1959, começou a escrever Fernão Capelo Gaivota, que veio a ser publicado em 1968, transformando-se em grande bestsetter, e depois, filme de sucesso. Depois de trabalhar por algum tempo como redator técnico da Douglas Aircraft, alistou-se ainda na Guarda Aérea Nacional, enquanto trabalhava como editor da revista Flying. Quando sua unidade da guarda foi convocada, no governo do presidente Kennedy, durante a crise de Berlim, Bach passou um ano na França, voando em missões da OTAN. De fato, entre 1959 e 1969, além destas atividades, teve outras, bastante diversificadas, assim como trabalhar para os correios, ser escritor free-lancer, e o Diretor da Associação de Aeroplanos Antigos. Ao voltar da França, desmobilizado, mudou-se para Iowa, para tornar-se editor da revista The Antiquar ("O Antiquário"), dedicada a aviões antigos. Foi através desta revista que descobriu as alegrias de pilotar um biplano, onde começou a ter idéias de arranjar um biplano e partir para as aventuras narradas em Biplano e Nada por Acaso.

Bach está brevetado como piloto comercial, com licença para aviões mono e multimotor, vôo por instrumentos e como Instrutor de Vôo. Já tem 3000 horas de vôo, mas ainda sente que mal começou a perceber o significado de voar. Sua esposa, Bette, também pilota aviões, possuindo seu próprio teco-teco, Aeronca Champ. O casal tem cinco filhos.

Seu primeiro livro publicado, Estranho à Terra, em 1963, foi condensado pelo "Reader's Digest" e incluído na antologia Best Book of True Aviation Stories. Nesta obra, vemos, além da "filosofia" toda peculiar dos grandes apaixonados pela aviação, o bom-humor que sempre os acompanha, para poder conviver com suas companhias mais constantes: o medo, a solidão e a noite. Vemos as razões que levam o homem a abandonar seus hábitos terrestres e voar, enfrentando todas as tensões da decolagem, por alguns momentos de liberdade. E enfrentar os cuidados da aterragem, sempre com a mesma serenidade com que se verificam os instrumentos durante o vôo...

Recusou graduação honorária pela Embry-Riddle Aeronautical University, confessando que havia apenas um certificado que ele cobiçava:

"Mecânico de Aviação".

Mas, foi em 1964 que Richard Bach voltou as costas à segurança e ao conforto da aviação moderna, juntando-se aos pioneiros. Vendeu seu monoplano moderno, comprou um biplano 1929 e começou a cruzar o continente, voando sozinho da Carolina do Norte em direção a Los Angeles.

Com sua experiência prévia, era apenas questão de curiosidade e desafio.

Logo aprendeu que era preciso uma habilidade toda especial para navegar pelos acidentes geográficos e dominar os perigos de voar em meio a tempestades e aterrissagens perigosas. Seu segundo livro, Biplano, foi publicado em 1966. Juntamente com Estranho à Terra, foi escolhido pela

"American Library Association", como um dos 25 melhores livros para adultos e jovens, dos anos em que foram publicados.

O enorme sucesso de Fernão Capelo Gaivota possibilitou-lhe comprar um avião anfíbio, um bimotor Grumman Widgeon, o que representou para ele um passo a mais em seu caminho de perfeição e liberdade, através do vôo. Não visa este escritor tão-somente a sensação de aventura, mas a alegria de voar com o vento no rosto, a música do vento zunindo nos cabos de um avião de estrutura frágil, madeira e lona, e a exaltação de voar como os pássaros. Numa aplicação prática da jovial filosofia de sua vida, Bach (tataraneto de J. S. Bach) afirma: "Descubra o que você mais deseja fazer no mundo, e então faça-o"; fundou uma companhia aérea de sua propriedade, a

"Transcreature Airways" (Aerovias Transcriaturas), com sete aviões, incluindo seu biplano, o anfíbio, e um jato Bede-5, de um só lugar (para o deleite do próprio Bach, como se pode depreender...). Possui um uniforme especial de capitão para si, cheio de monogramas "TCA" e asas de piloto em forma de gaivota.

Desde sua primeira experiência com o biplano, Bach não deixou de pensar num fenômeno característico dos primórdios da aviação norte-americana, os "circos aéreos" ambulantes, que apresentavam espetáculos das mais diversas acrobacias e vôos em formação, e levavam a audiência para dar uma volta, a preços baixos, ganhando, às vezes, o suficiente para ir à próxima cidade, e assim por diante; enfim, a pitoresca vida do circo, pobre, porém colorida e humana, transferida para os aviões, graças à tecnologia moderna. Muito embora este fenômeno tenha se restringido aos Estados Unidos, é uma grata recordação para todo aficcionado da aviação, e por conseqüência, de seus "tempos heróicos".

Bach não escapou, claro, ao fascínio dos antigos pilotos errantes, com seus circos aéreos (o termo barnstorming se refere ao fato de sempre usarem como campo de pouso as imediações do celeiro de alguma fazenda, na falta de aeródromos, na época — entre as duas guerras —

transformavam a fazenda que os recebia, temporariamente, num parque de diversões), e sempre acreditou que se poderia mesmo viver (ou sobreviver) como aqueles pilotos, aterrissando em campos, pastos, e levando as pessoas para passear num biplano, para verem suas cidades do ar, por três dólares.

Ele falou muito a respeito disto, com muita gente, e as pessoas sorriam, nostalgicamente, e diziam que aqueles dias tinham passado, para sempre.

Isto apenas deu-lhe mais vontade de experimentar, e na primavera e verão de 1966, partiu para a espirituosa aventura aqui narrada.

Levou como companheiro um estudante de dezenove anos, pára-quedista, e um amigo fotógrafo, num outro avião, e que simulava combates aéreos da Primeira Guerra Mundial, para a assistência. Em sua jornada, encontraram cidades nos Estados Unidos quase inalteradas, desde o tempo dos primeiros circos aéreos... e muita gente com muita vontade de ver sua própria cidade de um biplano, dando sustento a estes "ciganos do ar", de cidade para cidade, de estado para estado...

Talvez ninguém, desde Charles Lindberg, em seu livro We, ou Antoine de Saint-Éxupery (Piloto de Guerra; Correio Sul; Vôo Noturno; Terra dos Homens; etc.), enquanto aviador-escritor, captou tão vividamente o senso de solidão de um piloto com sua máquina, ou exprimiu tão claramente a satisfação da vitória difícil e solitária contra os elementos.

Trata-se de uma história do sentimento intenso de um homem que desejou confiar em madeira, lona e cabos, e em sua habilidade para recuperar, para os nossos corações e para os olhos de nossa imaginação, a maravilhosa época dos pioneiros. Recentemente, escreveu sobre estes temas em O Dom de Voar e em Ilusões.

Deixamos aqui o leitor, com a opinião do não menos imaginativo e extraordinário Ray Bradbury, um dos maiores escritores de ficção científica e fantasia, a respeito de um livro de Bach, que pode ser estendida a toda a obra deste notável aviador-poeta:

"Dick Bach não conseguiria escrever um livro sobre aviação, se ele o tentasse... se por "aviação" entendermos um mero manual de planos técnicos e exercícios... se, por outro lado, quisermos ventilar nossos conhecimentos, subir com Ícaro, descer com Montgolfier e reascender com os Wrights, abundantemente aerados e em grande exaltação, então, é claro, precisamos nos colocar nas mãos de fazendeiro de Dick Bach... Ele nunca foi Dédalo, tampouco Ícaro: estes tiveram suas peculiaridades. Mas ele foi um daqueles que viram Dédalo tentar e Ícaro fracassar e decidiu também ele experimentar, sem pensar nas conseqüências."

Aqui está, pois, o ótimo livro do próprio Dick Bach que não fala de voar, mas de planar, um feito não de máquinas, mas da imaginação.

A Editora Hemus publicou em português, além deste, os best-sellers de Richard Bach Estranho à Terra e Biplano.

Capítulo 1

SOB NOSSAS ASAS, o rio era cor de vinho — como o bom vinho tinto de Wisconsin. Despejava-se, num púrpura carregado, de um extremo do vale até o outro, e de volta. A rodovia saltava sobre ele uma, duas vezes; mais duas vezes, como um ousado tear, tecendo um fio de rígido concreto.

Ao longo do fio, conforme avançávamos, surgiam cidadezinhas com a cor da grama nova, ao fim da primavera, suas árvores lavando-se ao vento puro. Toda a tapeçaria do verão que começava, e, para nós, a aventura.

Voando a dois mil pés de altura, atmosfera argentina, fria e cortante, subindo acima de nossos dois velhos aviões a profundidades tais que, uma pedra jogada para cima se perderia para sempre. Lá, eu podia ver até o azul acerado-escuro do próprio espaço.

Esses dois caras confiando em mim, eu pensava, e não tenho a mí-

nima idéia do que vai ser de nós. Não importa quantas vezes eu tente explicar-lhes, eles continuam achando que se isto é idéia minha, então devo estar sabendo o que faço. Deveria ter-lhes dito para ficarem em casa.

Nadávamos pelo ar cristalino como um por de peixinhos no oceano, com o esguio avião esporte de Paul Hansen disparando à frente a cem milhas por hora de vez em quando, e então voltando, para ficar à vista de minha máquina voadora, nacele aberta, toda vento e cabos, morosa e pintada de vermelho-fogo e amarelo-flor. Assim como soltar as rédeas de um cavalo, deixar nossos aparelhos voltear sobre a terra, e retomando ao curso lentamente, enquanto apreciávamos o devaneio, esperando encontrar o mundo dos pilotos errantes, desaparecidos há quarenta anos.

Concordávamos num ponto — os grandes dias passados do circo aéreo ainda devem estar por aí, em algum lugar.

Silenciosos e confiantes, Stuart Sandy MacPherson, dezenove anos de idade, olhava pela borda da nacele à frente da minha, através de sua viseira de pára-quedista para o fundo do oceano aéreo transparente. — Um circo aéreo sempre tinha pára-quedistas, não? — perguntava — e os pára-quedistas eram sempre rapazes que trabalhavam e ganhavam a vida vendendo bilhetes e pregando cartazes, não? — Tive que confirmar e não teria coragem de me colocar entre ele e seu sonho.

De vez em quando, olhava para baixo em meio ao vento, e sorria sozinho, levemente.

Voávamos por uma camada quase sólida de tempestade. O barulho de meu motor Wright Whirlwind ressoava tanto e tão firme quanto em 1929, quando era novo em folha, sete anos antes de meu nascimento, e nos embebia na fumaça de seus gases de exaustão e com a graxa quente das válvulas; éramos sacudidos pelo chicote do ar cortado pela hélice. O jovem Stu e eu tentamos trocar uma palavra aos gritos, através da distância entre nossas naceles, mas sua voz foi levada pelo vento, e ele não tentou de novo.

Aqueles pilotos errantes, estávamos aprendendo, não conversavam muito quando voavam.

O rio encurvou-se bruscamente para o norte, e nos abandonou.

Avançávamos pelos campos, com suas colinas baixas, arredondadas e cobertas de capim, lagos rebrilhando ao sol, e fazendas aqui e ali.

Aí estava... a aventura, novamente. Nós três, e nossos dois aviões, éramos os remanescentes do que havia sido aberto na primavera como o Grande Circo Aéreo Americano, Especialistas em Exibições de Acrobacias Aéreas que Desafiam a Morte, Autênticos Combates Aéreos, Eletrizantes e Perigosas Evoluções de Avião, e o Incrível Salto de Pára-quedas em Queda Livre. (E mais: Pilotos Seguros, Brevetados pelo Governo, Levam Você para Conhecer sua Cidade pelo Ar. Três Dólares o Passeio. Milhares de Vôos sem Nenhum Acidente).

Mas, os outros grandes pilotos e aviões americanos tinham suas obrigações, nos tempos modernos; voaram para o futuro, partindo da Prairie du Chien, Wisconsin, deixando Paul, Stu e eu voando sozinhos, em 1929.

Se quiséssemos viver nesta época, precisávamos achar pradarias ou pastos para aterrissar, próximos das cidades. Precisávamos fazer as nossas acrobacias, e, sempre tudo por nossa conta e risco, achar passageiros pagantes. Sabíamos que cinco aparelhos, um circo completo, atrairiam multidões, em fins de semana; mas será que alguém se mexeria, durante a semana, para assistir apenas dois aviões, e sem publicidade? Nossa gasolina e óleo, nossa comida, e nossa busca do passado, e nosso meio de vida dependiam disso. Não estávamos prontos para admitir que a aventura, e o solitário autoconfiante já tinham tido seus dias.

Tínhamos jogado fora nossos mapas aéreos, bem como a época em que foram feitos, e agora, estávamos perdidos. Ali, naquele ar claro, em meio ao barulho, achava que poderíamos estar sobre o Wisconsin, ou norte do Illinois, mas era o máximo que conseguia achar. Não havia norte, nem sul, nem leste, nem oeste. Apenas o vento, de alhures, e deslizávamos à frente dele, destino incerto, circulando sobre uma cidade, uma campina, um lago, olhando para baixo. Era um estranho ocaso, fora do tempo, sem distâncias, sem direção. A América, estendendo-se de um horizonte a outro à nossa frente, ampla, grande e livre.

Mas, por fim, acabando o combustível, circulamos por sobre uma cidade com uma pequena pista de pouso gramada nas proximidades, com um posto de gasolina e um hangar, e nos preparamos para aterrissar. Eu esperava encontrar um campo de feno, porque os velhos circos sempre aterrissavam em campos de feno, mas a cidadezinha irradiava uma certa mágica soledade. RIO, estava escrito, em letras negras, numa torre de água prateada.

Rio era uma colina de árvores sobranceira às colinas baixas de terra, com os telhados abaixo do verde, e os pináculos das igrejas como mísseis sagrados, de um branco puro, pousados ao sol.

A Rua Principal estendia-se por dois quarteirões, e então mergulhava por entre as árvores, casas e as terras cultivadas.

Um jogo de beisebol fervilhava no campo da escola local.

O impecável monoplano Luscombe, de Hansen, já estava circulando sobre a pista, em seus últimos galões de gasolina. Esperou por nós, porém, para se certificar de que não mudaríamos de idéia e voássemos para outro lugar — pois se nos separássemos naquela terra desconhecida, nunca mais nos encontraríamos de novo.

A pista era construída na orla de uma colina bastante íngreme, e o primeiro quarto de sua extensão estava num aclive que deveria fazer uma boa pista de esqui, no inverno.

Fiz a curva, e aterrissei, olhando a trilha marcada na grama verde, encurvando-se em câmara lenta, para tocar nossas rodas. Taxiamos até o posto de gasolina, deserto, e cortamos, no instante em que Paul planava rapidamente sobre nossas cabeças, descendo. Seu avião desapareceu sobre o topo da colina, ao tocar o solo, mas num instante reapareceu, motor girando silenciosamente, rolando pelo aclive até nós. Com ambos os motores finalmente silenciados, não havia um ruído pelo ar.

— Pensei que nunca desceríamos — dizia Paul, enquanto emergia do Luscombe. — O que fez demorar-se tanto? Que espécie de piloto você é? Por que não arranjou um campo há umas duas horas?

Ele era um homem corpulento, fotógrafo profissional, preocupado porque as imagens do mundo não eram tão belas quanto deveriam. Sob um topete cuidadosamente penteado, de cabelo negro, tinha as feições de um gangster que procurava se comportar direito.

— Se fosse só por mim, não haveria problemas — respondi, pegando os volumes que Stu retirava do biplano. — Mas escolher um lugar de onde o avião, uma vez pousado, possa decolar... sim, senhor, esse é o problema.

— O que acha — disse Paul, deixando passar o assunto sobre o avião

— devemos tentar um salto hoje, assim tarde? Se quisermos comer, precisamos tratar de arranjar alguns passageiros.

— Não sei, isso é com Stu e com você. Concordamos que hoje você seria o chefe.

— Ok, se sou o líder, digo que devemos subir e fazer algumas acrobacias, primeiro, e ver o que acontece, antes que empurremos o pobre Stu pela porta.

— Isso quer dizer que tenho de descarregar meu avião.

— Sim, Paul, isso quer dizer que você tem que descarregar seu avião.

Enquanto ele ia se desincumbir disto, uma camioneta vermelha se aproximava, saindo da pista, para o caminho de terra que levava até o posto de gasolina do campo. Havia letras vermelhas em seus flancos: CONSERTOS

AL SINCLAIR. E, de acordo com o nome bordado em seu bolso, era o próprio Sinclair ao volante.

— Que aviões, hein? — exclamou Al, batendo a porta oca de aço, com um barulho oco de metal.

— Sim, e bastante velhos — respondi.

— Aposto que sim; querem gasolina, não?

— Daqui a pouco, talvez. Apenas estamos voando por aí, fazendo algumas exibições. Acha que seria bom tentar arranjar alguns passageiros para dar uma volta? Para o pessoal ver a cidade de avião? Uma chance de cinqüenta por cento. Ele poderia aceitar ou mandar-nos embora do campo.

— Claro que estaria bem! Foi bom que vieram! Seria muito bom para o aeroporto se pudéssemos fazer as pessoas virem aqui, na verdade. Até se esqueceram que temos um aeroporto na cidade. — Al olhou para dentro da velha nacele, por cima de sua borda de couro: — Exibições, hein? Rio é uma cidade grande o bastante para vocês? — Ele pronunciava "Rai-o". — 776

habitantes?

— 776 é ótimo — disse. — Vamos subir para fazer algumas acrobacias, e então reabasteceremos. Stu, por que não põe os anúncios agora, na estrada?

Sem dizer palavra, o rapaz assentiu, pegou os cartazes (letras vermelhas: VOE $3 VOE) e saiu, em silêncio, pela estrada afora, ganhando sua subsistência.

O único meio para um piloto errante sobreviver, sabíamos, era arranjar passageiros para passear. Muitos passageiros. E o único meio de arranjar passageiros é chamar-lhes a atenção.

Precisávamos deixar bem claro que, de repente, havia algo de estranho, maluco e maravilhoso acontecendo no campo de pouso; algo que não acontecia já há quarenta anos, e poderia nunca mais acontecer. Se pudéssemos acender uma centelha de aventura nos corações das pessoas daquele vilarejo, que nunca víramos, poderíamos nos permitir mais um tanque de gasolina, e talvez um hambúrguer.

Nossos motores reganharam vida, refletindo fortes ecos nas paredes metálicas dos hangares, achatando a grama para trás em dois ruidosos torvelinhos mecânicos.

Capacete fechado, visores abaixados, manetes abertas ao máximo, e os dois aeroplanos avançaram, sacudiram-se e ergueram-se do verde rumo ao azul profundo, caçando passageiros tão famintamente como lobos atrás de veados.

Olhei para baixo, enquanto subíamos, nos arredores da cidade, para ver o povo no jogo de beisebol.

Há uns dois anos, eu não teria me importado. Dois anos atrás, minha nacele era toda de aço e vidro, e controles eletrônicos, num caça da Força Aérea, de asas em flecha, que queimava 500 galões de combustível por hora, e que era mais rápido que o som. Não havia necessidade de passageiros, então, e caso houvesse, três dólares não cobririam o custo de um vôo, ou uma decolagem, ou a partida do motor. Não cobriria nem mesmo o gasto com a Unidade Auxiliar de Força, que dá a eletricidade para a partida. Para usar um caça-bombardeiro para exibições, precisaríamos de pistas de concreto de duas milhas de comprimento, um corpo de mecânicos, e um cartaz dizendo: VOE $12000 VOE. Mas agora, aquele passageiro, a três dólares, era toda nossa sobrevivência: gasolina, óleo, comida, manutenção, e salário. E, neste momento, voávamos sem nenhum passageiro.

A 3000 pés sobre os milharais, começamos nossas Exibições de Acrobacias Aéreas que Desafiam a Morte. A asa branca de Paul ergueu-se rapidamente, e tive um relance brusco da barriga de seu aparelho, com faixas de óleo e poeira e, logo depois, estava mergulhando. Um segundo após, a carenagem arredondada do nariz erguia-se de novo, e subia, até que o avião se dirigisse rumo ao Sol da tarde, rugindo ao passar por meu biplano, e então, de cabeça para baixo, rodas para o alto, e então, nariz para baixo de novo, terminando a manobra. Se tivesse um bastão de fumaça a bordo, teria traçado um círculo vertical completo no céu.

Lá embaixo, em meio ao povo, imaginei um rosto ou dois olhando para cima. Se pudéssemos voar com apenas a metade das pessoas que assistiam àquele jogo, pensei, a três dólares por cabeça...

O biplano e eu giramos numa grande curva descendente à esquerda, acelerando, até que o vento começasse a silvar nos arames. A terra, verde-negra, ocupava tudo à frente do nariz, o vento fustigava meu capacete de couro e fazia os visores vibrarem, pouco à frente de meus olhos. Então, depressa de volta ao manche, o chão caiu para longe, e o céu azul era tudo o que se via. Lá em cima, olhando pela borda das asas, vi a terra girando lentamente atrás de mim, e apoiei o capacete contra o encosto do banco, para ver os campos, as casinhas e os carros se aproximando lá detrás, até que ficavam diretamente acima de mim.

Casas, carros, as torres da igreja, o oceano verde de folhagem, tudo em colorida minúcia, enquanto os contemplava lá do biplano. O vento aquietou-se enquanto estávamos indo devagar de cabeça para baixo. Vamos supor que voemos com cem pessoas. Isso perfaz trezentos dólares, ou cem para cada um. Menos a gasolina e o óleo, é claro. Mas talvez não voássemos com tantos. Aquele número significaria um em cada oito da cidade.

O mundo estava de deslocando lentamente para voltar à frente do biplano, e então para baixo dele de novo, com o vento assobiando por entre os arames.

Nas alturas, o avião de Paul estava parado no céu, seu nariz apontando diretamente para cima e toda sua máquina um peso branco-azulado na ponta de um longo fio do céu. Então, abruptamente, rompeu o seu fio, caiu para a esquerda e apontou para baixo na mesma reta.

Não era assim tão mortal quanto nossos panfletes diziam; na verdade, não há nada que um avião possa fazer que seja mortal, enquanto ficar em seu lugar adequado, que é o céu. Os únicos contratempos aparecem quando um avião se embarafusta pelo chão.

De "loop" para "tonneau" é meio "tonneau", os aparelhos gra-dualmente se aproximavam dos limites da cidade, sempre perdendo altura, cada minuto cem pés mais perto daquela terra multicolorida.

Por fim, o monoplano veio contra mim como um foguete rápido e silencioso, e começamos o Autêntico Combate Aéreo da Grande Guerra, disparando em todas as direções em "tonneaux" e espirais fechadas, mergulhos, rasantes, reduções de velocidade, e "stalls". Todo o tempo, enquanto voávamos, um bastão de fumaça branca esperava, amarrado à longarina de minha asa esquerda. Embaralhamos o mundo por mais alguns minutos, misturando todo o verde e o negro, e o vento rugindo, de um lado para outro, as casas da cidadezinha ora sob esta, ora sob aquela asa.

Digamos que ganhemos duzentos dólares, líquido, eu pensava.

Quanto seria, para cada um? Quanto é duzentos por três? Passei sob o monoplano, virei à esquerda, e fiquei observando Paul colocar-se atrás do biplano. Diabos, quanto é mesmo duzentos multiplicado por três? Olhei por sobre meu ombro, subindo e descendo, com ele em meu encalço, fazendo curvas fechadas para acompanhar a fechada espiral descrita pelo biplano.

Bem, se fossem $210, seriam $70 para cada um. Setenta dólares cada, sem contar gasolina e óleo; digamos, $60 dólares.

Naquele furacão ensurdecedor de um mergulho, apertei o botão amarrado à manete. Uma fumaça branca e espessa começou a sair da asa esquerda, e tracei uma espiral da morte até o aeroporto, nivelando pouco acima das árvores. Tanto quanto se podia ver lá do jogo de beisebol, aquele velho avião tinha sido abatido em chamas.

Se tinha funcionado com cinco aviões por tão pouco, deveria funcionar o verão todo, com dois. Realmente, não precisamos dos $60 para cada um; tudo o que realmente precisamos é da gasolina e óleo, e um dólar por dia, para a comida. Podemos sobreviver todo o verão se continuarmos assim.

Desci assim que a fumaça acabou, e rolei pela encosta abaixo até a gasolina. Uma vantagem de ser abatido, sempre, pensava, é que sempre se chega à bomba de gasolina antes.

A fria gasolina vermelha era vertida no tanque do biplano, quando Paul aterrou. Cortou o motor ao descer a colina, percorrendo os últimos trinta pés com sua hélice prateada, imóvel. Mais alto que o ruído da gasolina jorrando da mangueira sob minha luva, eu ouvia o de seus pneus sobre o cascalho que rodeava a bomba e o escritório.

Ele esperou por um momento dentro da cabine, e então saiu, devagar. — Rapaz, você realmente consegue me desorientar com aquelas curvas. Não faça curvas tão fechadas; eu não tenho tanta asa quanto você.

— Apenas tentei tornar a coisa mais real; não quer que aparente ser tão fácil, não? Quando quiser, podemos amarrar a fumaça no seu avião.

Uma bicicleta fez a curva, na estrada — duas bicicletas, á toda velocidade. Derraparam numa freada que amassou a grama na borracha de suas rodas traseiras. Os meninos tinham onze e doze anos e após essa chegada turbulenta, não disseram palavra. Apenas ficaram olhando para os aviões, para nós, e de novo para os aviões.

— Gostariam de voar? — Stu perguntou-lhes, trabalhando em seu primeiro dia, como Vendedor de Passeios. Com o circo de cinco aviões, tínhamos um pregoeiro, com palheta e bengala de bambu, e um rolo de bilhetes dourados. Mas isso já era passado, e agora era com Stu, que era mais dado a um tipo de persuasão mais silenciosa e intelectual.

— Não, obrigado — disseram os meninos, e calaram-se de novo, olhando.

Um cano rolou pela grama, e parou.

— Vá atrás deles, Stu, meu velho — eu disse e preparei-me para ligar o biplano de novo.

No tempo que levou para o Wright girar de novo, suave e silencioso como um grande motor Modelo T, Stu já estava de volta com um rapaz e sua esposa, um rindo do outro por serem loucos de quererem passear nessa estranha e velha máquina voadora.

Stu ajudou-os a subir na larga nacele da frente, aonde os alojou lado a lado, com um só cinto de segurança. Gritou-lhes mais alto que o barulho do Modelo T que segurassem seus óculos escuros, se quisessem olhar fora do pára-brisa, e, com esse aviso, pulou da asa e afastou-se.

Se tinham temores de voar nesta velha máquina desconjuntada, era tarde para mudar de idéia. Visores abaixados, manete para a frente. Nós três estivamos engolfados pelo som de um Modelo T enlouquecido, soprando um vento de cem milhas para trás, varrendo o mundo num borrão gramado, sacudindo de início, uma espécie de farfalhar abafado, com as velhas e altas rodas acelerando-se sobre o solo. Então, o ruído desapareceu com a terra, e ouvia-se só o barulho do motor e do vento contra nós e via-se as árvores e casas encolhendo-se mais e mais.

A terra, inclinando-se e reduzindo-se embaixo de nós, ainda eu observava esse rapaz do Wisconsin e sua mulher. A despeito de seu riso, estavam com medo do avião. Seu único conhecimento do vôo vinha das manchetes de jornais, alguma lembrança de colisões, quedas e fatalidades.

Nunca haviam lido uma só notícia de um avião pequeno decolar, voar e aterrissar de novo seguramente. Eles podiam apenas ter fé que isto deveria ser possível, a despeito de todos os jornais e, com esta crença, arriscaram seus três dólares, e suas vidas. E agora, sorriam e gritavam um para o outro, olhando para baixo, apontando.

Por que era tão bonito de olhar? Por que o medo é feio, e a alegria é linda, assim tão simples? Talvez sim. Nada é tão belo como o medo dissipando-se.

O ar cheirava como um milhão de folhas de grama esmagadas, e o Sol baixava, para ser transformado de prata em ouro. Era um belo dia, e nós três estávamos contentes por estar voando pelo céu como se fosse um sonho bom e luminoso, mas detalhado e claro como nenhum sonho jamais teria sido.

Cinco minutos acima do solo, começando a segunda volta sobre a cidade, meus passageiros estavam relaxados e voando à vontade, não dando conta de si mesmos, olhos brilhantes como os de pássaros, olhando para baixo. A garota tocou o ombro de seu companheiro, apontando para a igreja, e surpreendi-me ao ver sua aliança. Não poderia ser há muito que eles tinham saído pela porta daquela igreja sob uma tempestade de arroz, e agora era como que uma cidade de brinquedos, a mil pés lá embaixo. Aquele lugarzinho? Ora, fora tão grande então, com as flores e a música. Talvez assim fosse só pela grande ocasião.

Circulamos mais baixo, com uma última boa olhada pela cidade e planamos sobre as árvores, o ar passando macio pelas longarinas e arames, para aterrissar. Assim que as rodas tocaram o chão, o sonho foi interrompido pelo tamborilar sobre o solo duro nos sustentando, ao invés do ar, suave. Mais e mais devagar, e paramos aonde começamos, o Modelo T

murmurando sozinho. Stu abriu a portinhola e soltou o cinto de segurança.

— Muitíssimo obrigado — disse o rapaz. — Foi bem divertido.

— Foi maravilhoso! — Sua esposa disse, radiante, esquecendo de ajustar a máscara da convenção sobre suas palavras e seus olhos.

— Gostei de voar com vocês — retruquei — minha máscara firme no seu lugar, meu próprio prazer bem dentro de mim mesmo e sob rigoroso controle. Havia tanto que eu gostaria de dizer, perguntar: Digam-me, como parece, da primeira vez... o céu estava tão azul, o ar tão dourado para vocês como esteve para mim? Viram o verde intenso da campina, como se estivéssemos flutuando sobre esmeraldas, logo depois da decolagem? Há trinta, cinqüenta anos atrás, lembram? Sinceramente, eu queria saber.

Mas assenti, sorri e disse: — gostei de voar com vocês — e foi o fim da história. Afastaram-se de braços dados, ainda sorrindo, rumo a seu carro.

— Isso é tudo — informou Stu, aproximando-se de minha nacele —

ninguém mais quer voar.

Voltei dos meus distantes pensamentos: — Ninguém quer voar? —

Stu, há cinco carros ali! Não podem estar todos olhando.

— Vão querer voar amanhã, dizem.

Se tivéssemos cinco aviões, e mais ação por ali, considerei, estariam querendo voar hoje mesmo. Com cinco aviões, pareceríamos um circo verdadeiro. Com dois aviões, talvez fôssemos apenas uma curiosidade.

Os saudosistas, ocorreu-me, de súbito. Quantos deles sobreviveriam, como pilotos errantes?

Capítulo 2

ERA TUDO MUITO SIMPLES, livre, e uma boa vida. Os pilotos errantes, lá nos anos vinte, simplesmente partiam com seus Jennies para o ar e voavam para qualquer cidadezinha, aonde aterrissavam. Então, levavam passageiros para passear e ganhavam fardos de dinheiro. Que homens livres, os pilotos errantes! Que vida pura devem ter levado.

Esses ciganos, encanecidos, fechavam seus olhos e falavam-me de um sol fresco, confortável e amarelo como eu nunca vira, de uma grama tão verde, que faiscava sob as rodas, um céu azul e puro como nunca mais ficou, e nuvens mais brancas que o ar do Natal. Havia uma terra, nos velhos tempos, em que um homem podia sair em liberdade, voando para onde desejava e quando quisesse, respondendo a nenhuma autoridade, senão à sua.

Fiz perguntas e escutei atentamente os velhos pilotos, e, lá no fundo de minha mente, imaginava se um homem podia fazer o mesmo hoje, pelo grande e calmo Meio-Oeste norte-americano.

— Por nossa conta, filho — eu ouvi — sim, costumava ser grande.

Durante a semana, dormíamos tarde e trabalhávamos nos aviões até a ceia, então levávamos o pessoal para passear até o pôr-do-sol, e depois. Em ocasiões especiais, hmpf, mil dólares num dia não era nada. Nos fins de semana, começávamos a voar com o nascer do sol e não parávamos, senão à meia-noite. Filas e filas de pessoas querendo voar. Uma grande vida, menino. Costumava acordar de manhã... Costurávamos as cobertas e dormíamos sob a asa... levantava e perguntava: — Freddie, aonde vamos hoje? — E Freddie... está morto, agora; um bom piloto, mas não voltou da guerra... e Freddie dizia: — De onde vem o vento?

— Está vindo do oeste — eu respondia. — Então, vamos para o oeste

— Freddie falava; — girávamos o velho "Hisso" Standart, jogávamos lá dentro toda nossa tralha e lá íamos nós, contra o vento, e economizando gasolina.

— Claro, as coisas pioraram depois de algum tempo. Houve a Quebra, em '29, e o pessoal não tinha muito dinheiro para voar. Caímos a cinqüenta centavos à volta, quando antes era a cinco, e dez dólares. Não dava nem para comprar a gasolina. Às vezes, trabalhando em dupla, tirávamos gasolina de um avião para que o outro pudesse voar. Então, veio o Correio Aéreo, e, depois, as companhias aéreas precisando de pilotos. Mas por um pouco, enquanto durou, foi uma boa vida. Ora, de '21 até '29... foi muito bom. A primeira coisa que você encontrava, quando descia, eram dois garotos, e um cão. A primeira coisa, antes de todo mundo... Os olhos fechavam-se de novo, lembrando-se.

E eu sonhava. Talvez os bons velhos tempos não se tenham ido.

Talvez ainda estejam esperando, além do horizonte. Se eu pudesse achar alguns outros pilotos, e uns aviões antigos... Talvez pudéssemos encontrar aqueles dias, aquele ar límpido, aquela liberdade. Se eu pudesse provar que um homem tem escolha, que se pode escolher o próprio mundo, e seu próprio tempo para viver, eu poderia mostrar que o aço, os computadores cegos, e os tumultos da cidade são apenas um lado de um modo de vida...

um lado que não precisamos escolher, a menos que o queiramos. Eu poderia provar que a América realmente não está tão mudada e diferente, no fundo.

Que, sob a superfície das manchetes, os americanos ainda são um povo calmo, valoroso e belo.

Quando meu pequeno devaneio tornou-se conhecido, algumas pessoas de opinião diversas apressaram-se em pisoteá-lo até a morte.

Repetidamente ouvi que não era apenas um empreendimento arriscado e impraticável, mas impossível, sem esperança de sucesso. Os bons velhos dias se foram... ora, todo mundo sabe disso! Bem, talvez tenha sido um lugar calmo e pacífico, este país; mas agora, as pessoas podem processar um estranho — e quem sabe mesmo um amigo — por uma ninharia. Como as pessoas são, agora... Vá aterrissar no campo de feno de um fazendeiro e ele vai metê-lo na cadeia, por invasão de domicilio e vai querer depois seu avião por perdas e danos, e asseverar que você ameaçou a vida de sua família, quando sobrevoou o seu celeiro.

As pessoas hoje, querem o melhor em conforto e segurança. Você não conseguiria nem pagando que eles subissem num biplano de quarenta anos, de nacele aberta, com o vento e o óleo no rosto deles..., e você espera que eles paguem para sofrer tudo isso? Não haveria nenhuma companhia de seguros — nem mesmo a Lloyd's, de Londres — que cobriria algo assim, por abaixo de mil dólares por semana. Circo aéreo, vejam só! Fique com os pés no chão, amigo, estamos na década de '60!

— Que acha de um salto? — perguntou Stu, e ligou-me de volta para Rio.

— Está ficando tarde — disse, e as vozes do piloto errante e dos derrotistas esfumaram-se. — Mas, raios, é um dia calmo e bom para saltar.

Vamos tentar.

Stu estava pronto num minuto, alto, sério, apertando as tiras de seu pára-quedas principal, afixando o de reserva sobre seu peito, jogando o capacete no assento da frente e preparando-se para a sua parte. Um escafandrista grandalhão e desajeitado, todo fivelas e tela de nylon sobre um macacão de vôo amarelo berrante, pulou para a nacele da frente e fechou a porta.

— Tudo em ordem — falou. — Vamos.

Custou-me acreditar que, esse moço, com fogo nas ventas, tinha escolhido o curso de odontologia. Um dentista! De alguma forma, precisávamos convencê-lo de que havia algo mais na vida do que a segurança artificial de um consultório dentário.

Logo que saímos do chão, e começamos a subir, comecei a cantar

"Rio Rita", mas pronunciando "Rai-o Rita". Eu sabia apenas uma parte do primeiro verso da canção, que sempre repetia, enquanto ganhávamos altitude.

Stu olhou pela borda afora, com um estranho fraco sorriso, pensando em algo bem distante...

Rita... Rai-o Rita... Noth... thing... sweetah... Rita... Oh — Rita. Eu precisava imaginar todos os saxofones e pratos mais altos que o motor.

A 2500 pés, fizemos uma curva e voamos diretamente acima do campo de pouso. Rai-o Rita... la... ri... ri-rá... la-ri... oh Rita... My baby an'me-o, Rita...

Stu voltou de seja lá qual for o reino distante em que estava, e olhou para baixo pela borda de sua nacele. Então, olhando, acomodou-se melhor e jogou cuidadosamente um rolo brilhante de papel crepom... Passou pela cauda, desdobrou-se numa longa faixa amarela-vermelha-amarela e serpenteou para baixo. Fiz um círculo, subindo, e Stu observava a fita, atento. Quando atingiu o solo, fez que sim com a cabeça e sorriu por um instante, para mim. Voltamos, em direção à região do campo, nivelando a 4500 pés. Estremeci à idéia de realmente pular para fora de um avião. Era um longo caminho para baixo.

Stu abriu sua nacele, enquanto reduzi a velocidade para diminuir-lhe o vento. Era uma estranha sensação assistir o meu passageiro, do assento da frente, sair para uma asa e aprestar-se para pular enquanto ainda estávamos a uma milha de altura. Ele ia levar tudo até o fim, e eu estava receoso por ele. Há uma diferença gigantesca entre ficar plantado no chão, conversando levianamente sobre saltos de pára-quedas, e a coisa propriamente dita, quando se está de pé na asa, sem apoio enfrentando o vento, olhando para baixo, para as pequenas árvores, casas e os fios das estradas achatados contra o chão.

Esperei bastante, até que ele se transformasse de uma cruzinha numa mancha redonda. Nenhum pára-quedas se abriu. Senti um pouco de frio. Seu corpo pode ser aquela mancha parecida com uma folha ali naquele bosquezinho que margeia o campo, ou aquela perto dos hangares. Maldição.

Perdemos nosso pára-quedista.

Não lamente Stu; ele sabia com que estava brincando quando co-meçou com o pára-quedismo. Mas, há um segundo ele estava justo ali, na asa, e agora, nada mais resta.

Seu pára-quedas principal deve ter falhado e ele não conseguiu abrir o reserva a tempo. Puxei a maneta e desci em espiral, olhando para o ponto em que ele havia desaparecido. Surpreendi-me por não estar chocado, ou com remorsos. Era simplesmente uma vergonha que tivesse acontecido assim, tão no começo do verão. Uma perda para a odontologia.

Naquele momento, um pára-quedas abriu-se, bem abaixo de onde eu estava. Apareceu tão depressa quanto Stu desaparecera da asa, um súbito cogumelo laranja-branco flutuando e deslizando leve e suavemente pelo ar.

Estava vivo! Algo acontecera. No último segundo, finalmente, abriu o pára-quedas de reserva ao vento e, a menos de um instante da morte, puxando a corda, salvara-se. A qualquer momento, agora, estaria descendo com uma terrível história para contar, e o juramento de que nunca mais pularia.

Mas o frágil cogumelo colorido ainda ficou muito tempo no ar, adejando.

Mergulhamos em sua direção, o biplano e eu, os arames cantando alto, e, quanto mais perto ficávamos do pára-quedas, tanto mais alto parecia estar do chão. Reduzimos o mergulho a 1500 pés, e circulamos à volta do homem pendurado pelos fios sob uma grande cúpula pulsante, de nylon.

Tinha ainda muita altitude a percorrer. Nunca houve nenhum problema, nunca houve nenhum perigo!

O vulto que se balançava sob o nylon acenou para mim, e eu balancei as asas em resposta, agradecido e perplexo por ele ainda estar vivo.

E enquanto estávamos à volta dele, não éramos nós que girávamos, mas seu pára-quedas, por todo o horizonte. Um sentimento estonteante.

O ângulo, claro! Por isso que ele podia ainda estar tão alto, enquanto eu, segundo o ângulo que o observava, estava tão certo de que ele havia atingido o solo... Estava olhando bem por cima dele, e o fundo era toda a terra, em volta. Sua morte foi uma ilusão.

Puxou um dos fios e a cúpula virou depressa, uma volta para a esquerda e outra para a direita. Controlava a direção do pára-quedas à sua vontade; estava em casa, no seu elemento.

Era difícil acreditar que esse famoso artista do pára-quedas era o mesmo menino de falar macio que timidamente se juntara ao Grande Circo Americano, quando foi aberto, na Prairie du Chien. Lembrei-me de u'a máxima aprendida em doze anos de vôo: Não é o que um homem diz ou como o diz que importa, mas o que ele faz ou como o faz.

No solo, as crianças, como que brotavam da grama, convergiam para o alvo de Stu.

Circulei o pára-quedas até que estava a 200 pés do chão e aí, então, conservei a altitude, enquanto o cogumelo descia. Stu balançou os pés para cima e para baixo algumas vezes, numa calistênica de última hora, antes de aterrissar.

Estava, num momento, planando suavemente no ar calmo, e, no seguinte, o chão ergueu-se atingindo-o em cheio. Caiu, rolou, e logo estava de pé de novo, enquanto o grande domo macio perdia seu formato perfeito e desabava sobre ele, como um grande monstro aéreo ferido.

A imagem do monstro murchou com o pára-quedas, tornando-se apenas um grande trapo colorido sobre o chão, imóvel, e Stu era Stu num macacão amarelo, acenando que tudo estava OK. As crianças se aproximaram dele.

Quando o biplano e eu circulamos para descer, achei que tínhamos problemas. O Whirlwind não estava respondendo à manete. Havia, provavelmente, algo de errado com sua articulação. Não era um problema grande, mas não poderia haver mais passageiros, até que estivesse consertada.

Descemos um tanto irregularmente, bordejamos a colina, e cortei o motor. Al, de CONSERTOS AL SINCLAIR, aproximou-se.

— Ei, aquilo foi bom! Há umas poucas pessoas aqui querendo voar no biplano. Pode levá-las ainda esta tarde?

— Acho que não — disse. — Gostaríamos de encerrar o dia com o salto de pára-quedas... para oferecer-lhes algo bonito de ver. Claro que estaremos aqui amanhã, e gostaríamos que eles voltassem.

Coisa mais estranha para eu dizer. Se aquela fosse nossa política, estaríamos feitos. Gostaria de levar os passageiros até o pôr-do-sol, mas não poderia fazê-lo com a manete naquele estado, e não seria conveniente que eles vissem que o avião precisava de reparos após cada vôo em torno do aeroporto.

Stu veio, vindo do alvo, e o biplano roubou vários de seus jovens admiradores. Fiquei perto do avião e tentei evitar que eles pisassem na tela das asas inferiores, quando eles subiam para olhar dentro das naceles.

A maioria dos adultos ficou em seus carros, olhando, mas alguns se aproximaram para ver o avião, para conversar com Paul, polindo o Luscombe, e, comigo, pastoreando as crianças.

— Eu estava no jogo da escola, quando vocês passaram por lá —

disse um homem. — Meu filho estava ficando louco; não sabia se olhava para o jogo ou para os aviões; então, por fim, ele sentou-se na capota do carro, de onde podia ver ambos.

— Seu saltador... é bastante jovem, não? Não me fariam saltar de um avião por todo o dinheiro do mundo.

— É tudo o que fazem para ganhar a vida? Voam por aí? São casados, ou qualquer coisa?

Claro que tínhamos esposas e famílias tão envolvidas nesta aventura quanto nós, mas não pensamos que fosse algo que as pessoas gostariam de saber. Pilotos errantes só podem ser gente despreocupada, sem destino, colorida, de outras épocas. Quem já ouviu dizer de um cigano do ar casado?

Quem poderia imaginar um piloto errante instalado numa casa? Nossa imagem exigia que nos esquivássemos à pergunta, e assumíssemos o caráter de alegres e felizes camaradas, sem pensar no amanhã. Se fôssemos nos amarrar naquele verão, seria com a liberdade, e tentávamos, desesperadamente, seguir isto à risca.

Então, respondemos com outra pergunta: — Esposa? Pode imaginar qualquer mulher deixando o marido sair voando pelo campo em aviões como estes... e nos aproximamos um pouco mais de nossa imagem ideal.

Rio mudou com a nossa chegada. 776 habitantes, com um décimo da cidade no aeroporto na tarde em que chegamos. E o biplano não podia voar.

O Sol se pôs, o público lentamente desapareceu no escuro, e fomos deixados sós com Al.

— Vocês são a melhor coisa que aconteceu a este aeroporto — disse, em voz baixa, olhando para seu avião em seu hangar. Ele não precisava falar alto para ser ouvido naquela tarde, em Wisconsin. — Muita gente se preocupa com a gente, voando nos nossos Cessnas, e não acham que são seguros. Então eles vêm aqui e vêem vocês brincando com aqueles aviões, como loucos, e pulando pelas asas, e, de repente, passam a crer que é realmente seguro!

— Ainda bem que podemos ajudá-lo — disse Paul, secamente. Os sapos não faziam qualquer ruído, do bosque.

— Se quiserem, podem ficar no escritório, aqui. Vou dar-lhes a chave. Não é o que há de melhor, talvez, mas é muito melhor do que ficar na chuva, caso chova.

Aceitamos, e arrastamos nossa montanha de pertences para o tapete do escritório, formando uma camada desordenada de pára-quedas, botas, sacos de dormir, "kits" de sobrevivência, cordas e sacolas de ferramentas.

— Ainda não sei como conseguimos enfiar tudo isto nos aviões —

comentou Paul, ao depositar a última caixa de equipamento fotográfico.

— Se vocês quiserem uma carona até a cidade — Al disse — estou indo para lá; gostaria de levá-los.

Aceitamos imediatamente, e depois de cobrir e amarrar os aviões, subimos na traseira da camioneta do Sinclair. No caminho, com o vento soprando forte sobre nós, dividimos o ganho do dia. Dois passageiros, a $3

cada.

— É bom que não tenhamos todos os aviões do circo. Se dividíssemos seis dólares por dez, não sobraria quase nada.

— Mas poderiam ter levado aquelas outras pessoas — respondi-lhe.

— Isso não me preocupa — contrapôs Paul. — Creio que vamos nos sair muito bem, sozinhos. E ganhamos o suficiente para jantarmos, esta noite... é tudo o que importa.

O utilitário parou na oficina de Sinclair, e Al apontou no fim do quarteirão para a lanchonete "A & W". É a única aberta até tarde, e acho que fecha às 10 horas. Vejo-os amanhã no aeroporto, OK?

Al desapareceu em sua oficina, às escuras, e fomos rumo ao bar.

Desejei que, pelo menos daquela vez, pudéssemos desligar a imagem do piloto errante, pois fomos observados tão atentamente quanto uma bola de tênis em câmara lenta, pelos fregueses do "A & W.

— Vocês são os camaradas com os aviões, não? — A garçonete que arrumava nossa mesa rústica de madeira estava admirada, e eu quis dizer-lhe que esquecesse aquilo, ficasse quieta e fingisse que éramos apenas fregueses. Pedi Alguns cachorros-quentes e cerveja, acompanhando Paul e Stu.

— Vai funcionar — disse Paul. — Poderíamos ter levado vinte passageiros, esta noite, se você não estivesse com tanto medo de trabalhar com seu avião por alguns minutos. Poderíamos ter-nos saído bem. E cá estamos!

Há 5 horas, nem mesmo sabíamos que existisse um lugar como Rio, Wisconsin! Vamos fazer fortuna.

— Talvez, Paul. — Como líder do dia, eu não estava tão certo.

Meia hora mais tarde, entramos no escritório e acendemos a luz, ofuscando-nos, e acabando com a noite.

Havia dois divãs no escritório, que Paul e eu logo reclamamos como sendo nossas camas, sendo os membros mais graduados do Grande Circo Americano. Demos a Stu as almofadas dos divãs.

— Quantos passageiros vamos transportar amanha? — Stu

perguntou, não se incomodando absolutamente com seu baixo "status". —

Vamos fazer uma apostinha?

Paul esperava por 86. Stu pensava em 101. Ri-me desdenhosamente dos dois, e disse que o número certo era 54. Estávamos todos errados, mas não importava.

Desligamos a luz e fomos dormir.

Capítulo 3

ACORDEI MURMURANDO "Rio Rita", de novo; não podia tirá-la da cabeça.

— Que música é essa? — perguntou Stu.

— Ora, não conhece "Rio Rita"? — perguntei.

— Não; nunca ouvi dizer.

— Ei... Paul, já parou para pensar que o jovem Stu provavelmente não conhece nenhuma canção da guerra? Quando você nasceu... mil, novecentos e quarenta e sete! Você pode imaginar, alguém que nasceu em MIL NOVECENTOS E QUARENTA E SETE?

— We're three caballeros... — Paul cantou, hesitante, olhando para Stu.

— ... three gay caballeros... — continuei, para ele.

—... three happy chappies, with snappy serappies...

Stu estava perplexo ante a estranha letra, e nós também, porque ele não a conhecia. Uma geração tentando se comunicar com outra pouco posterior, naquele escritório-alojamento numa manhã de Wisconsin, e não chegando a nada, não encontrando nada além de um sorriso de incompreensão de nosso pára-quedista, enquanto apertava o cinto de sua calça branca.

Tentamos todo um repertório com ele, e tudo com o mesmo efeito —

... Shines the name... Rodger Young... fought and died for the men he marched among...

— Não se lembra desta canção, Stu? Céus, aonde você esteve? Não lhe demos chance para responder.

— ... Oh, they've got no time for glory in the infantry... oh, they've got no time for praises loudly sung...

— E depois? Paul estava esquecido da letra, e olhei para ele reprovadoramente.

— ... BUT TO THE EVERLASTING GLORY OF THE INFANTRY...

Seu rosto iluminou-se — SHINES THE NAME OF RODGER YOUNG!

Shines the name... ta-ta-tata... Rodger Young...

— Stu, o que há com você? Cante conosco, rapaz!

Cantamos "Wing and a Prayer" e "Praise the Lord and Pass the Ammunition", só para fazê-lo infeliz por não ter nascido mais cedo. Não funcionou. Ele até parecia feliz.

Começamos a caminhada para a cidade, para o café da manhã.

— Não consigo me conformar — Paul desabafou. — Quê?

— Stu está começando tão cedo.

— Não há nada de errado com isso — respondi. — Não é quando você começa que faz o seu sucesso no mundo, mas quando você termina. É

assim que são as coisas, com o circo aéreo.

O anúncio na janela do café dizia: — Bem-vindos, viajantes" —

"Entrem", e, acima, um letreiro de néon, dizendo: COMA.

Era uma instalação acanhada, e dentro havia um balcão pequeno e cinco nichos. A garçonete chamava-se Mary Lou, e era uma garota de um sonho distante e belo. O mundo era cinzento, ela era tão bonitinha; apoiei-me na mesa, antes de sentar-me. Os outros não estavam sensibilizados.

— Como estão as torradas francesas? — Lembro-me de ter dito.

— Estão boas — ela disse. — Que mulher magnífica!

— Garante isso? É difícil ter uma boa torrada francesa. — Que menina mais linda!

— Claro que garanto. — Eu mesma faço. É uma boa torrada.

— Vendido. E dois copos de leite. — Ela só poderia ser Miss América, temporariamente fazendo o papel de garçonete num vilarejo do Meio-Oeste.

Estava encantada com a menina, e enquanto Paul e Stu pediam o desjejum, eu ficava imaginando por que. Porque ela era linda, claro. E isto é suficiente.

Mas, isso não pode ser... é mau! Dela, e de nossa concorrida estréia na Prairie du Chien, eu estava começando a suspeitar que deveria haver dezenas de milhares de mulheres fascinantes nas pequenas cidades por aí, e o que seria de mim? Sentir-me fascinado por todas elas? Deixar-me enfeitiçar por dez mil mulheres diferentes?

O que há de mau em ser um piloto errante, acho, é que se vê apenas uma superfície fugaz, uma centelha em olhos escuros, um breve sorriso luminoso. Se é tudo vazio ou uma mente totalmente diversa naqueles olhos e sorriso, é algo que leva tempo para descobrir, e, sem o devido tempo, deve-se dar o benefício da dúvida ao ser interior.

Mary Lou era um símbolo, então. Sem o saber, sabendo apenas que um dos homens da Mesa Quatro tinha pedido torradas francesas e dois leites, tornara-se uma sereia numa costa perigosa. E o piloto errante, para sobreviver precisa amarrar-se à sua máquina e força-se a ser apenas espectador, enquanto singra avante.

Permaneci todo o desjejum em silêncio.

O Wisconsin está tão arraigado em sua voz, eu pensava, é quase escocês. "Toast" (torrada) era "tousht"; "two" (dois, duas), era um suave "tu", e as batatas de meus companheiros eram "poutêitos" (inglês: "potatoes"). O

sotaque do Wisconsin é escocês-sueco-americano, com as vogais arrastadas, e Mary Lou, falando assim em sua língua materna, era tão linda de se ouvir quanto de ver.

— Acho que é hora de eu ir lavar algumas roupas — Paul disse, enquanto tomava café.

Fiquei chocado, junto com minhas idéias sobre garotas.

— Paul! O Código do piloto errante! Quebraria o código lavar as coisas. Um piloto errante é um cara sujo de óleo e graxa... já ouviu falar de um piloto errante limpa? Homem, o que está querendo!?

— Escutem, não sei quanto a vocês, mas eu vou a uma lavanderia automática...

— LAVANDERIA! Quem pensa que é? Um fotógrafo da cidade grande, ou coisa que o valha? Podemos, no máximo, ir ao rio e bater nossas roupas em alguma pedra chata! Lavanderia!...

Mas não consegui demovê-lo da heresia, e ele foi falar com Mary Lou a respeito disso, quando saímos.