Nada Por Acaso por Richard Bach - Versão HTML

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— ... e o secador funciona melhor em "médio" do que em "quente" —

dizia ela em sua língua, e com um sorriso deslumbrante. — Não encolhe a roupa.

— A Grande Lavanderia Aérea Americana — Stu dizia, consigo mesmo, enquanto jogava nossas roupas na máquina.

Enquanto elas se reviravam lá dentro, ficamos andando pelo mercado. Stu parou meditativamente diante do balcão frigorífico, no fundo da sala com colunas de madeira.

— Se comprássemos uma refeição pronta — considerava — e amarrássemos no escapamento, e ligássemos o motor por uns 15 min...

— O molho se espalharia por todo o motor — Paul interrompeu.

Andamos pelos quarteirões da Rua Principal sob as folhas largas e a sombra do Rio durante o dia. A igreja metodista, branca, lançando seu pináculo antigo acima da folhagem, ancorando o edifício no céu. Era um dia tranqüilo, calmo, e só ocasionalmente um galho se movia para alterar alguma sombra sobre a grama. Aqui, uma casa com vitrais nas janelas. Ali, outra, com uma porta de vidro oval, toda rosa e morango. Aqui e ali, uma janela emoldurava um quebra-luz de franjas e vidro entalhado. Rapaz, pensei, nada como o tempo. Isto não é um filme documentário antigo, mas aqui e agora, devagar e suavemente, fragrâncias e cores desdobrando-se pelas ruas de Rio, Wisconsin, Estados Unidos da América do Norte.

Caminhando mais um pouco, outra igreja, com as crianças no gramado, cantando. Juro que cantavam "London Bridge is Falling Down" ("A Ponte de Londres Está Caindo"). Todas de mãos dadas, fazendo a ponte, e passando por baixo. E todas ali no gramado, nem sequer relanceando para nós, como se fôssemos pessoas que tivessem viajado para trás, de um século futuro, transparentes para elas.

Aquelas crianças estiveram sempre brincando de "Ponte de Londres"

naquele gramado, e continuariam para sempre. Não éramos mais visíveis, para elas, do que o ar. Uma das mulheres que tomava conta, olhou para cima, nervosa, como uma corça, não tendo certeza do perigo, e ainda não preparada para desaparecer na floresta. Não nos viu parados, olhando, exceto por seu sexto sentido; não se falou palavra, e a Ponte de Londres caiu e pegou mais duas crianças que, por sua vez, passaram a ser outra Ponte. A canção continuou, repetindo-se, e, finalmente, nos afastamos.

No aeroporto, nossos aviões esperavam tais como os havíamos deixado. Enquanto Paul dobrava cuidadosamente suas roupas, à sua maneira asseada, afundei as minhas numa sacola e saí para consertar a alavanca da manete do biplano. Levou menos que 5 min de trabalho silencioso nas calmas horas da manhã, do dia útil de um piloto errante.

Paul, que já tinha sido pára-quedista, ajudava Stu a abrir seu pára-quedas principal ao ar sereno do hangar. Quando fui ter com eles, estavam ajoelhados na ponta da grande tela de nylon, pensativos. Ninguém se movia.

Simplesmente estavam sentados, pensavam, e não me davam atenção.

— Aposto que vocês têm problemas — disse eu.

— Inversão — informou Paul, ausente.

— Ah, e o que é uma inversão?

Paul apenas olhou para os cabos de nylon e pensava.

— Deixei que o pára-quedas caísse em cima de mim, ontem — Stu acabou dizendo — e quando saí debaixo, misturei os fios um pouco.

— Ah, eu podia vê-lo. O feixe de fios que ia dos arneses do pára-quedas estava retorcido.

— Ok. Solte seu Capewell — Paul disse, de repente — e tente assim.

Separou um conjunto de cabos, esperançoso.

Stu soltou os arneses e fez como Paul dissera, mas os cabos conti-nuaram retorcidos. Fez-se silêncio de novo no hangar, com pesos de graves pensares nas pontas.

Não consegui agüentar a atmosfera, e saí. Era uma boa hora, como qualquer outra, para engraxar o comando de válvulas do Whirlwind. Lá fora, nenhum ruído, exceto o sol e a grama crescendo.

Por volta do meio-dia, motor engraxado e pára-quedas desemba-raçados, fomos pela estrada, já familiar, ao Café do COMA, sentamo-nos no nicho Quatro, para o almoço e fomos enfeitiçados de novo pelo encanto de Mary Lou.

— A gente se acostuma muito depressa; fica-se conhecido, não? —

Paul comentou, já com seu rosbife. — Estamos aqui há um dia, e conhecemos Mary Lou e Al e quase todos sabem quem somos. Aqui sentimo-nos seguros, e poderíamos não querer ir embora.

Ele estava certo; a segurança é uma rede de certezas. Sabíamos andar pela cidade, e sabíamos que a principal indústria era a fábrica de luvas, que fechava às 4h30min e fornecia fregueses potenciais para nós.

Estávamos seguros aqui, e o temor do desconhecido além de Rio começou a insinuar-se dentro de nós. Era um estranho sentimento, para começar nesta cidadezinha. Eu o sentia, e um tanto melancolicamente comecei a tomar meu "milkshake" de chocolate.

Tinha sido o mesmo, na Prairie du Chien, uma semana atrás, quando começamos. Estávamos seguros lá, também com $300 garantidos apenas para aparecer na data histórica, mais todo o dinheiro que porventura fosse ganho com passageiros.

De fato, pela tarde do sábado, com uma multidão emergindo do inverno, ganhamos quase $650. Não se podia negar que fora um bom começo.

Parte da garantia, porém, era a Ousada Exibição de Vôo Acrobático à Baixa Altura, e, num momento de menos agitação, como este, eu poderia tentar o número de Pegar o Lenço.

Pegar aquele quadrado de seda do chão com um gancho de aço na parte debaixo da ponta da asa esquerda não era tão difícil, mas parecia extremamente ousado, e era um bom número a um circo aéreo.

O biplano subiu como uma bala contra o vento, que tinha caído para 20 milhas por hora. A manobra parecia certa, com todo o barulho do motor e a asa estava abaixando no instante certo; mas, a cada tentativa, eu olhava para o lado e via o gancho vazio, e, lá atrás, sobre o ombro, o lenço sobre a grama, intocado.

Na terceira vez, estava irritado com minha inabilidade, e concentrei-me ao máximo na direção da mancha branca, não vendo nada senão o borrão do solo a alguns metros abaixo, deslocando-me a 100 milhas por hora. Então, um segundo antes, inclinei a asa para baixo, esperei até que o branco ficasse borrado sob o gancho, e subi, no que deveria ser uma ascensão vitoriosa.

Mas, errei de novo. Empertiguei-me no assento e olhei para a ponta da asa, para me certificar se o gancho ainda estava lá. Estava e vazio.

Aquele pessoal esperando lá no chão deve estar pensando que este é um circo aéreo bastante medíocre, pensei, sombriamente que não tem quem consiga pegar um simples lenço velho no chão em três tentativas.

Na volta seguinte, fiz uma curva descendente fechada, num mergulho bastante inclinado, nivelando com a grama, ainda longe do lenço zombeteiro e diretamente em seu alinhamento. Vou conseguir desta vez, pensava, nem mesmo que tenha de levar o chão comigo. Olhei o mostrador da velocidade, que indicava 110 milhas por hora, e empurrei o manche um pouquinho para a frente. A grama chocava-se velozmente contra os grandes pneus, atingidos por suas sementes. Um pouquinho à esquerda, e um pouco mais baixo.

Naquele instante, as rodas atingiram o chão e com força bastante para sacudir minha cabeça e perturbar minha visão. O biplano pulou alto no ar, e eu empurrei o manche, preparando-me para baixar a asa.

Então, naquele instante, fez-se ouvir o estalido de uma grande explosão, o mundo escureceu e o motor gritou, num uivo de metal que enlouquece.

A hélice está batendo no chão eu estou caindo que aconteceu as rodas devem ter sido arrancadas eu não tenho rodas e agora a hélice está batendo no chão comendo poeira estamos virando muito depressa a terra voando para cima voando a toda potência de novo mas nada não consigo a hélice foi para terra fios árvores mato vento... De uma só vez, esta concussão de pensamentos atingiu-me. E por trás, o conhecimento mortal de que eu havia caído.

Capítulo 4

SENTI A FORÇA TREMENDA do avião se chocando contra o solo, agarrei-me à nacele, abri toda a manete e a máquina saltou de novo para o ar. A única coisa que consegui com a manete foi um grande barulho para a frente. Não havia a menor potência. O biplano tropeçava apenas com o impulso.

Não iríamos passar por cima dos fios telefônicos adiante. Era estranho. Eles estiveram próximos, a 110 mph, mas agora não estavam.

Voltamo-nos contra o vento por reflexo, e, com a manete aberta, motor esbravejando a cem pés de altura, tudo reduzia a marcha. Senti o aparelho estremecer num estol, e estava bem cônscio disto, sabendo que um pouco mais devagar significaria afundar o nariz no chão. Mas eu conhecia o avião, e sabia que nos manteríamos assim e desceríamos bem lentamente, contra o vento. Imaginei que as pessoas em terra estavam assustadas, pois tudo isto devia parecer assustador; uma explosão de terra e as rodas saltando fora, o estrondo estranho do motor e o grande salto para o ar antes de cair. Se bem que o único medo que eu receava era o medo deles, de como tudo deveria se mostrar, visto do chão.

Descemos em câmara lenta, de frente para o vento, sobre a grama alta. Nenhum obstáculo a evitar. A terra subiu lentamente ao nosso encontro, e, por fim, escovou-nos levemente com sua verdura. Naquele momento, o motor não mais servia, e desliguei o magneto. Deslizamos devagar pelas hastes da grama, a menos de 20 milhas por hora, e, sem nada mais a fazer, puxei toda a manete e fechei o conduto de gasolina. Não havia choque contra o chão, nem impulso para a frente. Tudo numa movimentação retardada.

Eu estava impaciente para sair e ver o que tinha acontecido, abri meu cinto de segurança, e estava de pé dentro da nacele ainda antes de nos arrastarmos até frear.

O biplano inclinou-se fortemente para baixo, a asa direita abaixada, grama e terra se espalhando pelo ar. Meu lindo maldito avião.

Estava em péssimo aspecto. A asa direita inferior era u'a massa de rugas, que só podia significar uma longarina quebrada, sob a tela. Coisa triste, ficar aqui na nacele, acabar o circo logo no começo.

Controlei-me muito cuidadosamente, para ver quando começaria a sentir medo. Depois de acontecer este tipo de coisas, supõe-se que se tenha medo. O sentimento estava demorando, e, mais que tudo, eu estava desapontado. Haveria trabalho à frente, e eu preferia muito mais voar que trabalhar.

Saí do avião, ainda sozinho no campo, antes da chegada da multidão; levantei o visor e olhei para a máquina. Não era fácil ser otimista.

Além da longarina, a hélice estava torta. As duas pás, totalmente dobradas para trás. O trem de aterragem direito solta-se, mas sem quebrar, e foi comprimido contra a asa quando descemos. Essa a extensão dos danos. Não era tão mau quanto pareceu.

Lá do outro lado do campo, os homens andando, os meninos correndo e o público vindo ver o que havia restado do avião. Bem, pensei, acho que tem de ser assim, acho que eu também desejaria vir e olhar, se estivesse no lugar deles. Mas o que acontecera já era passado para mim, e a idéia de repetir o fato de novo não me agradava. Como o medo ainda não me alcançara, passaria este tempo pensando em algo apropriado para dizer numa ocasião destas.

Um grande caminhão oficial passava pelo gramado ALISTE-SE NA MARINHA, e em cima dele estava montado um par de alto-falantes, para reforçar as palavras. A esta altura, ir para a marinha era muito mais atraente do que para a força aérea.

Paul Hansen foi o primeiro a chegar, câmeras em volta do pescoço, quase sem fôlego.

— Pensei... que você... estivesse acabado...

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O Luscombe e o biplano, nos tempos em que andamos praticando aterrissagens nos campos, imaginando se seria possível sobreviver como um moderno piloto errante.

Às vezes, é terrivelmente difícil pegar um lenço no chão.

E, às vezes, é fácil.

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— Que quer dizer? Apenas descemos um pouco demais, ali, como se tivéssemos batido em algo.

— Você não... sabe. Bateu no chão, e então... saltou... com o nariz para baixo... Pensei que você ia capotar. Foi uma cena horrível... Realmente, pensei que você poderia ter morrido...

Parecia já ter recuperado o fôlego, agora. Por que a visão do acidente o havia transtornado tanto? Se alguém tinha o direito de estar afetado, era eu, porque era o meu avião que se arrebentara todo ali na grama.

— Ora, Paul, não havia chance de capotar. Realmente, foi isto o que pareceu?

— Sim, eu pensei... meu Deus... foi pro diabo!

Não acreditava nele. Não poderia ter sido tão ruim. Mas, recordando, lembrei-me que o primeiro impacto e o som daquela explosão foram muito fortes. O nariz também abaixou, mas nada que se aproximasse a virar.

— Bem — comentei, depois de um minuto — precisa admitir que é um número difícil. Senti algumas molas se afrouxando dentro de mim, molas que estiveram tensionadas no ar, para que eu pudesse sentir cada mínimo movimento do avião. Agora, estavam se distendendo, e eu me sentia relaxar, porém não fazia idéia de quanto tempo levaria para consertar o avião. Era o único foco de tensão. Eu queria consertar o aparelho o mais depressa possível.

Trinta horas mais tarde, o avião estava consertado, testado e voando com passageiros de novo.

É como um milagre, pensei, e estava maravilhado.

Quando partimos da Prairie du Chien, Rio era o Desconhecido. E

agora, Rio transformava-se no Conhecido, sentíamos o contato da segurança, e estávamos incomodados.

O vento intensificou-se naquela tarde, transformando Stu Mac Pherson imediatamente de pára-quedista num vendedor de bilhetes, terra-aterra.

— Está por volta de quinze milhas por hora — disse, preocupado. —

É um pouco demais para me sentir tentado a saltar.

— Ora, vamos... — interpelei-o, imaginando qual poderia ser a força do vento sobre o grande domo de nylon. — Quinze miseráveis milhas por hora? Não poderá fazer-lhe mal. — Seria interessante verificar, porém, se Stu podia ser desafiado a ponto de esquecer o bom senso.

— O vento está ficando cada vez mais forte. Não vou saltar.

— Toda essa gente veio vê-lo. O público não vai gostar. Alguém disse ontem que o seu salto foi o primeiro que já se fez neste campo. Agora, todo o mundo espera ver o segundo. É melhor saltar.

Se ele desistisse, eu já tinha pronto um sermão sobre como os fracos entregam-se àquilo que sabem não estar certo.

— Quinze milhas é bastante vento, Dick — falou Paul, do hangar.

Vamos fazer uma coisa. Precisamos testar o pára-quedas, e estarmos certos de que removemos a inversão. Por que você não põe o pára-quedas e nós o abriremos contra o vento, para ver se abre direito?

— Eu vou pôr o seu pára-quedas; não estou com medo dele.

Paul trouxe-o e ajudou-me, e enquanto ele me ajudava, eu me lembrava de histórias que ouvi na Força Aérea, sobre pilotos arrastados sem poder reagir, pelos pára-quedas, no chão. Em resumo, comecei a mudar de idéia.

Mas, naquela hora, já estava com os arneses apertados, costas para o vento, que parecia estar soprando mais forte agora, e Paul e Stu estavam juntos ao pano, sobre a grama, prontos para abri-lo.

— Pronto para ir? — Paul gritou.

— Espere um pouco! — Não gostei daquela palavra, "ir", pois o que eu pretendia era ficar exatamente aonde estava. Afundei os pés no chão e segurei a alça para soltar o pára-quedas, se algo acontecesse de errado.

— Não puxe isso — avisou Paul. — Pode misturar os fios de novo. Se quiser soltar o pára-quedas, solte os arneses. Pronto?

Na direção do vento, havia uma cerca de mourões e arames simples.

Se eu fosse arrastado, iria direto para lá. Mas, com minhas 200 libras bem apoiadas, nenhum ventinho poderia me arrastar tão longe.

— Pronto!

Fiz força contra o vento, enquanto Paul e Stu levantavam o nylon, com o que me pareceu um entusiasmo indevido. O vento logo inflou o pára-quedas, que se abriu como a vela de um iate de competição, e cada onça daquela força tracionava ao longo dos cabos, e sobre meus ombros. Era como um trator arrancando, amarrado a mim.

— Ei! — voei para longe de meu lugar tão ferozmente mantido, e minhas botas logo foram arrancadas de um segundo lugar, e de um terceiro.

Logo pensei que ia perder o equilíbrio atrás daquela coisa, e ser jogado contra a cerca. A medusa gigante puxava-me aos safanões, vam-vam-vam, através do terreno, enquanto Paul e Stu apenas ficavam rindo de mim. Foi a primeira vez que vi Stu rindo.

— Segure-se, camarada!

— É apenas uma brisa! Não é nada! Ei, segure-se!

Lembrei-me das coisas sobre o vento e os pára-quedas, e segurei os cabos inferiores, para fazer a coisa desinflar, enquanto eu era arrastado rumo à cerca. Puxei, mas nada aconteceu. Quando muito, arrastava-me mais depressa, e quase perdi o equilíbrio.

Naquele ponto, deixei de me preocupar com a delicadeza do equipamento de Stu, e puxei com força todos os fios inferiores que consegui agarrar. De súbito, o pára-quedas desinflou, e lá estava eu, de pé, ao fraco vento da tarde.

— O que há? — gritou Paul. — Não conseguiu segurar a coisa?

— Bem, tentei evitar cortar os fios na cerca; assim poupo-lhes os reparos.

Tirei os arneses, depressa. — Stu, não creio que você deva saltar, hoje. Este vento está um pouco forte. Claro, se você quiser pular, de qualquer maneira, mas é mais aconselhável que não voe esta tarde. Acho bem mais prudente.

Enrolamos o pano e guardamo-lo na calma do hangar.

— Você deveria pular, algum dia, Richard. — Não há nada como saltar. É realmente voar. Você fica lá, sem motor, nem nada. Apenas... você.

Morou? Realmente, deveria experimentar.

Nunca tive nenhuma intenção de saltar de um avião, e o discurso de Paul não me animava a começar agora.

— Algum dia — respondi — vou experimentar, quando as asas de meu avião caírem. Quero começar já com uma queda livre, sem passar por todos aqueles exercícios com cabos estáticos que nos fazem suportar na escola de pára-quedismo. Por ora, digamos que não estou ainda pronto para começar minha carreira de pára-quedista.

A camioneta de Al Sinclair chegou, e com ele na cabine estava um sujeito distinto, que nos foi apresentado como Lauren Gilbert, que era o dono do campo. Lauren nem sabia como fazer para nos dar as boas-vindas.

Ele aprendera a voar com cinqüenta anos de idade, foi totalmente arrebatado pelo prazer de voar, e ainda no dia anterior havia sido aprovado para a licença de vôo por instrumentos.

Nossa política exigia que ele desse uma volta de graça, já que o campo era dele, e o biplano estava voando 10 min depois, em seu primeiro vôo da tarde. Era um vôo de publicidade; o primeiro, para avisar a cidade que estávamos trabalhando e levando felizes passageiros, e por que eles não estavam no céu conosco, olhando a cidade?

Tínhamos que ter uma rota para cada cidade, e o trajeto sobre Rio era decolar para oeste, subir na direção sul e leste, numa curva aberta à esquerda, nivelar a 1 000 pés, voltar atrás e circular a cidade numa curva à direita, de volta ao campo de pouso, curva fechada para o norte, descer passando sobre os fios telefônicos e aterrissar. Isto totalizava um passeio de 12 min, dando a nossos passageiros uma vista de seu lar, o sentimento de liberdade do vôo, e uma aventura sobre a qual poder falar e registrar no álbum de fotografias.

— Foi muito bom — comentava Lauren, quando Stu abria a porta para ele. — Sabem que é a primeira vez que vôo num avião de nacele aberta? Isso é que é voar. Maravilhoso! O vento, você sabe, e aquele motorzão ali...

Um par de garotos apareceu, chamados Holly e Blackie, pedalando suas bicicletas, e fomos todos ao escritório depois do passeio de Lauren.

— Meninos, querem dar uma volta? — perguntou-lhes.

— Não temos dinheiro — disse Holly. Ele tinha uns treze anos, olhos brilhantes e inquisidores.

— Vamos fazer uma coisa. Vocês vêm aqui, lavam e dão um polimento em meu Cessna, e eu lhes pago o passeio. Que tal?

Houve um silêncio encabulado entre os meninos.

— Ah... não! Obrigado, Sr. Gilbert.

— Que querem dizer? Rapazes, este é talvez o último dos velhos biplanos que vocês verão! Poderão dizer que voaram num biplano! E não há mais pessoas, mesmo adultos, que podem dizer que voaram num biplano de verdade.

Silêncio de novo, e eu estava surpreso. Eu teria trabalhado naquele Cessna, o ano inteiro, quando tinha treze anos, para ganhar uma volta de avião. Em qualquer avião.

— E você, Blackie? Ajude-me a ter meu avião limpinho, e ganha uma volta no velho biplano.

— Não... obrigado...

Lauren estava empenhado em persuadi-los. Eu estava boquiaberto com os temores deles. Mas os garotos olharam para o chão e nada disseram.

Por fim, relutante, Holly concordou, e todo o poder de fogo de Lauren voltou-se para Blackie.

— Blackie, por que você não vai com Holly? Vocês podem ir os dois.

— Acho que não...

— Quê? Se o pequeno Holly aqui voa e você não, você é um maricas!

— É... — Blackie disse, em voz baixa. — Mas não importa, porque sou maior que ele.

Por fim, toda a resistência caiu ante o entusiasmo de Lauren e os garotos embarcaram no biplano, esperando o pior. O motor despertou para a vida, soprando os gases de escapamento em seus rostos sérios; um minuto mais tarde estávamos subindo para o céu. Mil pés acima, estavam olhando para baixo, sobre a borda de couro da nacele da frente, apontando para baixo ocasionalmente e por vezes gritando um para o outro acima de todo o barulho. Ao fim do vôo, eram veteranos do ar, rindo nas curvas fechadas, olhando destemidamente para baixo.

Quando desceram da nacele, de volta seguramente à terra, mantiveram dignamente a calma.

— Foi ótimo, Sr. Gilbert. Foi divertido. Viremos trabalhar neste sábado, se quiser.

Era difícil de acreditar. Eles viriam a lembrar-se do vôo? Seria algo significativo para eles? Precisaria voltar depois de uns vinte anos, pensei, para perguntar se se lembravam.

O primeiro carro chegou, mas era para assistir, e não para voar.

— Quando é o salto de pára-quedas? — O homem saiu do carro para perguntar. — Vai ser logo?

— Está ventando muito hoje — Stu explicou-lhe. — Não creio que se poderá saltar hoje.

— Que quer dizer? Vim até aqui para ver o salto, e aqui estou e você diz que venta demais. Veja, o vento mal está soprando! O que é que há? Está com medo de pular, acovardou-se?

Sua voz era irritante o suficiente para me enraivecer.

— Rapaz, felizmente você veio! — dirigi-me a ele cordialmente, para defender o jovem MacPherson. — Estou realmente contente em vê-lo! Puxa!

Receávamos ter de cancelar o salto hoje por causa do vento, mas raios, aí está você. Maravilhoso! Você pode saltar no lugar de Stu, aqui. Sempre pensei que o menino era meio fracote, hein, Stu? — Quanto mais eu falava, mais aquele sujeito me desagradava. — Ei, Paul! Temos um pára-quedista!

Traga o pára-quedas e vamos vesti-lo!

— Espere um pouco... — disse o homem.

— Quer pular a três mil, ou quatro? O que você disser está OK para nós. Stu tem usado o coador como alvo, mas se quiser chegar mais perto dos fios...

— Ei, amigo, desculpe; eu não quis dizer que...

— Não, está bem; estamos de fato contentes em tê-lo encontrado.

Não teríamos salto nenhum sem você, hoje. Claro que apreciamos sua vinda, para nos fazer este favor...

Paul percebeu a idéia e correu para nós, trazendo o capacete e o pára-quedas de Stu.

— Eu não creio que é melhor. Eu compreendo, sobre o vento — disse o homem, e acenou e voltou para o carro. Aquela cena parecia tirada do cinema; funcionou tão bem que adicionei o método à minha lista, para usar de novo com o público descontente com os saltos.

— E o que você faria se ele não desistisse? — interpelou Stu. — E se ele dissesse que queria pular?

— Eu diria ótimo, e o espetaria naquele pára-quedas. Eu juro que estava disposto a levá-lo lá em cima e jogá-lo pela borda afora.

Por algum tempo, as pessoas ficaram sentadas em seus carros, olhando, e não se moveram, quando Stu foi até as suas janelas.

— Vamos lá, voar! — ele disse, numa janela. — Rio vista do ar!

A figura lá dentro abanou a cabeça. — Gosto de vê-la é do chão mesmo.

Se este era um típico circo aéreo moderno, pensei, estamos mortos; os bons velhos dias efetivamente se foram.

Finalmente, por volta das 5h 30min da tarde, um destemido velho fazendeiro chegou, de carro. — Moro a umas duas milhas, pela estrada.

Podem levar-me para ver o lugar de avião?

— Claro — respondi.

— E quanto isso vai me custar?

— Três dólares à vista, dinheiro americano.

— Bem, o que estamos esperando, meu jovem?

Ele não podia ter menos de setenta anos, mas vibrou com o vôo.

Cabelos de neve ao vento, apontou o caminho a seguir, e então para sua casa, e seu celeiro. Era claro e bonito como um cartão postal do Wisconsin; gramado verde luminoso, casa branca luminosa, celeiro vermelho luminoso, feno amarelo luminoso no palheiro. Circulamos duas vezes, e uma mulher saiu para o gramado, acenando. Ele acenou em resposta, e continuou acenando enquanto nos afastamos.

— Ótimo passeio, meu jovem — disse, quando Stu o ajudava a descer da nacele. — Os melhores três dólares que já gastei. Foi a primeira vez que subi numa dessas máquinas; e agora vocês me fizeram lamentar não tê-

lo feito há muito tempo atrás.

Aquela viagem começou nosso dia, e, até o pôr-do-sol, fiquei na nacele, esperando no chão apenas que os novos passageiros fossem subindo.

Stu aprendeu bastante psicologia dos passageiros, e passou a perguntar sempre: — Que achou? — quando desciam. Sua alegria espontânea e seu entusiasmo convenciam os hesitantes para irem adiante e investirem no vôo.

Uns poucos passageiros voltaram para junto de minha nacele, depois de voarem, e perguntaram aonde poderiam aprender a voar, e quanto custaria o curso. Al e Lauren estavam certos, acreditando que nós poderíamos fazer algo pela aviação, em Rio. Mais um avião, com base naquele campo, aumentaria os vôos em 25 por cento, mais três aviões, duplicariam. Mas, a natureza do piloto errante era de chegar e partir, mesmo num só dia.

O Sol baixava, à nossa volta. Paul e eu subimos para um último vôo em formação, para nos divertirmos, e ver as luzes lentamente se acenderem, lá embaixo, nas ruas. Ao aterrissarmos, mal podíamos enxergar aonde taxiar, e sentíamos como se tivéssemos trabalhado muito mais do que uma tarde.

Cobrimos os aviões, pagamos a gasolina, e estávamos todos encasulados em nossos sacos de dormir, e depois de Stu se desencasular para apagar a luz, a pedido de seus superiores, vi um par de olhos negros me espiando sob as ferramentas, perto da porta.

— Ei, pessoal — eu disse — temos um rato aqui.

— Aonde está vendo um rato? — disse Paul.

— Ferramentas. Embaixo delas.

— Mate-o. Pegue-o com sua bota, Stu.

— PAUL, SEU ASSASSINO SANGUINÁRIO! — gritei. — Não haverá mortes neste lugar! Pegue aquela bota e você vai ter de enfrentar aquele rato e eu, Stu.

— Bem, expulse-o daqui, então — Paul sugeriu — se é assim que quer.

— Não! — retruquei. — O sujeitinho merece um teto. Como você se sentiria se alguém o expulsasse para dormir lá fora no frio?

— Não está fazendo frio lá fora — disse Paul, enfadado.

— Bem, falo de princípios. Ele estava aqui antes de chegarmos. Este lugar é mais dele que nosso.

— Está bem; está bem — concordou. — Deixe o rato aí! Deixe que ele ande por cima de todos nós. Mas se ele vier para cima de mim, vou socá-lo!

Stu obedientemente desligou as luzes e voltou para suas almofadas, no chão.

Conversamos no escuro por um pouco, sobre como os nossos an-fitriões estavam sendo simpáticos, bem como toda a cidade, aliás.

— Mas, reparou que não levamos mulheres, por aqui, ou quase nenhuma? — comentou Paul. — Acho que só uma mulher como passageira.

Houve muitas, de todos os tipos, em Prairie.

— Fizemos dinheiro de todos os tipos, lá, que não é bem o que fazemos aqui — respondi-lhe.

— Por falar nisso, quanto ganhamos, Stu?

Desfiou as estatísticas: — Dezessete passageiros. Cinqüenta e um dólares. Claro, gastamos dezenove com a gasolina. Isso dá... — fez uma pausa para calcular — ... dez para cada, hoje, mais ou menos.

— Nada mau — disse Paul. — Dez por 3h de trabalho... num dia útil.

Isso resulta em cinqüenta dólares por semana com todas as despesas pagas, exceto comida, sem contar sábado e domingo. Ei! Um cara pode ganhar a vida, nessa base!

Eu gostaria imensamente de acreditar nele.

Capítulo 5

A PRIMEIRA COISA DA MANHÃ SEGUINTE, foi Paul Hansen,

pegando fogo. Ele estava aninhado em seu saco de dormir e, de sua extremidade, pela aba de seu chapéu, um véu de fumaça desenrolava-se para cima.

— PAUL! VOCÊ ESTÁ PEGANDO FOGO!

Ele não se moveu. Depois de uma pausa grave, ele replicou: — Estou fumando um cigarro.

— Logo de manhã? Antes de levantar? Puxa, pensei que você estava se incendiando!

— Escute: Não implique com meus cigarros.

— Desculpe.

Olhei à volta e, de minha posição baixa, parecia mais do que nunca um quarto de despejo. No centro da sala, havia um fogão de lenha de ferro fundido. Estava escrito nele "Cálida Manhã", em relevo, e seus furos de ventilação olhavam para mim, com seus olhos puxados. O fogão não me fazia sentir bem-vindo.

Amontoando-se à volta de seus pés de ferro, nossos víveres e equipamento. Na mesa, diversas revistas velhas de aviação, um calendário de uma companhia de ferramentas, com velhas fotos de garotas do Peter Gowland, o pára-quedas de reserva de Stu, com seu altímetro e cronômetro instalados nele. Diretamente abaixo, minha sacola vermelha, de roupas, com o zíper fechado, e um buraco de um quarto de polegada roído, ao lado...

HAVIA UM FURO NA MINHA SACOLA DE ROUPAS! De uma crise, para outra...

Pulei da cama, agarrei a sacola e abri seu zíper. Ali embaixo de meu estojo de barbear e da Levi's, e um pacote de canetas, minhas rações de emergência: uma caixa de chocolate meio amargo, e vários pacotes de biscoitos e queijo. Um tablete de chocolate estava meio comido e todo um pedaço de queijo da caixa de queijo e biscoitos tinham sido consumidos. Os biscoitos estavam intocados.

O rato. Aquele rato da noite anterior, sob as ferramentas. Meu pequeno companheiro, aquele cuja vida salvei da selvageria de Hansen. Aquele rato tinha comido minhas rações de emergência!

— Ora, seu demoninho! — disse, irritado, com os dentes cerrados.

— O que há? — Hansen continuava a fumar, sem se voltar.

— Nada. O rato comeu meu queijo.

Houve um jato de fumaça do outro divã. — O RATO? Aquele rato que eu disse que era melhor pôr para fora? E você sentiu pena dele? Aquele rato comeu sua comida?

— Um pouco de queijo, e de chocolate.

— Como conseguiu pegá-los?

— Roeu um buraco na minha sacola de roupa. Hansen só parou de rir um bom tempo depois.

Pus meias grossas de lã e minhas botas, com a faca de sobrevivência costurada a um lado. — Da próxima vez que eu ver aquele rato perto da minha sacola — eu disse — vai levar seis polegadas de aço frio; sim, garantido, sem dúvida. É a última vez que fico a favor de algum rato. Podia pelo menos comer o seu chapéu maluco, Hansen, ou a pasta de dentes de Stu, ou alguma outra coisa, mas, meu queijo! Da próxima vez, baby, aço frio!

No café da manhã, comemos as torradas francesas com o sotaque de Mary Lou, pela última vez.

— Estamos de partida hoje, Mary Lou — disse Paul — e você não foi voar conosco. Com certeza perdeu uma boa chance. É muito belo lá em cima, e você nunca irá ver pessoalmente como é o céu.

Ela deu um sorriso ofuscante. — É bonito lá em cima, mas é uma gente boba que vive lá em cima. — Então era isso o que a nossa feiticeira pensava de nós? De certa forma, senti-me ferido.

Pagamos a conta e dissemos adeus à Mary Lou, e fomos para o campo de pouso na camioneta de Al.

— Acham que podem estar de volta por aqui lá por dezesseis ou dezessete de Julho? — perguntou. — Será o piquenique do Corpo de Bombeiros. Haverá muita gente por aqui que gostaria de voar. Gostaria muito que vocês voltassem.

Começamos a embarcar nossa montanha de pertences de volta aos aviões. As asas do Luscombe oscilaram, quando Paul amarrou suas câmeras firmemente à estrutura da cabine.

— Não podemos dar certeza, Al. Não temos idéia de onde estaremos, então. Se estivermos por perto, claro que voltaremos.

— É bom tê-los por aqui, a qualquer hora.

Era quarta-feira de manhã, então, quando decolamos, circulando uma última vez sobre a oficina de Al, e sobre o Café. Al acenou e balançamos as asas em despedida, mas Mary Lou estava ocupada, ou não tinha tempo para aquela gente tola que vivia no céu. Eu ainda estava triste com aquilo.

E Rio se foi.

E a primavera tornou-se verão.

Capítulo 6

APARECEU-NOS, como todas as cidades do Meio-Oeste, um aglomerado de árvores verdes ao longe, no meio do campo. De início, pareciam apenas árvores, e então a torre da igreja e as casas da periferia tornaram-se visíveis, e, por fim, tornou-se claro que sob aquelas árvores havia casas sólidas e passageiros em potencial.

A cidade ficava às margens de dois lagos e uma grande pista de grama. Estive tentado a passar adiante, por que havia pelo menos quinze pequenos hangares, e luzes ao longo da pista. Era muito distanciado do tradicional campo de feno, do piloto errante.

Mas, o Grande Circo Aéreo Americano estava sem fundos, a pista estava a menos de um quarteirão da cidade, e os frescos lagos lá estavam, cintilando cristalinos ao sol, convidativos. De modo que descemos, nos três pontos, sobre a grama.

O lugar estava deserto. Taxiamos até o tanque de gasolina, que era um conjunto de alçapões na grama, e desligamos os motores, silenciando-os.

— O que acha? — perguntei a Paul quando escorregou para fora de seu avião.

— Parece bom.

— Acha que é um pouco grande demais para trabalhar?

— Parece bem.

Havia um pequeno escritório quadrado perto da gasolina, mas estava trancado. — Não é bem a minha imagem do campo de feno de um piloto errante.

— Pode vir a sê-lo, para o pessoal daqui.

— Estarão chegando na hora da janta, como sempre.

Um velho sedã Buick veio em nossa direção, vindo da cidade, sacudindo pesadamente sobre o caminho de grama até o escritório. Parou, e um homem esguio saiu, sorrindo.

— Querem gasolina, ao que parece.

— Sim, precisamos de um pouco.

Subiu os degraus de madeira, e abriu a porta do escritório.

— Você tem um bom campo, aqui — comentei.

— Não é mau, para uma pista de grama.

Más novas, pensei. Quando o proprietário não gosta da pista de grama, está de olho em pista de concreto, e quer ganhar dinheiro com aviões comerciais, não com circos aéreos.

— O que vocês estão tentando fazer? Tentando ver a menor distância a que podiam aterrissar, sem colidir? — Ligou um interruptor que acionou a bomba de gasolina.

Olhei para Paul e pensei: Não disse? Não temos nada a ver com este lugar.

— Apenas vôo em formação, pouco cerrado — explicou Paul. —

Fazemos todo o dia.

— Todo o dia? O que vocês fazem? Participam de um show aéreo?

— Mais ou menos estamos fazendo um circo aéreo — disse eu. —

Pensei que poderíamos ficar por aqui alguns dias, levar algumas pessoas para dar uma volta em torno do aeroporto.

Pensou no assunto por um pouco, considerando as conseqüências.

— Bem, o campo não é meu — disse enquanto abastecia os aviões e completava o óleo dos motores. — Pertence à cidade, e é apenas operado pelo aeroclube. Não posso decidir sozinho. Preciso convocar uma reunião da diretoria. Posso fazê-lo esta noite, e talvez vocês possam vir e conversar com eles.

Não me lembro de nenhum circo aéreo conversando com diretores para decidir se vão ou não trabalhar numa cidade. — Não é nada grande —

acrescentei. — Apenas nossos dois aviões. Voamos em formação e fazemos algumas acrobacias, e Stu dá alguns saltos de pára-quedas. É tudo, e levamos as pessoas para passear.

— Mas, a reunião é necessária, mesmo assim, eu acho. Quanto vocês cobram?

— Nada. É de graça — eu disse, enrolando a mangueira da gasolina dentro da caixa. — O que tentamos é ganhar para o óleo e a gasolina, e hamburgers, com os passeios para o público, três dólares a volta.

Passou-me pela cabeça que a cidade tivesse sido ludibriada no passado por uma "troupe" de ciganos do ar. Era uma recepção completamente diferente da aclamação normal que esperaríamos em cidades menores.

— Meu nome é Joe Wright.

Apresentamo-nos, e Joe foi ao telefone e chamou alguns dos diretores do Aeroclube de Palmyra. Quando terminou, disse: — Vamos nos reunir hoje à noite; gostaríamos que vocês viessem para conversar.

Enquanto isso, acho que vocês gostariam de comer alguma coisa. Há um lugar logo adiante. Posso dar-lhes uma carona, ou emprestar-lhes um carro de cortesia.

Eu preferiria andar, mas Joe insistiu, e nos amontoamos em seu Buick, e fomos embora. Ele conhecia bem a cidade, e ofereceu-nos um passeio, a caminho do café. Palmyra era abençoada com belos gramados; uma lagoa espelhada e esverdeada, como as lagoas devem ser; estradas de terra pelos campos, sob arcadas de árvores altas, e ruas secundárias silenciosas, com as eternas portas da frente com vidro colorido, e avermelhado.

Cada dia de um piloto errante tornava o fato mais claro... o único lugar aonde o tempo passa é nas cidades.

Na hora que chegamos ao Café Parada dos Caminhões D&M, já estávamos familiarizados com a cidade, cuja indústria básica era uma fundição, escondida atrás das árvores, e com Joe Wright, um afável operador voluntário de aeroporto. Deixou-nos na porta, e saiu para mais algumas chamadas e preparativos para a reunião.

— Não gosto disso, Paul — disse, depois que ele fez o pedido. — Por que nos preocuparmos com um lugar aonde não vai ter nenhuma graça?

Somos franco-atiradores, lembre-se... vamos para onde nos der na telha. Há uns oito mil lugares diferentes deste.

— Não faça julgamentos apressados. Não há nada de mais em ir à reunião deles. Vamos lá, e nos comportamos, e eles dizem que está bem.

Então não teremos problemas, e todos saberão que somos bons meninos.

— Mas se formos à reunião, estaremos nos traindo, não vê? Viemos aqui para nos afastarmos de comitês e reuniões, para ver se encontrávamos gente de verdade, sabe como é, nas cidades pequenas. Ser apenas velhos pilotos errantes sujos de graxa, livres, pelo ar, indo para onde nos agradar, e quando quiséssemos.

— Veja — disse Paul. — Este é um bom lugar, certo?

— Errado. Há muitos aviões por aqui.

— É pertinho da cidade, tem os lagos, e as pessoas, OK?

— Bem...

Paramos por aí, se bem que eu ainda quisesse partir, e Paul ainda quisesse ficar. Stu não quis tomar partido, mas acho que ele estava inclinado a ficar.

Quando voltamos para os aviões, encontramos alguns carros estacionados, e alguns cidadãos olhando as naceles. Stu desenrolou os letreiros VOE $3 VOE, e fomos ao trabalho.

— PALMYRA VISTA DO AR, AMIGOS! A CIDADEZINHA MAIS BONITA DO MUNDO! QUEM SERÁ O PRIMEIRO A VOAR?

Fui em direção aos carros estacionados, quando os que espiavam as naceles disseram que estavam apenas olhando.

— Está disposto a dar uma volta de avião, cavalheiro?

— He-he-he-he — foi a resposta, e dizia bem claro, meu pobre anunciador, realmente pensa que sou idiota o bastante para subir naquela lata velha?

Aquela risada congelou-me, e afastei-me abruptamente.

Que esmagadora indiferença deste lugar e os outros vilarejos aonde fomos tão bem recebidos... Se a nossa busca é pelo povo real e sincero da América, então devemos ir embora agora mesmo.

— Podem me levar? — Um homem aproximando-se a largos passos, de outro carro, mudou minha atitude na hora.

— Adoraria — disse — Stu! Passageiro! Vamos!

Stu acorreu e ajudou o homem a subir na nacele da frente, enquanto eu apertava o cinto, na de trás. Eu estava totalmente em casa, neste ofício, com o painel de mostradores e alavancas familiares à minha volta, e estava feliz assim. Stu começou a acionar a partida de manivela, um dispositivo que veio a ser conhecido pelo pessoal do campo como "manteigueira".

Fazendo força, girando a manivela devagar, no começo, pondo um grande esforço na massa de aço do volante dentado dentro da carenagem, Stu extraía energia pura de seu coração para a partida. Finalmente, o volante gritando, Stu afastou-se e gritou: — LARGA! — Puxei o botão de engrenar a partida e a hélice girou. Mas apenas por dez segundos. A hélice desacelerou, e parou. O motor não detonou uma só vez.

O que pode estar errado? ponderei. Esta coisa funciona sempre; a partida nunca falha! Stu olhou para mim num estado de choque petrificado, pois toda a sua tortura na manivela tinha sido em vão.

Eu estava abanando a cabeça, e ia dizer-lhe que não sabia por que o motor não pegava, quando descobri o problema. Não havia ligado o magneto.

Era-me tão familiar aquela nacele, que esperava que os botões e alavancas funcionassem sozinhos.

— Stu... eh... detesto dizer, mas... esqueci de ligar o magneto, que coisa mais boba, vamos girar mais uma vez, sim?

Ele fechou os olhos, implorando aos céus que me destruísse, e, como não funcionasse, ameaçou jogar a manivela na minha cabeça. Mas, controlou-se, e com o ar de um mártir da igreja, encaixou a manivela mais uma vez e começou a acioná-la.

— Puxa, desculpe, Stu — eu disse, acomodando-me de novo na minha confortável nacele. — Devo-lhe cinqüenta centavos, por ter-me esquecido.

Ele não respondeu, por que estava sem forças para falar. Da segunda vez que puxei o botão de engrenar, o motor despertou na hora, e o pára-quedista olhou para mim, como se olha para um pobre animal numa jaula.

Fiz o táxi rapidamente, e logo depois estava no ar, com meu passageiro. O

biplano tomou o caminho de Palmyra imediatamente, com um desvio para dar uma olhada nos lagos e subir um pouco mais, pois não havia espaço para aterragem de emergência, a leste da cidade.

O percurso levou exatamente 10 minutos. Na descida, o avião oscilou um pouco, logo quando eu estava admirando aquela bela pista de grama.

Acorde! O avião estava me dizendo. Toda aterragem, toda decolagem é diferente, todas! E não esqueça nunca!

Logo me penitenciei apertando o pedal do leme para compensar a oscilação.

Ao taxiarmos, Paul estava taxiando o Luscombe com seu passageiro.

Meu ânimo melhorou um pouco. Talvez houvesse esperança para Palmyra, afinal.

Mas foi tudo, naquela tarde. Tínhamos espectadores, mas não passageiros.

Stu recebeu o dinheiro de meu turista, e aproximou-se da nacele.

— Não posso fazer nada com eles — disse, mais alto do que o motor.

— Se eles descerem de seus carros, temos passageiros. Mas, se eles permanecem nos carros, são espectadores, e simplesmente não estão interessados em voar.

Era difícil acreditar que tínhamos todos aqueles carros e mais nenhum candidato a voar. Todos os espectadores conheciam-se, e logo uma animada conversa se estabelecera. E os diretores chegaram para nos avaliarem pessoalmente.

Paul aterrissou, taxiou, e na falta de mais gente, desligou o motor.

Um fragmento de conversa veio até nós — ... ele estava bem em cima da minha casa!

— Ele esteve sobre a casa de todo mundo. Palmyra não é assim tão grande.

— ... quem lhe disse que haveria uma reunião hoje à noite?

— Minha mulher. Alguém chamou-a e deixou-a agitada...

Joe Wright aproximou-se e apresentou-nos a alguns dos diretores, e contamos nossa história de novo. Eu estava começando a me cansar com esta importância despropositada. Por que eles não nos diziam diretamente se éramos bem-vindos ou não? Uma coisa tão simples, assim como um par de pilotos errantes...

— Tem algum programa para seus shows? — um deles perguntou.