Não há sorte neste mundo por Carolina Silva - Versão HTML

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1.

“ A queda do amor “

 

 

image002.jpgEstava um dia de Sol, com bastante calor. O Miguel tinha ido almoçar a casa como de costume. Como o comer era feito pela avó, ele não se importava de fazer cerca de quinhentos metros de um lado para o outro. Desta vez era jardineira, o prato favorito do Miguel. Ia a abrir o portão e já conseguia cheirar o famoso cheirinho do pratinho que ia saborear. O Miguel almoçou muito devagar – queria saborear cada pedacinho de batata e de carne; no fim molhou um bocadinho de pão no molho que estava no prato e levou-o à boca. Quando acabou de comer, foi-se deitar no grande sofá preto que estava na sala.

Faltava um quarto de hora para as duas. O Miguel tentou levantar-se, mas estava tão cansado que voltou a tombar-se para cima do sofá. Com um pouco de força, voltou a erguer-se e desta vez já conseguiu manter-se de pé. Arrumou os livros da tarde na mochila e saiu, depois de dar um beijinho na testa da avó.

Pelo caminho, o Miguel não conseguia manter os olhos abertos e para não adormecer começou a cantar. Ia tão distraído que não reparou que vinha uma rapariga loira e com um elegante vestido azul na sua direção. Como é óbvio, foram um contra o outro. A rapariga caiu e o Miguel, querendo-se fazer passar por cavalheiro, apressou-se a ajudá-la.

- Estás bem? – indagou, preocupado – Desculpa, estava distraído.

- Não há problema – respondeu a rapariga, com um bonito sorriso na cara – Eu também não te vi. Com este calor, quem é que repara nos outros. Como é que te chamas? Eu sou a Anita.

- O meu nome é Miguel. Tu andas lá na escola não andas? Eu já te vi num lado qualquer, só que não me consigo lembrar.

- Sim, ando lá.

O tempo ia passando e o Miguel nem queria acreditar que estava a falar com uma das raparigas mais bonitas da escola. Não é que ele não fosse bonito e que não tivesse raparigas atrás dele…

image003.jpg A conversa começou a ficar interessante e ele ficou a saber a idade dela, a morada, o mail e até trocaram os números de telemóvel.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2.

“ Qual será o castigo? “

 

image002.jpgA aula estava a correr normalmente e como já era de prever, o Miguel chegou atrasado. A conversa começou a ficar interessante no fim, mas infelizmente teve que se ir embora. O normal era ele contar tudo ao seu melhor amigo e daquela vez não era excepção, por isso desabafou.

- Então e… quando é que me apresentas a miúda? – perguntou o João, num tom de voz curioso – Pode ser que eu e ela nos tornemos outra coisa, já que tu não avanças.

- Nem penses! Ela é minha e só minha. E eu sou muito mais giro. Tu achas que ela, uma gaja linda, ia olhar para um gajo da tua classe!

- Acho, e sabes porquê? Porque o meu cabelo é muito mais bonito e liso que o teu. As raparigas olham logo para o cabelo dos rapazes!

- Esquece meu!

A discussão continuou. Os rapazes debatiam o que é que cada um tinha de melhor e do que é que as raparigas gostavam mais, sem terem a noção que cada vez estavam a falar mais alto. O professor levantou-se da cadeira, pegou no livro de ponto e vociferou:

- Miguel e João, rua!

Toda a turma se manteve calada enquanto os dois rapazes arrumavam os livros, mas os olhares que lhes deitavam diziam mais que mil palavras.

- Chegas atrasado e ainda te metes a falar com o colega. Não sei o que se passa contigo, Miguel. – acrescentou o professor, marcando as faltas – Dá-me a tua caderneta, se fazes favor.

- Então e a do João, professor? – perguntou um aluno que estava no fundo da sala – O Miguel não fala sozinho. Ele não é assim tão maluco!

Todos os alunos se riram da observação do Gaspar. Ele no fundo tinha um pouco de razão.

image003.jpg- Tens razão, Gaspar. Dá-me a tua também, João! – mandou o professor.

Os dois estudantes deram as cadernetas ao professor e sairam, acompanhados por uma auxiliar que o professor tinha chamado. Durante o caminho, os dois rapazes continuaram a discussão que tinham começado na aula. Quando passaram a porta castanha que dava acesso ao pequemo gabinete, o Miguel percebeu que estava metido numa grande alhada. Como é que iria explicar ao pai o sucedido? Ia levar um daqueles ralhetes mesmo maus. “Se calhar é melhor nem ir para casa hoje”, matutava.

Quando saíram de lá era quatro e dez. Estiveram no Gabinete de Apoio ao Aluno durante quarenta e cinco minutos.

Ao sairem da escola o Miguel reparou que o pai estava encostado ao carro a falar com a mãe do João. Eles davam-se verdadeiramente bem; era como ele e o João.

- Olha ali, meu! – pronunciou o Miguel, dando uma cotovelada no braço do amigo – De certeza que a professora que estava connosco no gabinete já ligou.

- Olha, vê lá se te acalmas! – consolou o João, metendo a mão no ombro do amigo - É a primeira vez que vais para o gabinete, por isso o teu pai não te faz nada quase de certeza. Já da minha mãe não posso dizer o mesmo. Ela vai-me comer vivo e isso para não dizer que se ela hoje estiver de mau humor arrisco-me a levar um tabefe à frente desta gente toda.

Os dois rapazes foram andando até aos pais. Ninguém sabia o que lhes ia acontecer. O pai do Miguel despediu-se da mãe do João e entrou no carro acompanhado pelo filho.

- Então o que é que se passou hoje? – perguntou o pai, ligando o carro – Ligaram-me da escola.

image002.jpgO Miguel não tinha escolha e começou a contar tudo ao pai. Durante o caminho, o pai ficava mais espantado. Nem queria acreditar que o filho tinha tido falta por causa de ter estado a conversar com o colega, cujo assunto era uma rapariga.

O Miguel mantinha-se calado a ouvir o ralhete que o pai lhe estava a dar. Estava deserto para chegar a casa, pois pelo menos podia ir para o seu quarto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                            3.

“ Lá se foi a arma de engate “

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O Miguel e o pai entraram em casa e a mãe foi ter com eles. Deu um beijo ao pai e outro ao Miguel.

- Então filho, o que é que se passou? – perguntou a mãe, com ar desassossegado – Aleijaste-te? Ligaram ao teu pai da escola.

- Não mãe, fui para o Gabinete de Apoio ao Aluno!

- Mas isso, não é para onde levam os alunos que se portam mal, Miguel? O que é que tu andaste a fazer? Vais ficar de castigo!

- Calma, eu já falei com ele. Nós só temos de decidir qual vai ser o castigo. – disse o pai – Miguel, vai para o teu quarto fazer os trabalhos de casa. Se quiseres ajuda chama.

O Miguel subiu as escadas, entrou no quarto e começou a tirar os cadernos para fazer os trabalhos de casa. O pai e a mãe tinham ficado na sala a discutir o castigo que haveriam de atribuir-lhe.

- Eu proibia-o de jogar computador. – começou a mãe – Acho que era merecido!

- Não, esse não é o mais apropriado. Temos que ter em conta que também já fomos adolescentes, querida.

- Na nossa altura não nos portavamos assim. Pelo menos eu não.

- Amor, temos que lhe tirar uma coisa de que ele goste muito e o computador não é uma delas. Ele utiliza o computador, mas é para jogar de vez em quando, pois está metade das vezes com o João.

- Então… não brinca mais com o João!

- Não! Não o podemos impedir de conviver, porque isso só lhe ia fazer mal.

- Já sei! – verbalizou a mãe – Eu estou farta de o ver com aquele cabelo. Ele adora o cabelo, por isso…

image003.jpg- Concordo! Vou chamar o Miguel.

O pai chamou pelo filho e este saiu do quarto. Sabia na perfeição que os pais já tinham decidido o castigo.

- Já decidiram? – perguntou, sentando-se no sofá – Demoraram tanto tempo! Vão tirar-me o computador?

         O pai explicou-lhe qual seria o seu castigo. O Miguel ripostou logo:

- Não! Sabem quanto tempo demorou a ter o cabelo assim? Vou deitar tudo por água abaixo. Sempre tive este estilo, não é agora que o vou perder! Esqueçam, isso não faço! Vou para o meu quarto fazer os trabalhos.

- Miguel, não me vires as costas! – vozeou o pai, olhando para o filho a subir as escadas.

- Foi a primeira vez. Por isso é que ando na escola, para aprender! – pronunciou o Miguel, virando-se para trás. – Pode nunca vos ter acontecido, mas a mim aconteceu, pronto!

O Miguel entrou no quarto e trancou a porta. Deitou-se na cama, meteu a cabeça no meio das almofadas e começou a chorar.

O pai foi ter com ele. Bateu à porta e como não teve resposta tentou abri-la, mas sem sucesso. Percebeu logo que estava trancada e lembrou-se que tinha a cópia de todas as chaves da casa numa gaveta. Depois de ter a chave na mão, abriu a porta, batendo ao mesmo tempo:

- Posso entrar? – perguntou.

- Como é que abriste a porta?

- Isso não interessa! Estou aqui para falar um bocadinho contigo.

image002.jpg- Entra! Vamos falar sobre o quê? Se for sobre ir cortar o meu cabelo, esqueçe!

- Também! Tens que entender que o que eu e a tua mãe estamos a fazer é para teu bem, ou seja, para tu não fazeres o mesmo outra vez.

- Não quero saber. Se já disseste tudo o que querias dizer, sai!

image002.jpg- Não me mandas sair e agora acalma-te um bocadinho e ouve-me!

- Vá, fala lá!

- É assim, tu tens que aprender a admitir os teus erros. Não é a dizer não que vais resolver as coisas.

- Arranjem-me outro castigo e acaba-se as confusões!

- Sabes aquele jogo do Benfica, no sábado? Só vais se cortares o cabelo e ponto final!

- Agora deste para a chantagem, foi? E já pensaste em mim? Como é que vou conquistar miúdas sem cabelo? Queres que fique solteiro para o resto da vida?

- Raparigas há muitas e tu só tens treze anos. O teu cabelo tem tempo para crescer. Agora é contigo, jogo ou cabelo? – encerrou o pai. – Quando escolheres o que queres vai à cozinha e diz-me.

Depois de o pai sair, o Miguel limpou as lágrimas e pôs-se a pensar: se escolhe-se o jogo perdia a Anita, pois nenhuma rapariga olhava para rapazes carecas na sua escola, se decidi-se cortar o cabelo podia ir a um fascinante jogo. Após muito considerar, o Miguel decidiu cortar o cabelo. Como o pai lhe tinha dito, raparigas havia muitas e jogos do Benfica vs Sporting raramente. Desceu e disse ao pai a sua escolha. A mãe que também lá estava, ficou muito contente. Ao contrário dos pais, ele ficou um bocado triste, pois ia com certeza, perder a sua famosa arma de engate.

 

 

 

 

4.

“ O famoso jogo “

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Já à frente do estádio de futebol o Miguel, aguardava na longa fila que estava à frente do portão. O pai não tivera tempo de ir com ele cortar o cabelo, e ainda bem!

Ele tentava espreitar pelos buraquinhos que separavam a cabeça das pessoas mas sempre sem sucesso.

- Deve de ser um jogo interessante, não achas filho? – perguntou o pai. – Mas demora muito.

A mãe já estava farta de esperar. Como é que era possivel ir ver um jogo e ficar mais tempo à espera de entrar do que a ver.

De repente o Miguel sentiu um pequeno apalpão no ombro e olhou para ver quem era. Não viu ninguém! Passados alguns segundos, sentiu um novo apalpão e olhou para trás novamente: era o João!

- O que é que estás aqui a fazer, meu? – perguntou o Miguel, embora soubesse a resposta que o amigo lhe iria dar.

- O mesmo que tu – respondeu o João. – O que é que se faz num estádio de futebol? Estou a torcer pelo Sporting. Vais ver, o Benfica vai levar uma abada tão grande que nem sabe onde se enfiar.

- O Sporting? Ganhar!? Sim, sim, vai sonhando! O Benfica vai ganhar este jogo pois é a melhor equipa de todas.

- Quanto é que apostas? – disse o João, estendendo a mão ao amigo. – Eu aposto os meus jogos de carros!

- Eu…eu… - tentava dizer o Miguel, não tendo a certeza se deveria apostar – Eu fico teu empregado durante uma semana. Faço tudo o que quiseres.

- Combinado!

Os dois amigos apertaram as mãos e a aposta ficara feita. Não havia volta a dar!

image002.jpgFinalmente a multidão começou a andar. Foi complicado arranjar lugar, mas lá se desenrascaram. Por insistência do pai, o Miguel teve que se sentar a lado do João, e este aproveitou logo para gozar com ele:

- Amanhã podes começar. Como é fim-de-semana começas às dez.

- Não, não vou começar! Não deites foguetes antes da festa.

Deu-se o apito do árbitro e o jogo começou. A partir desse momento o Miguel não ligou mais ao que o João dizia, pensava apenas no fabuloso jogo a que ia assistir.

 

 

 

 

 

 

 

 

5.

“ A hora da tortura “

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Era Domingo e, para grande supresa de todos, o Sporting ganhou. Ele nem conseguia prever o que o João lhe iria pedir para fazer. O Miguel contou da aposta ao pai.

- Desculpa Miguel, mas hoje não podes ir – disse o pai. – Vais amanhã!

- Porquê, pai? Assim vou ter que ir no próximo Domingo e nesse dia dá os melhores filmes!

- Temos pena, hoje vais cortar o cabelo! Quem é que te mandou fazer a aposta?

- Está bem, pai!

Dizendo isto o Miguel e o pai foram para o carro. Quando estavam prestes a sair da garagem aparece a mãe do Miguel.

- Esperem, eu também vou! – gritou.

A mãe entrou no carro e fez sinal ao pai para arrancar.

- Como é que o vais cortar, filho? – perguntou ela, olhando para trás.

- Eu não o vou cortar! Isto é culpa tua. Por causa de ti é que vou ficar sem raparigas atrás de mim.

- Miguel, já esqueces-te o que falámos? – disse o pai, para o filho não tratar mal a mãe.

Durante todo o caminho o Miguel não disse mais nada. Quando chegou,  lembrou-se de telefonar ao João. Depois de terminar o telefonema onde explicou que não podia ir (sem mencionar que foi cortar o cabelo), entrou na barbearia. O Sr. Tózé não tinha lá ninguém, por isso o Miguel foi o primeiro a ser atendido.

image003.jpgEle conseguia ver os cabelos a cairem para o seu colo e para o chão. Aquilo era uma verdadeira tortura!

Quando o barbeiro acabou, pôs o espelho à frente do Miguel.

- Isto está horrivel! – disse o rapaz, passando com as mãos pelo cabelo. – Onde é que aprendeu a fazer estes cortes horrendos?

- Miguel! – interrompeu o pai. – Que falta de educação é esta? Em casa conversamos! Desculpe Sr. Tózé. Pede desculpa ao senhor, já!

- Desculpe! – disse o Miguel, com ar de poucos amigos.

- Não tem importância! – pronunciou o barbeiro.

O pai pagou e saiu acompanhado pela mãe e pelo filho. Ao chegar ao carro o pai iniciou uma conversa com ele:

- Queres-me explicar o que se passou ali, meu menino?

- Nada, pai! Só estava a ser sincero e a verdade é que aquele barbeiro não presta. Aposto que tenho uma parte maior que a outra!

- Miguel, o Sr. Tózé cortou-te o cabelo bem e eu não admito que digas mal dele. Tu sabes muito bem que o teu cabelo está bem cortado e lá por estares contrariado não quer dizer que digas mal do trabalho das outras pessoas!

- O teu pai tem razão, filho – concordou a mãe, abrindo a porta do carro. – Foste insolente, tens que admitir.

- Eu? Insolente? Eu não fui insolente, eu fui verdadeiro! Se não gosto de alguma coisa digo-a na cara.

- Não quero saber! Agora entra no carro para irmos embora! – mandou o pai.

Durante o caminho a conversa continuou. O pai e a mãe tentaram chamar o Miguel à razão, mas este não cedia e continuava a dizer que apenas fora sincero e nada mais. Ele achava que os pais não entendiam que por causa daquele penteado ele não ia conseguir conquistar as raparigas, sobretudo a Anita.

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6.

image003.jpg“ Apenas o começo “

 

Era o primeiro dia de trabalho do Miguel em casa do João. Ele ainda não acreditava muito bem que o Benfica tivera perdido contra a outra equipa, mas a verdade é que perdeu e não há nada a fazer, por isso o Miguel tem que cumprir a aposta.

Enquanto foram para casa do João, este não parou de gozar com o Miguel:

- Vais fazer um monte de coisas! Eu sabia que o Sporting ia ganhar. O leão vence sempre a águia! Olha lá, o que é que te aconteceu ao cabelo? Só reparei agora, mas estás mesmo cromo, meu!

- O quê? Só reparaste agora? Hoje fui gozado por toda a gente na escola e tu não reparaste! Foi a minha mãe e o meu pai que me obrigaram a ir cortá-lo, ontem!

- Tu ligaste-me, mas não me contás-te esse pequeno promenor.

- Bom, isso não interessa! Tens um daqueles chicotes, como nos filmes?

- Achas? Claro que não! – respondeu o João, olhando para o amigo com cara de gozo. – Eu sei que pareço mau, mas no fundo sou um anjinho, como a minha mãe diz.

- A sério? Se fosses um anjinho esquecias a aposta e eu ia para a minha confortável casinha.

- Nunca na vida! Isto é uma oportunidade única, ter um empregado é o que eu preciso, pois assim não tenho que ser eu a tomar conta das minhas primas e dos meus irmãos.

O João tinha três irmãos, ele era o mais velho e dizia que ter irmãos era chato. O Miguel não concordava, achava que era bom ter com quem brincar na mesma casa; como não tinha irmãos tinha que convidar amigos.

image002.jpgChegaram a casa do João. A mãe do melhor amigo do Miguel veio logo abrir-lhes a porta e, como era muito querida, deu-lhes um beijo na face e mandou-os entrar. Já na sala onde se encontrava a avó do João, uma senhora velhinha com cabelos brancos e algumas rugas, disse para o Miguel:

- Anda comigo, meu filho!

O Miguel seguiu a senhora que andava apoiada numa bengala. Pararam à frente duma pequena dispensa onde estava alguma roupa velha e utensílios que já não se utilizavam.

- Veste esta roupa! Não quero que sujes a tua! – disse a D. Emília. – O João contou-me o que fizeram. Nunca concordei muito bem com isso. Não gosto de apostas.

- Obrigado! – agradeceu o Miguel, vendo a senhora a sair.

Ele vestiu-se (tentando estar sempre na moda), calçou os ténis e saiu. Ao verem-no uma onda de risos invadiu a sala.

- O que é que foi? – disse ele com arrogância. – É impossível estar na moda com estas roupas!

- Não te preocupes!Um escravo não tem que estar na moda. – comentou o João.

- Eu não sou teu escravo, mete isso na cabeça! – ralhou o Miguel – Se me voltas a chamar isso nem sei o que te faço!

- Pronto, já me calei! – finalizou o João.

- Olha, Luana! O rapaz tem os cabelos giros, pena é não serem compridos – comentou a Ana.

- E louros, não te esqueças. Podemos fazer-lhe penteados, mas com alguma dificuldade… - reconheceu a Luana.

- Não faz mal, vamos tentar! – teimou a Ana.

- Tens razão! – finalizou a Luana - Ele não pode dizer que não, porque é apenas um criadito.

image003.jpgA Luana e a Ana eram duas irmãs e também primas do João. A Luana era a mais velha, tinha doze anos, praticava várias modalidades na escola o que lhe dava aspecto de mais velha. A Ana era a mais nova e tinha dez anos, praticava menos desportos que a Luana, mas não deixava de parecer ter bastante força. Elas estavam a passar ali as férias (porque na terra delas a escola estava fechada).

O João ouviu tudo o que as primas disseram e não conseguiu esconder o que sentia, por isso mandou uma gargalhada.

- O que é que queres? – perguntou o Miguel. – Não te chega a vergonha que estou a passar?

- Não quero nada, esquece – justificou-se o João. – Hoje tratas das minhas primas!

- Ok, tu mandas!

As duas irmâs sorriram, ao contrário do Miguel. Ficou a pensar como lidar com duas miúdas mais novas que ele, mas com muita mais força (era o que parecia).

- Bom, eu vou fazer o almoço! – disse a mãe, ajudando a avó – Venha, mãe!

- E eu vou para o escritório! – despediu-se o pai.

- Eu e os meus irmãos vamos jogar futebol! – disse o João, pegando na bola – Boa sorte com as minhas primas!

- Obrigado, João, és muito simpático.

As duas raparigas começaram a agarrar o rapaz mal viram que não estava mais ninguém na sala. No fundo, as raparigas tinham bastante força – também com tanta modalidade quem é que não tinha. O Miguel teve que fazer um grande esforço para se livrar dos puxões que elas davam.

- Parem lá! – mandou ele. – Para onde é que vamos?

image002.jpg- Para o nosso quarto. Nós gostamos muito de brincar às Barbies – informou a Luana. – E tu tens que vir connosco porque estás a tomar conta de nós, não é?

- Sim, têm razão! Vamos lá!

As raparigas levaram o Miguel para o quarto onde estavam a passar as férias.

- Senta-te aqui – aconselhou a Luana. – Pareces cansado. Deve ser da escola.

- Por acaso, – concordou o Miguel, – vou-me sentar. Vocês podem ir brincando.

Quando o Miguel encostou a cabeça e fechou os olhos para descansar a Luana sentou-se ao seu colo.

- O que é que estás a fazer? – questionou o Miguel, tentando levantar-se – Porque é que não me consigo levantar?

- Já alguém te disse que és super giro? – elogiou a rapariga – Relaxa, eu cuido de ti!

- Porque é que a tua irmã me está a amarrar? – continuou a questionar o Miguel, olhando para trás – Estás a fazer tanta força. O que é que andaste a comer, Luana?

- Nada! A minha irmã está a amarrar-te porque nós vamos brincar às Barbies.

- Mas as Barbies estão ali em cima! – disse o Miguel.

- Tu és burro ou fazes-te? – questionou a Ana, levantando-se após dar o último nó no cordel que amarrava o Miguel – Tu és a Barbie.

- Não pode ser! – ripostou o Miguel, tentando desatar-se – Vou gritar!

image003.jpgNesse momento, a Luana tirou um lenço que tinha no bolso.

- Não vais não! – disse ela, pondo o lenço à volta da boca do rapaz – Não te preocupes, eu vou estar aqui ao pé de ti.

image003.jpgO Miguel tinha agora as mãos, os pés presos e a boca tapada. Estava completamente espantado. “Como é que uma rapariga mais nova que eu tem mais força que um rapaz?”, pensava ele, “Deve ser do desporto”.

A Ana tinha saído do quarto e ele tinha ficado a sós com a Luana. Ela era bastante querida para ele até que a conversa dela comecou a ficar estranha.

- Sabes, Miguel, eu já tive muitos namorados, mas nenhum deles era como tu. Tu és giro, simpático e o melhor de ti é o teu cabelo. Eu apaixonei-me por ti e agora vou mostrar-te como isso é verdade.

Ela pôs as maõs no lenço que tapavam a boca do rapaz e tirou-o. Encostou os seus lábios aos dele e beijou-o. O rapaz estava pasmado. A rapariga agarrava-lhe a cara de modo a ele não conseguir tirar a cara. Ela nem suspeitava que ele gostava de outra rapariga.

A Ana chegou e viu o que a Luana estava a fazer.

- Luana, – gritou ela – estás maluca? Pára com isso! Tapa-lhe mas é a boca.

A Luana fez o que a irmã lhe mandou.

- A seguir continuamos… - sussurrou ela ao ouvido do Miguel.

A Ana abriu o guarda-fatos e tirou de lá uma caixa. A Luana deu um beijo na cara do Miguel e murmurou:

- Não te preocupes, não é nada de mal!

 

 

 

 

7.

“ Socorro! “

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Estava tudo a correr bem para as irmãs, e pessimamente para o Miguel. O pobre rapaz ia tendo um ataque cardíaco quando viu a Ana a abrir a caixa que tirara – tinha lá dentro maquilhagem e vernizes. O Miguel tentava gritar, mas com aquele pano a tapar-lhe a boca era impossível alguém ouvi-lo.

- Miguel, o que a minha irmã te vai fazer não custa nada. Eu vou ficar o tempo todo aqui sentada ao teu colo, a dar-te miminhos e coisas do género. – disse a Luana, tentando acalmar o rapaz.

Como é que era possivel o Miguel acalmar-se se, não se conseguia mexer, estava no quarto com duas raparigas com a mesma força dele e… com uma caixa de maquilhagem?

A Luana dava beijos e beijos no rosto do rapaz, enquanto a Ana arranjava uns elásticos.

A operação começou e o trabalho da Ana, porque a Luana nem se levantou para ajudar a irmã, durou cerca de uma hora e meia. O Miguel não conseguia entender como é que ninguém dava pela falta dele.

- Estás lindo, meu amor! – disse a Luana – Espera, tu não estás, tu és lindo!

Ele estava tão diferente: tinha ganchinhos e pequenos elásticos por todo o cabelo, os olhos pintados e blush era o que não faltava!

- Estás lindo, não estás? – perguntou a Luana, metendo-lhe um espelho à frente – Pareces uma bonequinha de loiça!

- Luana, qual verniz é que preferes? – questionou a Ana, tirando dois vernizes da caixa – Vermelho ou preto?

O Miguel nem queria acreditar. Lá que parecia uma boneca parecia. “Isto não me está a acontecer. Tenho uma louca ao meu colo e uma maluca a querer pintar-me as unhas. Deus me ajude!”

image003.jpg- Vais-lhe pintar as unhas, Ana?

- Luana, para ele ser uma bonequinha de loiça só falta as unhas pintadas! Vá lá, ele não se zanga contigo, ele até vai gostar mais de ti, vais ver!

- Tens razão, mana! Vamos lá a isto!

A Ana pegou no verniz preto (que foi o que a Luana acabou por escolher) e começou a pintar-lhe as unhas. Depois de acabar exclamou:

- Ele está maravilhoso, Luana! Só falta um pormenor.

- O quê? – perguntou a Luana, não percebendo – Não faltava só as unhas?

- Sim, mas veio-me outra coisa à cabeça!

O Miguel até estava com medo das ideias que podiam sair da cabeça da tonta da Ana.

- Mas o quê, mana? – continuava a perguntar a Luana.

- Falta-lhe a roupa de bonequinha, não concordas?

- Não! Acho que o deviamos soltar antes que arranjemos problemas.

- Tens razão! Solta-o!

A Luana soltou-o com o maior dos cuidados. Mal sentiu o último cordel a ser desatado, o Miguel mandou um puxão na cadeira e saiu do quarto.

- Socorro! Ajudem-me! – gritava ele no corredor.

A mãe do João ao ouvir isto saiu da cozinha acompanhada pela avó.

- O que é que se passou, Miguel? – perguntou ela, com ar preocupado – Estás todo pintado!

De repente entra o João, que ao ver o amigo daquela forma desata a rir.

image002.jpg- Onde é que tu andás-te, meu? Pareces uma bonequinha de loiça toda branquinha!

- Cala-te, João! – mandou a mãe – Explica lá o que é que te aconteceu!

O Miguel explicou tudo o que aconteceu no quarto das irmãs. Quando acabou, o João mandou uma pequena gargalhada.

- A Luana beijou-te? Não acredito! Eu acho que ela nunca beijou ninguém.

- Eu não acredito nisto. - disse a mãe – Além de te pintarem todo, beijaram-te!

- Meu, isso foi demais! – gozou o João, pondo a mão no ombro do amigo – Eu não queria estar na tua pele nessa altura!

- Posso tomar banho cá? – pediu o Miguel – Tem acetona, se faz favor?

- Claro que podes cá tomar banho! Eu vou ligar ao teu pai para o avisar, mas agora vamos conversar com a Luana e com a Ana sobre o sucedido.

O Miguel e a mãe do João foram até ao quarto onde estavam as irmãs. A Luana estava triste, pois viu que o seu beijo não foi importante para o Miguel, ao contrário da Ana, que estava com uma expressão de satisfação.

- Meninas, querem-me explicar o que é que aconteceu? – interrogou a mãe.

- Nada, não aconteceu nada, tia! – respondeu a Ana, tentando disfarçar a gargalhada que queria mandar.

- Então podes-me explicar porque é que o Miguel está todo pintado?

- Ele quis-se transformar numa menina e então foi-se pintar. – gozou a Ana.

- E tu, Luana? Qual é a tua versão?

image003.jpg- A minha irmã está a mentir como se pode ver. – admitiu a Luana – Já deve saber da história toda e do que eu fiz. Bom, eu não vou estar a desmentir, por isso, tudo o que o Miguel disse é verdade. Eu não sei o que me deu para beija-lo. Desculpa, Miguel!

- Gostei do teu pedido de desculpas, mas o Miguel é que sabe se te quer desculpar. Miguel?

- Claro que desculpo! – exclamou o Miguel – Também, quem é que resiste ao meu charme? Dá cá um abraço, Luana!

Os dois abraçaram-se. A Ana acabou por admitir, mas foi bastante complicado.

Algum tempo depois, o Miguel foi tomar banho. Ele e a Luana acabaram por ficar amigos.