Nas tramas da cultura financeira por Diego Araujo Azzi - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub para obter uma versão completa.

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO

NAS TRAMAS DA CULTURA

FINANCEIRA

Doutorando: Diego Araujo Azzi

n. USP: 3126232

Orientadora da Tese: Maria Célia Pinheiro Machado Paoli

São Paulo, 2013

NAS TRAMAS DA CULTURA FINANCEIRA

SUMÁRIO

Agradecimentos............................................................................................................................5

Resumo | Abstract..........................................................................................................................6

Apresentação.................................................................................................................................7

CAPÍTULO I – Grandes transformações da cultura econômica

1. O valor social do dever e o valor monetário da dívida.....................................................16

1.1 A autonomização dos produtos da cultura......................................................................24

1.2 Centralidade do indivíduo e disseminação dos riscos....................................................26

CAPÍTULO II – A emergência da oîkonomia individual

2. Individualização e estilo de vida........................................................................................34

2.1 Generalização financeira e mercantilização do risco.......................................................41

2.2 Vivendo numa economia política da incerteza................................................................47

CAPÍTULO III – Fiat Pecuniam!

3. Uma nova configuração de poder.....................................................................................52

3.1 A dívida brasileira no salto rumo à financeirização.......................................................61

3.2 Hegemonia neoliberal e a gestão das desigualdades......................................................78

CAPÍTULO IV– Dívida, uma forma de dominação política

4. Espaço dos movimentos sociais, repertório de ação e o campo financeiro.......................91

4.1 Jubileu: raízes teológicas de um movimento internacional contra a dominação

financeira..............................................................................................................................101

2

4.2 Processo de organização, conflito interno e construção de identidade..........................105

CAPÍTULO V – Contestação social da dívida no Brasil

5. Jubileu Brasil e a luta contra a dívida “inexistente”…………….....................................134

5.1 A frustrada experiência da CPI da dívida no Brasil........................................................151

5.2 Experiências distintas sobre a dívida na América Latina: Brasil e

Equador.................................................................................................................................157

CAPÍTULO VI – Considerações Finais

6. Discrepância financeira e a fragilização da democracia hoje.......................................167

6.1 O movimento oculto e a zona proibida.........................................................................182

Bibliografia................................................................................................................................188

Anexos........................................................................................................................................209

Entrevistas transcritas.............................................................................................................211

3

4

Agradecimentos

...E não é que quando nos damos conta já se passaram mais de quatro anos desde o

início do Doutorado! É bastante tempo e nesse período foram muitas as pessoas que ajudaram a

construir esta Tese, para as quais eu só posso dizer sinceramente: muito obrigado. Correndo um

sério risco de deixar gente importante de fora por puro esquecimento, gostaria de agradecer

particularmente:

Aos funcionários do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da USP, pela atenção e

auxílio sempre fundamentais e sem os quais nada funciona.

À CAPES, que me concedeu a Bolsa de estudos no exterior, uma experiência intelectual e

humana inesquecível.

À professora Isabelle Sommier (CESSP-CPRS, Sorbonne Paris I) que me recebeu na França e

abriu caminhos sociológicos até então inexplorados, que me fizeram conhecer outras formas de

observar os mesmos objetos sociais.

Aos colegas do GELS (Groupe d’Études Latino-américains de la Sorbonne), pelos debates,

ideias, sugestões à pesquisa, e por lerem com muito boa vontade um artigo prévio desta tese

escrito em francês de qualidade duvidosa. Aqui, um agradecimento especial a Michael Barbut,

pelas generosas revisões.

A Christophe Aguiton, pela ‘amitié camarade’ que me ajudou a chegar à Sorbonne e pelo

instigante curso sobre novas tecnologias e mobilização social.

A Rafael Freire e a João Felício, chefes compreensivos que em diferentes momentos durante os

últimos quatro anos, me permitiram a flexibilidade necessária para conciliar trabalho e

pesquisa.

À Rosilene Wansetto, pela confiança com que me facilitou acesso ao Jubileu Sul Brasil.

A Sylvain Barré e Giovana Pastore; Ana Flávia e Sofiane Faci e todos os amigos queridos que

a bolsa-sanduíche em Paris trouxe para ficar.

Ao querido Bilé, que na minha ausência cuidou de minha mãe como se fosse a dele.

À Ju e ao Dani, à Claudia e à Fe, que durante o período de vida em Paris cuidaram da Fulô e

da Pança como se fosse deles.

À minha mãe, leitora e revisora, sem a qual nada disso teria sido possível.

À Jo, meu amor, que embarcou nessa aventura ainda nos tempos de mestrado e que faz tudo

ficar mais fácil, e mais bonito.

À Maria Célia, que mesmo em meio a dificuldades, nunca deixou de abrir a porta, os braços e

me receber para conversas sempre inspiradoras.

E, por fim, a todos os amigos que entenderam que às vezes era melhor não perguntar nada

sobre o andamento da pesquisa!

5

Resumo

Esta tese apresenta uma interpretação sociológica de alguns aspectos das relações entre

economia e sociedade hoje. Baseando-se tanto em referências clássicas quanto em

contemporâneas, o texto trata das evoluções recentes da cultura financeira e aponta sua

crescente discrepância, com consequências sobre o exercício da democracia. Neste

contexto, a dinâmica conflitiva entre campo econômico e espaço dos movimentos

sociais é abordada tendo como estudo de caso a rede internacional Jubileu de luta contra

a dívida, com atenção particular ao seu capítulo brasileiro.

Palavras-chave: Política; Neoliberalismo; Dívida; Movimentos Sociais; Democracia.

Abstract

This work presents a sociological interpretation about some aspects of the relations

amongst the economy and society in the present days. Based on both classical and

contemporary literature, the text analyses recent evolutions in the financial culture,

pointing out to its increasing discrepancy, with consequences over the exercise of

democracy. In this context, the dynamic conflict amongst the economic field and the

social movements’ space is approached, having the Jubilee network against debt as a

case study, with focus on its Brazilian chapter.

Key-words: Politics; Neoliberalism; Debt; Social Movements; Democracy.

6

Apresentação

A reflexão que segue nestas páginas é o resultado de um sinuoso processo de

pesquisa. Sinuoso porque de fato percorreu muitas curvas e alguns desvios de rota. As

grandes retas da certeza foram poucas, mas, olhando para trás, creio que abriram boas

pistas. Duas questões são fundamentais para a trajetória sinuosa da pesquisa: a primeira

é que o próprio tema inicialmente proposto era outro, direcionado ao estudo das

interações contemporâneas entre sindicatos e mercado financeiro através de fundos de

pensão. Ao tomar a decisão de mudar o recorte, já um ano e meio de percurso

caminhado, muito de tempo e acúmulo de pesquisa inevitavelmente se perdeu.

A segunda questão que contribui com esse percurso impreciso deriva da própria

natureza do objeto: ao escolher pesquisar o capitalismo financeiro contemporâneo, me

coloquei na difícil posição de analista do tempo presente, o que, nos últimos anos,

significou uma avalanche de acontecimentos e informações importantes para esta

pesquisa.

Sempre soube que o que me interessava era em linhas gerais a relação entre

economia e sociedade, mais particularmente a relação entre política e esfera financeira

hoje. Essa relação, pela sua complexidade e importância, pode ser abordada a partir de

vários recortes: seja sobre a atuação governamental; a estrutura do direito que

(des)regula as finanças; as instituições financeiras globais; o sistema bancário; enfim,

uma pluralidade de ângulos possíveis, cada um com sua legitimidade epistemológica

particular.

7

Dentre esta multiplicidade de recortes possíveis, optei então por explorar o

universo das finanças através do ângulo da contestação social. Inicialmente, a ideia era

verificar as possibilidades de subversão da lógica financeira pelos sindicatos, através de

uma atuação “progressista” nos fundos de pensão, que, na literatura sobre o tema, é

chamada de “ativismo acionista”. O principal motivo da mudança de rumo foi – como já

comentado no Relatório de Qualificação –, a divulgação de outras pesquisas (que

resultaram em livros amplamente celebrados) bastante semelhantes e exaustivas sobre o

tema.

No íntimo da minha reflexão, percebi também que a minha hipótese original de

uma política virtuosa dos sindicatos por dentro das finanças não seria confirmada no

Brasil, limitando-se a algumas exemplares experiências nos EUA e Europa do Norte –

ainda assim, no período pré-crise de 2008.

O que se pode extrair da literatura hoje existente sobre o tema é que a inserção

dos trabalhadores na lógica do capitalismo acionário (substituição de direitos por

participação na renda financeira) de fato atualmente prevalece sobre a minha hipótese

do ativismo acionista (politização das finanças utilizando de forma alternativa seus

próprios mecanismos financeiros, como os fundos de pensão).

Quando decidi por uma mudança de rumo na pesquisa, optei por permanecer no

mesmo grande campo de estudo, ou seja, as relações entre política e esfera financeira.

Este tema perpassa a tese do início ao fim, aparecendo com mais ênfase e detalhe nos

capítulos I, II e III. Mantive também a opção pela abordagem a partir de um ângulo que

privilegiasse a contestação social das finanças, com um enfoque sobre movimentos

sociais que marca, sobretudo, os capítulos IV e V.

8

Cheguei a pensar em analisar a atuação de movimentos sociais pela taxação das

transações financeiras, como a ATTAC, mas logo de cara me deparei com um campo de

debate acadêmico e militante já bastante saturado, o que, somado ao fato de que no

Brasil esta rede praticamente deixou de existir, me desmotivaram a seguir nessa direção.

Incorporei na presente discussão, no entanto, algo da vasta bibliografia sobre as finanças

produzida por esta rede e, durante a estadia na França1, entrevistei militantes históricos

como Christophe Aguiton e Gustave Massiah.

Recordando um pouco do que eu havia pesquisado e vivenciado durante o

Mestrado, quando estudei a emergência, apogeu e declínio dos chamados movimentos

antiglobalização, tive então a ideia de pesquisar outra rede social de contestação das

finanças, chamada Jubileu, e que tem presença ativa no Brasil hoje.

O movimento Jubileu aborda a questão das finanças pelo ângulo da discussão

sobre o problema do endividamento, o que, ao longo do tempo desta Tese, foi algo que

se mostrou cada vez mais interessante para análise do contexto financeiro atual, e

especialmente para interpretar a sua expressão no Brasil. Isto porque, como afirmou um

dos entrevistados dessa pesquisa, o Deputado Federal Ivan Valente (PSOL-SP),

A dívida pública é o nó do modelo de desenvolvimento brasileiro. Ela explica porque o Brasil

tem a maior taxa de juros do mundo, ou seja, porque temos que atrair capital ao país pagando

uma taxa de juros exorbitante através da emissão de títulos da dívida pública no mercado

financeiro.

1 De março de 2011 a fevereiro de 2012 tive a oportunidade de passar um ano como pesquisador visitante

no Centre Européen de Sociologie et Science Politique de la Sorbonne (CEESSP), onde, entre outras

coisas, acompanhei os Seminários de Pesquisa da professora Isabelle Sommier e participei ativamente do

Groupe d’Études Latino-américains de la Sorbonne (GELS), ao qual um artigo embrionário da tese foi

apresentado em Janeiro de 2012.

9

Esta tese é escrita em um período da história recente marcado por dois grandes

movimentos na economia: por um lado, a crescente financeirização e individualização

da economia e, por outro lado, as recorrentes crises financeiras que vêm ocorrendo, pelo

menos, durante os últimos 30 anos. Se nos pautarmos pelos últimos cinco anos temos a

impressão de vivermos uma crise financeira permanente, que apenas muda de uma parte

para outra do planeta.

No entanto, cerca de vinte anos antes do presente momento, o campo intelectual

dominante na área econômica celebrava a obra de Francis Fukuyama, O Fim da

História e o último Homem 2, apontando o futuro da humanidade como inevitavelmente

fadado ao neoliberalismo, ao triunfo do poder dos livres-mercados sobre os Estados e,

em última instância, sobre a política.

No capitalismo contemporâneo, porém, as mudanças acontecem mais rápido do

que nunca antes, e a financeirização extrema das relações econômicas inflou e estourou

bolhas envolvendo países do centro e da periferia do sistema. Como consequência, a

credibilidade das teses representadas por Fukuyama foi severamente abalada.

Neste sentido, significa dizer que foi a própria crise do sistema que reabriu o

debate sobre as fundações da esfera financeira atual. Debate este que durante os anos

1990 fora colocado na berlinda,quando o questionamento político-intelectual da esfera

financeira passou a ser um tabu que poucos ousaram enfrentar abertamente3. No Brasil,

em 1999, Francisco de Oliveira denominaria este tabu discursivo como a expressão de

um “totalitarismo neoliberal”.

2 F. Fukuyama. O fim da história e o último homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

3 Neste sentido, autores como Francisco de Oliveira, José Luis Fiori, Emir Sader e Paulo Arantes se

destacam no cenário crítico nacional.

10

As crises financeiras ocorridas a partir dos anos 1990, longe de serem muito

diferentes dos “clássicos” problemas de endividamento que marcaram crises em

períodos anteriores, estão ligadas à própria dinâmica de funcionamento que adquiriram

os mercados financeiros (Raffinot, 2008:87) e aos objetivos que estes “naturalmente”

perseguem. Como aponta André Lévy-Lang, a financeirização da economia ocorrida a

partir dos anos 1970 envolve um importante componente de risco para o conjunto da

sociedade e “toda reflexão sobre as finanças coloca a questão da repartição dos riscos na

sociedade: quem é afetado por quais riscos e a qual preço?”

A matéria-prima das finanças é o dinheiro, com suas três dimensões: o risco, o tempo e o espaço.

(...) As finanças tem por objeto a gestão de uma ou de várias dessas três dimensões. Assim, a

taxa de juros é explicada como um preço do dinheiro em duas dimensões, preço relativo ao

tempo e preço relativo ao risco (2006:12-13;27; grifo nosso).

A inquietação de fundo que move esta reflexão tem origem num duplo

incômodo: por um lado, penso que hoje há um mal-estar na relação atual entre

economia e sociedade que a sociologia deve ajudar a interpretar e por outro lado,

vinculado a isso, há um mal-estar nas relações entre democracia e sociedade que

também permeia esta reflexão.

Ao longo do texto este incômodo nos levará a indagar as origens da

desproporcional financeirização da economia atual e a centralidade assumida pelo

rentismo; suas consequências políticas (ou seja, na distribuição do poder e acomodação

dos interesses) e o profundo impacto que tem sobre a vida das pessoas comuns. A

constatação da financeirização a que me refiro, ou o descolamento da esfera financeira

11

index-12_1.jpg

com relação ao restante da produção social de bens e serviços, não é uma visão

politizada deste pesquisador; ao contrário, ela é demonstrável em números.

Se durante os anos 1970, 90% das transações financeiras mundiais eram ainda de

alguma forma vinculadas à economia real, em 1995, no entanto, 95% eram de natureza

puramente especulativa (80% com uma rentabilidade conseguida durante uma semana

ou até menos)4. A capitalização dos mercados de ações mais do que dobrou desde

20025, fomentada por uma cultura econômica hoje dominante que propõe que ao invés

de acabar com os rentistas, todo mundo pode agora se tornar um rentista6.

O gráfico a seguir ilustra a mesma relação a partir de outro indicador, o

montante dos ativos financeiros mundiais em porcentagem do PIB mundial7.

Montante dos ativos financeiros mundiais em porcentagem do PIB mundial

4 N. Chomski. Jubilé 2000. ZNet, May 15, 1998.

5 L. Jouven. La planète des créanciers. In : Alternatives Économiques. Hors-série n. 91, p. 49, 1er

trimestre de 2012.

6 D. Graeber. Debt: the first 5.000 years. Melville House Publishing, New York, p. 376, 2011.

7 Extraído de Chesnais, François. Les dettes illégitimes. Éditions Raisons d’Agir, Paris, 2011.

12

Através de um processo que aqui chamarei de generalização financeira, as

pessoas comuns têm sido levadas cada vez mais a entrarem no mundo das finanças seja

através da prática do rentismo no mercado financeiro, seja pela obtenção de créditos

fáceis; de planos de previdência privada; de seguros de todo tipo; ou pelo simples fato

de serem incentivadas a abrir uma conta num banco.

A esfera financeira tem sido cada vez menos um assunto restrito a empresários,

economistas e banqueiros, mas esta suposta “democratização das finanças” significa de

fato que muitas pessoas despreparadas e mal informadas estão entrando em um “jogo de

risco”, no qual podem vir a perder tudo, como aconteceu na crise dos títulos Subprime 8

nos EUA e continua a acontecer nos países do sul da Europa.

Mais do que ser uma solução de crédito necessário para investimentos

produtivos – a sua face “positiva”9 –, é importante frisar que a esfera financeira pode

frequentemente ser socialmente danosa e economicamente devastadora. A história do

capitalismo moderno mostra que, na ausência de regulação e supervisão, mercados

financeiros tendem a fomentar excessivamente a tomada de riscos, o que

periodicamente explode em crises violentas.

Em mercados financeiros crescentemente interconectados e mutuamente

dependentes – mercados globais, como os que temos hoje – todas as pessoas são

atingidas em maior ou menor grau, direta ou indiretamente, por uma forte crise

8 Subprime significa algo como “abaixo dos melhores” (Singer, 2008:2)

9 O efeito positivo do financiamento à produção real também deve ser ressaltado. “Quando todos os

bancos, no afã de ganhar mais, ampliam os empréstimos a agentes da economia real, os depósitos de

todos eles aumentam. O efeito importante é sobre a economia real, que se expande na medida em que os

investimentos crescem, o que ocasiona a ampliação do emprego, da produção e do consumo. A expansão

da economia real se auto-alimenta na medida em que desempregados conseguem trabalho, os gastos do

público aumentam, o que suscita mais investimentos, mais emprego e mais produção”. Cf. Singer,

2008:2.

13

financeira. Isto ficou claro, já em 1998, na sequência de impactos da crise asiática,

passando pela crise russa, pela crise brasileira, até culminar no crack argentino de 2001,

com o caos social que sabemos (Carvalho-Kregel, 2007:5).

Exatamente 10 anos depois, observa-se na sequência da crise dos subprime

americanos um encadeamento estendendo-se à crise grega e de toda a zona do euro,

incluindo aí também Portugal, Espanha, Itália, Irlanda, Islândia e a mais recente crise

em Chipre, na qual simplesmente as pessoas comuns tiveram suas poupanças

confiscadas em cerca de 15% para pagar o socorro aos bancos.

Da especulação sobre as tulipas na Holanda entre 1630 e 1636 até a explosão da

bolha da Internet em 1999-2000 e a recente crise dos títulos subprimes, autores como

Xavier Molénat identificam que há um mesmo ecadeamento: inovação financeira,

generalização de seu uso e, após o auge da crise, retorno a formas de controle. Mas se

anteriormente as inovações financeiras visavam facilitar uma atividade na esfera real,

aumentando o financiamento à produção, as inovações que agora estão no coração da

crise iniciada em 2008 tem como especificidade serem puras, no sentido de que não

visam nada mais do que facilitar a própria atividade financeira.

Isto tudo – outra novidade do momento atual –, graças à performance de novas

abordagens matemático-financeiras, das quais as hipóteses e modelos se tornaram os

guias orientadores para a ação dos agentes financeiros. “Esta vestimenta científica

contribuiu sem dúvida para instaurar, mesmo junto às instâncias públicas, a crença na

eficiência dos mercados, que se deveria então deixar auto-regular” (Molénat, 8:2009).

O contexto da discussão que será desenvolvida aqui é, portanto, o da extrema

ascensão da esfera financeira sobre outras dimensões da economia como a conhecíamos

desde pelo menos o século XV, mas também sobre diversos aspectos da sociabilidade

14

humana contemporânea, numa radicalização da experiência de vida capitalista. Como

veremos, esta radicalização exacerba aspectos já presentes na Modernidade, como a

tendência ao individualismo, enquanto resignifica outros, como a relação das pessoas

com diversas formas, situações e posições de risco.

Desenvolvendo estas grandes linhas aqui esboçadas, esta tese buscará articular o

percurso da financeirização da economia com mobilizações sociais de contestação às

finanças, particularmente a rede Jubileu, interrogando-nos sobre o que isto pode dizer

sobre política e democracia hoje.

Diego Azzi

São Paulo, maio de 2013

15

CAPÍTULO I

Grandes transformações da cultura econômica

O valor social do dever e o valor monetário da dívida

Tentar entender como chegamos ao momento econômico atual tem sido o foco

do esforço de um grande número de autores, tanto das ciências humanas, quanto da

história e da economia. A mudança do panorama econômico mundial nas últimas

décadas abriu novas questões e desafios interpretativos, ao mesmo tempo em que

relativizou algumas antigas certezas. A discussão proposta nesta tese se inspira

largamente em autores contemporâneos que ainda não têm as respostas para todas as

questões, mas que certamente estão se fazendo muitas perguntas na tentativa de

encontra-las.

Como o atento leitor ou leitora fatalmente notará ao longo destas páginas, a

bibliografia mobilizada para interpretar o momento contemporâneo é ela também

bastante atual, isto é, composta majoritariamente por obras publicadas a partir dos anos

2000. Não significa que clássicos das ciências sociais nada tenham a dizer sobre o

momento presente. Pelo contrário, da base assentada por eles é que lançamos o nosso

olhar e, neste sentido, o pensamento de Simmel e Hannha Arendt tem aqui uma

presença marcante.

Uma das mais relevantes dentre as recentes contribuições das ciências sociais à

literatura sobre a economia dos nossos tempos vem de David Graeber, antropólogo

norte-americano, que se propõe a realizar uma “antropologia da dívida” em seu

excelente livro “Dívida: os primeiros 5.000 anos” . Diversas das pistas lançadas nesta

16

obra serão úteis para nos ajudar a entender o que representa a instituição social “dívida”

na história das relações humanas e como chegamos ao momento atual no qual ela

assume uma importância política ímpar.

A primeira grande “virada” interpretativa que a antropologia ou a sociologia

podem realizar ao abordar este tema tem relação com certas concepções da economia

neoclássica e ao que se denomina como “o mito do escambo” smithiano. Nessa espécie

de mito fundador, quando os economistas falam das origens do dinheiro, a noção de

dívida é sempre uma espécie de ideia secundária, um subproduto colateral. No modelo

até hoje consagrado por Adam Smith, primeiro vem o escambo, depois o dinheiro; o

crédito propriamente dito (e, portanto, a dívida) se desenvolve apenas mais tarde.

O problema antropológico que se coloca ao examinarmos esta proposição nos

últimos 5.000 anos de história – e daí a sua crítica como sendo de fato um mito10 – é

que não existe indício algum de que este mundo fantasioso do escambo realmente tenha

existido, e, menos ainda, de que de uma sociedade estável na qual ‘John troca vinte

galinhas por uma vaca com Joshua’ tenha se derivado uma economia monetária baseada

no dinheiro como um mero simplificador das diversas operações de escambo, as quais,

ao se complexificarem, se tornariam demasiado trabalhosas.

Esta é também a crítica de Bruni e Zamagni (2007)11, para quem os elementos

fundamentais do mundo da vida, como “a caridade, a reciprocidade e a dádiva” são

centrais na história da formação dos mercados modernos, rejeitando as teses de que o

10 Mito.

mi.to1

sm ( gr mythos) 1 Fábula que relata a história dos deuses, semideuses e heróis da Antiguidade pagã. 2 Interpretação primitiva e ingênua do mundo e de sua origem. 3 Tradição que, sob forma alegórica,

deixa entrever um fato natural, histórico ou filosófico. 4 Exposição simbólica de um fato. 5 Coisa

inacreditável. 6 Enigma. 7 Utopia. 8 Pessoa ou coisa incompreensível. Fonte: Dicionário Michaelis da

Língua portuguesa. Referimo-nos aqui a este termo sobretudo nas suas segunda, quinta e sétima acepções.

11 Apud Abramovay, 2009:83.

17

nascimento da economia moderna é marcado exclusivamente pelas trocas impessoais,

anônimas, desprovidas de vínculos comunitários e funcionando tanto melhor “quanto

menos contaminadas pela política, pela ética ou pela moral”.

Não é difícil, porém, encontrar desde as antigas formações sociais da

Mesopotâmia e do Egito (já a partir de 3.200 a. C.) evidências históricas de sociedades,

nos mais diferentes períodos, em que as pessoas estão endividadas de uma série de

maneiras em relação a uma série de outras pessoas (Graeber, 2011:21-23;29; 2012:29-

31). Contrariamente às representações correntes e ao que pode sugerir o nosso senso

comum, a dívida, enquanto um dever para com outros, não é algo derivado do dinheiro.

Os sistemas de crédito e o endividamento vieram primeiro, a moeda só aparece milhares

de anos mais tarde.

Jacques Adda (2012 :14, grifo nosso) chama a atenção para o lugar propriamente

social ocupado pela dívida desde a Antiguidade: “ela estava no coração das relações de

troca e, mais fundamentalmente, das relações sociais, muito antes que as primeiras

moedas aparecessem. (...) Antes de invadir a esfera das trocas, a dívida tem sua origem

na obrigação moral. Ela é reconhecimento, no duplo sentido de reconhecer e ter

reconhecido um dever”.

Assim entendidas, isto é, como o reconhecimento de um dever moral12, dívidas

poderiam se tornar uma verdadeira armadilha social frente ao poder soberano de cada

época (Graeber, 2012:29-31), levando famílias a perderem seus rebanhos, seus campos

cultivados e, não muito tempo depois, também as esposas e os filhos seriam levados

como “escravos por dívidas”. Aos ouvidos brasileiros nada disso soa como grande

12 No contexto da Antiguidade, tanto em sânscrito, quanto em hebreu e aramaico, as palavras “dívida”,

“culpa” e “pecado” são na realidade a mesma palavra (cf. Graeber, 2012).

18

novidade, nem como formas de relação social perdidas num passado longínquo e

arcaico.

Nossa formação histórica, marcada por experiências como o colonialismo, o

coronelismo e a cordialidade, está até hoje fartamente permeada por relações sociais

baseadas em trocas de favor. Estes favores, que podem ou não envolver pagamento em

dinheiro, acarretam geralmente uma dívida moral.

Nesta perspectiva analítica, a história monetária que aprendemos nas

universidades estaria escrita precisamente de trás para frente. Nós não começamos com

o escambo, descobrimos o dinheiro e depois eventualmente desenvolvemos o sistema de

crédito. O ponto da crítica em Graeber (op.cit.:40) é argumentar que aconteceu

exatamente o contrário.

O que nós hoje chamamos de “dinheiro virtual”, ou crédito, de fato veio

primeiro em relação ao dinheiro físico. O escambo, por sua vez, parece ser amplamente

um tipo de subproduto acidental do uso de moedas ou dinheiro de papel: historicamente,

tem sido principalmente o que as pessoas que estão habituadas a utilizar dinheiro fazem

quando, por uma razão ou por outra, elas não tem acesso a dinheiro em determinada

situação.

A diferença entre uma dívida e uma mera obrigação moral ou um favor é que o

credor pode quantificar exatamente quanto o devedor deve (idem, 2011:13-4), o que

antes, no plano da moral, era uma relação social em grande medida qualitativa. A dívida

é uma obrigação a ser paga com dinheiro, mas o que ocorre se o devedor não dispõe de

dinheiro para pagá-la?

Enquanto um dever moral, ela pode ser paga com um favor, com o escambo de

bens ou serviços. Mas, no limite extremo, uma dívida pode revelar toda a sua dimensão

19

de relação assimétrica de poder, e então o credor poderá exigir que ela seja paga com

uma mercadoria de tipo especial: pessoas, seja na forma de trabalhadores, trabalhadores

domésticos, escravos, escravos sexuais, etc.

Em cada contexto histórico, diferentes sociedades lidaram à sua maneira com o

problema da escravidão por dívidas, que em última instância sempre teve um potencial

de causar rupturas sociais quando praticada ao extremo pelos credores, pela justiça, ou

pelo poder soberano.

Para eviar que as dívidas não pagas em dinheiro resultassem em relações eternas

de escravidão, os Mesopotâmios da Antiguidade, por exemplo, periodicamente

apagavam os registros de dívidas das tábuas de ardósia em que mantinham o controle

das contas. Historicamente tiveram a mesma função de manutenção da coesão social os

jubileus bíblicos e as leis medievais contra a usura, presentes seja no cristianismo ou

seja no islamismo.

A progressiva passagem da dívida moral, o dever, para a dívida pecuniária,

necessariamente paga em dinheiro (mas que não deixa de ter também sua carga moral),

pode parecer trivial, mas é responsável por uma crucial transformação de fundo da

noção de dívida: ela permite que a dívida seja simples, fria e impessoal. Isto, por sua

vez, possibilita que ela seja transferível. Com a invenção e disseminação do uso do

dinheiro, a possibilidade de se transferir uma dívida para outras pessoas será

fundamental para os desenvolvimentos posteriores da cultura econômica.

Na cultura do dever, se alguém deve um favor ou até a própria vida a alguém,

isso é devido àquela pessoa especificamente e a mais ninguém. Com a entrada em cena

do dinheiro, não. Ele tem a capacidade de transformar o dever moral em uma relação

social impessoal e com valor exatamente quantificado: a dívida.

20

A ampliação do uso do dinheiro contribuirá decisivamente para impessoalidade

das relações sociais, característica da modernidade. “Com as revoluções americana e

francesa13, no fim do séc. XVIII a modernidade emerge sob o signo da igualdade e da

desnaturalização das desigualdades dadas pelo nascimento” (Keinert, 2005:43), dando

as condições para a origem da esfera do social, das desigualdades sociais como tema

[impessoal] da política (Arendt, 1963). Num registro simmeliano, Frisby (1990:172)

também evoca a impessoalidade das inter-relçaões da Modernidade, uma época na qual

a economia monetária parece criar novas dependências, especialmente com relação a terceiros,

mas não como pessoas, mas como representantes de funções. Aqui as [antigas] dependências

pessoais são trocadas por outras, impessoais, [decorrentes da circulação do dinheiro].

Georg Simmel é certamente um dos pais da sociologia moderna, ainda que não

seja o mais famoso, se destacando como um dos mais criativos e ousados nomes da

intelectualidade alemã da virada do séc. XIX para o séc. XX. Sua análise fluida, livre de

estruturalismos e focada nos processos sociais da cultura pode não servir para alguns

analistas críticos que primam pelo objetivismo ou para aqueles em busca de um guia

para a ação. Para a nossa discussão, contudo, sua obra se mostrou de grande relevância

e, além disso, foi um belo “diálogo” intelectual.

Se em nossa Apresentação falamos da financeirização da economia como uma

marca do momento contemporâneo, é preciso notar aqui que já vigorava desde a entrada

na Modernidade certa “essência contábil da época” , diagnosticada por Georg Simmel14

na virada do séc. XIX para o séc. XX (Waizbort, 2000:164). Trata-se de uma

transformação da cultura econômica, das relações entre economia e sociedade. Isso se

13Na realidade, em Sobre a Revolução, Arendt refere-se não somente às experiências destas duas

revoluções, mas também aos conselhos revolucionários da Comuna de Paris de 1871, aos soviets da

Revolução Russa de 1917 e da Revolução Húngara de 1956.

14 G. Simmel . Philosophie des Geldes, 1900.

21

reflete, é claro, no plano das relações interpessoais. No mundo secularizado e moderno,

a moralidade nas relações interpessoais consiste grandemente em cumprir nossas

obrigações com os outros, e “temos a teimosa tendência de enxergar estas obrigações

como dívidas” (Graeber, op.cit.:13), em grande parte devido ao fato de vivermos sob a

égide de uma cultura do dinheiro.

Se aceitarmos então que a dívida enquanto um dever contável surge ao mesmo

tempo em que o dinheiro, ela também é uma objetivação da cultura subjetiva dos

indivíduos (ao modo da abordagem de Simmel), e, assim sendo, também é histórica e

contextualizada segundo a época e a sociedade em questão. A dívida é uma instituição

social que evolui ao longo da história, acompanhando em grande medida as mudanças

da forma dinheiro.

Ao tornar possível a divisão da produção [ou do trabalho], o dinheiro inevitavelmente junta as

pessoas, pois agora cada um está trabalhando para os outros, e somente o trabalho de todos cria

uma unidade econômica abrangente a qual completa a unilteral produção do individual. Assim é

que o dinheiro estabelece incomparávelmente mais conexões entre as pessoas do que jamais

existiu nos dias das sociedades feudais (Simmel, 2000:246).

Ressaltemos, entretanto, que o fato de ser um resultado objetivo da cultura

humana não significa que estamos falando necessariamente de algo positivo. Isto

porque, no caso da dívida, o seu elemento comum em todas as épocas é aquele das

relações sociais de violência e de guerra, de conquista e de derrota, de honra e de morte,

de exploração sexual e de escravidão. Enfim, todo tipo de elementos de barbárie que se

encontram nas bases das relações de dívida, mesmo nas atuais, supostamente

civilizadas. Onde existe uma dívida não há reciprocidade, não há igualdade.

22

As origens do dinheiro são na realidade encontradas não apenas na

complexidade da divisão social do trabalho (e no surgimento da necessidade

incontornável de se pagar salários a uma massa de trabalhadores livres), mas,

fundamentalmente, em crimes e recompensas, em guerras e escravidão, e no valor social

da honra. Não é apenas que o dinheiro torna a dívida possível: nesta concepção, dívida e

dinheiro aparecem exatamente ao mesmo tempo. Uma história da dívida é, portanto,

necessariamente uma história do dinheiro e a forma mais fácil de saber o papel que a

dívida exerceu nos últimos séculos seria simplesmente seguir as formas que o dinheiro

tem assumido (Graeber, 2011:19;21).

Tanto o dinheiro quanto a dívida passaram por diversas transformações ao longo

dos séculos, transformações estas que representam grandes ciclos da cultura econômica,

alternados entre a prevalência do sistema de crédito (dinheiro virtual) e do sistema

baseado em ouro e prata (dinheiro “real” vinculado à existência física do metal como

equivalente geral).

A análise precisa de Simmel nos fornece uma forma interessante de entender

melhor como o dinheiro (e a partir de agora, também a dívida) veio a se tornar o centro

das relações sociais na Modernidade ( Neuzeit), a qualtem início no séc. XV com a

Renascença, a Reforma Protestante, e a Descoberta do Novo Mundo, desenvolvendo-se

até o início do século XX, quando toma plena forma o processo de expansão da

economia monetária (Waizbort, op.cit.:175). A consequência principal deste processo e

que marcará decisivamente o momento contemporâneo será fazer o Homem viver em

função de perseguir sua própria criação cultural: o dinheiro (grifo nosso).

23

A autonomização dos produtos da cultura

Conhecedor das análises marxistas do capitalismo e crítico de noções como a

teoria do valor e a visão da luta de classes como o motor da história, Simmel desenvolve

com beleza a sua análise sobre os aspectos simbólicos, psicológicos e culturais das

relações dos indivíduos com a então ascendente economia capitalista da virada do séc.

XIX para o séc. XX.

Há algo diferente na teoria de Georg Simmel sobre a Modernidade: ela não se refere específica

ou diretamente ao processo de industrialização e ao desenvolvimento do capitalismo industrial.

Simmel considera as suas consequências de maneira indireta através da economia monetária. (...)

O problema que ele pretende resolver é realmente a questão do que o dinheiro e a economia

monetária fizeram com os pensamentos, sentimentos e intenções dos individuos e das

constelações societárias das instituições sociais, jurídicas e econômicas. Seu tema é o efeito

retroativo da instituição mais importante da economia moderna – o dinheiro – sobre todos os

aspectos da vida e da cultura (Frisby, 1990:154;184).

Assim procedendo, Simmelamplia a um registro universal o conceito marxista

de fetiche da mercadoria. Como apreendemos de Waizbort (op.cit.:127-9), o “caráter

fetichista” que Marx atribui aos objetos econômicos na época da produção industrial de

mercadorias é apenas um caso especificamente modificado deste destino universal de

nossos conteúdos culturais, a sua autonomização frente a nós mesmos.

Simmel apresenta bases a meu ver complementares, ainda que críticas e tidas

como alternativas ao marxismo, de entendimento do capitalismo florescente nos séculos

XIX-XX, voltando o olhar para o indivíduo na sua condição única de criador de cultura

– e o dinheiro como uma invenção cultural objetivada que ganha predominância sobre

seu criador.

24

Em Simmel, a economia não é uma “infraestrutura” objetiva sobre a qual se

ergueria uma “superestrutura” simbólica. Ela é, em si mesma, a objetivação

históricamente determinada da cultura subjetiva e todo o seu simbolismo (idem,

op.cit.:183, nota 30). A distinção de Simmel para com o marxismo não é apenas

assinalada por comentadores; o próprio autor apresenta o núcleo de suas divergências:

Diferente do materialismo histórico, que faz o processo cultural inteiro dependente das condições

econômicas, a análise do dinheiro pode nos ensinar que os efeitos de longo alcance sobre todo o

estado psíquico e cultural do período de fato emanam da formação [cultural] da vida econômica.

Essa formação mesma, por outro lado, recebe o seu caráter das grandes tendências da vida

histórica, das quais as fontes e motivos últimos continuam um segredo divino (Simmel,

2000:254).

É no momento de “desabrochar” da Modernidade vivida e observada pelo

sociólogo alemão (1858-1918) que o desenvolvimento e complexificação da divisão

social do trabalho libertam o produto final daqueles que contribuíram para a sua

existência, e perde-se a finalidade da produção, já que ele [o produto] aparece como

“objetividade autônoma”, não há mais relação com seu produtor.

Como “um dos progressos mais assustadores da cultura”15, o dinheiro ocupa essa

posição de um conceito no qual esta época – e todas as outras depois dela – passará a se

espelhar (Waizbort, op.cit.:125-6;146). O dinheiro é este caso fundamental e mais

acabado da transformação dos meios em fins, de um objeto que se independentiza e se

aliena dos sujeitos, mas é só na sociedade moderna e capitalista que a alienação

produzida pelo trabalho se torna de fato universal, infinita e absoluta, tal como exigida

pelo processo de exteriorização das coisas (Paulani-Muller, 2010:815).

15 Georg Simmel apud Leopoldo Waizbort, 2000:150.

25

A conhecida noção simmeliana de tragédia da cultura refere-se justamente a

transformação dos meios em fins: o Homem, que deveria ser o verdadeiro fim, torna-se

mero meio; o objeto, o verdadeiro meio, torna-se o fim ao qual os homens acabam por

se submeter.

Cultura trágica esta que gera alienação dos objetos espirituais a partir de suas próprias forças

[humanas] de criação. (...) A origem dessa alienação situa-se na divisão do trabalho, que

contribui decisivamente para a situação problemática típica do homem moderno: a

preponderância do objeto sobre o sujeito16.

Centralidade do indivíduo e disseminação dos riscos

O desenvolvimento da cultura moderna contribui com a preponderâcia do que se

poderia chamar o “espírito objetivo” sobre o “espírito subjetivo”, ou, dos objetos da

cultura sobre os indivíduos. Coexistem, no entanto, duas formas concomitantes de

individualismo já identificadas por Simmnel: a independência individual facilitada pelo

dinheiro e a elaboração cultural da própria individualidade (Simmel, op.cit.:23;24). No

período que abrange o século XX até os dias atuais, a elaboração cultural da

individualidade ganha uma centralidade sem precedentes, e, sobretudo na cultura

ocidental, ganha a forma de um verdadeiro culto ao indivíduo.

O processo que vai dos tempos modernos ao presente é assim marcado pelo

aprofundamento da individualização, em contrapartida ao nivelamento quantitativo

gerado pelo dinheiro. O dinheiro não só equaliza o que pode ser totalmente diferente,

mas também é o símbolo de um processo histórico e cultural em direção à fluidez, à

mobilidade, à variação, que são atributos característicos do Moderno (Waizbort,

op.cit.:143;168). Esta crescente individualização coloca o indivíduo transformador e

16 Cf. Waizbort, op.cit.:8-9;125.

26

livre como o centro dinâmico do mundo moderno (Ferreira, 2000:105) e como a base

sobre a qual se dá a autonomização da cultura nas relações sociais.

A modernidade industrial pode ser também observada como uma época de um

crescente desejo de controle racional da natureza e do futuro pelo Homem. Isto envolve,

mesmo que a princípio intuitivamente e sem método científico, a criação de funções e

relações sociais específicas para reduzir as incertezas e prevenir possíveis desastres

através dos cálculos dos riscos aí envolvidos. “Riscos” aqui são entendidos não como o

que está acontecendo, mas como o que pode acontecer no futuro, se diferenciando assim

da noção de perigo. Assim entendida, é importante notar desde já que “a visão dos

atores sociais sobre os riscos aos quais estão sujeitos é sempre parcial ou incompleta”

(Areosa, 2009:59).

Se no senso comum a presença da consideração dos riscos na sociabilidade

humana não é algo recente, a sua conceituação propriamente técnico-científica começa a

ser construída apenas a partir do final do séc. XIX e início do séc. XX, buscando dar

respostas a novas questões colocadas pela Modernidade e, ainda mais, pelas

transformações observadas na vivência da experiência moderna. Para Zygmunt Bauman

(2001) atualmente vivemos em uma época que se diferencia da Modernidade “sólida”

(ou para outros, industrial) construída desde o século XV até meados do século XX,

caracterizando-se agora como um momento histórico de outro tipo, uma modernidade

“líquida”, na medida em que derruba por terra certezas fundamentais que

fundamentaram o projeto moderno, estabelecendo, assim, novas e fluídas bases de

sociabilidade calcadas primordialmente no indivíduo (não sem conflitos, é claro).

Pelo fato das manifestações do risco serem vistas hoje como muito presentes nas

atividades do mundo social é que seu estudo vem ganhando pertinência nas sociedades

27

contemporâneas. Sua definição conceitual é hoje objeto de diversas disciplinas, porém,

está longe de reunir consensos (Areosa, op.cit.:75). Longe de pretender de forma

alguma percorrer todo o espectro da teoria social do risco e suas controvérsias, no

decorrer deste trabalho nos utilizaremos, sobretudo, do diagnóstico apresentado pelo

sociólogo alemão Ulrich Beck, que denomina esta transformação da experiência de vida

contemporânea como Modernidade Reflexiva ou Tardia, diferenciando-a da

Modernidade industrial – num caminho sem volta.

A “reflexividade” da modernidade contemporânea diz respeito essencialmente a

dois processos: de um lado, vivemos em uma época em que as pessoas estão cada vez

mais expostas aos efeitos de ações não desencadeadas por elas mesmas, que estão fora

do seu controle mas que têm reflexos diretos e/ou imediatos sobre suas vidas. Por outro

lado, a cultura do momento presente exige das pessoas que sejam cada vez mais

responsáveis pelas consequências e pelos reflexos das decisões que tomam durante a

trajetória da sua vida.

A questão chave que está em jogo para Beck é o postulado de que hoje“a

produção social de riquezas é sistematicamente acompanhada pela produção social de

riscos” (Beck, 1992:19-20). Neste sentido, a produção dos riscos frequentementetem

origem social, e é em si mesma resultado de uma cultura típica do momento presente, a

qual criou certo“modo de produção de riscos”, ou de “fabricação de incertezas”. O foco

desta interpretação reside na hipótese lançada por Beck de uma mudança de paradigma,

passando de uma lógica centrada na distribuição de riqueza para uma lógica centrada na

distribuição de riscos na modernidade tardia. “Nós ainda não vivemos em uma

sociedade do risco, mas não vivemos mais somente na sociedade do conflito pela

distribuição material em sociedades de escassez”, típico da modernidade industrial

(grifos no original).

28

Nesta perspectiva, o trabalho desenvolvido por Beck tem como objeto sobretudo

os riscos de amplo alcance, tais como os riscos de colapso ambiental, de catástrofes

naturais causadas pelo desenvolvimento humano e de catástrofes nucleares vividos no

momento histórico atual. Desastres imprevistos como o terremoto seguido de tsunami

que atingiu a usina nuclear de Fukushima em 2011 – e que em consequênciacolocou

todo o planeta em risco – são grandes acontecimentos detipo ideal (por assim dizer)

para os autores da sociologia do risco.

Apesar dos riscos individuais sempre terem existido, a modernidade gerou novos tipos de risco,

radicalmente distintos dos anteriores; alguns destes novos riscos tornaram-se cada vez mais

globais. (...) A nova noção de risco preconiza três descontinuidades com o passado : 1) a

cobertura, ou extensão (do local para o global) ; 2) a magnitude dos danos (do parcial para o

total) ; e 3) o horizonte temporal das ameaças (do presente para o futuro) (Areosa, op.

cit. :63 ;65).

Na discussão que nos interessa aqui, utilizaremos certos referenciais originais

desta sociologia do risco na modernidade tardia, sobre tudo com a contribuição de U.

Beck, para pensar o risco no interior das relações econômicas hoje. Avançando um

pouco nesta formulação, buscaremos pensar a esfera financeira como uma das principais

fontes de insegurança hoje, impulsionada por um tipo específico de objetivação da

cultura econômica.

Riscos, ao contrário de perigos, são consequências relativas à força ameaçadora

da modernização e à generalização da incerteza. Os conflitos que emergem em torno

dos riscos da modernização acontecem sobre causas sistêmicas que coicidem com o

movimento do progresso e do lucro. Nesse sentido, os conflitos que ocorrem [na

modernidade tardia] assumem um caráter de lutas doutrinais da civilização sobre o

caminho mais adequado para a modernidade (Beck, 1992 : 40). Criação de risco,

29

distribuição de risco, posição de risco, gestão de risco e mercado de risco são expressões

que se pode utilizar para compreender tanto a presença do risco na economia quanto no

meio-ambiente. Etimologicamente17, a palavra risco aparece primeiramente nos

registros históricos na França do século XVII, por volta de 1660, como sentido de “estar

em perigo”, ou “de origem incerta”.

A trajetória do seu uso e derivações é tão interessante quanto reveladora: em

1892 tem-se o primeiro registro do uso da expressão tomador de risco ( risk taker); em

1906 o primeiro registro de fator de risco ( risk factor); em 1936 começa o uso do termo

administração de risco ( risk management); e, em 1942, de aversão ao risco ( risk

aversion). Da tomada de risco à aversão ao risco tem-se um percurso no mínimo

curioso, que oscila numagradação “do amor ao ódio” pelo risco.

É importante notar que são todos termos politicamente reflexivos (isto é, que tem

consequências políticas): algumas pessoas são mais afetadas que outras pela

distribuição e crescimento dos riscos, ou seja, a existência de posições sociais de risco

se torna evidente. Com Beck (1992:21-3;183), temos que

Os riscos dependem de decisões; eles são produzidos industrialmente e, neste sentido, são

politicamente reflexivos. (...) Os riscos se tornaram o motor da auto-politização da modernidade

na sociedade industrial; além disso, na sociedade do risco, o conceito, o lugar e o meio da

política se transformam.

O aprofundamento de características modernas como a industrialização, o

capitalismo financeiro, o controle social sobre indivíduos “livres” e a crença

hegemônica no progresso e na razão, são alguns dos elementos definidores da

17 Risco – etimologia :

http://www.etymonline.com/index.php?allowed_in_frame=0&search=risk&searchmode=none.

30

Modernidade tardia para autores como Ulrich Beck. Simultaneamente, também é

característica deste momento histórico a crescente desilusão com as promessas

modernas totalizantes de igualdade social e infalibilidade da razão, acompanhadas de

uma tremenda aceleração na velocidade dos acontecimentos sociais.

Em seu tempo, Simmel já chamava a atenção para a importância do ritmo da

vida, enfatizando na análise o reconhecimento do tempo como fator estruturante do ser-

no-mundo e da possibilidade do saber (Ferreira, op.cit.:104). A aceleração da

velocidade da vida na modernidade tardia terá consequências sobre a sociabilidade

humana aí construída e sobre a percepção que se tem dos acontecimentos sociais.

O caráter propriamente reflexivo do momento contemporâneo – no qual cada

indivíduo é chamado à máxima responsabilidade pelos seus atos e sua trajetória de vida

– está vinculado aos processos históricos pelos quais, sobretudo nas sociedades

ocidentais industrializadas – mas não apenas nelas –, as instituições sociais que

tradicionalmente proporcionavam a grandes coletividades de indivíduos uma identidade

bem definida e um caminho de vida previsível e relativamente seguro vem perdendo sua

hegemonia e influência sobre as decisões pessoais de cada um18 (seja a família, a

religião, o trabalho, a monogamia heterossexual, etc.).

As respostas aos dilemas da vida e as escolhas feitas nos chamados “momentos

decisivos” da trajetória individual passam a estar cada vez mais sob responsabilidade

pessoal de cada um. Algo que por um lado pode gerar ansiedade e frustração perante o

desafio, mas que por outro amplia as possibilidades de autoconstrução da identidade

individual no momento histórico atual vis-à-vis outros períodos.

18 Este é o ponto de vista de um outsider com relação ao campo da sociologia da religião. Não me

proponho aqui a discutir se há uma perda de hegemonia ou apenas uma transformação em novas formas

de religiosidade, mais individualizadas do que sempre foram as grandes religiões monoteístas.

31

Assim, pensar em reflexividade nos termos aqui propostos significa considerar

que as pessoas são constantemente confrontadas com efeitos da transição da

modernidade industrial para a modernidade tardia. Nesta confrontação, cabe somente a

elas decidir sobre sua trajetória de vida levando em consideração as múltiplas variáveis

em jogo no contexto social em que se encontram. Na linha analítica de Beck, o caráter

reflexivo do momento contemporâneo submete todas as pessoas à necessidade constante

e inescapável de se posicionarem individualmente frente ao impacto de grandes

acontecimentos sociais que lhes escapam ao controle, mas que têm reflexos de forma

direta e decisiva sobre suas vidas. Os atentados de 11 de setembro e os atos de

terrorismo em geral poderiam ser exemplos bem diretos deste tipo de evento, mas,

voltando o olhar para nosso recorte específico, os momentos de crise financeira também

são produtores de reflexos sociais que escapam ao controle das pessoas comuns, que se

encontram na maioria das vezes em posição vulnerável.

Digamos, então, que se não vivemos ainda numa sociedade do risco, certamente

estamos em uma sociedade que dissemina riscos, que cria riscos e que administra riscos

como provavelmente nunca antes. A análise sociológica tem buscado estabelecer as

relações entre a distribuição dos riscos (ou dos tipos de riscos) segundo as posições

sociais e a distribuição da riqueza, assinalando a existência de posições sociais mais ou

menos expostas a determinados riscos de ordem econômica.

Como veremos em detalhe mais adiante, no contexto histórico de hegemonia do

modelo econômico neoliberal (isto é, grosso modo a partir de 1970), há evidências de

um processo crescente de transferência de riscos para as camadas médias e pobres, ao

mesmo tempo em que se realiza, via sistema financeiro, uma transferência de riqueza da

produção real para a capitalização fictícia das Bolsas de Valores, capturada então pela

franja mais abastada da população. Processos deste tipo estão ocorrendo hoje nas

32

sociedades capitalistas avançadas19 em que o setor financeiro seja bem desenvolvido, e

também no Brasil.

Os riscos, portanto, não são mais apenas o lado obscuro das oportunidades, eles

também representam grandes oportunidades de mercado. Com o desenvolvimento dessa

sociedade que distribui riscos, manifesta-se também o antagonismo entre aqueles

atingidos pelos riscos e aqueles que lucram com eles (Beck, 1992:46). No capítulo

seguinte nos deteremos sobre o processo pelo qual, na modernidade avançada, se

entrelaçam risco, individualidade e cultura econômica.

19 Cf. Ponds-Van Riel, 2009.

33

CAPÍTULO II

A emergência da oîkonomia individual

Individualizaçao e estilo de vida

Ao fomentar o progressivo aumento da responsabilização individual pelo curso

de vida, pelas decisões tomadas, pelos riscos assumidos e pelo eventual sucesso ou

fracasso individual nesta jornada, a modernidade tardia apresenta uma tendência

cultural a radicalizar a individualização. Por individualização nos referimos aos

processos de responsabilização das pessoas por suas escolhas. Já noção de individuação,

por sua vez, está ligada às diversas formas de cultivo pessoal da individualidade, da

identidade e da personalidade.

Este caráter reflexivo da identidade e sua profunda individualização têm

consequências não apenas sobre as formas de socialização atuais, mas também incide de

maneira importante sobre a trajetória de individuação das pessoas. Isto porque a

constituição do indivíduo enquanto unidade psíquica e personalidade singular se vê

diretamente afetada pela avaliação social da sua capacidade de cumprir de maneira mais

ou menos bem-sucedida com os requisitos sociais da responsabilidade que a

individualização acarreta. A situação pessoal de não poder corresponder ao que a

sociedade espera pode gerar fortes sentimentos de ansiedade, vergonha e frustração nas

pessoas, sendo estes, inclusive, sentimentos constitutivos da sua autoidentidade,

elementos potencialmente constitutivos da sua própria individuação.

Por outro lado, independentemente de que a pessoa sinta-se mais ou menos bem

sucedida nesta tarefa de individualização, todos se individualizarão em alguma medida

apenas pelo fato de viverem no momento atual, que lhes demanda esta postura de

34

sujeito de si como um elemento da cultura. Todos de alguma maneira construirão a sua

identidade e realizarão uma trajetória de vida de forma mais ou menos planejada de

acordo com as oportunidades que se lhes apresentarem, resultando na criação (nunca

totalmente consciente) de um estilo de vida.

A interpretação sociológica da emergência do estilo de vida na modernidade já

havia sido antecipada por Simmel, como um resultado do processo mesmo da cultura,

da exteriorização do espírito, principalmente com a proliferação das metrópoles. O

termo alemão “Bildung” sintetiza esta ideia simmeliana de um caminho da formação da

personalidade individual.

O estilo de vida é assim uma configuração histórica das relações entre indivíduo e sociedade,

entre sujeito e objeto, entre cultura objetiva e cultura subjetiva (Simmel apud Waizbort,

2000 :179).

Como configuração histórica, e, portanto, mutável, pode-se presumir que desde

sempre a humanidade vem desenvolvendo estilos de vida, o que é de certa forma

verdadeiro. O que fascinou Simmel e tantos outros na virada para a modernidade foi que

se tratava então da formação da individualidade dos sujeitos em uma época que era ao

mesmo tempo também de expansão da moderna liberdade e da moderna divisão do

trabalho e do consumo.

O estilo de vida expressa, assim, variedades de efetivação material e simbólica

de uma narrativa individual da identidade de cada um e a cultura moderna se apresenta

cada vez mais como uma pluralidade de estilos possíveis. Em Simmel, aprendemos que

um dos fenômenos de maior repercussão na configuração do estilo de vida é a divisão

do trabalho. É ela o fator concreto que explica as origens e a situação atual da relação

entre cultura objetiva e cultura subjetiva, portanto, do estilo de vida moderno, e desse

35

modo do que será, mais tarde, caracterizado como a tragédia da cultura (Waizbort,

op.cit.:178-9;188).

Assim, na modernidade, a liberdade aumenta na mesma proporção do

desenvolvimento da economia monetária e do consumo. No entanto, o que aponta

Simmel, é que o nivelamento incessante de toda qualidade a uma quantidade

“neutra” de dinheiro vai esvaziando a vida de sentido qualitativo (idem, op.cit.:154). O

caso clássico do camponês que vende a sua terra, passa a ter dinheiro mas perde o que

dava sentido à vida, é um bom exemplo. O “estilo do presente” é justamente este

caracterizado pela tensão entre aspectos universalizantes e individualizantes,

indiferenciadores e diferenciadores, mobilizados pelo dinheiro.

Se a modernidade abriu as portas e preparou o terreno para o florescimento da

individualidade e do estilo de vida, a modernidade avançada põe em evidência as

propriedades reflexivas equalizadoras dos riscos: o momento presente coloca a gestão

dos riscos e as escolhas perante os mesmos como responsabilidade e parte indissociável

da individualização de cada um.

Assim como o dinheiro é um agente nivelador em Simmel, também na linha

interpretativa de Beck (1992:36), “objetivamente os riscos apresentam um efeito

equalizador no seu raio de alcance e entre aqueles afetados por eles. (…) Neste sentido,

as sociedades do risco não são exatamente sociedades de classe; suas posições de risco

não podem ser entendidas [somente] como posições de classe, ou seus conflitos

[somente] como conflitos de classe”.

Com o aumento da percepção dos riscos, há hoje uma crescente

institucionalização do conceito de risco, bastante influenciada pelo aprofundamento das

análises estatísticas e de modelos matemáticos sobre os riscos. No entanto, talvez pela

36

breve história da pesquisa científica sobre o tema, que se inicia apenas no final do séc.

XIX, não há hoje uma só grande teoria unificadora das perspectivas sobre o risco. Existe

uma pluralidade de disciplinas – tanto nas Humanidades quanto nas ciências Biológicas

e Exatas –, que abordam o tema segundo sua perspectiva analítica particular.

Uma sociologia que leve em consideração o risco nas relações sociais atuais tem

a possibilidade de encadear estas análises particulares e demonstrar como nas

sociedades contemporâneas a presença do risco tem aumentado na experiência de vida

das pessoas, ainda que possa apresentar-se segundo distintas lógicas e formulações em

cada área do conhecimento e também na vida cotidiana. Os riscos e a percepção que se

tem deles são construídos culturalmente, através de lutas sociais e simbólicas que

envolvem atores coletivos, sobre os quais a sociologia deve interrogar sempre “quem

diz o quê”, “de que posição social fala” e “como diz” que algo representa um risco ou

não, uma vez que sempre há interesses e lutas discursivas em jogo.

É neste sentido que disciplinas consolidadas como a Medicina ou a Economia

podem “autorizar” ou “desautorizar” a existência de riscos à saúde, ao comportamento,

ao consumo das famílias, à política econômica, etc., para aumentar ou reduzir a