Nascida à Meia-Noite - (Saga Acampamento Shadow Falls,1) por C.C. Hunter - Versão HTML

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1

K ylie Galen está na pior. Seus pais vão se divorciar, seu namorado acaba

de romper com ela e uma noite, depois de ser presa por estar na festa errada, com as

pessoas erradas e na hora errada, é enviada pela mãe para Shadow Falls – um

acampamento para adolescentes problemáticos, localizado numa cidade chamada

Fallen, no meio de uma misteriosa floresta. Isso muda sua vida para sempre. Poucas

horas depois de chegar, ela descobre, assustada, que seus colegas não são apenas

“problemáticos”. Kylie nunca se sentiu normal, mas também não se considera como

uma daquelas aberrações paranormais. Ou será que ela é? Em Shadow Falls, vampiros,

lobisomens, metamorfos, bruxas e fadas aprendem juntos a desenvolver seus poderes,

controlar sua magia e viver no mundo normal. No entanto, as coisas tomam um rumo

diferente quando dois carinhas interessantes entram em cena. Derek, um fae que

possui poderes mágicos, quer a todo custo ser seu namorado e Lucas, um lobisomem

com quem ela partilha um passado secreto. De início, tudo o que Kylie deseja é sair de

Shadow Falls e voltar para casa. Porém, com Derek e Lucas ocupando um lugar cativo

em seu coração e depois de descobrir que ela própria tem estranhos poderes, talvez sua

vida nunca mais volte a ser a mesma...

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2

Um

— Isso não tem graça! — resmungou o pai.

Não, graça nenhuma — pensou Kylie Galen abrindo a geladeira para pegar

uma bebida. Na verdade, tão pouca graça que ela gostaria de poder se esgueirar para

dentro da geladeira, se encolher entre a mostarda e cachorros-quentes bolorentos e

fechar a porta para não ouvir mais as vozes irritadas que vinham da sala.

Lá estavam seus pais brigando de novo!

Não que aquilo fosse durar muito — pensou ela enquanto observava o vapor

escapando pela porta da geladeira. Hoje ela sabia que o pai iria embora!

Kylie sentiu um nó na garganta. Engoliu a emoção em seco e se recusou a

chorar. Aquele devia ser o pior dia da sua vida. E ela já vinha tendo alguns muito

ruins ultimamente. Um cara desconhecido na sua cola, Trey terminando o namoro

com ela e os pais anunciando o divórcio — caramba, era desgraça que não acabava

mais! Seria então de admirar que seus terrores noturnos tivessem voltado com tudo?

— O que você fez com a minha cueca? — o grito do pai penetrou na cozinha,

meteu-se pela fresta da porta da geladeira e ficou pairando em volta dos cachorros-

quentes.

A cueca dele?

Kylie pressionou uma latinha gelada de refrigerante contra a testa.

— O que eu iria fazer com a sua cueca? — perguntou a mãe com aquela voz

de “não estou nem aí”. Era bem sua mãe, ela nunca estava nem aí. Fria como gelo.

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3

Kylie olhou pela janela da cozinha o quintal, onde há pouco tinha visto a mãe.

E ali, da grelha da churrasqueira ainda fumegante, pendia a cueca do pai.

Que beleza!

A mãe tinha feito churrasco da cueca do pai. Só isso. Kylie nunca mais

comeria nada do que fosse assado naquela grelha. Tentando conter as lágrimas, ela

devolveu a latinha ao refrigerador e foi até a porta da sala. Talvez, se a vissem,

parassem de agir como crianças e deixassem que ela fosse a adolescente ali. O pai

estava no meio da sala, segurando na mão uma cueca. A mãe, no sofá, bebericava

com a maior calma um chazinho quente.

— Você precisa de tratamento psicológico! — gritou ele para a mulher.

Dois pontos para o pai — pensou Kylie.

A mãe realmente precisava de ajuda. Mas então por que era Kylie que tinha de

ficar estendida no divã da analista, duas vezes por semana? Por que o pai — o

homem de quem, todos juravam, ela conseguia tudo — é que precisava ir embora,

abandonando-a?

Kylie não o censurava por querer deixar sua mãe, a Rainha do Gelo. Mas por

que não levava Kylie com ele? Outro soluço sufocado na garganta.

O pai virou-se e a viu; em seguida, entrou no quarto, obviamente para guardar

o resto de suas coisas — menos a cueca, que naquele momento fazia sinais de fumaça

na churrasqueira do quintal.

Kylie ficou parada olhando a mãe, que remexia em pastas de trabalho como se

aquele fosse um dia igual a qualquer outro. As fotos emolduradas de Kylie e o pai, na

parede acima do sofá, chamaram sua atenção e encheram seus olhos de lágrimas.

Tinham sido tiradas durante as excursões anuais que os dois faziam juntos.

— Você tem que fazer alguma coisa! — implorou.

— Fazer o quê? — perguntou a mãe.

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— Convencê-lo a ficar. Peça desculpas por ter assado a cueca dele...

Que lamenta ter água gelada nas veias — pensou.

— Faça qualquer coisa, mas não deixe que ele vá embora.

— Você não compreende — e com isso a mãe, sem um mínimo de emoção,

voltou aos seus papéis.

Nesse momento o pai, de mala em punho, atravessou a sala. Kylie correu atrás

dele até a porta que se abria para a tarde sufocante de Houston.

— Me leve com você — pediu, sem esconder as lágrimas. As lágrimas talvez

ajudassem. Antes, quando chorava, conseguia o que queria dele. — Eu não como

muito — fungou, tentando fazer graça.

Ele balançou a cabeça, mas ao contrário da mãe, pelo menos tinha alguma

emoção nos olhos:

— Você não compreende.

Você não compreende.

— Por que vocês estão sempre dizendo isso? Já tenho 16 anos. Se não

compreendo, então me expliquem, ou me contem o grande segredo e pronto.

Ele olhou para os pés como se aquilo fosse um teste e as respostas estivessem

na ponta dos sapatos. Depois, suspirando, ergueu os olhos:

— Sua mãe... Precisa de você.

— Precisa de mim? Está brincando? Ela nem me quer aqui!

Nem você me quer.

Essa constatação fez com que o ar se imobilizasse em seus pulmões. Ele na

verdade não a amava. Enxugou uma lágrima na bochecha e olhou de novo para ele.

Só que agora, em vez do pai, Kylie via o soldado Dude, que vivia atrás dela. Ali na

rua, trajava o mesmo uniforme militar de antes. Parecia ter acabado de sair de um

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daqueles filmes sobre a Guerra do Golfo de que sua mãe tanto gostava. Só que, em

vez de disparar para todos os lados ou voar pelos ares, ele permanecia imóvel,

olhando para ela com um ar triste, mas muito assustado.

Ela o surpreendeu espreitando-a a algumas semanas. Nunca falaram um com

o outro. Mas, no dia em que ela o apontou para a mãe e a mãe não o viu... Bem, o

mundo de Kylie saiu dos eixos. A mãe chegou à conclusão de que ela tentava chamar

a atenção ou coisa pior. E quando dizia “coisa pior” ela se referia ao risco de Kylie

estar perdendo contato com a realidade. Sem dúvida, os terrores noturnos que a

atormentavam quando era criança tinham voltado mais assustadores ainda. A mãe

disse que um analista poderia ajudá-la a superá-los — mas como, se Kylie nem

sequer se lembrava deles? Só sabia que eram ruins. Ruins o bastante para fazê-la

acordar gritando.

Kylie queria gritar agora. Para que o pai se voltasse e visse o soldado Dude1 —

provando assim que ela não estava maluca. Talvez, se ele realmente visse o homem

que a perseguia, ela não precisasse mais ir à analista. Aquilo não era justo.

A vida, porém, não é justa, conforme sempre lembrava sua mãe. Mas, quando

Kylie olhou de novo, ele já tinha ido embora. Não o soldado Dude, mas seu pai. Ela

caminhou até a porta da garagem e o viu colocando a mala no banco de trás do

Mustang vermelho conversível. Ao contrário do pai, a mãe nunca gostou daquele

carro.

Kylie correu até ele.

— Vou pedir pra vovó falar com a mamãe. Ela vai conseguir...

Mal essas palavras escaparam dos lábios de Kylie ela se lembrou do outro

grande acontecimento trágico de sua vida. Não podia mais pedir que a avó resolvesse

seus problemas. A avó estava morta. A imagem dela deitada, fria, no caixão dominou

a mente de Kylie e outro soluço brotou em sua garganta. O olhar do pai demonstrava

1 Dude (gíria), termo genérico usado informalmente com referência a uma pessoa qualquer; cara, sujeito.

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agora preocupação. O mesmo olhar que levara Kylie para o consultório da terapeuta

três semanas antes.

— Estou bem. Só esqueci — porque a lembrança machucava muito. Sentiu

uma lágrima solitária escorrendo pelo rosto.

O pai se aproximou e a abraçou. Esse abraço durou mais do que qualquer

outro, mas terminou cedo demais. Como ela podia deixá-lo ir? E ele, como poderia

abandoná-la?

Os braços do pai se soltaram e ele a afastou.

— E só me telefonar, meu bem.

Contendo as lágrimas, odiando a própria fraqueza, Kylie acompanhou o

conversível vermelho do pai ficando cada vez menor à medida que descia a rua.

Precisando muito ficar sozinha em seu quarto, correu para dentro de casa. Mas

então, lembrando-se, olhou para o outro lado da rua. Será que o soldado Dude já

tinha desaparecido num passe de mágica, como costumava fazer?

Não. Continuava lá, observando, espionando. Deixando-a morta de medo e,

ao mesmo tempo, muito irritada. Era por causa dele que Kylie tinha que ir à analista.

Então a Sra. Baker, sua vizinha idosa, saiu para apanhar a correspondência. Sorriu

para Kylie, mas nem sequer uma vez a velha bibliotecária reparou no soldado Dude

bem ali, de pé em seu jardim, a menos de um metro de distância. Muito estranho.

Tão estranho que um calafrio desceu por sua espinha, o mesmo calafrio que sentiu

durante o funeral da avó.

O que estaria acontecendo?

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Dois

Uma hora depois, Kylie desceu as escadas com a mochila nas costas e a bolsa

no ombro. A mãe a deteve na porta.

— Você está bem?

Como eu poderia estar bem?

— Vou sair — foi a única resposta de Kylie. Mais do que tinha conseguido

dizer sobre a avó. Na ocasião, ela tinha notado o batom vermelho-brilhante que a

funerária tinha aplicado no cadáver da avó.

Por que não tira essa droga da minha boca? — Kylie quase a ouviu resmungar.

Assustada com esse pensamento, virou-se e olhou para a mãe. A mãe viu a

mochila de Kylie e uma ruga de preocupação apareceu entre seus olhos.

— Para onde está indo? — quis saber.

— Você disse que eu poderia passar a noite na casa da Sara. Ou estava

ocupada demais queimando a cueca do papai para se lembrar disso?

A mãe ignorou a alusão ao churrasco de cueca.

— E o que as duas vão fazer à noite?

— Mark Jameson vai dar uma festa para comemorar o fim das aulas — não

que Kylie tivesse a mínima intenção de se divertir. Graças ao fim do namoro com

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Trey e ao divórcio dos pais, seu verão tinha ido parar no vaso sanitário. E, do jeito

que as coisas estavam indo, sem dúvida alguém passaria por lá e daria a descarga.

— Os pais dele vão estar em casa? — a mãe arqueou uma sobrancelha.

Kylie agitou-se por dentro, mas não deixou transparecer.

— Não é lá que sempre estão?

Tudo bem, uma mentira. Quase nunca ia às festas de Mark Jameson

justamente por aquele motivo — e era nisso que dava ser tão comportada. Agora

precisava esfriar um pouco a cabeça. Além do mais, a mãe também não tinha

mentido quando o pai perguntou pela cueca?

— E se você tiver outro daqueles sonhos? — perguntou a mãe, tocando seu

braço.

Um toquezinho de leve. Era tudo o que ganhava da mãe nos últimos tempos.

Nada de abraços demorados, como os do pai. Nada de passeios juntas. Apenas

indiferença e toques rápidos. Mesmo quando a avó materna morreu, sua mãe não a

abraçou — e Kylie, na ocasião, precisava muito de um abraço. Ao contrário, foi o pai

que a abraçou e acabou ficando com uma mancha de maquiagem no paletó. Agora,

papai e todos os seus paletós tinham ido embora.

Respirando fundo, Kylie fincou as unhas na bolsa.

— Avisei a Sara que talvez eu acorde gritando, com sede de sangue. Ela me

garantiu que vai cravar um crucifixo de madeira no meu coração e me arrastar de

volta para a cama.

— Acho melhor, então, você esconder as estacas antes de dormir — a mãe

tentava esboçar um sorriso.

— Farei isso — por um instante, lamentou deixar a mãe sozinha justamente

no dia em que o pai foi embora. Bobagem. Ela ficaria bem. Nada abalava a Rainha do

Gelo.

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Antes de sair, Kylie olhou pela janela para se certificar de que não seria

perseguida pelo cara de farda. Achando que o terreno estava livre, cruzou a porta,

esperando que a festa da noite a ajudasse a esquecer de tudo de ruim que estava

acontecendo em sua vida.

— Tome. Não precisa beber, é só segurar — Sara Jetton colocou uma garrafa

de cerveja na mão de Kylie e se afastou.

Dividindo o espaço com pelo menos trinta pessoas que se acotovelavam, todas

falando ao mesmo tempo, na pequena sala de Mark Jameson, Kylie segurou firme a

garrafa gelada. Conhecia da escola muitas daquelas pessoas. A campainha soou de

novo. Sem dúvida, aquela era a festa mais quente da noite. E todos os outros alunos

do colégio pensavam o mesmo. Jameson, o veterano cujos pais pareciam não se

importar com nada que ele fizesse, dava algumas das melhores festas da cidade.

Dez minutos depois, ainda sem sinal de Sara, todo mundo começou a dançar.

Pena que Kylie não estivesse animada. Olhou com desagrado para a garrafa que tinha

nas mãos. Alguém esbarrou nela, fazendo com que a cerveja espirrasse em seu peito e

descesse pelo decote em V da blusa branca.

— Merda!

— Ai, foi mal! — apressou-se a dizer o desastrado, constrangido.

Kylie encarou os olhos castanhos e calmos de John e tentou sorrir. Pensar que

estava sendo educada com um cara legal, que andava perguntando por ela na escola,

tornava mais fácil o sorriso. Mas o fato de John ser amigo de Trey diminuía muito seu

entusiasmo.

— Não foi nada — disse ela.

— Vou buscar outra pra você — parecendo nervoso, ele se afastou.

— Não precisa! — gritou Kylie; mas, em meio à música e ao alvoroço, ele não

ouviu.

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De novo, a campainha. Alguns garotos se afastaram e ela pôde ver a porta.

Mais especificamente, Trey entrando pela porta. A seu lado — ou grudada nele —

vinha a nova namorada, toda exibida.

— Maravilha — olhou em volta, pensando em como seria bom se

teletransportar para o Taiti ou, melhor ainda, para casa, especialmente se seu pai

estivesse lá.

Pela janela de trás, avistou Sara no quintal e correu para se juntar a ela. Sara

ergueu a cabeça. Devia ter percebido o pânico no rosto de Kylie, que chegava

esbaforida.

— O que aconteceu?

— Trey e sua piranha estão aqui.

Sara franziu a testa.

— E daí? Vá paquerar alguém para deixá-lo com ciúmes.

Kylie revirou os olhos.

— Não quero ficar vendo Trey e essa vadia se esfregando.

— Eles estavam se esfregando? — perguntou Sara.

— Ainda não. Mas, quando toma uma cerveja, Trey só quer saber de enfiar a

mão debaixo da blusa de uma garota. Sei disso porque fazia o mesmo comigo.

— Não esquenta — disse Sara, apontando para a mesa. — Gary trouxe

margaritas. Tome uma e vai se sentir melhor.

Kylie mordeu o lábio para não gritar que não ia se sentir melhor. A vida dela

já estava um caos.

— Escuta — continuou Sara. — Nós duas sabemos que só o que você tem a

fazer para reconquistar Trey é agarrá-lo e ir lá pra cima com ele. Esse cara ainda te

ama. Hoje mesmo perguntou de você quando saíamos da escola.

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— Você sabia que ele viria? — A traição começava a abalar a pouca sanidade

que ainda lhe restava.

— Claro que não. Mas relaxa.

Relaxar?

Kylie olhou para sua melhor amiga e percebeu que as coisas entre elas tinham

mudado muito nos últimos seis meses. Não porque Sara, ao contrário dela, adorasse

festas ou tivesse perdido a virgindade. Bem, talvez fossem as duas coisas; mas havia

mais.

Kylie suspeitava que Sara queria arrastá-la para festas regadas a muito álcool.

Mas para quê, se ela achava que cerveja tinha gosto de xixi de cachorro? E não tinha

nenhuma intenção de transar?

Tudo bem, não era bem assim: ela queria transar. Com Trey, ela ficou tentada,

realmente tentada, mas se lembrou a tempo da conversa com Sara, quando

decidiram que a primeira vez tinha que ser especial.

Então lembrou que Sara tinha cedido às “necessidades” de Brad — Brad, o

amor de sua vida — e, depois de duas semanas de “pegação”, esse grande amor tinha

dado no pé. O que havia de tão especial nisso? Desde então, Sara tinha se envolvido

com outros quatro carinhas e transado com dois. Agora, não dizia mais que sexo era

especial.

— Ei, sei que está triste por causa dos seus pais — consolou-a Sara. — Mas,

por isso mesmo, precisa relaxar e se divertir um pouco — arrumou os longos cabelos

castanhos atrás das orelhas. — Vou buscar uma margarita para você. Vai adorar.

Sara foi até a mesa, onde um grupo estava reunido. Kylie fez menção de

acompanhá-la, mas deu de cara com o soldado Dude, que parecia mais assustador e

esquisito que antes, junto ao bando de bebedores de margarita. Kylie deu meia-volta,

preparando-se para fugir, mas bateu de frente com o peito de um garoto... E mais

cerveja derramada da garrafa escorreu por entre os seios dela.

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— Que maravilha! Meus peitos vão ficar com cheiro de cervejaria.

— O sonho de todo homem — disse uma voz masculina. — Mas sinto muito.

Kylie reconheceu a voz de Trey antes mesmo de ver seus ombros largos e

aspirar seu cheiro tipicamente masculino. Ignorando a dor que vê-lo tão perto lhe

causaria, levantou os olhos.

— Não foi nada. John já fez isso antes.

Esforçou-se para não reparar nos cabelos castanhos de Trey caídos sobre a

testa, em seus olhos verdes que pareciam hipnotizá-la, em sua boca que a tentava a

inclinar-se e pressionar os lábios contra os dele.

— Então é verdade — suspirou ele.

— Como assim? — perguntou Kylie.

— Você e John estão juntos.

Kylie pensou em mentir. A ideia de fazê-lo sofrer lhe agradava. Agradava

tanto que a fez se lembrar do joguinho idiota que seus pais vinham disputando

ultimamente. Ah, não, ela não imitaria as criancices deles.

— Não estou com ninguém — disse, e começou a se afastar.

Ele a segurou. Aquele toque e o calor daquela mão em seu cotovelo enviaram

ondas de agonia diretamente ao seu coração. Tão pertinho dele, seu cheiro bom e

masculino a embriagava. Ah, meu Deus, como ela gostava daquele cheiro!

— Soube de sua avó — continuou Trey. — E Sara me contou que seus pais

estão pensando em se divorciar. Lamento muito, Kylie.

Sentiu um bolo na garganta. Ela estava a ponto de desabar sobre o peito

aconchegante de Trey e implorar para que a abraçasse. Nada, no momento, seria

melhor que os braços de Trey em volta dela. Mas então viu a garota — o

brinquedinho sexual dele — aproximando-se com duas garrafas de cerveja nas mãos.

Em menos de cinco minutos, Trey estaria enfiando a mão na sua calcinha. E,

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observando a blusa curtíssima e a saia minúscula que a garota exibia, ele não teria

muito trabalho.

— Obrigada — murmurou Kylie, indo para junto de Sara. Felizmente, o

soldado Dude chegou à conclusão de que margaritas não faziam seu gênero e foi

embora.

— Tome — disse Sara, tirando a cerveja das mãos de Kylie e substituindo-a

por um copo de margarita.

O copo parecia mais frio do que o normal. Kylie inclinou-se um pouco e

sussurrou.

— Viu por aí, há um minuto, um sujeito esquisito? Fantasiado de militar?

Sara fitou Kylie com um olhar de interrogação.

— Quanto dessa cerveja você já bebeu? — sua gargalhada encheu o ar da

noite.

Kylie apertou o copo gelado com mais força. Talvez estivesse mesmo ficando

maluca. Misturar álcool com aquela situação absurda não devia ser uma boa ideia.

Uma hora mais tarde, quando três policiais de Houston entraram no quintal e

puseram todos em fila diante do portão dos fundos, Kylie ainda tinha a mesma

margarita intacta nas mãos.

— Vamos lá, garotada — disse um dos guardas. — Quanto mais cedo

chegarmos à delegacia, mais depressa seus pais aparecerão para levá-los embora.

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E foi então que Kylie não teve mais dúvidas: sua vida havia se tornado de fato

uma merda. E alguém tinha dado a descarga.

— Onde está o meu pai? — perguntou Kylie à mãe quando ela entrou na

delegacia. — Eu chamei o meu pai.

É só me telefonar meu bem — não foi o que ele disse? Então por que não

estava ali para levá-la embora?

Os olhos verdes da mãe se apertaram um pouco.

— Ele me pediu para vir.

— Eu queria o papai — insistiu Kylie. Precisava dele; seus olhos se encheram

de lágrimas. Precisava de um abraço. Precisava de alguém que a compreendesse.

— Nem sempre temos tudo o que queremos, principalmente quando... Meu

Deus, Kylie, como foi fazer isso?

Kylie enxugou as lágrimas do rosto.

— Eu não fiz nada. Não te contaram? Andei em linha reta para provar que não

estava bêbada. Fiz mais um teste de equilíbrio e disse o abecedário de trás pra frente.

Não fiz nada.

— Acharam drogas lá — insinuou a mãe.

— Não usei drogas.

— E sabe o que não acharam lá, senhorita? — prosseguiu a mãe, com o dedo

em riste. — Pais. Você mentiu pra mim.

— Talvez eu tenha puxado a você — disse Kylie, ainda remoendo o

pensamento de que o pai não tinha ido buscá-la. Ele devia saber o quanto ela estava

aborrecida. Por que não foi buscá-la?

— O que você quer dizer com isso, Kylie?

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— Você disse ao papai que não sabia o que tinha acontecido com a cueca dele.

Mas tinha acabado de queimá-la na grelha.

A culpa invadiu os olhos da mãe e ela balançou a cabeça.

— A Dra. Day está certa.

— O que a minha analista tem a ver com o que aconteceu hoje à noite? —

indagou Kylie. — Não vá me dizer que a chamou. Deus do céu, mãe, se ela aparecer

aqui, na frente dos meus amigos...

— Não, ela não vai aparecer. Mas não me refiro apenas a esta noite —

respirou fundo. — Não posso fazer isso sozinha.

— Fazer sozinha o quê? — perguntou Kylie, com uma sensação ruim no

estômago.

— Vou mandá-la para um acampamento de verão.

— Que acampamento? — exclamou Kylie, apertando a bolsa contra o peito.

— Não, não quero ir para acampamento nenhum.

— O que você quer não interessa — empurrou Kylie na direção da porta de

saída. — Interessa é aquilo de que precisa. É um acampamento para jovens

problemáticos.

— Problemáticos? Você pirou de vez? Eu não tenho problemas — insistiu

Kylie. Bem, não do tipo que um acampamento pudesse resolver. Ir para um lugar

desses não traria o pai de volta, não faria o soldado Dude sumir e não faria Trey

voltar com ela.

— Não tem problemas? Então por que estou aqui nesta delegacia, perto da

meia-noite, tirando minha filha de 16 anos da cadeia? Sim, você irá para o

acampamento. Vou fazer sua inscrição amanhã mesmo. Sem discussão.

Não vou — ficou repetindo a frase para si mesma enquanto saíam da

delegacia.

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A mãe podia estar maluca, mas não o pai. Ele de maneira nenhuma deixaria

que a mãe a enviasse para um acampamento cheio de delinquentes juvenis. Não

deixaria...

Ou deixaria?

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Três

Três dias depois, Kylie, de mala na mão, viu-se no estacionamento da ACM,

onde vários ônibus do acampamento recolhiam os delinquentes juvenis. Não podia

acreditar que estava ali. A mãe tinha conseguido... E o pai tinha deixado.

Kylie, que só bebia uns dois golinhos de cerveja, nunca havia realmente

fumado um cigarro — e muito menos um baseado — e, estava prestes a ser

despachada para um acampamento para adolescentes problemáticos.

A mãe tocou seu braço.

— Acho que estão chamando você.

Não poderia haver um jeito mais rápido de a mãe se livrar dela. Kylie evitou o

toque, irritada e tão magoada que já nem sabia o que fazer. Tinha pedido, implorado,

chorado — nada funcionou. Iria para o acampamento. Odiava a ideia, mas não tinha

outra escolha.

Sem dizer uma palavra à mãe e jurando que não choraria na frente de tantas

pessoas, Kylie endireitou o corpo e caminhou para o ônibus atrás da mulher que

empunhava uma placa onde se lia: ACAMPAMENTO SHADOW FALLS.

Droga. Para que tipo de buraco estava sendo levada?

Quando entrou no ônibus, os oito ou nove adolescentes que já estavam lá

ergueram a cabeça e olharam para ela. Sentiu uma coisa estranha no peito e os

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calafrios surgiram novamente. Nunca, em seus dezesseis anos de vida, quis tanto dar

meia-volta e sair correndo. Fez um esforço para se conter e encarou...

Meu Deus, o que era aquilo?

Uma garota tinha pintado os cabelos de três cores diferentes: rosa, preto e

verde-limão. Outra só usava preto — batom preto, sombra preta, calça preta e

camisa de mangas compridas preta. O estilo gótico não tinha saído de moda? Onde

aquela garota se inspirou para se vestir daquele jeito? Não sabia que as cores

vibrantes estavam em alta? Que o azul era o novo preto?

E havia o carinha sentado bem na frente do ônibus. Tinha piercings nas duas

sobrancelhas. Kylie olhou pela janela para ver se a mãe continuava lá. Sem dúvida, se

ela lançasse um olhar para aquelas figuras, saberia que Kylie estava no lugar errado.

— Sente-se — disse alguém às suas costas.

Kylie virou-se e viu que era a motorista. Embora não tivesse reparado antes,

percebeu que ali até a motorista era esquisita. Seus cabelos grisalhos tingidos de

violeta pareciam um capacete de futebol americano. Não que Kylie a censurasse por

deixar as mechas espetadas alguns centímetros. A mulher era baixinha. Nanica. Kylie

olhou para seus pés, quase esperando dar com botas verdes de duende. Mas não,

nada de botas de duende. Olhou para frente do ônibus.

Como aquela mulherzinha conseguia dirigir?

— Vamos, Vamos — disse a nanica. — Tenho que deixar vocês lá na hora do

almoço, portanto vá andando.

Como todos os outros já estavam sentados, Kylie supôs que a mulher estivesse

falando com ela. Deu alguns passos pelo corredor do ônibus, sentindo que sua vida

jamais seria a mesma.

— Pode se sentar aqui comigo — disse uma voz. O garoto tinha cabelos loiros

encaracolados, mais loiros até que os de Kylie, mas os olhos eram tão escuros que

pareciam pretos. Deu uma tapinha no assento vazio ao lado. Kylie tentou não olhar

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muito, mas aquela estranha combinação de claro/escuro era irresistível. Então o

garoto arqueou as sobrancelhas como se... Como se o fato de ela se sentar ao seu lado

significasse que poderiam transar ou coisa parecida.

— Obrigada — Kylie deu mais alguns passos, arrastando a mala, que se

prendeu na fileira de assentos onde estava o garoto. Ela se virou para puxá-la. Seu

olhar se cruzou com o dele e Kylie conteve a respiração. O loiro agora tinha... Olhos

verdes! Olhos verdes brilhantes, muito brilhantes.

Como aquilo era possível?

Engoliu em seco e observou as mãos dele. Talvez estivesse segurando uma

caixinha de lentes de contato, que acabara de trocar... Nenhuma caixinha. O jovem

arqueou de novo as sobrancelhas e, quando ela percebeu que estava olhando para

ele, procurou se apressar para desprender a mala.

Passado o calafrio, seguiu para assento que ela mesma tinha escolhido. Antes

de se sentar, notou outro garoto atrás, sozinho. Esse tinha cabelos castanho claros,

repartidos de lado e descendo quase até as sobrancelhas escuras e os olhos verdes.

Olhos verdes normais, mas a camiseta azul clara do garoto os realçava. Acenou com a

cabeça para Kylie. Nada de muito esquisito, graças a Deus. Pelo menos, havia uma

pessoa normal perto dela no ônibus.

Já sentada, olhou novamente para o carinha loiro. Mas ele não estava olhando

para ela, por isso Kylie não pôde ver se a cor de seus olhos tinha ficado diferente de

novo. Mas então reparou que a garota do cabelo tricolor tinha alguma coisa nas

mãos. Conteve mais uma vez a respiração.

A garota segurava um sapo.

Não uma rã — uma rã ainda seria admissível —, mas um sapo. Um sapo

horroroso e coaxante. Que tipo de menina pintava os cabelos de três cores e levava

um sapo para um acampamento? Que droga, talvez fosse um daqueles sapos com

alucinógeno na pele, que as pessoas lambem para ficar doidonas.

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Tinha ouvido falar deles num seriado de crimes idiota da televisão, mas

sempre achou que fosse bobagem. Não sabia o que era pior: lamber um sapo para

ficar doidona ou carregar um sapo por aí só para parecer extravagante.

Colocando a mala no assento vazio do lado, para que ninguém se sentisse

tentado a ocupá-lo, Kylie suspirou fundo e olhou pela janela. O ônibus ia muito

rápido, embora ela não imaginasse como a motorista conseguia alcançar os pedais.

— Sabe como chamam quem vai para o nosso acampamento? — a voz vinha

do lado do assento onde estava a garota com o sapo.

Kylie supôs que não era com ela, mas ainda assim virou a cabeça. Como a

garota olhava diretamente para o seu rosto, achou que tinha se enganado.

— Quem? — perguntou Kylie, tentando não parecer nem muito simpática

nem muito antissocial. A última coisa que queria era irritar aquelas aberrações.

— Os caras que vão para os outros acampamentos. São seis acampamentos

num raio de cinco quilômetros em Fallen — com as duas mãos, ela repuxou os

cabelos tricolores para a nuca e os manteve assim por alguns segundos.

Kylie notou então que a garota não estava mais com o sapo. E não havia por

perto nenhuma caixa ou coisa semelhante onde ela pudesse ter guardado o bicho.

Era só o que faltava. Dali a pouco um sapo com a pele cheia de alucinógenos poderia

saltar em seu colo num piscar de olhos. Não que os sapos a matassem de medo ou

coisa assim. Só não queria que pulassem em cima dela.

— De “osso duro de roer” — disse a garota.

— Por quê? — Kylie acomodou os pés na beira do assento, no caso de algum

sapo aparecer saltitante por ali.

— O acampamento antes se chamava Bone Creek, que significa Riacho dos

Ossos — explicou a garota —, por causa de uns ossos de dinossauro que acharam no

local.

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— Ah — interrompeu o carinha loiro —, também nos chamam de “osso

duro”...

Ouviram-se risinhos maliciosos nos outros assentos.

— Qual é a graça? — resmungou a garota de preto num tom tão irritado que

Kylie estremeceu.

—Não sabe o que é ter o osso duro? — continuou o Loirinho. — Então vem cá

que eu te explico.

Quando ele se virou, Kylie viu de novo seus olhos. Mãe do Céu! Estavam

dourados, da cor dos olhos de um felino. Lentes de contato “radicais”, sem dúvida. Só

lentes poderiam produzir um efeito daqueles.

A Garota Gótica se levantou como se fosse sentar ao lado do loiro.

— Não faça isso — disse para Garota do Sapo, sem o sapo, levantando-se

também e cruzando o corredor até a Garota Gótica, para sussurrar alguma coisa em

seu ouvido.

— Que merda! — a Garota Gótica voltou a se sentar. Em seguida, olhou para

o Loirinho e lhe apontou uma unha pintada de preto. — Nem pense em me

aborrecer. Como coisas maiores que você na calada da noite.

— Alguém aí falou em calada da noite? — a voz vinha dos fundos do ônibus.

Kylie se virou para ver de quem era a voz. Outra garota, em quem Kylie não

tinha reparado, levantou-se. Tinha cabelos muito pretos e usava óculos de sol quase

da mesma cor. Sua pele é que a fazia parecer anormal. Pálida. Sem cor.

— Vocês sabem por que mudaram o nome do acampamento para

acampamento Shadow Falls? — perguntou a Garota do Sapo.

— Não — disse alguém na frente do ônibus.

— Por causa da lenda indígena de que, no crepúsculo, se você ficar de pé

debaixo da cachoeira, pode ver as sombras dos anjos da morte dançando.

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Anjos da morte dançando?

O que havia de errado com aquela gente? Kylie agitou-se no assento. Seria um

pesadelo? Talvez parte de seus terrores noturnos? Afundou-se no estofamento macio

e tentou acordar dos sonhos do jeito que a Dra. Day tinha ensinado.

Concentração. Concentração.

Inspirou fundo pelo nariz e expirou pela boca — cantarolando baixinho, ao

mesmo tempo, É apenas um sonho, não é real, não existe. Ou não estava dormindo

ou sua concentração tinha embarcado no ônibus errado. Preferia muito mais sonhar

num ônibus diferente. Ainda incapaz de acreditar nos próprios olhos, começou a

observar os outros passageiros. O Loirinho se virou para ela e suas pupilas eram

negras de novo.

De arrepiar.

Ninguém mais ali percebia que aquilo não era normal?

Virando-se de novo no assento, olhou para o garoto que havia considerado o

mais normal de todos. Seus suaves olhos verdes, que lembravam os de Trey,

encontraram-se com os dela. Em seguida, ele encolheu os ombros. Kylie não sabia

exatamente o que significava o gesto, mas de fato o garoto não parecia nada esquisito

— o que, de certo modo, o tornava tão esquisito quanto os demais. Kylie se recostou

no banco e, tirando o celular da bolsa, começou a digitar uma mensagem para Sara.

Ajude-me! Enfiada num ônibus cheio de monstros. Monstros de verdade!

Kylie recebeu a resposta de Sara quase imediatamente:

Não, você é que precisa me ajudar. Acho que estou grávida.

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Quatro

— Que droga! — Kylie olhou novamente para a mensagem de texto

imaginando que ela fosse desaparecer ou esperando que uma “brincadeirinha” fosse

aparecer num passe de mágica no final. Nada desapareceu nem apareceu. Não era

uma brincadeirinha.

Mas espere um pouco. Sara não podia estar grávida. Isso não acontecia com

garotas como ela. Garotas espertas... Garotas que... Ah, bobagem! Isso acontece com

qualquer garota que transa sem camisinha. Ou transa com camisinha vagabunda.

Como poderia esquecer aquele filminho da escola que a mãe lhe recomendou?

Ou os folhetos que a mãe tinha levado para casa e, sem nenhuma cerimônia, deixado

sobre o travesseiro de Kylie como se fossem biscoitinhos para a hora de dormir?

Um balde de água fria. Kylie voltava para casa depois de um dos encontros

mais quentes com Trey, querendo reviver o melhor dos beijos excitantes e das

carícias ousadas, apenas para se deparar com estatísticas de gravidez e doenças

venéreas indesejadas. E a mãe sabia que Kylie só dormia depois de ler um pouco.

Naquela noite, não houve doces sonhos.

— Más notícias? — perguntou alguém.

Kylie ergueu a cabeça e viu á Garota do Sapo ocupando o assento vizinho do

outro lado do corredor, com as pernas junto ao peito e o queixo sobre os joelhos.

— Hum... Sim... Não. Quer dizer... — queria dizer que aquilo não era da conta

dela, mas ser grossa nunca foi seu forte. Bem, a menos que a pessoa realmente

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pisasse nos seus calos, calos que sua mãe parecia conhecer muito bem. Sara tinha

dado à incapacidade de Kylie de ser mal-educada o nome de síndrome da “boa

moça”. A mãe chamaria de boas maneiras; mas, como era mestra em causar reações

explosivas em Kylie, achava que a filha tinha lá suas falhas nesse departamento.

Kylie fechou apressadamente o celular para o caso de a Garota do Sapo ter

uma visão aguçada demais. Mas concluiu que devia se preocupar mais com a visão

aguçada do carinha loiro, com seus... Virou-se para o lado dele — e ele a olhava com

olhos... Azuis! Bem, pelo menos uma coisa estava clara: nada ali poderia ficar mais

esquisito do que já era.

— Sério, não é nada — disse, forçando-se a olhar para a Garota do Sapo sem

reparar em seus cabelos multicoloridos. O ônibus freou de repente e a mala de Kylie

caiu no chão. Ciente de que o loiro continuava de olho e com receio de que o assento

vazio fosse um convite para ele se aproximar, apressou-se a recolocar a mala na

poltrona.

— Meu nome é Miranda — sorriu a garota.

Kylie notou então que, tirando o cabelo e o sapo de estimação, ela parecia

bem normal. Kylie se apresentou, olhando rapidamente para confirmar que não

havia ali nenhum sapo.

— É a sua primeira vez em Shadow Falls? — perguntou Miranda.

Kylie assentiu com a cabeça.

— A sua também? — fez a pergunta por mera educação e olhou de novo para

o celular, que ainda apertava contra a barriga. Precisava responder à mensagem de

Sara, dizendo... Meu Deus, o que iria dizer a Sara? O que é que se diz à melhor amiga

depois de ouvir que ela talvez esteja...

— Não, esta é minha segunda vez — Miranda puxou os cabelos para cima e os

enrolou no alto da cabeça. — Não sei por que me querem de volta lá. A primeira vez

não me ajudou em nada.

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