Nascida à Meia-Noite - (Saga Acampamento Shadow Falls,1) por C.C. Hunter - Versão HTML

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Kylie desistiu de redigir mentalmente o texto e fixou os olhos castanhos da

garota — olhos que ainda não haviam mudado de cor. Curiosa, perguntou, quase

gaguejando:

— E como... Como é lá? O acampamento, quero dizer. Não me diga que é

uma droga.

— Não chega a ser terrível — soltou os cabelos, que desabaram em volta de

sua cabeça como ondas negras, rosa e verde-limão. Em seguida, olhou para o fundo

do ônibus, onde a garota pálida, agora de pé, inclinava-se para frente como se

estivesse ouvindo algo. — Quer dizer, se você não tem medo de ver sangue —

completou, num sussurro.

Kylie deu um sorrisinho, esperando sem muita convicção que Miranda fizesse

o mesmo. Mas não. Miranda nem sequer moveu os lábios.

— Você está brincando, né? — o coração de Kylie deu cambalhotas no peito.

—Não, não estou, não — garantiu ela, muito séria. — Mas talvez tenha

exagerado um pouco.

Alguém limpou a garganta tão alto que o som ecoou pelo ônibus. Kylie olhou

para frente e deu com a motorista espiando pelo retrovisor. Kylie teve a estranha

sensação de que o alvo daquele olhar era ela e Miranda.

— Pare com isso! — exclamou Miranda em voz baixa, tapando os ouvidos

com as mãos. — Eu não te convidei!

— Parar com o quê? — perguntou Kylie. O comportamento bizarro da garota

fez com que ela se afastasse um pouco. — Não me convidou para o quê?

Miranda não respondeu; correu para frente do ônibus e voltou em seguida.

Então Kylie chegou à conclusão de que estava errada: errada na conclusão de que as

coisas não podiam piorar.

Podiam, sim. E pioraram.

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Não chega a ser terrível. Quer dizer se você não tem medo de ver sangue.

As palavras de Miranda vibravam como música de filme de terror na cabeça

de Kylie. Certo, a garota admitiu ter exagerado, mas convenhamos... Mesmo um

pouquinho de sangue já é demais.

Para que espécie de inferno minha mãe está me mandando? — perguntou a si

mesma, talvez pela centésima vez desde que entraram no ônibus.

Nesse momento seu celular tocou e um texto apareceu na tela. Sara, de novo.

Por favor, não diga nada... Você já disse.

Kylie deixou de lado seus próprios problemas para pensar somente na melhor

amiga. Os últimos meses talvez tivessem sido ruins, mas as duas eram amigas desde

o quinto ano. Sara precisava dela.

Começou a digitar.

Fl sério, nem pensei nisso! Não sei o q dizer. Vc tá ok? Seus pais sabem? Vc sabe

quem é o pai?

Apagou a última pergunta. Sara sabia quem era o pai, é claro. Um dos três

garotos, obviamente. A menos que tivesse mentido sobre o que tinha feito com os

dois últimos namorados.

Ah, meu Deus, Kylie só conseguia pensar na melhor amiga. Mesmo

considerando as terríveis circunstâncias em que se encontrava — o divórcio dos pais,

a morte da avó e a perspectiva de ficar acampada com um bando de gente esquisita

no “sangrento” Shadow Falls —, a situação de Sara era pior.

Dali a dois meses, por pior que pudessem estar as coisas, Kylie estaria de novo

em casa. Então, esperava, já teria superado o choque de perder o pai e a avó. Além

disso, no fim do verão, talvez o soldado Dude não mais se interessasse por ela,

desaparecendo para sempre. Mas, em dois meses, Sara estaria com a barriga do

tamanho de uma bola de basquete.

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Será que Sara voltaria para a escola?

Nossa, isso ia ser bem constrangedor. Para Sara, aparência era... Tudo! Se

sombra azul estivesse na moda, podia apostar que Sara apareceria com sombra azul

antes do final da semana. Caramba, ela perdeu vários dias de aula só porque uma

espinha apareceu na ponta do seu nariz! Não que Kylie gostasse de ir à escola com

uma espinha gigante na cara, mas, fala sério, uma “espinhazinha” todo mundo tem

de vez em quando. Mas grávida nem todo mundo fica.

Kylie mal podia imaginar o que Sara estaria enfrentando.

Releu o texto, acrescentou um coraçãozinho e enviou. Enquanto aguardava a

resposta de Sara, concluiu que nunca tinha se sentido tão feliz quanto agora por não

ter transado com Trey.

— Dez minutos para ir ao banheiro — anunciou a motorista do ônibus.

Kylie ergueu os olhos do celular e viu a loja de conveniência. Não estava

apertada, mas, como não sabia quanto tempo ainda duraria a viagem, guardou o

celular na bolsa e se levantou para seguir os demais. Mal deu dois passos e alguém a

segurou pelo braço. Uma mão gelada.

Kylie estremeceu e se virou.

A garota pálida olhava fixamente para ela. Ou, pelo menos, foi o que

imaginou. Com aqueles óculos de sol quase pretos não dava para ter certeza.

— Você está quente — disse a garota, como que surpresa.

— E você está fria — retrucou Kylie, soltando o braço.

— Nove minutos — insistiu a motorista com voz firme, apressando Kylie.

Desceu do ônibus, sentindo o olhar da Garota Pálida às suas costas.

Aberrações. Teria de aguentar aquelas aberrações durante todo o verão. Aberrações

geladas. Tocou o braço no lugar onde a garota o segurara e podia jurar que o frio

continuava lá.

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Cinco minutos depois, bexiga vazia, voltava para o ônibus quando viu dois

garotos comprando bebidas. A Garota Gótica virou-se para ela, no começo da fila.

Então o cara dos piercings, que se sentava na frente, passou bem perto de Kylie sem

dizer uma palavra. Kylie resolveu comprar chicletes e, depois de encontrar seu sabor

favorito, entrou na fila. Ao ouvir alguém se aproximando às suas costas, voltou-se

para ver se era a Garota Pálida de novo. Não, era o garoto dos fundos, o de suaves

olhos verdes e cabelos castanhos. O que lembrava Trey.

Seus olhares se encontraram. E ficaram assim por algum tempo.

Kylie não sabia muito bem por que ele a fazia se lembrar de Trey. Sem dúvida

os olhos eram parecidos, mas havia algo mais. Talvez o modo como a camiseta caía

sobre os ombros e aquele ar de... Distanciamento. Trey não tinha sido a pessoa mais

fácil que ela conhecera. Se os dois não tivessem sido escolhidos para serem parceiros

de laboratório na aula de ciência, muito provavelmente jamais teriam namorado.

Alguma coisa naquele garoto também parecia difícil de entender.

Especialmente porque ele nunca falava. Kylie já ia lhe dando as costas quando ele

arqueou as sobrancelhas numa espécie de saudação breve. Seguindo seu exemplo,

arqueou também as suas e só então se virou. Logo adiante, Miranda e a Garota Pálida

conversavam junto à porta, olhando diretamente para Kylie.

Estariam tramando algo contra ela?

— Só me faltava essa — murmurou.

— Estão apenas curiosas — sussurrou uma voz tão perto de seu ouvido que

ela sentiu o calor das palavras no pescoço.

Olhou por cima do ombro. Assim tão de perto, podia ver realmente seus olhos

e descobriu que tinha se enganado. Não eram os olhos de Trey. Esse garoto tinha

pequenas estrias douradas em volta das pupilas.

— Curiosas a respeito de quê? — perguntou Kylie, procurando não encará-lo.

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— De você. Estão curiosas para saber quem você é. Talvez, se abrisse um

pouco mais...

— Se eu me abrisse? — essa é boa. Vinha se esforçando para se convencer de

que ele era normal e agora o garoto começava a agir como se fosse ela a antissocial.

— As únicas pessoas que falaram comigo foram o loiro. Miranda e a outra... E tratei

todos bem.

O garoto arqueou para ela a outra sobrancelha. E, por algum motivo, aquilo a

irritou.

— Você tem um tique nervoso ou coisa parecida? — perguntou e logo mordeu

a língua. Talvez estivesse superando a síndrome da “boa moça”.

Sara ficaria orgulhosa. Já a mãe... Bem, nem tanto.

A mãe.

A imagem da mãe de pé no estacionamento cruzou o cérebro de Kylie.

— Acho que você não sabe... — prosseguiu ele. Seus olhos se arregalaram,

fazendo com que as estrias douradas parecessem faiscar.

— Não sei o quê? — perguntou Kylie, mas toda a sua mente estava

concentrada na mãe. No fato de ela nem sequer ter-lhe dado um abraço de

despedida. Como pôde fazer isso com a filha? Por que seus pais haviam decidido se

separar? Por que coisas assim tinham que acontecer? O nó na garganta que ela tanto

conhecia começou a se formar.

O garoto olhou para a porta e, acompanhando seu olhar, Kylie constatou que

Miranda e a Garota Pálida ainda estavam lá. Os três já teriam frequentado o

acampamento? Eram amiguinhos e ela a grande novidade do dia? A novata de quem

iam pegar no pé?

A mulher do caixa resmungou:

— E, então, vai pagar os chicletes?

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Kylie se virou, depositou o dinheiro no balcão e saiu sem pegar o troco.

Passou de queixo erguido por Miranda e a outra garota, sem piscar. Não piscou com

receio de que o tremor das pálpebras abrisse caminho para as lágrimas.

Não que a atitude arrogante daqueles caras a fizesse querer chorar. Queria

chorar por causa da mãe, do pai, da avó, de Trey, do soldado Dude e, agora, de Sara.

Pouco importava se aquelas aberrações gostassem dela ou não.

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Cinco

Uma hora depois, o ônibus entrava num estacionamento. Kylie avistou a placa

“Shadow Falls” logo adiante. O medo fez seu estômago se contrair. Olhou em volta,

quase surpresa por não ver cercas de arame e um portão com cadeado. Afinal, os

hóspedes eram considerados adolescentes “problemáticos”

Ouviu o motor sendo desligado. A motorista saltou do banco e estirou os

bracinhos curtos sobre a cabeça. Kylie ainda não sabia como ela alcançava os pedais.

— Somos o último ônibus a chegar, minha gente — disse a baixinha.

— Estão todos esperando no refeitório. Deixem suas coisas no ônibus que

alguém irá levá-las para suas cabanas.

Kylie olhou para sua mala. Não tinha posto etiqueta. Como saberiam que era

dela? Resposta fácil: não saberiam. Droga, se levasse a bagagem com ela correria o

risco de arranjar encrenca por não seguir as regras; se não levasse, poderia perder

todas as suas roupas.

Não, as roupas ela não perderia. Pegou a mala.

— Eles levam para você — disse Miranda.

— Não tem meu nome — explicou Kylie, tentando não ser rude.

— Eles vão descobrir. Vai por mim — garantiu Miranda, querendo ser

simpática.

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Mas Kylie iria acreditar nela?

Claro que não.

De repente, o garoto de olhos verdes parecido com Trey avançou pelo

corredor.

— Pode acreditar — disse.

Kylie o encarou. Não punha fé em Miranda, mas algo naquele garoto inspirava

confiança. Ele vasculhou os bolsos, tirou dali algumas moedas e as colocou nas mãos

de Kylie.

— Com licença — disse a Garota Gótica, passando à frente de Miranda.

Kylie olhou para as moedas.

— Seu troco da loja — o garoto lhe fez sinal para que passasse na frente dele

no corredor.

Kylie pôs o dinheiro na bolsa e se dirigiu para a saída. Os passos dele vinham

logo atrás. Estava bem atrás dela. Sentia-o se aproximar cada vez mais, tocando-a

com o ombro.

— Ah, se me permite, meu nome é Derek.

Atenta àquela voz profunda atrás de si, não viu o Loirinho saltar para o

corredor. Caminhando a passos curtos, concluiu que tinha duas chances. Avançar até

o Loirinho ou recuar para Derek. Escolha fácil: as mãos de Derek pegaram-na pelos

braços e seus dedos pressionaram sua pele nua logo acima dos pulsos.

Ela olhou por cima do ombro e seus olhares se encontraram. Ele sorriu.

—Está tudo bem?

Sorriso maravilhoso. Como o de Trey. O coração de Kylie deu um pequeno

salto. Meu Deus, ela tinha perdido Trey!

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— Está, sim — afastou-se, mas não sem antes sentir bem o toque quente de

Derek. Por que aquilo parecia importante, não sabia; mas o toque gelado da garota

pálida havia deixado uma impressão igualmente estranha.

Saíram do ônibus e se encaminharam para uma vasta estrutura semelhante a

um grande galpão. Antes de entrar, ela ouviu uma espécie de rugido. Como o de um

leão. Parou para ouvir de novo e Derek se aproximou.

— É melhor entrar — aconselhou ele num sussurro.

O estômago de Kylie se revirou de medo. Ao ultrapassar a soleira, sentiu que,

de algum modo, sua vida mudaria para sempre.

Cerca de cinquenta ou sessenta pessoas enchiam o enorme salão do refeitório

com suas grandes mesas de piquenique, paralelas umas às outras. No ar, um cheiro

de carne de porco com feijão e hambúrgueres fritos. Alguns jovens estavam sentados,

outros de pé.

Havia ali alguma coisa estranha, fora de lugar. Depois de um minuto, Kylie

descobriu o que era. O silêncio. Ninguém falava. Se aquela fosse a lanchonete da sua

escola, Kylie não conseguiria ouvir nem sequer o que estivesse pensando. E era o que

todos pareciam estar fazendo: pensando.

Um olhar rápido para a multidão convenceu Kylie mais uma vez de que estava

no lugar errado. Havia por ali muito do que sua mãe chamaria de “indícios de

rebelião”. Kylie também se rebelava, é certo. Mas fazia isso de maneira menos

ostensiva: não com roupas ou coisa parecida e sim com o seu ambiente. Como

quando ela e Sara tinham pintado seu quarto de roxo, sem permissão. A mãe surtou.

Já para aqueles jovens não bastava pintar quartos, eles exibiam sua rebeldia às

claras. Por exemplo, Miranda com seus cabelos coloridos ou o garoto do ônibus com

suas argolas no nariz e piercings. Observando bem o local, Kylie percebeu dois caras

tatuados e de cabeças raspadas. E havia mais gente com trajes góticos. Sem dúvida, o

preto não tinha saído de moda entre os adolescentes perturbados.

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Uma sensação ruim deslizou pela espinha de Kylie. Talvez tivesse convivido

com Sara por tempo demais, mas a verdade era que, obviamente, não pertencia

àquele lugar. Mas, ao contrário de Sara, não fazia nenhuma questão de se entrosar

com aquela gente.

Dois meses, dois meses — repetia para si mesma essas palavras como uma

ladainha. Em dois meses, estaria longe dali.

Kylie seguiu o Loiro até uma mesa vazia nos fundos. E ao chegar, constatou

que todos os seus companheiros de viagem haviam se reunido. Não é que se sentisse

parte do grupo; nem sequer tinha olhado para alguns deles — mas, convenhamos,

mais vale um esquisitão conhecido do que um desconhecido.

Subitamente, Kylie sentiu que as pessoas se viravam para olhá-la. Ou para

olhar todo mundo? Os novatos estavam em exposição. Os olhares do grupo se

transformaram numa série de espiadelas frias com íris de cores diferentes, mas

expressões semelhantes e muito franzir de sobrancelhas.

Perplexa, olhou para Derek, depois para Miranda e até para a Garota Pálida e

o Loirinho. Eles também estavam olhando para ela. Franziu a testa. Não de maneira

grotesca nem tão espalhafatosa quanto Sara ao revirar os olhos e franzir a testa,

apenas uma ligeira contração. Como Derek tinha feito na loja de conveniência.

O que estava acontecendo com as sobrancelhas daquela gente?

Observando de novo a multidão e esforçando-se para não baixar a cabeça,

procurou encará-los, ia enfrentá-los. Não queria ser a coitadinha. Aquela que sempre

ficava por baixo. E se isso a tornava parecida com Sara, que fosse.

— Parece que estamos todos aqui — disse uma voz feminina lá na frente.

Kylie tentou descobrir o rosto por trás da voz, mas seu olhar se chocou com

outro — um olhar frio, brilhante, vindo de uns olhos azuis que de algum modo se

destacavam do resto. Tentando não se fixar só nos olhos, Kylie reparou nos cabelos

pretíssimos do garoto. Eram daquela cor mesmo, lembrava-se. Lembrava-se dele.

Lembrava-se... Do seu gato.

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— Não pode ser — murmurou baixinho.

— O que é que não pode ser? — perguntou Derek.

— Nada — Kylie se obrigou a olhar para frente, onde a mulher falava como se

estivesse cantarolando.

— Bem-vindos ao Acampamento Shadow Falls. Nós...

A mulher, provavelmente na casa dos vinte anos, tinha longos cabelos ruivos

que chegavam quase até a cintura. Vestia calça jeans e camiseta amarela berrante. A

seu lado, estava outra mulher mais ou menos da mesma idade, mas, Deus do céu, era

gótica! Toda de preto. Até os olhos pareciam pretos. Alguém ali devia, realmente,

assinar uma ou duas revistas de moda.

Kylie observou a Garota Gótica do ônibus — que, por sua vez, observava a

Mulher Gótica com admiração.

— Meu nome é Holiday Brandon e esta é Sky Peacemaker.

Nesse momento a porta se abriu e dois homens entraram. Tinham todo o jeito

de ser advogados ou de alguma outra profissão séria que exigia trajes escuros. Kylie

notou que as duas mulheres, lá na frente, estremeceram ao ver os visitantes. Teve a

impressão de que aqueles dois não eram esperados. De que nem sequer eram bem-

vindos.

Sky, a líder gótica, adiantou-se e levou os recém-chegados para fora, enquanto

Holiday continuava com sua voz cantarolante:

— Muito bem. Primeiro, vamos separar os novatos dos veteranos. Quem já

esteve aqui antes vá lá para fora. Vocês encontrarão assistentes com seus horários e

os números das cabanas. Como sempre, as regras estão expostas em todos os

alojamentos. Esperamos que as leiam. E que uma coisa fique clara desde já: não

vamos trocar ninguém de cabana. Vocês estão aqui para obedecer e farão isso. Se

surgir algum problema sério, falem comigo ou com a Sky; discutiremos o assunto,

mas não antes de 24 horas. Perguntas?

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Alguém da frente levantou a mão.

— Sim — uma voz feminina ecoou pela sala —, quero perguntar uma coisa.

Kylie se inclinou para a direita a fim de ver a garota. Esta, outra gótica, virou-

se para Kylie.

— Não tem nada a ver com as regras, mas... Gostaria de saber quem é essa

garota — e apontou... Diretamente para a mesa onde Kylie estava. Seria para Kylie?

Não, não podia ser.

Mas, que droga, era! Ela estava apontando diretamente para Kylie.

— Merda! — sussurrou, enquanto uns sessenta pares de olhos se voltavam ao

mesmo tempo para encará-la.

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Seis

— Relaxe — disse Derek em voz tão baixa que, Kylie teve certeza, ninguém

mais ouviu. Nem mesmo ela tinha conseguido ouvir direito por causa das batidas do

seu próprio coração.

— As apresentações serão feitas na hora do almoço — disse uma voz

feminina. Kylie achou que era Holiday de novo, mas não tinha certeza. Todos

continuavam olhando. Olhando para ela. Sua mente e seu coração dispararam. Sons

confusos retiniram em seus ouvidos.

Desviou o olhar para a porta, lutando contra a vontade de sair correndo.

Correndo para valer. Mas não, nunca tinha sido boa na corrida e muitas aberrações

estavam entre ela e a saída. Então, coisa curiosa, lembrou-se de algo que ouvira sobre

os animais selvagens. Se você corre, eles pensam que você é o seu jantar e irão

persegui-lo.

Duas vezes merda!

Tudo bem, é só respirar fundo. De novo. Seus pulmões se dilataram. Aqueles

não eram animais selvagens, apenas adolescentes desajustados. Nesse instante, o

celular de Kylie tocou anunciando nova mensagem. Provavelmente Sara. Kylie

ignorou. E, pela primeira vez, achou que talvez tivesse errado ao considerar a

situação da amiga pior que a sua. Não estava cem por cento certa disso, mas algo lá

no fundo lhe dizia que aquilo não era o mesmo que ir a uma festinha do Mark

Jameson.

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Mas o que mais podia ser? E por quê? Por que, entre tanta gente estranha na

sala, ela tinha sido escolhida? Era porque não arqueava as sobrancelhas? Ora, podia

fazer isso tão bem quanto qualquer pessoa. Aliás, começaria a praticar logo que

ficasse sozinha. O problema era que não entendia bem o significado do gesto. Seria a

versão de Shadow Falls de um aperto de mão secreto?

— Vamos, vamos com isso! — retomou a voz cantarolante. — Veteranos, para

fora. Novatos, fiquem onde estão.

Kylie sentiu um ligeiro alívio quando as pessoas pararam de olhá-la e

ameaçaram a se movimentar, pegando bolsas e mochilas. Ou pelo menos algumas

pararam. Kylie virou-se para a direita e notou que o garoto de cabelos pretos e olhos

azuis brilhantes continuava imóvel, olhando para ela. Lucas Parker... Lembrou-se do

nome, embora já houvesse passado muito tempo desde que o vira pela última vez.

Graças a Deus foram embora — lembrava-se das palavras do pai. Podem ter

certeza, aquele garoto ainda será um serial killer.

Kylie sentiu o coração se comprimir e estremeceu. Haveria mesmo um

possível assassino no acampamento? Seria mesmo ele? Bem, talvez estivesse

enganada. Que droga! Já fazia uns dez anos. Calafrios percorreram sua espinha.

Então o garoto se virou e foi se juntar ao grupo dos veteranos que saíam.

Miranda deu alguns passos, parando diante de Kylie.

— Boa sorte — disse. Kylie não sabia se ela estava zombando ou falando sério,

então respondeu apenas com um aceno de cabeça.

O garoto loiro, vindo logo atrás, riu para Kylie.

— Eu não queria estar no seu lugar — disse em tom de brincadeira e saiu

atrás de Miranda.

Firmando os joelhos para não desabar, Kylie só voltou a si quando pelo menos

metade da turma já tinha saído. De seus conhecidos do ônibus, só ficaram a Garota

Pálida, a Garota Gótica, Derek e o sujeito dos piercings.

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— Muito bem — disse Holiday. — Agora, quem souber por que está aqui vá

para a esquerda. Quem não souber, para a direita.

Kylie se lembrou de ter sentido que aquilo era pior do que ir para a delegacia e

começou a se movimentar para a direita; mas, vendo que todos se dirigiam para a

esquerda e não querendo ser de novo o alvo de todos os olhares, foi para junto de

Derek.

Ele lhe lançou um olhar incrédulo. Decidida a praticar a “coisa das

sobrancelhas”, Kylie franziu a testa. Notou então que apenas quatro pessoas haviam

se dirigido para o lado direito da sala. Uma delas era o sujeito dos piercings. Holiday

examinou os dois grupos e Sky, entrando, ficou ao lado da líder de cabelos ruivos.

— Os da direita venham comigo. Sky conversará com os outros.

Holiday deu alguns passos e parou, olhando por cima do ombro. E, fixando

Kylie diretamente, disse:

— Acompanhe-me, Kylie.

Espantada pelo fato de a mulher saber seu nome, balançou a cabeça.

— Sei por que estou aqui — mentiu.

— Sabe mesmo? — perguntou Holiday.

Decidida a ir até o fim, respondeu:

— Fui pega numa festa onde havia drogas.

Risinhos chegaram aos ouvidos de Kylie. Holiday fez cara feia para os

gozadores e com um gesto ordenou que Kylie a seguisse.

— Será porque meus pais vão se divorciar? — indagou então, desesperada.

Holiday não disse nada e nem precisava. O olhar que lançou a Kylie era o

mesmo olhar “não discuta” da mãe. E a única vez que Kylie discutiu, ficou de castigo

por um mês. Seguiu então Holiday e cruzou a porta com as outras quatro pessoas.

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Quando passaram pelo grupo que já estava lá fora, Kylie percebeu que todos

os olhares se voltavam para ela. Miranda acenou e murmurou “boa sorte”. Por algum

motivo, Kylie suspeitou que as intenções da garota talvez fossem verdadeiras.

Percebeu, em seguida, Lucas Parker ao lado da garota gótica que há pouco

tinha levantado a mão para perguntar sobre ela. Suas cabeças estavam muito

próximas e os dois sussurravam, olhando para Kylie como se ela fosse uma estranha

no ninho. Kylie não podia deixar de concordar com eles. Notou então que Lucas

também estava usando roupas góticas. Pelo menos, sua camiseta era preta — e lhe

caía perfeitamente, ajustando-se como uma luva à parte superior do peito esbelto,

mas musculoso. Que injustiça, os garotos não precisavam seguir a moda para parecer

bem!

Ao se dar conta de que estava olhando demais para os músculos de Lucas e de

que a garota gótica tinha nos lábios um sorriso malévolo, virou-se para o outro lado e

fingiu que não tinha notado aquela reação. Ah, se pudesse fingir que nada daquilo

estava acontecendo! Nesse instante, o sujeito dos piercings emparelhou-se com ela.

Kylie olhou para ele e tentou sorrir.

Podiam ser estranhos, mas pelo menos tinham vindo no mesmo ônibus e ele

parecia tão perdido quanto ela. Ele se inclinou para Kylie:

—Você não trouxe drogas, trouxe?

Kylie ficou de queixo caído, chocada e mortificada. Atire em mim, acabe

comigo de uma vez por causa de seu pequeno deslize no refeitório, agora todo

mundo a considerava uma drogada.

Holiday, cabelos ruivos cascateando pelas costas, os levou para uma pequena

cabine, logo atrás do refeitório. Do portal de madeira, pendia uma placa com os

dizeres ESCRITÓRIO DO ACAMPAMENTO. Kylie e os outros quatro a seguiram até

um recinto nos fundos que mais parecia uma sala de aula.

—Sentem-se, garotos — e Holiday se debruçou sobre a mesa da frente,

aguardando que todos se acomodassem.

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A mulher não tirava os olhos dela um instante, como se Kylie estivesse

pensando em fugir. E, para crédito de Holiday, essa ideia realmente havia lhe

ocorrido mais de uma vez. Por isso mesmo tinha se sentado na cadeira mais próxima

da porta. Alguma coisa, porém, a impedia de dar o fora, além do fato de nunca ter

sido muito boa em corridas. Sem falar no medo de ser apanhada tentando fugir.

Curiosidade.

Por motivos que desconhecia, Kylie pressentia que Holiday sem dúvida iria

explicar o que estava acontecendo. E Kylie precisava desesperadamente de uma

explicação.

— Muito bem — começou Holiday, oferecendo a todos um sorriso que

pretendia ser tranquilizador. Mas só um sorriso não tranquilizaria Kylie. — O que

vou dizer será um alívio para muitos de vocês, pois, lá no fundo, já sabem que têm

algo... Diferente. Alguns souberam disso a vida toda e outros só encontraram seu

destino há pouco tempo; mas, seja como for, o que vou dizer talvez pareça chocante

— os olhos de Holiday se desviaram para Kylie. — Vocês, meninos e meninas, estão

aqui porque são especiais. Talentosos.

Holiday fez uma pausa e Kylie esperou que alguém arriscasse a pergunta.

Como ninguém disse nada, ela própria arriscou:

— Defina “especial”.

— Todos já lemos sobre criaturas sobrenaturais, lendárias, e desde a infância

nos dizem que elas não existem. Mas, na verdade, existem, sim. Neste mundo, nem

todos são iguais. Alguns são muito diferentes dos outros. Alguns nasceram assim,

outros foram transformados. Mas, não importa o que aconteceu a vocês, se estão

aqui é porque este é o seu destino. Um destino escolhido por vocês mesmos.

— Espere um pouco — disse Kylie sem poder se conter. — Está querendo

dizer que... Que coisas como... Como...

— Os vampiros existem? — perguntou o carinha dos piercings. — Ai, que

merda! Eu sabia que não era maluco. Por isso fiquei tão doente.

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Kylie se esforçou para não rir. Ela tinha a intenção de falar em anjos ou coisas

assim, mas aquilo... Era pura bobagem. O garoto sem dúvida tinha se entupido de

drogas. Ninguém ignorava que... Vampiros e besteiras do gênero não existiam.

Aguardou que Holiday corrigisse o sujeito. Mas esperava algo mais. Durante

essa segunda pausa, Kylie lembrou-se de como era frio o toque da Garota Pálida,

lembrou-se do Loiro mudando o tempo todo a cor dos olhos. Lembrou-se do sapo de

Miranda que desapareceu. Não. Não comece com isso...

— Você está certo, Jonathon — assegurou Holiday. — Os vampiros existem.

E, sim, você se transformou num deles a semana passada.

— Eu sabia que não eram apenas sonhos — disse a outra garota. — O lobo

com que sonhei... Parecia tão real!

Holiday assentiu.

— Não — Kylie levantou a mão e sacudiu a cabeça com tanta força que seus

cabelos louros lhe golpearam o rosto dos dois lados. — Não posso acreditar nisso

Holiday fitou-a.

— Não estou surpresa, Kylie, com sua incredulidade.

— O que eu sou? — interrompeu outra garota de cabelos amarelos.

O que eu sou?

A pergunta intrigou Kylie. Não que ela própria tivesse a menor vontade de

fazê-la. Não acreditava naquelas bobagens. Eu não acre...

Holiday lançou um sorriso amistoso para a garota.

— Sua mãe biológica foi uma fada. Você tem o dom da cura. E acho que já

sabia disso.

Os olhos da garota se arregalaram com o que parecia uma sensação de alívio.

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— Sim, curei minha irmãzinha, não foi? Meus pais pensaram que eu estava

louca — disse ela. — Mas sei que fiz aquilo. Eu soube no momento em que

aconteceu.

Holiday a olhou, compreensiva.

— Essa é, muitas vezes, a pior parte. Saber o que sabemos sem poder

compartilhar com ninguém. Infelizmente, poucas criaturas humanas comuns nos

aceitam como somos. É também por isso que você está aqui: para aprender a usar

seus dons e viver num mundo normal.

A cabeça de Kylie dava voltas. Lembrou-se das coisas estranhas que vinham

acontecendo — o reaparecimento dos terrores noturnos e... O soldado Dude, o cara

que só ela conseguia ver. O pânico começou a confundir sua lógica. Fechou os olhos

e tentou desesperadamente acordar. Aquilo só podia ser um sonho.

— Kylie? — a voz de Holiday a fez abrir os olhos. — Sei que, para você, isso é

difícil de aceitar.

— Mais que difícil. Impossível. Não acredito...

— Mas tem medo de perguntar, não é? Medo de perguntar por que está aqui,

pois, lá no fundo, sabe que pertence a este lugar.

O que sei é que meu pai e minha mãe não me querem... Por isso estou aqui.

— Eu não deveria ter vindo — disparou Kylie. — Nunca sonhei com lobos. O

que tenho são terrores noturnos. Mal consigo me lembrar do que sonho. Não fui

mordida por um morcego e não curei ninguém.

— Vampiros e lobisomens não são as únicas criaturas sobrenaturais que

existem — Holiday fez uma pausa e pressionou as mãos contra o peito. — O que

você quer, Kylie? Provas?

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Sete

— Sim, provas seriam bem-vindas — concordou Kylie, incapaz de tirar o

sarcasmo da voz. — Mas você vai me dizer, com certeza, que provas não poderá me

dar, certo? Vai fazer um pequeno discurso sobre a necessidade de acreditarmos

nessas coisas de qualquer jeito, não é?

— Não, na verdade estava pensando mesmo em lhe dar uma prova — a voz de

Holiday exibia uma estranha calma, que fez Kylie respirar fundo e sentir medo.

E se Holiday estivesse dizendo a verdade? E se... Kylie se lembrou de como a

garota de pele pálida estava fria no ônibus. Mas não. Não iria acreditar naquilo.

Vampiros e lobisomens existiam na ficção, não na vida real.

A mulher tirou um celular do bolso da calça jeans e fez uma ligação.

— Pode mandar Perry à sala de aula do escritório? Obrigada.

Recolocou o aparelho no bolso.

— Agora, todos vocês estão convidados a ficar e ver o que vai acontecer. Mas,

se quiserem sair, um assistente está à espera de cada um de vocês lá fora. A função

deles é responder às suas perguntas.

Kylie os viu olhar uns para os outros e decidir ficar. Sentiu-se melhor por não

ser a única a ter dúvidas sobre o assunto. Depois de longos minutos, durante os quais

o silêncio invadiu a sala como uma névoa, Kylie ouviu o som de passos na frente da

sala. A porta se abriu e o garoto loiro do ônibus — o de olhos estranhos —, entrou.

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— Olá, Perry! Bom ver você de novo — disse Holiday sinceramente.

— Bom também estar de volta — virou-se para Kylie, que quase perdeu o

fôlego ao notar que os olhos dele estavam pretos a ponto de nem parecer humanos.

Agora ele estava estranhíssimo.

— Eu ficaria feliz se você nos fizesse o favor de demonstrar seu dom especial.

Os olhos não humanos de Perry não se desviavam de Kylie. Ele sorriu.

— Então você tem aqui pessoas incrédulas, não é? — voltou-se para Holiday.

— O que gostaria de ver?

— Por que não deixamos Kylie decidir? — Holiday encarou-a. — Kylie, este é

Perry Gomez, especialista em metamorfoses, um dos melhores que existem. Pode se

transformar em praticamente tudo o que você imaginar. Diga no que gostaria que ele

se transformasse.

Kylie alternava o olhar entre Holiday e Perry. Vendo que aguardavam sua

resposta, fez um esforço para falar.

— Num... Unicórnio.

— Unicórnios não existem — disse Perry, num tom de quem se sentia

ofendido com a escolha.

— Existiam — intercedeu Holiday, como que para defender Kylie.

— Que merda! — exclamou Perry. — Existiam mesmo?

— Sim, que merda — repetiu Holiday. — Mas vamos melhorar nossa

linguagem — sorriu. — Basta pensar num cavalo com um chifre na testa. Sei que

pode fazer isso.

Ele concordou com um gesto de cabeça e, juntando as palmas, revirou os

olhos negros. De repente, o ar da sala ficou rarefeito, como se algo houvesse sugado

todo o oxigênio. Kylie o olhava fixamente, embora tudo dentro dela lhe

recomendasse para não fazer isso. Então, sua curiosidade, sua necessidade de saber

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evaporou-se na atmosfera quase irrespirável. Só agora entendia o sentido da frase “A

ignorância é uma bênção”. Queria continuar ignorante. Não queria ver, não queria

acreditar.

Mas viu.

Viu fagulhas cintilando em volta do corpo do garoto, como se um balde de

purpurina tivesse sido despejado em torno dele, como se mil lâmpadas se

acendessem refletindo cada fragmento da purpurina em suspensão. Centenas de

partículas em forma de diamante o envolviam. Aos poucos, foram se depositando no

chão e ali onde Perry estava antes surgiu um enorme unicórnio branco, com um

chifre cor-de-rosa bem no meio da testa.

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Oito

O unicórnio, isto é, Perry, balançou o rabo de maneira pomposa e trotou na

direção de Kylie. Deu dois passos e chegou tão perto que ela poderia tocá-lo se

quisesse. Mas não queria. O bicho, empinando a cabeça, relinchou e piscou um olho

para Kylie.

— Merda!

— Caramba!

— Meu Deus do céu!

— O que é isso?!

— Nossa!

Kylie não conseguiu identificar quem disse o quê, ela mesma talvez houvesse

dito alguma coisa, pois todas as exclamações lhe confundiram ainda mais a cabeça.

Inspirando outra golfada de ar, virou-se para Holiday, que a fitava com seus olhos

verdes e suaves.

— Já está bom — disse Holiday. — Perry, volte à forma normal.

Kylie encostou a testa na superfície lisa e fria da carteira e procurou respirar,

não pensar. Se pensasse, começaria a chorar — e a última coisa que se permitiria

diante daquela gente era dar sinais de fraqueza. Por Deus, talvez aquelas aberrações

se alimentassem dos fracos!

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— Já podem ir, meninos — a voz de Holiday, agora num tom autoritário,

ecoou pela sala e vibrou dentro da cabeça de Kylie.

Contou até dez e, de algum modo, conseguiu se levantar. As outras carteiras já

estavam todas vazias. Perry, de volta à forma humana, também foi saindo com os

outros e lhe lançou um olhar sobre o ombro. Seus olhos castanhos — desta vez,

normais — quase pediam desculpas.

Lembrando-se da ordem de Holiday para sair, Kylie fez um esforço para ficar

de pé. Saindo, poderia descobrir um lugar isolado para surtar á vontade. Um lugar

onde pudesse chorar e tentar chegar a uma conclusão...

Não. Não pense. Ainda não. Reteve as poucas lágrimas que teimavam em

aflorar e suas narinas arderam.

— Aonde vai? — perguntou Holiday.

Kylie se voltou. Um nó apertava sua garganta, dificultando a fala.

— Você disse para sairmos — conseguiu dizer.

— Eles, sim. Você, não.

— Por quê? — uma película úmida embaçou sua visão e Kylie reconheceu que

não poderia detê-la. As lágrimas haviam chegado. Por quê? Essa pergunta curta

navegou por sua mente confusa, transformando-se em dezenas de outras. Por que

tudo aquilo estava acontecendo? Por que ela era, de novo, a “escolhida?” Por que a

mãe não a amava? Por que o pai lhe voltara as costas? Por que Trey não lhe dera um

pouco mais de tempo? Por que aquela gente esquisita agia como se, ali, a esquisita

fosse ela?

Piscou para disfarçar as lágrimas e sentou-se de novo.

— Por quê? — perguntou outra vez. — Por que estou aqui?

Holiday sentou-se ao seu lado.

— Você é especial, Kylie.

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— Não quero ser especial — disse Kylie, sacudindo a cabeça. — Quero ser

apenas eu... Eu normal. E... para ser bem honesta com você, acho que estamos

cometendo um grande erro aqui. Você sabe que não tenho... Dons. Sem dúvida, não

posso me transformar em outra coisa. Minhas notas estão na média em tudo, exceto

talvez em álgebra. Esportes não são a minha praia, não tenho grandes talentos, não

posso me considerar esperta. E, acredite ou não, gosto disso. Não me desagrada estar

na média... Ou ser normal.

Holiday riu alto.

— Não há engano nenhum, Kylie. Mas sei exatamente como está se sentindo.

Eu mesma me sentia assim quando tinha a sua idade e, sobretudo, quando descobri o

que era.

Kylie passou a mão no rosto a fim de apagar a evidência das lágrimas e se