Natasha Staliwisk - uma história de amor por Nelli Célia - Versão HTML

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Natasha Staliwisk

Uma História de Amor

Sinopse:

O quanto precisam estar interligadas duas almas que se afinam e sonham viver juntas,

ultrapassando as barreiras sociais e preconceitos, reconhecendo seus erros, acertos, e

colocando acima de tudo a força do coração? Dos salões de Moscou ao palácio do czar

Nicolau Romanov, em São Petersburgo, Natasha Staliwisk - uma história de amor

relata um envolvente e inesquecível romance proibido, tendo como cenário a

fascinante e requintada Rússia. A disputa pelo poder, a inveja e o orgulho dançam

juntos nos bastidores do Balé Imperial. Acompanhe a luta por um lugar ao sol, a

perseguição pelo sistema e a fuga para o país dos sonhos, "América", criando um novo porvir, depois de muitas vidas juntos. Você vai se apaixonar por essa eletrizante trama de Nel i Célia.

Sumário

I.

Broadway • Janeiro de 1900

II.

São Petersburgo • 1892

III.

A jovem Natasha Staliwisk • Moscou, 1893

IV.

Conde Wladim Ivanovitch Kolosk • São Petersburgo, 1894

V.

No palácio do czar

VI.

O encontro com a cigana • 1895

VII.

Um recado inesperado

VIII. Nos salões de Moscou

IX.

A solidão e a igreja

X.

A cobiça do convite

XI.

O desespero da família Staliwisk • 1896

XII

Fugindo para São Petersburgo

XIII Hora e vez de Kolosk

XIV A fuga para Itália

XV

Momentos de decisão

XVI

Crise no palácio

XVII

A separação • 1898

XVIII A perseguição

XIX.

Masvisc Sandlars

XX.

Na virada do século em Nova York

XXI.

Dezembro de 1899

XXII. De volta à realidade • Janeiro de 1900

Prefácio

Alguns foram os livros que escrevi em minha carreira literária, nos quais eu elaborava a história e procurava usar o cotidiano como cenário, porém usando a minha escrita

para levar alguma mensagem aos que lessem os meus livros, fossem adultos ou

crianças. Um bom exemplo são os livros infantis, pois tenho muito prazer em escrever para a gurizada.

Tempos atrás, começaram a surgir intuitivamente flashes de três livros. Os dois

principais protagonistas faziam parte das três histórias, como se fossem atores vivendo peças diferentes, uma após a outra. As cenas não eram mostradas em ordem

cronológica, mas dava para sentir a história. Interessei-me pelos três novos trabalhos e procurei me dedicar a escrevê-los com alegria e entusiasmo.

Surgiram assim os dois livros que são: Novamente a caminho dos sonhos e Natasha

Stalinvisk - Uma história de amor. O terceiro está em fase final e em breve estará

sendo publicado. Essa trilogia é uma inspiração dos Companheiros da Luz.

Estes livros, ricos em ensinamentos, prazerosos ao ler, cheios de reflexões, colocandonos, muitas vezes, em encontro com o nosso "eu" interior. Levando-nos a rever as nossas atitudes para com o nosso próximo, nos dando suportes e lições que educam

espiritual e moralmente.

A espiritualidade está batendo à porta. É hora de acreditar que, realmente, a vida não começa no berço e tampouco termina no cemitério. Existem muitos segredos

desconhecidos por nós, muito mais do que a nossa vã filosofia sonha, como dizia o

mestre Shakespeare.

A vida de nossa heroína, neste livro, é repleta de erros e acertos, como acontece, de fato, com todos nós, seres humanos. Porém, Deus, a vida, essa força maior, nós dá

oportunidades de crescermos através do aprendizado diário, e de nos confrontarmos

com diversas pessoas que encontramos em nossa caminhada terrena. Quase sempre, a

nossa reação diante destes encontros será o que tivermos dentro do nosso coração, ou melhor, dentro da nossa alma.

Mas essa alma traz consigo, conectadas, impressões de passados longínquos, que

ficaram arquivados dentro de nós. Nesses encontros, as impressões são trazidas para a tela de nossa memória, fazendo com que a reação seja muito espontânea, alegrando-nos ou infelicitando-nos.

Acreditamos, sim, que a vida continua em outras dimensões, pois, segundo Lavoisier, nada se perde tudo se transforma. Partindo deste princípio, imaginamos que tudo

ficará registrado em algum lugar do Cosmos.

Para finalizar, vamos nos recordar o que disse Jesus a Nicodemos: "em verdade, em verdade vos digo: ninguém pode ver o reino de Deus, se não nascer de novo."

Assim é que Natasha Staliwisk vai vivendo esse amor, até que um dia aprenda a amar

dentro da plenitude divina.

A AUTORA

Capítulo I

Broadway Janeiro de 1900

O hospital era pequeno, porém situado em um vale muito bonito, nos arredores de

Nova Jersey.

O movimento era grande naquele mês de janeiro, com a chegada do ano novo, tão

esperado por todos. Nesta data se torna comum todos esquecerem a rotina e partirem

para os grandes abusos e exageros das comemorações, resultando em prejuízos para

os pobres corpos que, diante da necessidade, trabalham com sobrecarga, por causa do

excesso de comidas e bebidas ingeridas demasiadamente. Estavam entrando em final

de século, e todos esperavam que o novo fosse melhor que o anterior.

Natasha, sentada em uma das salas de espera, observava o vai-e-vem das enfermeiras,

médicos e atendentes, todos agitados, tentavam atender dentro do possível aos que

chegavam em carros do hospital. Sentiu pena daqueles sofredores, imaginando o que

levaria aquelas criaturas a se destruírem daquele modo. Lembrou o quanto havia

sofrido em sua vida e, nem por um instante, passou por sua cabeça essa destruição,

causada por bebidas e pelo ópio, muito em moda na época. Neste momento ela olhava

um paciente em convulsão, causada pela droga.

— Senhorita Natasha McGuire?

— Sou eu - respondeu Natasha, levantando e seguindo a enfermeira de poucas

palavras, que a conduziu para a sala do médico; dias atrás ela havia procurado o

doutor, que solicitara exame dos pulmões.

O corredor, grande, frio e isolado, parecia engolir todos os seus pensamentos: "Só uma tosse e todo este trabalho, fazendo com que me ausente dos meus ensaios. Será que

os médicos sabem como é um espetáculo todas as noites?... Se soubessem quanto

custa para nós conseguirmos um lugar na Broadway, não nos atrapalhariam tanto."

— Faça o favor de entrar - disse a enfermeira, apontando a cadeira dentro da sala

simples e bem equipada do médico.

— Boa noite, doutor Charles - sorridente, apertou a mão do doutor, que a recebeu

com sereno cumprimento.

— Como tem passado, senhorita Natasha? E a tosse, aumentou? Observou o catarro

expelido nestas crises?

Natasha pensou: Que falta de polidez, perguntar coisas tão íntimas, porém resolveu

responder a todas as perguntas para se livrar o mais rápido possível daquele

consultório e voltar para o seu mundo. Embora estando triste, sentindo a ausência do

amado, queria estar no teatro. Lá, sim, tudo era lindo: música, cores, risos e danças.

— Estou ótima, doutor... Tenho tossido, mas é uma tosse bem fraquinha. Mas... por

que esse interrogatório todo? Os resultados não foram bons? – E riu, debochando da

situação.

— Você está... tísica, tuberculosa... E está muito adiantada a sua doença.

Falou seca e bruscamente, pois Natasha, quando veio a ele da primeira vez, brincava

com a saúde, não acreditando estar doente e não levava nada a serio.

- Natasha, minha filha, é muito grave o seu estado. Você terá que ser internada o mais

rápido possível.

— Quanto tempo de vida eu tenho, doutor?

O médico tentou desviar a conversa, falando do tratamento que seria necessário.

Natasha, percebendo que o médico tentava evitar a resposta, foi diretamente ao

assunto.

— Doutor, sou adulta e responsável por mim mesma. Já passei por tanto desespero e

nunca pensei em desistir, por pior que fosse a situação. Não será essa doença que vai

me assustar, mas eu tenho o direito de saber: quanto ainda me resta de vida?

— Pouco. Muito pouco, se não se cuidar.

Natasha pensou em seu amor e disse consigo mesma: "Vou lutar para me curar e te

esperar, meu amor."

Na rua, caminhando sob a neve fria que caía naquele mês de janeiro, Natasha seguia

pensando: "Ninguém no teatro deve saber. Dançarei até que a morte me vença ou eu

a vença, se isso for possível."

Parou um pouco, pois sentia falta de ar e cansaço. Debruçou-se sobre a ponte que

cobria o rio, e começou a olhar o fluxo das águas a caminharem em uma direção.

— Se me atirasse neste rio, evitaria que este mal se prolongasse e que outras pessoas

sofressem comigo. Mas, e depois... Minha alma não descansaria em paz. Lembro o que

minha mãe dizia: "A alma tem que deixar o corpo em paz, quando partir deste mundo.

Lembre sempre, minha filha, Deus lhe deu a vida e somente Ele poderá tirá-la.

Devemos devolvê-la em harmonia ao Criador." Eu perguntava: "Mesmo sofrendo

muito, mãe?” E ela: "Mesmo sofrendo muito, minha filha. A dor é uma depuração para a nossa alma. Devemos ultrapassá-la com paciência, para voltarmos ao Criador em

paz."

Natasha tossiu, pois a lembrança de sua mãe a emocionou. Caminhou de passos firmes

pelo forte frio e chegou ao teatro, onde a esperavam para reiniciar os ensaios.

O final de século chegara, e Natasha não conseguia esquecer a triste noite do ano

novo. A ausência do seu amor deixava em seu coração um vazio e uma constante

tristeza. Mesmo assim não perdia a esperança de reencontrá-lo. Saltou do coche

apressadamente, atravessou a rua e mal cumprimentou o guarda, que estava na porta

da entrada do teatro. Correndo, se dirigiu ao palco onde estava toda a companhia de

dança. O diretor que, sem paciência, ensaiava o elenco, não percebeu a entrada dela

no recinto e Natasha, sem perceber o ambiente, foi logo tratando de ficar pronta para

os ensaios. Já estava atrasadíssima, mas tinha que ensaiar. Jogou sua bolsa em cima de

uma cadeira, tirou o casaco de lã grossa e começou um leve aquecimento. Na platéia,

a voz do coreógrafo se fazia ouvir.

— Quero a perna mais alta, Rosely. Olhe o compasso, Peter. Será que são surdos?

A voz do coreógrafo tirou Natasha dos pensamentos da doença e a acordou para

aquele momento, em que também precisava estar presente, não somente com o

corpo, mas com a mente. Como já estava com sua roupa de bale por baixo do casaco,

foi logo calçando as sapatilhas e subiu ao palco, sem notar que todos pararam para

olhá-la, principalmente Peter, ou melhor, Rosnan para ela.

— A princesa russa pode nos dar o prazer do ensaio?

O coreógrafo, como todos os colegas, não sabiam da doença de Natasha. Somente os

amigos Rosnan e a amiga Catherina.

— Desculpe-me, David. Já estou pronta! Atrasei-me, pois fui ao médico.

Rotina, nada sério.

O ensaio foi exaustivo, como sempre. No final, Peter convidou-a para irem lanchar,

antes de iniciar a sessão da noite.

— Este chocolate está uma delícia... Quentinho, que chega a esquentar o meu peito

por dentro.

— Natasha...

— O que é? Que cara feia, Rosnan. Parece que alguém vai morrer! - Natasha falou e riu

com a própria piada.

— O que o médico disse?

— Estou bem, somente uma gripe mal-curada, restando esta tosse impertinente.

— Irei amanhã cedo ao hospital e vou falar com ele, afinal ele também é meu médico.

Mal tinha acabado de falar e Natasha, vendo a seriedade com que ele a enfrentava,

resolveu falar. Contou toda a verdade e, quando acabou a narrativa, Rosnan falou

seriamente:

— Já estava desconfiado. Na sexta-feira passada, quando você cuspiu sangue, imaginei

o pior e não estava errado. E agora? Quando você vai se internar?

— Não vou coisa nenhuma! Não irei para o hospital, quero esperar por "ele" em nossa casa e, se tiver que morrer, quero morrer no meu trabalho e perto de você. Se eu

realmente não tiver cura, peço que deixei-me morrer ao seu lado, pois você é o único

amigo que me resta. E não chores, você é um homem e homem russo não chora. Bem

sabes que um dia todos nós partiremos.

— Natasha, eu... - o soluço atrapalhou a voz e ele não conseguiu falar, apenas abraçou

a amiga e ficaram em silencio.

— Rosnan lembras quando chegamos aqui na América? Sem dinheiro, sem abrigo... Se

não fosse a quarentena do porto, estaríamos mortos de fome e de frio há muito

tempo, a vagar pelas ruas estreitas de Nova York. Descemos daquele navio mais

moídos que grãos de trigo, mal sabíamos algumas palavras em inglês. Repetíamos

somente o que havíamos decorado na última semana de aula com o professor Nicolau

Zantini.

- "Bom dia; desculpe-me; onde fica a rua tal; café, leite e pão, por favor; tenho fome; tenho sede". Até mesmo para procurar o teatro na Broadway, indicado pelo

coreógrafo do navio, foi muito difícil para nós.

Natasha se alegrou com as reminiscências dos dois e Rosnan riu junto. Relembraram

alguns outros fatos pitorescos da chegada deles nos Estados Unidos da América.

— Rosnan, quero ir para nossa casa, descansar um pouco. Ainda temos três horas

antes do espetáculo começar.

Rosnan pagou a conta, abraçou Natasha e ambos caminharam pelas ruas de Nova York

embaixo da neve. Cada floco que caía sobre a amiga, ele assoprava e beijava a sua

cabeça, coberta pela touca cinza de lã que ela estava usando.

Nova York começava a acender as luzes. Era realmente um momento inesquecível e os

dois pararam e começaram a olhar, admirando todo aquele esplendor.

— Não é só no teatro que o palco se ilumina. Aqui fora ainda é mais bonito.

— Ulalá, como dizem as francesas, c'est magnifique.

O apartamento onde eles moravam ficava a quatro quadras da Broadway e, como era

no último andar, tinha um terraço com portas de vidro, que proporcionava sempre

uma visão linda da cidade. O prédio não era muito bom. Construção barata, moradores

simples, a maioria era de imigrantes e quase todos eram ilegais, sempre fugindo da

polícia local que, volta e meia, vasculhava o prédio para expulsar os clandestinos. Eles se escondiam nos bairros vizinhos, até estarem livres para voltarem às suas casas.

Tudo isso fez desta cidade uma atração para os dois russos, que mudaram os nomes

para sobreviverem. Ele adotara Peter, nome bem americanizado. Natasha apenas

trocou o sobrenome, de Staliwisk para McGuire. Assim, trabalharam naquele ano no

teatro, fazendo um espetáculo de dança que mantinha a casa lotada toda as noites.

Tinham chegado em meados de 1899, na virada do século, fugidos da Rússia. No

apartamento haviam alguns quadros, os primeiros pertences que eles adquiriram na

América; neles estavam estampadas as paisagens dos campos da Rússia, e foram

pendurados com carinho, para que a lembrança estivesse sempre presente. Havia

também o relógio, presente de Kolosk, que tocava melodia. Antes de deitar, Natasha

sempre ficava ouvindo, e ninguém podia chegar perto dele ou tocá-lo, pois ela sempre

proibia.

— Feche as portas de vidro, Rosnan. Estou com muito frio.

— Só abri porque você gosta de sentir a brisa do vento.

— Hoje eu não quero... Quero você aqui perto de mim!

Rosnan sentou ao lado dela, após ter fechado as portas do terraço e, abraçando a

amiga, falou:

— Você hoje está muito melancólica, em que esta pensando? Fique tranqüila, pois

você vai sarar, nem tudo que os médicos falam é verdade... Eles não são Deus.

— Estou com saudade dele.

Rosnan engasgou com a saliva ao ouvir ela mencionar "ele".

— Sabe que eu é que te amo de verdade.

— Eu sei, mas o amor que eu sinto por "ele" é diferente... É a vida, ou melhor, é mais forte que a vida, e eu sei que "ele" também me ama assim.

Rosnan tentou desviar a conversa, chamando a atenção para a neve que caía. Nada,

porém, fazia com que ela deixasse de falar "nele".

— Eu sei que ele virá me buscar, é questão de tempo. Ele sabe onde me encontrar, é

questão de tempo. Sei que algo aconteceu naquela noite, mas ele virá e será muito em

breve.

Natasha olhou para o amigo e viu uma lágrima caindo dos seus olhos. Estavam juntos

há muito tempo, compartilhavam tudo em suas vidas, cada um sentia a dor do outro,

mas Rosnan amava Natasha e esse era o motivo pelo qual ele nunca havia se

interessado por outra mulher. Naquele momento, ela via que o amigo sofria por ela.

Embora ele a amasse, sempre lutou pela sua felicidade e ela sabia disso. Tentou

disfarçar a situação, dizendo a ele que tinha esperança de vida.

— Bobo, eu vou saber esperar por "ele". Foi você mesmo que disse que "os médicos não são Deus". Vou viver muito, você vai ver! Não vai ser esta tuberculose que me

levará deste mundo. Vou lutar muito, você verá!

Capítulo II - São Petersburgo 1892

Corria o ano de 1892 na Rússia dos czares. São Petersburgo fervia em política e os

conflitos aumentavam dia após dia.

O czar Alexandre III reinava com certa dificuldade, diante de tão longo tempo, e

preparava o herdeiro, seu filho Nicolau Romanov, para sucedê-lo. O país vivia

momentos de recessões em várias áreas. O palácio dos czares ditava leis que, no dia

seguinte, já não eram as mesmas. Era oscilante o comando do czar, e o povo sentia

este enfraquecimento.

Tropas eram recrutadas para defender a honra da Rússia e, principalmente, a da

família do czar. Os soldados não tinham mais tempo para ficar com suas famílias,

muitos nem viam o nascimento de seus filhos, em função do tempo que se

ausentavam. Muitos nem chegavam a voltar para suas esposas, que ficavam viúvas, na

miséria e na solidão.

A falta de alimentos gerava saques em diversas cidades, tornando ainda mais

complicada a situação para a nação.

Ministros ligados ao czar reuniam-se a todo instante em busca de soluções, mas em

primeiro lugar estava sempre a proteção do Palácio e dos nobres que o cercavam.

A Europa inteira estava atenta e se protegia deste clima, fechando suas portas para

outras negociações.

Moscou, distante de São Petersburgo, era a sede do maior conflito da época, ao

mesmo tempo em que explodiam as artes em todos os sentidos. A sede dos czares,

porém, era São Petersburgo, e de lá se comandava tudo.

O inverno rigoroso chegara mais forte que nos anos anteriores, diziam os mais velhos.

A neve bloqueava as estradas, tornando as viagens mais demoradas e sofridas.

As aves fugiam para outros lugares em busca do sol e do calor, e os campos, cobertos

de neve, não forneciam pastagem para os animas, fazendo com que muitos

morressem por causa do frio intenso e da falta de alimentação.

Na estrada principal que ligava São Petersburgo a Moscou, havia uma taberna que

recebia os viajantes antes de iniciarem as viagens, tomando as últimas providências ou

fazendo pequenos lanches.

Sempre havia quem esquecesse algum suprimento e lá era o último lugar para se

comprar. Depois, só praticamente no final da viagem encontraria outra taberna.

O dono, Nicolai, era um russo filho de pais polacos. Homem robusto e forte, que tinha

ao seu lado sua mulher Ludmila e dois filhos pequenos.

Eram taberneiros e faziam da taberna um negócio lucrativo, porque tiravam vantagem

em tudo o que vendiam, por saberem que eram os únicos no lugar. Até mesmo

informações quanto à situação das estradas, seus perigos, as paradas, eram vendidos

pelo casal.

Morava com eles o pai, ainda possuidor de boa saúde, mas o senhor Pedro não

trabalhava na taberna do filho. Sendo muito católico, não estava de acordo com a

maneira que o filho agia, e só ia para a casa do filho para dormir. Sua mãe, quando ele nasceu, por ter tido um parto muito difícil e sendo devota do discípulo Pedro, deu ao

filho o nome, em homenagem à graça que recebera.

Desde que ficara viúvo, o senhor Pedro foi trabalhar na igreja, auxiliando o pároco, e

voltava para casa somente ao anoitecer, depois da missa. Assim, ouvia pouco as brigas

do filho com a nora.

— Nicolai faz dois dias que não entra ninguém aqui. O que vamos fazer?

— Mulher, fica no teu canto cuidando da casa e das crianças, que do resto cuido eu.

A situação era grave para eles, como era para toda a Rússia, o que deixava todos com

os nervos à flor da pele, estourando-se com o primeiro que aparecesse perto.

Na igreja, o movimento era grande. Indulgências, promessas, dízimos, para garantir um

lugar no céu. Estava sempre lotada e o padre não dava conta de tantas confissões.

Somente no final do dia, quando podiam fechar a porta da casa de Deus, é que o

senhor Pedro ajoelhava diante do altar de são Pedro e rezava, pedindo proteção para a

família do filho, sem nunca esquecer de um irmão mais velho que ficara na velha

Polônia. Masvisc, embora tivesse a mesma criação católica de Pedro, ia mais além,

acreditando em vida após a morte, indo muito pouco às missas e vivendo mais em

contato com um orfanato, que ficava perto de sua casa.

Não tivera filhos, viveu com a mulher dedicada e companheira e cuidou algum tempo

de dois jovenzinhos que encontrara abandonados à beira da estrada, quando os pais

foram mortos ao tentarem fugir da Polônia. Um tempo depois eles foram embora com

parentes e ele logo ficou viúvo, passando a viver para a sua nova fé.

Masvisc ficou com eles como se fossem seus próprios filhos. Foi por causa da morte

deste casal que Masvisc passou a acreditar em vida após a morte. Contava ele para

Pedro que, em certa noite sem lua, fora chamado para socorrer aquela família e, desde

aquele dia, passou a acreditar na sobrevivência da alma.

Em suas orações e, principalmente quando estava em frente ao altar, Pedro pedia pelo

irmão e por todos da Rússia e da Polônia, pátria distante, para onde pretendia voltar e abraçar o irmão querido.

A igreja em que o senhor Pedro trabalhava era freqüentada por diversas famílias

nobres da cidade. O bispo que dirigia os serviços do pároco tinha grande influência no

meio político.

Ele sempre estava fazendo campanha, em prol da Igreja Católica, em função da divisão

de igrejas que existia na Rússia.

Pedro servia a todos igualmente, cuidava dos recintos com respeito e abnegação,

nunca se negando a contribuir além de sua hora de trabalho.

Nas horas de folga, gostava de ir ao jardim público, olhar os pássaros e o vai-e-vem das pessoas, ouvir os gritinhos das crianças e suas amas a ralharem.

À noite, cansado, quando chegava na casa do filho, ainda ajudava a tomar conta da

taberna, para o filho jantar sossegado com a família. Só depois é que ia jantar, e tinha prazer em gastar os últimos minutos do dia conversando com os netos, que adorava

mais do que tudo na vida.

Sabia que o filho e a nora faziam negociações desonestas, tentou varias vezes falar

quanto ao prejuízo que isto causaria se os comandos do governo descobrissem. Mas o

filho achava que ele estava muito velho e não entendia das coisas.

Somente restava a Pedro as orações que fazia pelo filho. Procurava não estar perto

quando ele ia fechar algum negócio, pois sabia que não seria honesto e tampouco

ouviria os conselhos do pai.

Sofria com esta situação, mas não tinha outra saída a não ser morar com o filho e

esperar até o dia em que pudesse voltar a morar com o irmão na Polônia. Isto dava

forças para suportar aquela situação que não aprovava. Assim, sempre que estava com

os netos, ensinava o evangelho de Jesus, ensinava-os a serem honestos, trabalhadores

e fiéis a Deus. Não sabia como seria o dia de amanhã dos pequenos, mas tentava

passar o melhor. Aquela era a sua herança, como ele mesmo dizia.

Capítulo III - A jovem Natasha Staliwisk

Moscou, 1893

— Venha, Tigre... venha me pegar - Natasha corria, saltando as flores do grande

jardim, seguida pelo cãozinho de estimação.

A mãe, bordando uma tela, observava a filha, achando graça em tudo o que ela fazia.

— Natasha, você pensa que está em sala de aula de bale?

— Por que, mãe?

E continuava a dar saltos ornamentais no ar, com a cadelinha tentando pegar seu

vestido, latindo muito com muita agitação, querendo acompanhar a dona.

— Veja este salto... Está parecendo balé de Petipa.

Natasha riu muito ao ouvir e parou, caindo, perto da mãe que acabara de falar, porém

com pose de gran finale. A mãe aplaudiu, gritando um "bravo".

Moscou, em 1893, era uma cidade de grande movimento, e as artes predominavam na

escolha do povo. Sem dúvida Moscou era o centro cultural do país, e o bale tinha uma

enorme repercussão.

A universidade estadual, com o seu imenso prédio, dava cursos em quase todas as

áreas, sendo grande o número de alunos e maior ainda a exigência em relação ao

ensino.

O teatro "Opera Bal et", com sua arquitetura belíssima e suas escadarias, em noites de espetáculos ficava todo iluminado, recebendo seus convidados em alto estilo. Eram as

famílias tradicionais as primeiras a ocuparem seus lugares dentro da platéia, com

reservas antecipadas, e os novos ricos desfilavam suas jóias, seus trajes finos. A cada noite vestiam-se diferentes, mas a espera maior era a chegada do czar e da czarina,

quando vinham a Moscou para um espetáculo especial. Estavam sempre

acompanhados por seu séquito. Eram olhados e comparados em seus trajes e

condutas.

Cocheiros enluvados e trajando preto abriam as portas de seus carros, dando as mãos

às mais distintas damas, e ficavam à espera na porta do teatro, conversando com os

outros colegas de profissão.

Longe de São Petersburgo, Moscou competia com a cidade dos czares, querendo

sempre impressionar em tudo que podia.

No bale haviam grandes nomes dançando e, nas salas de aulas de sua academia,

renomados professores ensinavam a arte do bale clássico, formando futuros bailarinos

para povoarem mais palcos de dança.

Natasha cursava um dos últimos estágios da escola de bailados, porém não chamava a

atenção dos coreógrafos e dos professores, estando sempre como apoio dos bales.

Fazia parte somente dos conjuntos, nunca estando entre as solistas e primeiras

bailarinas. Invejava sempre as colegas pelas posições, pois gostava muito do bale e

aspirava ocupar o primeiro lugar da companhia de dança.

Não era, porém, suficientemente esforçada para ser uma diva no bale, que davam

todo o esforço de seus corpos para atingirem a perfeição. Assim, ela continuava

estudando para se formar e cobiçando cada dia mais um lugar de destaque.

Sempre que podia, estava atrás dos coreógrafos do bale, endeusando-os para obter

uma posição melhor.

Cabelos pretos, lisos e compridos. Olhos verdes enormes e cheios de brilhos, pele

muito alva como o leite, que contrastava com o negro do cabelo e ressaltava a cor dos

olhos. Seu corpo, longilíneo como o bale exigia, formava um conjunto digno de inspirar

qualquer pintor da época.

A família de Natasha estava reduzida ao pai. Lutter Staliwisk, nascido na Polônia, filho de pai russo e mãe polonesa, e à mãe, Rina, filha de imigrantes italianos na Polónia,

onde se conheceram e se casaram.

Natasha possuía do pai a persistência, o querer tudo de imediato e a malícia de saber

conseguir. Da mãe, herdara a graça dos movimentos, a alegria pela música e pela

dança; a mãe sempre dizia que o povo italiano era o mais alegre do mundo.

Filha única, toda a atenção era voltada para ela. O pai nunca corrigira a filha, deixando sempre para a mãe a parte mais difícil. Ele somente dava carinho e elogiava em tudo

que fazia, falando a todo instante que ela era seu orgulho.

A mãe é que era, enfim, o dique para as emoções da filha. Criada na religião católica,

alma boa e sensível, tentava sempre estar dentro dos ensinamentos cristãos. Era

muito obediente como esposa, levando sua vida em função das determinações do

marido. Quanto à parte religiosa, passava o que aprendera para a filha, procurando

cortar as arestas que não eram boas. Rina era muito crente em Deus e acreditava na

imortalidade da alma, pensamento que longe estava do marido seguir ou acreditar.

Natasha cresceu com muita mordomia, nunca sentindo a necessidade de ter que se

privar do que queira. Estavam em Moscou há apenas dois anos, quando vieram da

Polônia.

O sol já estava quase se escondendo e as duas, mãe e filha, ainda estavam sentadas no

jardim da sua bela residência.

O branco da pintura da casa e o verde das plantas no jardim criavam uma bela

combinação de cores para os olhos de todos.

Canteiros de rosas coloridas enchiam as alamedas, ocupando todos os espaços

destinados às flores. O jardineiro, nesta hora do final do dia, regava o jardim e

assobiava uma canção, não prestando atenção na conversa das duas.

— Mãe...

— Mamãe! Por que você não me chama de mamãe?

— Gosto mais de mãe, é pequeno de se falar e mais forte de se sentir!

— Está bem, não implicarei, sou tua mãe e pode me chamar como quiseres. Quero é o

teu amor e respeito. Mas, o que você queria perguntar?

— Mãe, porque mudamos para Moscou tão rapidamente? Lembro-me que, chegando

em nossa casa depois da aula de bale, papai estava fazendo as malas e tentou explicar-

me, mas realmente não entendi nada. Só não insisti por respeito e porque senti que

algo ele estava ocultando. O que era, mãe?

— Natasha, não era nada. Tínhamos recebido uma proposta melhor de vida, foi isso...

Bem, o sol já se foi, vamos entrar, que a noite logo vai cair.

Largando a filha a pensar, Rina foi logo caminhando e subindo a escadaria de

mármore. Não percebendo os degraus, subia como uma criança que corre, para não

dar explicações de seus atos.

A filha, parada, olhava o comportamento da mãe e teve a certeza de que ela escondia

alguma coisa, de que algo tinha acontecido na Polônia, para eles terem que deixar o

país tão rapidamente.

— Natasha, toque o noturno de Chopin.

Lutter pedia à filha, que brincava com as teclas do piano. O noturno era a música

preferida dele.

— Tocarei, se prometer não acender o cachimbo perto de mim.

— Que implicância com o teu pai, minha filha - ralhou a mãe que, ao lado do marido,

estava lendo um livro.

— Está bem, papai, tocarei mesmo com o cheiro horrível do seu cachimbo.

Mal ela começava a tocar a melodia pedida pelo pai, entrou na sala a copeira,

anunciando a chegada de Caio, o noivo que a mãe tinha gosto, pois também era de

origem italiana, nascido na Polônia e depois indo viver na Rússia com a família.

Natasha ouviu a governante anunciar a chegada do noivo e continuou a tocar, sem se

dar conta de que o rapaz entrava na sala e cumprimentava os futuros sogros.

— Natasha, olhe, Caio está aqui - a mãe logo se irritou com a filha.

A moça parou a música ao ser repreendida pela mãe, e dirigiu-se ao noivo, dando um

rápido beijo na face avermelhada do bonito jovem.

— Olá, Caio, tudo bem?

A cozinha da residência dos Staliwisk era grande e com muitas janelas, dando vista

para a área de serviços da casa. Havia também um bonito jardim pequeno, junto à

horta, onde eram plantadas as ervas aromáticas de que Rina fazia questão de ter em

sua alimentação.

Uma vez por semana era servido um almoço à la italiana, lembrando a sua origem.

Assim é que amenizava a saudade dos parentes que viviam na Itália. Anne, a

empregada de tanto tempo, cozinhava e usava as plantinhas aromáticas que Rina

tanto exigia nos molhos das massas.

Anne além de cozinhar muito bem, foi também ama de Natasha. Logo que foi

trabalhar na casa deles, havia outra cozinheira na família, e ela somente assumiu a

cozinha quando a menina não precisava mais de seus cuidados. A dedicação foi total

naqueles anos todos.

— Anne! Anne! - Natasha gritava lá do jardim dos fundos, enquanto pegava uma fruta

da árvore.

Anne, ao ouvir o grito da moça, largou tudo e pediu para a copeira Leni continuar a

cozinhar o ensopado que estava no fogo.

— Fale logo o que você quer de mim, pois estou preparando o almoço e o teu pai vai

trazer um amigo para almoçar.

— Anne, sente-se aqui - Natasha indicou a grama onde estava sentada.

— No chão? A grama ainda está molhada - falou, admirada com o pedido da moça.

— Com tantas saias, não vai molhar o teu traseiro, fique sossegada.

— Natasha, olhe o respeito!

Anne sentou-se ao lado da moça, que era como se fosse sua filha.

— Está bem, fale agora.

— Anne, você já teve um namorado?

A empregada ficou vermelha e tossiu nervosamente.

— Natasha, o que é isto?

— Por favor, Anne, é serio, preciso fazer algumas perguntas.

— Tive um noivo, que morreu na guerra, antes de nos casarmos.

Ao lembrar o noivo, Anne se emocionou e os olhos se encheram de lágrimas.

— Oh, minha querida, não foi para você sofrer que eu perguntei. Eu preciso saber...

Somente assim é que você vai entender a minha pergunta.

— Diga o que é, e eu prometo responder, se for capaz.

— Quando se tem um noivo, o que a gente deve sentir por ele?

— Que pergunta esquisita, veja só... Quando se tem um noivo, deve-se amar com todo

o coração e sentir alegria em estar junto dele. O coração da gente dispara ao leve

toque de suas mãos, a presença dele ao nosso lado é um momento de eterna ternura

e a gente não quer que termine nunca.

Anne parou de falar e olhou Natasha que, fixada em sua face, observava-a com uma

leve tristeza.

— Por quê? Não sente-se assim com o teu noivo?

— Não gosto de Caio, acho bonito, agradável, mas o meu coração nunca disparou com

a presença dele ao meu lado. Ao contrário do que você falou, olho no relógio o tempo

inteiro quando estamos juntos, para ver se as horas passam mais depressa e ele vá

embora.

— Natasha, deves sofrer muito com este noivado.

— Não sofro, Anne. Só que não sinto nada em especial pelo meu noivo. Agora que

você falou, lembro-me de um sonho que tive, noites atrás. Sonhei que era abraçada

por um homem, ternamente, mas eu não via o seu rosto. Com ele, sim, eu senti meu

coração disparar e bater descompassado. Neste momento tão lindo, fui acordada pelas

batidas de minha mãe na porta do quarto, para me despertar.

— Talvez seja o teu príncipe encantado que em sonho te visitou.

— E será que não vou encontrá-lo?

— Já encontraste, é o Caio.

Anne falou e saiu com passos largo, indo para a cozinha e deixando Natasha sozinha.

— Não pode ser o Caio... Por que será que não gosto dele como as heroínas dos

romances que mamãe lê? Por que sinto saudade de uma coisa que não sei o que é?

— Natasha, venha almoçar, temos visita.

Era a mãe chamando a filha, que estava perdida em devaneios que ninguém

entenderia.

— Sirva mais vinho para o nosso amigo Grotroisv.

Lutter pedia a Anne que enchesse a taça do convidado. O almoço estava sendo

acompanhado de bons vinhos e a mesa estava farta de iguarias.

— Obrigado - disse Grotroisv ao anfitrião, e continuou a falar das pessoas da casa com

muito elogio. - Você tem uma família, muito bonita, amigo Staliwisk. E a tua filha, já

está em idade de casamento?

— Claro, e já está comprometida com um jovem brilhante chamado Caio, estudante da

Universidade que já está servindo na guarda de honra do Governo.

— Oh! Então podemos descansar quanto ao seu futuro.

E todos deram gargalhadas com a piada do convidado. Somente Natasha é que ficou

calada.

O frio estava intenso naquela manhã de março e a neve ainda caía brandamente.

Natasha descia da carruagem e entrava correndo na academia de bale.

A sala aquecida e ampla, com grandes janelas que deixavam ver a paisagem pelos

vidros sempre muito transparentes, acolhia os jovens, que vinham com a disposição de

fazer uma boa aula.

— Hoje teremos um inspetor do teatro, que irá escolher cinco bailarinos para a

companhia de dança.

Mal a professora acaba de falar e o batimento cardíaco de todos os alunos aumentava

em seu ritmo. Era o sonho de todos: fazer parte da companhia do teatro de Moscou.

— Vamos começar a nossa aula.

O pianista começava a tocar e logo em seguida ouvia-se a voz da mestra:

— É um é dois...

E a aula prosseguiu em total silêncio, não por respeito à mestra, mas por estarem

todos sonhando com a possibilidade de serem escolhidos.

— Descanso de dez minutos e não demorem em retornar.

O diretor da academia entrara e, depois de cumprimentar a professora, dirigiu-se para

a cadeira já posta no lugar em que ele deveria sentar e analisar os alunos. Homem

sério, sisudo, posicionou-se de uma maneira que dava bem para ver todos, não

perdendo nenhum detalhe.

No colo dele, um caderno para anotar tudo o que lhe interessasse em relação ao

futuro participante da companhia oficial de bale.

A tensão era grande e o suor caía sem parar dos corpos dos bailarinos, embora do lado

de fora o frio fosse intenso. Ao término da aula, ele pediu que ficassem em fila na sua frente e foi chamando os escolhidos pelos números que identificavam os bailarinos.

A cada um que ele ia chamando, Natasha sentia a esperança de ser a próxima. Quando

faltava o quinto número, que seria a última chance para todos os esperançosos alunos,

o coração de Natasha parecia que ia saltar do peito, de tanta expectativa.

— O quinto a ser chamado é o número 12, Ivanov.

Natasha caiu no chão, de tanto que tremiam as suas pernas. Engoliu o choro e a raiva,

e disfarçou dizendo que caíra porque torcera o tornozelo e desequilibrou-se.

Em casa, o mau humor da moça era insuportável. Anne foi a única pessoa a quem ela

contou o acontecido. Os pais ficaram sabendo pela empregada, que se preocupara

com a moça, porém Natasha não quis falar com mais ninguém a esse respeito. Nem

mesmo Caio ela recebeu naquele dia.

A rotina na família Staliwisk permanecia sem alterações. Natasha continuava a fazer

suas aulas de bale, esperando outra oportunidade aparecer, cada vez se desesperando

mais por não estar nas listas dos escolhidos.

Seu ciúme era tanto, que dizia a todos que eram os protegidos da academia. Este

estado de baixa auto-estima só não aparecia quanto ela estava dançando ou ao piano.

Eram seus momentos preciosos.

As carícias do noivo que, com o decorrer da intimidade, aumentaram, não preenchiam

o vazio que sentia no coração. Mas, educada para obedecer aos pais, aceitava a

situação sem reclamar.

Caio percebia essa indiferença para com ele e dizia:

— Quando casarmos, você aprenderá a me amar, você verá.

A loja de tecidos e perfumes que Lutter possuía ia de vento em popa, como costumava

dizer a sua mulher. As famílias importantes de Moscou eram suas clientes e fiéis

compradoras.

Da França, ele encomendava os mais finos perfumes. Todas as moscovitas queriam

estar perfumadas, imitando as francesas, conhecidas pelo bom gosto dos perfumes

usados, que despertavam paixões nos homens. Tinha ainda as mais delicadas sedas e

os mais lindos veludos, e toda a casta da cidade ia em busca deles, quase que

semanalmente.

— Senhor Lutter, chegou hoje uma carta para o senhor. É da Polônia!

Mal o vendedor da loja acabava de pronunciar o nome da Polônia, Lutter deu um salto

de sua cadeira e, bruscamente, tirou a carta das mãos do moço, que já estava

acostumado com essa situação sempre que chegavam notícias da Polônia. O

empregado saiu logo, pois sabia que o patrão queria ficar sozinho.

— Não pode ser...

Ao ler a carta, Lutter ficou vermelho de raiva e explodiu:

— Outra vez essa ameaça... Até quando?

Capítulo IV

Conde Wladim Ivanovitch Kolosk

São Petersburgo, 1894

A carruagem corria pela estrada já totalmente sem neve, e o sol aquecia um pouco a

temperatura daquela primavera que se iniciava. Dentro do veículo, dois ilustres

senhores, conde Wladim Kolosk e seu cunhado o duque Igor Pavlov, que vinham de

Moscou para São Petersburgo, onde residiam.

— O czar entenderá tudo...

— Você tem certeza disso, Wladim?

— Sim, ele é nosso amigo e vai compreender também que os negócios são um jogo de

azar, ganha-se ou perde-se. Ele quis apostar e nós fizemos todo o possível para dar

certo. Quem iria imaginar que o acordo favoreceria mais Moscou do que São

Petersburgo. Infelizmente o governo moscovita ganhou e teremos que dar aquelas

terras para eles.

— Mas Nicolau Romanov (2) adora ir caçar com seus amigos bem naqueles sítios...

— O czar pode cavalgar em tantos lugares que mal podemos calcular a imensidão. É

um sonhador e aceitará o acordo. Ademais, está envolvido com o seu recente

casamento e a czarina preencherá todo o seu prejuízo.

— Parece-me que ela espera um herdeiro

— Assim de pronto?

Ambos riram da situação dos czares recém-casados.

A paisagem ia sumindo à frente, pois havia decorrido quase que o dia inteiro. O sol

estava se pondo no horizonte. A escuridão dentro de pouco tempo tomaria conta da

luz e prometia ser forte. Assim, os dois companheiros resolveram tirar um bom sono

até chegarem aos seus lares.

Faltava cerca de trinta quilômetros para eles entrarem na cidade e o cocheiro avisou-

os da necessidade de dar água aos cavalos, e que estavam perto da taberna da família

Sandlars.

(2) Czar Nicolau Aleksandrovitch Romanov (1868-1918).

Logo que pararam, o cocheiro dirigiu-se ao taberneiro. O velho Pedro, naquele dia,

ficara no lugar do filho, atendendo os clientes que naquela noite batessem à porta da

taberna. Enquanto isso, o filho e a família jantavam.

— Pois não, senhor, o que deseja?

— Água para os animais.

Pedro logo indicou o bebedouro, para que ele levasse a carruagem mais perto do local.

Neste instante, Pedro aproximou-se do carro e viu pela janela os dois ilustres

senhores.

— Posso servir alguma bebida para os senhores?

— Não, obrigado - falou o conde Kolosk.

Pedro olhou para o rosto daquele homem tão elegante e sentiu-se bem em dirigir-lhe

a palavra.

— Sempre às suas ordens senhor...

— Conde Kolosk.

Pedro saiu de perto dos senhores e foi conversar com o cocheiro, enquanto os animais

bebiam água.

Na partida, o conde fez um cumprimento com a cabeça e acenou de leve com as mãos.

Pedro, ao ver os viajantes partirem, pensou:

— Interessante este conde... Porque será que ele me impressionou tanto. Bem, deixe

isto pra lá, senão vou ficar igual ao meu irmão Masvisc, acreditando em bruxas.

O castelo de três torres estava todo iluminado, à espera de seu dono. O grande portão

de ferro, guardado pelo vigia que logo reconheceu a carruagem, foi se abrindo e dando

passagem ao coche do patrão.

Os dois grandes cães de guarda, bravos e adestrados, pareciam mais bravos pela cor

negra de seus pelos. Ao sentirem seu dono, latiam tanto, fazendo festa de boas-vindas.

Tanta era a alegria dos fiéis animais, que quase derrubaram o conde quando ele saiu

do carro.

— Muito bem amiguinhos, muito bem. Agora chega, preciso entrar.

Na porta da casa a esposa o aguardava com um lindo sorriso. Abraçou-o e ajudou com

um pacote que ele trazia nos braços.

Uma leve brisa balançava as cortinas brancas que emolduravam as janelas do castelo.

Notava-se bom gosto e esmerado zelo presente em toda a residência dos Kolosk.

Construída no meio de um parque florestal, era vigiada por guardas e por ferozes cães,

impedindo a entrada de qualquer estranho no local.

— Olá querida - dando um leve beijo na testa da esposa, foram entrando abraçados e

saudosos.

Wera disse:

— Senti muito a sua falta. Clarisse e Ivan já se recolheram, pois amanhã acordam cedo

para o colégio, mas deixaram um beijo para você.

A mesa de jantar da sala íntima estava à espera do dono. Apenas uma parte da grande

mesa estava posta, todavia com o cuidado de não faltar nada ao chefe da família,