Negação anafórica no português brasileiro: negação setencial, negação enfática e negação de... por Rerisson Cavalcante de Araújo - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE LINGÜÍSTICA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SEMIÓTICA E LINGÜÍSTICA GERAL

RERISSON CAVALCANTE DE ARAÚJO

NEGAÇÃO ANAFÓRICA NO PORTUGUÊS BRASILEIRO:

Negação sentencial, negação enfática e negação de constituinte

São Paulo

2012

RERISSON CAVALCANTE DE ARAÚJO

NEGAÇÃO ANAFÓRICA NO PORTUGUÊS BRASILEIRO:

Negação sentencial, negação enfática e negação de constituinte

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em

Semiótica e Lingüística Geral do Departamento de

Lingüística da Faculdade de Filosofia, Letras e

Ciências Humanas da Universidade de São Paulo,

para obtenção do título de Doutor em Lingüística.

Área de Concentração: Semiótica e Lingüística

Geral

Orientador: Professor Dr. Jairo Morais Nunes

São Paulo

2012

Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio

convencional ou eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte.

Catalogação na Publicação

Serviço de Biblioteca e Documentação

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

Cavalcante, Rerisson

C376n

Negação anafórica no português brasileiro: Negação

sentencial, negação enfática e negação de

constituinte. / Rerisson Cavalcante ; orientador

Jairo Morais Nunes. - São Paulo, 2012.

456 f.

Tese (Doutorado)- Faculdade de Filosofia, Letras

e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

Departamento de Linguística. Área de concentração:

Semiótica e Lingüística Geral.

1. Linguística. 2. Sintaxe. 3. Sintaxe Formal. 4.

Gerativismo. 5. Português do Brasil. I. Nunes, Jairo

Morais, orient. II. Título.

Nome: CAVALCANTE, Rerisson.

Título: Negação anafórica no português brasileiro: Negação sentencial, negação enfática e

negação de constituinte.

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em

Semiótica e Lingüística Geral do Departamento de

Lingüística da Universidade de São Paulo, para

obtenção do título de Doutor em Lingüística.

Aprovado em:

Banca Examinadora

Prof. Dr. Jairo Morais Nunes (FFLCH/USP)

Julgamento: ______________________ Assinatura: _________________________________

Profa. Dra. Esmeralda Vailati Negrão (FFLCH/USP)

Julgamento: ______________________ Assinatura: _________________________________

Prof. Dr. Marcelo Barra Ferreira (FFLCH/USP)

Julgamento: ______________________ Assinatura: _________________________________

Profa. Dra. Ilza Maria Oliveira Ribeiro (UFBA)

Julgamento: ______________________ Assinatura: _________________________________

Profa. Dra. Sonia Maria Lazzarini Cyrino (UNICAMP)

Julgamento: ______________________ Assinatura: _________________________________

A Lucinha, Toinho, Duda e Franquinha.

AGRADECIMENTOS

Gostaria de saber escrever belos e poéticos agradecimentos que deixam emocionadas as

pessoas que os lêem, mas cheguei atrasado na fila de distribuição dessa (e de muitas outras!,

vocês nem imaginam...) qualidade. Portanto, espero que a intensidade da minha gratidão não

seja julgada pela qualidade dessas linhas.

Primeiramente, preciso agradecer Àquele que nos deu o dom de dizer sim e não e que

tem, há um bom tempo, feito por mim bem mais do que eu mereço (o que pode, talvez, soar

piegas, mas que é verdade).

Agradeço também aos meus pais, que — apesar de não saberem ao certo o que é

linguística ou para que serve — deram todo o apoio que puderam na minha caminhada

intelectual e acadêmica.

Agradeço à professora Ilza Ribeiro, que orientou minha dissertação de mestrado que deu

origem à investigação desta tese e que foi a principal incentivadora de minha vinda à

Universidade de São Paulo.

Agradeço também a Jairo Nunes, que me recebeu na Universidade de São Paulo,

orientou esta tese e que sempre mostrou dedicação e compromisso para com o trabalho e a

formação de todos os seus orientandos.

Agradeço também aos demais professores do Departamento de Linguística da USP, com

quem convivi nos últimos anos, não apenas em aulas, mas em palestras, corredores e demais

eventos: Marcelo Ferreira, Esmeralda Negrão, Evani Vioti, Elaine Grolla, Raquel Santos,

Marcello Modesto, Ana Paula Scher, Luciana Storto, Marcelo Lopes, Margarida Petter,

Cristina Altman.

Agradeço a Érica Flávia de Lima, Robson Dantas Vieira e Ben Hur Euzébio,

funcionários do Departamento de Linguística, com que eu e todos os alunos do Programa

temos uma relação bem peculiar: recorremos a eles para tentar tornar nossas vidas menos

difíceis às custas de tornar as deles menos fáceis.

Agradeço a Norbert Hornstein por me receber como orientando por um ano na

University of Maryland e fornecer contribuições valiosas a essa tese.

Agradeço também a professores de fora da Universidade de São Paulo que contribuíram

para esta tese com perguntas e sugestões: Mary Kato, Sônia Cyrino, Carlos Mioto, Howard

Lasnik, Jane Grimshaw, Mark Baker, Roberta D’Alessandro, Cristina Figueiredo, Heloísa

Sales, Ana Maria Martins, Zeljko Bošković, Maria Rita Manzini, Tonia Bleam, Jeffrey Lids,

Andrea Zukowski, dentre outros.

Agradeço a Leonor Simioni, que se transformou em uma irmã querida para mim.

Agradeço a todos os amigos a quem eu importunei com pedidos de julgamentos de

aceitabilidade de sentenças. Como eu havia prometido, as respostas de vocês contribuíram

para a pesquisa científica. Dentre esses, preciso reforçar os agradecimentos a Vivian

Antonino, Vanessa Ponte, Carlos Felipe Pinto, Isis Barros, Daniele Behnmann, Lucinda Hora,

Verônica Souza, Sabrina Casagrande e Isabella Fortunato.

Agradeço aos amigos e colegas estudantes da Universidade de São Paulo, com quem

compartilhei momentos acadêmicos e não-acadêmicos, especialmente a Luciana Sanchez,

João Vinícius Braga, Lara Frutos, Julio Barbosa, Indaiá (Castro) Bassani, Marcus Lunguinho,

Rafael Minusi, Renato Lacerda, Caroline Petersen, João Paulo Cyrino, Lucia Helena, Fátima

Baia, Daniel Peres.

Agradeço a Dustin Chacón, Kaitlyn, Angela Xiaoxue He, Yakov Kronrod, Bradley

Larson, Alexis Wellwood, colegas da University of Maryland.

Agradeço a Natália Nardi por todo apoio na fase final desta tese e — mais importante

— por me fazer bem.

Esta tese foi financiada pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo

(FAPFESP). Agradeço, portanto, à instituição pelo apoio sem o qual ela não teria sido

possível.

Agradeço à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, que

financiou meu intercâmbio de um ano na University of Maryland através de uma bolsa-

sanduíche.

Agradeço também aos contribuintes paulistas e brasileiros, cujos impostos financiaram

não apenas esta pesquisa, mas minha formação. Espero ter feito (e continuar a fazer) jus a tal

responsabilidade.

Ao ser humano cabe a frustrabilidade de certos atos, que

pode ele fazer ou não. Os animais sempre dizem sim à

natureza. O homem, porém, pode dizer não . Nesse não

está o índice de sua natureza, a abertura de sua elevação,

mas, também, o primeiro passo para os seus erros.

(Mário Ferreira dos Santos, filósofo)

RESUMO

CAVALCANTE, Rerisson. Negação anafórica no português brasileiro: Negação

sentencial, negação enfática e negação de constituinte. 2012. 456 f. Tese (Doutorado) –

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo.

Nesta tese, analiso, a partir do arcabouço teórico da gramática gerativa (Chomsky 1957

e outros), uma série de fenômenos relacionados à expressão da negação no português

brasileiro (PB). Trato de quatro temas principais: (i) a distribuição dos marcadores negativos

em diferentes contextos sintáticos; (ii) as formas de codificação da negação enfática; (iii) a

negação de constituintes; (iv) e a determinação do escopo em sentenças com adjuntos. Os

fenômenos examinados possuem duas propriedades em comum: (a) ao contrário do

normalmente esperado para o PB, o marcador não se coloca à esquerda, mas à direita do

elemento negado, em uma configuração [X(P) Neg]; (b) o marcador apresenta um

requerimento anafórico, ocorrendo apenas em contextos em que o constituinte negado tenha

sido previamente introduzido no discurso. A tese principal é que a ordem linear e

anaforicidade são resultado de uma propriedade sintática básica: esses marcadores são

gerados no CP e, portanto, apresentam sensibilidade a propriedades codificadas nesse sistema.

Ao longo da tese, demonstro como essa sensibilidade se manifesta em diferentes fenômenos.

Quanto à distribuição dos marcadores, mostro que o não pós-VP apresenta um série de

restrições com propriedades ilocucionárias e sintáticas das sentenças em que ocorre.

Argumento que essas propriedades são derivadas de o não pós-VP não ser um adjunto verbal

nem a realização da polaridade sentencial, mas a realização de uma categoria funcional

associada à confirmação e rejeição de proposições prévias, o que aproxima o não pós-VP de

partículas como o yes e no do inglês ao invés de marcadores internos como not. Quanto à

negação enfática, argumento que o não pós-VP do PB não é um recurso de ênfase ou reforço

da negação pré-verbal enfraquecida. Proponho que o quantificador nada, aparecendo em

posições não-argumentais, é que pode exercer as funções de negação enfática e de negação

exclamativa (ou metalinguística). Quanto à negação de constituintes, mostro que, assim como

na negação sentencial, o PB também pode exibir a configuração [X Neg] com a negação

agindo sobre DPs, APs, PPs e AdvPs. Argumento que essa configuração só está disponível em

contextos em que o elemento negado ocorra isoladamente ou em posição periférica da

sentença, sendo proibido em contextos mediais. Defendo, então, que a configuração [X Neg]

na negação de constituintes não é derivada por adjunção da negação à direita do elemento

negado, mas pela ativação da mesma categoria (do CP) em que são gerados o não pós-VP e o

marcador nada, com o constituinte não-oracional aparecendo no especificador dessa

categoria, com apagamento opcional da estrutura sentencial abaixo da negação. Quanto ao

escopo, analiso a interpretação da negação em sentenças com adjuntos verbais e com

marcadores pré-verbais (em que há ambiguidade de escopo) e com marcadores pré-verbais e

pós-VP (em que a ambiguidade se desfaz). Argumento contra a análise de ambiguidade nas

relações de c-comando (cf. Huang 1982; Johnston 1994) e assumo a proposta de Hornstein &

Nunes (2008) sobre a opcionalidade de atribuição de rótulo nas operações de adjunção.

Proponho que a presença ou ausência de rótulo afeta as relações de escopo negativo ao tornar

(ou não) o adjunto visível para o marcador negativo pré-verbal.

Palavras-chave: Negação sentencial, negação enfática, negação de constituintes, sintaxe

formal, periferia esquerda da sentença.

ABSTRACT

CAVALCANTE, Rerisson. Anaphoric Negation in Brazilian Portuguese: Sentential

Negation, Emphatic Negation and Constituent Negation. 2012. 456 f. PhD Dissertation –

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo.

In this Dissertation, I analyze a set of phenomena related to the expression of negation

in Brazilian Portuguese (BP). I deal with four main themes: (i) distribution of negative

markers in different syntactic contexts, (ii) forms of encoding emphatic negation and (iii)

constituent negations, (iv) and negative scope ambiguity in sentences with verbal adjuncts.

These phenomena have two properties in common: (a) differently from what is normally

expected in BP, the negative marker não is not placed at the left, but at the right of the negated

constituent, in a configuration like [X(P) Neg]; (b) the marker has an anaphoric requirement

and is acceptable only in contexts where the negated constituent has been previously

introduced in the discourse or in the communicative context. The main hypothesis is that the

linear order and the anaphoric requirement are the result of a syntactic property: these

markers are generated in the CP and therefore are insensitive to properties encoded in the CP-

system. Throughout the thesis, I show how this sensitivity appear in different phenomena. As

for item (i), I show that post-VP não shows a set of restrictions with discursive, illocutionary

and syntactic properties of the sentences it occurs. I argue against proposals that analyze post-

VP não as a verbal adjunct or the head of the sentential polarity category (PolP). I defend that

post-VP não heads a functional category associated with confirmation and rejection of

previous propositions and functions as English particles like yes and no rather than as internal

markers as not. As for item (ii), I argue that post-VP não is not a form of emphasis or

reinforcement of a weakened preverbal marker (in Jespersen’s 1917 sense). I propose that the

negative quantifier nada, in non-argumental positions, is the marker responsible for emphatic

negation and exclamative (or metalinguistic) negation in BP. As for item (iii), BP constituent

negation behaves like sentential negation in allowing the configuration [X Neg], with the

negative marker at the right of non-clausal phrases like DPs, APs, PPs and AdvPs. I show that

[X Neg] is available only in contexts where negated XP occurs isolated or in a peripheral

position of the sentence and is banned in medial positions. I argue then that [X Neg] in

constituents negation also involves the category where post-VP não and non-argumental nada

are generated, with the non-clausal constituent appearing in its specifier. As for item (iv), I

examine the interpretation of negation over with verbal adjuncts in sentences with pre-verbal

markers (which show scope ambiguity) and in sentences with both preverbal and post-VP

markers (which show no scope ambiguity). I argue against Huang 1982 and Johnston’s 1994

analyses, based on differences in c-command relations, and assume Hornstein & Nunes’

(2008) proposal on adjunction and labeling. I propose that the presence or absence of label in

adjunctions affects scope relations in making verbal adjunct visible or invisible to negative

marker.

Key-words: Sentential negation, emphatic negation, constituent negation, formal syntax, left

periphery.

SUMÁRIO

Introdução...............................................................................................................................16

Os fenômenos investigados......................................................................................................16

A negação e os três sistemas da estrutura sentencial................................................................19

Organização da tese..................................................................................................................24

1. Negação sentencial e periferia esquerda da sentença......................................................28

1.1. Os marcadores negativos do PB: diferenças discursivas...................................................32

1.1.1. A negação sentencial e a pressuposição de uma afirmação...................................35

1.1.2. Negação sentencial e o conceito de pressuposição................................................42

1.1.3. O não pós-VP em sentenças não-declarativas.......................................................45

1.2. Marcadores negativos do PB: distribuição sintática..........................................................52

1.2.1. As negativas pós-VP do PE e do PB......................................................................56

1.2.2. O status dos marcadores negativos do PB.............................................................61

1.3. Análise: partículas polares iniciais e finais........................................................................64

1.3.1. Os marcadores pós-VP e as partículas assertivas iniciais......................................64

1.3.2. Uma projeção de polaridade no sistema CP..........................................................69

1.3.3. O não pós-VP e o tipo ilocucionário da sentença..................................................76

1.4. Análises prévias da negação pós-VP no PB.......................................................................84

1.4.1. O não pós-VP como adjunto ao VP.......................................................................85

1.4.2. O não pós-VP como categoria de polaridade sentencial.......................................90

1.4.3. Marcadores relacionados ao sistema IP e ao sistema CP......................................97

1.4.4. O não pós-VP como uma categoria do sistema CP...............................................99

1.5. Negação pós-VP: assimetria nas sentenças encaixadas...................................................109

1.5.1. AstP como categoria restrita aos contextos matrizes...........................................110

1.5.2. [Neg VP Neg] em sentenças subordinadas..........................................................114

1.5.3. [Neg VP Neg] versus [VP Neg]...........................................................................117

1.5.4. A interpretação do não pós-verbal (matriz) nas sentenças encaixadas................125

1.6. Conclusões do capítulo....................................................................................................133

2. Negação enfática e negação exclamativa.........................................................................135

2.1. Negação pós-verbal, ênfase e o ciclo de Jespersen..........................................................137

2.2. Definição e tipos de ênfase..............................................................................................149

2.2.1. Heterogeneidade dos fenômenos enfáticos ou expressivos.................................150

2.2.2 Ênfase em termos de quantidade da informação..................................................156

2.2.3. Sentenças exclamativas e escalas........................................................................160

2.3. Nada não-argumental e ênfase.........................................................................................165

2.3.1. Nada como marcador negativo no PB.................................................................165

2.3.2. Estrutura das negativas com o marcador nada....................................................173

2.3.3. Sobre a natureza enfática do marcador nada.......................................................182

2.4. Quantificadores negativos em função enfática nas línguas de origem ibérica.................190

2.4.1. Nada enfático em espanhol platense e no PB......................................................191

2.4.2 Nada enfático (ou metalingüístico) do PE............................................................203

2.4.3. Tipos de marcadores negativos enfáticos nas línguas ibéricas............................219

2.5. Nada não-argumental nas línguas germânicas versus nas línguas ibéricas.....................229

2.5.1. Quantificadores negativos não-argumentais em inglês e línguas germânicas.....230

2.5.2. Quantificador nada/ nothing como minimalizador e como marcador negativo...235

2.6. Conclusões do capítulo....................................................................................................239

3. Fragmentos negativos, negação de constituintes e negação contrastiva......................241

3.1. Padrões de negação de constituintes e de negação sentencial nas línguas humanas.......244

3.2. Negação de constituintes versus negação de itens lexicais no PB...................................250

3.2.1. Negação de constituintes como relação núcleo-complemento............................251

3.2.2. Negação de constituintes como relação de especificação ou de adjunção..........259

3.2.3. Negação de constituintes como afixação.............................................................262

3.3. [Neg X] e [X Neg] em slogans e fragmentos negativos..................................................268

3.4. A alternância entre [Neg X] e [X Neg] no PB : negação contrastiva...............................275

3.4.1. Fragmentos negativos em réplicas.......................................................................278

3.4.2. [Neg X] e [X Neg] em bare argument ellipsis....................................................289

3.4.3. Posição pré-sentencial em respostas: tópicos negativos......................................305

3.4.4. Coordenações corretivas......................................................................................312

3.5. A categoria AstP e a negação (contrastiva) de constituintes............................................317

3.5.1. Uma análise para a negação de constituintes.......................................................318

3.5.2. Evidência em favor da ativação de AstP em [X Neg]..........................................325

3.5.3. Uma tipologia para o preenchimento de Spec,AstP............................................329

3.6. Conclusões do capítulo....................................................................................................331

4. Negação sentencial, adjuntos verbais e escopo negativo...............................................333

4.1. Ambigüidade de escopo negativo....................................................................................336

4.2. Análises prévias para a ambigüidade de escopo negativo................................................343

4.2.1. Transformação Not Shift e Regra prosódica........................................................343

4.2.2. Escopo negativo, ordem linear e c-comando.......................................................348

4.2.3. C-comando e adjunção ao VP ou ao TP..............................................................355

4.3. Problemas para a análise de (ausência de) c-comando....................................................360

4.3.1. Licenciamento de anáforas em adjuntos..............................................................362

4.3.2. Línguas em que NegP domina IP/TP...................................................................364

4.3.3. Sujeitos negativos................................................................................................368

4.3.4. Controle em adjuntos...........................................................................................370

4.3.5. Outras formas negativas acima de TP.................................................................375

4.3.6. Duas ou três leituras?...........................................................................................381

4.4. Línguas como marcadores de negação pós-VP................................................................385

4.4.1. Correspondência entre precedência linear e c-comando.....................................390

4.4.2. Adjunção do não pós-VP ao VP..........................................................................390

4.4.3. Dois marcadores ligados ao sistema IP...............................................................393

4.5. Concatenação, adjunção e rotulação................................................................................397

4.5.1. A opcionalidade na atribuição do rótulo..............................................................398

4.5.2. Seleção de argumento e projeção do rótulo.........................................................406

4.6. Derivando as possibilidades de escopo negativo.............................................................410

4.7. Conclusões do capítulo....................................................................................................424

Apêndices ao capítulo 4

Apêndice I: Rotulação e economia.........................................................................................427

Apêndice II: Rotulação e c-comando......................................................................................429

Conclusões e problemas adicionais......................................................................................437

Referências.............................................................................................................................440

Lista de quadros

Quadro 1.1: O status sintático do não pós-VP........................................................................117

Quadro 2.1: Tipologia das fenômenos expressivos.................................................................164

Quadro 2.2: Propriedades do nada não-argumental nas línguas ibéricas...............................219

Quadro 2.3: Propriedades das estruturas com o nada não-argumental nas línguas ibéricas...228

Quadro 2.4: Tipos de nada......................................................................................................239

Quadro 3.1: Distribuição dos padrões de negação de constituinte no PB...............................319

Quadro 3.2: Formas de preenchimento do especificador de AstP...........................................330

16

Introdução

Dizer do que é que não é, ou do que não é que é, é falso

e dizer do que é que é, ou do que não é que não é, é verdadeiro.

(Aristóteles)

Os fenômenos investigados

Nesta tese, analiso, a partir do arcabouço teórico da gramática gerativa (Chomsky 1957

e demais trabalhos), uma série de fenômenos linguísticos relacionados à expressão da negação

no português brasileiro (PB). Trato, ao longo das páginas seguintes, de quatro temas

principais: (i) a distribuição dos marcadores negativos em diferentes contextos sintáticos; (ii)

as formas de codificação da negação enfática; (iii) a negação de constituintes não-oracionais;

(iv) e a determinação do escopo negativo em sentenças com adjuntos verbais.

A unidade temática deste trabalho, entretanto, não se restringe a uma escolha

relativamente aleatória de temas ligados à expressão da negação. As estruturas sintáticas

examinadas aqui têm em comum, pelo menos, duas propriedades principais.

A primeira delas é o fato de que o marcador negativo não se coloca à esquerda, mas à

direita do elemento sobre o qual tem escopo, em uma configuração do tipo [X(P) Neg].

Descritivamente, o que torna estes fenômenos peculiares é o fato de que tanto a classificação

gramatical tradicional tanto a maior parte dos estudos linguísticos sobre o tema consideram

que a forma default de negação sintática no PB é a colocação do marcador negativo à

esquerda do elemento negado como, por exemplo, à esquerda do verbo.

Isso fez com que as estruturas sintáticas em que a negação ocorre à direita tenham

recebido uma atenção secundária na descrição da gramática do PB. Por exemplo, a existência

de negação sentencial com essa configuração — que corresponde ao item (i) acima — já foi

objeto de estudos anteriores (cf. E. Martins 1997; Afonso 2003; Fonseca 2004; dentre outros),

mas, até onde vai meu conhecimento, os demais tópicos (como a negação enfática, a negação

de constituintes e a ambiguidade de escopo) têm recebido pouca ou nenhuma atenção na

literatura sobre o PB.

Mais do que isso, até o momento, não houve na literatura nenhuma tentativa de uma

análise ampla dos contextos em que a negação pós-X(P) ocorre. Esta tese é um esforço neste

17

sentido. Nela, faço um levantamento de diversos contextos em que a negação pode realizar-se

através dessa configuração e tento fornecer uma análise unificada para esses diversos

fenômenos.

Ainda com relação à configuração, outro aspecto que torna tais construções peculiares

diz respeito à relação entre a ordem linear e a estrutura sintática. A maioria das análises sobre

a negação sintática no PB considera que o marcador negativo ocupa uma posição de núcleo de

uma categoria funcional e c-comanda o elemento negado. Por exemplo, na negação

sentencial, o marcador não (ou num) que aparece em posição pré-verbal seria gerado no

núcleo da categoria funcional NegP (no sentido de Pollock 1989) e c-comandaria o próprio

verbo e todo o VP sobre o qual tem escopo.

Diante desse quadro e do fato de que o PB é tido como uma língua de núcleo inicial, os

casos em que um marcador negativo (sentencial ou não-sentencial) ocorre à direita trazem um

problema para a descrição da estrutura sintática desta língua, pois, por hipótese, nessa

configuração à direita, o marcador não c-comanda o elemento negado. Esse resultado é ainda

mais problemático devido ao fato de que o c-comando tem sido tratado, na literatura sobre o

tema, como uma relação essencial para o estabelecimento do escopo negativo.

A segunda propriedade em comum que apresentam os fenômenos negativos

examinados nesta tese é o fato de que todos eles apresentam um requerimento discursivo que

denomino anafórico. Em outras palavras, os dados com os marcadores negativos à direita do

elemento negado não são discursivamente neutros, mas ocorrem necessariamente em

contextos em que a proposição, a propriedade ou o sintagma a ser negado corresponde a uma

informação discursivamente velha, ou seja, que foi previamente introduzida no discurso. O

requerimento de anaforicidade do elemento a ser negado é o conceito a partir do qual

desenvolvo a tentativa de análise unificada dos fenômenos de negação à direita.

A hipótese principal deste trabalho é que a ordem linear e a propriedade anafórica não

são acidentais nesses dados, mas são resultado de uma propriedade sintática mais básica.

Defendo aqui que as construções de negação sentencial, de negação enfática, de negação de

constituinte e de escopo negativo com a configuração [X Neg] têm em comum o fato de que

são geradas a partir da ativação de uma categoria funcional na periferia esquerda da sentença,

que está associada à codificação de confirmação ou rejeição de informações discursivamente

velhas, com a ordem linear sendo derivada de modo semelhante aos processos de

topicalização e focalização de constituintes.

18

Essa hipótese foi apresentada inicialmente em minha dissertação de mestrado A

negacão pós-verbal no portugues brasileiro: analise descritiva e teórica de dialetos rurais de

afro-descendentes (Cavalcante 2007; cf. também 2008a, 2008b, 2008c, 2008d, 2009b e 2010)

para os casos de negativas sentenciais com um não pós-VP no PB. A investigação realizada

nesta tese é um desenvolvimento e ampliação da pesquisa e das ideias lançadas naquele

trabalho.

A hipótese, contudo, não se limita a defender essa análise específica para os dados do

PB, mas a propor a existência, translinguisticamente, de uma classe de marcadores negativos

relacionados ao sistema CP (ao invés de IP ou VP). Esses marcadores possuiriam em comum

o fato de apresentarem algum tipo de sensibilidade com propriedades codificadas no sistema

CP, enquanto os marcadores negativos relacionados ao IP podem apresentar restrições a

propriedades flexionais (i.e. tempo, modo, aspecto) codificadas nesse sistema. No PB, essas

restrições estão relacionadas ao requerimento anafórico que faz com que os marcadores pós-

XP sejam sensíveis a propriedades ilocucionárias e sintáticas (como o encaixamento). Em

outras línguas, as restrições envolvem propriedades distintas, mas também relacionadas à

periferia esquerda, como o tipo de complementizador em jogo ou outros tipos de restrições

ilocucionárias (como veremos no primeiro capítulo da tese).

O pressuposto em que essa hipótese se baseia é que a escolha quanto à alocação de uma

categoria funcional negativa (ou de polaridade) no sistema VP, no sistema IP ou no sistema

CP não faz previsões apenas sobre a ordenação linear entre a negação e os demais

constituintes e categorias funcionais da sentença, mas também sobre a natureza sintático-

semântica do elemento negativo em jogo. Esse pressuposto, presente em Cavalcante (2007) e

desenvolvido nesta tese, recebe apoio adicional da proposta desenvolvida independentemente

por Farkas (2010) quanto à existência de dois tipos marcação da polaridade sentencial, i.e.

uma polaridade interna à sentença, realizada através dos marcadores negativos associados a

NegP, e uma polaridade externa à sentença, realizada através das partículas assertivas iniciais.

Também é reforçado pelo trabalho de Martins (2010, 2012) sobre marcadores negativos do

português europeu que teriam a função específica de codificar negação metalinguística, que

também exibem um tipo de requerimento anafórico (mas com diferenças específicas que serão

discutidas no primeiro e no segundo capítulo).

Nesta tese, além de defender que essa categoria (responsável pela polaridade externa e

relacionada ao requerimento de anaforicidade) pode ser ativada nos processos de negação

19

sentencial do PB, argumento também que ela desempenha um papel importante na

codificação da negação enfática (ou exclamativa) e na negação de constituintes não-

oracionais, além de poder afetar (indiretamente) as relações de escopo negativo entre o

marcador de polaridade interna e o predicado e os adjuntos verbais.

A negação e os três sistemas da estrutura sentencial

Horn (1989: 1-44) aponta que, na Lógica clássica, aquilo que conhecemos como

negação sentencial pode ser tratado de duas formas distintas, as quais remotam até os estudos

de Aristóteles e dos filósofos estóicos. Para Aristóteles, a negação sentencial é essencialmente

uma negação do predicado ou da relação existente entre o sujeito e o predicado que se afirma

a respeito dele. Nesta perspectiva, uma sentença ou proposição como (1a) corresponde à

fórmula em (1b), em que se nega que o sujeito possua a propriedade P, ou à fórmula (1c), em

que se afirma que o sujeito não possui a propriedade P (ou, alternativamente, que possui a

propriedade não-P).

(1)

a. Sócrates não é cego.

b. “S não é P”

(= ‘Sócrates não possui a propriedade P’)

c. S é não-P.

(= ‘Sócrates possui a propriedade não-P’)

Para os filósofos estoicos, diferentemente, a negação é uma operação que age sobre toda

a proposição, invertendo-lhe o valor de verdade. Nessa perspectiva, não há uma negação da

relação de predicação sobre o sujeito, mas uma afirmação da falsidade da sentença afirmativa

correspondente. Assim, uma sentença como (2a) tem a estrutura lógica descrita pela fórmula

em (2b).1

(2)

a. Sócrates não é cego.

b. não: Sócrates é cego.

(= ‘A sentença ‘Sócrates é cego’ é falsa’)

1 Essa diferença resulta de uma distinção mais básica entre as duas formas de lógica, a saber, o fato de que a

lógica aristotélica é baseada em termos e a lógica estóica, em proposições (cf. Horn 1989, capítulo 1; Sellars

2006: 55-60).

20

A semântica formal de inspiração fregeana, por exemplo, tem uma concepção de

negação muito mais próxima à dos estoicos do que à de Aristóteles, por não considerar a

negação como um modificador de um predicado, mas ela mesma como um tipo de predicado,

i.e. como um operador que toma a sentença ou proposição como seu argumento.

Na sintaxe gerativa, encontramos, desde os primeiros anos, análises para a negação

sentencial que refletem tanto a perspectiva de modificação de predicado, mais próxima à

visão aristotélica, quanto à de negação da proposição, mais próxima à visão estóica (embora

uma comparação mais direta entre as análises formuladas na arcabouço teórico da gerativa e

as concepções da Lógica clássica seja evidentemente simplista e não seja o objetivo dessa

breve introdução).

Do ponto de vista histórico, entretanto, vemos uma evolução, dentro da teoria, de uma

perspectiva (semelhante à) aristotélica para uma (semelhante à) estóica. Em termos gerais,

isso corresponde, respectivamente, a análises em que a negação é gerada como um

modificador (i.e. um adjunto) de uma categoria verbal e a outras em que a negação é gerada

em uma posição externa à proposição.

No modelo original de Chomsky (1955, 1957), por exemplo, as sentenças negativas são

geradas através de uma operação de transformação que insere o marcador negativo not em

uma posição adjacente a categoria Aux(iliar), que, pelas regras de reescritura, é

estruturalmente independente do sujeito e do sintagma verbal. A formulação dessa análise não

tem o objetivo de representar as relações lógicas de predicação, mas as relações estruturais e

de ordem linear, mas, ainda assim, em certo sentido, ela reflete uma concepção da negação

mais próxima à visão aristotélica. Dois são os motivos para tal opinião. Primeiro, neste

modelo, o sujeito sentencial é gerado em uma posição externa ao VP. Segundo, a categoria

auxiliar, responsável pela informação flexional que se anexa ao verbo, pode ser considerada

um elemento de ligação entre o sujeito e o predicado.2 A adjacência entre a negação e o

elemento flexional pode, então, ser vista como uma modificação da relação de predicação.

Em Klima (1964), por outro lado, a negação é gerada, no componente de base, como um

elemento pré-sentencial, que antecede e está relacionado (“in construction with”) tanto com o

NP sujeito quanto com o VP predicado, como na representação em (3). A posição superficial

da negação é derivada através de operações de transformação que deslocam a posição do

marcador negativo. Esse tipo de análise é mais próxima da concepção estoica, uma vez que a

2 Vide, por exemplo, o fato de que modelos posteriores consideram que a atribuição do papel temático do

sujeito se dá por intermédio de algum tipo de percolação de traços do verbo para a categoria flexional.

index-22_1.jpg

21

negação não é gerada diretamente como um modificador o predicado ou a predicação, mas de

toda a sentença, tanto o sujeito quanto o predicado.

(3)

Vários trabalhos da época seguem essas duas visões sobre a relação entre a negação e a

estrutura sentencial, i.e. uma visão chomskyana do marcador negativo como um elemento

relacionado à categoria Aux e uma visão, inspirada em Klima (1964), da categoria Neg como

um elemento pré-sentencial. O trabalho de Lasnik (1972), por exemplo, discute a interação

entre a negação sentencial e certos elementos quantificadores a partir de duas hipóteses, a de

que not é gerado como elemento adjunto a Aux e a de que é gerado em uma posição pré-

sentencial (ou Pre-S na nomenclatura do autor).

Uma terceira possibilidade vem de análises como a de Emonds (1978), que consideram

a negação como uma categoria adverbial gerada no VP e independente da categoria flexional

responsável pelo tempo, de acordo com as estruturas em (4) e (atualizadas) em (5).

(4) a. S → NP TENSE VP

b. VP → (NEG) (ADV) V’ ...

(Emonds 1978: 165)

(5)

Negação como adjunto de VP

a. John did not kiss the girl.

b. [IP/S John [I’/Aux did [VP not [VP kiss the girl ] ] ] ]

c. Jean (ne) aime pas Marie

d. [IP/ John [I’/Aux aimei [VP pas [VP ti Marie ] ] ] ]

A partir da década de 1980, duas mudanças nos pressupostos da teoria resultam na

vitória definitiva da perspectiva estoica sobre a aristotélica. A primeira dessas mudanças vem

da hipótese de que o sujeito sentencial é gerado em uma posição interna ao VP (cf. Kuroda

1988; Koopman & Sportiche 1991; Huang 1993), como um argumento, sendo posteriormente

22

movido para a posição de especificador de IP (= Aux). Uma vez que o sujeito é, agora, parte

do que era considerado o predicado, a geração da negação como adjunto do VP, como adjunto

da flexão ou como uma categoria pré-sentencial faz pouca diferença para as relações lógicas

entre sujeito e predicado. A negação do VP, de que faz parte o sujeito, resulta em a negação

tendo escopo sobre sujeito e predicado, i.e., tomando toda a proposição como seu argumento.

Por outro lado, essa consequência deve ser relativizada devido à idéia de que as relações

semânticas não são definidas exclusivamente em estrutura profunda, mas que as operações de

movimento dos constituintes têm efeito sobre a interpretação da sentença. Se a negação for

considerada um adjunto do VP, o movimento do sujeito abre novamente a possibilidade de

interpretação da negação como um simples modificador do predicado ou como um operador

sobre toda a proposição.

A segunda mudança vem da mudança de status do marcador negativo a partir do

trabalho de Pollock (1989) sobre o movimento do verbo. Com o objetivo de dar conta das

diferentes possibilidades de ordenação entre o verbo (finito ou infinitivo) e a negação, o autor

promove a negação sentencial de um simples adjunto verbal para a honrosa posição de

realização de uma categoria funcional da hierarquia da sentença, gerada entre as categorias de

tempo (TP) e de concordância (AgrP), como nas representações em (6) abaixo.

(6)

Negação como categoria funcional

a. John did not kiss the girl.

b. [TP John [T’ did [NegP not [AgrP [VP kiss the girl ] ] ] ] ]

c. Jean (ne) aime pas Marie

d. [TP John [T’ aimei [NegP not [AgrP ti [VP ti Marie ] ] ] ] ]

(adaptado de Pollock 1989)

A visão da negação como uma categoria funcional (ao invés de um simples advérbio

adjungido ao VP) culmina com a proposta de Laka (1990) sobre a existência de uma categoria

mais geral responsável pela polaridade sentencial, denominada ΣP, que codificaria tanto traços

afirmativos quanto negativos.

O status da negação sentencial como uma categoria funcional independente, alocada

entre as projeções funcionais do sistema IP, ao invés de um adjunto do verbo ou do VP, pode

ser visto como a vitória da concepção estoica sobre a aristotélica, da negação como um

23

predicado que toma a proposição como seu complemento, invertendo-lhe o valor de verdade,

ao invés de um modificador de predicados.

Por outro lado, a negação como adjunto verbal ou como modificador do predicado

permanece presente na teoria gerativa nas análises que tratam dos casos de negação de VPs

não-oracionais em sentenças como as de (7), que são comumente tratadas como envolvendo o

marcador negativo adjungindo-se ao VP ao invés de projetando uma categoria funcional

NegP.

(7)

John can always not agree.

John has been not playing football for many years.

(Choi 2004: 187)

Em outras palavras, dentro da teoria gerativa, o marcador negativo é analisado

majoritariamente como um elemento relacionado ao sistema IP, mas a possibilidade de gerá-lo

no sistema VP ainda está presente, como opção secundária, com o pressuposto implícito de

que existem fenômenos negativos associados ao sistema IP (ou ao nível sentencial ou

proposicional) e fenômenos negativos associados ao sistema VP (ou nível dos predicados ou

termos).

Contudo, para a teoria gerativa, a estrutura sentencial não comporta apenas os sistemas

VP (responsável pelas relações temáticas e predicativas) e o sistema IP (responsável pelas

relações flexionais), mas também um terceiro sistema, encarregado da codificação das

relações intersentenciais e extra-sentenciais, i.e., das relações entre a sentença e o discurso ou

a estrutura informacional. O aspecto discursivo ou informacional está fora do campo de

interesse da Lógica clássica, mas interessa a qualquer teoria sobre a estrutura das línguas,

principalmente nos aspectos em que afeta (ou é afetado pel)a própria estrutura sintática da

sentença.

Considerando, portanto, a existência de um sistema como o CP na hierarquia da

sentença, é uma pergunta cabível se há também fenômenos negativos associados

especificamente ao CP, por oposição aos fenômenos ligados ao IP e ao VP. A análise de

Cavalcante (2007) e a investigação desenvolvida nesta tese é uma resposta positiva a essa

questão (cf. também Poletto 2009; Farkas 2010; Martins 2010, 2012; Teixeira de Sousa

20081, 2008b; Hansen 2009; Biberauer & Cyrino 2009, 2010).

24

Defendo aqui que o que caracteriza os fenômenos (e os marcadores) negativos

associados ao sistema CP é o requerimento anafórico, segundo o qual a negação deve se

referir a uma proposição previamente introduzida no discurso (semelhantemente ao conceito

de ativacão de Schwenter 2005). Outro aspecto que particulariza os marcadores negativos do

sistema CP é o fato de que o escopo negativo é determinado de modo semelhante às relações

de topicalização e de focalização, através da relação entre especificador e núcleo, ao invés da

relação de c-comando.

Organização da tese

A tese está organizada da seguinte forma.

No primeiro capítulo ( Negacão sentencial e periferia esquerda da sentenca), analiso as

propriedades das sentenças negativas do PB que exibem um não em posição pós-VP em

oposição àquelas em que apenas um marcador pré-verbal está presente. Aponto que o não

pós-VP apresenta uma distribuição mais limitada do que o pré-verbal, estando sujeito a

restrições de natureza discursiva, ilocucionária e sintática. A partir dessa caracterização,

defendo, com base em Cavalcante (2007), a hipótese de que o não pós-VP não pode ser

considerado nem um adjunto verbal nem um elemento ligado à marcação da polaridade da

sentença, como tem sido defendido na literatura, mas um elemento ligado ao sistema CP,

gerado em uma categoria funcional responsável por marcar confirmação e negação ou

rejeição de informações ou proposições apresentadas anteriormente no discurso. Para dar

apoio a essa análise, aponto também a semelhança entre o comportamento do não final e das

partículas assertivas iniciais, bem como comparo os dados do PB com os de outras línguas

(como o português europeu, o palenquero, o são-tomense e o vêneto) em que há sentenças

com configurações similares e que também apresentam restrições a propriedades codificadas

no sistema CP. Mostro também que a ideia de associar certos marcadores negativos ao sistema

CP tem surgido em alguns trabalhos recentes sobre o tema, seja de modo independente e em

trabalhos sobre outras línguas (cf. Poletto 2009; Farkas 2010; Martins 2010, 2012) seja dentro

do quadro de discussão das propriedades do não pós-VP do PB (cf. Teixeira de Sousa 20081,

2008b; Hansen 2009; Biberauer & Cyrino 2009, 2010), algumas vezes em respostas diretas à

análise feita em Cavalcante (2007).

25

No segundo capítulo ( Negacão enfatica e negacão exclamativa), discuto os conceitos de

negação enfática e de negação exclamativa, rejeitando a hipótese de que o não pós-VP do PB

seja uma forma de ênfase ou reforço negativo necessária para compensar algum

enfraquecimento fonético do marcador pré-verbal, no sentido das etapas iniciais do ciclo de

Jespersen (Jespersen 1917). Contrariamente a essa ideia, proponho que o PB possui um outro

tipo de marcador negativo responsável pela negação enfática, i.e. o quantificador nada em

posição não-argumental. De modo a caracterizar as propriedades desse elemento, realizo uma

comparação com dados de outras línguas em que um quantificador negativo [-ANIMADO]

também pode aparecer em posição não-argumental ou não-temática, a partir dos trabalhos de

Di Tullio (2008), Pinto (2010) e Bayer (2009) sobre fenômenos semelhantes no espanhol

platense, no português europeu e no inglês. Concluo que quantificadores equivalentes a nada

podem exercer duas funções não-temáticas, codificando dois tipos de ênfase: (i) podem

ocorrer como elementos minimizadores em posições relativamente baixas da hierarquia

sentencial, ligados a predicados verbais e/ou adjetivais, codificando enfase escalar (no

sentido de Israel 1996, 1998, 2001); (ii) e podem se gramaticalizar como marcadores

negativos associados ao sistema CP, codificando um tipo de ênfase associada ao

comprometimento do falante com a veracidade (ou assertabilidade) da proposição, que pode

ser classificada como enfase ilocucionaria, negação exclamativa ou, ainda, como “usos

exclamativos na negação metalinguística” (para usar a expressão de Drozd 2001). Encerro o

capítulo apontando que a gramaticalização do nada não-argumental do PB e do português

europeu em um marcador negativo associado à ênfase pode ser visto como um desvio em

relação ao processo conhecido como ciclo de Jespersen, por não envolver a perda do conteúdo

enfático (mas a mudança no tipo de ênfase codificada) nem substituir do antigo marcador pré-

verbal pelo novo marcador pós-VP.

No terceiro capítulo ( Fragmentos negativos, negacão de constituintes e negacão

contrastiva), saio do nível sentencial para examinar casos de negação de constituintes (não-

oracionais). Mostro que, assim como na negação sentencial, também na negação de

constituintes o PB pode exibir um marcador negativo à direita do elemento sobre o qual tem

escopo. Examino diversos contextos de negação de constituintes e identifico (i) aqueles em

que apenas o padrão [Neg X] é possível; (ii) aqueles em que [Neg X] alterna com [X Neg]

(surpreendentemente, com a preferência, por parte dos falantes, da configuração em que

negação aparece à direita) e (iii) aqueles em que apenas [X Neg] é possível. No primeiro tipo,

26

estão os casos de negação de itens lexicais, em que o marcador negativo pode ser considerado

um afixo, que, por restrições de natureza mais morfológica do que sintática, ocorre em ordem

rígida. Também estão nesse tipo os casos de coordenações de sintagmas não-oracionais, que

envolvem uma função corretiva ou contrastiva. O que há em comum entre esses dois casos é a

possibilidade de tais elementos ocorrerem em posição medial da sentença. No segundo tipo,

estão outros casos que também envolvem algum tipo de leitura contrastiva da negação, mas

com o elemento negado ocorrendo ou em posição isolada ou em posição periférica na

sentença. São os casos de fragmentos de sentenças usados como respostas, de bare argument

ellipsis e de tópicos negativos. No terceiro tipo, estão os casos de slogans negativos usados

com a função de rejeição de temas. A configuração [Neg X(P) Neg] está totalmente

indisponível nos processos de negação de constituintes no PB, apesar de ser documentadas em

outras línguas. Com base nessa distribuição, defendo que a configuração [X Neg] na negação

de constituintes no PB não é derivada por adjunção da negação à direita do elemento negado,

mas através da ativação da mesma categoria funcional em que são gerado o não pós-VP e o

marcador nada, na periferia esquerda da sentença, com o constituinte não-oracional ocorrendo

no especificador dessa categoria, com apagamento opcional da estrutura sentencial abaixo da

negação.

No quarto capítulo ( Negacão sentencial, adjuntos verbais e escopo negativo), analiso

estruturas que são formalmente de negação sentencial, mas em que o escopo negativo recai

sobre apenas uma parte da sentença. Trata-se do fenômeno de interação entre a negação

sentencial e certos adjuntos verbais (de causa, finalidade e tempo), que podem apresentar a

leitura (i) de negação exclusiva do predicado, excluindo o adjunto; (ii) ou de negação

exclusiva do adjunto, excluindo o predicado. Demonstro que a análise clássica para o

fenômeno (cf. Huang 1982; Takubo 1985; Johnston 1994), baseada na ambiguidade nas

relações de c-comando, apresenta uma série de problemas com estruturas em que, de acordo

com a análise, uma das leituras deveria ser excluída. Mostro, adicionalmente, que a presença

do marcador negativo pós-VP do PB e de outras línguas afeta as relações de escopo,

cancelando a ambiguidade interpretativa e permitindo apenas umas das leituras, a depender da

posição em que esse marcador é inserido em relação ao adjunto. Esse fato apresenta

problemas adicionais para a análise de c-comando. Como solução para esses problemas,

recorro à proposta de Hornstein & Nunes (2008) e Hornstein (2009) a respeito da

opcionalidade na atribuição de rótulo nas operações de adjunção. Proponho que a presença ou

27

ausência de rótulo afeta as relações de escopo negativo ao tornar (ou não) o adjunto visível

para o marcador negativo pré-verbal. Argumento que essa análise faz a previsão adequada

tanto das características semânticas quanto das diferenças prosódicas entre as leituras de

negação de predicado e de adjunto, não apenas em sentenças em que há apenas um marcador

negativo pré-VP, mas também naquelas em que ocorre, adicionalmente, um marcador pós-VP.

Por fim, nas Conclusões e problemas adicionais, encerro a tese com uma recapitulação

dos principais resultados encontrados e das principais ideias defendidas, apontando também

fenômenos e problemas adicionais (que não puderam ser tratados ao longo dessa tese) para

serem objeto de pesquisa futura sobre o tema.

28

1. Negação sentencial e periferia esquerda da sentença

Seja, porém, o vosso falar:

Sim, sim; Não, não.

(Jesus de Nazaré)

O presente trabalho é fruto do desenvolvimento de questões levantadas inicialmente em

Cavalcante (2007) sobre a variação, distribuição e propriedades estruturais das negativas pós-

verbais do PB (cf. também Cavalcante 2008c, 2008d, 2009a, 2009d), em que identifico

contextos sintáticos em que o [Neg VP Neg] e [VP Neg] são inaceitáveis e argumento que o

marcador negativo final do PB é sensível a traços codificados na periferia esquerda da

sentença (uma propriedade que, como se verá aqui, também é compartilhada por marcadores

negativos de outras línguas).

No português brasileiro (doravante PB), há duas partículas distintas, embora

fonologicamente semelhantes, responsáveis pela expressão da negação sentencial: a primeira,

realizada como não ou mais frequentemente como num,1 ocorre sempre em posição

imediatamente pré-verbal2, enquanto a segunda, realizada sempre como não, aparece em

posição pós-VP ou final de sentença (após complementos e adjuntos verbais). As duas podem

ocorrer isoladamente ou simultaneamente, gerando os três padrões de negação sentencial

exemplificados abaixo: [Neg VP], [Neg VP Neg] e [VP Neg].

(1)

a. Num assisti esse filme.

[Neg VP]

b. Num assisti esse filme não.

[Neg VP Neg]

c. Assisti esse filme não.

[VP Neg]

1

O estudo de Ramos (1999) sobre o dialeto de Belo Horizonte encontra 45% de realização da forma num, mas

esses números dizem respeito a dados do não ou num em qualquer posição da sentença. Considerando apenas

os dados em posição pré-verbal, que é o único contexto em que não pode ser pronunciado como num, esse

número sobe para 59%.

Já Mata (1999) encontra 86,6% de num (em posição pré-verbal) na cidade de João Pessoa. Cardoso (1979)

encontra 47% da forma num no dialeto rural de Gararu (Sergipe), mas o percentual chega a 59% quando

contamos apenas as ocorrências em contextos não-finais. Cavalcante (2004) encontra 92% de num (também

em posição pré-verbal) em um corpus de fala da Salvador. E Cavalcante (2007) aponta um percentual de 96%

de realização num em contexto pré-verbal em comunidades rurais do interior da Bahia.

Com base nesses dados, podemos considerar que, em posição pré-verbal, a realização default do marcador

negativo é como num, ao menos em parte dos dialetos brasileiros. A pronúncia como não pode ser

influenciada pelo processo de escolarização e de letramento.

2

Apenas clíticos verbais podem romper a adjacência entre o marcador pré-verbal e o verbo, como em (i).

(i) Eu num me lembro disso.

29

Os exemplos em (1) revelam que ambas as partículas possuem a capacidade de negar a

sentença independentemente, em uma situação claramente distinta, por exemplo, do francês,

em que, apesar da existência de duas partículas negativas (uma em posição pré-verbal e outra

em posição pós-verbal, i.e. ne e pas, respectivamente), apenas a segunda delas pode ser

analisada como o marcador negativo, por ser a única capaz de negar a sentença

independentemente.

Por outro lado, apesar de ambas as partículas negativas do PB possuírem a capacidade

de negar a sentença independentemente, muitos autores e falantes manifestam a intuição de

que elas não desempenham a mesma função e de que a partícula pós-verbal desempenha um

papel distinto ou mais específico nas sentenças em que ocorre. Reforça essa intuição o fato de

que a estrutura [Neg VP], representada em (1a), é a mais antiga da língua3 e de uso mais

frequente, sendo, então, considerada a negativa default do PB. Outro fato que corrobora essa

visão é o fato de que a forma [VP Neg] possui uma distribuição geográfica mais restrita, não

estando presente em todos os dialetos do PB.4

De fato, como se verá nas seções 1.1 e 1.2, as duas partículas não se comportam de

maneira idêntica. Antes, os contextos (sintáticos e discursivos) em que o segundo item ocorre

são apenas um subconjunto daqueles em que o primeiro pode ocorrer. Neste capítulo, discuto

as propriedades discursivas e sintáticas que diferenciam [Neg VP Neg] e [VP Neg] da

construção default [Neg VP] e apresento uma análise alternativa para a derivação das

sentenças com o marcador negativo final no PB.

Na literatura sobre o tema, o não pós-VP tem sido analisado ou (i) como um simples

elemento adverbial adjungido livremente a alguma das camadas do VP ou (ii) como um

elemento codificador da polaridade sentencial, relacionado ao sistema IP5, de modo

3

Tentando traçar a evolução histórica das negativas pós-verbais do português brasileiro, Sousa (1999) relata

que não encontrou dados de [VP Neg] em pesquisa feita em dados dos séculos XIII ao XIV. Nesse período, a

autora encontrou apenas sete ocorrências de [Neg VP Neg] em um total de 5.151 dados.

4

Em muitos dialetos do sul e sudeste do Brasil, [VP Neg] está ausente, ainda que [Neg VP Neg] seja uma

forma disponível. A forma [VP Neg] também é muitas vezes considerada, por falantes sulistas, como um

estereótipo da fala nordestina, embora não esteja restrita a essa região. Alkmim (1999; 2002a; 2002b), por

exemplo, analisa a distribuição em corpus de comunidades rurais de Minas Gerais e encontra 40 exemplos de

[VP Neg], de um total de 2.322 dados, o que equivale a 1,7% das sentenças negativas. Examinando o dialeto

mineiro de Belo Horizonte, Camargos (2000) encontra 3% de [VP Neg] em um total de 980 dados. Apesar de

baixo, esses percentuais são maiores do que os que Cunha (1996, 2001) encontra em Natal (RN). Nesta

capital nordestina, Cunha encontra 0,6% de [VP Neg] em um corpus de 1.465 sentenças negativas.

Veremos também, na subseção 1.2.1, que por muito tempo a literatura sobre a negação no português assumiu

que [VP Neg] fosse uma estrutura totalmente ausente do português europeu, sendo uma inovação do PB. Esse

pressuposto foi derrubado por dados apresentados por autoras como Pinto (2010) e Martins (2012), que

apontam a existência de [VP Neg] no português europeu, embora com uma função ligeiramente distinta.

5

Na literatura gerativista, o termo “IP” é ambíguo entre (i) uma categoria sintática única equivalente à

categoria Aux dos primeiros trabalhos de Chomsky (1957, 1965 entre outros); (ii) uma representação

30

semelhante ao não/ num pré-verbal. Análises semelhantes podem ser encontradas na literatura

sobre outras línguas que também apresentam dois ou três dos padrões apresentados em (1) (cf.

a seção 1.4). Ao longo do capítulo, argumento que essas análises fazem previsões incorretas

(a) sobre as propriedades distribucionais do marcador negativo pós-VP e (b) sobre a relação

entre a polaridade da sentença e a polaridade do marcador.

Como alternativa, defendo que o marcador negativo pós-VP do PB não projeta uma

categoria adverbial nem uma categoria responsável pela polaridade (interna da sentença), mas

uma categoria relacionada ao sistema CP. De acordo com essa análise, o não pós-verbal do PB

é gerado como núcleo de uma categoria funcional acima do CP (ou das camadas mais baixas

do CP), como na representação em (2a). A derivação completa de uma sentença como (1b) e

(1c) envolve também o movimento de toda a oração para o especificador da categoria em que

o marcador pós-VP ocorre, como na representação em (2b).

(2)

a. [X’ não [CP [TP (num) assisti esse filme ] ] ]

b. [XP [CP/TP (num) assisti esse filme ] [X’ não [CP [TP (num) assisti esse filme ] ] ]

A derivação em (2) é uma adaptação da proposta feita em Cavalcante (2007), em que

adoto uma implementação distinta para a mesma ideia (cf. subseção 1.4.4). A ideia básica,

porém, é que as propriedades discursivas e sintáticas das sentenças com um não pós-VP

resultam de este ser um elemento relacionado ao sistema CP. 6 A reformulação da análise visa a

dar conta de aspectos dessas estruturas que eram problemáticos para a implementação

anterior.

A opção de gerar a posição pós-VP do marcador negativo através do movimento de toda

a oração também é adotada por outros autores como Fonseca (2004) e E. Martins (1997)

(discutirei análises de outros autores em 1.4), que relacionam esse marcador ao sistema IP. A

resumida de duas categorias funcionais distintas TP e AgrP, no sentido de Pollock (1989); (iii) um rótulo

alternativo para a categoria TP (por oposição a AgrP); (iv) e como a representação de parte da estrutura

sentencial que abarca todas as categorias funcionais entre CP e VP, como os próprios TP e AgrP, mas também

Asp(ectual)P, ModoP etc.

Nesta tese, utilizo “IP” em dois sentidos:

(a) como o sistema de categoriais funcionais que codificam informações flexionais (i.e. tempo, aspecto,

modo, concordância etc) entre CP e VP (o que excluiria do IP as categorias de tópico e foco baixos da

periferia do VP, propostas por Belletti (2001));

(b) e como sinônimo da categoria flexional que aloja o verbo e o sujeito em línguas como o inglês e o PB.

Quando possível, evito a ambiguidade através da expressão “sistema IP” para o primeiro caso.

6

Confira também Teixeira de Sousa (2008a, 2008b), Hansen (2009) e Martins (2010, 2012) para outras

análises que adotam a ideia de que o marcador pós-VP estaria relacionado ao CP.

31

opção, que faço neste trabalho, por gerar o não pós-VP no sistema CP ao invés de no sistema

IP não é um aleatória, mas uma tentativa de captar uma propriedade básica desse marcador.

Ao alocar o não pós-VP no sistema CP, proponho que esse item não tem a função de

marcar a polaridade sentencial através de um processo de checagem dos traços da própria

sentença (como propõem Fonseca (2004) e E. Martins (1997)), mas que ocorre em uma

categoria funcional responsável pela codificação de um tipo de ponto de vista do falante com

relação a uma proposição. Trata-se de uma função semelhante às das partículas assertivas pré-

sentenciais como yes e no, do inglês, e de sim, é e não iniciais (ou pré-sentenciais) do

português e que não deve ser confundida por a que é exercida por marcadores relacionados ao

IP ou Iº, como o não/ num pré-verbal do PB, o not pós-verbal do inglês, o pas pós-verbal do

francês, o no do espanhol, etc. Ao longo do texto, veremos como essa proposta pode dar conta

das propriedades distribucionais da partícula negativa final do PB.

Do ponto de vista estrutural, a diferença que proponho entre os marcadores relacionados

ao IP e as partículas iniciais/finais como o não pós-VP, relacionados ao CP, é semelhante à

proposta de Laka (1990), que diferencia os marcadores de polaridade gerados em NegP (ou

ΣP) e as partículas assertivas do sistema CP. Do ponto de vista semântico (ou semântico-

discursivo), a análise encontra suporte na distinção feita, independentemente, por Farkas

(2010) entre inner polarity e outer polarity.

Este capítulo está organizado da seguinte forma: na seção 1.1, discuto as propriedades

discursivas ou pragmáticas que diferenciam as sentenças que contêm apenas o marcador pré-

verbal e as sentenças em que o marcador pós-VP está presente. Na seção 1.2, discuto as

diferenças na distribuição sintática entre os três tipos de sentenças negativas. Na seção 1.3,

ofereço uma proposta de análise para a derivação das sentenças com estrutura [Neg VP Neg] e

[VP Neg], relacionando tais construções às sentenças com partículas assertivas iniciais usadas

como réplicas. Demonstro como essa proposta fornece uma análise unificada para as

restrições desses elementos ao tipo ilocucionário da sentença. Em 1.4, discuto outras

propostas encontradas na literatura gerativista para a derivação das [Neg VP Neg] e [VP Neg]

no PB. Na seção 1.5, discuto o problema adicional da possibilidade de o marcador negativo

pós-VP ocorrer em sentenças encaixadas e da distribuição irregular de [Neg VP Neg] nesse

contexto. Na seção 1.6, concluo o capítulo.

32

1.1. Os marcadores negativos do PB: diferenças discursivas

Uma análise adequada das sentenças negativas com o não pós-VP deve começar com

uma caracterização adequada dos contextos em que esse marcador pode ocorrer. Veremos que,

para a proposta a ser apresentada neste capítulo, uma descrição puramente sintática não é

suficiente, mas é necessária também uma descrição das características discursivas deste

marcador.

Nesta e na próxima seção, apresento as propriedades distribucionais dos dois

marcadores negativos do PB com relação a esses dois critérios. Inicio com uma descrição,

nesta seção, dos contextos discursivos em que as sentenças com [(Neg) VP Neg] podem

aparecer por oposição àqueles em que [Neg VP] ocorrem, deixando a comparação sintática

para a seção 1.2. O objetivo principal é identificar qual o traço ou conjunto de traços que

diferencia as construções negativas com o marcador final daquelas em que ele está ausente.

Veremos, ao longo da seção, que, para caracterizar o não final, é preciso explicitar uma

intuição que tem sido descritiva, na literatura, imprecisamente como “negação de

pressuposições”. A razão dessa imprecisão diz respeito ao conceito de pressuposição utilizado

na descrição.

Primeiramente, é preciso apontar que o marcador negativo pós-VP é menos frequente do

que o num pré-verbal em qualquer corpus de língua falada.7 Além disso, ele apresenta uma

distribuição mais restrita quanto aos tipos de contextos em que pode ocorrer. A literatura sobre

o tema aponta que as sentenças com o não final ocorrem prioritariamente em contextos de

respostas (cf. Cunha (1996, 2001); Roncarati (1996)), como em (3).

(3)

[Neg VP Neg] e [VP Neg] em respostas

A: Você convidou João para a festa?

a. B: Num convidei (ele) não.

b. B: Convidei (ele) não.

O contexto de resposta deve ser entendido de modo mais amplo do que simplesmente

7

Os resultados das pesquisas quantitativas sobre a variação entre as três negativas sentenciais apontam para as

seguintes frequências: [Neg VP] varia, em geral, entre 64% e 88% dos casos, a depender da comunidade;

[Neg VP Neg] varia entre 10% e 33%, também a depender da comunidade; e [VP Neg] ocorre entre 1% e

6%. Em comunidades rurais do interior da Bahia, por exemplo, as frequências são, respectivamente, 66%,

28% e 6%. Confira o capítulo 1 de Cavalcante (2007) e também Cavalcante (2009a) para uma comparação

entre os resultados de várias pesquisas quantitativas.

33

resposta a perguntas (diretas ou indiretas), mas como qualquer réplica a algo que seja

formulado como pergunta ou não.

Além do contexto de respostas, E. Martins (1997: 42) também aponta que [VP Neg],

especificamente, é frequente em contextos de ordens negativas, como em (4b). Apesar de E.

Martins (1997: 42) se referir apenas a [VP Neg], o exemplo em (4a) mostra que esse também

é um contexto aceitável para [Neg VP Neg].

(4)

[Neg VP Neg] e [VP Neg] em respostas

A: Acho que vou convidar João para a festa.

a. B: Num convide (ele) não!8

[Neg VP Neg]

b. B: Convide (ele) não!

[VP Neg]

Além de ocorrer em respostas e em imperativos negativos, um terceiro contexto em que

[Neg VP Neg] e [VP Neg] podem ser usados produtivamente, mas que não é normalmente

discutido na literatura sobre o tema, é o caso de perguntas polares (cf. Souza 2004; Cavalcante

2007: 29-35), como nos exemplos em (5), a que voltaremos na seção 1.2 e em 1.3.3.

(5)

A: (Acho que) João num veio para festa.

B: E nem era pra ele vir.

A: (Num) convidou ele não? (Pensei que você tivesse convidado...)