Nêmesis por Agatha Christie - Versão HTML

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AGATHA CHRISTIE

NÊMESIS

tradução de

MILTON PERSSON

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Titulo do original

NEMESIS

©Agatha Christie Ltd., 1971

Revisão

ÁLVARO TAVARES

Direitos adquiridos somente para o Brasil pela

EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A.

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língua portuguesa da África

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CONTRA CAPA

Agatha Christie, a Rainha do Crime, produziu 87 títulos, entre

autobiografias, peças teatrais, contos e romances, dos quais 77 são

publicados pela Nova Fronteira desde 1969, o sucesso universal de

sua obra lhe garante lugar de destaque na história da literatura

inglesa.

Agatha Christie dizia que Miss Jane Marple, uma de suas

personagens mais famosas, foi inspirada em sua avó e que “havia

entre elas algo em comum: apesar de serem pessoas alegres,

esperavam sempre o pior de todo mundo e de tudo, o que, com quase

assustadora exatidão, sempre se provava certo”.

ÍNDICE

I

Prelúdio

II

O código é Nêmesis

III

Miss Marple entra em ação

IV

Esther Walters

V

Instruções do além

VI

Amor

VII Um convite

VIII As três irmãs

IX

Polygonum Baldschuanicum

X

“Ah! que bom, que lindo

Que era antigamente”

XI

Acidente

XII Troca de idéias

XIII Xadrez preto e vermelho

XIV As conjeturas de Mr. Broadribb

XV Verity

XVI O inquérito

XVII Miss Marple faz uma visita

XVIII O Arcediago Brabazon

XIX A hora das despedidas

XX Miss Marple tem idéias

XXI O relógio bate três horas

XXII Miss Marple conta sua história

XXIII Cenas finais

NÊMESIS

Prezada Miss Marple:

Quando a senhora ler estas linhas, estarei morto e

enterrado.

No decurso de minhas atividades comerciais no que

agora já é uma vida muito longa, aprendi uma coisa sobre

as pessoas que pretendo contratar.

Elas precisam ter um faro especial para o tipo de

serviço que eu quero que façam. A senhora, minha cara

amiga, se é que me permite chamá-la assim, possui um faro

natural para a justiça, o que a leva a possuir um faro

natural para o crime. Eu quero que a senhora investigue

um determinado crime.

Nosso nome de código, minha senhora, é Nêmesis.

Não creio que tenha esquecido em que lugar e em que

circunstâncias usou-o comigo pela primeira vez.

Cuide-se bem. Acho que saberá fazer isso. A senhora é

uma pessoa muito perspicaz. Boa sorte e que um anjo da

guarda fique a seu lado, zelando pela senhora. Talvez

necessite dele.

Seu amigo afetuoso,

J.B. Rafiel

COLEÇÃO AGATHA CHRISTIE

I

PRELÚDIO

Miss Jane Marple tinha o costume de abrir o seu segundo

jornal à tarde. Recebia dois jornais pela manhã em sua casa. Lia o

primeiro bem cedo, enquanto tomava chá, isto é, se chegasse

pontualmente. O jornaleiro era muito irregular em matéria de

horário. Acontecia também com freqüência que fosse novato, ou

substituto provisório do habitual. E cada qual possuía idéias

próprias sobre o percurso a ser observado na entrega. Talvez para

quebrar a monotonia. Mas os assinantes, acostumados a receber o

jornal numa hora matinal, para dar tempo de saborearem as notícias

mais suculentas antes de tomarem o ônibus, trem, ou qualquer

outro meio de transporte para o trabalho cotidiano, ficavam

aborrecidos com o atraso da distribuição, embora as senhoras de

meia-idade e as velhas que residiam pacatamente em St. Mary Mead

preferissem, de modo geral, fazer a leitura instaladas à mesa de

refeição.

Hoje Miss Marple já tinha lido a primeira página e algumas

outras notas no que ela apelidava de “miscelânea”, alusão meio

satírica ao fato do Daily Newsgiver, por motivo de troca de

proprietário, para grande contrariedade dela e de outras amigas

suas, agora publicar colunas especializadas em vestuário masculino,

elegância feminina, problemas sentimentais, jogos infantis e cartas

de reclamação de mulheres, conseguindo praticamente banir

qualquer notícia de interesse do texto de todas as suas páginas,

salvo da primeira, ou então deslocá-la para algum recanto obscuro

onde se tornasse impossível localizá-la. Miss Marple, antiquada como

era, preferia que seus jornais fossem jornais e publicassem notícias.

À tarde, depois do almoço e de um cochilo de vinte minutos

que tirou na poltrona de encosto alto, adquirida especialmente para

atender as exigências de suas costas reumáticas, abriu o Times, que

ainda se prestava a uma leitura mais agradável. Não que continuasse

sendo o mesmo de antigamente. A coisa mais enlouquecedora a

respeito do Times era que não se encontrava mais nada nele. Em vez

de começar pela primeira página, sabendo o lugar exato de cada

seção, de modo a se passar facilmente a qualquer artigo especial

sobre assuntos em que se estivesse interessado, ocorriam agora

interrupções incríveis nesse programa de venerável tradição. De

repente surgiam duas páginas dedicadas a viagens a Capri, com

ilustrações. Os esportes recebiam destaque muito maior que nos

velhos tempos. O noticiário dos tribunais e os necrológios

mantinham certa fidelidade à rotina. As participações de

nascimentos, núpcias e mortes, que em determinada época, devido à

sua posição proeminente, chamavam antes de mais nada a atenção

de Miss Marple, tinham emigrado para uma parte diferente do jornal,

embora ela notasse que recentemente houvessem ido ocupar em

caráter quase permanente a última página.

Miss Marple fixou-se primeiro nas notícias da primeira página.

Não se demorou muito porque pouco variavam do que já tinha lido

de manhã, apesar de possivelmente expressas de maneira mais

digna. Correu os olhos pelo índice de matérias. Artigos, comentários,

ciência, esportes. Depois prosseguiu na forma de costume: virou a

página e examinou rapidamente os nascimentos, núpcias e mortes,

findo o quê propunha-se a ler a seção seguinte, do correio de leitores,

onde quase sempre encontrava alguma coisa divertida; aí passaria à

Circular dos Tribunais, em cuja página hoje também se podiam ter

notícias das Salas de Leilão. Um breve artigo sobre Ciência era

freqüentemente colocado ali, mas não tencionava perder tempo com

aquilo, pois raramente conseguia entender o texto.

Tendo dobrado o jornal, como sempre, para verificar as notas

de nascimentos, núpcias e mortes, Miss Marple pensou consigo

mesma, como tantas vezes já tinha feito:

— Francamente, é triste, mas hoje em dia a gente só se

interessa por mortes!

As pessoas que tinham filhos eram pessoas que Miss Marple

não conhecia nem de nome. Se houvesse uma coluna dedicada a

recém-nascidos apresentando-os como netos, talvez ocorresse a

oportunidade de um agradável reconhecimento. E ela pensaria

consigo mesma:

— Puxa, a Mary Prendergast teve a terceira neta!

Embora até isso talvez fosse um pouco remoto.

Leu às pressas as participações de casamento, também sem

muita atenção, porque a maioria das filhas ou filhos de seus velhos

amigos já se tinha casado há anos atrás. Chegou à coluna de

Falecimentos e então concentrou-se a sério. A ponto, mesmo, de se

certificar de que não deixaria escapar nenhum nome. Alloway,

Angopastro, Arden, Barton, Bedshaw, Burgoweisser — (credo, que

nome mais alemão, mas o finado parecia natural de Leeds).

Carpenter, Camperdown, Clegg. Clegg? Xi!, seria um dos Cleggs que

ela conhecia? Não, pelo jeito não. Janet Clegg. Um lugar qualquer em

Yorkshire. McDonald, McKenzie, Nicholson. Nicholson? Não. De

novo, nenhum Nicholson conhecido. Ogg, Ormerod — deve ser uma

das tias, pensou. É, provavelmente. Linda Ormerod. Não, não

conheço. Quantril? Deus meu, vai ver que é a Elizabeth Quantril.

Oitenta e cinco anos. Puxa, francamente! E eu que pensava que

Elizabeth Quantril tivesse morrido há tanto tempo, já. Imagina só, a

vida longa que teve! E ainda por cima frágil como sempre foi.

Ninguém esperava que logo ela fosse ficar para semente. Race,

Radley, Rafiel. Rafiel? Sentiu uma coisa. Esse nome me é familiar.

Rafiel. Belford Park, Maidstone. Belford Park, Maidstone. Não, não

me recordo desse endereço. Favor não mandar flores. Jason Rafiel,

que nome mais estranho. Decerto ouvi recentemente, em algum

lugar. Ross-Perkins. Bem, talvez fosse... não, não era. Ryland? Emily

Ryland. Não. Não, nunca conheci nenhuma Emily Ryland.

Profundamente amada por seu esposo e filhos. Bem, isso pode ser

muito bonito ou muito triste. Depende da maneira de encarar.

Miss Marple largou o jornal, olhando distraidamente as

palavras cruzadas, enquanto se esforçava para imaginar por que esse

nome, Rafiel, lhe era familiar.

— Daqui a pouco eu me lembro — disse, sabendo, por

experiência, como funciona a memória dos velhos.

— Daqui a pouco me lembro, tenho certeza.

Fitou o jardim e depois, desviou os olhos, procurando arrancá-

lo do pensamento. Aquele jardim tinha sido motivo de grande prazer

e de muito trabalho, também para Miss Marple durante anos e anos

a fio. E agora, por causa da rabugice dos médicos, via-se proibida de

trabalhar nele. Já tentara lutar contra essa proibição, chegando

finalmente à conclusão de que seria melhor obedecer as ordens.

Colocara a poltrona de tal modo que se tornava difícil enxergá-lo, a

não ser que quisesse positivamente e sem sombra de dúvida ver

alguma coisa de especial. Suspirou, pegou a sacola de tricô e tirou

um casaquinho de lã de criança já quase concluído. As costas e a

frente estavam prontas. Faltava completar as mangas. As mangas

eram sempre enfadonhas. Duas mangas, ambas iguais. É, muito

enfadonho. Mas a lã tinha uma cor bonita. Cor-de-rosa. Ei, espera aí,

o que é que aquilo lhe lembrava? Sim... sim... o nome que acabava

de ler no jornal. Lã cor-de-rosa. O mar azul. O mar do Caribe. Uma

praia arenosa. Ensolarada. Ela tricotando e... mas claro, Mr. Rafiel.

Aquela viagem que fizera às Antilhas. A Ilha de St. Honoré. E

lembrou-se de Joan, a mulher de Raymond, seu sobrinho,

aconselhando-lhe:

— Não se meta mais em crimes, tia Jane. Isso não lhe faz bem.

Ora, ela não queria se meter mais em crimes, mas de que jeito?

Simplesmente não foi possível. Tudo por causa de um velho major

que insistia em contar umas histórias muito compridas e cacetes.

Pobre major... como era mesmo o nome dele? Já havia esquecido.

Mr. Rafiel e sua secretária, Mrs... Mrs. Walters, sim, Esther Walters,

e o empregado-massagista, Jackson. .Agora se lembrava de tudo.

Ora, ora. Pobre Mr. Rafiel. Com que então tinha morrido. Ele sabia

que não tardaria muito para que isso acontecesse. Praticamente lhe

dissera. Mas parecia que havia durado mais tempo do que os

médicos supunham. Um homem forte, tenaz — riquíssimo.

Miss Marple continuou pensando, as agulhas de tricô

trabalhando sem parar, mas com as idéias distantes, lembrando-se

do falecido Mr. Rafiel, de tudo o que podia a seu respeito. De fato,

não era fácil esquecê-lo. Seria capaz de reconstituir de memória, sem

esforço, a sua aparência. Sim, uma personalidade bem definida, um

homem difícil, irritadiço, às vezes horrivelmente grosseiro. Mas

ninguém jamais se ofendia com suas grosserias. Disso também se

lembrava. Porque era rico. Sim, tinha sido riquíssimo. Mantinha uma

secretária e um misto de camareiro e massagista profissional. Não

conseguia fazer nada direito sem o auxílio alheio.

Miss Marple achava aquele empregado um tipo meio duvidoso.

Mr. Rafiel às vezes o tratava com muita brutalidade. Ele nunca

parecia se importar. E isso, de novo, naturalmente se explicava pelo

fato de Mr. Rafiel ser rico.

— Ninguém lhe daria a metade do que eu pago — dizia Mr.

Rafiel, — e ele sabe disso. Mas é um bom empregado.

Miss Marple perguntava-se se Jackson? — ou Johnson? —

teria continuado no emprego. Por quanto tempo... mais um ano? Um

ano e três ou quatro meses. Provavelmente não. Mr. Rafiel gostava de

variar. Cansava-se das pessoas — das suas manias, das suas caras,

das suas vozes.

Isso Miss Marple compreendia. Às vezes também sentia o

mesmo. Aquela sua dama de companhia, aquela mulher boazinha,

solícita, enlouquecedora, que sempre falava com voz macia.

— Ah — exclamou Miss Marple, — como mudou para melhor

desde que... — ah, meu Deus, não é que agora me esqueci do nome

dela — Miss... Miss Bishop? — não, Miss Bishop não, claro que não.

Por que fui lembrar do nome Bishop? Ah, meu Deus, como é difícil.

Tornou a pensar em Mr. Rafiel e em — não, não era Johnson,

mas Jackson, Arthur Jackson.

— Ah, meu Deus — repetiu Miss Marple, — como eu confundo

sempre todos esses nomes. E lógico que era Miss Knight que eu

estava pensando e não Miss Bishop. Por que penso nela como Miss

Bishop?

Veio-lhe a resposta. Xadrez, evidentemente. Uma peça de

xadrez. Um cavalo1. Um bispo2.

— No mínimo a estarei chamando de Miss Castle3 da próxima

vez que pensar nela, ou então de Miss Rook4. Embora, francamente,

não seja o tipo de pessoa capaz de roubar alguém. Não, de fato. E

como era mesmo o nome daquela secretária simpática que

trabalhava para Mr. Rafiel? Ah, sim, Esther Walters. Justo. Que fim

será que ela levou? Terá herdado algum dinheiro? No mínimo a esta

altura já herdou.

Lembrava-se de que Mr. Rafiel lhe havia falado qualquer coisa

nesse sentido, ou teria sido ela mesma? — ah, meu Deus, que

confusão que dá quando a gente se esforça para lembrar com um

pouco de exatidão. Esther Walters. Ela ficou tremendamente abalada

com aquela história no Caribe, mas decerto já voltou ao normal. Era

viúva, não era? Miss Marple esperava que Esther Walters tivesse

casado de novo, com algum homem simpático, bondoso, direito.

Parecia meio improvável. Esther Walters, na sua opinião, possuía

certo pendor para escolher o tipo de homem errado para casar.

Miss Marple voltou a pensar em Mr. Rafiel. Favor não mandar

flores, dizia a participação. Não que pretendesse manda-las a Mr.

Rafiel. Se ele quisesse, poderia ter comprado todas as mudas e

canteiros da Inglaterra. E em todo caso, não tinham tido relações que

permitissem isso. Não tinham sido amigos nem mantido relações de

1 Knight

2 Bishop