No País da Piada Pronta por José Simão - Versão HTML

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o que é Tucanês: formular

declarações fazendo com

que o sentido das mesmas se

tornem inócuas, utilizando

recursos dialéticos que vão

do barroco mineiro ao

rococó francês. Traduzindo:

evitar ser direto e objetivo,

dizendo a mesma coisa

usando muitas palavras.

Ops, tucanei aqui também.

Resumindo: encher lingüiça.

exemplos:

Tertúlias flácidas para

bovino conciliar o sono:

conversa mole pra boi dormir.

Desconforto hídrico: seca.

o que é Lulês: é a

caricatura do que muita

gente pensa do Lula.

E qual o dado forte nessa

caricatura? Ah, a ignorância,

claro. Aí está a chave do

óbvio ululante.

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exemplos:

Já paguei: companheiro

japonês gay.

Pornográfico: inserir dados

no gráfico.

o que é Antitucanês: mais

direto impossível, chega de

enrolação, aqui vale a

linguagem direta das ruas,

das placas e das paredes,

sempre com muita sacanagem,

claro, afinal de contas vale

a máxima das máximas:

“nóis sofre mas nóis goza”.

exemplos:

Casa de crédito Tapa

Buraco.

Perua escolar chamada Van

com Deus.

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Todos os direitos estão liberados para reprodução não comercial.

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projeto gráfi co e ilustrações pinky wainer pesquisa gustavo sérvio produção gráfi ca gfk

fotos miolo joão wainer foto antitucanês antonio gaudério transcrição da entrevista leonardo calvano revisão de texto athayde morand isbn 978 85 60054 09 1

Nihil obstat

Imprimatur

ANO DA GRAÇA DE 2007

Editora Clara Ltda.

rua Melo Alves, 278

cep 01417-010 SP SP Brasil

tel 55 11 3064 8673

www.editoradobispo.com.br

www.dobispo.zip.net

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dicionário tucanês

dicionário lulês

dicionário antitucanês

prefácio Matinas Suzuki Jr

.

3

O autor informa que algumas das fotos presentes neste livro foram enviadas espontaneamente por seus leitores e colaboradores para ilustrar as histórias aqui publicadas.

Como a obra foi concebida a partir da contribuição espontânea dos seus leitores, alguns destes não puderam ser encontrados em tempo para levantamento das autorizações e créditos, de modo que nos colocamos à sua inteira disposição para esclarecimentos.

Aproveitamos, ainda, para agradecer a todos esses colaboradores e leitores, que nos enriquecem diariamente com fatos e “causos”, suas histórias, leituras e releituras deste País da Piada Pronta.

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sumário

olhando a vida com malícia

6

por matinas suzuki jr.

de como fazer rir no país da piada pronta 17

entrevista

dicionário tucanês

52

dicionário lulês 112

dicionário antitucanês 180

5

olhando

a vida

com

malícia

Matinas Suzuki Jr.

6

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7

8

1. Em um ensaio que melhorou o texto de várias gerações de jornalistas ingleses, George Orwell diz que o discurso dos políticos é quase sempre a defesa do indefensável.

2. O jornalismo brasileiro sorri pouco.

3. Foi Waly Salomão quem aproximou José Simão da

“Folha”, ali pelo início da década de 1980.

4. Imagens iniciais de José Simão: gargalhadas, Zanzi Bar, na Rua Pinheiros, reminiscências das Dunas do Barato, ternos do Jorginho Kaufmann, gargalhadas, traduções de Octavio Paz e Gertrude Stein, Jorge Salomão, a nova geração da poesia concreta, os anos Ritz na Alameda Franca, Luciano Figueiredo e os arquivos de Hélio Oiticica, o caderno “Folias Brejeiras”, o apartamento de Paula Matolli no Conjunto Nacional, vendo parte do rock brasileiro renascer, a galeria São Paulo, a “Gallery Around”, “Mi Cocodrilo Verde” com Celia Cruz e a Sonora Matancera, Marcão Morceff ajudando a inventar a fi gura do DJ, o Radar Tantã, gargalhadas, gatos, grana & glória...

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5 . Imagens iniciais de José Simão: viver é uma alegria.

6. Naquela época, São Paulo estava querendo sair da concha para se tornar uma capital gastronômica, um lugar da e de moda e o centro de referência cultural no país.

7. Lilian Pacce convidou Simão para trabalhar no suplemento dominical “Casa e Companhia”, da

“Folha”. Foi o carioca apaulistanado Marcos Augusto Gonçalves, que sempre tem boas idéias e dá apelidos melhores ainda, quem sugeriu uma coluna de Simão na “Ilustrada”.

Ele começou como “crítico de TV”, um sinal de como o jornalismo tem difi culdades para assimilar coisas novas, mesmo quando as acolhe.

8. Quando a coluna de Simão começou a aparecer na “Ilustrada”, muita gente achava que seu autor não existia.

9. O mestre do estilo E.B.White, que também escreveu textos engraçados, observou certa vez que interpretar o humor era tão irrelevante quanto explicar a teia da aranha em termos geométricos.

10. Stanislaw Ponte Preta e o “Pasquim” (principalmente Ivan Lessa) mostraram um caminho para a imprensa brasileira, incorporando o humor em texto.

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11. Harold Ross, o fundador da “The New Yorker”, de quem se diz que não entendia as piadas que a sua própria revista editava, preocupava-se com o fato de a publicação não perder o humor, mesmo em tempos de crise (como a depressão americana a partir de 1929).

Revista das revistas, ela nunca deixou de ser uma publicação de humor.

12. A imprensa brasileira saiu do regime militar com pouco humor, exceção ao pequeno espaço reservado ao traço, aos cartunistas.

Nossa tradição de humor em texto continuava minguada: apareceu pouca gente nova, como a turma do “Planeta Diário”, primeiro na “Ilustrada”, que depois se juntou à da “Casseta Popular”, em “O Globo”, na fi gura do Agamenon; Tutty Vasquez, na “Revista de Domingo” do “JB”; e Simão, na “Folha”.

13. Simão trazia para o universo em transformação do jornalismo “sério” no Brasil a tirada rápida, de frase curta (como já se disse, esse tipo de humor ligeiro tem sempre menos palavras do que o necessário), das gags, sketches, trocadilhos e bordões dos humorísticos de rádio, das piadas de circo e do teatro de revista.

Uma tradição oral recuperada para o novo jornalismo impresso brasileiro.

14. Esse viés, típico do humor popular, tem uma característica marcante: o de “olhar a vida com malícia”, com diz o verso de “Na Batucada da Vida”.

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Tudo que ocorre no cotidiano, pela sacada perspicaz e rápida (a piada, como o jornalismo, é timing; o humor não pode nos enganar mais do que um instante, dizia Kant) dessa pessoa que parece ter uma segunda visão, poder ser exposto novamente ao público em outro sentido ou sem sentido algum, non sense.

15. A malícia para espiar o mundo gera uma linguagem de duplo-sentido, cheia de insinuações.

Brinca-se com as possibilidades de signifi cados (daí o português, com o seu suposto apego a um rigor preciso no signifi cado das palavras, ser um dos personagens preferidos dos nossos humoristas) e com as sonoridades das palavras para produzir o instante prazeroso de uma nova e desconcertante revelação.

16. Brincar com os vários sentidos e a sonoridade das palavras é algo que aproxima o humorista do poeta. Não é por acaso que os românticos alemães, que levaram o humor a sério, tratavam-no como algo que poderia chegar ao âmbito da estética.

Márcio Suzuki, que foi companheiro de Simão em uma curta jornada na “Ilustrada”, diz em um ensaio sobre o humor na fi losofi a: “Para os românticos, é como se uma piada fosse um organismo em miniatura, ou uma obra de arte abreviada”.

17. Volto ao bom E.B.White (que achava que o humorista lírico Don Marquis, colunista daquele que foi um dos grandes jornais de Nova York, o “Sun”, deveria ser estudado nos cursos de literatura americana), um 12

dos que comparava o humor à poesia: “O humor brinca perto da grande fogueira que é a Verdade e, de vez em quando, o leitor sente seu calor”.

18. Na política, as diferenças são cada vez menores; as dessemelhanças estão nas nuances de linguagem.

No Congresso, em Washington, os Republicanos chamam um projeto de “previdência pessoal”, para enfatizar o seu lado positivo, e os Democratas de

“previdência privada”; os primeiros falam em “guerra ao terror”, os segundos em “guerra no Iraque”.

19. No auge do tucanato, para usar a expressão de Élio Gaspari, Simão mostrou, para o nosso raro sorriso nessas questões, que uma das facetas mais interessantes da política naquele momento estava na maneira de falar dos peessedebistas.

20. Simão revelou o truque lingüístico do tucanês: são os políticos que se julgam de primeira classe em um país de terceira. O tucanês não discute, ensina (é conhecida, entre os jornalistas, a mania dos tucanos de responder a eles, dizendo que a pergunta que formularam está errada). É a conversa cheia de eufemismos, de contemporizações, onde a linguagem, como um desvio de caráter, pega o lado da bifurcação que leva para o abstrato e não para o concreto.

21. Quando o lulismo (e não o petismo, como se imaginava inicialmente) substituiu o tucanato, Simão, novamente, acertou na mudança do calibre das piadas.

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Essa mobilidade, esse seu humor colado ao jornalismo, é um dos segredos da sua permanência.

22. Seus personagens são os fatos. O bom humor é passageiro, assim como o bom jornalismo é passageiro. Nesse negócio, os melhores são os que sabem lidar bem com o efêmero, não os que sonham com a posteridade.

23. Com muita sensibilidade, Simão usou o tom certo para gozar o lulês. Seria fácil escorregar no preconceito.

Mas como o próprio Lula se encarregou de mostrar que é possível combinar um passado de carência com um presente de soberba, o humor pôde abrir o colarinho, ou melhor, pôde passar a usar um colarinho tão grande quanto os de palhaço para falar dele.

24. O Dicionário do Tucanês e a Cartilha do Lulês são os novos Febeapás.

25. O tucanês e o lulês são dois vocabulários que mostram como a política ofi cial, em si, faz pouco sentido hoje em dia. Ela está corrompida em uma massa amorfa de pragmatismo, de falta de princípios, de descrença em valores. Orwell, desculpem-me, outra vez: “O grande inimigo da clareza da linguagem é a falta de sinceridade”.

26. A tradução cotidiana desse mundo de indiferenciação empreendida pelo filólogo José Simão é a melhor das nossas revanches diárias.

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Poucas vezes os esquematismos do vovô Freud tiveram tanta razão: nossa gargalhada prazerosa diante das tiradas de Simão, ao ler o jornal no café da manhã ou ao ouvir o rádio do carro no trânsito, são uma compensação por nossos impulsos primários de insultar os políticos estarem há muito reprimidos pela civilização e pela família.

27. Nada temos a temer exceto as palavras, diz uma antiga epígrafe de Rubem Fonseca.

28. Parece ser fácil fazer humor no Brasil. As piadas estão prontas. Todo mundo diz gostar de humor.

Pessoas mal humoradas são mal vistas. Mas este também é um país campeão da hipocrisia. O que o humor na imprensa americana diz sobre os presidentes daquele país jamais seria publicado no Brasil. Isso não signifi ca que a imprensa de lá respeite menos (ou mais) a fi gura de seu Presidente.

“Nunca neste país” será demais lembrar que José Simão foi colocado em uma lista negra do Planalto, no primeiro governo Lula, lista que estava na base de um dos documentos para tentar criar um organismo de censura à imprensa.

29. Todas as manhãs, nos últimos vinte anos, Simão nos dá a chance de sermos outra vez aquele menino que ria gostosamente quando a mãe fazia cócegas na barriga. Não há palavras para agradecer a isso.

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16

de

como

fazer rir

no país

da piada

pronta

17

como

transformar

um leitor

passivo em ativo

18

Na realidade eu desconstruo, começo por pensamento hermético e depois desconstruo. Você tem que desconstruir... Agora a internet deu mais rapidez à escrita da coluna. O retorno é rápido... O bom que coloquei na coluna é a interatividade. Eu chamei todo mundo para participar e colaborar. Fica uma gandaia, criação coletiva!

Quando começou a internet, não é que as pessoas começaram a participar voluntariamente...

Você tem que instigar, provocar! E quando começou com essa coisa de e-mail eu lancei um bordão: põe no “meio” que eu ponho no “teu”, começou por aí! Depois eu comecei a colocar enquete, que era uma coisa inédita, eu colocava dentro. Tipo assim: nasceu o fi lho da Madonna, aí eu coloquei assim: se você fosse fi lho da Madonna o que faria? E aí vieram coisas assim:

“eu mamaria até os 23 anos”... Aí eu punha a resposta, o que incentivava outros a mandarem mais. Aí você transforma...

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Aí você transforma o passivo em ativo. Porque leitor é passivo, internauta é mais ativo... Eu estou fazendo isso em rádio também. Botar enquete, chamar o ouvinte de rádio a participar, que também é um público passivo. Procuro transformar em público ativo. O anti-tucanês, na verdade, é também essa interatividade. Ele começou assim: um cara mandou uma foto de uma desentupidora em Belo Horizonte chamada

“Rola Bosta”. Quando eu vi eu disse: isso daqui é o anti-tucanês. Que é o Brasil mesmo, escan-carado. Esse é o “Brasilzão” mesmo, o oposto do Brasil, na época, idealizado pelos tucanos.

Primeiro começou o tucanês, por ordem, é ordem política mesmo: primeiro o tucanês, depois o lulês e o anti-tucanês.

Da origem do tucanês

O “novo idioma” surgiu dois anos depois da posse de FHC. Quando começaram as declara-

ções. Por exemplo: aumento era reposição tari-fada (risos), que é a linguagem dos democratas dos Estados Unidos, que também fazem isso. Eu falei, peraí, é o famoso engana trouxa. Aquele arremedo de europeu, politicamente correto...

eu colocava tucanar, não sei o que... Seca vi-rava não-sei-o-que-hídrica... ausência hídrica...

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fome era vácuo no estômago (risos). Aí, eu inventei o tucanês e o verbo tucanar, mas se você der um “google” em tucanar, está lá, que fui eu que inventei o verbo.

Da origem do lulês

Tucanês não é apenas São Paulo. Não... está tudo tucanado! Até hoje, tucanar isso, tucanar aquilo. Eu não falo mais... mas aí quando termi-nou Fernando Henrique e assumiu o Lula, todo mundo dizia: quero ver o que você vai fazer!

Bom, o tucanês é uma coisa mais enciclopédica, né? Aí, eu pensei, o contraponto da enciclopé-

dia é a cartilha... a Cartilha do Lula De como apareceu Dona Pizza Ruth

Foi um personagem fortíssimo... e é o único nome que não tem muito signifi cado. Foi assim, eu estava vendo o horário político, tinha gente em casa, então a gente pediu um pizza. Aí che-gou a Pizza Hut, aí eu li... Pizza Ruth, que eu estava ligado no horário político. Aí eu mesmo, com uma bic, escrevi na caixa da pizza: Dona Pizza Ruth... E tudo começou aí.

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Um personagem no elevador

Uma vez encontrei o Sérgio Motta... (todo-po-deroso ministro das Comunicações da Era FHC) ele estava de costas pra mim e de frente para o elevador. Eu olhei e pensei, não sei qual vai ser a reação dele... mas também não vou deixar de entrar... aí bati nas costas dele e disse: oi meu personagem predileto!... pra tentar desarmá-

lo... ele: oi, não sei que lá... aí nós entramos no elevador e ele falou assim: tem muita gente em Brasília que acha que eu deveria te dar uma porrada. Isso dentro do elevador... Eles não sabem que nós somos amigos... Eu: claro... Ele: a Dona Ruth te admira muito. Aí eu falei: mas quem deveria ser presidente era a Dona Ruth...

aí a porta abriu... eu gostava dele, porque ele era um tucano explícito, o mais explícito.

Mas você é muito assediado ou foi muito assediado por políticos?

Simão: Não, que eu saiba, não... eu não tenho relação nenhuma com o poder, nem quero e nem me interessa, nem com celebridade... eu só gosto de gente doida.

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O macaco dá o salto para o cipó da política A mudança veio na gestão do Collor. Porque eu escrevia sobre televisão, novela, sobre os grandes babados. Aí como o Collor foi o primeiro grande babado político pela televisão... Havia sido eleito pela televisão, governou pela televisão e foi derrubado pela televisão, tudo pela televisão... O plano econômico da Zélia foi pela televisão. E os componentes, que pareciam de novela mexicana, os componentes eram interessantes. Mais interessantes que a novela.

Zélia e Bernardo Cabral... Casa da Dinda, viagens de helicópteros, diziam que eles tinham banda, cascata... era uma minissérie cafona.

E a macumbeira de Arapiraca, a briga com o irmão... Aí eu saquei: os personagens da vida real são mais interessantes que a novela, porque são mais inesperados, na novela você sabe.

De como os termos criados na coluna

infl uenciam na vida pública

Mas eu acho que o colunismo político não en-tendeu direito o que era o Picolé de Chuchu –

apelido dado por Simão a Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo e candidato derrotado do PSDB às eleições presidenciais de 2006.

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Entenderam Chuchu como aquele que não tem garra, raça... Picolé de Chuchu não é isso, é que é sem graça, sem graça mesmo.

“Dizem que vida de humorista é fácil, mas não é! Eu digo que o Brasil

é o país da piada pronta, né? Então você tem que ser mais engraçado

que eles. É uma tarefa árdua,

a concorrência é desleal.”

Da escrita em voz alta

Eu sempre escrevi em voz alta. Eu acho o ritmo tão importante quanto o conteúdo. Eu acho que as pessoas têm um controle remoto na cabeça.

Se você não pega o cara, não é só televisão, se o cara está lendo e não tem ritmo, ele procura outra coisa. Eu sempre escrevi em voz alta, deve ser por isso que me dei bem no rádio. Agora, não falo mais em voz alta, mas tenho uma voz alta interna. Tem que ter um ritmo, como se fosse tocar um instrumento. E tem que fi car mudando de assunto para não fi car chato, às vezes eu quebro, vou para o outro assunto, volto naquele... é o que é a multimídia de hoje.

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Do pensamento dos leitores

Tem que ter todos os climas possíveis. Pensamento gay, pensamento hetero, pensamento reacionário, pensamento progressista... eu tenho que juntar todos os pensamentos e o leitor que tire suas conclusões, ou não! Tenho que fazer um mosaico e dizer: olha, está aqui!

Mas tem o leitor mal humorado que acha que você está indo mais para um lado do que para outro, que você está sendo de direita, de es-querda demais, homofóbico...

Simão: Ontem eu recebi um e-mail de um cara dizendo eu estava sendo injusto com o Pinochet!

Da linguagem chula

Não tenho problemas com isso. Uso um parâmetro: no momento que falou no Domingão do Faustão, pode! É o parâmetro, domingo à tarde, a maior audiência do Brasil, se o cara falou... pode! Na Folha, uma única vez tive que negociar. É que botei muita bunda, pau... aí eu fi z uma negociação... tira o pau... Mas foi uma coluna over mesmo! Coluna de logo depois do Carnaval!

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A coluna Simão Brasil afora

Já tive problemas em outros estados (a coluna é republicada em dez cidades). Por censura política... já tive isso na própria Bahia, mas o problema não é o político, nem o ACM sabia, por exemplo... é o medo do editor, que quer proteger o político. Aí eu reclamei. Em Minas também teve esse problema, aí abri a boca também. Por causa do Aécio (Neves, governador) e por uma bobagem também, até porque eu esculhambo, mas nunca é baixo astral, nunca é pesado. É humor! Eu não tenho humor ran-coroso. Eu sou o contrário do gato, eu gosto de todo mundo. Não tenho raiva de nada!

Da caricatura do preconceito

à desconstrução da arrongância

Até essa questão do Lula, que é uma coisa deli-cada, a ligação com a analfabetismo... e você trata com a leveza do humor sem rancor, de forma leve... Foi difícil encontrar esse tom?

Simão: Claro que foi difícil, você pode cair no reacionarismo. Na verdade, o Lulês é caricatura do que acham do Lula... o que é que tem mais forte no Lula, o que os outros acham? É que ele é ignorante. Esse é o dado principal, como em 26

FHC é aquela coisa principesca, de ser imperial, monarca... Por isso que coloquei Don Doca FHC... depois eu esculhambei de vez, pra já derrubar essa coisa imperial, coloquei o apelido de boca de sovaco, pra tirar a pose.

Qual a parte mais horrível da anatomia? Sovaco... aí eu já ponho, pra derrubar essa fi gura.

Do Lula? Que ele é ignorante e não sabe falar o português, não é isso? E não sabe mesmo...

Ele sabe falar palavras difíceis, porque ele deco-ra... às vezes sai um profícuo... ele se comunica bem, o que é outra coisa! Mas ele fala errado.

Não tem concordância, não tem nada... então é o traço principal desse governo. Vou fazer a cartilha do Lula baseado nisso, mas é a caricatura do preconceito. A cartilha do Lula é a caricatura do preconceito.

O tucanês não... mas também não era uma coisa pesada. O tucanês é a desconstrução de um pensamento, da arrogância, de um pensamento mais pernóstico... mas o PT também tucana muito, eles nasceram no mesmo lugar que é a USP. São irmãos que se odeiam, brigam para fi car com o poder. É até shakespereano, irmão que briga com irmão para chegar ao poder. E

o que eu achei em comum no início do governo Lula era aquela coisa da língua presa, por isso 27

que falei a república da língua presa, pois todos tinham a língua presa. O Palocci... muitos de língua presa, não só o Lula.

Mas o Simão é um caso raro porque ele é muito parecido com o que ele faz... o Luiz Fernando Veríssimo, por exemplo, não é parecido pessoal-mente com o que ele faz.

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Faça você mesmo

Acordo cedíssimo. A primeira coisa é rádio.

E é tudo roteirizado, eu virei um roteirista. Às 8 da manhã eu faço um roteiro para a Band, porque começou a ter um roteiro pelo seguinte...

atualmente eu faço com o Boechat, já fi z com o Nascimento... ele precisa saber qual é o assunto, porque se dá um branco fi ca um buraco enorme... não que eu siga o roteiro, mas tem que ter um roteiro básico. Então eu acordo cedo, vou para a internet, aí eu leio os e-mails primeiro, que é para sentir o pulso... aí eu começo a fazer o roteiro! Depois eu faço a coluna, uma mídia puxa a outra, depois eu faço o Monkey News (UOL), que também tem roteiro e uma produção mais complicada porque inclui fotos...

Mas rádio é uma linguagem, jornal é outra e Monkey News que é TV é outra. Então, fi z essa inclusão de fotos, é uma produção mais elaborada.

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Simão: Menos quando eu trabalho... Eu trabalho super concentrado e super sério... eu sou muito pensativo na realidade, eu vivo pensando.

Mas o leitor tem a impressão que você faz rindo.

Simão: Pode ser quando eu escrevo. Mas não é verdade... Eu, na realidade, gosto muito de pensar... sou uma pessoa pensativa. Eu não fi co dando risada o tempo todo...

Mas antes da coluna você tinha alguma queda para o humor... ou se via um dia fazendo isso?

Simão: Eu tinha, mas não sabia.

Você começou escrever sobre televisão...

foi por quê?

Simão: Na realidade, eu era muito amigo do pessoal da Folha, do Matinas (Suzuky Jr.), do Marcos Augusto Gonçalves...

Mas vocês falavam em TV?

Simão: A gente via televisão juntos... e aí não parava de falar um minuto.

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Nem no cinema ele (Simão) pára de falar... Ele acha que se a pessoa está quieta no cinema é porque não está gostando da companhia dele.

Simão: É verdade! Se a pessoa está quieta é porque ela está me achando chato... Se a pessoa quer apenas ver o fi lme é porque está me achando chato também.

“Nóis sofre, mas nóis goza”, o mantra É uma fi losofi a de vida! De repente da minha vida! Por isso que fi quei muito atraído quando fi quei sabendo desse bloco do Recife que tem esse nome. Inclusive já me mandaram faixa, me convidaram para sair...

“Quem fi ca parado é poste”, o bordão Esse eu uso de vez em quando... é uma marcha de Carnaval dos anos 20, eu resgatei.

“Vou pingar o colírio alucinógeno”, o delírio Foi um leitor que me mandou isso, mas eu não sei mais quem... perdeu-se no meio da interatividade da criação coletiva da coluna.

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De onde vem o “Buemba, buemba”

Na realidade foi tirado da coluna do Ibrahim Sued... Bomba, bomba, bomba... que é para chamar atenção! Você tem que atrair, você tem que fazer escândalo. Eu sou onomatopaico! Eu falei, bomba não... é porque a gente é meio

“mexicanizado”... vou colocar uma coisa mais caribenha. Tem outro que eu adoro, “eu voy a me matar... bum, bum, bum”. Parece um tango, não é uma letra de tango, fui eu que inventei...

sei lá! Tem o “Esculhambador Geral da República”, que é um posto. Tem “o Braço Armado da Gandaia Nacional”, que foi sugestão de uma assessora da Marina Silva (ministra do Meio Ambiente do governo Lula).

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As infl uências

Oswald foi muito importante! Mas eu sou mais lixo, vou para o humor mais pop mesmo, que é chanchada, Carnaval, mas nada que eu seguisse... não tem, isso não tem! Eu leio tudo... receita, bula de remédio! Eu leio tudo!

Eu adoro passear de carro, eu vou lendo todos os cartazes. Na realidade, eu vou lendo, lendo, lendo, lendo...

Porque... há muitos anos atrás, o Simão e uns quatro ou cinco amigos tinham uma conversa no telefone todo dia de manhã, onde se falava de tudo que estava acontecendo.

Simão: É, porque não tinha internet. Agora, eu odeio falar no telefone.

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o

macaco

é p p

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Mora na fi losofi a de Andy Warhol

Mas o que eu quero dizer é que no Dicionário Filosófi co do Andy Warhol ele falava sem parar, compulsivamente, no telefone com os amigos.

Eu contei isso para o Simão que me disse que sabia, que já tinha lido Andy Warhol.

Simão: É preciso saber falar no telefone, falar no telefone é uma arte... não é pra dar recado...

tem gente que não gosta e não sabe falar no telefone. Eu sei falar no telefone... eu não gosto mais de falar no telefone. A internet tirou o telefone e agora, então, o MSN... Eu ainda falo muito com algumas pessoas, mas a maioria das pessoas não gostam mais de falar.

Mas o que eu tava dizendo é que tem uma informação forte do Andy Warhol no Simão, no sentido de vida e no sentido do pop, do pop como popular. Não o pop americano trazido para cá, mas o pop brasileiro, o que as vezes, aqui, não é muito compreendido porque o cara acha chulo, acha cafona e não é! É uma releitura brasileira do pop, quer dizer, a lata do Andy Warhol! Mas eu só vim a entender isso quando eu li o livro e isso foi importante para compreender o background do Simão, é 37

uma cultura que ele trazia com ele. Eu não sei o quanto ele fazia isso consciente ou não.

Simão: Eu não uso nada muito consciente, eu acho...

Mas não adianta, você incorpora. Tem o Andy Warhol ali, uma almofada do Mao Tse-tung, uma Marilyn, é uma coisa que está presente aqui na sua casa, tipo esse livro da Beth Page, esse universo. Na verdade, tudo isso é cultura pop, o teu olhar é pop! Mas é um olhar que não é “culto”, não é o pop dos Jardins, mas um pop brasileiro, como o Andy Warhol era em relação aos EUA...

É por isso que o FHC lê e o cara lá do Tocan-tins lê. Porque o pop atinge a todos. Se fosse uma coisa só chula, ele ia acabar no Casseta e Planeta. Então, eu queria que você falasse um pouco sobre isso, porque eu sei que é um conhecimento profundo que você tem.

Simão: Tá gravado? E é isso!

E é isso?

Isso é até melhor para um texto na contra-ca-pa... a orelha do livro, senti fi rmeza, o macaco é pop.

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Simão: Porque eu não gosto muito de falar do meu trabalho... eu não entendo. Eu escrevo muito por instinto... cada um tem um olhar. Eu estou falando muito sobre processo de trabalho, mas sobre o meu processo eu não estou falando muito.

Por incrível que pareça, brincando... você escreve para os outros, é o que faz toda a diferença. Simão não quer provar nada, não quer provar que é bom.

Simão: Por isso que eu uso tudo...

É.

Simão: Eu sou o transmissor...

Não quer mostrar erudição...

É generoso, porque ele faz para os outros.

Simão: Na realidade você quer dar alegria para os outros.

É diferente, porque tem um monte de gente que escreve para provar coisas... olha como eu sei, olha como eu sou.

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Simão: A minha é popular... essa é a realidade e o segredo da popularidade.

Que é trabalhar para os outros...

Simão: Um cantor popular, na realidade, está cantando para os outros.

Eu acho que a coisa do onomatopaico é fun-damental na coluna dele... o ritmo, o conhecimento ou o instinto que ele tem dos barulhos parece um pouco como os negões que conver-sam com o corpo... batendo no próprio corpo, na ginga, a própria repetição, isso tudo faz uma diferença enorme e que também é uma coisa erudita...

É uma antena super contemporânea, para os outros e para si mesmo... ele passa o dia inteiro querendo saber qual é a nova.

Simão: Eu adoro escrever no MSN porque é totalmente diferente, é uma nova forma de escrita.

É um novo diálogo... você tem que ser rápi-do, sucinto, tem que quebrar frase, não pode pensar...

É muito divertido quando o Simão começou a 40

escrever no MSN, ele escrevia feito a coluna.

E agora ele já tá telegráfi co...

Simão: Não há quem agüente esperar o cara digitando... a pessoa tá pensando, não tá digitando porra nenhuma... você tem que pensar muito rápido.

Você já viu um personagem novo do Mauricio de Souza chamado Bloguinho? É um personagem sensacional que escreve na linguagem do MSN...

Não... muito esperto! Muito bom... você usa, ao invés de “CH” você usa “X”. Então já é uma outra linguagem. Quem sabe, daqui 10 anos, a escrita não vai ser assim?

Aí você vai encontrar o Glauber Rocha de novo no sentido...

Simão: No sentido inteligível... o contrário de Glauber! Essa todo mundo entende.

Você toma banho e se arruma para ir ao com-putador de manhã?

Simão: Não... graças a Deus eu não tenho webcam, porque o cabelo... (risos)

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Então, você acorda, toma o café e vai...

Simão: Na verdade eu tomo banho para fazer a rádio... (risos)

Mais cheiroso que fi lho de barbeiro!

Simão: Mas você tem que estar esperto... em seguida eu malho, todo dia!

Aí já vai pensando colunas?

Simão: Não, fi co falando... coitado do personal! Falo compulsivamente, três quilômetros de fala.Esse é um professor de ginástica com mestrado em psicologia.

E aquele negócio do “DataPadaria”, isso é importante, né, ouvir no balcão...

Simão: Claro que é... a padaria é uma instituição brasileira, principalmente em São Paulo, e é onde todo mundo se encontra e começa a falar sobre o que está acontecendo, sobre o que viu... ali é realmente o centro de discussão, o fórum... exatamente um fórum romano.

E taxista? Também...

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Simão: Taxista agora por causa da Band News.

Mas por exemplo, se eu estou na praia, em Salvador, entro na água, tem várias pessoas, você entra e fala: nossa, como a água tá fria, aí começa tudo. Quem quiser entrar no assunto, entra, você fala qualquer coisa e quem quiser entra no assunto. Eu converso com todo mundo, as pessoas que andam comigo sabem.

Ele grita da janela do carro para as pessoas...

é uma vergonha!

Simão: Outro dia tinha uma pessoa vendendo mel vestida de vaqueiro, parecia um gogoboy.

Eu abri a janela e comecei a cantar... ó abelha rainha... faz de mim... e o cara morre de rir, acha graça!

É o único cara que entra num carro blindado e pede para abrir a janela prá gritar, claro... É o único!!! Impressionante!

E como apareceu o macaco?

Simão: O macaco foi o seguinte. Tem um personagem infantil chamado Macaco Simão e no colégio me chamavam de Macaco Simão.

E no começo da coluna, quando eu tava es-crevendo, tal... eu me achava parecido com 43

um macaco, né? E... ah, eu vou usar um co-dinome chamado Macaco Simão, você pode cair no ridículo ou não, mas eu não tive medo do ridículo e pegou. Todo mundo ama macaco... tá no inconsciente infantil de todo mundo.

O macaco pode mais, é mais esperto, é mais tolerado! Macaco é assim mesmo, que também é uma coisa bem brasileira.

Macaco é bem antigo, né?

Simão: Foi logo de começo...

E os títulos das colunas? Como você faz para dar os títulos?

Simão: É um problema, porque eles têm metra-gem e têm que ser bombásticos, chamar aten-

ção! Pegar a pessoa! Mas eu já tenho uma téc-nica de título, tal...

Qual?

Simão: Eu não sei exatamente qual, mas eu não posso deixar ninguém fazer. Às vezes eu tenho título no começo, mas é raro! É o mais difícil de fazer e atualmente é o que tenho mais dificuldade.

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Não passa síntese pelo título, passa escândalo...

Simão: O título tem que ser escandaloso, tem que chamar atenção! É uma coisa, na realidade, sensacionalista...

Tem fase do ano mais difícil para fazer a coluna, quando a política entra em recesso, por exemplo?

Simão: Tem, mas aí a gente faz um “revival”...

Mas um dia alguém reclamou, não foi? Aquela história do ombudsman, que você tinha copiado uma coluna...

Simão: Era 1º de maio, Dia do Trabalho, eu tava indo para Fortaleza, fi z três colunas num dia para ir embora, feriadão. 1º de maio, vou pegar coluna do ano passado. Copiei mesmo!

Mandei e pensei: ninguém repara, você acha que alguém vai ter memória? Aí, um cara que é meu fã, muito fã... Imagina se não fosse! Ele co-lecionava as colunas e escreveu reclamando! Eu tava na piscina, tomando sol em Fortaleza quando o ombudsman me pergunta: você copiou? Eu: copiei, claro! Dia do Trabalho é tudo igual, ninguém trabalha, por que eu vou trabalhar? Aí ele disse: você sabia que tem uma coisa chamada 45

autoplágio?. E eu disse peraí, sei que é uma invenção da Folha, autoplágio não existe!!! Tem que ser dado outro nome, porque autoplágio não existe. Eu tentei argumentar com isso, mas é claro que não adiantou, porque é uma invenção da Folha, não tem como discutir. Eu falei: ano que vem vou fazer a mesma coisa. Ele se descul-pou, mas disse: olha, eu vou ter que escrever isso no domingo. Eu falei, tudo bem, primeiro que domingo eu não vou ler, vou estar em Fortaleza na praia, segundo é que você não entende humor, mas humor é assim mesmo... quem é fã do Simão vai achar que o ombudsman não entende de humor, não vai concordar com ele...

No próximo Dia do Trabalho você coloca: hoje é Dia do Trabalho e vou repetir a coluna porque eu respeito essa data...

Simão: Se eu não avisar ninguém sabe...

E se você fi zer uma nova também ninguém sabe.

Tem um negócio muito louco também, que o Simão recebe ou recebia para ser redator de programa de televisão... né?

Simão: Eu fui redator do programa do Faustão por um tempo. Esse da Globo, talvez por um ano.

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E você gostava de fazer televisão?

Simão: Não é o meu forte, mas eu gostava.

O Monkey News na internet você faz bem...

e é televisão!

É, Monkey News tem um formato interessante para televisão.

Simão: É, mas se for para televisão convencional não funciona! Eu não sei, porque nunca fiz.

Você faz um programa na Rádio UOL, o

“Ondas Latinas”, mas para descansar o que você ouve?

Simão: Faço a produção... é o que eu ouço!

Rádio Novat, que é francesa de World Music, você compra os CDs dela, são os melhores que tem de música latina.

Ele sabe tudo de música latina...

Simão: É, eu tenho mais de 400 CDs. Dizem que música latina é salsa, não é, tem tudo!

Tem Latin Jazz, tem África, tem uma ponte entre África com música latina fortíssima, é tudo 47

negro, tambor. Eu boto muita música brasileira também, que é latina.

E no tropicalismo? Você teve alguma entrada em algum momento do tropicalismo, devido à proximidade com os amigos que faziam parte do movimento?

Simão: Não, fui atraído pelo tropicalismo em si: pelo sol, pelo Rio, pelo “desbunde“... e escrevi um livro, o “Folias Brejeiras”, que é o tropicalismo... a capa de Rogério Duarte, que foi o mesmo de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, tem essas ligações.

Qual é o nome daquela revista grande que você tá pelado?

Simão: Navelouca... a foto que eu tirei pelado! Bem antes de receber o convite da G Magazine, porque eles me convidaram para dar entrevista... Ah, não... só porque eu sou coroa tenho que brilhar pelo talento?

Tá, meu bem!

Se ele falar um pouco mais... ele morou em Arembepe, hippie...

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Simão: Eu acho chato isso, desinteressante para as pessoas de hoje... sinceramente...

Mas, faz sentido na construção...

(Simão coloca uma música)

Simão: Olha a introdução...

Como chama isso?

Simão: O nome da música é a capital da Costa do Marfim, Abidjan.

Vou piratear... lindo!

Simão: É um porto-riquenho, que toca música latina e na verdade é nova-iorquino.

Agora eu vejo como eu trabalho, até “Ondas Latinas” eu faço! Que você tem que sair totalmente desse mundo e entrar em outro. Programa de rádio que tem seis anos, que é o mais ouvido junto com Mix Brasil... não sou o primeiro não, mas fico alternando como o maior em audiência.

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Você grava um pacotão de programas de uma vez?

Simão: Não, gravo uma vez por semana, mas tem que escolher as seis músicas, qual vai ser a primeira, a segunda... a primeira tem que ser animada, a segunda tem que cair um pouco.

Aí tem um remixer, aí tem um lero, depois do lero um fi nal... tem informação, quem toca, que música que é. Por isso que eu acho que tenho que ganhar o dobro, no mínimo.

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Tucanês

D I C I O N Á R I O

T ucanê s

D efi nição: Formular declarações fazendo com que o sentido das mesmas se tornem inócuas, utilizando recursos dialéticos que vão do barroco mineiro ao rococó francês.

T raduzindo: Evitar ser direto e objetivo dizendo a mesma coisa usando

muitas palavras. Ops, tucanei aqui também.

R esumindo: Encher lingüiça.

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Tucanês

A

A China é a caixa de ressonância

do grupo do Brasil.

A China é o saco de pancadas.

A esposa do suíno contorce

o

tendão

caudal.

A porca torce o rabo.

A mais radical forma

de autocrítica.

Suicídio.

A prova máxima de que alguém

estava realmente irritado

com o outro.

Assassinato.

Acompanhantes para executivos.

Piranhas.

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Acúmulo de ácido láctico

na

panturrilha.

Dor na panturrilha.

Advérbio de intensidade.

Palavrão.

Afeto que une um homem a outro homem com o qual se tenha algum interesse mútuo, ou a uma mulher pela qual não se tenha interesse nenhum.

Amizade.

Afro-decendentes.

Negros.

Agência de fi tness.

Academia.

Agência Social de Luto.

Funerária.

Agente antisocial delinqüente.

Pivete.

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Tucanês

Agente de recuperação de crédito.

Cobrador.

Agente

disciplinador.

Tucanaram o leão-de-chácara.

Agir de forma onanista.

Masturbação.

Aglomerado de veículos automotivos de pouca mobilidade.

Engarrafamento.

Ajuste linear para adequar

a remuneração de seus executivos

a nível de mercado.

Aumento para os tucanos.

Alguém que realiza suas aspirações sexuais através de atividades visuais em que capta outros seres interagindo sexualmente.

Voyeur.

Ambulatório de alta resolutividade.

Hospital municipal.

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Americanos

fl agrados com suvenires.

Pilhagem.

Analista independente de necessidades e de soluções fi nanceiras.

Agiota.

ANP

Administradora Nomeando

Parentes.

Aparelho que serve para

pensar que se pensa.

Cérebro.

Aparelho

semafórico.

Semáforo.

Aperfeiçoamento do realinhamento

de preços anteriormente aplicados.

Aumento de preços.

Aplicar a contravenção do Sr. João, defi ciente físico de um dos membros superiores.

Dar uma de João sem braço.

58

Tucanês

Aporte básico de alimentos.

Cesta básica.

Aquela que critica o marido o mês inteiro, porque ele trabalha demais, e no fi m do mês o critica porque ganha pouco.

Mulher.

Aquele que quando está em

apuros pensa com as pernas.

Covarde.

Aquele sujeito que tem a difícil

missão de separar os artigos bons

dos artigos ruins, para publicar

só os ruins.

Editor.

Área de preparação de alimentos.

Cozinha.

Área de segregação de

resíduos

sólidos.

Tucanaram

a

lixeira.

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Área sujeita a detritos de aves.

Cagada de passarinho.

Arquiteto

capilar.

Barbeiro.

Arte de se entreter um paciente até que a Natureza resolva curá-lo.

Medicina.

Artefatos de trigo.

Pãezinhos.

Assistência Sanitária.

Banheiro público.

Assoalho

pélvico.

Periquita.

Associação

dos

Trabalhadores

de

Semáforo.

Turma

do

farol.

Atitude de bloqueio por motivo de não adequação ao momento e à situação.

Censura.

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Tucanês

Atitude suspeita sobre o viaduto.

Atirador de pedras nos carros.

Ausência de saúde e excesso de massa gordurosa na região abdominal.

Doente e gordinho.

Ausência temporária do

complexo

penal.

Fuga da prisão.

Auto

Spa.

Lava-rápido.

Auto-satisfação sexual solitária inspirada por imagens virtuais de forte apelo excitativo.

Masturbação.

Auxiliar de higienização.

Faxineira.

Auxiliar de ofi cial de engenharia.

Peão de obra.

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Auxiliar de serviços póstumos.

Coveiro.

Avisador

acústico.

Corneta.

AVSU, aumento do ventre supra-umbilical.

Pança.

B

Baixas

civis.

Morte de inocentes.

Bloqueio estratégico de segurança.

Blitz.

Bloqueio

ilegal.

Pênalti.

Bolsa de exclusão de renda.

Favela.

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Tucanês