No ventre da baleia: o mundo de um padre judaizante no século XVIII por Adalberto Gonçalves Araújo Júnior - Versão HTML

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1

ADALBERTO GONÇALVES ARAÚJO JÚNIOR

NO VENTRE DA BALEIA:

O MUNDO DE UM PADRE JUDAIZANTE NO SÉCULO XVIII

Tese de Doutorado apresentada ao

Departamento de História da Faculdade

de Filosofia, Letras e Ciências

Humanas da Universidade de São

Paulo, sob a orientação da Profª. Drª.

Anita Waingort Novinsky.

SÃO PAULO

2006

2

Índice

Agradecimento.................................................................................................................3

Abstract............................................................................................................................4

Introdução........................................................................................................................5

Parte I: Um processo singular: Padre Manoel Lopes de Carvalho..................................9

Capítulo 1: Raízes Obscuras...............................................................................10

Capítulo 2: Pároco nas Minas Gerais .................................................................32

Capítulo 3: Rumo a Tarsis dos Arrabidos ..........................................................40

Capítulo 4: Nos cárceres do Santo Ofício ..........................................................52

Capítulo 5: Leituras de um herege .....................................................................61

Parte II: Obra de resgate: A via judeu-cristã .................................................................70

Capítulo 6: No ventre da baleia: o judaísmo do 2° Jonas ..................................71

Capítulo 7: Gômer = A igreja infiel .................................................................115

Capítulo 8: A Torah de cor viva.......................................................................124

Capítulo 9: Outro nome senão judeu................................................................140

Capítulo 10: Um messias forjado .....................................................................148

Conclusão ....................................................................................................................193

Bibliografia..................................................................................................................198

3

Abstract

Padre Manoel Lopes de Carvalho nasceu na Bahia no final do século

XVII. Foi aluno da Companhia de Jesus, ordenado sacerdote em 1707. Grande

admirador do Padre Antônio Vieira, deixou a Colônia em direção ao Reino, onde

apresentando-se como um 2o Profeta Jonas, escreveu um “Memorial à Sua

Majestade” El Rey D. João V. Prognostifica uma reforma da Igreja à luz de idéias

vieirianas. Encontrou no judeu-cristianismo um referencial teológico que pudesse

unir a Igreja à Sinagoga. Filosemita convicto, combateu com veemência a Inquisição

e a perseguição aos cristãos-novos. Após acreditar que o Messias viria do Brasil,

depois de sua prisão nos cárceres do Santo Ofício da Inquisição, iniciou um processo

psicológico, onde acabaria por declarar-se Messias. Por fim, combinou uma série de

complexos cruzamentos teológicos, sintetizando elementos judaicos, cristãos e

gnósticos. Foi condenado à morte em Lisboa como “afirmativo, profitente da Lei de

Moisés” no Auto de Fé de 1726.

Priest Manoel Lopes de Carvalho was born in Bahia in the end of the 17th

century. He was student of Jesus’ Company, ordered priest in 1707. Great admirer of

Priest Antônio Vieira, he left the Colony towards the Kingdom, where presenting

himself as a 2nd Prophet Jonas, he wrote a “Memorial à Sua Majestade” El Rey D.

João V. He prognosticates a reform of the Church to the light of Priest Antônio

Vieira’s ideas. He found in the Jew-Christianity a theological referencial that could

join the Church to the Synagogue. Convict philosemitic, he combatted with

vehemence the Inquisition and the persecution to the newChristian. After believing

that the Messiah would come from Brazil, after his prison in the jails of Saint

Service of the Inquisition, he began a psychological process, where he would end for

declaring himself Messiah. Finally, he combined a series of complex theological

crossings, synthesizing Jewish, Christians and Gnostics elements. He was

condemned to the death in Lisbon as “affirmative, professed of the Moses’ Law" in

the Act of Faith of 1726.

4

Agradecimento

No decorrer deste trabalho contei com auxilio de grupo de estudo,

professores, colegas, amigos e familiares, foi este apoio que me possibilitou chegar ao fim.

À Profª Anita Waingort Novinsky, orientação segura e incentivadora,

própria do sólido conhecimento que possui da temática e perspicácia intelectual que

lhe são característica e ainda pelo prestimoso empréstimo do processo inquisitorial do

Pe. Manoel Lopes de Carvalho (IANTT, Inquisição de Lisboa) microfilmado de seu

arquivo particular.

Ao Pe. Nazareth Magalhães pela generosidade e paciência na transcrição e

tradução de numerosas passagens citações latinas inclusas no texto do referido

processo.

Aos professores da USP, Dra. Rifka Berezin e Dr. Mário Miranda, pelas

relevantes observações quando de meu Exame de Qualificação. Ao Prof. Dr. Cândido

da Costa e Silva da UCSAL.

Ao Pe. Ulysses Roberto Lio Tropia pela sugestão de obras patristicas e

apócrifas. Ao Pe. Carlo Brescianni, S.J. do COHIBA pelas relevantes informações

sobre a Companhia de Jesus na Colônia. À Luciana Siana Assunção do Arquivo da

Arquidiocese de Mariana; ao Lázaro Filho e à Profa Marlene, do Arquivo Público do

Estado da Bahia e à Eliana Junqueira da Casa de Portugal, pela atenção e eficiente

atendimento. Ao Frances Gontijo pelo eficiente trabalho em transcrições e digitações.

Aos amigos, colegas de curso que muito colaboraram comigo, apesar da

distância Goiás-São Paulo: Benair Alcaraz Fernandes Ribeiro, Lina Gorenstein, Paulo

Valadares e Marcelo Bogaciovas.

Aos meus pais Adalberto Gonçalves de Araújo e Grasiela Gonçalves

Pacheco ( in memorian, que tanto incentivou no início desta tese) e minha irmã

Grasiete Pacheco de Araújo Ribeiro, pelo apoio e generosidade ao longo desta tese.

A Diocese de Rubiataba-Mozarlândia na pessoa de Dom José Carlos de

Oliveira, bispo diocesano, (sou sacerdote católico) pela compreensão e incentivo

desde o inicio da pesquisa. Aos meus paroquianos pela paciência e compreensão em

minhas ausências para estudo. À Ir. Terezinha de Fátima Reis pelo grande apoio;

remediando minhas ausências na paróquia, tornou possível a viabilização desta tese.

A Deus infinitamente por tudo…

5

Introdução

A importância do “estudo de caso” tem sido evidenciada por diversos

historiadores, como Natalie Davis em Society and culture in early modern France 1, que mostrou que os sistemas de crenças de valores e de representações estão

relacionadas ao lugar social de seus portadores.

Com esta pesquisa pretendemos conhecer a vida e as idéias do Padre

Manoel Lopes de Carvalho da hierarquia eclesiástica que fez vigorosa crítica a

dogmas da Igreja, a Inquisição e sociedade de seu tempo. De forma abrangente

pretende ser uma contribuição para o estudo da história das idéias no Brasil.

Aspectos essenciais da vida e das idéias deste homem da Igreja são

trazidos à luz a partir da análise exaustiva do processo e dos documentos afins. O

lugar social e a origem étnica de sua família, e neste ponto uma controvérsia entre os

próprios inquisidores e as inquirições in loco na Bahia e em Portugal, apresentaram-se insatisfatória uma vez que ora reforça, ora atenua as origens judaicas de sua mãe.

O espaço no qual passou a infância, sua formação humana, acadêmica e sua

trajetória como sacerdote católico, são facetas fundamentais para o conhecimento

dos traços de sua personalidade.

Sabe-se que quando jovem “estudou filosofia na cidade da Bahia donde

tomou o capelo de mestre”2. Tais estudos colaboraram para que sua mente sedenta

de conhecimento buscasse na teologia explicações existenciais que a lógica

filosófica não conseguia responder-lhe. Não contentando com “alguns anos de

teologia especulativa e moral, aderiu-se voluntariamente ao estudo da Sagrada

Escritura por expositores da Igreja”3. Podemos comprovar que estes estudos

aconteceram atravez de pregadores e escritores milenaristas como os padres Antônio

Vieira, Mateus Faletti e Valentim Escancel com pregações eivadas de apocalipcismo

1 Cf. Davis, Natalie Zemon. Society and Culture in Early Modern France. Stanford University Press, 1975. A tradução portuguesa tem o título de: Culturas do povo: sociedade e cultura no início da França moderna. Paz e Terra. Rio de Janeiro, 1990.

2 IANTT. IL Proc. 9.255. fl. 6v.

3 Ibid. fl. 6, 6v.

6

e a viva influência da operosa comunidade criptojudaica baiana,4 com serias criticas

à Inquisição.

O processo inquisitorial do Padre Manoel Lopes de Carvalho pode ser

considerado sui generis por conter um elemento raro nos processos, um sistemático

“tratado teológico” dividido em 66 artigos onde o próprio réu fundamenta suas

proposições. Este, juntamente com as confissões do réu, apresentam-se como uma

densa fonte de citações bíblicas e patrísticas: Encontramos referências à Torah, ao

Novo Testamento e aos grandes doutores da Igreja como Santo Agostinho, São

Jerônimo, Orígenes, Eutíquio de Constantinopla, Eusébio de Cesaréia e mesmo

César Barônio o maior historiador de época da Reforma Católica. Outra pertinente

fonte de inspiração do réu foi o Padre Vieira, ao qual o Inquisidor refere com

veemência ao dizer que o réu “não é ignorante tem muito verbo é ímprobo estudo,

nestas matérias inclinado às coisas do Padre Antônio Vieira”5. O que evidencia uma

das fontes das idéias judaicas na cosmologia do Padre Manoel Lopes de Carvalho.

Desta forma escreve Novinsky sobre Vieira: “Sua íntima convivência com os judeus

na Holanda, França, assim como os cristãos-novos de Portugal e no Brasil marcaram

de uma maneira profunda suas idéias sobre os judeus e seu destino que emergem nas

entrelinhas de seus escritos”6. Baseando-se nestas fontes procurará dar corpo às suas

elucubrações mentais ou como diriam os Inquisidores às suas “proposições

heréticas”. Assim escreve seu tratado teológico onde preconiza suas principais teses:

1o.) A observância do Shabat no lugar do Domingo cristão; 2o.) Reforma do

calendário litúrgico cristão, de modo especial a celebração da Páscoa de acordo

como calendário judaico; 3o.) Observância das leis dietéticas judaicas; 4o.) A

circuncisão; 5o.) Messianidade de Jesus. Refere-se também neste tratado sobre a

situação dos cristãos-novos portugueses; o sofrimento como provação divina aos

eleitos; a responsabilidade do apóstolo Paulo na deformação dos ensinamentos de

Jesus e na difusão destes no mundo gentílico.

4 Cf. Novinsky, Cristãos Novos na Bahia. São Paulo: Perspectiva, 1970.

5 Ibid. fl. 23.

6 Novinsky, Anita. O judaísmo dissimulado do padre Antônio Vieira. In. Dissimulation – Dissimulação.

Revista transdisciplinar luso-francesa sobre o segredo. Gris-France. Outono-inverno, 2001. p. 94.

7

Considerando o teor das proposições teológicas, suas idéias poderão ser

analisadas sob as seguintes hipóteses de trabalho:

- Do sincretismo judaico-cristão, plasmado entre os cristãos-novos ao

longo dos séculos XVI, XVII e XVIII, quando, segundo João Lúcio de Azevedo, “A

Bahia foi um centro judaizante com ambiente onde pairava o judaísmo”7

- Como fruto das elucubrações mentais que Michel Vovelle, denominou

“intermediários culturais”8.

- Do judeu-cristianismo que durante os quatro primeiros séculos da

Igreja alimentou a chama da fé de numerosos cristãos de origem judaica, formando

uma expressiva corrente do cristianismo antigo.

Sob este último aspecto é digno de nota a citação que o réu faz de um

texto de São Jerônimo, o qual demonstra sua profunda identificação com a via

judeu-cristã: “E enquanto ao que diz São Jerônimo dos nazarenos usarem

promiscuamente de umas e outras cerimônias porque assim nem eram judeus nem

tampouco cristãos, pois que dele emanou esse mesmo costume usando

promiscuamente de umas e outras cerimônias como foi a do batismo com a

circuncisão e a do louvamento da Divina Eucaristia com a do cordeiro legal”.

Sustentando a mesma tese, o réu, recorre a outras fontes cristãs dizendo: “que os

apóstolos e muito especialmente São Paulo (de que se diz que não judaizava) na

epístola 1a aos Coríntios, cap. 11, como diz Barônio e todos os expositores. E antes

eu entendo como assim é na verdade que o que verdadeiramente professa a Lei de

Cristo não deve fazer outra coisa senão essa mesma promiscuidade de cerimônias9.

Outro aspecto relevante foi o fato de que após três anos nos cárceres do

Santo Ofício, sob terrível pressão mental, Padre Manoel Lopes de Carvalho, mantém

intactos seus artigos teológicos, com exceção da messianidade de Jesus. Na questão

messiânica, seu papel de profeta na conversão de Roma, por analogia da Igreja, a

qual ele chamava de 2a Nínive, é radicalmente transformado: Ele não será mais o

precursor de uma igreja renovada pelas raízes judaicas, mas o próprio Messias tão

7 Op. cit., p. 334.

8 Cf. Ideologias e mentalidades. São Paulo, Brasiliense, 1987, pp. 207-24.

9 IANTT. IL Proc. 9.255. 1° maço. Tratado Teológico; fl. 9. § 27.

8

esperado pelos judeus como vinda e pelos cristãos como retorno: O Malkuth10, a

Parusia11, o Novo Céu e a Nova Terra.

Quanto a esta nova postura, paira nova questão: Padre Manoel Lopes de

Carvalho havia perdido, em decorrência das tétricas estruturas inquisitoriais, a sua

saúde mental? Ou esta postura se fazia em função de uma lógica messiânica onde a

restituição da harmonia cósmica só aconteceria através de um mediador terrestre?

As respostas destas e de outras questões referentes à vida e ao pensamento de Padre

Manoel Lopes de Carvalho, sistematicamente apresentadas neste trabalho no

capítulo denominado “Um Messias Forjado” poderão esclarecer as razões e a

determinação com que um homem religioso, mas livre de dogmas, pudesse enfrentar

a Inquisição e corajosamente morrer por suas idéias.

10 “tWklm, reino, reinado, realeza, monarquia; o nome da décima esfera na cabalá”. Berezin, Rifka.

Dicionário Hebraico-Português. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1995, p. 370.

11 Parusia. “Termo grego que significa ‘presença’ ou ‘vinda’. No Novo Testamento se utiliza para referir-se a segunda vinda de Cristo.” In. Manzanares, César Vidal. Diccionario de las tres religiones monoteístas: Judaísmo, cristianismo e islam. Madrid: Alianza Editorial, 1993; 0. 232.

9

Parte I

Um processo singular:

Padre Manoel Lopes de Carvalho

10

Capítulo 1

Raízes obscuras

Três séculos haviam se passado e a Igreja no Brasil colonial estava

fortemente atrelada ao projeto expansionista português. Em 1551, sob o Regime do

Padroado foi eregido na cidade da Bahia o primeiro bispado brasileiro, mas durante

os séculos XVI e XVII não houve constituições eclesiais nem um episcopado

organizado na Colônia. Com o descobrimento das minas auríferas e o aumento da

população colonial, a necessidade de reestruturação do espaço administrativo da

Igreja acontecerá em meados do século XVIII. Em 1745, Bento XIV cria as dioceses

de São Paulo e Mariana e as Prelazias de Goiás e Cuiabá. No aspecto ideológico-

doutrinário uma das medidas importantes foi a elaboração das Constituições

Primeiras do Arcebispado da Bahia, que significou a instauração de um código

padronizador das obrigações do clero e dos fiéis. Medidas foram implementadas

com o intento de expandir e solidificar a estrutura paroquial e clerical. Entretanto

havia rígidos obstáculos a serem superados: o clero secular estava submetido ao

Padroado ou era dependente dos senhores locais. As côngruas, os salários dos

clérigos quando recebidos geralmente não eram suficientes para a subsistência, por

isso era comum que, além das atividades pastorais, quase sempre restritas a

administrações dos sacramentos, o sacerdote aventurasse em atividades mais

lucrativas vinculadas ao comércio e à política, o que o desvirtuava em parte ou

totalmente de seu ofício original. Diferentemente da Europa, a ineficiência do

Concílio de Trento (1545-1563) fez com que a Igreja Colonial fosse menos clerical e

mais dependente da sociedade civil.

A formação cultural e religiosa do clero era deficiente e em decorrência

da dificuldade de leitura, muitos sacerdotes sabiam apenas o essencial para

administrar os ritos sacramentais. E embora o nível cultural do clero fosse precário,

em relação ao resto da população era considerável.12 Entretanto, a Capitania da

Bahia era o epicentro cultural e eclesiástico da Colônia, distinguindo

12 Azzi, Riolando. “Clero”, p. 183.

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11

substancialmente dos demais centros urbanos do período. Os clérigos recebiam uma

instrução local mais próxima do modelo tridentino, sendo as aulas geralmente

ministradas por membros da Companhia de Jesus.

Capítulo 1

Raízes obscuras

Três séculos haviam se passado e a Igreja no Brasil colonial estava

fortemente atrelada ao projeto expansionista português. Em 1551, sob o Regime do

Padroado foi eregido na cidade da Bahia o primeiro bispado brasileiro, mas durante

os séculos XVI e XVII não houve constituições eclesiais nem um episcopado

organizado na Colônia. Com o descobrimento das minas auríferas e o aumento da

população colonial, a necessidade de reestruturação do espaço administrativo da

Igreja acontecerá em meados do século XVIII. Em 1745, Bento XIV cria as dioceses

de São Paulo e Mariana e as Prelazias de Goiás e Cuiabá. No aspecto ideológico-

doutrinário uma das medidas importantes foi a elaboração das Constituições

Primeiras do Arcebispado da Bahia, que significou a instauração de um código

padronizador das obrigações do clero e dos fiéis. Medidas foram implementadas

com o intento de expandir e solidificar a estrutura paroquial e clerical. Entretanto

havia rígidos obstáculos a serem superados: o clero secular estava submetido ao

Padroado ou era dependente dos senhores locais. Por isso era comum que, além das

atividades pastorais, quase sempre restritas a administrações dos sacramentos, o

sacerdote aventurasse em atividades mais lucrativas vinculadas ao comércio e à

política, o que o desvirtuava em parte ou totalmente de seu ofício original.

Diferentemente da Europa, a ineficiência do Concílio de Trento (1545-1563) fez

com que a Igreja Colonial fosse menos clerical e mais dependente da sociedade.

A formação cultural e religiosa do clero era deficiente e em decorrência

da dificuldade de leitura, muitos sacerdotes sabiam apenas o essencial para

administrar os ritos sacramentais. E embora o nível cultural do clero fosse precário,

em relação ao resto da população era considerável.13 Entretanto, a Capitania da

Bahia era o epicentro cultural e eclesiástico da Colônia, distinguindo

13 Azzi, Riolando. “Clero”, p. 183.

12

substancialmente dos demais centros urbanos do período. Os clérigos recebiam uma

instrução local mais próxima do modelo tridentino, sendo as aulas geralmente

ministradas por membros da Companhia de Jesus. Na capital da Colônia havia

bibliotecas conventuais como a dos franciscanos e beneditinos, mas os jesuítas

possuíam a mais rica de todas as bibliotecas da América Portuguesa e fontes

bibliográficas não chegaram a constituir um problema para a formação do clero:

“Essa biblioteca começada modestamente com obras trazidas pelo Padre Manoel da

Nóbrega, em 1544, chegaria a possuir 15.000 volumes quando foram expulsos os

jesuítas”14.

Infância e estudos na Bahia

Em 4 de março de 1682, nasceu o Padre Manoel Lopes de Carvalho.

Oriundo de uma família da pequena burguesia provincial, era filho primogênito15 do

homem de negócios, João Lopes de Araújo e de sua mulher Maria da Assunção.

Inclinado a questões metafísicas, passou sua infância na Freguesia de Nossa Senhora

da Conceição na Praia da Bahia de Salvador. De seus irmãos somos informados de

José Lopes de Carvalho que também seguiu a vida clerical16, de uma irmã de nome

ainda desconhecido e de um sobrinho de nome Salvador, o qual havia sido um

vocacionado ao sacerdócio17. Devido a baixa densidade populacional durante o

século XVII e início do XVIII, Salvador encontrava-se totalmente dividida em duas

partes: Cidade baixa e Cidade alta, distintas por suas próprias características. Uma

elevação natural em forma de muralha ou barranca tornava difícil a comunicação

entre as duas cidades. “Quatro ladeiras íngremes serviam aos pedestres ou a carroças

leves, mas qualquer mercadoria pesada tinha de ser içada por um guindaste que

14 Moraes, Rubens Borba de. Livros e Bibliotecas no Brasil Colonial. Rio de Janeiro. Livros Técnicos e científicos Editora S. A., 1979, p.4.

15 Seus pais casaram em 1o de junho de 1781. In Proc. 9255. 1o maço, fl. 118.

16 ANTT. IL. Proc. 9255 Padre Manoel Lopes de Carvalho, fl. 76.

17 Um trecho do processo de Padre Manoel Lopes de Carvalho faz referência a um sobrinho e uma irmã do réu: “Um rapaz chamado Salvador, filho de uma irmã do dito padre Manoel Lopes de Carvalho. Ibid, fl. 103.

13

funcionava num sistema de contrapesos”.18 A cidade alta era toda murada possuindo

muitas ruas pavimentadas rusticamente com casas bem construídas, numerosas

igrejas artisticamente decoradas em depurado barroco. Sede de um bispado com bela

catedral ou Sé, como seus habitantes ainda denominam, possui um colégio da

Companhia de Jesus e mosteiros beneditino, carmelita e franciscano. Uma casa de

misericórdia com significativo trabalho filantrópico era um reflexo da civilidade e

do apogeu econômico do período. Ali, na parte alta da cidade, residiam senhores de

engenho, funcionários públicos e nobres. Em baixo, contornada pela praia da Bahia

de todos os Santos, encontrava-se casas bem construídas de ambos os lados de uma

comprida e agradável avenida.19 Conforme podemos observar no mapa do período, o

casario principal estava construído nas proximidades da Igreja de Nossa Senhora da

Conceição da Praia; e esta parte da cidade estava povoada por todo tipo de

mercadores, artesãos e operários. Além desta igreja; havia outras grandes

construções como porões e armazéns para recebimento e despacho de mercadoria,

de propriedade do Rei ou de particulares, proveniente do porto adjacente.20 Em 1623

a Igreja da Conceição tornou-se sede de freguesia, mas o início desta comunidade

retroage a quase um século quando em 1549 Thomé de Souza ergueu ali uma

pequena ermida dedicada à Conceição de Nossa Senhora. Com a rápida expansão

comercial e o conseqüente crescimento populacional, foi construído, a partir de

meados do século XVII, um novo templo: Tendo um altar-mor dedicado à Nossa

Senhora da Conceição, e dois altares colaterais aos dois lados do arco cruzeiro e

várias capelas no corpo da igreja.21 Pela descrição, essa construção era muito

semelhante a antiga igreja dos jesuítas, hoje catedral da Bahia e as igrejas de São

Bento, Santa Tereza e N. Sra. do Carmo, que possuem planta típica dos templos

católicos daquele período. Os trabalhos de ornamentação interna da velha matriz

foram concluídos no início do século XVIII. As paredes da capela-mor foram

18 Russell-Wood, A. J. R. Fidalgos e filantropos: a Santa casa da Misericórdia da Bahia, 1550-1755. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1981; p. 40.

19 Dados obtidos a partir da descrição da cidade de Salvador pelo visitante francês, François Pyrard de Laval, em 1610. In. Gray, Albert. The voyage of François Pirard of Brasil. Londres: Hakluyt Society, 1887-90. Vol.

2/ pp. 310-11.

20 Id.

21 Santa Maria, Agostinho de. Santuário Mariano. Lisboa, 1722, Vol. IX; p. 89. Aput. Smith, Robert. Aspectos da Arquitetura da Basílica da Conceição da Praia. In. O Bicentenário de um Monumento Bahiano. Salvador: Editora Beneditina Ltda, 1971. Coleção Conceição da Praia, Vol. II; p. 78.

14

forradas, o consistório azulejado e um painel foi colocado a boca da tribuna. Em

1712 o dourador Antônio Brandão dourou o frontispício da igreja, e três anos depois

o entalhador Antônio Duarte Moira executou a talha do arco da capela-mor,

recebendo em pagamento 90$100 rs”.22

Foi neste belo templo23 barroco que o pequeno Manoel Lopes de

Carvalho foi batizado no décimo dia de seu nascimento: “Em 14 de março de 68224

batizei nesta Matriz de Nossa Senhora da Conceição da Praia a Manoel filho de João

Lopes de Araújo e de sua mulher Maria da Assunção, foram padrinhos, Manoel

Carvalho Lima e D. Maria de Matos, mulher de Manuel Garcês da Silva, o vigário

Nicolau Franco”.25 Conforme poderemos verificar,26 o menino teve como padrinho o

avô materno e a ausência da avó materna, dona Ângela da Cruz, como madrinha

pode evidenciar que a mesma já era falecida nesta ocasião. Nesta matriz haviam sido

batizados sua mãe, a avó materna e casados seus pais, avós e bisavós maternos. Seu

pai e seu avô materno eram naturais do Reino e negociantes. O primeiro “João

Lopes de Araújo já falecido, e viveu sempre na praia desta cidade mercador de loja

de fazendas secas na praia desta cidade onde faleceu”.27 Então estabeleceram

naquela freguesia por ser ali durante quase todo o século XVII e durante o século

XVIII, o principal mercado de Salvador. O contemporâneo Frei Agostinho de Santa

Maria, descreve que o bairro da Conceição, possuía “uma das melhores [igrejas]

fabricadas, [sendo a sua freguesia] a maior da Cidade, & mais cheia de moradores,

como é também das mais ricas [...] porque são nela moradores, quase todos os

homens de negócio”.28 Quanto a família de sua avó materna Ângela da Cruz

Quaresma, não eram ricos mercadores do bairro, mas pessoas de menor poder

aquisitivo. Os pais de Ângela da Cruz, Francisco Dias e Guiomar Quaresma,

22 Ibid. p. 41.

23 O atual e majestoso templo foi construído por iniciativa da opulenta Irmandade do SS. Sacramento e da Irmandade da Conceição, a partir de 1742, em pedra liaz provinda do Reino, durante várias décadas do século XVIII e com o auxílio de Dom José I de Portugal foi feita a capela-mor, sacristia e casa da Fabrica.

24 Leia-se 1682.

25 IANTT. Proc. 9255 1o maço; fl. 117v.

26 Cf. Árvore Genealógica página 31 desta tese.

27 Ibid. fl. 107.

28 In. Santa Maria, Agostinho de. Op. Cit. Vol. IX; p. 89. Esta obra escrita antes de 1722, possui ortografia do período a qual, neste texto, foi atualizada pelo autor desta tese.

15

“morava[m] nas Pedreiras, diante da Preguiça junto onde chamavam Unhão29 onde

vivia[m] de suas pescarias de canoas que tinha[m], e de um quintal, donde

vendia[m] hortaliças e frutas”. 30 Francisco Dias e Guiomar Quaresma viveram

longos anos no concubinato, pois o casamento eclesiástico do casal ocorreu apenas

três anos antes do casamento de Ângela da Cruz Quaresma em 14 de junho de 1643.

entretanto Francisco Dias e Guiomar Quaresma eram pessoas bem relacionadas e a

quinta deste casal era freqüentada por pessoas de certa influência na sociedade local,

conforme relata o professor octogenário, Jerônimo Pinheiro ao dizer que “o

conhecimento que tem dos sobreditos é desde a sua meninice e por ir muitas vezes a

casa do dito Francisco Dias a folgar sendo ele testemunha menino”.31 Sabe-se

também que dona Ângela da Cruz, a velha, mãe de Guiomar Quaresma, casou

segunda vez com Manoel Rosa Caldeira, dono de um trapiche denominado Caldeira,

o qual era infamado de cristão-novo32. Deste casamento teve dois filhos “um que foi

religioso de São Bento nesta Bahia e outro religioso do Carmo e desta geração

também houve outro clérigo seu neto por nome padre João Caldeira. Quanto a

Ângela da Cruz Quaresma, neta da primeira Ângela da Cruz, avó materna do Padre

Carvalho, após a morte de seu primeiro marido, Manoel Carvalho Lima, casou

segunda vez com o alferes Sebastião Medina Betancur, mas por ser idosa não teve

filho algum deste casamento.33

Um buliço constante agitava a vida dos moradores da Freguesia de N.

Sra. da Conceição, compreendidos não somente por homens de negócios e

mercadores de lojas, mas também de funcionários dos armazéns, pescadores e

ribeirinhos do litoral; gente miúda que vendiam seu peixe nas Pedreiras ou nos

mercados da Conceição, marinheiros a embarcar e desembarcar nos cais do

Varadouro, Pescadores e do Dezembargador Baltazar Ferraz. Sim, o porto da Bahia

era o mais importante da Colônia, sendo na segunda metade do século XVII, o maior

exportador de açúcar para a Europa, que reputava o açúcar brasileiro como de

29 Com muita probabilidade este topônimo está relacionado à família do provedor Pedro de Unhão Castelo Branco que em 1693 serviu na guarnição baiana. Cf. Russel-Wood, A. J. R. Op. cit. p. 86.

30 Proc. 9255 2o maço, fls. 100v, 101, 106v.

31 Ibid, fls. 106v, 107.

32 Ibid. fls. 105, 106v, 107.

33 Ibid. fls. 106, 110v.

16

melhor qualidade que o das Antilhas, seu maior concorrente. Outros produtos

também pesavam na exportação como o fumo, couros de boi, madeiras corantes,

óleo de baleia e curiosidades como macacos e papagaios. Do Reino para o Brasil

chegavam no porto da Bahia navios carregados de linho, lã, baeta, sarja, seda,

brocados e porcelanas. Utensílios domésticos tais como ferramentas de ferro, vasos

de estanho, pratos e colheres. Gêneros alimentícios como vinhos, azeite de oliveira,

manteiga, queijo, carne salgada de boi e de porco. Navios negreiros oriundos de

Luanda traziam a mercadoria humana: negros para o serviço escravo, por sua parte

retornavam da Bahia para Luanda abarrotados de fumo, rum ou conhaque. Por outro

lado, um negociante de Lisboa podia despachar um navio para Angola, vender ou

trocar a carga por escravos, fazê-los transportar para o Brasil, e depois investir o

lucro da sua venda na compra de açúcar ou tabaco para a venda em Lisboa.34 Todo

este magnífico comércio, somado às condições topográficas do bairro, fez com que o

estilo de vida daquela freguesia fosse muito diversificado da cidade alta: “Criara-se

insensivelmente, uma sociedade a parte, nascida com o século da descoberta e que

vicejara por mais de duas centúrias com características próprias, de modéstia e

retraimento, cheia de restrições e sacrifícios, à que a comunidade portuguesa do

comércio se submetia, certa de que o futuro lhes traria compensações, e que

poderiam, enriquecidos, viver das largas rendas que o trabalho insano lhes

proporcionara, respeitáveis, embora vazios de cultura, quando então se transferiam

para a cidade alta e iam residir no bairro da Sé, centro convergente da nobreza

palaciana, quando não preferiam os bairros de Nazaré ou de São Pedro, pontos

escolhidos pela aristocracia rural, pleiteando, a peso de ouro, uma comenda que os

enobrecia ou o juizado de uma festa religiosa ou de uma irmandade que lhes dava

uma notoriedade efêmera”.35 Sendo a Conceição o principal núcleo comercial de

Salvador no período colonial não seria equívoco inferir que havia ali um grande

número de famílias cristãs-novas, haja vista que “diversos viajantes europeus à

34 Russel-Wood, A. J. R. Op. cit. p. 46.

35 Ruy, Affonso. A importância do bairro da Conceição da Praia no século XVIII. In O Bicentenário de um Monumento Bahiano. Op. Cit. P. 135.

17

Bahia no século XVIII comentaram o número de judeus dedicados ao comércio na

Bahia”36

Desconhecemos seus nomes, mas como senhores de engenhos

recordamos André Lopes de Carvalho, Diogo Leão e Duarte Roiz Ulhoa.37 O

espírito empreendedor dos mercadores da cidade baixa evidenciava uma ética

mercantilista muito mais próxima do espírito do capital do que da ética medieval

norteada pela Escolástica. Para aqueles homens de négocio, o tempo valia ouro

Fazer aqui algumas considerações sobre “O Espírito do Capitalismo” De Max

Weber e Sombart. Assim em decorrência da “importância do negócio, que ali se

alargava sempre, obrigava o comerciante a fixar-se ali, atendendo a freguesia a

qualquer hora e em qualquer dia, numa permanente assistência que evitava roubos e

assaltos”.38 Foi neste ambiente comercial que o pequeno Manoel Lopes de Carvalho

foi criado ajudando seu pai na loja da família e certamente observando o

comportamento ambicioso de não poucos comerciantes e artesãos. Prova disso é sua

crítica ao fato do comércio naquela sociedade não fechar nem mesmo no domingo:

“E ainda essa observância ser tal que nem se difere de outro qualquer dia mais que

só no costume de ir a Igreja a ouvir missa e Deus sabe com que intenção pois a sua

mesma casa serve mais de ocasião de pecado do que de adorá-lo (e por certo que

este vício não vem herdado dos judeus) e tirado disso o ferrador martela, o carro

roda, a tendeira vende, o barbeiro ganha et sic de ceteris.39 Mas além da missa dominical, onde participava um bom número de fiéis, havia uma grande festa anual

que mobilizava não somente os moradores da cidade baixa, mas também de toda

Salvador e de outras paragens. Era a solenidade da padroeira Nossa Senhora da

Conceição (em torno de sua capela nasceu no século XVI o bairro da Conceição) a

qual já no primeiro quartel do século XVII era considerada “a mais antiga, a mais

constante, a mais atraente, a mais popular e a mais solene das festas brasileiras”.40

36 Russell-Wood, A. J. R. Op. cit. p. 103.

37 Novinsky, Anita W. Cristãos Novos na Bahia: A Inquisição. São Paulo: Editora Perspectiva, 1992; pp. 103-40.

38 Ruy, Affonso. Op. cit. p. 133.

39 E assim a respeito do resto. Proc. 9255 1o maço. Tratado Teológico fl. 8v. § 26.

40 Barbosa, Manoel de Aquino. Grande figura da história do Brasil. In. Freguesia da Conceição da Praia, 162301973: Dom Marcos Teixeira, Fundador. Coleção Conceição da Praia. Salvador: Editora Beneditina Ltda. Vol. III; p. 12.

18

Missa e procissões, segundo o antigo ritual romano de Trento, num ambiente repleto

de imagens, entalhes e objetos litúrgicos dourados, davam a solenidade grande

esplendor e intensa manifestação da piedade cristã. Conforme o costume da época,

toda a família participava unida das celebrações e grandes pregadores eram

convidados. No período colonial famosos oradores sacros como Frei Bento da

Trindade, Padre Manuel da Madre de Deus Bulhões e o célebre Padre Antônio

Vieira, pregaram na Matriz de N. Sra. da Conceição da Praia. Padre Vieira fez várias

homilias naquele templo a começar de 1635, quando então tinha apenas 27 anos e

ainda não havia recebido as últimas ordens sacerdotais.41 Num trecho do sermão

posterior, o ilustre jesuíta, estimula o povo a lutar pela liberdade: “É este o

significado maior das festas de agora: meditar nas verdades que salvam: a massa do

povo que representar pode os lídimos anseios da nacionalidade é a do povo livre,

que sabe pensar e concluir, sem, às cegas, deixar-se levar pelas falazes insinuações

daqueles que do povo só desejam sacrifícios.

O povo, por si mesmo, para Christo se volta como se nos braços da cruz

imans poderosos existissem.”42 Também por ocasião das festividades da padroeira,

fez belos sermões dedicados a Conceição da Virgem Maria, tal como o ilustrativo

texto: “Porém onde Maria está pura da lepra original; onde há almas que têm para si,

confessam e protestam que foi a Senhora concebida em graça; assim como lá os

filhos de Israel logo marcharão logo felizmente pelo caminho do céu alcançando-

lhes tantas graças quantas lhe segurem e façam certos os prêmios da glória.”43 Como

morador na Freguesia da Conceição, Padre Manoel desde tenra idade, participou

muitas vezes das festas paroquiais e certamente como a maioria das crianças deve

ter-se impressionado pelo brilho e beleza dessas solenidades. Entretanto nestas

ocasiões o que mais marcou a alma deste garoto foram os sermões do Padre Vieira,

o qual ele considerava a melhor luz da Igreja.44 Certamente a Matriz da Conceição

41 Abreu, Edith Mendes da Gama e. A Conceição da Praia e a Oratória Sacra. In. O Bicentenário de um Monumento Bahiano. Op. Cit. pp. 176, 178, 182.

42 Ibid. p. 184.

43 Ibid. p. 183.

44 Proc. 1o maço, fl. 85v.

19

não foi a única igreja na qual o menino45 teve oportunidade de ouvir os sermões do

Padre Vieira.

Filho mais velho do casal, Padre Carvalho tinha muita afinidade com o

velho Manoel Carvalho Lima, seu avô-padrinho, falecido em Ilhéus por ocasião de

uma viagem para cobrança de dívidas,46 afinidade esta que se comprovaria anos

mais tarde, quando, já falecido o avô, sonhava com ele muitas vezes nos cárceres do

Santo Ofício. Embora décadas anteriores quando vivia no seio da família, jamais

poderia imaginar o trágico destino que lhe esperava, ainda que desde criança fosse

um pouco taciturno e nem mesmo em pesadelos havia visto as selas inquisitoriais.

Trajetória estudantil e vocacional

Sobre seus estudos primários, o processo inquisitorial não faz referência

alguma. Talvez tenha freqüentado aulas em uma escola pública, ou o curso de “ler

escrever e contar” no Colégio da Companhia de Jesus. “A turma deste primeiro grau

foi sempre a mais numerosa, chegando ordinariamente a cem e mais alunos. Eram

brancos e pardos, não havendo negros porque a condição de escravos não lhes

permitia estudar, nem seus donos o desejavam”.47 Por volta dos quinze anos “a partir

de 697 para 698,48 iniciou seu curso literário”,49 provavelmente em uma localidade

denominada Cachueira,50 onde havia “uma casa sob a direção dos padres da

Sociedade de Jesus, onde, por conta dos pais, se mantém alguns jovens, que estudam

gramática”.51 O curso literário referido pelo Padre Carvalho, era o curso de Letras

Humanas, o qual seguindo o programa da Ratio Studiorum, antigo método

pedagógico jesuítico para os colégios e escolas da Companhia de Jesus, possuía em

45 Que tinha treze anos, quando em 1697 faleceu o Pe. Antônio Vieira.

46 2o maço; fl. 110v.

47 Brescianni, Carlo. O antigo Colégio de Jesus, na cidade de Salvador-Bahia. In. Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, no. 93, janeiro/dezembro 1997; p. 220.

48 Leia 1697 e 1698.

49 Proc. 9255, 1o maço, fl. 183v.

50 Belém da Cachoeira.

51 Mattos, Waldemar. Arcebispos da Bahia e N. Senhora da Conceição no século XVIII. In. O Bicentenário de um Movimento Bahiano. Op. Cit. p. 235. Informação de Frei José da Incarnação, religioso do hábito de São Francisco em 21.05.1701.

20

sua grade curricular três disciplinas: “Gramática, Humanidades e Retórica, além do

estudo direto das duas línguas grega e latina, deixando ao professor o encargo de ir

dando simultaneamente aos discípulos os demais conhecimentos, úteis e necessários

e reservando o hebraico para o tempo da teologia”.52 Nos últimos anos do século

XVIII e início do seguinte, período em que Padre Carvalho fez sua formação

sacerdotal, não havia na Bahia “um seminário segundo a prescrição do Concílio

[Tridentino]”,53 isto é, em um prédio onde os seminaristas vivessem em regime de

internato sob a formação de sacerdotes e religiosos, fizessem os respectivos cursos

de filosofia e teologia. Em muitos casos os alunos eram internos numa casa de

formação como aquela de Belém da Cachoeira, outros moravam nos conventos de

suas respectivas ordens religiosas, outros ainda como os do hábito de São Pedro (do

clero secular) moravam com a família ou na companhia de um pároco o qual os

orientavam nas atividades litúrgicas.

Quanto ao período de formação sacerdotal do Padre Carvalho, por falta

de dados objetivos, está revestida de certa obscuridade, entretanto há evidências que

já era vocacionado ao sacerdócio desde o tempo de seus estudos literários: “E que no

princípio do seu curso literário que foi de 697 a 698 apareceu um fatal cometa no

céu, que durou nos meses de fevereiro a março e por ser do signo de peixes, qual é o

mês de fevereiro o significou o Padre Valentim Estancel da Companhia em uma

baleia [...], pois a dita baleia apareceu no tempo em que ele para este fim começara a

estudar. O que também confirma porque sendo batizado, digo, porque indo a Igreja a

lhe porem os santos óleos depois de batizado em o dia de quatorze de março.”54

É bem provável que o jovem Carvalho tenha feito seus estudos filosóficos

residindo na casa paterna, pois “estudou filosofia na cidade da Bahia donde tomou o

capelo de Mestre em Artes”,55 freqüentando as aulas do “curso do Padre João

Nogueira religioso e aí não disse”.56 Não foi possível esclarecer se estes estudos

ocorreram no colégio jesuíta de Salvador, pois neste período não havia nenhum

52 Madureira, J. M. de. A liberdade e seus resultados. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1927; Vol. I, p. 398.

53 Mattos, Waldemar. Op. cit. p. 235.

54 Proc. 9255, 1o maço, fl. 183v.

55 Ibid. fl. 6.

56 Ibid. 1o maço, fl. 162v.

21

padre de nome João Nogueira na Companhia de Jesus.57 Entretanto pelo depoimento

de Joseph Ferreira de Souza, mestre em Cortes, morador na Freguesia de Santo

Antônio além do Carmo, antigo condiscípulo do Padre Carvalho no curso do Padre

João Nogueira, somos informados que neste curso havia muitos alunos.58 Por estes

dados, cremos que Padre Carvalho tenha freqüentado uma cadeira pública de

filosofia ou uma sala de aula jesuítica (sob a responsabilidade da Cia de Jesus) para

alunos seculares onde “havia a tendência para reduzir os estudos a dois anos”.59

Entretanto no curso normal de filosofia que de acordo com a Ratio Studiorum

durava três anos estudava-se no primeiro ano: “a Lógica, a Metaphysica geral e as

Mathematicas elementares, com aulas livres numa Academia de grego. No segundo

se estuda a Cosmologia, a Psycologia, a Physica, a Chimica, a Mechanica e a

História Natural ou Biologia. No terceiro a Theodicéa e Ethica, a Astronomia e as

Mathemáticas superiores, com a Historia Natural.60 No depoimento do Pe. Francisco

de Oliveira Aranha, cônego prebendado na Sé da cidade da Bahia, à mesa do Santo

Ofício, há evidências que a saída do jovem Carvalho, da casa paterna logo após a

conclusão de seus estudos filosóficos quando então inicia o curso de teologia na

companhia dos frades capuchinhos61. Essa saída não foi amistosa, pois aconteceu

logo após um conflito com o pai.62 Parece-nos que esta situação foi posteriormente

superada com a reconciliação entre pai e filho, uma vez que Padre Carvalho refere

ao seu pai de maneira muito afetuosa: “Estando pois eu dormindo nessa noite do dia

onze de janeiro em que fazia e completava um mês de minha reclusão, tendo visto

meu pai como se ainda não tivesse preso e abraçando-me com muito gosto e

mostrando-se saudoso de mim...”63, pois devido “algumas levezas se apartou do

pátrio poder e logo depôs com seu pai em demandas e depois se recolheu a assistir

com uns religiosos capuchos donde vivera com edificação e se acabou de ordenar.”64

57 Cf. Leite, Serafim. História da Companhia de Jesus. Vol. 5, p. 74.

58 Proc. 9255 1o maço, fl. 162.

59 Madureira, J. M. Op. cit. p. 407.

60 Id.

61 Provavelmente na companhia dos padres Frei André de Pávia, falecido na Bahia em 1709, e Frei Carlos de Brônio ou de Orta, falecido na Bahia em 1708. In Primeiro, Fidelis M. de. Capuchinhos em terras da Santa Cruz: nos séculos XVII, XVIII e XIX. São Paulo: Livraria Martins, s/d, p. 362.

62 Proc. 9255. 2o maço, fl. 164v.

63 Ibid., Tratado Teológico fl.3. §1.

64 Ibid. 2o maço. fl. 117v.

22

Os jesuítas consideravam que os três cursos ministrados pela Companhia

de Jesus, “formavam de tal sorte uma hierarquia, que só a Theologia, propriamente

dita é ensinada por si mesma, sendo a coroa de todos os estudos e o que mais

diretamente serve para o fim da Companhia. As outras disciplinas são ensinadas

como preparação para a Teologia: ‘ingenia dispomunt ad theologiam”, como menos

postos a disposição do teólogo, que, assim, poderá comunicar, com plena

competência, autoridade e destreza e de modo agradável e apto, a doutrina santa.”65

Quanto a coroa de todas as artes e ciencias, o reu “teve quatro anos de Teologia

especulativa e moral no colégio dos padres da Companhia da Cidade da Bahia.”66

Este registro confirma que Padre Carvalho havia estudado na melhor academia

teológica do Brasil Colônia. A entrada neste curso se dava através de uma rigorosa

seleção para aqueles que se candidatavam ao curso longo de teologia, isto é, o de

quatro anos: “O curso normal abrangia a Teologia especulativa, hoje chamada

dogmática: conhecimento, justificação e avaliação das verdades da fé; e a Teologia

das Casas de consciência, hoje Teologia moral, que estuda o valor moral dos atos

humanos à luz da fé. Cursavam a teologia dois grupos de estudantes: um grupo era

formado pelos que eram destinados a evangelização direta dos indígenas, e

freqüentavam sobretudo as casas de consciência, quer dizer a teologia moral

(prática) pelo período de, ao menos, dois anos [...] Este era chamado curso breve de

teologia para os talentos regulares. Os destinados a serem letrados, professores e

pregadores, formavam outro grupo: era o curso longo de Teologia para talentos

insignes. O estudante Antônio Vieira queria seguir o curso breve, pois no fim do

noviciado (1625) fizera voto de dedicar sua vida e sua atividade pastoral aos índios e

negros. Os superiores, conhecendo suas qualidades superiores, não lho permitiram.

Seguia o curso longo ótimo resultado. Tendo alcançado também licença de compor

seu próprio texto de teologia [...]. Na idade de 30 anos, como ele mesmo atesta, foi

destinado a ensinar teologia. Deixou este ensino, porque viajou como membro da

embaixada enviada a Portugal para reconhecer a restauração do reino na pessoa do

Rei D. João IV de Bragança. Seu tratado de Teologia se perdeu”.67 Como programa

65 Madureira, J. M. Op, cit. p. 407.

66 Proc. 9255 1o maço; fl. 117v.

67 Brescianni, Carlo. Op. cit. p. 222.

23

e método de ensino a Ratio tinha para o quadrienio teológico a seguintes disciplinas:

“A teologia Escolástica segundo o sistema de S. Thomaz de Aquino; a teologia

positiva ou patristica; a teologia escolástica moral, durante dois anos casuística; a

Sagrada Escritura ou Exegese, Instituições canônicas, o hebreu e mais línguas

orientais. Os oito tratados da Theologia escolástica dogmática devem ser estudados

nos quatro anos, começando-se pelos fundamentais (teologia fundamental) e

Ecclesia et Vera religione, - de Deo uno.”68

Discriminação institucionalizada

As raízes deste tipo de racismo remontam ao século XV na Espanha pré-

unificada, quando as autoridades civis e religiosas se mostraram incapazes de frear

as incitações de alguns pregadores fanáticos que acabaram por conduzir as

sublevações antijudaicas de 1431 e levar ao batismo milhares de judeus. “Menos de

sessenta anos depois das primeiras conversões em massa de judeus, os conversos

descobriram que o expediente empregado por seus pais para salvar a vida, havia

perdido na eficácia. A rebelião anticonversa de 1449 em Toledo, foi o prelúdio de

uma série de trágicos motins populares contra os cristãos de origem judaica”.69

Num destes motins, ocorrido em Toledo em 27 de janeiro de 1449, o

alcaide mor desta cidade, Pedro Sarmiento e seu auxiliar Marcos García de

Mazarambrós, tomaram o partido dos rebeldes contra os cristãos-novos. E para

propor uma solução, o alcaide-mor redige com a ajuda de homens letrados a

Sentencia-Estatuto, primeiro estatuto de limpeza de sangue na Espanha. Com

numerosas acusações contra os conversos, entre elas de que nos dias santos (Jueves

Santos) quando os outros cristãos se preparavam para adorar o Corpo Santo de

Jesus, os cristãos-novos sacrificavam um carneiro e comiam sua carne; que eram

inimigos de Toledo e dos cristãos velhos e que não faziam mais que continuar suas

68 Madureira, J. M. Op. cit. p. 403.

69 Sicroff, Albert. Los Estatutos de Limpieza de Sangré: controversias entre los siglos XV y XVII. Madrid.

Taurus, 1985, p. 50.

24

intrigas contra os cristãos-velhos”.70 Nas décadas seguintes os “estatutos de limpieza

de sangre”, foram difundidos por todas as esferas da sociedade espanhola, e “os

esforços esporádicos de alguns nobres para socorrer os conversos quando eram

assaltados fisicamente, no melhor dos casos, tinham uma eficácia de pouca duração.

E o mais trágico é que nem a Santa Sé, nem as autoridades eclesiásticas espanholas

tentaram impedir sua difusão”,71 pelo contrário, acabara por ser aplicado na Catedral

de Toledo em 23 de julho de 1447 e depois da resistência de alguns membros do

clero foi gradativamente alcançando outras esferas eclesiais e civis. Mas a função

primordial dos “estatutos” foi o “direito” de coibir a entrada de conversos aos cargos

eclesiásticos, civis e militares. Segregação fundamentada inicialmente por motivos

religiosos, assume logo conotação racista, encobrindo os interesses de vários grupos

sociais.72

No Brasil as Constituições primeiras do arcebispado da Bahia que na

prática foi o código eclesiástico que regeu a Igreja no Brasil durante mais de dois

séculos determinavam “que não se admitam ao sacerdócio sujeitos indignos dele e

que mais servem para desencaminhar as almas do que as levar a Deus. Em primeiro

lugar, deveria ser tirada informação secreta da limpeza do sangue-extra-judicial,

vida e costumes, do habilitando e da limpeza de sangue de seus pais e avós, das

Freguesias e terras, Bispados de onde são naturais e moradores e também de onde

trazem suas origens”.73

Ramificações genealógicas e a família Cruz da Bahia

Grande parte dos familiares do Padre Manoel Lopes de Carvalho eram

reinóis do norte de Portugal, mais especificamente do Minho, onde secularmente

havia numerosos cristãos-novos.74 Seu pai ao dirigir-se solteiro para o Brasil, havia

deixado em Viana sua parentela, gente simples: João de Araújo Costa, avô paterno

70 Ibid., pp. 54,5.

71 Ibid., p. 87.

72 Tucci Carneiro, Maria Luiza. Preconceito racial: Portugal e Brasil-Colônia. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988, p. 47.

73 Ibid., pp. 210-1.

74 Cunha, Dom Luis. Testamento político. São Paulo: Editora Alfa-Ômega, 1976, p. 64.

25

do réu, era alfaiate, esposo de Mariana Lopes e genro de Felipa Lopes que era

conhecida na vila por Felipa Rapada; todos moradores na Rua Santo Antônio. Seu

avô materno, Manoel de Carvalho Lima também era de Viana e morador na Rua do

Postigo. Quando jovem deixou no Reino seus pais Pedro Carvalho e Maria

Rodrigues e a irmã Isabel Carvalho que em 1725 era esposa de Domingos Álvares

Baqueiro75. Estas famílias vianenses tinham longo passado na região e seus

membros eram considerados “legítimos e inteiros cristãos-velhos, e foram todos e

cada um deles tidos e havidos reputados e conhecidos sem fama, nem rumor algum

em contrário”76. Apegados à piedade cristã e aos valores provincianos, onde a Igreja

exercia poderosa influência, muitos membros destas famílias optaram pela vida

clerical havendo entre eles “vários clérigos e párocos”77 o que nobilizavam aquelas

famílias, espantando rumores de “sangue infecto” e garantindo prestígio social. Para

obter informações sobre os costumes ou “qualidade de sangue” (origem étnica) dos

réus, o Santo Ofício promovia uma inquirição no lugar de origem do réu ou de seus

antepassados. Este procedimento era fundamental para que os Inquisidores

“qualificassem os réus segundo a ‘quantidade’ de sangue judaico que tinham nas

veias, presumindo-se a heresia proporcional a essa percentagem”.78

O que foi evidenciado a respeito destas famílias nas inquirições in loco,

promovidas pelo Santo Ofício, na vila de Viana, não aconteceria além mar, em terras

consideradas bárbaras onde o cristianismo ainda não havia fincado profundas raízes.

Na cidade da Bahia, enquanto os atabaques soavam nos terreiros em homenagem

aos orixás, o Padre José Maria Teles recebia do Comissário da Sé Episcopal, Mons.

João Calmon, a diligência de proceder uma inquirição sobre os antepassados de

Ângela da Cruz Quaresma, avó materna do réu do Santo Ofício, Padre Manoel

Lopes de Carvalho. Estranho, logo a família Cruz, com um nome profundamente

cristão era suspeita de judaísmo! Cristãos de diferentes nacionalidades denominaram

suas famílias com o nome do madeiro no qual Jesus morreu. O significado deste

símbolo cristão fez com que surgisse desde a Antigüidade ao Medievo os nomes das

75 Proc. 9255. 2o maço, fl. 71.

76 Ibid. fl. 72v.

77 Ibid. fls. 71, 79.

78 Lipiner, Elias. Santa Inquisição: terror e linguagem. Rio de Janeiro: Editora Documentário, 1977, p. 96.

26

famílias79 Slibo, Sleua, Saliba, Khatchaturian, Kreutz, Kruis, Kruse, Croce, Cruz,

Kereszt, Krstic80. Por sua vez, o nome de família Quaresma, não chegou a ser um

sobrenome com amplitude como Cruz no mundo cristão, mas foi usado com certa

divulgação no Barroco Ibérico. Trata-se também de um sobrenome religioso e

refere-se ao período litúrgico em que a Igreja celebra a quarentena do jejum de Jesus

no deserto da Judéia antes de iniciar sua vida pública. É um tempo penitencial que

precede a celebração da Páscoa cristã e recorda os últimos dias e momentos de

Jesus. No Brasil-Colônia algumas pessoas portadoras do sobrenome Quaresma