Novelas, Noveletas e Contos de ficção científica por Isaac Asimov - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

index-1_1.jpg

index-2_1.jpg

index-3_1.jpg

DADOS DE COPYRIGHT

Sobre a obra:

A presente obra é disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos

parceiros, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e

estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim

exclusivo de compra futura.

É expressamente proibida e totalmente repudíavel a venda, aluguel, ou

quaisquer uso comercial do presente conteúdo

Sobre nós:

O Le Livros e seus parceiros disponibilizam conteúdo de dominio publico e

propriedade intelectual de forma totalmente gratuita, por acreditar que o

conhecimento e a educação devem ser acessíveis e livres a toda e qualquer

pessoa. Você pode encontrar mais obras em nosso site: LeLivros.Net ou em

qualquer um dos sites parceiros apresentados neste link.

Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando

por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo

nível.

Mãe-Terra

Isaac Asimov

Mas você tem certeza? Tem certeza de que até mesmo um historiador profissional sempre

sabe distinguir uma vitória de uma derrota?

Gustav Stein, que fez esta gozação, não era historiador. Era um fisiologista.

Mas seu companheiro era um historiador, e aceitou a gentil investida com um sorriso

próprio.

O apartamento de Stein era, para a Terra, bastante luxuoso.

Faltava-lhe a privacidade vazia dos Mundos Cósmicos, é claro, visto que, de sua janela,

estendia-se um fenômeno que pertencia exclusivamente ao seu planeta natal — a cidade. Uma

grande cidade, cheia de gente, ombros se tocando, suores se misturando...

Tampouco era o apartamento de Stein aparelhado como poderia ser. Faltava-lhe a cota

mais elementar de robôs positrônicos. Em resumo, faltava-lhe a dignidade da autosuficiência,

e como todas as coisas na Terra, era simplesmente parte de uma comunidade, uma unidade

pendurada de um conjunto de apartamentos, uma porção de uma multidão.

Mas Stein era um terráqueo de nascimento e estava acostumado com ela. E, afinal de

contas, pelos padrões da Terra, o apartamento ainda era luxuoso.

Era através das mesmas janelas que se podiam ver as estrelas e, entre elas, os Mundos

Cósmicos, onde não havia cidades, só jardins; onde os gramados eram camadas de esmeralda,

onde todos os seres humanos eram reis, e onde todos os bons terráqueos esperavam,

ansiosamente e inutilmente, ir algum dia.

Com exceção de alguns que conheciam melhor — como Gustav Stein.

As noites de sextas-feiras com Edward Field pertenciam àquele tipo de ritual que chega

com a idade e com a vida tranqüila. Quebrava, agradavelmente, a monotonia da semana dos

dois solteirões, e lhes dava um motivo inócuo para se demorarem no licor e nas estrelas.

Afastava-os da crueldade da vida, e, mais do que tudo, dava-lhes uma oportunidade de

conversarem.

Field, especialmente, sendo um conferencista, erudito e homem de poucas posses, citava

os capítulos e frases de sua história, ainda incompleta, do Império Terrestre.

— Estou esperando o último ato — explicou. — Depois, poderei intitulá-lo o “Declínio e

Queda do Império” e publicá-lo.

— Você deve achar, então, que o último ato virá logo.

— Num certo sentido, já veio. Apenas é melhor esperar até que todos reconheçam este

fato. Veja, há três etapas quando um império, um sistema econômico ou uma instituição social

decaem, seu cético...

Field fez uma pausa para dar maior efeito e esperou pacientemente Stein dizer: — E quais

são?

— Primeiro — Field ergueu o dedo indicador — há uma etapa onde aparece um pontinho

indicando um caminho inexorável para o fim. Não pode ser visto nem reconhecido até o fim

chegar, quando o pontinho original torna-se visível aos que têm uma percepção menor.

— E você pode me dizer que pontinho é esse?

— Acho que sim, visto que tive a vantagem de um século e meio de percepção tardia.

Surgiu quando a colônia do setor sírio, Aurora, obteve, pela primeira vez, permissão do

governo central da Terra para introduzir robôs positrônicos em sua vida comunitária.

Obviamente, quando se olha para trás, estava aberto o caminho para o desenvolvimento de

uma sociedade totalmente mecanizada baseada no trabalho de robôs, e não de seres humanos.

E esta mecanização é que foi e será o fator decisivo na luta entre os Mundos Cósmicos e a

Terra.

— E? — murmurou o fisiologista. — Como vocês, historiadores, são infernalmente

espertos. O que é e onde foi a segunda vez que o império caiu?

— O segundo ponto no tempo — e Field levantou o dedo médio — chega quando é

preciso fazer um letreiro tão grande e claro que possa ser visto sem a ajuda da.

perspectiva. E este ponto também já passou, com o primeiro estabelecimento de uma cota

de imigração pelos Mundos Cósmicos contra a Terra. O fato de que a Terra viu-se incapaz de

impedir uma ação tão claramente prejudicial a ela própria foi um grito para todos ouvirem, e

isto foi há cinqüenta anos atrás.

— Cada vez melhor. E o terceiro ponto?

— O terceiro ponto? — Ergueu o anular. — Este é o menos importante. Este é quando o

letreiro torna-se uma parede enorme com um “Fim” rabiscado sobre ela. A única condição

para se saber que o fim chegou. então, não é nem a perspectiva nem o treinamento, mas,

meramente, a habilidade de se ver televisão.

— Acho, então, que o terceiro ponto ainda não veio.

— Obviamente que não, senão você não precisaria me perguntar.

— Todavia, pode vir, brevemente; por exemplo se houver uma guerra.

— Você acredita que haverá?

Field evitou uma afirmação categórica. — Os tempos estão incertos, e há muita emoção

fútil assolando a Terra por causa da questão da imigração. E se houvesse uma guerra, a Terra

seria derrotada rápida e duradouramente, e a parede seria erigida.

— Você tem certeza? Tem certeza de que até mesmo um historiador profissional sempre

sabe distinguir uma vitória de uma derrota?

Field sorriu. Disse: — Talvez você saiba algo que não sei. Por exemplo, falam sobre algo

chamado “Projeto Pacífico”.

— Nunca ouvi falar. — Stein tornou a encher os dois copos. — Vamos falar de outras

coisas.

Ergueu seu copo na direção da janela, fazendo com que as estrelas brilhassem em tons de

rosa no líquido e disse: — A um final feliz para os problemas da Terra.

Field levantou o seu — Ao Projeto Pacífico.

Stein tomou um gole suavemente e disse: — Mas nós estamos bebendo a duas coisas

diferentes.

— Estamos? Ë bastante difícil descrever qualquer um dos mundos Cósmicos a um

terráqueo nativo, visto que não se trata tanto de uma descrição de um mundo, mas de um

estado de espírito. Os Mundos Cósmicos — uns cinqüenta, primeiramente colônias, mais tarde

domínios, mais tarde nações — são extremamente diferentes entre si num sentido físico. Mas o

estado de espírito é praticamente o mesmo em todos eles. É algo que surge de um mundo

originariamente incompatível com a espécie humana, todavia habitado pela nata das pessoas

difíceis, diferentes e ousadas. Para se dizer numa única palavra, esta palavra é

“individualidade.” Há o mundo de Aurora, por exemplo, a três parsecs da Terra.

Foi o primeiro planeta colonizado fora do sistema solar, e representou a aurora das

viagens interestelares. Daí o seu nome. Possuía ar e água para o começo, talvez, mas pelos

padrões da Terra era rochosa e infértil. A vida vegetal que realmente existia, formada por um

pigmento amarelo esverdeado completamente diferente da clorofila e não tão eficiente quanto

esta, dava às regiões comparativamente férteis um aspecto bilioso e desagradável aos olhos

desacostumados. Não havia nenhuma vida animal mais alta do que a unicelular, bem como a

equivalente à bactéria. Nada perigoso, naturalmente, visto que os dois sistemas biológicos, o

da Terra e o de Aurora, não possuíam qualquer relação química. Aurora tornou-se, bem

gradativamente, um canteiro. Sementes e árvores frutíferas foram as que chegaram primeiro;

depois, arbustos, flores e grama. Em seguida, grandes quantidades de gado. E, como se fosse

necessário impedir uma cópia demasiadamente fiel do planeta-mãe, vieram também robôs

positrônicos para construírem as mansões, formarem as paisagens e instalarem as unidades de

força. Em resumo, para fazerem o trabalho e tornarem o planeta verde e humano. Havia o luxo

de um mundo novo e reservas minerais ilimitadas. Havia o excesso esplêndido de energia

atômica instalada em novas fundações com apenas milhares, ou, no máximo, milhões, e não

bilhões, de pessoas para servir. Havia o imenso florescer da ciência física, em mundos onde

havia espaço para ela. Vejam a casa de Franklin Maynard, por exemplo, o qual, com sua

esposa, três filhos e vinte e sete robôs, vivia num estado a mais de quarenta milhas de

distância de seu vizinho mais próximo. Todavia, através da onda comunitária, podia, se

quisesse, estar na sala de qualquer um dos setenta e cinco milhões de habitantes de Aurora —

com cada um, separadamente; com todos, simultaneamente.

Maynard conhecia cada polegada de seu vale. Sabia exatamente onde acabava,

abruptamente, para dar lugar aos penhascos, nos quais agarravam-se as folhas angulosas e

afiadas do tojo nativo — como que odiando a matéria mais suave que lhe havia usurpado o

lugar no sol.

Maynard não precisava sair deste vale.

Era deputado na Assembleia e membro do Comitê de Agentes Estrangeiros, mas podia

discutir qualquer negócio, com exceção do algo extremamente essencial, pela onda

comunitária, sem nunca sacrificar aquela preciosa privacidade que precisava ter, de um modo

que nenhum terráqueo entenderia.

Até mesmo o assunto no momento podia ser resolvido pela onda comunitária.

O homem, por exemplo, que estava sentado com ele em sua sala, era Charles Hijkman e

este, na verdade, estava sentado em sua própria sala, numa ilha de um lago artificial com

cinqüenta variedades de peixes que por acaso, ficava a duas mil e quinhentas milhas de

distância, no espaço. A conexão era uma ilusão, claro. Se Maynard estendesse a mão, poderia

sentir a parede invisível.

Até os robôs estavam bem acostumados com o paradoxo, e quando Hijkman quis um

cigarro, o robô de Maynard não se mexeu para satisfazer este desejo, embora meio minuto se

passou até que o robô de Hijkman o trouxesse. Os dois homens estavam falando como nativos

dos Mundos Cósmicos, isto é, formalmente e com as sílabas muito entrecortadas para serem

cordiais, mas, ainda assim, sem hostilidade.

Simplesmente havia uma falta indefinível da sociabilidade humana — ainda que azeda e

escassa, às vezes — imposta com tanta força aos formigueiros da Terra.

Maynard disse:

— Há muito tempo que venho desejando ter uma conversa particular, Hijkman.

Mas obrigações na Assembleia, este ano...

— Claro. Eu compreendo. É óbvio que você é bem-vindo. Na verdade, especialmente

bem-vindo, visto que ouvi falar da natureza superior de suas terras e paisagens. E verdade que

seu gado é alimentado com grama importada?

— Receio que isto seja um pouco de exagero. Na verdade, algumas de minhas melhores

vacas leiteiras são alimentadas com produtos importados da Terra durante a gestação, mas

isto ficaria caro demais se eu o tornasse uma prática generalizada.

Entretanto, faz um leite extraordinário. Poderia ter o privilégio de lhe mandar uma de

minhas produções diárias?

— Seria muito gentil de sua parte. — Hijkman abaixou a cabeça, gravemente. — Você

precisa receber alguns de meus salmões, em troca. Para um olho terráqueo, os dois homens

poderiam parecer bastante semelhantes. Ambos eram altos, ainda que não excessivamente para

Aurora, onde a média de altura do homem adulto é de seis pés e uma polegada e meia. Ambos

eram loiros e de músculos fortes, com características pronunciadas. Embora nenhum tivesse

menos de quarenta anos, a meia-idade quase não se fazia notar em ambos.

Bastava de amenidades.

Sem uma mudança no tom, Maynard procedeu ao ponto sério de sua visita. Disse:

— O Comitê está, no momento, bastante comprometido com Moreanu e seus

Conservadores. Gostaríamos de lidar com eles com firmeza, nós, os Independentes. Mas antes

de fazermos isto com calma e certeza, eu gostaria de lhe fazer algumas perguntas.

— Por que eu?

— Por que você é o físico mais importante de Aurora. A modéstia não é uma atitude

natural, e é com muita dificuldade que se a ensina às crianças. Numa sociedade individualista,

ela é inútil e Hijkman, portanto, não ficou embaraçado.

Apenas acenou confirmando, objetivamente, as últimas palavras de Maynard.

— E — continuou Maynard — como um de nós, você é um Independente.

— Sou um membro do Partido. Contribuinte, mas não muito ativo.

— Não obstante, seguro. Agora, diga-me, já ouviu falar no “Projeto Pacífico”?

— O “Projeto Pacífico”? — Houve uma pergunta polida em suas palavras.

— E algo que está acontecendo na Terra. O Pacífico é um oceano terrestre, mas o nome

em si, provavelmente, não tem nenhum significado.

— Nunca ouvi falar nele.

— Não fico surpreso. Poucos ouviram, mesmo na Terra. A propósito, nossa comunicação

se faz pelo rádio e não podemos ir além disso.

— Entendo.

— Seja o Projeto Pacífico o que for — e nossos agentes são extremamente vagos — é

concebível pensar que poderia ser uma ameaça. Muitos daqueles que, na Terra, passam por

cientistas parecem estar ligados a ele. Assim como, alguns dos políticos mais tolos e radicais

da Terra.

— Hum-m-m. Há algum tempo, houve alguma coisa chamada Projeto Manhattam.

— Sim — incitou Maynard — e que tal este?

— Ah, é uma coisa antiga. Ocorreu-me simplesmente por causa da analogia dos nomes. O

Projeto Manhattam foi da época anterior às viagens extraterrestres. Houve alguma guerrinha

nas idades obscuras, e foi o nome dado a um grupo de cientistas que desenvolveram a energia

atômica.

— Ah — e Maynard fechou as mãos — e o que pensa que o Projeto Pacífico pode fazer,

então?

Hijkman pensou. Então, suavemente:

— Você acha que a Terra está planejando uma guerra?

Surgiu uma repentina expressão de desgosto na face de Maynard.

— Seis bilhões de pessoas. Seis bilhões de meio-macacos, melhor dizendo, apinhados

num sistema a ponto de explodir, vendo apenas alguns milhares de nós, no total. Você não

acha que é uma situação perigosa?

— Oh, números!

— Muito bem. Estamos salvos, apesar dos números? Diga-me. Sou apenas um

administrador e você é um físico. A Terra pode, de algum modo, ganhar a guerra?

Hijkman sentou-se solenemente em sua cadeira e pensou cuidadosa e demoradamente.

Então disse:

— Vamos raciocinar. Há três grandes classes de métodos pelas quais um indivíduo ou um

grupo pode alcançar seus objetivos contra a oposição. Num nível mais sutil, estas três classes

podem ser denominadas física, biológica e psicológica. Bem, a física pode ser facilmente

eliminada. A Terra não tem um passado industrial. Não tem um “know-how”

técnico. Tem recursos muito limitados. Não tem nem mesmo um único físico de nome.

Assim sendo, é impossível, mais do que tudo nesta galáxia, que possam desenvolver

qualquer forma de aplicação físico-química que já não seja conhecida pelos Mundos

Cósmicos. Isto, é claro, contando-se que a Terra se oporá sozinha aos Mundos Cósmicos.

Estou partindo do princípio de que nenhum dos Mundos Cósmicos pretende unir-se à

Terra contra nós.

Maynard fez uma oposição violenta até mesmo á sugestão.

— Não, não, não. Não há o que discutir quanto a isso. Tire isso de sua cabeça.

— Então, não podemos pensar em armas físicas desconhecidas. Não é necessário

continuar a discutir este ponto.

— Então, e a segunda classe, a biológica?

Hijkman ergueu as sobrancelhas lentamente:

— Bom, esta é menos segura. Alguns biólogos terrestres são bastante competentes, pelo

que me disseram. Naturalmente, visto que eu próprio sou um físico, não estou inteiramente

qualificado para julgar isto. Todavia, acredito que, em certos campos restritos, eles ainda são

“experts”. Na ciência da agricultura, é claro, para dar um exemplo óbvio. E em bacteriologia.

— Hum-m-m...

— Sim, e uma guerra bacteriológica?

— Que pensamento! Não, não, praticamente inconcebível. Um mundo lotado como a Terra

não pode lutar com germes contra cinqüenta mundos espalhados. Estão infinitamente mais

sujeitos a epidemias, isto é, a uma vingança nos mesmos termos. Na realidade, eu diria que,

com as condições de vida de Aurora e dos outros Mundos Cósmicos, nenhuma doença

contagiosa poderia realmente nos atingir. Não, Maynard.

Você pode verificar com um bacteriologista, mas acredito que ele lhe dirá o mesmo.

Maynard disse:

— E a terceira classe?

— A psicológica? Bem, esta é imprevisível. Todavia os Mundos Cósmicos são

inteligentes e comunidades ricas, não influenciáveis por propagandas políticas comuns ou por

esta questão, a ponto de serem tomados por uma onda de emocionalismo prejudicial.

Agora, eu só fico pensando se...

— Sim?

— E se o Projeto Pacífico for exatamente isto? Quero dizer, uma maneira de nos

desequilibrar. Algo altamente secreto, mas criado com a intenção de que seja transpirado bem

à moda antiga, para que os Mundos Cósmicos cedam um pouco à Terra, simplesmente para se

garantirem.

Houve um longo silêncio.

— Impossível — explodiu Maynard com raiva.

— Você está reagindo como se deve. Você está hesitando. Mas eu não estou forçando esta

interpretação. E apenas um pensamento.

Um silêncio maior, e em seguida Hijkman falou de novo:

— Há alguma outra pergunta?

Maynard interrompeu sua divagação.

— Não... não...

A onda foi interrompida e apareceu uma parede onde havia espaço, há um momento atrás.

Lentamente, persistindo em sua descrença, Franklin Maynard balançou a cabeça.

Ernest Keilin subiu as escadas sentindo pena de todos os séculos passados. O prédio era

velho e coberto com teias de aranha pela história. Chegou a abrigar o Parlamento do Homem e

dele saíam as palavras que iam grudar-se nas estrelas.

Era um prédio alto. Elevava-se — esticava-se — fazia força. Em direção às estrelas; às

estrelas que agora lhe haviam dado as costas.

Não mais abrigava nem mesmo o Parlamento da Terra. Este havia sido transferido para

um prédio mais novo, em estilo neoclássico, um que imitava, precariamente, os estilos

arquitetônicos da antiga era préatômica.

Todavia, o prédio mais antigo ainda trazia seu grande nome.

Oficialmente, ainda era a Casa Estelar, mas abrigava apenas os funcionários de uma

burocracia decadente, no momento. Keilin desceu no décimo segundo andar, e o elevador

imediatamente voltou para baixo.

O letreiro luminoso dizia suave e silenciosamente: Bureau de Informações.

Entregou uma carta à recepcionista.

Esperou.

E finalmente, atravessou a porta onde estava escrito “L. Z. Cellioni — Secretário de

Informações.

Cellioni era baixinho e escuro. Seu cabelo era grosso e preto e seu bigode, fino e preto.

Seus dentes, quando sorria, eram espantosamente brancos e regulares — por isso sorria muito.

Estava sorrindo, agora, ao se levantar e estendeu a mão. Keilin tomou-a, assim como um

lugar e um charuto que lhe foram oferecidos.

Ceilioni disse:

— Estou muito contente em vê-lo, Sr. Keilin. Foi gentileza de sua parte tomar um avião

em Nova Iorque por causa de um recado tão curto.

Keilin abaixou os cantos dos lábios e fez um gesto com uma mão, desprezando todo esse

negócio.

— E agora — continuou Cellioni — presumo que o senhor gostaria de ter uma explicação

sobre tudo isso.

— Não recusaria uma — disse Keilin.

— Infelizmente, é difícil saber exatamente como explicar. Como secretário de

informações, minha posição é difícil. Preciso salvaguardar a segurança e o bem-estar da Terra

e, ao mesmo tempo, observar a nossa tradicional liberdade de imprensa.

Naturalmente, e felizmente, não temos nenhuma censura, mas naturalmente, também, há

horas em que quase poderíamos desejar que tivéssemos.

— Isto — perguntou Keilin — é com referência a mim? Quero dizer, sobre a censura?

Cellioni não respondeu diretamente. Em lugar disso, sorriu novamente, lentamente, e com

uma ausência notável de jovialidade. Disse:

— O senhor, sr. Keilin, tem um dos programas de televisão mais assistidos e influentes.

Portanto, o senhor é de um especial interesse para o governo.

— A hora é minha — disse Keilin, com teimosia. — Pago por ela. Pago meu imposto de

renda. Obedeço todas as leis comuns que regem os tabus. Portanto, realmente não vejo por que

poderia despertar tanto interesse no governo.

— Oh, o senhor não me entendeu. Acho que o erro foi meu, por não ter sido mais claro. O

senhor não cometeu nenhum crime, nem desrespeitou qualquer lei. Eu apenas admiro sua

habilidade jornalística. Estou me referindo à sua atitude editorial em algumas vezes.

— Com respeito a quê?

— Com respeito — disse Ceilioni, com uma dureza repentina em seus lábios finos — à

nossa política em relação aos Mundos Cósmicos.

— Minha atitude editorial representa o que sinto e penso, sr. Secretário.

— Admito que seja assim. O senhor tem o seu direito de sentir e pensar. Todavia, é

injudicioso espalhar suas ideias todas as noites a uma audiência de meio bilhão de pessoas.

— Injudicioso, talvez, para o senhor. Mas legal, para qualquer pessoa.

— Às vezes, é necessário colocar o bem do país acima de uma interpretação restrita e

egoísta da legalidade.

Keilin bateu o pé no chão duas vezes e franziu a testa.

— Olhe — disse — fale com franqueza. O que é que o senhor quer?

O secretário de informações abriu as mãos para ele.

— Numa palavra — cooperação! Realmente, sr. Keilin, não podemos deixar o senhor

enfraquecer a vontade do povo. O senhor avalia a posição da Terra? Seis bilhões e um

suprimento alimentar decadente! Ë insuportável! E a emigração é a única solução.

Nenhum terráqueo pode deixar de ver a justiça de nossa posição. Nenhum ser humano

razoável pode deixar de ver a justiça disso.

Keilin disse:

— Concordo com a sua premissa de que o problema da população é sério, mas a

emigração não é a única solução. De fato, a emigração é o caminho certo para o apressamento

da destruição.

— É mesmo? E por que o senhor diz isto?

— Por que os Mundos Cósmicos não permitirão a emigração, e o senhor só poderá forçá-

los a isto pela guerra. E nós não podemos ganhar uma guerra.

— Diga-me — disse Cellioni suavemente — o senhor já tentou emigrar, alguma vez?

Parece-me que o senhor teria as condições necessárias. Ë bem alto, tem cabelos loiros, é

inteligente...

O homem da televisão corou.

Disse secamente:

— Tenho febre do feno.

— Bem — e o secretário sorriu — então o senhor deve ter boas razões para desaprovar

as políticas genéticas e racistas arbitrárias deles.

Keilin respondeu, esquentado:

— Não me influencio pelos meus motivos pessoais. Eu desaprovaria aquela política

mesmo que tivesse todas as qualidades para emigrar. Mas minha desaprovação não alteraria

nada. As políticas deles são deles, e podem Pô-las em prática. Além disso, suas políticas têm

alguma razão, ainda que erradas. A espécie humana está começando, novamente, nos Mundos

Cósmicos e eles — os que chegaram lá primeiro — gostariam de eliminar algumas das falhas

do mecanismo humano que se tornaram óbvias com o tempo.

Um portador da febre do feno é um ovo podre — geneticamente. Um portador de câncer,

muito mais. Os preconceitos que têm contra a cor da pele e do cabelo não têm sentido, é claro,

mas posso assegurar que estão interessados em uniformidade e homogeneidade. E, quanto à

Terra, podemos fazer muita coisa mesmo sem a ajuda dos Mundos Cósmicos.

— O que, por exemplo?

— Robôs positrônicos e uma lavoura hidropônica deveriam ser introduzidos e — mais do

que tudo — deve ser instituído o controle de nascimento. Um controle de nascimento

inteligente, isto é, baseado em rígidos princípios psiquiátricos tencionados à eliminação das

tendências psicóticas, das enfermidades congênitas...

— Como fazem nos Mundos Cósmicos...

— De modo algum. Não mencionei princípios racistas. Falo apenas em enfermidades

físicas e mentais que estão presentes em todos os grupos étnicos e raciais.

E, principalmente, o número de nascimentos deve ser mantido abaixo do número de

mortes até se atingir um equilíbrio sadio.

Cellioni disse, com um sorriso:

— Faltam-nos as técnicas industriais e os recursos para introduzirmos uma tecnologia

Robôhidropônico em menos de cinco séculos. Além disso, as tradições da Terra, bem como as

crenças éticas correntes, proíbem o trabalho feito por robôs e alimentos artificiais.

Principalmente, proíbem o massacre de crianças não-nascidas. Ora, Keilin, veja, não podemos

deixar você transmitir isto pelo vídeo. Não funciona; distrai a atenção; enfraquece a vontade.

Keilin interrompeu bruscamente:

— Sr. Secretário, o senhor quer uma guerra?

— Se eu quero uma guerra? Esta é uma pergunta imprudente.

— Então, quais são os políticos do governo que realmente querem uma guerra?

Por exemplo quem é o responsável pelo rumor planejado sobre o Projeto Pacífico?

— Projeto Pacífico? E onde você ouviu isso?

— Minhas fontes são o meu segredo.

— Então, eu lhe direi. Você ouviu falar nesse Projeto Pacífico por Moreanu de Aurora,

em sua recente viagem à Terra. Sabemos mais sobre o senhor do que supõe, sr.

Keilin.

— Acredito mesmo, mas não admito que recebi informações de Moreanu. Por que o

senhor pensa que eu poderia obter informações dele? Seria porque deixaram-no

deliberadamente saber sobre esta besteira?

— Besteira?

— Sim. Acho que o Projeto Pacífico é uma farsa. Uma farsa com a intenção de inspirar

confiança. Acho que o governo planeja deixar este segredo transpirar, para fortalecer sua

política de guerra. Faz parte de uma guerra de nervos feita contra os próprios povos da Terra,

e será, no final, a ruína deste planeta.

— Eu vou levar esta minha teoria até o povo.

— O senhor não irá, sr. Keilin — disse Cellioni em voz baixa.

— Irei.

— Sr. Keilin, seu amigo, Ion Moreanu, está tendo problemas em Aurora por ser

demasiadamente cordial com o senhor. Tome cuidado para que o mesmo não lhe aconteça por

ser demasiadamente cordial com ele.

— Não estou preocupado.

O homem da televisão deu uma risada curta, pôs-se de pé e dirigiu-se à porta.

Keilin sorriu gentilmente quando encontrou a porta bloqueada por dois homens enormes:

— Isto quer dizer que estou preso.

— Exatamente — disse Cellioni.

— Sob que acusação?

— Pensaremos numa, mais tarde.

Keilin saiu — escoltado.

Em Aurora, o espelho da situação acima descrita estava acontecendo, só que em maior

escala.

O Comitê de Agentes Estrangeiros da Assembleia estava reunido há vários dias, agora —

desde a sessão da Assembleia na qual Ion Moreanu e seu Partido Conservador fizeram o

possível para forçarem um voto de desconfiança. Que houvesse falhado era devido, em parte,

à política geral superior dos Independentes, e, em parte, à atividade deste mesmo Comitê de

Agentes Estrangeiros.

Havia meses, agora, que as provas haviam sido acumuladas, e, quando o voto de

confiança foi dado a favor dos Independentes, o Comitê pôde atacar a seu modo.

Moreanu foi intimado em sua própria casa e colocado em prisão domiciliar.

Embora a prisão domiciliar não fosse, devido às circunstâncias, legal — fato apontado

enfaticamente por Moreanu foi, no entanto, cumprida com sucesso. Durante três dias, Moreanu

foi inteiramente examinado, em tons de voz polidos e impassíveis que quase não indicavam

nada que não fosse uma curiosidade desprovida de emoção.

Os sete inquisidores do Comitê revezavam-se no interrogatório, mas Moreanu tinha

direito a apenas dez minutos de intervalo, durante todas as horas em que o Comitê esteve

presente.

Depois de três dias, ele começou a mostrar os efeitos. Estava rouco de tanto pedir para

ver seus acusadores; exausto de tanto insistir em que fosse informado da natureza exata das

acusações; com a garganta estourada de tanto gritar contra a ilegalidade do procedimento.

Finalmente, o Comitê leu afirmações para ele:

— E verdade ou não? E verdade ou não?

Moreanu podia apenas balançar a cabeça de modo cansado quando o envolviam com a

afirmação. Desafiou a competência das provas e foi informado brandamente de que os

procedimentos constituíam uma investigação do Comitê e não um julgamento.

Finalmente, o presidente bateu seu martelo. Era um homem franco e tremendamente

decidido.

Falou por uma hora para dar o resumo final dos resultados do inquérito, mas apenas uma

parte relativamente pequena dele precisou ser mencionada.

Disse:

— Se você tivesse meramente conspirado com outros de Aurora, poderíamos entendê-lo,

e até perdoá-lo. Este erro teria sido considerado como um a mais dos homens ambiciosos que

encontramos na história. Mas não foi nada disso. O que nos horroriza e acaba com toda a

nossa piedade é a sua ânsia de associar-se com os remanescentes doentes, ignorantes e

subumanos da Terra.

— Você, o acusado, encontra-se aqui sob um enorme peso de provas que mostram ter

conspirado com os piores elementos da população mestiça da Terra...

O presidente foi interrompido por um grito agonizante de Moreanu.

— Mas o motivo! Qual o motivo que o senhor pode atribuir...

O acusado foi empurrado de volta à sua cadeira. O presidente apertou os lábios e saiu da

gravidade de sua palestra preparada para um pouco de improvisação.

— Não cabe — disse — a este Comitê descobrir seus motivos. Mostramos os fatos do

caso. O Comitê tem a evidência... — Fez uma pausa e olhou a linha de membros, de um lado a

outro, para, depois, prosseguir.

— Acho que posso dizer que o Comitê tem provas que mostram sua intenção de usar o

poder dos terráqueos para arquitetar um golpe que o tornaria ditador em Aurora.

Mas, visto que as provas não foram usadas, não me aprofundarei nisto, a não ser para

dizer que este resultado é consistente com seu caráter, como ficou mostrado nessas audiências.

Voltou á sua palestra.

— Aqueles dentre nós que estão aqui ouviram, acredito, algo chamado “Projeto Pacífico”

o qual, segundo os rumores, representa uma tentativa, por parte da Terra, de reaver seus

domínios perdidos.

— Seria inútil enfatizar aqui que qualquer tentativa do gênero deve consagrar-se ao

fracasso. Todavia, uma derrota para nós não é inteiramente inconcebível. Uma coisa pode

fazer-nos tropeçar, e esta coisa é uma fraqueza interna insuspeitada. A genética ainda é, afinal

de contas, uma ciência imperfeita. Mesmo com vinte gerações atrás de nós, características

indesejáveis podem aflorar em pontos isolados, e cada uma representa uma falha no escudo de

aço da força de Aurora.

— Isto é o Projeto Pacífico — o uso de nossos próprios criminosos e traidores contra

nós; e se conseguirem encontrar um dentre de nossos conselhos internos, os terráqueos

poderão, até mesmo, vencer.

— O Comitê de Agentes Estrangeiros existe para combater esta ameaça. No acusado,

estamos tocando as pernas desta aranha. Temos de continuar...

De qualquer forma, a palestra continuou. Quando foi concluída, Moreanu, pálido, de olhos

arregalados, armou seu punho.

— Peço a palavra...

— O acusado pode falar — disse o presidente. Moreanu levantou-se e olhou ao seu redor

por um instante. A sala, feita para uma audiência de setenta e cinco milhões de pessoas pela

onda comunitária, estava vazia.

Havia os inquisidores, a equipe legal, pessoas para fazerem os relatórios oficiais — e

com ele, em carne e osso, seus guardas.

Ele teria se saído melhor com uma audiência. Sem ela, a quem ele poderia apelar?

Seu olhar passou desesperançosamente por todos os rostos, mas não conseguiu achar nada

melhor.

— Primeiramente — disse — nego a legalidade desta reunião. Meus direitos

constitucionais de privacidade e individualidade foram negados. Fui julgado por um grupo que

não representa uma corte, por indivíduos previamente convencidos de minha culpa. Negaram-

me uma oportunidade adequada para eu me defender. De fato, fui tratado a todo momento

como um criminoso julgado que está aguardando a sentença.

— Nego completamente e sem reservas, que estou engajado numa atividade prejudicial ao

estado ou que tende a subverter suas instituições fundamentais.

— Acuso, vigorosamente e sem reservas, este Comitê de usar seus poderes

deliberadamente para ganhar batalhas políticas. Sou culpado não de traição, mas de

desacordo. Discordo com a política dedicada à destruição da maior parte da raça humana por

motivos que são triviais e desumanos.

— Ao invés de destruição, devemos fornecer assistência a estes homens que estão

condenados a uma vida dura e infeliz apenas porque foram os nossos ancestrais, e não os

deles, que, por acaso, chegaram primeiro aos Mundos Cósmicos. Com a nossa tecnologia e

recursos, eles podem, todavia, criar e desenvolver novamente...

A voz do presidente calou o quase sussurro de Moreanu.

— Você está fugindo às normas. O Comitê está bem preparado para ouvir qualquer

comentário que deseje fazer em sua defesa, mas um sermão sobre os direitos dos terráqueos

está fora do domínio legítimo da discussão.

As audiências foram formalmente encerradas. Foi uma grande vitória política para os

Independentes; todos concordariam com isto. Dos membros do comitê, apenas Franklin

Maynard não estava completamente satisfeito.

Permanecia uma dúvida pequena e inoportuna. Ele ficava imaginando... Deveria tentar,

pela última vez? Deveria falar mais uma vez e nunca mais com aquele estranho embaixador

macaco da Terra?

Tomou uma decisão rapidamente e agiu na mesma hora. Somente uma pausa para arranjar

uma testemunha, visto que, até mesmo para ele, uma conversa particular sem testemunhas com

um terráqueo poderia ser perigoso.

Linz Moreno, embaixador da Terra em Aurora, era uma figura miserável de um homem. E

isto não era exatamente um acidente. No conjunto, os diplomatas estrangeiros da Terra tinham

tendência para serem negros, baixos, mirrados ou fracos — ou tudo isto.

Isto era apenas uma autoproteção, visto que os Mundos Cósmicos exerciam uma forte

atração em todos os terráqueos. Diplomatas expostos à fascinação de Aurora, por exemplo,

voltavam à Terra extremamente relutantes.

Uma exposição pior e mais perigosa significava uma simpatia crescente pelos semideuses

das estrelas e uma crescente alienação dos habitantes miseráveis da Terra.

A menos, é claro, que o embaixador fosse rejeitado. A menos que se visse, de algum

modo, desprezado. Então, não se podia imaginar um criado mais fiel da Terra, nem uma

pessoa menos sujeita à corrupção.

O embaixador da Terra tinha cinco pés e duas polegadas, era calvo, com uma testa

entrada, com uma irritação na barba e olhos avermelhados. Estava com um pouco de gripe,

cujos resultados ele abafava num lenço.

Ainda assim, era um homem de intelecto.

Para Franklin Maynard, a visão e o som de um terráqueo eram penosos.

Ficou enjoado com as tosses e tremia quando o embaixador assoava o nariz.

Maynard disse: — Sua excelência, estamos tendo esta conversa particular, a meu pedido,

porque desejo informá-lo que a Assembleia decidiu pedir a sua volta ao governo da Terra.

— E muita gentileza de sua parte, conselheiro. Eu já estava suspeitando. E por que

motivo?

— O motivo não faz parte desta discussão. Acredito ser a prerrogativa de um estado

soberano decidir por si próprio se um representante estrangeiro deve ser persona grata ou não.

E também não penso que o senhor precise de um esclarecimento neste assunto.

— Muito bem, então. — O embaixador fez uma pausa para usar o lenço e se desculpou.

— E só isso?

Maynard disse:

— Não é tudo. Há algumas questões que eu gostaria de mencionar. Fique!

As narinas avermelhadas do embaixador brilharam um pouco, mas ele sorriu e disse:

— Uma honra.

— Seu mundo, excelência — disse Maynard, altivamente — está mostrando uma certa

beligerância que nós, em Aurora, consideramos tremendamente incômoda e desnecessária.

Tenho certeza de que o senhor considerará sua volta à Terra, a essa altura dos acontecimentos,

uma oportunidade conveniente para usar sua influência contra demonstrações posteriores

semelhantes às que ocorreram recentemente em Nova Iorque, quando dois aurorianos foram

maltratados por uma multidão. O pagamento de uma indenização poderá não ser suficiente, na

próxima vez.

— Mas aquilo foi um extravasamento emocional, conselheiro Maynard.

Naturalmente, o senhor não pode considerar uma representação adequada de beligerância

o fato de jovens estarem gritando nas ruas.

— As ações de seu governo apóiam este ato em diversas maneiras. A recente prisão do

sr. Ernest Keilin, por exemplo.

— O que é um negócio puramente doméstico — disse o embaixador, calmamente.

— Mas não um negócio que demonstra uma mentalidade razoável em relação aos Mundos

Cósmicos. Keilin era um dos poucos terráqueos que, até recentemente, podia fazer com que

suas vozes fossem ouvidas.

Era inteligente o bastante para perceber que nenhum direito divino protege o homem

inferior, simplesmente por ser inferior.

O embaixador se levantou:

— Não estou interessado nas teorias de Aurora sobre as diferenças raciais.

— Um momento. Pode ser que o seu governo perceba que muitos de seus planos falharam

com a prisão de seu agente, Moreanu. Saliente o fato de que nós de Aurora somos muito mais

espertos do que fomos antes desta prisão. Isto pode servir para que eles façam uma pausa.

— Moreanu é meu agente? Francamente, conselheiro, se estou desacreditado, irei embora.

Mas, certamente, a perda de uma imunidade diplomática não afeta minha imunidade pessoal

como um homem honesto, livre de acusações de espionagem.

— Não é esse o seu trabalho? — Os aurorianos acreditam que espionagem e diplomacia

são idênticas? Meu governo gostará de saber disso. Deveremos tomar precauções adequadas.

— Então, o senhor está defendendo Moreanu? Nega que esteja trabalhando para a Terra?

— Eu só estou me defendendo. Quanto a Moreanu, não sou tão burro a ponto de dizer

alguma coisa.

— Por que burro?

— Por acaso uma defesa de minha parte não seria uma outra acusação contra ele?

Nem o acuso, nem o defendo. A briga de seu governo com Moreanu, como a de meu

governo com Keilin — o qual o senhor está suspeitamente ansioso para defender — são

assuntos internos. Vou sair, agora. A comunicação parou e, quase instantaneamente, a parede

tornou a desaparecer.

Hijkman estava olhando pensativamente para Maynard.

— O que você acha dele? — perguntou Maynard, sorridente. — uma desgraça que uma

caricatura da humanidade esteja andando por Aurora.

— Concordo com você, todavia.., todavia — Bem?

— Todavia quase consigo pensar que ele é o chefe e que estamos dançando conforme a

sua música. Você está sabendo de Moreanu?

— Ë claro.

— Bem, ele será preso e mandado a um asteroide. Seu partido será desfeito. A primeira

vista, qualquer um diria que estes fatos representam uma derrota horrível para a Terra.

— Você tem alguma dúvida quanto a isso?

— Não tenho certeza. O presidente do comitê, Hond, insistiu em anunciar sua teoria de

que o Projeto Pacífico era o nome que a Terra deu a uma maneira de usar os traidores internos

nos Mundos Cósmicos. Mas eu não penso assim. Não estou certo de que os fatos indiquem

isto. Por exemplo, onde conseguimos nossa evidência contra Moreanu?

— Realmente, eu não sei dizer.

— Em primeiro lugar, nossos agentes. Mas como a conseguiram?

A evidência foi um pouco convincente demais. Moreanu poderia ter se protegido melhor...

Maynard hesitou. — Bem, resumindo, eu acho que foi o embaixador terrestre que, de

certo modo, nos apresentou a maior evidência. Acho que ele se aproveitou da simpatia de

Moreanu pela Terra para, primeiramente, tornar-se amigo dele e, depois, traí-lo.

— Porquê?

— Não sei. Para garantir uma guerra, talvez — com este Projeto Pacífico nos esperando.

— Não acredito nisso.

— Eu sei. Não tenho provas. Nada a não ser uma suspeita. O comitê também não

acreditaria em mim. Eu achava que, talvez, uma última conversa com o embaixador pudesse

revelar alguma coisa, mas só a aparência dele o põe contra mim, e descubro que passei a

maior parte do tempo tentando afastá-lo de minha vista.

— Bem, você está ficando emotivo, meu amigo. E uma fraqueza horrorosa. Soube que

você foi apontado para delegado na Assembleia Internacional em Vésper. Parabéns.

— Obrigado — disse Maynard, distraidamente.

Linz Moreno, ex-embaixador em Aurora, estava contente por voltar à Terra.

Estava longe das paisagens artificiais que pareciam não ter vida própria, mas existir

apenas pela forte vontade de seus possuidores.

Longe de homens e mulheres bonitos demais e de seus robôs incubados. Estava de volta

ao zumbido da vida e ao arrastar dos pés; o roçar de ombros e a sensação de respiração em

seu rosto.

Não que fosse capaz de gostar inteiramente destas sensações. Os primeiros dias haviam

sido passados em conferências agitadas com os chefes do governo da Terra.

De fato, só depois de uma semana é que chegou o momento em que ele pôde considerar-se

realmente relaxado. Estava num dos acessórios mais raros do luxo terrestre — num jardim de

cobertura.

Com ele estava Gustav Stein, o fisiologista obscuro que era, contudo, um dos principais

autores do Plano, conhecido como o Projeto Pacífico.

— Até agora, os testes de confirmação conferem, não? — disse Moreno, com uma

satisfação quase temerosa. — Até agora. Apenas até agora. Temos muitas milhas a percorrer.

— Entretanto, continuarão indo bem. Para quem morou em Aurora durante quase um ano, como

eu, não há dúvida de que estamos no caminho certo.

— Hum-m-m. Contudo, prefiro me basear pelos relatórios do laboratório.

— E está muito certo.

Seu corpo pequeno estava quase duro de satisfação.

— Algum dia, vai ser diferente. Stein, você não conheceu estes homens, os dos Mundos

Cósmicos. Você pode ter encontrado turistas, talvez, em seus hotéis especiais ou andando

pelas ruas em carros fechados, equipados com o mais puro dos arescondicionados para suas

narinas especiais; observando a vista com seus periscópios portáteis e afastando-se do contato

de um terráqueo.

— Mas você não os viu em seu próprio mundo, seguros em sua grandeza doentia e

apodrecida. Vai, Stein, e seja desprezado por algum tempo. Vai e veja se pode competir com

seus gramados treinados como algo sobre o qual se deve andar suavemente.

— Todavia, quando puxei as cordas certas, Ion Moreanu caiu — Ion Moreanu, o único

homem entre eles com capacidade para compreender o trabalho da mente de outra pessoa.

Passamos por uma crise, agora. No momento, estamos diante de um caminho mais tranqüilo.

Satisfação! Satisfação!

— Quanto a Keilin — disse de repente, mais para si do que para Stein — pode ser solto,

agora. Daqui em diante, há muito pouco para ele dizer que possa pôr em perigo qualquer

coisa. De fato, tenho uma ideia.

— A Conferência Interplanetária vai ser aberta em Vésper, no próximo mês. Ele pode ser

enviado para fazer a reportagem da reunião.

— Será um sinal de nossa amizade — E vai mantê-lo fora durante o verão. Acho que isso

pode ser arranjado.

Foi.

De todos os mundos Cósmicos, Vésper era o menor, de colonização mais recente e o mais

distante da Terra. Por isso o nome.

No sentido físico, não era o mais apropriado para uma grande reunião diplomática, visto

que as suas facilidades eram poucas.

Por exemplo, a cadeia de onda comunitária disponível não poderia, provavelmente,

abranger todos os delegados, a equipe de secretários e administradores necessários numa

convocação de cinqüenta. planetas.

Assim sendo, foram acertadas reuniões ao vivo, em prédios feitos com este propósito.

Contudo, havia um simbolismo na escolha do lugar que, praticamente, não escapou a ninguém.

De todos os Mundos, Vésper era o mais distante da Terra. Mas a distância espacial —

cem parsecs ou mais — era o de menos.

O ponto importante era que Vésper havia sido colonizado não por terráqueos, mas por

homens vindos do Mundo Cósmico de Faunus.

Era, portanto, da segunda geração, e não tinha nenhuma “Mãe-Terra”.

A Terra, para ele, era apenas uma vaga avó, perdida nas estrelas.

Como é normal nestas reuniões, pouca coisa é realmente feita nas sessões dos prédios.

Este espaço é reservado para as sondagens oficiais daquilo que os anfitriões querem ouvir.