Novo Organum por Francis Bacon - Versão HTML

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Esse mal foi espantosamente aumentado pela opinião — tornada presunção inveterada, conquanto vã e danosa — de que a majestade da mente humana fica diminuída se muito e a fundo se ocupa de experimentos e de coisas particulares e determinadas na matéria, mormente tratando-se de coisas, segundo se diz, laboriosas de inquirir, ignóbeis para a meditação, ásperas para a transmissão, avaras para a prática, infinitas em número, tênues em sutileza. Chegou-se ao ponto em que a verdadeira via não só foi abandonada, mas foi ainda fechada e obstruída. A experiência não foi apenas abandonada ou mal administrada, como também desprezada.

LXXXIV

A reverência à Antiguidade, o respeito à autoridade de homens tidos como grandes mestres de filosofia e o geral conformismo para com o atual estádio do saber e das coisas descobertas também muito retardaram os homens na senda do progresso das ciências, mantendo-os como que encantados. Desse tipo de consenso já falamos a ntes.49

No tocante à antiguidade, a opinião dos homens é totalmente imprópria e, a custo, congruente com o significado da palavra. Deve-se entender mais corretamente por antiguidade a velhice e a maturidade do mundo e deve ser atribuída aos nossos tempos e não à época em que viveram os antigos, que era a do mundo mais jovem. Com efeito, aquela idade que para nós é antiga e madura é nova e jovem para o mundo.50 E do mesmo modo que esperamos do homem idoso um conhecimento mais vasto das coisas humanas e um juízo mais maduro que o do jovem, em razão de sua maior experiência, varie dade e maior número de coisas que pôde ver, ouvir e pensar, assim também é de se esperar de nossa época (se conhecesse as suas forças e se dispusesse a exercitá-las e estendê-las) muito mais que de priscas eras, por se tratar de idade mais avançada do mundo, mais alentada e cumulada de infinitos experimentos e observações.

Por outra parte, não é de se desprezar o fato de que, pelas navegações longínquas e explorações tão numerosas, em nosso tempo, muitas coisas que se descortinaram e descobriram podem levar nova luz à filosofia. Assim, será vergonhoso para os homens que, tendo sido tão imensamente abertas e perlustradas em nossos tempos as regiões do globo material, ou seja, da terra, dos astros e dos mares, permaneça o globo intelectual 51 adstrito aos angustos confins traça dos pelos antigos.

No que respeita à autoridade, é de suma pusilanimidade atribuir-se tanto aos autores e negar-se ao tempo o que lhe é de direito, pois com razão já se disse que “a verdade é filha do tempo, não da autoridade”.52 Não é, portanto, de se admirar que esse fascínio da Antiguidade, dos autores e do consenso tenha de tal modo assoberbado as forças dos homens que não puderam eles se familiarizar com as próprias coisas, como que por artes de algum malefício.

LXXXV

Mas não foi somente a admiração pela Antiguidade, pela autoridade e o respeito pelo consenso que compeliram a indústria humana a contentar-se com o já descoberto, mas, também, a admiração pelas aparentemente copiosas obras já conseguidas pelo gênero humano. Quem puser ante os olhos a variedade e o magnífico aparato de coisas introduzidas e acumuladas pelas artes mecânicas, para o cultivo do homem, estará, certamente, muito mais inclinado a admirar-se da sua opulência que da penúria. Isso sem se dar conta de que os primeiros resultados da observação e as primeiras operações da natureza, que são como que a alma e o principio motor dessa variedade, não são nem muitos, nem bem fundados. O restante pode ser atribuído unicamente à paciência humana e ao movimento sutil e bem ordenado da mão ou dos instrumentos. A confecção de relógios, por exemplo, é certamente mister delicado e trabalhoso, de tal modo que as suas rodas parecem imitar as órbitas celestes ou o movimento contínuo e ordenado do pulso dos animais. No entanto, depende de apenas um ou dois axiomas da natureza.

Ainda mais, quem atente para o refinamento próprio das artes liberais ou, ainda, o das artes mecânicas, na preparação de substâncias naturais e leve em conta coisas como a descoberta dos movimentos celestes em astronomia, da harmonia em música, das letras do alfabeto (ainda não em uso no reino dos chineses) em gramática; e igualmente, na mecânica, o descobrimento das obras de Baco e Ceres, ou seja, a arte da preparação do vinho, da cerveja, da panificação, das destilações e similares, e de outras delícias da mesa; e também reflita e observe quanto tempo transcorreu para que essas coisas (todas, exceto a destilação, já conhecidas dos antigos) alcançassem o avanço que em nosso tempo desfrutam; e, ainda, o quão pouco são baseadas (o mesmo que já se disse dos relógios) em observações e em axiomas da natureza; e, indo um pouco mais longe, como essas coisas facilmente poderiam ter sido descobertas em circunstâncias óbvias ou por observações casuais.53

Quem assim proceder, facilmente se libertará de qualquer admiração, antes se compadecerá da condição humana, por tantos séculos em tão grande penúria e esterilidade de artes e invenções. E aqueles mesmos inventos de que fizemos menção são mais antigos que a filosofia e as artes intelectuais 54 e, pode-se dizer que, quando tiveram inicio as ciências racionais e dogmáticas, cessou a invenção de obras úteis.

E o mesmo interessado, uma vez que passe das oficinas às bibliotecas, ficará admirado da imensa variedade de livros. Mas, detendo-se e examinando com mais cuidado a sua matéria e conteúdo, certamente a sua admiração volver-se-á em sentido contrário, ao aí constatar as infinitas repetições e que os homens dizem e fazem sempre o mesmo. De sorte que, da admiração pela variedade, passará ao espanto pela indigência e pobreza das coisas que têm prendido e ocupado a mente dos homens.

Quem, ainda, se disponha a considerar aquelas coisas tidas mais por curiosas que sérias e passe a examinar mais a fundo as obras dos alquimistas, acabará não sabendo se estes são mais dignos de riso ou de lágrimas.

O alquimista, com efeito, alimenta eterna esperança e quando algo falha atribui a si mesmo os erros, acusando-se de não haver entendido bem os vocábulos de sua arte ou dos autores (por isso, com tanto ânimo se aplica às tradições e aos sussurros que chegam aos seus ouvidos), ou que suas manipulações careceram de escrúpulos quanto ao peso ou ao exato tempo, em vista do que repete ao infinito os experimentos. Se, nesse ínterim, em meio aos azares da experimentação, topa com algo de aspecto novo ou de utilidade não desprezível, contenta -

se com esses resultados, muito os celebra e ostenta. E a esperança se encarrega do resto. Não se pode negar, contudo, que os alquimistas descobriram não poucas coisas e deram aos homens úteis inventos. Bem por isso não se lhes aplica mal a fábula do ancião que legou aos seus filhos um tesouro enterrado em uma vinha e cujo sítio exa to simulava desconhecer. Os filhos, com afinco, revolveram toda a vinha, não encontrando nenhum tesouro, mas a vindima, graças a tal cultivo, foi muito mais abundante.

Os cultores da magia natural, 55 que tudo explicam por simpatia e antipatia, deduziram, de conjunturas ociosas e apressadas, virtudes e operações maravilhosas para as coisas. E mesmo quando alcança ram resultados, estes são da espécie dos que mais se prestam à admiração e novidade que a proporcionar frutos e utilidade.

Quanto à magia superstic iosa (se dela é preciso falar), antes de tudo deve ser dito que em todas as nações, em todos os tempos e, mesmo religiões, suas estranhas e supersticiosas artes só puderam afetar em algo apenas um porção reduzida e bem definida de objetos. Em vista disso, deixemo-la de lado, lembrando que nada há de surpreendente que a ilusão da riqueza tenha sido causa da pobreza.

LXXXVI

A admiração dos homens pelas doutrinas e artes, por si mesma bastante singela e mesmo pueril, foi incrementada pela astúcia e pelos artifícios dos que se ocuparam das ciências e as difundiram. Pois, levados pela ambição e pela afetação, apresentam-nas de tal modo ordenadas e como que mascaradas que, ao olhar dos homens, pareciam perfeitas em suas partes e já completamente acabadas. Com e feito, se se consideram as divisões e o método, elas parecem compreender e esgotar tudo o que possa pertencer a um assunto. E, ainda que as partes estejam mal concluídas, como cápsulas ocas, ao intelecto vulgar oferecem a forma e o ordenamento da ciência perfeita.

Mas os primeiros e mais antigos investigadores da verdade, com mais fidelidade e sucesso, costumavam consignar em forma de aforismos,56 isto e, de breves sentenças avulsas e não vinculadas por qualquer artificio metodológico, o saber que recolhiam da observação das coisas e que pretendiam preservar para uso posterior, e nunca simularam, nem professaram haver-se apoderado de toda a arte. Por isso, visto ser esse o estado de coisas, não é de se admirar que os homens não inquiram de questões tidas há tempo como resolvidas e elucidadas em todas as suas peculiaridades.

LXXXVII

Além disso, a sabedoria antiga foi tornada mais respeitável e digna de fé, graças à vaidade e à leviandade dos que propuseram coisas novas, principalmente na parte ativa e operativa da filosofia natural. Com efeito, não têm faltado espíritos presumidos e fantasiosos a cumularem, em parte por credulidade, em parte por impostura, o gênero humano de processos tais como: prolongamento da vida, retardamento da velhice, eliminação da dor, reparação de defeitos físicos, encantamento dos sentidos, suspensão e excitação dos sentimentos, iluminação e exaltação das faculdades intelectuais, transmutação das substâncias, aumento e multiplicação dos movimentos, compressão e rarefação do ar, desvio e promoção das influências dos astros, adivinhação do futuro, reprodução do passado, revelação do oculto, e alarde e promessa de muitas outras maravilhas semelhantes. Portanto, não estaria longe da verdade, acerca de espíritos tão pródigos, um juíz o como o seguinte: há tanta distância, em matéria filosófica, entre essas fantasias e as artes verdadeiras, quanto em história, entre as gestas de Júlio César ou de Alexandre Magno e as de Amadis de Gaula ou de Artur da Bretanha.57 É notório, pois, que aqueles ilustres generais realizaram muito mais que as façanhas atribuídas a esses heróis espectrais, em forma de ações reais, nem um pouco fabulosas ou prodigiosas. Não obstante, não seria justo negar-se fé à memória do verdadeiro porque tenha sido lesado e difamado pela fábula.

Mas, tampouco, se deve estranhar que tais impostores, quando tentaram empresas semelhantes, tenham infligido grande prejuízo às novas proposições, principalmente às relacionadas com operações práticas. O excesso de vaidade e de fastígio acabou por destruir as disposições magnânimas para tais cometimentos.

LXXXVIII

A pusilanimidade, a estreiteza e a superficialidade com que a indústria humana se impõe tarefas causaram à ciência ainda maiores danos e com a agravante dessa pusilanimidade não se apresentar sem pompa e arrogância. Destaca-se, em primeiro lugar, aquela cautela já familiar a todas as artes, que consiste em atribuírem os autores à natureza a ineficiência de sua própria arte, e o que essa arte não alcança, em seu nome, declararem ser “por natureza” impossível. Em conseqüência, jamais poderá ser condenada uma arte que a si mesma julga.

Também a filosofia que hoje se professa abriga certas asserções e conclusões que, consideradas diligentemente, parecem compelir os homens à convicção de que não se deve esperar da arte e da indústria humana nada de árduo, nada que seja imperioso ou válido acerca da natureza, como já se disse antes 58 a respeito da heterogeneidade do calor do sol e do fogo e sobre a combinação dos corpos.

Tudo isso, bem observado, procura maliciosamente limitar o poder humano e produzir um calculado e artificioso desânimo que não só vem perturbar os augúrios da esperança, como amortecer todos os estímulos e nervos da indústria humana e também interceptar todas as oportunidades de experiência. E, ao mesmo tempo, tudo fazem por parecer perfeita a própria arte, entregando-se a uma glória vã e desvairada que consiste em pensar que o que até o momento não foi descoberto ou compreendido não poderá tampouco ser descoberto ou compreendido no futuro.

Alguém que se acerque das coisas com intento de descobrir algo novo propor-se-á e limitasse-a a um único invento, e não mais. Por exemplo: a natureza do ímã, o fluxo e o refluxo do mar, o sistema celeste e coisas desse gênero, que parecem esconder algum segredo, e coisas que, até agora, tenham sido tratadas com pouco êxito. Mas é indício de grande imperícia o fato de se perscrutar a natureza de uma coisa na própria coisa, pois a mesma natureza 59 que em alguns objetos está latente e oculta, em outros é manifesta e quase palpável, num caso provocando admiração, em outro, nem sequer chamando a atenção. É o que ocorre com a natureza da consistência, que não é notada na madeira ou na pedra e que é designada genericamente com o nome de solidez, sem se indagar acerca da sua tendência de se furtar a qualquer separação ou solução de continuidade.

De outra parte, esse mesmo fato nas bolhas de água parece mais sutil e engenhoso. As bolhas se constituem de películas curiosamente dispostas em forma hemisférica de tal modo que, por um momento, evita-se a solução de continuidade.

De fato, há casos em que as naturezas das coisas estão latentes, enquanto em outros são manifestas e comuns, o que jamais será evidente se os experimentos e as observações dos homens se restringirem apenas às primeiras.

Em geral, o vulgo tem por novos inventos, ou quando se aperfeiçoa algo já antes inventado ou este se orna com mais elegância, ou quando se juntam ou combinam partes dele antes separadas, ou quando se torna de uso mais cômodo, ou, ainda, se alcança um resultado de maior ou menor massa ou volume que o costume, e coisas do gênero.

Por isso não é de se admirar que não saiam à luz inventos mais nobres e dignos do gênero humano, uma vez que os homens se contentam e se satisfazem com empresas tão limitadas e pueris. E supõem terem buscado e alcançado algo de grandioso.

LXXXIX

Não se deve esquecer de que, em todas as épocas, a filosofia se tem defrontado com um adversário molesto e difícil na superstição e no zelo cego e descomedido da religião.60 A propósito veja -se como, entre os gregos, foram condenados por impiedade os que, pela primeira vez, ousaram proclamar aos ouvidos não afeitos dos homens as causas naturais do raio e das tempestades. 61

Não foram melhor acolhidos, por alguns dos antigos padres da religião cristã, os que sustentaram, com demonstrações certíssimas — que não seriam hoje contraditas por nenhuma mente sensata —, que a Terra era redonda e que, em conseqüência, existiam antípodas.62

Além disso, nas atuais circunstancias, as condições para a ciência natural se tornaram mais árduas e perigosas devido às sumas e aos métodos da teologia dos escolásticos. Estes, como lhes cumpria, ordenaram sistematicamente a teologia, e lhe conferiram a forma de uma arte, e combinaram, com o corpo da religião, a contenciosa e espinhosa filosofia de Aristóteles, mais que o conveniente.

Ao mesmo resultado, mas por diverso caminho, conduzem as especulações dos que procuraram deduzir a verdade da religião cristã dos princípios dos filósofos e confirmá-la com sua autoridade, celebrando com grande pompa e solenidade, como legítimo, o consórcio da fé com a razão e lisonjeiam, assim, o ânimo dos homens com a grata variedade das coisas, enquanto, com disparidade de condições, mesclam o humano e o divino. Mas essas combinações de teologia e filosofia apenas compreendem o que é admitido pela filosofia corrente. As coisas novas, mesmo levando a uma mudança para melhor, são não só repelidas, como exterminadas.

Finalmente, constatar-se-á que, mercê da infâmia de alguns teólogos, foi quase que totalmente barrado o acesso à filosofia, mesmo depurada. Alguns, em sua simplicidade, temem que a investigação mais profunda da natureza avance além dos limites permitidos pela sua sobriedade, transpondo, e dessa forma distorcendo, o sentido do que dizem as Sagradas Escrituras a respeito dos que querem penetrar os mistérios divinos, para os que se volvem para os segredos da natureza, cuja exploração não está de maneira alguma interdita. Outros, mais engenhosos, pretendem que, se se ignoram as causas segundas 63 será mais fácil atribuir -se os eventos singulares à mão e à férula divinas — o que pensam ser do máximo interesse para a religião. Na verdade, procuram “agradar a Deus pela mentira”.64

Outros temem que, pelo exemplo, os movimentos e as mudanças da filosofia acabem por recair e abater-se sobre a religião. Outros. finalmente, parecem temer que a investigação da natureza acabe por subverter ou abalar a autoridade da religião, sobretudo para os ignorantes. Mas estes dois últimos temores parecem-nos saber inteiramente a um instinto próprio de animais, como se os homens, no recesso de suas mentes e no segredo de suas reflexões, desconfiassem e duvidassem da firmeza da religião e do império da fé sobre a razão e, por isso, temessem o risco da investigação da verdade na natureza.

Contudo, bem consideradas as coisas, a filosofia natural, depois da palavra de Deus, é a melhor medicina contra a superstição, e o alimento mais substancioso da fé. Por isso, a filosofia natural é justamente reputada como a mais fiel serva da religião, uma vez que uma (as Escrituras) torna manifesta a vontade de Deus, outra (a filosofia natural) o seu poder. Certamente, não errou o que disse:

“Errais por ignorância das Escrituras e do poder de Deus”65 onde se unem e combinam em um único nexo a informação da vontade de Deus e a meditação sobre o seu poder. Ademais, não é de se admirar que tenha sido coibido o desenvolvimento da filosofia natural, desde que a religião, que tanto poder exerce sobre o ânimo dos homens, graças à imperícia e o ciúme de alguns, viu-se contra ela arrastada e predis posta.

XC

Por outro lado, nos costumes das instituições escolares, das academias, colégios e estabelecimentos semelhantes, destinados à sede dos homens doutos e ao cultivo do saber, tudo se dispõe de forma adversa ao progresso das ciências. De fato, as lições e os exercícios estão de tal maneira dispostos que não é fácil venha a mente de alguém pensar ou se concentrar em algo diferente do rotineiro. Se um ou outro, de fato, se dispusesse a fazer uso de sua liberdade de juízo, teria que, por si só, levar a cabo tal empresa, sem esperar receber qualquer ajuda resultante do convívio com os demais. E, sendo ainda capaz de suportar tal circunstância, acabará por descobrir que a sua indústria e descortino acabarão por se constituir em não pequeno entrave à sua boa fortuna. Pois os estudos dos homens, nesses locais, estão encerrados, como em um cárcere, em escritos de alguns autores. Se alguém deles ousa dissentir, é logo censurado como espírito turbulento e ávido de novidades. Mas, a tal respeito é preciso assinalar que. com efeito, há uma grande diferença entre os assuntos políticos e as artes66: não implicam o mesmo perigo um novo movimento e uma nova luz.

Na verdade, uma mudança da ordem civil, mesmo quando para melhor, é suspeita de perturbação, visto que ela descansa sobre a autoridade, sobre a conformidade geral, a fama e sobre a reputação e não sobre a demonstração.

Nas artes e nas ciências, ao contrário, o ruído das novas descobertas e dos progressos ulteriores deve ressoar como nas minas de metal. Assim pelo menos devia ser conforme os ditames da boa razão, mas tal não ocorre na prática, pois, como antes assinalamos, a forma de administração das doutrinas e a forma de ordenação das ciências costumam oprimir duramente o seu progresso.

XCI

Mesmo que viesse a cessar essa ojeriza, bastaria para coibir o progresso das ciências o fato de a qualquer esforço ou labor faltar estímulo. Com efeito, não estão nas mesmas mãos o cultivo das ciências e as suas recompensas. As ciências progridem graças aos grandes engenhos, mas os estipêndios e os prêmios estão nas mãos do vulgo e dos príncipes, que, raramente, são mais que medianamente cultos. Dessa maneira, esse progresso não é apenas destituído de recompensa e de reconhecimento dos homens, mas até mesmo do favor popular.

Acham-se as ciências acima do alcance da maior parte dos homens e são facilmente destruídas e extintas pelos ventos da opinião vulgar. Daí não se admirar que não tenha tido curso feliz o que não costuma ser favorecido com honrarias.

XCII

Contudo, o que se tem constituído, de longe, no maior obstáculo ao progresso das ciências e à propensão para novas tarefas e para a abertura de novas províncias do saber é o desinteresse dos homens e a suposição de sua impossibilidade. Os homens prudentes e severos, nesse terreno, mostram-se desconfiados, levando em conta: a obscuridade da natureza, a brevidade da vida, as falácias dos sentidos, a fragilidade do juízo, as dificuldades dos experimentos e dificuldades semelhantes. Supõem existir, através das revoluções do tempo e das idades do mundo, um certo fluxo e refluxo das ciências; em certas épocas crescem e florescem; em outras declinam e definham, como se depois de um certo grau e estado não pudessem ir além.

Se alguém espera ou promete algo maior, é acusado como espírito descontrolado e imaturo e diz-se que em tais iniciativas o início é risonho, árduo o andamento e confusa a conclusão. E, c omo essa sorte de ponderações acodem facilmente aos homens graves e de juízo superior, devemos nos prevenir para que, por amor de uma empresa soberba e belíssima, não venhamos relaxar ou diminuir a severidade de nossos juízos. Devemos observar diligentemente se a esperança refulge e donde ela provém e, afastando as mais leves brisas da esperança, passar a discutir e a avaliar as coisas que pareçam apresentar firmeza.

Seja, aqui, invocada e aplicada a prudência política,67 que desconfia por princípio e nos assuntos humanos conjetura o pior. Falemos, pois, agora de nossas aspirações. Não somos pródigos em promessas, nem procuraremos coagir ou armar ciladas ao juízo humano, mas tomar os homens pela mão e guiá-los, com a sua anuência. E, ainda que o meio, de longe mais poderoso de se encorajar a esperança,68 seja colocar os homens diante dos fatos particulares, especialmente dos fatos tais como se acham recolhidos e ordenados em nossas tabelas de investigação 69 tema que pertence parcialmente à segunda, mas principalmente à quarta parte de nossa Instauração —, já que não se trata mais, no caso, de esperança, mas de algo real, todavia, como tudo deve ser feito gradualmente, prosseguiremos no propósito já traçado de preparar a mente dos homens. E nessa preparação não é parte pequena a indicação de esperanças.

Porque, afora isso, tudo o mais levaria tristeza ao homem ou a formar uma opinião ainda mais pobre e vil que a que possui ou a fazê-lo sentir a condição infeliz em que se encontra, em vez de alguma alegria ou a disposição para a experimentação. Em vista disso, é necessário propor e explicar os argumentos que tornam prováveis as nossas esperanças, tal como fez Colombo que, antes da sua maravilhosa navegação pelo oceano Atlântico, expôs as razões que o levaram a confiar na descoberta de novas terras e continentes, além do que já era conhecido. Tais razões, de início rejeitadas, foram mais tarde comprovadas pela experiência e se constituíram na causa e no princípio de grandes empresas.

XCIII

Porém, o supremo m otivo de esperança emana de Deus. Com efeito, a empresa a que nos propomos, pela sua excelência e intrínseca bondade, provém manifestamente de Deus, que é Autor do bem e Pai das luzes. Pois bem, nas obras divinas, mesmo os inícios mais tênues conduzem a um êxito certo. E o que se disse da ordem espiritual, que “O reino de Deus não vem com aparência exterior”,70 é igualmente verdadeiro para todas as grandes obras da Divina Providência. Tudo se realiza placidamente, sem estrépito e a obra se cumpre antes que os homens a suponham ou vejam. Não se deve esquecer a profecia de Daniel a respeito do fim do mundo: “Muitos passarão e a ciência se multiplicará”,71 o que evidentemente significa que está inscrito nos destinos, isto é, nos desígnios da Providência, que o fim do mundo o que, depois de tantas e tão distantes navegações parece haver-se cumprido ou está prestes a fazê-lo — e o progresso das ciências coincidam no tempo.72

XCIV

Segue a mais importante das razões que alicerçam a esperança. É a que procede dos erros dos tempos pretéritos e dos caminhos até agora tentados. Excelente é o julgamento, feito por alguém, ao responsável por desastrosa administração do Estado, com as seguin tes palavras: “O que no passado foi causa de grandes males deve parecer-nos princípio de prosperidade para o futuro. Pois, se houvésseis cumprido perfeitamente tudo o que se relaciona com o vosso dever, e, mesmo assim, não houvesse melhorado a situação dos vossos interesses, não restaria qualquer esperança de que tal viesse a acontecer. Mas, como as más circunstâncias em que se encontram não dependem das forças das coisas, mas dos vossos próprios erros, é de se esperar que, estes corrigidos, haja uma grande mudança e a situação se torne favorável”.73 Do mesmo modo, se os homens, no espaço de tantos anos, houvessem mantido a correta via da descoberta e do cultivo das ciências, e mesmo assim não tivessem conseguido progredir, seria, sem dúvida, tida como audaciosa e temerária a opinião no sentido de um progresso possível. Mas uma vez que o caminho escolhido tenha sido o errado, e a atividade humana se tenha consumido de forma inoperante, segue disso que a dificuldade não radica nas próprias coisas, que fogem ao nosso alcance, mas no intelecto humano, no seu uso e aplicação, o que é passível de remédio e medicina. Por isso, estimamos ser oportuno expor esses erros. Pois, quantos foram os erros do passado, tantas serão as razões de esperança 74 para o futuro.

Embora se tenha antes falado algo a seu respeito, é de toda conveniência expô-

las brevemente, em palavras simples e claras.

XCV

Os que se dedicaram às ciências foram ou empíricos ou dogmáticos. Os empíricos, à maneira das formigas, acumulam e usam as provisões; os racionalistas, à maneira das aranhas, de si mesmos extraem o que lhes serve para a teia.75 A abelha representa a posição intermediária: recolhe a matéria-prima das flores do jardim e do campo e com seus próprios recursos a transforma e digere. Não é diferente o labor da verdadeira filosofia, que se não serve unicamente das forças da mente, nem tampouco se limita ao material fornecido pela história natural ou pelas artes mecânicas, conservado intato na memória. Mas ele deve ser modificado e elaborado pelo intelecto. Por isso muito se deve esperar da aliança estreita e sólida (ainda não levada a cabo) entre essas duas faculdades, a experimental e a racional.

XCVI

Ainda não foi criada uma filosofia natural pura. As existentes acham-se infectadas e corrompidas: na escola de Aristóteles, pela ló gica; na escola de Platão, pela teologia natural; na segunda escola de Platão, a de Proclo e outros, pela matemática,76 a quem cabe rematar a filosofia e não engendrar ou produzir a filosofia natural. Mas é de se esperar algo de melhor da filosofia natural pura e sem mesclas.

XCVII

Até agora ninguém surgiu dotado de mente tão tenaz e rigorosa que haja decidido, e a si mesmo imposto, livrar-se das teorias e noções comuns e aplicar, integralmente, o intelecto, assim purificado e reequilibrado, aos fatos particulares. Pois a nossa razão humana 77 é constituída de uma farragem e massa de coisas, procedentes algumas de muita credulidade, e outras do acaso e também de noções pueris, que recebemos desde o início.

É de se esperar algo melhor de alguém que, na idade madura, de plena posse de seus sentidos e mente purificada, se dedique integralmente à experiência e ao exame dos fatos particulares. Nesse sentido prometemo-nos a fortuna de Alexandre Magno: que ninguém nos acuse de vaidade antes de constatar que o nosso propósito final é o de banir toda vaidade.

Com efeito, de Alexandre e de suas façanhas assim falou Ésquines:

“Certamente, não vivemos uma vida mortal; mas nascemos para que a posteridade narre e apregoe os nossos prodígios”, como que entendendo por milagrosos os feitos de Alexandre.78

Mas, em época posterior, Tito Lívio, apreciando e compreendendo melhor o fato, disse de Alexandre algo como: “Em última instância, nada mais fez que ter a ousadia de desprezar as coisas vãs”.79 Cremos que nos tempos futuros far-se-á a nosso respeito um juízo semelhante: De fato nada fizemos de grandioso; apenas reduzi mos as proporções do que era superestimado. Todavia, como já dissemos, não há esperança senão na regeneração das ciências, vale dizer, na sua reconstrução, segundo uma ordem certa, que a s faça brotar da experiência.

Ninguém pode afirmar, segundo presumimos, que tal tarefa tenha sido feita ou sequer cogitada.

XCVIII

Os fundamentos da experiência — já que a ela sempre retomamos — até agora ou foram nulos ou foram muito inseguros. Até agora não se buscaram nem se recolheram coleções 80 de fatos particulares, em número, gênero ou em exatidão, capazes de informar de algum modo o intelecto. Mas, ao contrário, os doutos, homens indolentes e crédulos, acolheram para estabelecer ou confirmar a sua filosofia certos rumores, quase mesmo sussurros ou brisas 81 de experiência, a que, apesar de tudo, atribuíram valor de legítimo testemunho. Dessa forma, introduziu -se na filosofia, no que respeita à experiência, a mesma prática de um reino ou Estado que cuidasse de seus negócios, não à base de informações de representantes ou núncios fidedignos, mas dos rumores ou mexericos de seus cidadãos. Nada se encontra na história natural devidamente investigado, verificado, classificado, pesado e medido. E o que no terreno da observação é indefinido e vago é falacioso e infiel na informação. Se alguém se admira de que assim se fale e pensa não serem justos os nossos reclamos, ao se lembrar de Aristóteles, homem tão grande ele próprio e apoiado nos recursos de um tão grande rei, 82 que escreveu uma tão acurada História dos Animais; e de alguns outros que a enriqueceram com mais diligência, mas com menos estrépito; e de outros ainda, que fizeram o mesmo em relação às plantas, os metais, os fósseis, com história e descrições abundantes, ele não se dá conta, não parece ver ou compreender suficientemente o assunto de que tratamos. Pois uma é a marcha da história natural, organizada por amor de si mesma,83 outra, a que é destinada a informar o intelecto com ordem ( método), para fundar a filosofia. Essas duas histórias naturais se diferenciam em muitos aspectos, principalmente nos seguintes: a primeira compreende a variedade das espécies naturais e não os experimentos das artes mecânicas. Com efeito, da mesma maneir a que na vida política o caráter de cada um, sua secreta disposição de ânimo e sentimentos melhor se patenteiam em ocasiões de perturbação que em outras, assim também os segredos da natureza melhor se revelam quando esta é submetida aos assaltos 8 4 das artes que quando deixada no seu curso natural. Em vista disso, é de se esperar muito da filosofia natural quando a história natural que é a sua base e fundamento — esteja melhor construída. Até que isso aconteça nada se pode esperar.

XCIX

Por sua vez, mesmo em meio à abundância dos experimentos mecânicos, há grande escassez dos que mais contribuem e concorrem para informação do intelecto. De fato, o artesão, despreocupado totalmente da busca da verdade, só está atento e apenas estende as mãos para o que diretamente serve a sua obra particular. Por isso, a esperança de um ulterior progresso das ciências estará bem fundamentada quando se recolherem e reunirem na história natural muitos experimentos que em si não encerram qualquer utilidade, mas que são necessários na descoberta das causas e dos axiomas. A esses experimentos costumamos designar por lucíferos, para diferenciá-los dos que chamamos de frutíferos.85 Aqueles experimentos têm, com efeito, admirável virtude ou condição: a de nunca falhar ou frustrar, pois não se dirigem à realização de qualquer obra, mas à revelação de alguma causa natural. Assim, qualquer que seja o caso, satisfazem esse intento e assim resolvem a questão.

C

Deve-se buscar não apenas uma quantidade muito maior de experimentos, como também de gênero diferente dos que até agora nos têm ocupado. Mas é necessário, ainda, introduzir -se um método completamente novo, uma ordem diferente e um novo processo, para continuar e promover a experiência. Pois a experiência vaga, deixada a si mesma, como antes já se disse,86 é um mero tateio, e presta-se mais a confundir os homens que a informá-los. Mas quando a experiência proceder de acordo com leis seguras e de forma gradual e constante, poder-se-á esperar algo de melhor da ciência.

CI

Todavia, mesmo quando esteja pronto e preparado o material de história natural e de experiência, na quantidade requerida para a obra do intelecto, ou seja, para a obra da filosofia, nem assim o intelecto estará em condições de trabalhar o referido material espontaneamente e apenas com o auxílio da memória. Seria o mesmo que se tentasse aprender de memória e reter exatamente todos os cálculos de uma tábua astronômica. E até agora, em matéria de invenção, tem sido mais importante o papel da meditação que o da escrita, e a experiência não é ainda literata.87 Apesar disso, nenhuma forma de invenção é conclusiva senão por escrito. E é de se esperar melhores frutos quando a experiência literata for de uso corrente.

CII

Além disso, sendo tão grande o número dos fatos particulares, quase um exército, e achando-se de tal modo esparsos e difusos que chegam a desagregar e confundir o intelecto, não é de se esperar boa coisa das escaramuças, dos ligeiros movimentos e incursões do intelecto, a não ser que, organizando e coordenando todos os fatos relacionados a um objeto, se utilize de tabelas de invenção idôneas e bem dispostas e como que vivas. Tais tabelas servirão à mente como auxiliares preparados e ordenados.

CIII

Contudo, mesmo depois de se haver disposto, como que sob os olhos, de forma correta e ordenada a massa de fatos particulares, não se pode ainda passar à investigação e à descoberta de novos fatos particulares ou de novos resultados.

Se, não obstante, tal ocorrer, não é de se ficar satisfeito com apenas isso.

Todavia, não negamos que depois que os experimentos de todas as artes forem recolhidos e organizados e, depois, levados à consideração e ao juízo de um só homem, seja possível, pela simples transferência dos conhecimentos de uma arte para outra, com auxílio da experiência a que chamamos de literata, chegar a muitas novas descobertas úteis à vida humana e às suas condições. Todavia, tais resultados, a bem dizer, são de menor importância. Na verdade muito maiores serão os provenientes da nova luz dos axiomas, deduzidos dos fatos particulares, com ordem e por via adequada, e que servem, por sua vez, para indicar e designar novos fatos particulares. Atente -se para isto: o nosso caminho não é plano, há nele subidas e descidas. É primeiro ascendente, em direção aos axiomas, é descendente quando se volta para as obras.

CIV

Contudo, não se deve permitir que o intelecto salte e voe dos fatos particulares aos axiomas remotos e aos, por assim dizer, mais gerais — que são os chamados princípios das artes e das coisas — e depois procure, a partir da sua verdade imutável, estabelecer e provar os axiomas médios. E é o que se tem feito até agora graças à propensão natural do intelecto, afeito e adestrado desde há muito, pelo emprego das demonstrações silogísticas. Muito se poderá esperar das ciências quando, seguindo a verdadeira escala, por graus contínuos, sem interrupção, ou falhas, se souber caminhar dos fatos particulares aos axiomas menores, destes aos médios, os quais se elevam acima dos outros, e finalmente aos mais gerais. Em verdade, os axiomas inferiores não se diferenciam muito da simples experiência. Mas os axiomas tidos como supremos e mais gerais (falamos dos de que dis pomos hoje) são meramente conceituais ou abstratos 88 e nada têm de sólido. Os médios são os axiomas verdadeiros, os sólidos e como que vivos, e sobre os quais repousam os assuntos e a fortuna do gênero humano.

Também sobre eles se apoiam os axiomas generalíssimos, que são os mais gerais. Estes entendemos não simplesmente como abstratos, mas realmente limitados pelos axiomas intermediários. Assim, não é de se dar asas ao intelecto, mas chumbo e peso para que lhe sejam coibidos o salto e o vôo. É o que não foi feito até agora; quando vier a sê-lo, algo de melhor será lícito esperar-se das ciências.

CV

Para a constituição de axiomas deve-se cogitar de uma forma de indução diversa da usual até hoje e que deve servir para descobrir e demonstrar não apenas os princípios como são correntemente chamados como também os axiomas menores, médios e todos, em suma. Com efeito, a indução que procede por simples enumeração é uma coisa pueril, leva a conclusões precárias, expõe -se ao perigo de uma instância que a contradiga. Em geral, conclui a partir de um número de fatos particulares muito menor que o necessário e que são também os de acesso mais fácil. Mas a indução que será útil para a descoberta e demonstração das ciências e das artes deve analisar a natureza, procedendo às devidas rejeições e exclusões, e depois, então, de posse dos casos negativos necessário s, concluir a respeito dos casos positivos. Ora, é o que não foi até hoje feito, nem mesmo tentado, exceção feita, certas vezes, de Platão, que usa essa forma de indução para tirar definições e idéias. Mas, para que essa indução ou demonstração possa ser oferecida como uma ciência boa e legítima, deve-se cuidar de um sem-número de coisas que nunca ocorreram a qualquer mortal.

Vai mesmo ser exigido mais esforço que o até agora despendido com o silogismo. E o auxílio dessa indução deve ser invocado, não apenas para o descobrimento de axiomas, mas também para definir as noções. E é nessa indução que estão depositadas as maiores esperanças.

CVI

Na constituição de axiomas por meio dessa indução, é necessário que se proceda a um exame ou prova: deve-se verific ar se o axioma que se constitui é adequado e está na exata medida dos fatos particulares de que foi extraído, se não os excede em amplitude e latitude, se é confirmado com a designação de novos fatos particulares que, por seu turno, irão servir como uma espécie de garantia. Dessa forma, de um lado, será evitado que se fique adstrito aos fatos particulares já conhecidos; de outro, que se cinja a sombras ou formas abstratas em lugar de coisas sólidas e determinadas na sua matéria. Quando esse procedimento for colocado em uso, teremos um motivo a mais para fundar as nossas esperanças.

CVII

E aqui deve ser recordado o que antes se disse 89 sobre a extensão da filosofia natural e sobre o retorno ao seu âmbito dos fatos particulares, para que não se instaurem cisões ou rupturas no corpo das ciências. Pois sem tais precauções muito menos há de se esperar em matéria de progresso.

CVIII

Tratou-se, pois, da forma de se eliminar a desesperação, bem como a de se infundir a esperança, eliminando e retificando os erros dos tempos passados.

Vejamos se há ainda mais alguma coisa capaz de gerar esperanças. Tal de fato ocorre, a saber: se foi possível a homens que não as buscavam descobrirem muitas coisas, por acaso ou sorte, e até quando tinham outros propósitos, não pode haver dúvida de que quando as buscarem e se empenharem com ordem e método,90 e não por impulsos e saltos, necessariamente muitas mais haverão de ser descerradas. Por outro lado, pode ocorrer também, uma ou outra vez, que alguém, por acaso, tope com algo que antes lhe escapou quando o buscava com esforço e determinação. Mas na maior parte dos casos, sem dúvida, ocorrerá o contrário. Por conseguinte, pode-se esperar muito mais e melhor e a menores intervalos de tempo, da razão, da indústria, da direção e intenção dos homens que do acaso e do instinto dos animais e coisas semelhantes, que até agora serviram de base para as invenções.

CIX

Pode-se também acrescentar como argumento de esperança o fato de que muitos dos inventos já logrados são de tal ordem que antes a ninguém foi dado sequer suspeitar da sua possibilidade. Eram, ao contrário, olhados como coisas impossíveis. E tal se deve a que os homens procuram adivinhar as coisas novas a exemplo das antigas e com a imaginação preconcebida e viciada. Mas essa é uma maneira de opinar sumamente falaciosa, pois a maioria das descobertas que derivam das fontes das coisas não flui pelos regatos costumeiros.

Assim, por exemplo, se antes da invenção dos canhões alguém, baseado nos seus efeitos, os descrevesse: foi inventada uma máquina que pode, de grande distância, abalar e arrasar as mais poderosas fortificações, os homens então se poriam a cogitar das diferentes e múltiplas formas de se aumentar a força de suas máquinas bélicas pela combinação de pesos e rodas e dispositivos que tais, causadores de embates e impulsos. Mas a ninguém ocorreria, mesmo em imaginação ou fantasia, essa espécie de sopro violento e flamejante que se propaga e explode. A sua volta não divisavam nenhum exemplo de algo semelhante, a não ser o terremoto e o raio, que, como fenômenos naturais de grandes proporções, não imitáveis pelo homem, seriam desde logo rejeitados.

Do mesmo modo, se antes da descoberta do fio da seda 91 alguém houvesse falado: há uma espécie de fio para a confecção de vestes e alfaias que supera de longe em delicadeza e resistência e, ainda, em esplendor e suavidade, o linho e a lã, os homens logo se poriam a pensar em alguma planta chinesa, ou no pêlo muito delicado de algum animal, ou na pluma ou penugem das aves; mas ninguém haveria de imaginar o tecido de um pequeno verme tão abundante e que se renova todos os anos. Se alguém se referisse ao verme teria sido objeto de zombaria, como alguém que sonhasse com um novo tipo de teia de aranha.

Do mesmo modo, se antes da invenção da bússola 92 alguém houvesse falado ter sido inventado um instrumento com o qual se poderia captar e distinguir com exatidão os pontos cardeais do céu; os homens se teriam lançado, levados pela imaginação, a conjeturar a construção dos mais rebuscados instrumentos astronômicos, e pareceria de todo incrível que se pudesse inventar um instrumento com movimentos coincidentes com os dos céus, sem ser de substância celeste, mas apenas de pedra ou metal. Contudo, tais inventos e outros semelhantes permaneceram ignorados pelos homens por tantos séculos, e não foram descobertos pelas artes, mas graças ao acaso e oportunidade. Por outro lado, são de tal ordem (como já dissemos), são tão heterogêneos e tão distantes do que antes era conhecido que nenhuma noção anterior teria podido conduzir a eles.

Desse modo, é de se esperar que há ainda recônditas, no seio da natureza, muitas coisas de grande utilidade, que não guardam qualquer espécie de relação ou paralelismo com as já conhecidas, mas que estão fora das rotas da imaginação. Até agora não foram descobertas.

Mas não há dúvida de que no transcurso do tempo e no decorrer dos séculos virão à luz, do mesmo modo que as antes referidas. Mas, seguindo o caminho que estamos apontando, elas podem ser mostradas muito antes do tempo usual, podem ser antecipadas, de forma rápida, repentina e simultaneamente.

CX

Mas há outra espécie de invenções que são de tal ordem que nos levam a pensar que o gênero humano pode preteri-las, e deixar para trás nobres inventos praticamente colocados a seus pés. Pois, com efeito, se, de um lado, a invenção da pólvora, da seda, da agulha de marear, do açúcar, do papel e outras do gênero parecem se basear em propriedades das coisas e da natureza, de outro, a imprensa nada apresenta que não seja manifesto e quase óbvio.

De fato, os homens não foram capazes de notar que, se é mais difícil a disposição dos caracteres tipográficos que escrever as letras à mão, aqueles, uma vez colocados, propiciam um número infinito de cópias, enquanto que as letras à mão só servem para uma escrita. Ou talvez não tenham sido capazes de notar que a tinta poderia ser espessada de forma a tingir sem escorrer (mormente quando se faz a impressão sobre as letras voltadas para cima). Eis por que por tantos séculos não se pôde contar com essa admirável invenção, tão propicia à propagação do saber.93

Mas a mente humana, no curso dos descobrimentos, tem estado tão desastrada e mal dirigida que primeiro desconfia de si mesma e depois se despreza. Primeiro lhe parece impossível certo invento; depois de realizado, considera incrível que os homens não o tenham feito há mais tempo. É isso mesmo que reforça os nossos motivos de esperança, pois subsiste ainda um sem-número de descobrimentos a serem feitos, que podem ser alcançados através da já mencionada experiência literata, não só para se descobrirem operações desconhecidas, como também para transferir, juntar e aplicar as já conhecidas.

CXI

Há ainda um outro motivo de esperança que não pode ser omitido. Que os homens se dignem considerar o infinito dispêndio de tempo, de orgulho e de dinheiro que se tem consumido em coisas e estudos sem importância e utilidade! Se apenas uma pequena parte desses recursos fosse canalizada para coisas mais sensatas e sólidas, não haveria dificuldade que não pudesse ser superada. Parece oportuno acrescentar isso porque reconhecemos com toda franqueza que uma coleção de história natural e experimental, tal como a concebemos e como deve ser, é uma empresa grandiosa e quase real, que requer muito trabalho e muitos gastos. 94

CXII

Contudo, ninguém deve temer a multidão de fatos particulares que, na verdade, pode ser tida como mais um motivo de esperança. Pois os fenômenos particulares das artes e da natureza, quando afastados e abstraídos da evidência das coisas, são como manípulos para o trabalho do espírito. E a via dos particulares conduz ao campo aberto e não está longe de nós. A outra não tem saída e leva a emaranhados sem fim. Os homens, até agora, pouco e muito superficialmente se têm dedicado à experiência, mas têm consagrado um tempo infinito a meditações e divagações engenhosas. Mas se houvesse entre nós alguém pronto a responder às interrogações incitadas pela natureza, em poucos anos seria realizado o descobrimento de todas as causas e o estabelecimento de todas as ciências.

CXIII

Pensamos também que o nosso próprio exemplo poderia servir aos homens de motivo para esperanças e dizemos isso não por jactância, mas pela sua utilidade.

Os que desconfiam considerem a mim, que sou dentre os homens de meu tempo o mais ocupado dos negócios de Estado,95 com saúde vacilante — o que representa grande dispên dio de tempo e pioneiro deste rumo, pois não sigo as pegadas de ninguém, e sem comunicar estes assuntos a qualquer outro mortal. 96

E no entanto prossegui constantemente, pelo caminho verdadeiro, submetendo o meu espírito às coisas, tendo assim conseguido, segundo penso, algum resultado. Considerem em seguida quanto se poderia esperar (tomando o meu exemplo) de homens com todo o seu tempo disponível, associados no trabalho, tendo pela frente todo o tempo necessário e levando-se em conta também que se trata de um caminho que pode ser percorrido não apenas por um indivíduo (como no caminho racional) 97 mas que permite que o trabalho e a colaboração de muitos se distribuam perfeitamente (em especial para a coleta de dados da experiência). Aí então os homens começarão a conhecer as suas próprias forças, isto é, não quando todos se dediquem à mesma tarefa, mas quando cada um a uma tarefa diferente.98

CXIV

Finalmente, ainda que não tenha soprado mais que uma débil e obscura aura de esperança procedente desse novo continente, 99 entendemos deva ser feita a prova, se não quisermos dar mostras de um espírito completamente abjeto. Pois não há paridade entre o risco que se corre ao não se tentar a prova e o proveniente do insucesso. No primeiro caso nos expomos à perda de um imenso bem; no segundo, há uma pequena perda de trabalho humano. Assim, tanto do que se há dito como do que não se disse, parece subsistirem grandes motivos para que o homem destemido se disponha a tentar e para que o prudente e comedido adquira confiança.

CXV

Expusemos até aqui as diversas formas de se tolher a desesperação,100 apontada como um dos principais obstáculos e causas poderosas de retardamento do progresso das ciências. Concluímos também nossa explanação a respeito dos signos e causas dos erros, da inércia e da ignorância até agora predominantes.

Deve ser lembrado também que as causas mais sutis desses óbices, que se acham fora do alcance do juízo e observação popular, devem ser buscadas no que já se disse a respeito dos ídolos do espírito humano.

Aqui termina igualmente a parte destrutiva de nossa Instauração, 101 que compreende três refutações: refutação da razão humana natural e deixada a si mesma, refutação das demonstrações e refuta ção das teorias, ou dos sistemas filosóficos e doutrinas aceitos. Essa refutação foi cumprida tal como era possível, isto é, por meio dos signos e dos erros evidentes. Não podíamos empregar nenhum outro gênero de refutação, por dissentirmos das demais quanto aos princípios e quanto às formas de demonstração.