O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias: Roteiro por Cláudio Galperin, Bráulio Mantovani et al - Versão HTML

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Saíram de Férias

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O Ano em Que Meus Pais

Saíram de Férias

Cláudio Galperin, Bráulio Mantovani,

Anna Muylaert e Cao Hamburger

São Paulo, 2008

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Governador José Serra

Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

Diretor-presidente

Hubert Alquéres

Coleção Aplauso

Coordenador Geral Rubens Ewald Filho

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Apresentação

A relação de São Paulo com as artes cênicas é

muito antiga. Afinal, Anchieta, um dos fundadores da capital, além de ser sacerdote e de exercer os ofícios de professor, médico e sapateiro, era também dramaturgo. As 12 peças teatrais de sua autoria – que seguiam a forma dos autos medie-vais – foram escritas em português e também em tupi, pois tinham a finalidade de catequizar os indígenas e convertê-los ao cristianismo.

Mesmo assim, a atividade teatral somente se

desenvolveu em território paulista muito len-

tamente, em que pese o marquês de Pombal,

ministro da coroa portuguesa no século 18, ter procurado estimular o teatro em todo o império luso, por considerá-lo muito importante para a educação e a formação das pessoas.

O grande salto foi dado somente no século 20,

com a criação, em 1948, do TBC –Teatro Brasileiro de Comédia, a primeira companhia profissional

paulista. Em 1949, por sua vez, era inaugurada a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, que mar-cou época no cinema brasileiro, e, no ano seguin-te, entrava no ar a primeira emissora de televisão do Brasil e da América Latina: a TV Tupi.

Estava criado o ambiente propício para que o

teatro, o cinema e a televisão prosperassem

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entre nós, ampliando o campo de trabalho para

atores, dramaturgos, roteiristas, músicos e técnicos; multiplicando a cultura, a informação e o entretenimento para a população.

A Coleção Aplauso reúne depoimentos de gente que ajudou a escrever essa história. E que continua a escrevê-la, no presente. Homens e mulhe-

res que, contando a sua vida, narram também

a trajetória de atividades da maior relevância para a cultura brasileira. Pessoas que, numa lin-guagem simples e direta, como que dialogando

com os leitores, revelam a sua experiência, o seu talento, a sua criatividade.

Daí, certamente, uma das razões do sucesso des-ta Coleção junto ao público. Daí, também, um dos motivos para o lançamento de uma edição

especial, dirigida aos alunos da rede pública de ensino de São Paulo e encaminhada para 4 mil

bibliotecas escolares, estimulando o gosto pela leitura para milhares de jovens, enriquecendo

sua cultura e visão de mundo.

José Serra

Governador do Estado de São Paulo

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Coleção Aplauso

O que lembro, tenho.

Guimarães Rosa

A Coleção Aplauso, concebida pela Imprensa Oficial, visa a resgatar a memória da cultura nacional, biografando atores, atrizes e diretores que compõem a cena brasileira nas áreas de cine ma, teatro e televisão. Foram selecionados escri tores com largo currículo em jornalismo cultural , para esse trabalho em que a história cênica e audio-visual brasileiras vem sendo re constituída de ma nei ra singular. Em entrevistas e encontros suces sivos estreita-se o contato en tre biógrafos e bio gra fados. Arquivos de documentos e imagens são pesquisados, e o universo que se recons titui a partir do cotidiano e do fazer dessas persona-lidades permite reconstruir sua trajetória.

A decisão sobre o depoimento de cada um na primeira pessoa mantém o aspecto de tradição oral dos relatos, tornando o texto coloquial, como se o biografado falasse diretamente ao leitor .

Um aspecto importante da Coleção é que os resul -

ta dos obtidos ultrapassam simples registros biográ ficos, revelando ao leitor facetas que também caracterizam o artista e seu ofício. Bió grafo e biogra fado se colocaram em reflexões que se estende ram sobre a formação intelectual e ideo ló gica do artista, contex tua li zada naquilo que caracteriza e situa também a história brasileira , no tempo e espaço da narrativa de cada biogra fado.

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São inúmeros os artistas a apontar o importante papel que tiveram os livros e a leitura em sua vida, deixando transparecer a firmeza do pensamento

crítico ou denunciando preconceitos seculares que atrasaram e continuam atrasando nosso

país. Muitos mostraram a importância para a sua formação terem atuado tanto no teatro quanto

no cinema e na televisão, adquirindo, portanto, linguagens diferenciadas – analisando-as com

suas particularidades.

Muitos títulos extrapolam os simples relatos biográficos, explorando – quando o artista per mite –

seu universo íntimo e psicológico , reve lando sua autodeterminação e quase nunca a casua lidade

por ter se tornado artista – como se carregasse desde sempre, seus princípios, sua vocação, a

complexidade dos personagens que abrigou ao

longo de sua carreira.

São livros que, além de atrair o grande público, inte ressarão igualmente a nossos estudantes, pois na Coleção Aplauso foi discutido o intrinca do processo de criação que concerne ao teatro, ao cinema e à televisão. Desenvolveram-se te mas como a construção dos personagens inter pretados, bem como a análise, a história, a importância e a atu-alidade de alguns dos perso nagens vividos pelos biografados. Foram exami nados o relacionamento dos artistas com seus pares e diretores, os processos e as possibilidades de correção de erros no exercício do teatro e do cinema, a diferença entre esses veículos e a expressão de suas linguagens.

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Gostaria de ressaltar o projeto gráfico da Coleção e a opção por seu formato de bolso, a facili dade para ler esses livros em qualquer parte, a clareza e o corpo de suas fontes, a icono grafia farta e o registro cronológico completo de cada biografado.

Se algum fator específico conduziu ao sucesso

da Coleção Aplauso – e merece ser destacado –, é o interesse do leitor brasileiro em conhecer o percurso cultural de seu país.

À Imprensa Oficial e sua equipe coube reunir um bom time de jornalistas, organizar com eficácia a pesquisa documental e iconográfica e contar com a disposição, o entusiasmo e o empe nho de nossos artistas, diretores, dramaturgos e roteiris tas. Com a Coleção em curso, configurada e com identida-de consolidada, constatamos que os sorti légios que envolvem palco, cenas, coxias, sets de fil magem, cenários, câmeras, textos, imagens e palavras conjugados, e todos esses seres especiais –

que nesse universo transi tam, transmutam e

vivem – também nos tomaram e sensibilizaram.

É esse material cultural e de reflexão que pode ser agora compartilhado com os leitores de todo o Brasil.

Hubert Alquéres

Diretor-presidente da

Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

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Introdução

A confecção deste roteiro teve um caminho lon-

go e trabalhoso.

Talvez as dificuldades tenham surgido exata-

mente pela forma como o processo começou.

Eu estava morando em Londres, e como muitas

vezes olhar para o outro é uma forma de olhar

para nós mesmos, o olhar de estrangeiro teve

um resultado inverso e acabei me voltando

para a minha própria origem, minha infância e

minha cultura.

Um amontoado de idéias, lembranças, temas,

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intenções, aparentemente desconexas, começou

a rondar minha cabeça.

Comecei a tomar notas e também a pesquisar.

Foi quando li o livro Minha Vida de Goleiro, de Luiz Schwartz, que me deu muita inspiração.

Cheguei até a pensar em escrever o roteiro ba-

seado no livro.

Decidi procurar um roteirista para me ajudar.

Pensei: Preciso de um cara que tenha mais ou menos a minha idade, que tenha morado no bairro do Bom Retiro, de ascendência judaica, que gos-te de futebol, escreva bem e seja talentoso.

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Parecia impossível reunir todos esses quesitos.

Mas, por incrível que pareça, encontrei.

Logo no primeiro encontro com Cláudio Galpe-

rin, contei minhas idéias e ele se identificou imediatamente. Três dias depois, o contratei.

Voltei para a Inglaterra e por e-mail e telefone, começamos a dar forma àquele amontoado de

idéias, que a essa altura havia crescido com todas as idéias e lembranças do Cláudio.

Com muito esforço e inspiração, Cláudio alinha-vou todas elas, delineou personagens, transfor-mou um amontoado de boas intenções em uma

boa história. Tínhamos ali a base para um bom

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roteiro: uma narrativa forte, personagens vivos e cativantes, cenas articuladas e situações bem construídas e saborosas. Escrevemos, então, três tratamentos do roteiro e fomos selecionados

para participar do Laboratório de Roteiros do

Sundance Institute.

A partir de então, o trabalho foi no sentido de estru turar, limpar, dar ritmo e adensar os personagens e a relação entre eles.

Bráulio Mantovani entrou no time com todo o seu talento e experiência para trabalhar nesse sen ti-do . Com ele fizemos mais três tratamentos . Os personagens cresceram, as relações entre eles se definiram, as intenções dramáticas foram clarean-do e o ritmo encontrando seu equilíbrio .

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Finalmente chegamos a uma versão muito boa

e demos o roteiro como acabado e pronto pa-

ra filmar.

Mas por motivos de agenda, tive que adiar a

fil magem em um ano, durante o qual fiz a série Filhos do Carnaval, para a HBO.

E um ano é muito para estar longe de um roteiro.

Quando voltei, achei que gostaria de mexer mais um pouco antes de filmar.

Mas Bráulio já não tinha mais agenda.

Pedi então para a Anna Muylaert, parceira em

diversos trabalhos, ler e comentar a história.

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Com sua incrível sensibilidade para analisar e entender roteiros, Anna me mostrou a possibilidade de mexer em um ponto estrutural que

melhoraria o ritmo e a dramaticidade, mantendo a essência.

Já estávamos em fase de preparação para as

fil magens e mexer no roteiro naquela altura

poderia ser perigoso, poderia atrapalhar toda

a organização da equipe e da produção.

Mas fiquei convencido de que a sugestão da Anna seria importante e já não conseguiria fil mar sem ao menos tentar. Avisei a equipe e a produção e mergulhamos mais uma vez no universo labiríntico e misterioso de um rotei ro cinematográfico.

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Em uma delicada operação cirúrgica, reestru-

turamos o filme, principalmente do meio para

o final.

O projeto me pareceu tão sólido e maduro que

pude até modificar ou inventar novas cenas du-

rante a filmagem, com segurança.

Gosto muito do roteiro de O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, ganhamos muitos prêmios com ele.

E posso dizer que foi um privilégio trabalhar com esses três craques – Cláudio, Bráulio e Anna – e cada um foi fundamental para o resul tado final.

Contamos também com a colaboração decisiva

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de Christiane Riera, a quem chamo de madrinha

do filme, porque além de sua colaboração como

dramaturgista, em meus momentos de desâni-

mo, sempre me incentivou e mostrou seu carinho e apreço pelo projeto.

A parceria dos co-produtores Rodrigo Saturnino , Caio e Fabiano Gullane, de toda equipe e elenco do filme, em especial Sonia Hamburger, que

acom panhou o processo desde as primeiras

idéias, foi fundamental para o resultado final do trabalho.

François Truffaut diz que fazer um filme é como fazer três filmes. O primeiro, a base de tudo, é o roteiro.

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Em O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, essa etapa foi cumprida, em minha opinião,

com louvor.