O Buraco na Parede por Rubem Fonseca - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

1997

Todos os direitos desta edição reservados à

EDITORA SCHWARCZ LTDA.

Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 72

04532-002 — São Paulo — SP

Telefone: (011) 866-0801

Fax: (011) 866-0814

CONTRA CAPA

Mestre na arte do conto, Rubem Fonseca dá às palavras uma

força de impacto poucas vezes obtida por outros ficcionistas.

Delegados e marginais, escritores fracassados, pobres-diabos que

se sujeitam a qualquer negócio, o sexo como moeda podre, culpa e

apartheid social entrelaçam-se continuamente em textos inquietos

e velozes, que o leitor, perturbado e cúmplice, traga sem respirar

da primeira à última linha.

Depois da publicação de Contos reunidos (Companhia das

Letras, 1994), Rubem Fonseca retoma o gênero com este O buraco

na parede, seu décimo-terceiro livro publicado. Aqui estão

presentes as mesmas qualidades de ousadia, lucidez, técnica e

invenção que fizeram de sua literatura um dos registros mais

contundentes da vida no Brasil de hoje — esse mundo estranho

que não deixa de ser o nosso mundo.

ORELHAS DO LIVRO

O conto de origem moderna parece encerrar em si todas as

possibilidades da ficção contemporânea. Nesse sentido, tem

servido aos escritores de inúmeras maneiras, como exercício de

estilo, aventura formal, modo de encontrar e explorar novos

caminhos.

Muito poucos, no entanto, são os autores que têm no conto o

elemento estrutural de seu pensamento literário, aquele que

motiva, potencializa e condensa ao mais alto grau as questões

centrais de sua escrita. No caso de Rubem Fonseca é certamente

isso o que ocorre. Neste O buraco na parede, o autor uma vez mais

exibe seu perfeito domínio na matéria. Os contos aqui reunidos,

além de reafirmarem as conhecidas obsessões de sua obra,

index-5_1.jpg

combinam sentimentos vários — desde o inesperado lirismo de “O

balão fantasma” à veia cômica que vem à tona, por exemplo, em

“Idiotas que falam outra língua”.

Mas o que sempre surpreende em Fonseca é a magistral

caracterização dos personagens que, às vezes por um gesto, por

uma palavra, têm todo o seu condicionamento social e psicológico

totalmente devassado.

Um livro emocionante pela riqueza de seus contos de mestre.

O Autor: Romancista, contista e roteirista de cinema, Rubem

Fonseca também é autor de: Os prisioneiros (1963), A coleira do

cão (1965), Lúcia McCartney (1967), O caso Morel (1973), Feliz ano

novo (1975), O cobrador (1979), A grande arte (1983), Bufo &

Spallanzani (1986), Vastas emoções e pensamentos imperfeitos

(1988), Agosto (1990), Romance negro e outras histórias (1992) e O

selvagem da ópera (1994). Seus Contos reunidos foram publicados

em 1994.

http://groups.google.com/group/digitalsource

SUMÁRIO

O balão fantasma

A carne e os ossos

Idiotas que falam outra língua

O anão

Artes e ofícios

Orgulho

Placebo

O buraco na parede

O BALÃO FANTASMA

Um balão gigantesco, o maior do mundo, disse o informante.

Onde?, perguntei.

Tudo o que eu sei é que eles já compraram dez toneladas de

papel de seda.

Informante é assim: ouviu dizer, só sabe a metade, a metade

que é falsa.

Eu fazia parte de um Grupo especial criado para estudar e

propor maneiras de evitar que os baloeiros construíssem e

soltassem balões, principalmente durante o mês de junho, nas

festas dedicadas a São João e a São Pedro, os dois santos

fogueteiros. Os balões eram ilegais. Ao cair incendiavam a

vegetação dos parques da cidade, instalações industriais,

residências particulares. Campanhas publicitárias haviam sido

feitas, com a colaboração da mídia, sem resultado.

Eu era o representante da polícia no Grupo. Os outros

membros eram duas mulheres, uma da prefeitura e a outra da

agência federal responsável pelo meio ambiente. Sempre gostei de

trabalhar com mulheres. As duas eram inteligentes e dedicadas. E

também ecólogas fanáticas, para elas árvore era a melhor coisa

que existia no mundo. Acreditavam que o problema tinha uma

solução simples: cadeia para os baloeiros. Em junho os céus se

enchiam de balões e junho estava chegando e eu sabia que a

minha vida ia ficar um inferno. Ainda por cima cometi a

imprudência de contar para as minhas companheiras de Grupo a

história do balão de dez toneladas de papel de seda. As duas

ficaram indignadas.

Fico imaginando o tamanho da bucha de um balão como

esse.

Ele está preocupado com o tamanho da bucha, não com a

calamidade que ela pode causar, disse Marina. Você tem homens,

armas, a lei, por que não acaba com esses baloeiros?

O problema é muito complicado.

Já ouvimos essa desculpa antes, disse Marina.

E esse balão gigante é um boato.

Vamos supor que não seja um boato, disse Fabiana. A prisão

dos responsáveis por esse superbalão serviria de exemplo, teria

um efeito suasório.

Os portugueses trouxeram o balão para o Brasil há centenas

de anos. Mas, como ocorre com todas as tradições, o tempo

acabará com mais esta. A urbanização...

Enquanto isso as florestas e os morros da cidade pegam

fogo, cortou Marina. Afinal, o que você está fazendo neste Grupo?

Ela vivia me provocando, mas eu nunca perdia a paciência

com ela. Nem com ninguém.

Por favor, disse Fabiana.

Tudo o que Fabiana pedia, eu fazia. Mesmo quando era uma

perda de tempo.

Em dois dias coloquei seis detetives na rua percorrendo os

subúrbios, se infiltrando, só para descobrir onde ia ser feito o

megabalão, se é que ia ser feito. Consegui no Gabinete que me

cedessem o detetive Diogo Cão para esse trabalho.

Na reunião semanal do Grupo relatei às minhas colegas as

providências que estava tomando. Falei dos seis detetives,

principalmente do Diogo Cão. Ele vai nos ajudar muito,

acrescentei.

Cão? O policial se chama Cão?

Não tem gente chamada Gato? Pinto? Leitão? Diogo Cão é de

família portuguesa. É capaz de descender do navegador

quatrocentista.

Você está fugindo do assunto. A floresta vai pegar fogo!,

disse Marina.

O Diogo sabe tudo sobre balão. Ele me disse que os

incêndios são causados pelos balões pequenos. Os balões grandes

são feitos por especialistas e apagam ainda no céu. Quando ele

cai, a bucha já não arde.

Não contei para elas que às vezes, por um defeito da bucha

ou da estrutura, os balões grandes estouram, o que na linguagem

dos baloeiros significa que pegam fogo. E ao cair incendeiam tudo

o que está embaixo.

Agora mais essa falácia, os baloeiros se preocupam com o

meio ambiente, disse Marina.

Eles querem é recuperar o balão, admiti.

Preciso falar com você, disse Fabiana.

Cão policial, uma combinação perfeita, eu disse fazendo

graça, e elas me olharam enviesado.

Preciso muito falar com você, repetiu Fabiana.

Eu já vou, disse Marina, que sabia do meu envolvimento

com Fabiana. Ao sair olhou para nós, balançou a cabeça e bateu a

porta.

Vamos ao cinema?

Não estou com vontade de ir ao cinema.

Vamos jantar no chinês.

Não estou com vontade de jantar no chinês.

Vamos comprar um CD no shopping.

Me leva pra minha casa. Estou com dor de cabeça.

Quando chegamos na porta da casa dela eu perguntei se

podia subir.

Hoje não.

Eu morro se não tomar o seu café-com-leite hoje, agora, eu

morro.

Já conheço todos os seus truques, deixa de ser ridículo.

Estou falando sério.

Eu é que preciso falar um assunto muito sério com você.

Entramos no apartamento. Você vai fazer café-com-leite pra

gente?

Não. Tenho que te dizer uma coisa.

Depois, meu bem.

Agora, preciso falar agora.

Eu te amo, eu disse, abraçando-a.

Eu também te amo. Tenho que te dizer uma coisa.

Depois.

Fomos para a cama.

Ir para a cama com ela era a maior felicidade que a vida me

dava. Ficávamos alegres e ríamos e suávamos mesmo no ar

refrigerado de tanto rolar na cama, e nos intervalos tomávamos

café-com-leite que ela fazia jogando café solúvel no leite fervendo,

e eu saía de lá de madrugada para ela poder dormir, pois não sei

dormir com ninguém, nem mesmo com a mulher que eu amo, e

dizia em voz alta o nome dela para o sol, se o sol já tivesse

nascido, para a chuva, quando tinha chuva, Fabiana, para as

portas das casas, Fabiana, para os bueiros, Fabiana, para os

carros que passavam. E ela sempre sentia dor nos músculos das

pernas no dia seguinte.

Naquela noite ela não riu uma vez sequer. Enquanto eu me

vestia, ela repetiu muito séria, tenho que te dizer uma coisa.

Amanhã. Agora você vai dormir.

Hoje. Esse balão é uma coisa monstruosa. Qualquer balão é

uma coisa monstruosa. Os baloeiros são um bando de criminosos.

Por que não um bando de sonhadores? O sonho de

Bartolomeu Lourenço de Gusmão. Dos Montgolfier.

Está vendo? A Marina tem razão. Você simpatiza com eles,

você está do lado deles.

São comunidades inteiras que fazem o balão, homens,

mulheres, velhos, crianças. Eles apenas querem ver o balão subir

para o céu, o mais alto possível.

Comunidades inteiras? Que justificativa mais idiota.

Comunidades inteiras praticam o linchamento e você fica do lado

dos assassinos? Estamos perdendo tempo com a sua sociologia

equivocada.

Não estou do lado de ninguém. A Marina não gosta de mim.

Sonhadores foram os que fizeram a floresta da Tijuca, anos e

anos de um trabalho de amor. Você sabe que o Rio é a única

cidade no mundo que tem em seu perímetro urbano uma floresta,

a Floresta da Tijuca. Ou não sabe?

Sei.

E esses baloeiros cretinos todo ano destroem um pedaço da

floresta e você chama eles de sonhadores. Eu preciso te dizer uma

coisa.

Então diz o que você precisa dizer. Mas antes fique sabendo

que eu fiz um esforço danado para conseguir os seis detetives e

mais o Diogo Cão para fazer essa investigação idiota sobre um

balão gigante que provavelmente nunca será feito e que se for feito

será apenas mais um entre milhares. Milhares, meu bem, põe isso

na sua cabeça, são muitos milhares os balões fabricados nesta

época do ano e dezenas de milhares as pessoas envolvidas.

Quando soltar balão não era crime, os baloeiros imprimiam

convites convocando o povo para assistir ao lançamento dos

balões grandes. E o balão tinha nome e celebrava alguma coisa,

um santo, um acontecimento, uma data histórica, um desejo. E os

poetas da comunidade escreviam odes ao balão, que eram

cantadas durante o lançamento. Agora diz o que você está

querendo me dizer.

Ainda bem que foi proibida essa perversidade cultural.

Diz o que você quer me dizer.

Ela não disse imediatamente. Saiu da cama se enrolando no

lençol para eu não ver o corpo nu dela, coisa que nunca

aconteceu, a não ser nos primeiros dias. Enxugou os olhos no

lençol, cuidando para que não aparecesse nenhuma parte íntima

do seu corpo. O que Fabiana ia falar devia ser coisa séria, ela

raramente chorava.

Anda, pode falar, eu não agüento ver você chorar e não vou

deixar de te amar, não importa o que me disser.

Eu e Marina estamos escrevendo um ofício ao secretário de

Segurança Pública pedindo que seja indicado um outro delegado

para integrar o Grupo em seu lugar.

Pára de chorar, meu bem. Vocês dizem o quê, para justificar

minha substituição? Que sou incapaz? Frouxo?

Não com essas palavras.

Incompetente? Negligente?

O Grupo se reúne há quase um ano e nada foi feito. Eu pedi

para você prender os baloeiros que estão construindo esse

monstro e você não deu importância.

Esse balão não existe.

A Marina diz que você está do lado deles.

E você? Também acha isso?

Não sei. Sim, acho. Você está zangado comigo?

Zangado? Isso é nome de anão da Branca de Neve.

Mas eu não achei graça nem ela achou graça e eu passei a

mão de leve sobre a cabeça dela. Agora ela chorava sem esconder.

Te cuida, garota.

Eu nunca havia saído da casa dela sofrendo. Tudo por causa

de um maldito balão fantasma. Todas as florestas do mundo não

valiam o amor que eu sentia por Fabiana, mas aquela florestinha

de merda trepada nos cocurutos da cidade, cuja árvore mais

antiga tinha a idade da minha avó, valia mais do que o amor de

Fabiana por mim. As mulheres, pensava eu enquanto caminhava

pela rua escura, não sabiam amar como os homens. Nós, os

homens, havíamos inventado o romantismo e o suicídio por amor,

por elas tínhamos coragem de ser palhaços, assassinos, ladrões.

Pensei nos suicidas que conhecia. Mas não havia nenhum

homem, todos eram mulheres, que por amor haviam cortado os

pulsos, tomado barbitúrico, ateado fogo às vestes, pulado na

frente do trem, pulado da janela, se enforcado no basculante, só

mulheres. O único homem de quem me lembrei foi o Werther.

Esse não valia. As mulheres sabiam amar sim. Então me deu

saudades de Fabiana e comecei a dizer o nome dela no meio da

rua e um mendigo que tentava dormir embaixo de uma marquise

ficou olhando para mim e eu disse vem cá e ele não veio e eu gritei

vem cá, estou mandando, e ele veio apavorado e eu disse repete

comigo Fabiana, Fabiana. E ficamos os dois dizendo Fabiana,

Fabiana, e depois dei a ele a nota de maior valor que eu tinha no

bolso e ele voltou para debaixo da marquise. E quando eu já

estava longe ele gritou Fabiana, já deitado, acenando com a mão, e

eu gritei Deus te abençoe meu bom mendigo, acenando de volta.

Pura novela das seis.

No dia seguinte, na delegacia, mandei chamar o Diogo Cão.

Então?

O balão talvez exista. Talvez vá ser feito, talvez. E se for, vai

ser na Baixada. Em Caxias eles contrataram um meteorologista

para saber com certeza a direção e a hora dos ventos bons. Estou

de olho no Caveirinha, para descobrir quem vai ficar com ele.

Ninguém segue balão melhor do que o Caveira, ele conhece todos

os caminhos da cidade e todos os caminhos da Baixada e todas as

estradas que vão dar em Minas, São Paulo e Espírito Santo. Já

teve balão grande que atravessou as fronteiras. No volante de uma

pick-up ele é melhor do que o Senna pilotando o McLaren. Se o

Caveira for para Caxias, já é uma pista. São João de Meriti e

Caxias estão disputando um americano que trabalhou soltando

foguete em Cabo Canaveral, o gringo veio para o Carnaval, pirou e

ficou. São os dois grupos que estão investindo mais, pelo visto.

Vamos ver para que lado vai o rastreador Zé de Souza.

O tempo está passando, Diogo. Minhas colegas de Grupo

dizem que esse balão vai causar um grande incêndio.

Que balão, doutor? Nós não sabemos de nada. O Caveirinha

e o Gringo podem apenas significar que vão ser feitos os balões de

sempre.

Vamos presumir que o balão fantasma exista. E que está

sendo feito aos pedaços, em locais diferentes, para nós não

descobrirmos, e depois eles vão juntar tudo, acender a bucha e

soltar o bicho. Não dá para você descobrir alguma coisa, alguém

dar o serviço?

Depois que foi proibido soltar balão ninguém mais abre o

bico. É uma espécie de religião.

Cristãos na catacumba.

Uma coisa assim. Lembra, doutor, daquele avião francês que

os terroristas seqüestraram? Um passageiro que estava no avião

disse que estava tranqüilo até que os seqüestradores se reuniram

num canto e começaram a rezar. Então ele percebeu que aquela

reza significava que os passageiros estavam fodidos. Logo em

seguida começou a matança dos reféns. Religião é isso. O balão é

a reza dos baloeiros. O senhor pode trazer um deles para cá e

arrancar os colhões do elemento com um alicate que ele não dá o

serviço. E os colhões são o bem mais precioso de um homem, não

é verdade?

É verdade, respondi, pensando em Fabiana.

O senhor sabe que o Zé de Souza é meu amigo, não sabe?

Estou sabendo agora.

O Zé de Souza um dia me disse que está cagando para a lei

dos tribunais e para a frescura dos ecologistas. Nossa briga, ele

me disse, é com a lei de Newton. Quando eu falei nas florestas ele

respondeu fodam-se as florestas, as florestas pegam fogo há

milhões de anos e o mundo não acabou.

Dez toneladas de papel de seda fazem um volume enorme,

eu disse.

Pode ser exagero de quem dedurou. Já apurei, ninguém

vendeu essa quantidade de papel.

Eles podem ter comprado em várias cidades, em pequenas

quantidades, em datas espaçadas. O Brasil é grande.

Pode ser. Mas tenho minhas dúvidas.

Cão, alguma vez eu te pedi alguma coisa dizendo que era um

assunto de vida ou morte?

Não senhor.

Este é de vida ou morte.

Entendi. Mas balão é uma coisa bonita, não é, doutor?

Um incêndio também.

A coisa mais bonita que vi foi o incêndio da refinaria.

O belo horrível, Cão.

Fodam-se as florestas. Estou brincando, doutor.

Toda noite eu saía em diligência com o Cão. Descobrimos

dezenas de lugares onde os caras estavam fazendo balões, mas

não adiantava prender ninguém, teríamos que deter muita gente,

mesmo deixando os velhos e as crianças de fora. Cristãos nas

catacumbas. Também não havia como apreender o material, os

balões eram feitos em partes. Corte das folhas, colagem de gomos,

armação de flâmulas e bandeiras, encadeamento das cangalhas de

fogos de artifício, enlaçamento da fieira de lanternas, flexão do

vergalhão da boca, entrouxamento das buchas, cada coisa era

elaborada num local diferente, quintais, campos de peladas de

futebol, galpões abandonados, para depois ser tudo montado no

lugar em que o balão ia ser lançado. Nas diligências íamos só nós

dois, no velho fusca do Cão, para ninguém desconfiar que éramos

da polícia. E ouvimos o disse-me-disse que circulava em todos os

terreiros, em todas as várzeas: em algum lugar estava sendo feito

um balão gigantesco que ia assombrar o mundo e entrar para

sempre no Guinness. Cão, eu disse, o filho da puta está mesmo

sendo construído.

Passamos a chamar o balão de O Fodão. Se ele está sendo

feito, disse para os meus detetives, eu quero pegar O Fodão, pegar

inteiro, antes deles soltarem o bicho, na hora de acenderem a

bucha, antes do sebo ficar azul. E isso só podia acontecer na

véspera de São João, na noite do dia vinte e três.

Falei com o comandante da PM e ele garantiu que naquele dia

poria à minha disposição cinqüenta homens da tropa de choque.

Cinqüenta homens da tropa de choque? É pouco, tinham

que mobilizar todo o efetivo da PM, disse Marina.

Acho que vamos pegar o balão fantasma.

Não podíamos dizer a elas o nome feio que eu e o Cão

havíamos dado ao balão. Fabiana não dizia uma palavra. Eu fazia

cara de sofredor e procurava os olhos dela, mas Fabiana fingia

ocupar-se com a leitura de um livro.

Não adianta destruir apenas essa monstruosidade e a

quadrilha responsável por ela, disse Marina, a polícia tem que

pegar todos os baloeiros da cidade, processar um a um.

Inclusive as crianças.

Ela desprezou a ironia. As crianças têm que ser educadas.

Se tivéssemos uma polícia operante as crianças estariam fazendo

outra coisa.

Todo mundo devia ser polícia durante um ano, para ver a

merda que é. Eu pensei, mas não disse.

O Cão chegou e me chamou num canto. O Caveirinha

encheu a cara num bar da Vila Isabel e dizia em altos brados,

olhem para o céu no dia vinte e três!, olhem para o céu no dia

vinte e três! Acho que o Caveira vai ser o seguidor. Não sabemos

pra quem.

Em Vila Isabel?

Isso não quer dizer nada.

Temos que achar o rastreador. Se for o Zé de Souza ele te dá

o serviço?

Não. Nem eu vou baratinar o Zé, ele é meu amigo.

Está certo.

Essa conversa é secreta?, perguntou Marina. Vocês estão

cochichando. Querem que a gente saia da sala? Vamos sair da

sala, Fabiana.

Fabiana fechou o livro, olhou para mim tão rapidamente que

nem me deu tempo de fazer cara de sofredor para ela ter pena de

mim, e levantou-se.

Calma, calma. Estou conversando com o detetive Cão sobre

o rastreador, falávamos baixinho para não incomodar a leitura da

Fabiana.

Fabiana aproveitou a chance e perguntou com certa doçura,

rastreador, o que é isso?

É o sujeito que diz ao pessoal da captura a direção que o

balão vai tomar conforme as correntes de ar da atmosfera, eu

disse, fazendo a cara de sofredor. Fabiana, comovida, fez um leve

gesto de aproximação, como se fosse me abraçar, mas se conteve.

Depois que o balão é soltado por uma comunidade com

recursos, que solta muitos balões grandes, disse o Cão, entram

em cena o seguidor, que é o elemento que tem de conhecer todos

os caminhos da cidade e dirige uma pick-up, o rastreador, que é

essa figura que o doutor explicou, e a turma da captura. A função

dessa turma é resgatar o balão, se possível intato, dobrar, colocar

na pick-up e levar o bicho apagado de volta, para depois ser

soltado de novo. Se alguém se meter, uma turma rival ou então

tascadores avulsos, eles enchem todo mundo de porrada,

desculpem. Já morreu gente nesse entrevero.

A psicologia do tascador..., comecei.

Poupe-nos dessas digressões, disse Marina.

Por que uma pick-up?, perguntou Fabiana.

Tem que ser uma viatura grande para poder transportar a

turma da captura, o rastreador e o balão resgatado, se for o caso.

Outras turmas, de outras comunidades, podem querer capturar o

balão. Se for uma turma amiga eles entregam o balão aos donos e

depois juntos soltam novamente o bicho. E sempre que um balão

cai aparecem tascadores avulsos. Tascam o balão porque não

foram eles que puseram aquilo no céu, porque não perdoam ao

balão o ter caído das alturas, porque o balão é um corpo estranho

nas ruas. Ele é como os pássaros migratórios mortos a pauladas

nas praias do Nordeste porque estão andando exaustos na areia

quando deviam estar voando.

Eles matam os pássaros porque sentem fome.

Os tascadores também têm fome. Há muitas fomes.

Você errou de profissão, disse Marina. Já sabíamos disso,

pelas demonstrações óbvias que nos tem dado, e agora, com essas

tiradas de almanaque...

O Cão me defendeu: conhecer a psicologia dos infratores

ajuda na investigação criminal.

Eu estava falando com a Fabiana.

Mas eu estou aqui e não sou surda. Tinhosa, a Marina.

Não vamos brigar, disse Fabiana.

Eu não estou brigando, respondi.

Mas eu estou. Nós estamos escrevendo um ofício ao

secretário de Segurança pedindo a sua substituição.

Eu já disse a ele, disse Fabiana, voltando a ler.

Não se esqueçam de dar uma olhada na portaria que criou o

Grupo. A burocracia tem normas, procedimentos, regulamentos,

etcetera, que devem ser obedecidos.

Nós sabemos.

Eu e o Diogo Cão vamos fazer uma diligência. Até mais.

Paramos numa lanchonete para tomar uma água de coco.

Essa dona ou ama ou odeia o senhor.

A psicologia de almanaque atacou nós dois.

Existem lugares onde nunca apareceu um arco-íris.

Cão, isso não tem pé nem cabeça. É poesia pura.

Chama essa dona para abraçar uma árvore com você.

Não posso. Já fiz isso com a Fabiana. Foi assim que entrei

no coração dela.

Agora saiu, não é?

Você é um tira esperto.

Nós esquecemos do bucheiro, disse o Cão, um balão desse

tamanho, se realmente está sendo feito, tem que ter o melhor

especialista em bucha. Um cara como o velho Silva Mattoso. Ele

faz a melhor bucha de estágio do Brasil, sabe como é, queima

primeiro uma, depois outra...

Sei como é.

Ele faz balão de até oito estágios, que voa mais de

quinhentos quilômetros. Vai parar em Minas, no Espírito Santo.

Descobre por onde ele anda e o que está fazendo. O Edgar

vai te ajudar.

Dediquei-me ao Fodão. Andei por toda parte, com o Cão e

sem ele. Méier, Madureira, Caxambi, Del Castilho, Bangu, Penha,

Campinho, Quintino Bocaiúva, Cascadura, Anil, Pavuna, Costa

Barros, Honório Gurgel, Cidade de Deus, Rio das Pedras,

Gardênia Azul, Anchieta, Deodoro, Curicica, Ricardo de

Albuquerque, Magalhães Bastos, Realengo, Camorim, Padre

Miguel, Senador Camará, Vargem Pequena e Vargem Grande,

Santíssimo, Curupira, Senador Vasconcelos, Campo Grande,

Mendanha, Cosmos, Nova Iguaçu, São João de Meriti, Caxias,

Nilópolis, não nessa ordem, indo cada vez mais longe. Dei a volta

ao mundo, me perdi inúmeras vezes, nem a Morte conhece todas

as ruas e praças e estradas do Grande Rio. Balões estavam sendo

feitos em toda parte, nos municípios adjacentes, na zona rural,

nos subúrbios, nos morros, nos bairros. Até na Zona Sul havia

gente fazendo balão. Baloeiros surfistas. Mas O Fodão era grande

demais para ser solto numa rua ou numa praça, precisava de um

terreiro grande, de uma várzea larga, e isso era a nosso favor.

O dia vinte e três se aproximava. Fabiana não respondia aos

recados que eu deixava na sua secretária eletrônica. Na reunião

semanal do Grupo ela ficava calada. Também Marina falava

pouco. Depois de me apunhalarem pelas costas as duas tinham

mesmo que se sentir constrangidas. Eu não sabia se tinham ou

não mandado o ofício pedindo a minha substituição, nem, caso

afirmativo, que decisão fora tomada na Secretaria. Ia saber pelo

Boletim, que é a maneira ruim de saber notícia ruim.

No dia vinte e um, dois dias antes da data do provável

lançamento do Fodão, tive uma reunião com os detetives e

discutimos o assunto. Um deles, o detetive Arsênio, estava

convicto de que o balão ia ser solto em Caxias.

Eles contrataram o Gringo, o cara do Cabo Canaveral, disse

Arsênio, o Gringo desfilou no Carnaval na Escola de Samba

Grande Rio, que é de Caxias. Esses gringos gostam de coisas

exóticas, deve ter se enrabichado por uma mulata e está na coisa

por amor.

E o Zé de Souza?

Ele anda brigado com a turma de Caxias. Mas esse balão faz

o sujeito esquecer qualquer divergência.

Se chamarem ele vai?

Vai, disse o Cão.

E o Caveirinha?

Dizem que o Caveira anda bebendo muito e que é carta fora

do baralho. Não interessa perder tempo com ele, disse um dos

detetives.

E o bucheiro? O Silva Mattoso?

Sumiu. Mas ele é amigo do pessoal de São João de Meriti,

disse o detetive Edgar.

Só pode ser Caxias, insistiu Arsênio. Eles têm dinheiro. O

bicheiro patrono da Escola de Samba está financiando tudo. E

Meriti é um ovo, cidade-dormitório.

É um ovo mas está cheio de baloeiros em Éden, Coelho da

Rocha, São Mateus, Vilar dos Teles, Vila Rosali, disse o Cão.

Se Caxias chamar, o Zé de Souza vai mesmo?

Se chamarem e o balão estiver sendo feito em Caxias, ele vai.

Mas não sei se chamaram, disse o Cão.

Nem sabemos se eles estão fazendo o Fodão. Tem muita

comunidade fazendo balão grande. Como acontece todo ano, disse

Edgar.

Não podemos esquecer o gringo de Cabo Canaveral, disse

Arsênio, que estava infiltrado em Caxias. Bebi umas e outras com

ele e uma turma de baloeiros e o Gringo só falava em, em, deixa

eu pegar este papel onde escrevi tudo: forças gravitacionais, força

de atrito, arrasto aerodinâmico, equações de movimento, órbitas

keplerianas.

Caralho, disse alguém.

Só pode ser assunto do Fodão, continuou Arsênio. E eles vão

soltar o bicho às nove horas.

Vamos votar. Éramos oito votando. Eu, além do meu, teria o

voto de Minerva. Mas não foi preciso desempatar. Caxias ganhou

por sete a um. O Cão votou em São João de Meriti, mas sem muita

convicção.

Se não for Caxias dá tempo de deslocarmos nosso pessoal

para São João de Meriti?, perguntei.

Há a estrada Caxias—Meriti. Mas cinqüenta homens se

deslocam devagar. Muito comando passando de um nível para o

outro, disse o Cão.

Chefe, disse Edgar, isso tudo pode ser uma fria, o Fodão não

existe e nós vamos fazer um papel ridículo.

Telefonei para Fabiana.

Amanhã vamos pegar o balão fantasma. Eu gostaria que

você viesse com a gente.

Não quero ir.

Eu te peço. Depois não te chateio nunca mais. Alguém do

Grupo, além de mim, deve ir. E eu não quero levar a Marina. Ela

não gosta de mim.

Ela gosta sim. Ela até sonhou com você outro dia.

Mas eu preferia que você fosse. Lembra do que você disse? O

significado suasório dessa apreensão?

Haverá violência?

Nenhuma. Prometo. Passo na sua casa de tardinha.

Depois fui ao Comando da PM e acertei tudo. Os homens da

tropa de choque ficariam de prontidão. Do rádio do meu carro eu

daria as coordenadas.

Passei na casa de Fabiana às seis horas. Depois peguei o

Cão na av. Presidente Vargas esquina de Senhor dos Passos. Tudo

OK?, perguntei pelo rádio ao comandante da tropa de choque.

Os homens já estão nas viaturas aguardando as ordens.

O Arsênio está aí com vocês? Ele sabe o local.

Arsênio estava com eles. O Cão, que estava comigo, também

sabia onde era.

Encontrei com os carros da tropa de choque na av. Brasil,

em frente à refinaria de Manguinhos. Pegamos a estrada e

paramos na entrada de Caxias.

A tropa de choque usava escudos, coletes, cassetetes,

metralhadoras, uniforme e capacetes escuros.

É preciso isso tudo?, perguntou Fabiana.

É só para assustar, eu disse.

Chegamos com a tropa de choque ao local do lançamento.

Uma grande e compacta aglomeração de pessoas fazia um enorme

círculo em torno do balão, já inflado, ainda preso nas amarras. Os

soldados saltaram das viaturas e irromperam por entre a

multidão, abrindo o caminho a golpes de cassetete, até cercar o

balão.

Era um balão grande, mas eu e o Cão já havíamos visto

dezenas iguais.

Puta que pariu, esse aí não pode ser o Fodão, disse o

detetive.

O Fodão vai ser lançado em Meriti, eu disse. Você conhece a

estrada para Meriti? Vamos para lá.

Só nós? Não dá tempo de reagrupar a tropa de choque. Olha

o melê, o pau está comendo, a cagada é total, disse o Cão.

Estávamos tão nervosos que esquecemos a presença de

Fabiana e gritávamos palavrões um para o outro.

Vamos, porra, estou mandando.

Então o senhor me dá o volante, disse o Cão.

Seguimos em alta velocidade pela estrada Caxias—Meriti.

Pelo rádio do carro tentei fazer contato com o comandante da

tropa de choque, mas não consegui.

Já estamos em Meriti, esta é a estrada do Munguengo. Eles

devem estar lançando o Fodão numa várzea nas margens do

Sarapuí, disse o Cão.

E estavam mesmo. O Fodão subia para o céu, a coisa mais

espantosa que já vi voando em toda a minha vida. O maior balão

de ar quente de todos os tempos. O lançamento era saudado com

exclamações de júbilo, e os gritos finos das mulheres e crianças

cobriam as vozes dos homens.

Saltamos do carro.

Meu Deus, disse Fabiana. Eu e o Cão ficamos calados. Dizer

o quê? Só olhamos, e olhamos, e olhamos o Fodão subir

lentamente aos céus, enquanto da cangalha explodiam os

morteiros e os fogos de artifício expeliam fulgores criando um

clarão que iluminava até onde a vista podia alcançar.

Fabiana voltou para o carro e sentou-se no banco de trás,

em silêncio.

Eu e o Cão continuamos olhando o balão até ele ficar do

tamanho de uma estrela no céu.

Não consegui, mais uma vez, fazer contato pelo rádio do

carro com a tropa de choque que estava em Caxias se ferrando e

ferrando os outros. Senti fome. Perguntei se alguém mais queria

comer alguma coisa. Somente o Cão respondeu.

Paramos numa lanchonete. Fabiana tomou uma água

mineral. Todas as minhas tentativas de fazê-la dizer alguma coisa

foram inúteis. O Cão falava do balão. Dava palpites sobre a altura,

o diâmetro, quantas dezenas de milhares de metros cúbicos de ar

quente haveria dentro dele, que ele ia cair em Minas Gerais, ou no

Espírito Santo, ou São Paulo, e que não era um gringo de merda

comedor de mulatas inocentes, farsante do Cabo Canaveral, que

tinha calculado a trajetória dele.

Voltamos pela Linha Vermelha.

O que é aquilo? O que é aquilo?, gritou o Cão.

A Linha Vermelha tem uma topografia plana e um largo

horizonte e trafegando-se por ela dava para ver toda a abóbada

celeste. Ou quase toda.

O que é aquilo? O que é aquilo?, disse o Cão, excitado.

O balão, disse Fabiana. A segunda vez que ela abria a boca

naquela noite.

Era mesmo.

Como é possível? Impossível, gritou o detetive.

É ele, o Fodão. Alguma coisa aconteceu com a bucha, eu

disse.

Podíamos ver o balão voando lentamente. Fomos atrás. O

carro andava a vinte por hora. Um patrulheiro de motocicleta

parou ao lado. Qual é o problema?, perguntou. Mostrei a ele

minha carteira, estou seguindo aquele balão. Ele está indo para a

Penha, disse o patrulheiro, e arrancou com a motocicleta.

Seguimos o balão. A toda hora parávamos o carro. Ele vai cair no

aeroporto, dizia o Cão, não, ele está mudando de lado, está indo

para Ramos, não, está indo para São Cristóvão. Demoramos um

tempo enorme sem saber para onde ir. Até que decidimos que ele

estava indo para o centro da cidade.

Tomamos a saída da Cidade Nova e paramos no canal do

Mangue para observar o bicho. O balão tinha perdido muita

altura, sua energia acabara, ele caía muito depressa. Deslocava-se

para a Zona Sul, ia cair dentro de alguns minutos e para chegar

antes varamos a Rio Branco furando todos os sinais, pegamos o

aterro a duzentos por hora, atravessamos o túnel de Copacabana,

saímos na Atlântica, sempre a mais de cento e cinqüenta, de

madrugada é fácil. Quando chegamos na Vieira Souto vimos que o

balão estava caindo no mar, em frente às ilhas Cagarras, a uns

dois mil metros da praia.

O Caveirinha já estava lá, na praia do Leblon, numa pick-up

japonesa novinha em folha. A turma dele sabia calcular os ventos.

Ele e o pessoal da captura e mais o Zé de Souza e mais um sujeito

de barba branca que devia ser o bucheiro Silva Mattoso

contemplavam em silêncio a queda do balão no mar. O sol raiava

à esquerda, na altura do Arpoador, e fazia brilhar o papel

laminado que revestia o balão. Havia mais dois carros, distantes

um do outro, de baloeiros rivais, e os homens dentro dos carros

estavam imóveis contemplando o espetáculo em silêncio. Um

massacre teria ocorrido se o maior balão do mundo caísse em

terra.

Nosso carro parou atrás da pick-up do Caveirinha. Alguns

dos homens da captura, o volume das armas de fogo aparecendo

sob as camisas, entraram na praia e sentaram-se na areia,

olhando. Um deles deitou desanimado a cabeça sobre os joelhos.

Aquele balão não fora feito para voar apenas cinqüenta

quilômetros e cair no lugar errado.

O balão parecia maior do que o morro de pedra da ilhota

Cagarra, que fica à esquerda do conjunto de ilhas. Caiu

lentamente e tocou no mar, primeiro a armação de flâmulas,

depois a fieira de lanternas já apagadas, depois a cangalha de

fogos, até que a imensa boca de ferro pousou no oceano e o balão

ficou imóvel, uma caravela fantástica na calmaria. Manteve-se

enfunado muito tempo, antes de sumir nas águas.

Fabiana assistiu a tudo, o rosto muito pálido.

Zé, gritou o Cão.

Zé de Souza se aproximou do nosso carro, o binóculo

dependurado no peito. Você por aqui, Cão?

Zé, o barbicha é o Silva Mattoso?

O velho vai morrer de tristeza, a bucha pifou.

Nós também queríamos o balão, Zé.

Ele não foi criado para ser preso, nem para morrer no mar

como se fosse marinheiro. Era melhor que tivesse estourado e

caído na terra como uma bola de fogo, incendiando o mundo. Dá

vontade de chorar, disse o Zé de Souza.

Fodam-se as florestas, disse o Cão.

Fodam-se as florestas, repetiu o rastreador.

Vamos embora, Diogo Cão, eu disse.

Doutor, se o senhor não se importa, eu vou ficar por aqui.

Está bem, eu disse, e o detetive foi com o rastreador para

junto dos baloeiros. Quando dei partida no carro o Cão estava

abraçando o velho Silva Mattoso.

Quer que eu te leve para casa?

Sim, por favor. Estou cansada.

Fabiana morava na rua das Laranjeiras. Quando entramos

no túnel Rebouças ela me disse, eu te amo.

Não falamos do balão. Nem no túnel, nem na cama, nem

depois tomando café-com-leite, nem naquele dia todo, nem nunca

mais.

A CARNE E OS OSSOS

Meu avião só partia no dia seguinte. Pela primeira vez

lamentei não ter um retrato da minha mãe comigo, mas sempre

achei uma idiotice andar com retratos da família no bolso, ainda

mais da mãe.

Eu não me incomodava de ficar mais dois dias vagando pelas

ruas daquele grande formigueiro sujo, poluído, cheio de gente

estranha. Era melhor do que andar por uma cidade pequena com

ar puro e caipiras que dizem bom-dia quando cruzam com você.

Eu ficaria ali um ano se não tivesse aquele compromisso me

esperando.

Andei o dia inteiro respirando monóxido de carbono. À noite

meu anfitrião me convidou para jantar. Uma mulher nos

acompanhava.

Comemos vermes, o prato mais caro do restaurante. Ao

olhar um deles na ponta do garfo, pareceu-me uma espécie de

larva ou pupa de berne que ao ser frita perdera os pêlos negros e a

cor leitosa. Era um verme raro, explicaram-me, extraído de um

vegetal. Se fosse um berne a iguaria seria ainda mais cara,

respondi, irônico, já tive berne no meu corpo três vezes, dois na

perna e um na barriga, e os meus cavalos e os meus cães também

tiveram, é difícil tirar ele inteiro, de forma a ser comido frito,

somente frito poderia ser saboroso, como estes aqui — e enchi

minha boca de vermes.

Depois fomos a um lugar que o meu anfitrião queria me

mostrar.

O amplo salão tinha ao centro um corredor por onde

mulheres desfilavam nuas, dançando ou fazendo poses. Passamos

por entre as mesas, em torno das quais sentavam-se homens

engravatados. Pedimos algo ao garçom, depois que nos

instalamos. Ao nosso lado uma mulher com apenas um cache-

sexe, postada de quatro, esfregava as nádegas no púbis de um

homem de paletó e gravata sentado de pernas abertas. Ela exibia

uma fisionomia neutra e o homem, um sujeito de uns quarenta

anos, parecia tranqüilo como se estivesse alojado numa cadeira de

barbeiro. O conjunto lembrava uma instalação de arte moderna.

Poucos dias antes, em outra cidade, em outro país, eu havia ido a

um salão de arte ver um porco morto apodrecer dentro de uma

caixa de vidro. Como fiquei poucos dias na cidade, pude apenas

ver o animal ficar esverdeado, disseram-me que era uma pena eu

não poder contemplar a obra em toda a sua força transcendente,

os vermes comendo a carne.

Ali, no cabaré, aquela exibição também me parecia

metafísica como a visão do porco morto em seu recipiente de

cristal brilhante. A mulher me lembrou, por um curto momento,

um sapo gigantesco, porque estava agachada e porque seu rosto,

mulato ou índio, tinha algo de anfíbio. Na mesa havia mais três

homens, que fingiam não tomar conhecimento dos movimentos da

mulher.

Do nosso lugar não podíamos ver tudo o que acontecia no

salão. Mas nas mesas em torno de nós havia sempre uma ou duas

mulheres atracadas num homem inteiramente vestido. O bilhete

de entrada dava direito a que uma das inúmeras mulheres que

faziam strip-tease em vários pontos do salão se esfregasse por

algum tempo no portador do ticket de entrada. Havia um padrão

coreográfico nas carícias: a mulher punha-se de quatro, roçava as

nádegas no púbis do homem que permanecia sentado na cadeira,

depois dançava à frente dele. Algumas, mais rebuscadas, subiam

em cima do sujeito e prendiam-lhe o rosto no vértice das suas

coxas. Depois pegavam o ticket de entrada e afastavam-se.

A única mulher que assistia àquele espetáculo era a nossa

acompanhante. O meu anfitrião a chamava de Condessa, não sei

se era o nome dela ou o título. Quando era jovem conheci uma

mulher que me disse ser uma Condessa verdadeira, mas acho que

era mentira. De qualquer forma eu chamava a minha

companheira de mesa de senhora Condessa, como antigamente eu

fazia com a outra. Ela olhava o que acontecia em torno e sorria

discretamente, comportava-se como supunha que um adulto deve

proceder num circo.

De todos os cantos vinha o som alto de dance music. Para

poder falar com a Condessa eu tinha que aproximar minha boca

da sua orelha. Eu disse alguma coisa que me distinguia como um

observador isento e entediado, esqueci o que foi. Também com a

boca quase colada na minha orelha, a Condessa, depois de

comentar a atitude de uma mulher perto de nós que esfregava a

boceta na cara de um homem de gravata-borboleta, citou em latim

a conhecida frase de Terêncio: as coisas humanas não lhe eram

alheias, e portanto não a assustavam. E para demonstrar isso

balançou o corpo no ritmo do som retumbante e cantou a letra de

uma das músicas. Eu a acompanhei, batendo na mesa.

No salão havia um boxe de vidro com chuveiro, fortemente

iluminado por spots de luz, no qual as mulheres se revezavam

tomando banho. Algumas molhavam e lavavam o corpo inteiro,

ensaboavam artelhos, pentelhos, joelhos, cotovelos, cabelos.

Outras faziam abluções estilizadas. Elas estão dizendo estou

limpa, confie em mim, sussurrou a Condessa no meu ouvido.

Esperamos correr a rifa. O premiado poderia escolher

qualquer das mulheres para passar o resto da noite com ele, na

palavra do mestre-de-cerimônias.

Nós, eu e o meu anfitrião, não fomos sorteados. A Condessa

não comprara a rifa.

Então ficamos calados, sem cantar e sem bater na mesa

acompanhando a música. Pagamos — o anfitrião pagou — e

saímos.

Despedimo-nos na calçada em frente ao bar. A Condessa se

ofereceu para me levar ao hotel. O anfitrião também. Eu disse que

queria andar um pouco, as grandes cidades são muito bonitas ao

amanhecer.

Eu já caminhava havia uns dez minutos, lastimando não ter

uma foto da minha mãe no bolso, nem num álbum, nem em

nenhuma gaveta, quando o carro da Condessa parou ao meu lado.

Entra, ela disse, estou sentindo vontade de chorar e não

quero chorar sozinha.

Ao chegarmos ao hotel havia um recado do meu irmão.

Liguei para ele do quarto. A Condessa ouviu a conversa com meu

irmão. Sinto muito, ela disse, sentando-se na cama, cobrindo o

rosto com as mãos, mas não estou chorando por você, estou

chorando por mim.

Deitei na cama e olhei para o teto. Ela deitou-se ao meu

lado. Encostou o rosto úmido no meu e disse que foder era uma

maneira de celebrar a vida. Fodemos em silêncio e depois

tomamos banho juntos, ela imitou uma das mulheres do cabaré se

lavando e cantando e eu a acompanhei batendo nas paredes do

boxe do chuveiro. Ela disse que estava se sentindo melhor e eu

disse que estava me sentindo melhor.

Peguei o avião.

Nove horas e meia depois cheguei ao hospital.

O corpo de minha mãe estava na capela, dentro de um

caixão coberto de flores, sobre um catafalco. Meu irmão fumava ao

lado. Não havia mais ninguém.

Ela perguntava muito por você, disse o meu irmão, então me

aproximei dela e disse que eu era você, ela segurou na minha mão

com força, disse o seu nome e morreu.

No jazigo da família já estavam os restos do meu pai e do

meu irmão. Um funcionário do cemitério disse que alguém teria

que assistir à exumação. Eu fui. Meu irmão parecia mais cansado

do que eu.

Eram quatro exumadores. Abriram a campa de mármore

rosa e arrebentaram com martelos a placa de cimento que fechava

a sepultura. O jazigo era dividido em dois por uma laje. Um dos

coveiros entrou dentro do buraco aberto, com cuidado para não

pisar nos restos do meu irmão, na parte superior. As roupas do

meu irmão estavam em bom estado. Ele tinha bons dentes, os

molares obturados com ouro. Quando a cabeça foi retirada o

maxilar inferior se desprendeu do resto do crânio. O fêmur e a

tíbia estavam mais ou menos inteiros; as costelas pareciam de

papelão pardo.

Os ossos foram jogados pelo coveiro numa caixa de plástico

branco ao lado da sepultura. Três baratas e uma lacraia vermelha

subiram pelas paredes, a lacraia parecia mais veloz do que as

baratas, mas as baratas sumiram primeiro. Eu disse em voz alta

que a lacraia era venenosa. O coveiro, ou que nome tivesse, não

deu importância ao que eu dissera.

Logo que os restos do meu irmão foram colocados na caixa

de plástico, o nome dele foi escrito em letras grandes na tampa.

Um dos homens entrou na sepultura e arrebentou com marreta e

formão a laje que fechava a parte inferior onde se encontravam os

restos do meu pai, que morrera dois anos antes do meu irmão. O

exumador voltou a entrar na sepultura. Os ossos do meu pai

estavam em pior estado que os do meu irmão, alguns tão

pulverizados que pareciam terra. Tudo foi jogado dentro de outra

caixa plástica, misturado com restos de tecido, as roupas do meu

pai não eram tão boas como as do meu irmão e haviam apodrecido

tanto quanto os ossos. Do crânio do meu pai só restara a

dentadura postiça; o acrílico vermelho da dentadura brilhava mais

do que a lacraia.

Dei uma boa gorjeta para os sujeitos. As duas caixas foram

colocadas ao lado da sepultura.

Voltei para a capela.

Meu irmão fumava olhando pela janela o trânsito lá fora.

Um padre apareceu e rezou.

O caixão fechado foi colocado numa carreta. Seguimos, eu e

o meu irmão, a carreta empurrada pelo coveiro até a sepultura

aberta. O caixão da minha mãe foi colocado na parte inferior. Uma

laje foi cimentada, deixando a parte superior vazia, à espera do

futuro ocupante. Sobre essa laje foram provisoriamente

depositadas as duas caixas com os restos do meu pai e do meu

irmão. A campa de mármore rosa com os nomes dos dois,

gravados em bronze, fechou a sepultura.

Devem ter roubado as obturações de ouro dos dentes do

meu irmão enquanto fui à capela apanhar a minha mãe, pensei.

Mas estava muito cansado para comentar isso. Caminhamos em

silêncio até a porta do cemitério. Meu irmão me deu um abraço.

Quer uma carona?, perguntou. Eu disse que ia caminhar um

pouco. Olhei o carro dele se afastar. Fiquei ali, em pé, até

escurecer.

IDIOTAS QUE FALAM OUTRA LÍNGUA

Um quarto de dormir com um espelho no teto. Ao lado, a

porta aberta, um banheiro. No quarto, uma cama de casal, uma

cadeira, duas mesinhas de cabeceira, vários litros de Coca-Cola,

dois deles vazios, pacotes de batata frita, maços de cigarro. Sílvia

está nua, deitada na cama, com uma perna levantada, dobrada, o

pé apoiado sobre o joelho. José Roberto está em pé, também nu,

ao lado da cama, escovando os dentes.

JOSÉ ROBERTO (enquanto escova os dentes com uma escova sem

pasta)

Odeio poucas coisas na vida e uma delas é que você escove

os dentes com a minha escova. Isso me irrita, não sei como

você pode se confundir, nossas escovas são tão diferentes,

vê?, a sua é azul, a minha é vermelha, está vendo, azul,

vermelha, e a sua tem a haste mais comprida, e as Cerdas

da minha são mais moles e estreitas, e a minha tem um

furinho na ponta da haste, a sua não tem. Azul, está vendo?,

vermelha, está vendo?, você não é daltônico, eu odeio, odeio,

desculpe eu insistir, não é que eu tenha nojo de você, somos

casados há quinze anos, mas eu sou, como direi,

convencional, casei virgem porque sou convencional, eu

escovo os dentes com a minha escova porque sou

convencional, eu sou uma esposa fiel porque sou

convencional, eu cuido da casa quando você sai para

trabalhar das nove da manhã às nove da noite porque sou

convencional, o homem trabalha e a mulher cuida da casa e

eu aceito isso porque sou convencional e odeio que você

escove os cientes com a minha escova porque sou

convencional.

SÍLVIA

Você imita perfeitamente, só falta aquele hum ham que ela

faz. Hum, ham.

JOSÉ ROBERTO

Ela falou meia hora sem parar sobre eu escovar os dentes

com a escova dela. Foi nessa hora que decidi.

SÍLVIA

É por isso que você está escovando os dentes com a minha

escova? Para se vingar dela?

JOSÉ ROBERTO

Eu sempre escovei os dentes com a sua escova.

SÍLVIA

E o que você faz todos os dias das nove da manhã às nove da

noite?

JOSÉ ROBERTO

Venho para cá.

SÍLVIA

Segundas, quartas e sextas. E nas terças e quintas?

JOSÉ ROBERTO

Vou ao cinema. Tenho que criar um padrão. Para ela não

desconfiar.

SÍLVIA

E por que você não vem para cá nas terças e sextas?

JOSÉ ROBERTO

Quintas. Não quero cansar você.

SÍLVIA

Você nunca me cansa, seu brutamontes fodedor.

JOSÉ ROBERTO

Você não quer saber o que eu decidi?

SÍLVIA

Você não pode decidir nada. O dinheiro é dela.

JOSÉ ROBERTO

Quer ou não quer saber?

SÍLVIA

Você já escovou os dentes. Vem para a cama. Estou

pingando.

Sílvia abre as pernas e José Roberto deita-se sobre ela.

Beijam-se. Movimentos de fornicação.

SÍLVIA

Anda, diz.

JOSÉ ROBERTO

Estou alucinado por você.

SÍLVIA

O que mais?

JOSÉ ROBERTO

Eu te amo, eu te amo.

SÍLVIA

O que mais?

JOSÉ ROBERTO

Eu te adoro.

SÍLVIA

Mais. Mais!

JOSÉ ROBERTO

Você é o meu sol, o ar que eu respiro (aspira ruidosamente o

hálito da boca ofegante de Sílvia), a minha vida.

SÍLVIA

Fala, fala!

JOSÉ ROBERTO

Adoro foder com você. Meu anjo. Minha luz! Caramba!

SÍLVIA

Mais. Ai, ai, mais, mais, mais, estou quase gozando.

JOSÉ ROBERTO

Adoro enfiar o meu pau em você.

SÍLVIA

Estou gozando, me morde, goza comigo.

JOSÉ ROBERTO

Vou matar a Lili.

SÍLVIA

Me mata também. Diz que me mata!

JOSÉ ROBERTO

Eu te mato.

SÍLVIA

Estou gozando.

Os dois se abraçam furiosamente. Rolam na cama. Afinal

ficam imóveis, José Roberto com o seu corpo sobre Sílvia, os

dois com as pernas esticadas. José Roberto afasta seu rosto.

JOSÉ ROBERTO

Apareceram as olheiras. Gosto do teu rosto com as olheiras.

Você ouviu o que eu disse?

SÍLVIA

Que me ama, que me adora. Tuas costas são lindas, cheias

de músculos, olha ali no espelho. (Apanha um litro de Coca-

Cola, que está vazio. Abre um outro. Enche um copo. Retira

batatas do pacote. Bebe e come.) Você acredita nessa história

de que Coca-Cola dá celulite?

JOSÉ ROBERTO

Vou matar Lavínia.

SÍLVIA

Só porque ela não deixa você escovar os dentes com a escova

dela? Apanha um cigarro para mim. (Roberto apanha um

maço na mesinha de cabeceira ao lado dele.) Obrigada. Onde

está o isqueiro? Você sempre me deixa com olheiras. O

isqueiro está no banheiro. Deixa que eu vou apanhar.

No banheiro Sílvia, com um lápis de maquiagem, escurece

ainda mais as olheiras sob seus olhos. Começa a voltar para

o quarto e lembra-se de apanhar o isqueiro. Volta para o

quarto.

JOSÉ ROBERTO

Você ouviu o que eu disse?

SÍLVIA

E cigarro? Dá mesmo câncer?

JOSÉ ROBERTO

Você ouviu o que eu disse?

SÍLVIA

Que vai matar a Lavínia?

JOSÉ ROBERTO

Não agüento mais.

SÍLVIA

Podíamos fazer uma viagem juntos.

JOSÉ ROBERTO

Viajar é conhecer idiotas que falam outra língua.

SÍLVIA

Você sempre me deixa com olheiras, seu brutamontes

fodedor.

JOSÉ ROBERTO

Eu não estou brincando. (José Roberto começa a se vestir.)

SÍLVIA

Você não vai tomar banho?

JOSÉ ROBERTO

Quero ficar com o teu cheiro no meu corpo. (Coloca

carinhosamente a mão no púbis de Sílvia. Depois põe a

mesma mão sobre o nariz e aspira profundamente.) O aroma

da vida! Já te falei que antes de te conhecer eu tinha horror

de boceta?

SÍLVIA

Leva um presente para ela.

JOSÉ ROBERTO

O quê?

SÍLVIA

Bombons. Para ela ficar ainda mais gorda.

Cozinha ampla e moderna, cheia de gadgets, da casa de José

Roberto e Lavínia. Ela veste um avental rendado sobre um

vestido elegante de seda. Usa colar, brincos, anéis. Prepara a

comida enquanto consulta um grosso livro de receitas.

LAVÍNIA (colocando os ingredientes numa saladeira)

Endive eu já botei. Alface, rabanete, cenoura, couve-de-

bruxelas. Uma pitadinha de vinagre de maçã. Ah, a lagosta.

Misturar tudo.

José Roberto entra na cozinha com uma caixa grande de

bombons na mão.

JOSÉ ROBERTO

Você agora deu para falar sozinha?

LAVÍNIA (escondendo o livro de receitas debaixo de um guardanapo)

Estou fazendo uma salada hum ham para você. Gostou do

meu penteado? O Renan é um gênio. Quinze minutos, hum

ham vinte no máximo, ele fez esse penteado. Ele não é um

gênio hum ham?

JOSÉ ROBERTO

É um gênio.

LAVÍNIA

Como foi o seu dia hoje?

JOSÉ ROBERTO

O de sempre. (Provando algo do prato e fazendo uma careta.)

Endive de novo? Eu não sou coelho para comer esses troços.

LAVÍNIA

Na folga da Cilda eu sempre faço hum ham uma salada para

você. Você tem que baixar o colesterol.

JOSÉ ROBERTO

Endive aumenta o colesterol. Ovo, manteiga, bacon fazem

baixar o colesterol, é a última descoberta dos pesquisadores

de uma universidade sueca.

LAVÍNIA

Só acredito nas hum ham pesquisas americanas.

JOSÉ ROBERTO

Os americanos confirmaram. Pesquisas recentes. Li isso

ontem. Até recortei para você. Depois te mostro.

LAVÍNIA

Não hum ham acredito.

JOSÉ ROBERTO

Está me chamando de mentiroso? Você sabe que eu não

minto nunca.

LAVÍNIA

As pesquisas são mentirosas, principalmente as últimas

pesquisas. O que é isso que você tem na mão?

JOSÉ ROBERTO

Bombons.

LAVÍNIA

Bombons? Não, não, você sabe que eu não posso comer

bombons. Isso dá celulite, é um hum ham veneno horrível.

(Tira a caixa de bombons da mão de José Roberto e abre a

caixa ansiosamente.) Ainda mais estes hum ham bombons

alemães, são veneno puro, somente uma louca varrida

comeria essa hum ham porcaria, por que você faz isso

comigo, por quê? Você sabe que eu não resisto, você é muito

mau, eu não resisto hum ham a bombons, é o meu vício.

(Come vorazmente os bombons, fala enquanto come.) Isto é

um veneno, hum ham eu vou hum ham me arrepender, que

delícia, uma vez ou outra (come, come) hum ham isto não faz

mal, diz que uma vez ou outra hum ham bombom não faz

mal. Diz, diz, diz.

JOSÉ ROBERTO

É um veneno. Mas não é o pior dos venenos.

LAVÍNIA (devorando os bombons)

Existe um veneno pior?

JOSÉ ROBERTO

Depende.

LAVÍNIA

Depende de quê? Qual o pior veneno para você? Vê o que

você fez?, acabei a caixa, meu Deus, hum ham que loucura,

comi tudo, hum ham sou uma demente. Eu devia meter o

dedo na garganta e vomitar essa porcaria. Qual o pior

veneno para você?

JOSÉ ROBERTO

Sonhar.

LAVÍNIA

Que coisa mais sem pé nem cabeça.

JOSÉ ROBERTO

Certos sonhos são muito venenosos. Todos os sonhos são

venenosos. Meus sonhos são venenosos.

LAVÍNIA

Você disse que não sonha nunca. Vamos para a sala, a mesa

está pronta, tem pão preto, chá de jasmim e grapefruit para

comer com a salada.

JOSÉ ROBERTO

Sabe qual é o meu sonho venenoso?

LAVÍNIA

Você tem que comer tudo. Uma boa esposa tem que tomar

conta do marido.

JOSÉ ROBERTO

Meu sonho é matar você.

LAVÍNIA (rindo, um pouco perturbada)

Você não tem coragem de matar uma hum ham barata.

JOSÉ ROBERTO

Uma mulher, a própria mulher, é diferente.

LAVÍNIA

E como é que você ia me matar?

JOSÉ ROBERTO

Botando veneno no teu chá de jasmim.

LAVÍNIA

Onde é que está o hum ham veneno?

JOSÉ ROBERTO

Aqui no meu bolso.

LAVÍNIA

Mostra.

José Roberto tira do bolso um pequeno vidro escuro.

JOSÉ ROBERTO

Ei-lo.

LAVÍNIA

Você, hum ham vai botar no meu chá?

JOSÉ ROBERTO

Agora mesmo. Espere aqui. Não se mova.

Lavínia fica imóvel como uma estátua. José Roberto vai para

a cozinha carregando duas xícaras de chá.

JOSÉ ROBERTO (volta, estendendo uma das xícaras para Lavínia)

Anda, toma.

LAVÍNIA

Você já me matou antes uma vez, lembra? Com veneno, hum

ham também.

JOSÉ ROBERTO

Agora não é brincadeira.

LAVÍNIA

Você está triste. Não fica hum ham triste não. Não gosto de

você triste.

JOSÉ ROBERTO

Desculpe. Desculpe.

LAVÍNIA

Isso acontece com muitos homens. De repente, o fogo apaga.

E você não quis fazer o hum ham tratamento com aquele

médico alemão.

JOSÉ ROBERTO

Japonês.

LAVÍNIA

Japonês era o do ham hum implante. Implante eu era

contra, eu te disse ham hum que era contra o implante,

aquilo sempre duro, hum ham que coisa mais esquisita.

JOSÉ ROBERTO (bebendo da sua xícara)