O Cair da Noite por Isaac Asimov - Versão HTML

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O CAIR DA NOITE

Isaac Asimov

AO LEITOR

Kalgash é um mundo alienígena e não é nossa intenção levá-lo a

pensar que se trata de um mundo idêntico à Terra, mesmo que as pessoas sejam retratadas falando uma língua que você pode compreender e usando termos que lhe são familiares. Essas palavras devem ser consideradas como meros equivalentes de termos alienígenas, isto é, como um conjunto de termos equivalentes semelhante ao que um autor utiliza quando mostra dois personagens estrangeir-os conversando entre si em sua própria língua, mas transcreve o diálogo para a língua do leitor. Assim, quando os habitantes de Kalgash falam de

"quilômetros", de "mãos", de "automóveis" e de “computadores", estão se referindo às suas próprias um unidades de distância, aos seus próprios órgãos de manipulação, aos seus próprios veículos de transporte, às suas próprias máquinas de processamento de dados, e assim por diante. Os computadores usados em Kalgash não são necessariamente compatíveis com os que são usados em Nova York, Londres ou Estocolmo, e o "quilômetro" que usamos neste livro não é necessariamente a unidade do nosso sistema métrico. Entretanto, pareceu-nos mais simples e desejável usar esses termos familiares para descrever acontecimentos neste mundo alienígena do que inventar uma longa série de expressões exclusivamente kalgashianas.

Em outras palavras, poderíamos dizer que um dos personagens parou

para amarrar seus quonglishes antes de começar um passeio de sete vorks pela gleebish principal da sua znoob natal, e nossa descrição teria um ar extremamente alienígena. Seria, porém, muito mais difícil compreender o que estávamos tentando relatar, e isto não nos pareceu interessante. A essência desta história não está no número de expressões exóticas que poderíamos ter inventado e, sim, nas reações de um grupo de pessoas parecidas conosco, vivendo em um mundo parecido com o nosso, a não ser por um detalhe muito significativo, que faz com que tenham que lidar com uma situação que nunca ocorreu na Terra. Nas circunstâncias, achamos melhor informar ao leitor que alguém parou para amarrar as botas antes de começar um passeio de sete quilômetros do que carregar o texto com quonglishes, vorks e gleebishes.

Se preferir, o leitor pode imaginar que no texto está escrito "vorks" em vez de "quilômetros", "gliizbiiz" em vez de "horas" e "sleshtraps" em vez de 3/391

"olhos". Ou pode inventar seus próprios termos. Vorks ou quilômetros, não faz a menor diferença quando as Estrelas desaparecem.

Se as estrelas aparecessem apenas por uma noite a cada mil anos,

como os homens haveriam de crer e adorar, e preservar por muitas gerações a lembrança da cidade de Deus!

Outro mundo! Não existe outro mundo! Toda a realidade está aqui

ou em lugar nenhum.

EMERSON

CREPÚSCULO

Era uma deslumbrante tarde de quatro sóis. O grande e dourado Onos

ia alto no céu, a oeste, e o pequeno e vermelho Dovim despontava rápido no horizonte, abaixo dele.

No lado oposto, os pontos brancos de Trey e Patru se destacavam no

céu arroxeado do leste. A luz dos quatro astros banhava as planícies do continente mais setentrional de Kalgash. O escritório de Kelaritan 99, o diretor do In-stituto Psiquiátrico Municipal de Jonglor, tinha amplas janelas que permitiam apreciar toda a beleza da paisagem.

Sheerin 501, da Universidade de Saro, que havia chegado a Jonglor

fazia algumas horas, atendendo a um chamado urgente de Kelaritan, não sabia por que não estava com melhor humor. Sheerin era uma pessoa basicamente bem-humorada, e os dias de quatro sóis costumavam deixá-lo ainda mais bem disposto. Naquele dia, porém, sentia-se inquieto e apreensivo, embora estivesse fazendo o possível para ocultar o fato. Afinal, tinha sido chamado a Jonglor como especialista em saúde mental.

- Gostaria de conversar com uma das vítimas? - perguntou Kelaritan.

O diretor do hospital psiquiátrico era um homem magro, anguloso,

pálido e com o peito para dentro. Sheerin, que era corado e nada tinha de es-belto, desconfiava instintivamente de qualquer um que pesasse menos da metade do que ele. Talvez seja a aparência de Kelaritan que está me deixando nervoso, pensou Sheerin. Ele parece um esqueleto ambulante.

- Ou acha que é melhor experimentar antes, pessoalmente, o Túnel do

Mistério, Dr. Sheerin?

Sheerin forçou uma risada.

- Talvez eu deva começar entrevistando uma vítima ou duas - disse

para o diretor. - Assim poderia me preparar melhor para os horrores do Túnel.

5/391

Os olhos negros e redondos de Kelaritan piscaram, assustados, mas foi

Cubello 54, o melífluo advogado da Exposição do Centenário de Jonglor, que falou.

- Ora, vamos, Dr. Sheerin! "Os horrores do Túnel!" Isto é um pouco de exagero, não acha? Afinal de contas, até agora, tudo que temos são notícias de jornal. E chamar os pacientes de "vítimas"...

- Quem usou esse termo foi o Dr. Kelaritan - protestou Sheerin.

- Estou certo de que o Dr. Kelaritan usou a palavra apenas no sentido

mais geral. Seu uso, porém, implica uma pressuposição que considero

inaceitável.

Sheerin dirigiu ao advogado um olhar que era uma mistura em partes

iguais de desagrado e frieza profissional.

- Ao que me consta, a viagem no Túnel do Mistério resultou na morte

de várias pessoas. Não é verdade?

- Houve várias mortes no Túnel, é certo. Mas seria prematuro afirmar

que essas pessoas morreram por causa do Túnel, doutor.

- Naturalmente, o senhor gostaria muito de chegar à conclusão oposta

- disse Sheerin, de cara feia.

Cubello voltou-se, indignado, para o diretor do hospital.

- Dr. Kelaritan! Se é desta forma que a investigação vai ser conduzida, quero registrar imediatamente o meu protesto. O Dr. Sheerin está aqui como um perito imparcial e não como testemunha de acusação!

Sheerin riu.

- Estava dizendo o que penso dos advogados em geral, Dr. Cubello, e

não expressando minha opinião a respeito do que aconteceu no Túnel do

Mistério.

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- Dr. Kelaritan! - exclamou Cubello mais uma vez, enrubescendo.

- Senhores, por favor - disse Kelaritan, olhando rapidamente de Cu-

bello para Sheerin e de Sheerin para Cubello. - Não vamos brigar, está bem?

Todos nós temos o mesmo objetivo nesta investigação: descobrir o que de fato aconteceu no Túnel do Mistério, para evitar que os... hum... que os trágicos eventos se repitam

- De acordo - disse Sheerin, em tom amigável. Era perda de tempo

antagonizar o advogado daquela forma. Tinha coisas mais importantes a fazer.

Sorriu para Cubello.

- Na verdade, meu interesse não é descobrir de quem é a culpa, mas

evitar uma situação em que as pessoas precisem encontrar um culpado de

qualquer maneira. Por que não me deixa falar com um de seus pacientes, Dr.

Kelaritan? Depois, podemos discutir o que sabemos a respeito do Túnel durante o almoço. Em seguida, eu poderia entrevistar mais um ou dois pacientes...

- Almoço? - repetiu Kelaritan vagamente, como se nunca tivesse

ouvido a palavra.

- Almoço, sim. A refeição do meio do dia. Um velho hábito meu,

doutor. Mas isto pode esperar. Primeiro, gostaria de falar com um dos pacientes.

Kelaritan fez que sim com a cabeça. Disse para o advogado:

- Acho que podemos começar com Harrim. Hoje ele acordou bem-dis-

posto. O suficiente, pelo menos, para ser interrogado por um estranho.

- Que tal Gistin 190? - perguntou Cubello.

- Não é má ideia, mas ela não é tão forte quanto Harrim. Vamos deixar

que Harrim conte a ele a história, e depois poderá conversar com Gistin, e... oh, talvez com Chimmilit. Depois do almoço.

- Obrigado - disse Sheerin.

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- Por aqui, Dr. Sheerin.

Kelaritan apontou para o corredor envidraçado que ligava o seu es-

critório ao hospital. Era uma passagem elevada, com uma vista de 360º do céu e das colinas verde-acinzentadas que cercavam a cidade de Jonglor. Os raios dos quatro sóis penetravam por todos os lados.

Parando por um momento, o diretor do hospital olhou para a direita e

depois para a esquerda, apreciando a paisagem. As feições abatidas do homenzinho pareceram adquirir uma nova vitalidade ao serem iluminadas pelos raios quentes de Onos e os raios mais modestos de Dovim, Patru e Trey.

- Que dia esplêndido, senhores! - exclamou Kelaritan, com um entusi-

asmo que Sheerin achou surpreendente, vindo de uma pessoa tão austera e contida como ele parecia ser. - Que maravilha poder ver quatro sóis no céu ao mesmo tempo! Que bem me faz sentir a sua luz no meu rosto! Ah, onde estaríamos sem os nossos benditos sóis?

- É mesmo - concordou Sheerin.

Na verdade, ele próprio já estava se sentindo um pouco melhor.

A meio mundo de distância, uma das colegas de Sheerin 501 da

Universidade de Saro também olhava para o céu. Porém, a única emoção que sentia era medo.

Ela era Siferra 89, do departamento de arqueologia, e há um ano e

meio estava executando escavações no sítio arqueológico de Beklimot, na remota península de Sagikan.

No momento, estava rígida de terror, aguardando a catástrofe que se

aproximava. O céu não lhe oferecia nenhum consolo. Naquela parte do mundo, os únicos sóis visíveis no momento eram Tano e Sitha, e o brilho frio e cruel desses astros sempre a tinham deixado triste e deprimida. Dovim podia ser visto despontando no horizonte, atrás da serra de Horkkan. A luz mortiça do pequeno sol vermelho, porém, não contribuía em nada para levantar seu ânimo.

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Siferra sabia que em pouco tempo a luz quente e amarela de Onos sur-

giria no horizonte, o que a preocupava era algo muito mais sério do que a ausência temporária do sol principal.

Uma grande tempestade de areia estava se aproximando de Beklimot.

Em poucos minutos varreria a região. Ninguém sabia o que podia acontecer. As tendas podiam ser destruídas, as caixas com os espécimes, tão cuidadosamente classificados, podiam ser viradas, e o conteúdo misturado, as câmaras, o material de desenho, os mapas estratigráficos, compilados com tanto sacrifício... tudo em que haviam trabalhado durante tanto tempo podia ser perdido em poucos momentos.

Pior. Podiam todos morrer.

Pior ainda. As próprias ruínas de Beklimot, o berço da civilização, a

mais antiga cidade conhecida de Kalgash, corriam perigo. As valas de exploração que Siferra havia cavado na planície aluvial que cercava o sítio ainda estavam abertas. O vento em sua fúria, se fosse bastante forte, levantaria ainda mais areia do que estava carregando e a arremessaria com força indescritível nos frágeis restos de Beklimot, erodindo, soterrando, talvez mesmo derrubando as estruturas expostas e espalhando-as na planície ressequida.

Beklimot era um tesouro histórico que pertencia ao mundo inteiro, Si-

ferra assumira um risco calculado ao iniciar as escavações. Era impossível fazer uma pesquisa arqueológica sem destruir alguma coisa. Era parte do jogo. Mas ser a responsável por isto e ter a má sorte de sofrer a maior tempestade de areia no último século justo no momento em que as ruínas se encontravam mais

vulneráveis...

Não. Não, isso era demais. Se Beklimot fosse arrasado pela tempest-

ade em consequência das escavações, o nome de Siferra seria lembrado para sempre com desprezo nos meios científicos.

Talvez o lugar fosse amaldiçoado, como algumas pessoas supersticio-

sas costumavam afirmar. Siferra 89 nunca acreditara em forças sobrenaturais.

Entretanto, aquela escavação, que poderia ter sido o coroamento de sua carreira, só lhe trouxera problemas, desde o início. E agora ameaçava acabar com sua carreira... se não acabasse com sua vida.

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Eilis 18, um dos assistentes, chegou correndo. Era um homem magro e

franzino, que parecia insignificante diante da figura alta e atlética de Siferra.

- Prendemos no chão tudo que era possível! - exclamou, quase sem

fôlego. Agora fica por conta dos deuses!

A arqueóloga franziu a testa e replicou:

- Deuses? Que deuses? Está vendo algum deus nas vizinhanças, Eilis?

- Eu só queria dizer...

- Eu sei o que você queria dizer. Esqueça.

Do outro lado chegou Thuvvik 443, o capataz. Estava com os olhos ar-

regalados de medo.

- Moça, onde vamos nos esconder da tempestade? perguntou. - Não há

abrigo!

- Já lhe disse, Thuvvik. Atrás do morro.

- Vamos ser soterrados! Vamos morrer sufocados!

- O morro vai proteger vocês, não se preocupe - disse Siferra, com uma

convicção que estava longe de sentir, - Vá para lá! E leve os outros com você!

- E a senhora? Por que não vai também?

Siferra olhou para ele, preocupada. Será que ele estava pensando que

ela dispunha de um esconderijo particular, onde estaria mais segura do que os operários?

- Já vou, Thuvvik. Ande! Pare de me amolar!

Do outro lado da estrada, perto da construção de tijolos em forma

hexagonal que os primeiros exploradores haviam batizado de Templo dos Sóis, 10/391

Siferra avistou Balik 338. Apertando os olhos, protegendo-os com a mão contra a luz gélida de Tano e Sitha, olhava para o norte, para a direção de onde vinha a tempestade. A expressão no seu rosto era de angústia.

Balik era especialista em estratigrafia, mas também cuidava dos regis-

tros meteorológicos da expedição. Fazia parte do seu trabalho estar atento para a possibilidade de tempestades e outros eventos incomuns.

Normalmente, o tempo na península de Sagikan era bastante pre-

visível. O lugar era de incrível aridez, só chovia uma vez a cada dez ou vinte anos.

O único outro evento incomum era uma mudança brusca da circulação do ar, que colocava em ação forças ciclônicas e produzia uma tempestade de areia.

Isso, porém, só acontecia algumas vezes por século.

A expressão de desalento no rosto de Balik era um reflexo da culpa

que sentia por não haver previsto com maior antecedência a chegada da tempestade? Ou parecia tão horrorizado porque agora era capaz de avaliar toda a extensão da catástrofe que estava para se abater sobre o acampamento?

Tudo teria sido diferente, pensou Siferra, se tivessem um pouco mais

de tempo para se preparar. Agora podia compreender que todos os sinais estavam ali, para quem quisesse vê-los: a onda de calor, que tinha sido excessiva, mesmo para os padrões da península de Sagikan, a calmaria súbita que substituíra a brisa do norte, o estranho vento úmido que passara a soprar do sul. Os pássaros khalla, aquelas estranhas aves de rapina que assolavam a região como maus espíritos, tinham todos levantado voo assim que o vento sul começara a soprar, desaparecendo atrás das dunas do deserto, a oeste, como se estivessem sendo perseguidos por demônios.

Devíamos ter prestado mais atenção quando os pássaros khalla fu-

giram para a região das dunas, pensou Siferra, mas estávamos muito ocupados com as escavações. Preferimos ignorar todos os indícios. Negamos o óbvio. Finja que não viu os sinais de uma tempestade de areia e talvez ela resolva mudar de direção.

Depois, aquela pequena nuvem cinzenta aparecendo no norte, aquela

mancha escura quebrando a transparência do céu do deserto, que é sempre tão claro como vidro.

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Nuvem? Está vendo uma nuvem? Eu não estou vendo nada.

Negamos o óbvio.

Agora a nuvem era um imenso monstro negro, tomando metade do

céu. O vento ainda soprava do sul, mas não era mais úmido - parecia o bafo de uma fornalha - e havia outro vento, ainda mais forte, soprando da direção oposta. Um vento alimentava o outro. E quando se encontrassem...

- Siferra! - gritou Balik. - Está chegando! Vá para o abrigo!

- Já vou! Já vou!

Ela não queria ir para o abrigo. O que queria era correr de uma zona

da escavação para outra, cuidando de tudo ao mesmo tempo, fincando melhor no chão as estacas das tendas, verificando se as preciosas placas fotográficas estavam seguras, cobrindo com o corpo a fachada do recém-escavado Palácio Oc-togonal para proteger os maravilhosos mosaicos que haviam descoberto no mês anterior. Mas Balik estava certo. Siferra tinha feito tudo que era possível, naquela manhã caótica, para salvar as ruínas. Agora, só lhe restava encolher-se atrás do maior morro que havia nas vizinhanças e rezar para que os defendesse da fúria da tempestade.

Siferra saiu correndo. As pernas musculosas a conduziam com facilid-

ade sobre a areia ressequida. A arqueóloga tinha menos de quarenta anos, uma mulher alta, forte, no apogeu de sua forma física. Até aquele dia, não havia sentido nada a não ser otimismo em relação a qualquer aspecto de sua existência.

De repente, porém, estava tudo ameaçado: sua carreira, sua saúde, até mesmo sua vida.

Os outros estavam amontoados na base do morro, atrás de uma bar-

reira improvisada com lonas e estacas de madeira.

- Com licença - disse Siferra, abrindo caminho entre eles.

- Moça - gemeu Thuvvik. - Moça, faça a tempestade ir embora!

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Como se ela fosse algum tipo de deusa com poderes mágicos. Siferra

começou a rir. O capataz fez um gesto estranho para ela. Provavelmente um sinal religioso.

Os outros operários, que viviam todos na pequena aldeia a leste das

ruínas, fizeram o mesmo sinal e começaram a murmurar alguma coisa para Siferra. Orações? Para ela? Sentiu um arrepio. Aqueles homens, como os pais e avós, tinham passado a vida cavando em Beklimot, a serviço dos arqueólogos, descobrindo pacientemente as antigas construções e peneirando a areia à procura de minúsculos artefatos, com certeza, já haviam passado por outras tempestades de areia. Será que sempre ficavam tão assustados?

Ou esta tempestade seria pior do que as outras?

- Aí vem ela - disse Balik. - Aí vem ela - repetiu, cobrindo o rosto com as mãos.

A tempestade se abateu sobre eles com toda a sua fúria. Siferra per-

maneceu de pé a princípio, olhando por uma abertura na lona para a monumental muralha ciclópica da cidade do outro lado da estrada, como se, simplesmente por manter o olhar fixo nas ruínas, pudesse protegê-las da destruição.

Momentos depois, porém, isto se tomou impossível. Rajadas de vento incrivelmente quente penetraram no abrigo improvisado. A arqueóloga teve a impressão de que o cabelo e até as sobrancelhas estavam em chamas. Virou-se de costas, le-vantando uma das mãos para proteger o rosto.

Neste momento, a areia chegou, e tudo ficou invisível. Era como uma

chuva, só que mais forte do que a chuva comum. O barulho era insuportável.

Não o rugir do trovão, mas o som de milhões de partículas de areia se chocando contra o solo esturricado. Além daquele ruído principal, havia outros: um sibilar constante, um rangido intermitente e um tamborilar delicado. E um uivo de ar-repiar. Siferra imaginou toneladas de areia se precipitando do céu, soterrando as muralhas, soterrando os templos, soterrando as construções baixas da zona residencial, soterrando o acampamento. E soterrando toda a equipe de

arqueólogos.

Ela se virou de frente para a encosta do morro e esperou pelo fim. Um

pouco para sua própria surpresa e humilhação, começou a chorar

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histericamente, soluços fundos, que vinham das entranhas do seu corpo. Não queria morrer. Claro que não: quem queria? Mas nunca havia percebido, até aquele momento, que podia haver alguma coisa pior do que a morte.

Beklimot, o mais famoso sítio arqueológico do mundo, a mais antiga

cidade de que se tinha notícia, o berço da civilização, iria ser destruída - graças, exclusivamente, à sua negligência, Gerações de grandes arqueólogos de Kalgash haviam trabalhado ali no século e meio que se seguira à descoberta de Beklimot.

Primeiro, Galdo 221, o maior de todos, e depois Marpin, Stirmupad, SheIbik, Numoin, uma lista de peso... e agora Siferra, que por imprudência deixara o lugar descoberto quando uma tempestade de areia se aproximava.

Beklimot passara muito tempo sob a areia. As ruínas tinham dormido

pacificamente durante milhares de anos, preservadas como eram no dia em que os habitantes finalmente se renderam à aridez do clima e abandonaram o local.

Todos os arqueólogos que trabalharam ali desde o tempo de Galdo tinham tido o cuidado de expor apenas uma pequena parte da cidade e de levantar cercas e barreiras para proteger da ameaça, pouco provável, mas de extremo perigo, de uma tempestade de areia. Todos, até chegar a vez de Siferra.

Naturalmente, ela também levantara as cercas e barreiras de praxe.

Não, porém, na frente das novas escavações, não no setor mais importante, onde concentrara suas investigações. Algumas das construções mais antigas e importantes de Beklimot ficavam ali. E a arqueóloga, impaciente para começar a exploração, levada pelo impulso irresistível de ir cada vez mais longe, deixara de tomar as precauções mais elementares. Não pensara assim na ocasião, é claro.

Mas agora, com o ruído demoníaco da tempestade nos ouvidos e o céu negro de destruição...

Talvez seja melhor eu não sobreviver, pensou Siferra. Assim não terei

que ler o que na certa dirão a meu respeito em todos os livros de arqueologia a serem publicados nos próximos cinquenta anos. "As famosas ruínas de Beklimot, que forneceram informações inestimáveis a respeito dos primórdios da civiliza-

ção em Kalgash até serem destruídas em consequência das ações irresponsáveis de uma jovem e ambiciosa arqueóloga, Siferra 89, da Universidade de Saro..."

- Acho que está passando - sussurrou Balik.

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- O que é que está passando? - perguntou Siferra.

- A tempestade. Escute! O barulho lá fora diminuiu.

- Devemos estar enterrados debaixo de tanta areia que não dá para

ouvirmos mais nada.

- Não, não estamos enterrados, Siferra!

Balik puxou a lona que estava à frente deles e conseguiu levantá-la li-

geiramente. Siferra olhou na direção do espaço aberto entre o morro e a muralha da cidade. Não queria acreditar nos próprios olhos.

O que estava vendo era o azul-escuro do céu e o brilho dos sóis. Era

apenas a luz branca e fria de Tano e Sitha, mas no momento achou aquela luz a coisa mais bonita que já vira.

A tempestade havia passado. Estava tudo calmo de novo. Onde estava

a areia? Por que não estava tudo enterrado na areia?

A cidade ainda estava visível: os grandes blocos da parede de pedra, o

brilho dos mosaicos, o telhado pontiagudo do Templo dos Sóis. Até as tendas estavam quase todas de pé, incluindo as mais importantes. Apenas o acampamento dos operários tinha sido afetado, mas os estragos podiam ser consertados em poucas horas.

Surpresa, ainda sem coragem de acreditar, Siferra saiu do abrigo e ol-

hou em torno. Não havia areia solta no chão. O solo duro, de cor escura, cozido pelo sol, que constituía a superfície no local da escavação, ainda estava bem visível. Agora estava um pouco diferente, parecia ter sofrido os efeitos de uma erosão instantânea, mas estava livre de qualquer depósito que a tempestade pudesse trazer.

Balik disse, em tom pensativo:

- Primeiro chegou a areia e depois o vento. O vento pegou toda a areia

que foi jogada em cima de nós, pegou-a tão rapidamente quanto havia caído, e 15/391

carregou-a para o sul. Foi um milagre, Siferra. Não há outro nome para o que aconteceu. Veja... dá para ver onde o solo foi arranhado, onde a camada de areia foi arrastada pelo vento. O equivalente a talvez cinquenta anos de erosão ocorreu em apenas cinco minutos, mas...

Siferra mal estava escutando. Ela segurou Balik pelo braço e virou-o

de frente para uma estrutura lateral, longe do lugar principal onde estavam escavando.

- Olhe ali.

- Onde? O quê?

A arqueóloga apontou.

- A colina de Thombo.

O meteorologista improvisado arregalou os olhos.

- Céus! Está rachada ao meio!

A colina de Thombo era uma elevação de forma irregular a uns quinze

minutos a pé do lugar onde estavam. Ninguém trabalhava ali há mais de cem anos, desde a segunda expedição do grande pioneiro Galdo 221, e Galdo não encontrara nada de importante ali. Era considerada como o depósito de lixo da antiga cidade de Beklimot, um local interessante, sem dúvida, mas trivial em comparação com as maravilhas que a cidade em si tinha a oferecer.

Parecia, porém, que a colina de Thombo recebera em cheio o impacto

da tempestade e o que gerações de arqueólogos não se deram ao trabalho de fazer, a tempestade de areia conseguira em apenas alguns instantes. Uma faixa em ziguezague fora arrancada da encosta, como um ferimento monstruoso, deixando à vista a parte interna da colina. Exploradores experientes como Siferra e Balik precisavam apenas de um olhar para compreender a importância do que tinha sido exposto.

- Existia uma cidade debaixo do monturo - murmurou Balik.

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- Mais de uma, ao que parece. Uma série de cidades, provavelmente -

disse Siferra.

- Acha mesmo?

- Olhe. Olhe ali, do lado esquerdo.

Balik soltou um longo assovio.

- Não é uma parede no estilo hachurado, debaixo do canto daquele

alicerce ciclópico?

- Isso mesmo.

Siferra sentiu um frio na espinha. Olhou para Balik e viu que ele es-

tava tão surpreso quanto ela: rosto pálido, olhos arregalados.

- Minha nossa! - murmurou, com voz rouca. - O que nós temos aqui,

Siferra?

- Ainda não sei, mas vou começar a investigar agora mesmo.

A arqueóloga olhou para trás, para o abrigo, onde Thuvvik e os com-

panheiros ainda se encolhiam, assustados, fazendo sinais religiosos e balbu-ciando preces, como se não compreendessem que o perigo já havia passado.

- Thuvvik! - gritou Siferra, gesticulando vigorosamente, de forma

quase agressiva. - Saiam daí, você e seus homens! Temos trabalho para fazer!

Harrim 682 era um homem grande e corpulento, de cinquenta e pou-

cos anos, com músculos proeminentes nos braços e no peito e uma boa camada de gordura por cima. Sheerin, examinando-o pela janela do quarto de hospital, teve certeza de que ele e Harrim se dariam muito bem.

- Sempre simpatizei com pessoas grandes - explicou o psicólogo para

Kelaritan e Cubello. - Acho que me identifico com elas. Não que eu seja musculoso, como aquele - emendou Sheerin, com uma risada descontraída. - Sei que 17/391

não passo de um monte de banha. A não ser aqui - acrescentou, apontando para a própria cabeça. - Qual é a profissão desse tal de Harrim?

- Estivador - respondeu Kelaritan. - Trabalha há trinta e cinco anos no porto de Jonglor. Ganhou uma entrada para a inauguração do Túnel do Mistério em um sorteio. Levou a família inteira. Foram todos afetados, em maior ou menor grau, mas ele foi o pior caso. É embaraçoso para um homem forte como ele vir a sofrer de problemas psicológicos.

- Posso imaginar - disse Sheerin. - vou me lembrar disso. Podemos

falar com ele agora?

Entraram no quarto. Harrim estava sentado, olhando sem interesse

para um cubo giratório que projetava meia dúzia de raios coloridos na parede em frente a sua cama. Sorriu amistoso quando viu Kelaritan, mas pareceu contrair-se quando percebeu que o advogado Cubello o acompanhava e assumiu uma atitude positivamente hostil quando Sheerin entrou no aposento.

- Quem é ele? - perguntou a Kelaritan. - Outro advogado?

- Nada disso. Quero apresentar-lhe Sheerin 501, da Universidade de

Saro. Está aqui para ajudá-lo.

- Hum! - fez Harrim, desdenhoso. - Outro médico de lunáticos! Que

bem eles me fizeram até agora?

- Tem toda razão - disse Sheerin. - A única pessoa que pode de fato

ajudar Harrim a ficar bom é o próprio Harrim, certo? Você sabe disso, e eu sei disso. Quem sabe eu acabo convencendo os meus colegas desta verdade? -

Sentou-se na beira da cama. Ela rangeu com o peso do psicólogo. - Pelo menos, eles têm camas decentes neste lugar. Devem ter uma boa estrutura, para agüentar nós dois ao mesmo tempo... Você não gosta de advogados, não é? Pois somos dois, amigo.

- Eles só servem para infernizar a vida da gente - disse Harrim. - São

cheios de truques. Mandam você dizer uma coisa, mesmo que não esteja

pensando, dizendo que poderão ajudá-lo se você disser isso assim assim, e acabam usando suas próprias palavras contra você. É assim que vejo a coisa.

18/391

Sheerin olhou para Kelaritan.

- É absolutamente necessário que Cubello esteja aqui durante esta en-

trevista? Acho que nosso amigo se sentiria mais à vontade sem ele.

- Estou autorizado a participar de qualquer... - começou Cubello,

muito sério.

- Por favor - disse Kelaritan. - Sheerin está certo. Três visitas ao

mesmo tempo pode ser demais para Harrim. E você já ouviu a história dele.

- Bem... - murmurou Cubello, de cara feia. Pensou um pouco e depois

foi embora sem dizer mais nada. Sheerin fez um gesto discreto para que Kelaritan se sentasse no canto mais afastado. Depois, voltando-se para o doente, sorriu o seu sorriso mais simpático e disse:

- Está sendo duro para você, não é?

- Ponha duro nisso.

- Há quanto tempo está aqui?

Harrim deu de ombros.

- Uma semana ou duas. Talvez um pouco mais. Não sei. Desde...

Não disse mais nada.

- Desde a Exposição de Jonglor? - perguntou Sheerin.

- Desde que fiz aquela viagem.

- Faz mais tempo do que você pensa.

- É mesmo? - Os olhos de Harrim assumiram um expressão assustada.

Ele não queria ouvir há quanto tempo estava no hospital. Mudando de tática, Sheerin disse:

19/391

- Aposto que você nunca pensou que um dia se sentiria ansioso para

voltar às docas, hein?

- É verdade! - concordou Harrim, com um sorriso. - Puxa, o que eu

não daria para amanhã estar carregando aqueles caixotes! - Olhou para as mãos.

Eram mãos fortes, calejadas, com dedos grossos, achatados nas pontas, um deles torto por causa de alguma fratura antiga. - Estou ficando mole de tanto não fazer nada. Assim, quando voltar ao trabalho, não vou mais agüentar pegar no pesado.

- Neste caso, o que o prende aqui? Por que você simplesmente não se

levanta, veste uma roupa e dá o fora? Kelaritan, do canto do quarto, fez um som de advertência. Sheerin silenciou-o com um gesto.

Harrim olhou para o psicólogo, surpreso.

- Levantar-me e dar o fora?

- Por que não? Ninguém vai impedi-lo.

- Mas se eu fizer isto... se eu fizer isto... Não concluiu a frase.

- Se você fizer isto, o quê? - perguntou Sheerin. Harrim ficou em silêncio por um longo tempo, com uma expressão preocupada, a testa franzida. Vári-as vezes fez menção de falar, mas se arrependeu. O psicólogo esperou, paciente.

Afinal, o estivador declarou, com uma voz tensa, rouca, estrangulada:

- Não posso sair na rua. Por causa da... por causa da... por causa da... -

a palavra custou a sair - _por causa da Escuridão.

- Por causa da Escuridão - repetiu Sheerin.

A palavra ficou pairando entre eles, como se fosse um objeto sólido.

Harrim parecia sem jeito, ou mesmo envergonhado. Sheerin lembrou-

se de que para as pessoas da sua classe, Escuridão era uma palavra raramente usada na presença de estranhos. Para Harrim, se não era exatamente uma palavra obscena, pelo menos era sacrílega. Ninguém em Kalgash gostava de pensar na 20/391

Escuridão, quanto menor o nível de instrução, porém, mais perigoso era pensar na possibilidade de que os seis sóis um dia pudessem desaparecer do céu ao mesmo tempo, sujeitando o planeta à escuridão total. A ideia era inconcebível.

Literalmente inconcebível.

- Por causa da Escuridão - disse Harrim. - É disso que tenho medo. De

que se sair na rua, estarei de novo na Escuridão. É isso. A Escuridão, de novo.

- Houve uma inversão completa dos sintomas nas últimas semanas -

observou Kelaritan, em voz baixa. - No princípio, era exatamente o contrário. Ele se recusava a ficar em recintos cobertos, a menos que estivesse sedado, Um caso típico de claustrofobia. Depois de algum tempo, esta mudança para claustrofilia.

Achamos que é um sinal de que a cura está próxima.

- Talvez - disse Sheerin. - Mas se não se importa...

Dirigindo-se a Harrim, perguntou:

- Você foi um dos primeiros a andar no Túnel do Mistério, não foi?

- Foi logo no primeiro dia - respondeu Harrim, com um traço de or-

gulho na voz. - Houve uma loteria na cidade. Cem pessoas ganharam entradas para o brinquedo. Devem ter vendido milhões de bilhetes, e o meu foi o quinto a ser sorteado. Eu, minha mulher, meu filho, minhas duas filhas, nós todos andamos no Túnel. Logo no primeiro dia.

- Se importa de me contar como foi?

- Bem... - começou Harrim. - Foi... eu nunca tinha estado no escuro,

você entende. Nem mesmo em um quarto escuro. Nunca. Jamais havia pensado no assunto. Quando eu era criança, tinha sempre uma lâmpada acesa no meu quarto. Quando me casei e tive minha própria casa, era natural que também tivesse uma. Minha mulher pensa como eu. A escuridão não é natural. Não é algo fadado a existir.

- Mesmo assim, você entrou no sorteio.

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- Ora, isso era diferente. Era diversão, você entende? Uma coisa espe-

cial. Um programa de feriado. A grande exposição era para comemorar os quinhentos anos da fundação da cidade, certo? Todo mundo estava comprando bilhetes. Achei que devia ser um brinquedo diferente, um brinquedo muito bom, para ter essa propaganda toda, certo? Foi por isso que comprei o bilhete.

Quando fui sorteado, todos os meus colegas ficaram com inveja. Alguns

chegaram a me oferecer dinheiro pelo bilhete. "Não senhor", disse para eles,

"este bilhete é para mim e minha família..."

- Então você estava animado para entrar no Túnel?

- Claro que estava.

- Que aconteceu durante o passeio? Como se sentiu?

- Bem... - começou Harrim. - Passou a língua nos lábios e seus olhos

assumiram um ar distante. - Havia aqueles carrinhos, você sabe, com tábuas no interior para a gente sentar, abertos em cima. Havia vaga para seis pessoas em cada carrinho, mas no nosso caso, fomos apenas nós cinco, porque estávamos juntos, e quase dava para encher um carro sem colocar um estranho conosco. Aí uma música começou a tocar, e o carrinho entrou no Túnel. Andava bem devagar, não se parecia nada com um carro andando na estrada, apenas engatinhava.

De repente, estávamos dentro do Túnel. Aí... aí...

Sheerin esperou.

- Continue - disse, depois de uns minutos, vendo que Harrim não dava

sinal de prosseguir. - Conte o que aconteceu. Estou muito interessado em saber como foi.

- Aí ficou tudo escuro - disse Harrim, com voz rouca. A lembrança

fazia suas mãos tremerem. - Caiu em cima da gente com se fosse um peso

enorme, entende? Ficou tudo preto. - O estivador começou a tremer convulsiva-mente. Ouvi as risadas do meu filho Trinit. Ele é um menino inteligente. Aposto que achou que a Escuridão era uma coisa suja. De modo que ria, ria, e eu lhe disse para parar. Uma das minhas filhas ficou com medo, e eu disse a ela que estava tudo bem, que não havia nenhum perigo, que a luz ia voltar em quinze 22/391

minutos e ela devia pensar naquilo como um brinquedo e não como uma coisa assustadora. Mais aí... aí...

Calou-se novamente. Desta vez, Sheerin não disse nada.

- Aí eu comecei a me sentir mal. Era tudo Escuridão ... Escuridão...

não pode imaginar como é... não pode imaginar ... como é preta... como é preta...

a Escuridão... a Escuridão ... Harrim começou a soluçar, de repente. - A Escuridão... meu Deus, a Escuridão...

- Calma, homem. Já passou. Olhe pela janela! Hoje temos quatro sóis

no céu, Harrim. Calma!

- Deixe comigo - disse Kelaritan. Ele havia se aproximado da cama no

momento em que os soluços começaram. Estava com uma agulha de injeção.

Espetou-a no braço musculoso de Harrim, e o estivador se acalmou de imediato.

Recostou-se no travesseiro, com um sorriso estúpido no rosto.

- Agora temos que ir - disse Kelaritan.

- Mas eu mal comecei a...

- Não vai conseguir que ele diga mais nada coerente. É melhor irmos

almoçar.

- Está bem - concordou Sheerin, de má vontade. Para sua surpresa,

não estava com fome. Ele mal podia recordar de um dia que tivesse se sentido assim.

- E ele é um dos que estão em melhor estado?

- É verdade.

- Então, como estão os outros?

- Alguns ficaram totalmente catatônicos. Outros precisam ser man-

tidos a maior parte do tempo sob efeito de sedativos. Na primeira fase, como eu 23/391

disse, eles têm medo de lugares fechados. Quando saíram do Túnel, não havia nada de errado com eles, exceto o fato de sofrerem de uma forma particularmente grave de claustrofobia. Recusavam-se a entrar em recintos fechados: palá-

cios, mansões, casas, apartamentos, barracos e tendas.

Sheerin estava profundamente chocado. Sua tese de doutorado fora a

respeito de doenças causadas pela escuridão. Era por isto que estava ali. Entretanto, nunca tinha ouvido falar de nada parecido.

- Eles se recusavam a entrar em recintos fechados? Onde dormiam?

- Ao ar livre.

- Alguém tentou forçá-los?

- Oh, sim, claro que sim. Acontece que ficavam violentamente histéri-

cos. Alguns chegaram a tentar o suicídio, batendo com a cabeça nas paredes, coisas assim. Era impossível mantê-los em um recinto fechado, a não ser com uma camisa de força ou uma dose maciça de sedativo.

Sheerin olhou para o corpulento estivador, que agora dormia placida-

mente, e sacudiu a cabeça.

- Pobres-diabos.

- Essa é a primeira fase. Harrim agora está na segunda. A fase

claustrofilica. Acostumou-se a ficar aqui, e a síndrome se inverteu por completo.

Ele sabe que está seguro no hospital: as luzes ficam acesas o tempo todo. Mas embora possa ver os sóis pela janela, tem medo de sair. Acha que lá fora está escuro.

- Isto é absurdo! - protestou Sheerin . - Nunca está escuro lá fora!

No momento em que disse isto, sentiu-se um tolo. Kelaritan, porém,

não pareceu notar.

24/391

- Todos nós sabemos disso, Dr. Sheerin. Qualquer pessoa em seu juízo

perfeito sabe disso. O problema com as pessoas que sofreram o trauma do Túnel do Mistério é que elas não estão mais em seu juízo perfeito.

- Compreendo - disse Sheerin, um pouco envergonhado.

- Mais tarde, terá oportunidade de conversar com outros pacientes -

disse Kelaritan. - Talvez eles lhe permitam enxergar o problema de outro ângulo.

Amanhã, vamos levá-lo para conhecer o Túnel. Naturalmente, tivemos que

fechá-lo depois que as dificuldades começaram, mas as autoridades estão ansiosas para reabri-lo. O investimento, pelo que ouvi dizer, foi muito grande. Mas agora acho que está na hora de almoçarmos, não é, doutor?

- Está bem, vamos almoçar - concordou Sheerin novamente, ainda

com menos entusiasmo do que da primeira vez.

A grande cúpula do Observatório da Universidade de Saro, que,

majestosa, dominava as encostas verdes do Morro do Observatório, brilhava à luz da tarde. O pequeno disco avermelhado de Dovim já havia desaparecido no horizonte, mas Onos ainda estava alto a oeste, e Trey e Patru, atravessando o céu a leste em uma diagonal precisa, deixavam trilhas reluzentes na superfície da cúpula.

Beenay 25, um rapaz ágil e esguio, de gestos rápidos e precisos, camin-

hava para lá e para cá no pequeno apartamento na cidade de Saro que compartil-hava com a companheira oficial, Raissta 717, recolhendo livros e anotações.

Raissta, instalada com conforto no sofá verde escuro, olhou para ele e franziu a testa.

- Vai a algum lugar, Beenay?

- Ao Observatório.

- Mas ainda é muito cedo! Em geral, você só vai lá depois que Onos se

põe.

- Hoje tenho um encontro, Raissta.

25/391

Ela lhe dirigiu um olhar sedutor. Os dois eram alunos de pós-

graduação e tinham quase trinta anos. Ambos eram professores-assistentes, ele de astronomia, ela de biologia. Fazia apenas sete meses que se haviam tornado companheiros oficiais. A relação era recente, mas os primeiros problemas já começavam a aparecer. Beenay fazia seu trabalho à noite, quando apenas os sóis mais fracos estavam no céu. Raissta se sentia mais animada durante o dia, iluminada pelos raios dourados de Onos.

Nos últimos tempos, ele passava cada vez mais tempo no Obser-

vatório, as coisas estavam chegando a tal ponto que raramente os dois estavam acordados ao mesmo tempo.

Beenay sabia que a moça estava passando por maus pedaços. Ele tam-

bém passava por maus pedaços. Entretanto, o estudo que estava fazendo da órbita de Kalgash era um trabalho de extrema complexidade e muito absorvente.

Se Raissta tivesse a paciência de esperar mais algumas semanas... um mês ou dois, talvez..

- Não pode ficar mais um pouco esta noite? - perguntou a moça.

Beenay sentiu um aperto no coração. Raissta estava lhe lançando seu

olhar de venha-e-vamos-brincar. Não era fácil resistir e, lá no fundo, ele não queria isso. Entretanto, Yimot e Faro estavam à sua espera.

- Já lhe disse. Tenho um...

- ...encontro. Pois eu também tenho. Com você.

- Comigo?

- Ontem você me disse que poderia ter algum tempo livre esta tarde.

Eu estava contando com isso, você sabe. De modo que reservei algumas horas para nós. Cheguei a fazer o serviço do laboratório de manhã...

A coisa estava ficando cada vez pior, pensou Beenay. Ele lembrou-se

de que realmente havia dito alguma coisa a respeito de passar a tarde com 26/391

Raissta, esquecendo-se por completo do compromisso com os dois jovens

estudantes.

Agora, ela fazia beicinho e sorria ao mesmo tempo, um truque que

conseguia executar com perfeição. Beenay estava muito tentado a fazer o que ela queria, mas isto implicaria deixar Faro e Yimot esperando por mais de uma hora, o que não seria justo. Esperando por mais de duas horas, provavelmente.

Além disso, tinha que admitir que estava ansioso para saber se os cálculos dos dois estudantes estavam de acordo com os seus.