O Canto dos Helenos: Poesia e Performance por Fernando Brandão dos Santos - Versão HTML

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O CANTO DOS HELENOS:

POESIA E PERFORMANCE

Fernando Brandão dos Santos* * Faculdade de Ciências

e Letras, Campus de

Araraquara/UNESP

Araraquara, SP - Brasil.

RESUMO: O presente estudo propõe uma breve reflexão so-

bre a gênese dos gêneros literários na Grécia Antiga. Pretende-

se aqui, em primeiro lugar, tirar-nos dessa “zona de conforto”

quando falamos em “literatura grega” na antiguidade, pelo

menos do período de Homero até o século V a. C., momento

em que, de fato, a escrita consolida-se não só no continente,

mas se espalha mais além, alcançando a península itálica e

gerando o que hoje temos como alfabeto romano. Para tanto,

examinamos alguns termos que nos parecem tão claros e que

designavam outros fazeres, tais como poesia, poema, entre ou-

tros . Examinamos também questões relativas às poesias épica,

lírica e dramática.

PALAVRAS-CHAVES: gênese, gêneros literários, literatura,

literatura grega, antiguidade, poesia, canto, poesia épica, poe-

sia lírica, poesia dramática.

THE SINGING OF THE HELLENES:

POETRY AND PERFORMANCE

ABSTRACT: This study presents a brief reflection on the ge-

nesis of literary genres in Ancient Greece. It is intended here,

in the first place, take us off this "comfort zone" when we talk

about "Greek literature" in antiquity, at least from the period

of Homer until the fifth century. B.C. , moment when, in fact,

the writing has become stable not only in the continent but

spreads out reaching the Italian peninsula and generating what

we have today as the Roman alphabet. Therefore, we examine

some terms that appear to be so clear for us which termed other

doings, such as poetry, poem, among others. We also examine

issues concerning the epic, lyrical and dramatic poetry.

KEYWORDS: genesis, literary genders, literature, Greek

literature, antiquity, poetry, song, epic poetry, lyric poetry,

dramatic poetry.

Introdução: PoesIa, canto, Performance

O termo “poesia”, que hoje usamos confortavelmente para

designar um gênero literário, um modo de expressão artístico

que usa como meio de expressão a linguagem, sobretudo es-

crita, vem do grego antigo ποίησις. É preciso imediatamente

esclarecer, para um estudo da poesia grega antiga, algumas dis-

tinções existentes entre o nosso modo de conceber e de fazer

poesia e o modo de conceber e compor “poesia” entre os gre-

gos antigos. Ποίησις tem sua origem no ποιέω cujo sentido

primeiro gravita em torno do campo semântico do que enten-

demos por fazer, produzir, realizar, moldar, criar. E, de fato, ainda em nossa concepção de poesia há a idéia do “fazer poé-

tico” (que, rigorosamente, seria uma tautologia) como um ato

criador, envolvendo até mesmo as camadas da irracionalidade

comandadas por operações de ordem psicológica, por oposi-

1. Há ainda uma outra

ção ao discurso organizado, lógico, apresentado pela prosa.1

discussão em torno do

termo poíesis ao lado do

Nosso propósito aqui, além de navegar por essas águas,

termo poíema, que seria o

ou seja, pelas discussões sobre o sentido último da poesia, é o

resultado do ato criador,

de apreciar criticamente, na medida do possível, o significado

ou seja o ato por oposição

à coisa criada. Para apreciar

do “fazer poético” a partir do ponto de vista expresso pelos pró-

melhor essa questão,

prios poetas da Grécia antiga em suas obras, já que inexiste, até

recomendamos a leitura

surgir a Poética de Aristóteles, um tratado teórico de poesia no

dos livros Conceito de Poesia

(LYRA, 1986) e O arco e

mundo grego. Entretanto, é preciso notar que os poetas gregos,

a Lira (PAZ, 1982). Para

muitas vezes, deixaram-nos pistas de como eles próprios enten-

recentes discussões sobre a

poesia grega antiga, música,

diam o seu fazer, ainda que não o entendessem como “poético”.

dança, recomendamos

Então, deixemos claro que os autores da poesia grega an-

The Cambridge

tiga, isto é, os poetas gregos, viam o seu fazer de um modo

Companion to Greek Lyric

(BUDELMANN, 2009);

um pouco diferente do nosso. Pode-se dizer que isso é óbvio,

Ancient Greek Music

pois estão, a partir de nós, em um outro tempo e espaço, e

(WEST, 1992); A flauta e

este argumento nos parece muito justo. Mas não podemos

a lira. Estudos sobre poesia

grega e papirologia (JESUS,

nos esquecer de que, de alguma forma, ainda que de modo

2008); The Dance of the

precário, somos, querendo ou não, sabendo ou não, os legíti-

Muses. Choral Theory

mos herdeiros dessas concepções originadas no mundo antigo.

and Ancient Greek Poetics

(DAVID, 2006).

Portanto, estamos sempre diante de uma situação paradoxal

232

que nos parece não ter solução: herdeiros legítimos que somos

de todo esse passado ocidental, estamos muito longe de nos

parecermos, no que concerne à poesia, aos nossos predecesso-

res. Isso faz algum sentido?

Se os poetas da antiguidade helênica “não viam” como

nós o seu fazer “poético”, como é então que o concebiam?

Responder a esta questão, talvez, seja o objetivo primeiro e

último de nossa busca sobre a poesia no mundo antigo. Mas

também, de imediato, surge a primeira dificuldade em reali-

zá-la, pois há uma imensa lacuna de tempo entre nós e eles.

Portanto os conceitos expressos nessa poesia, embora muitas

vezes soando semelhantes aos nossos, estão muito distantes

para que possamos compreendê-los em sua plenitude. Para

agravar esse problema de distanciamento “espiritual”, há um

outro problema mais palpável que é a imensa precariedade

como que esses textos chegaram até nós. Muitos deles se per-

deram, outros se encontram em estado fragmentário e muito

pouco chegou intacto até nós. Talvez, com toda a iluminação

que os métodos de abordagem de poesia possam nos trazer,

estejamos fadados a apenas ter um vislumbre do brilho ema-

nado por esses fragmentos e textos que, na verdade, esboçam

magníficos templos de palavras, melodias e cantos, como que

roteiros para uma perfomance ainda mais grandiosa do que

verdadeiramente podemos supor. E como a análise de qual-

quer obra de arte se justifica pela própria possibilidade de re-

leitura, permitida por ela mesma, o estudioso pode sentir-se

gratificado pela experiência exuberante que essas formas de

poesia, ainda que fragmentadas, permitem.

canto, mIto: a função da PoesIa

A atividade poética na Grécia está ligada primeiramente

a uma idéia de inspiração divina, vinda ao homem através das

Musas, revelando um passado glorioso. As Musas, segundo a

tradição mítica, são filhas de Zeus, deus pai e rei do Olimpo

e de Memória, Mnemosyne. Segundo a tradição emitida por

Hesíodo, da união de Zeus com Memória por nove noites,

nasceram nove deusas, cada uma presidindo a uma atividade

artística. Mas todas as atividades artísticas se voltam para o

louvor do pai Zeus. Veja-se o proêmio da Teogonia de Hesío-

do, poeta do fim do século VII a. C.:

233

2. Para a geração das

Pelas Musas heliconíades comecemos a cantar.

Musas, vejam-se vv. 53-

Elas têm grande e divino o monte Hélicon

67. Vejam-se também o

livro de Luis S. Krausz. As

em volta da fonte violácea com pés suaves

Musas. Poesia e divindade

dançam e do altar do bem forte filho de Cronos.(...)

na Grécia arcaica. (2007) e

(HESÍODO, 1991, p. 105) 2

o artigo de Andrew Baker

The Music of th Muses

(2010, p 11-19).

Se nos mantivemos atentos aos textos de Homero e He-

síodo, os dois poetas mais antigos da Grécia, já se pode uma

diferença fundamental entre as atividades artísticas e as nos-

sas tradições literárias. Homero, na Ilíada, um dos poemas

mais antigos do ocidente, cujo tema central é o ódio do herói

Aquiles contra os próprios gregos, sobretudo contra o rei dos

homens ( ἄναξ ἀνδρῶν), Agamêmnon, no prólogo apresenta

um pedido a deusa, isto é, à Musa: que ela cante (ela que é

detentora da voz do poema) o ódio funesto de Aquiles:

μῆνιν ἄειδε θεὰ Πηληϊάδεω Ἀχιλῆος

οὐλομένην, ἣ μυρί᾽ Ἀχαιοῖς ἄλγε᾽ ἔθηκε

πολλὰς δ᾽ ἰφθίμους ψυχὰς Ἄϊδι προΐαψεν

ἡρώων, αὐτοὺς δὲ ἑλώρια τεῦχε κύνεσσιν

οἰωνοῖσί τε πᾶσι, Διὸς δ᾽ ἐτελείετο βουλή,

ἐξ οὗ δὴ τὰ πρῶτα διαστήτην ἐρίσαντε

Ἀτρεΐδης τε ἄναξ ἀνδρῶν καὶ δῖος Ἀχιλλεύς.

Canta, deusa, a ira do Peleida Aquiles,

desgraçada, que inúmeras dores impôes aos aqueus,

muitas vidas vigorosas de heróis ao Invisível

arremessou; fez deles caça para cães e para

todas as aves de rapina – de Zeus cumpria-se o desígnio –

primeiramente a partir de onde discordaram os dois brigando,

o Atrida e rei dos homens e o divino Aquiles.

3. Tradução de minha

(HOMERI, 1930, p.1, vv. 1-7)3

própria lavra.

Hesíodo também solenemente declara que, através dele,

Hesíodo, é que vamos conhecer o hino cantado pelas musas

ao caminharem pela região do monte Hélicon, onde se ba-

nham e vão até o Olimpo, sempre hineando Zeus, os outros

deuses mas, sobretudo, Zeus, motivo original e razão última

do canto. A atividade poética, então, aparece como um ofício

sagrado, um dom especial que liga o cantor (aedo), um mor-

tal, ao mundo dos deuses que, por sua vez, diferem dos ho-

mens sobretudo por ser imortais. E mais, de uma certa forma,

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como se observou Jean-Pierre Vernant, a atividade poética se

aproxima da atividade profética:

Aliás, entre a adivinhação e a poesia oral tal como ela se exerce,

na idade arcaica, nas confrarias dos aedos, de cantores e músi-

cos, há afinidades e mesmo interferências, que foram assinala-

das várias vezes, Aedo e adivinho têm em comum um mesmo

dom de “vidência”, privilégio que tiveram de pagar pelo preço

de seus olhos. Cegos para a luz, eles vêem o invisível. O deus

que os inspira mostra-lhes, em uma espécie de revelação, as

realidades que escapam ao olhar humano. Esta dupla visão age

em particular sobre as partes do tempo inacessíveis às criaturas

mortais: o que aconteceu outrora, o que ainda não é. O saber

ou a sabedoria, a sophia, que Mnemosyne dispensa aos seus

eleitos é uma ‘onisciência” de tipo divinatório. A mesma fór-

mula que define em Homero a arte do adivinho Calcas aplica-

se, em Hesíodo, à Mnenosyne: ela sabe – e ela canta – “tudo o

que foi, tudo o que é, tudo o que será”. Mas ao contrário do

adivinho que deve quase sempre responder às preocupações

referentes ao futuro, a atividade do poeta orienta-se quase ex-

clusivamente para o passado. Não o seu passado individual,

e também nem o passado em geral como se tratasse de um

quadro vazio, independente do acontecimentos que nele se

desenrolam, mas o “tempo antigo”, com o seu conteúdo e as

suas qualidades próprias: a idade heróica ou, para além disso a

idade primordial, o tempo original. (1973, p. 73-74)4