O Caso Morel por Rubem Fonseca- - Versão HTML

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Sumário

Capa

Folha de rosto

Créditos

1

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FIM

Atrás das grades

O caso Rubem Fonseca

O autor

Copy right © 1973 Rubem Fonseca

Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19.02.1998

Coordenação da edição

Sérgio Augusto

Revisão

Claudia Moreira e Cristiane Pacanowski

Capa

Retina 78

Produção de ebook

S2 books

Texto estabelecido segundo o Acordo Ortográfico da Língua

Portuguesa de 1990, em vigor no Brasil desde 2009.

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE

SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.

F747c

3.ed.

Fonseca, Rubem , 1925-

O caso Morel / Rubem Fonseca. - 3.ed. - Rio de Janeiro: Agir, 2010.

ISBN 978-85-220-1267-1

1. Rom ance brasileiro. I. Título.

10-1626 CDD 869.93

CDU 821.134.3(81)-3

Todos os direitos reservados à

AGIR, selo da Editora Nova Fronteira Participações S.A., um a em presa do

Grupo Ediouro Publicações.

Rua Nova Jerusalém , 345 – CEP 21042-235 – Bonsucesso – Rio de Janeiro – RJ

tel.: (21) 3882-8200 fax: 3882-8212/8313

1

Matos e Vilela se encontram na porta da penitenciária. Sozinho Vilela teria

dificuldade para entrar, m as com Matos as portas são abertas. Chegam à cela de

Morel.

Cubículo pequeno. Cam a estreita com cobertor cinzento. Mesa cheia de livros;

rádio portátil; pia; latrina; m ais livros em pilhados no chão.

Morel é um hom em m agro, pálido, cabelos escuros, grisalhos nas têm poras.

Rugas fundas cortam seu rosto. Veste um a cam isa branca e calça cinza,

am assadas. Possivelm ente dorm e com aquela roupa.

“Tenho dois dos seus livros aqui.”

Procura os livros, acha apenas um deles. “O outro sum iu. Você não quer

sentar?” Morel indica a Vilela a única cadeira da cela.

“Vou deixar vocês sozinhos. Tenho ainda m uita coisa para fazer”, diz Matos.

“Obrigado.” Morel aperta a m ão de Matos.

“Vocês vão se dar bem . Quando quiser sair, bate na porta e m anda cham ar o

inspetor Rangel.”

Matos sai.

“Nem sei com o com eçar”, diz Morel. “O Rei disse para Alice ‘com eça no

princípio, depois continua, chega ao fim e para’. Mas onde é o princípio?”

Vilela: “Você tam bém pode com eçar do fim e term inar no princípio, ou no

m eio”.

“Preciso da sua aj uda.”

“Diga com o.”

“Eu preciso escrever um livro. Matos não lhe falou?”

“Disse que você queria falar com um escritor.”

“Quero aj uda para escrever um livro.”

“Quanto m enos aj uda dos outros, m elhor.”

Morel reflete por instantes.

“Estou m uito arrasado.”

“É assim m esm o que se escreve.”

“Eu quero ter certeza de que vou ser publicado.”

“Essa certeza você não pode ter.”

Morel sentado na cam a. Deita lentam ente, com os braços cruzados sobre os

olhos. Vilela pega um livro sobre a m esa. Visão e invenção.

“Adianta escrever, se ninguém vai ler?”

“Adianta, sem pre.”

“Passo as noites sonhando com a m inha carreira literária”, a ironia na voz é

forçada. “Você quer um biscoito?”

Um a lata de biscoitos debaixo da cam a.

Com em biscoitos.

“Onde você arranj ou esse m onte de livros?”

“São m eus.”

“Quem traz?”

“O doutor Matos. Dei a ele a chave da m inha casa. Eu peço os livros, ele vai

na m inha estante e apanha. Às vezes ele m e com pra um livro, m as o gosto dele

não com bina m uito com o m eu.”

“Você j á escreveu algum a coisa?”, pergunta Vilela.

2

AVERTISSEMENT

Ce livre n’est pas fait pour les enfants, ni même pour les jeunes gens, encore

moins pour les jeunes filles. Il s’adresse exclusivement aux gens mariés, aux

pères et mères de famille, aux personnes sérieuses et mûres qui se

préoccupent des questions sociales et cherchent à enrayer le mouvement de

décadence qui nous entraîne aux abîmes.

Son but n’est pas d’amuser, mais d’instruire et de moraliser.

Dr. Surbled, 1913.

Qualquer sem elhança com pessoas vivas ou m ortas é m era coincidência.

Lem bro-m e de que quando entrei no cabaré, em São Paulo, a velha Doroteia

foi logo pedindo que eu tocasse guitarra para ela. Infelizm ente não era possível,

eu não sabia tocar o instrum ento.

Em Belo Horizonte o céu era lim po. Eu saía com os bolsos cheios de

tangerinas e andava pelas ruas tentando chutar todos os caroços. Em BH eu não

era m úsico.

“Vi logo pela sua cara que você era um hom em do m ar”, disse Marlene

Lim a, que passou a vida tentando ser artista de cinem a e agora era um a trintona

j ogada fora. Estávam os na Zona. Eu descrevia para Marlene as m inhas

aventuras pelos países da Ásia.

No Rio voltei à m inha im postura de m úsico de orquestra. O porteiro do hotel

m e olhava respeitoso, ele queria ser m úsico, tentava o sax, o trom bone, m as era

fraco do peito.

Boîtes da cidade.

“Posso oferecer-lhe um a bebida?”

“Quem é você? Um industrial rico ou um vagabundo?”

“Industrial rico.”

“De onde?”

“São Paulo.”

“Ah, São Paulo... É longe de Porto Alegre?”

Ela tinha um sotaque de gringa europeia. Grande, loura, olhos azuis. Havia

conhecido um suj eito em Porto Alegre.

“Você conhece ele? Carlos Rocha?”

“Não.”

Segurou no m eu pau, perguntou: “Quer que eu lhe faça feliz?”

Queria m e fazer feliz ali no cantinho do bar. Rápido e sem dor.

“Aqui não, vam os para outro lugar”, eu disse.

“As pessoas pagam duzentos para ficar com igo.”

“Está bem .”

“Mas só se você tiver cam isinha.”

Saí e fui à farm ácia.

Voltei para onde ela estava. Mostrei o pacotinho.

Eram três horas da m anhã.

Saím os para pegar um táxi.

“Ilha do Governador.”

O m otorista não queria ir. Violento bate-boca entre nós. Eu e a m ulher

vencem os.

Um a pobre casa, incrivelm ente quente. Dezem bro. As paredes cheias de

fotografias. Ela aos seis anos, aos sete. Aos quinze, aos dezoito. Sem pre só. Nem

pai, nem m ãe. Só. Nem am igos.

“Você sabe, nós os trapezistas tem os os pés m uito afiados”, ela disse. Foi então

que eu soube que ela tinha sido trapezista, quando m enina. Viera com os pais, que

trabalhavam no Circo Sarrazani.

Pedi um uísque. Ela só tinha coca ou guaraná.

“Meu am igo de Porto Alegre é um intelectual. Eu não confio em intelectuais.”

“Nem eu.”

Durante quinze m inutos ficou tirando gram pos da cabeça.

Era bonita. Abri o fecho da m inha calça e m e exibi para ela.

“Calm a, rapaz, onde é que está a cam isinha?”

Os romanos inventaram a camisa de vênus, conforme Antonius Liberalis

conta nas Metam orfoses . Em 1564 o dr. Fallopius redescobriu-a, ao

recomendar o uso de um saco de linho como preventivo das infecções

venéreas. [1]

Me deu vontade de ir em bora.

“Vou-m e em bora.”

“Calm a, rapaz.”

Fui até o espelho que havia no quarto. Na verdade eu estava m esm o com a

cara perigosa de suj eito com gonorreia.

Tentei telefonar para um táxi, sem conseguir.

“Vou-m e em bora.”

Pela cara da ex-trapezista, vi que ela estava tão na m erda quanto eu.

“É por causa da cam isinha?” Não tinha m ais o ar de um a pessoa de pés

espertos. Era um a m ulher cansada.

“Não.”

“Os duzentos cruzeiros? Essa é a razão?”

“Eu quero ir em bora, é só isso.”

Colocou o polegar na boca e com eçou a roer as unhas.

“Até logo”, eu disse.

Ela disse: “Você não tem o m eu telefone”. Sem inflexão, com o se não

soubesse o que estava dizendo.

Eu: “É, não tenho o seu telefone”.

Ela: “Você não tem o m eu telefone”.

Saí.

Pensei: Jam ais alguém andou por estes lugares a pé, de m adrugada. Fiquei

com m edo. Gritei “Paul Morel!” várias vezes, para m e habituar com o nom e.

Na avenida Brasil apanhei um táxi.

Ao chegar no hotel encontrei um telegram a dizendo que m inha m ãe havia

m orrido e sido enterrada, na terra dela. Trazer de volta o corpo custava m uito

dinheiro.

Tem po.

Acordei, com o sem pre, com um a sensação de desperdício, naquele dia em

que tudo com eçou e reencontrei Joana. Muitos anos se passaram .

Levantei da cam a enoj ado com igo m esm o, sem lem brar direito se o papel

ridículo que eu fizera tinha sido ontem ou na sem ana passada. Onde? Na casa de

alguém ? O que tinha acontecido?

Meu quarto todo desarrum ado. Ao m e separar de Cristina, um a neurótica

com pulsiva, eu dissera “quando você for em bora, vou virar esta m erda de pernas

para o ar, chega de arrum ação, aspiradores de pó, faxineiras que m exem nos

m eus livros e nos m eus quadros, isto vai virar um a m ata virgem ”.

As roupas j ogadas no chão, j unto com câm eras, lentes, fotos, garrafas, livros,

pedaços de sucata, telas, tubos de tinta, discos, copos. Minha cabeça um

palim psesto.

Debaixo do chuveiro, sentado no chão, a água fria caindo em cim a de m im .

Isto que você está sentindo é náusea, eu disse em voz alta. O pior é que não havia

vôm ito nenhum para sair, m inha ansiedade era outra.

O telefone tocou. Saí pingando do chuveiro, disse que não estava ninguém em

casa, aquilo era um a gravação, “as palavras o vento não leva, cuidado com o

acetato”.

“Você está sóbrio?”

“Não.”

“Espera aí, não desliga, é o Roberto.”

Queria que eu fizesse um a foto de cervej a.

“Não vou perder tem po com isso.”

“É um challenge.”

Em algum lugar da casa havia um m onte de revistas internacionais de arte

publicitária, e em nenhum a delas existia um a única foto de cervej a. Se houvesse,

era um a m erda.

“Vam os conversar”, insistiu. Era um hom em paciente.

“Agora estou todo m olhado. Você m e tirou do chuveiro.”

“Eu ligo depois, então.”

Ensaboando m eu corpo: cada vez m ais m agro, as olheiras negras, um a figura

rom ântica. As m ulheres todas dando bola para m im . Repugnância.

Naquele dia eu estava decidido a parar de beber, m e reintegrar na sociedade,

ceder, transigir, m aneirar.

“Farei tudo o que quiserem !”, exclam ei olhando o m eu rosto no espelho.

O telefone tocou. Cocktail na casa de Miguel Serpa.

Depois novam ente o Roberto. Ele era diretor da Andrade & Leitão.

Nada temos a temer.

Exceto as palavras.

“Você pode conversar?”

“Posso”, respondi.

“Então? Topa fazer as fotos?”

Pensei um pouco. “Faço.”

“Quando?”

“Am anhã. Hoj e estou m uito abafado.”

“Certo. Am anhã. Um abraço. Conto contigo.”

“Pode contar.”

O verdadeiro escritor nada tem a dizer.

Tem uma maneira de dizer nada.

Miguel Serpa recebeu-m e com m uita deferência.

Muitas m ulheres. Identifiquei logo a sra. Elisa Gonçalves. Coberta por um

vestido longo, os m ovim entos equilibrados, tensos; sentia no m eu próprio corpo

cada passo que ela dava, com o se estivéssem os abraçados. Elisa cam inhava

im paciente pelos salões, fum ando, inquieta. Eu a conhecia de retrato e lenda.

Nunca m e interessou, m as naquele dia senti, inesperadam ente, um a terrível

atração por ela.

Elisa novam ente: cara m agra, ossuda, cabelos negros, boca larga de lábios

grossos, olhos escuros brilhantes, um rosto alerta. Fiquei im aginando atos lascivos

com ela. Parei a certa distância, observando-a sem que ela percebesse.

Nesse instante surgiu Joana, acom panhada dos pais, em baixador e em baixatriz

Monteiro Viana. Tentei segui-los com o olhar, m as eles logo sum iram no m eio da

m ultidão. Havia, no m ínim o, trezentas pessoas no enorm e apartam ento de Serpa.

Eu gostaria de ver Joana perto de Elisa. Joana dizia de Elisa: “Um a velhota

deslum brada que todo ano corta as próprias execráveis pelancas”. Joana tinha

vinte anos, exatos. Elisa no fim dos trinta.

Aproxim ei-m e de Elisa. Ela e os circundantes pararam de falar.

“Todos os seus retratos foram m alfeitos, nenhum tem profundidade, nenhum

é você.”

“Retratos?”, Elisa, polidam ente.

“Fotos. Só conheço as fotos. Perm ita que eu m e apresente.”

“Eu sei quem é você e não estou interessada.” Elisa voltou a conversar com a

pessoa a seu lado.

Vaguei pelos salões do Serpa, depois do desprezo de Elisa, bebendo com

rapidez para ficar em briagado.

Encontrei Joana.

“Por que não dam os o fora daqui?”, perguntou Joana.

“Aonde você quer ir?”

“A um lugar onde você possa m e explicar o que são as séries de Fibonnacci”,

disse Joana, rindo.

“Eu estou sem vontade. Acho que estou ficando im potente.”

“Você quer ficar aqui no m eio desses arrivistas enfarpelados?”

“Já disse que estou broxa. Ah!, quem m e dera ser um cam peão de alcova!”

A beleza dela fez o meu pulso martelar violentamente e secou minha boca.

Ninguém poderia deixar de admirá-la: era muito delgada, com seios

pequenos, a barriga plana, os flancos de linhas retas; o seu triângulo estava

apenas eriçado por uma penugem macia. Ela me tantalizava, os meus

desejos se exasperavam. Levantei o seu corpo e esmaguei os lábios contra

os dela.

“Eu faço você ficar com vontade.”

“Não sei.”

“Vam os sair daqui e com prar um chicote”, Joana disse.

“A esta hora não encontram os um a loj a onde com prar isto”, eu disse, sentindo

um forte trem or correr por dentro do m eu corpo.

“Eu vou na Hípica e arranj o um . Você não quer m e bater de chicote?”

“Está bem .”

“Eu saio na frente. Vou buscar o chicote e te encontro no apartam ento.”

Exit Joana.

Voltei à sala para ver se apanhava algum a m ulher. Eu só pensava nisso.

Encontrei.

“Você tem um papel na bolsa?”

“Deixa eu ver. Tenho.”

“Tem um a caneta?”

“Tenho lápis de sobrancelha.”

“Então escreve nesse papel o seu nom e e o núm ero do telefone.”

Botei o papel no bolso e saí.

No papel estava escrito: Lígia, e o núm ero do telefone.

Peguei m eu carro. Fui para o apartam ento. Liguei o som . Esperei Joana,

pensando.

Acima de tudo, seja verdadeiro com você mesmo.

Joana chegou.

“Trouxe o chicote?”

“Trouxe.”

Joana m e entregou um em brulho. Abri. Um chicote de cabo de prata, para ser

usado em cavalos de raça.

Olhei para Joana, os colares no pescoço, o lenço na cabeça. Senti um a grande

ternura por ela. Abracei-a.

“Eu gosto m uito de você.”

“Eu tam bém gosto m uito de você.”

“Você quer ficar só nam orando, sem fazer nada?”, perguntei.

“É um a boa ideia.”

Deitam os, abraçados.

“Estou aprendendo tanta coisa com você.”

“Coisa nenhum a...”

“Cor. Eu não sabia nada de cor. Que m undo im enso...”

“A percepção da cor é um a experiência pessoal, extrem am ente subj etiva, é

im possível ensinar a ver a cor, até m esm o ensinar a usar a cor é difícil.”

“Fico em casa olhando m eus livros de pintura e lem brando as coisas que você

falou. Ontem , por exem plo, foi a visão esquizoide de Francis Bacon...”

A frase era literalm ente m inha. Eu tive vontade de dizer a ela que

ultim am ente eu falava cada vez m enos. Arte tradicional, não queria m ais fazer.

Caixas, obj etos, m ontagens fotográficas, fazia coisas assim , pois na verdade eu

havia secado. Os cretinos dos críticos, esses pobres-diabos, rufiões de

criatividade, ficavam descobrindo significados esotéricos naquele lixo todo.

Eu estava vazio, m inha única saída era soldar sucata, colar, sim ular, tapear,

copiar, enquanto pudesse.

Deitam os de barriga para cim a. Joana, um a das pernas levantadas m ostrando

sua coxa longa e carnuda. Passei as m ãos nas pernas de Joana. Ela estava com os

braços abertos, as duas m ãos sob a nuca; eu via as suas axilas, raspadas.

Não diga sovaco.

Diga axilas.

Beij ei a cavidade que existia na j unção do braço com o tronco. Fragrância de

desodorante. Com a ponta da m inha língua toquei o sovaco de Joana.

“Isso m e deixa toda arrepiada.”

Arrancam os a roupa, apressados.

“No chão”, Joana disse.

Joana deitou-se, espreguiçou o corpo m agro, esticando braços e pernas.

Deitei-m e sobre ela. Joana grudou o rosto no m eu. Afastei o rosto dela.

“Quero ver a tua cara enquanto vou entrando dentro de você.”

A euforia de Joana m e encheu de alegria e exaltação.

“Abre os olhos”, eu disse, “olha pra m im !”

Os dois olhando um para o outro, enquanto nossos corpos se m ovim entavam .

Agarrei com força a cabeça de Joana, puxando-a de encontro a m im .

“Você não vai m e bater?”

“Com o chicote?”

Nossos m ovim entos cada vez m ais violentos.

“Com o é que você vai m e bater com o chicote? Aqui deitada? Ou eu saio

correndo e você corre atrás de m im até m e encurralar num canto e então m e

bate, bate, bate!...”

“Não sei, com o você quiser”, consegui dizer.

“Bate com a m ão m esm o”, Joana pediu.

Apoiado na m ão direta, dei um tapa com a esquerda no rosto de Joana. Joana

fechou os olhos, o rosto crispado, não em itiu um som sequer. Dei outro tapa,

agora com a m ão direita, com m ais força.

“Bate, bate!”

Bati com violência. Joana deu um gem ido lancinante. Continuei batendo, sem

parar.

“Me cham a de puta...”

“Sua puta!”

“Mais, m ais!...”

Cham ei Joana de todos os nom es suj os, bati com força no seu rosto. Nossos

corpos cobertos de suor. Lam bi o rosto de Joana, em fogo das pancadas

recebidas. Nossas bocas sorviam o suor que pingava do rosto do outro. De dentro

de m im , de um abism o fundo, vinha o orgasm o, um a pressão acum ulada

explodindo.

3

As visitas são na quinta-feira.

“Qual a sua opinião? Aqui dentro eu só penso em sexo, em sexo... Diga

algum a coisa.”

“Aquele orgasm o apoteótico encerra o capítulo com o se fosse o final de um a

opereta.”

“Com o é que você acha que um suj eito com m edo de ficar im potente tem

orgasm o?”

“Eu esqueci a conversa do Paul Morel com Joana. O personagem , Paul

Morel, é você m esm o? Não existe, na realidade, nenhum industrial Miguel Serpa,

nem agência Andrade & Leitão. Eu verifiquei”, diz Vilela.

Morel não responde.

“Por que você usa o seu nom e?”

“Isso tem im portância?”

“Não.”

“Você m e decepciona. A única realidade não é a da im aginação? Digam os

que esta é e não é a m inha vida, e que eu apenas quero a sua opinião sobre o

escritor.”

“Prefiro não dizer nada. Ao m enos por enquanto.”

“Por enquanto, então. Eu estou m otivado agora. Mas se desistir, você vai ter

que m e estim ular. Por favor.”

“Está bem , se você desistir.”

“Eu escrevo e rasgo, escrevo e rasgo. Rasgo m ais do que guardo. Está certo

isso? Deliberadam ente, estou tentando escrever certinho, com o um desses putos

da Academ ia”, diz Morel.

“Eu pensei que os escritores guardassem tudo na gaveta”, continua Morel.

“Alguns fazem isso.”

“Você está tendo dificuldade com a m inha letra?”

“Nenhum a. Arranj ei um a datilógrafa para bater as páginas que você m e dá.”

“Ela é bonita?”

“Mais ou m enos.”

“Descreve ela para m im .”

“Ela é m orena. Inteligente.”

“Você j á com eu?”

Vilela parece surpreso com a pergunta. Morel percebe.

“Desculpe.”

“Não com i, não.”

“Ontem m e m asturbei. A prim eira vez, desde que estou preso.”

Quando cheguei para fazer as fotos j á estavam m e esperando os hom ens da

Andrade & Leitão e o m odelo. O contato da agência perguntou o que eu achava

da garota. Respondi que não tinha dado para ver.

Queriam fazer um a daquelas fotos com uns de m ulher com cervej a, na linha

dos prazeres da vida, praia, m ar, sol. Eu disse que era coisa velha, m as o contato,

cham ado Alípio, achava que o público esquecia as coisas, que todo m undo era

im becil, inclusive o cliente cervej eiro. Assim , m andei colocar no fundo um m ar

que dava para o gasto, m ontei a Sinar com a lente portrait e fui conversar com a

loura, que estava fum ando calm am ente. Ela disse que j á havia posado antes,

um a vez só, para pasta de dentes, e deu um sorriso para m ostrar a dentadura; não

sabia o nom e do fotógrafo, apenas que era um gordo de bigodes. “Você sabe o

m eu nom e?”, perguntei. “E você, sabe o m eu?”, respondeu ela, im itando o tom

de saco cheio da m inha voz. Acabam os dizendo o nom e um para o outro. Ela se

cham ava Carm em . Enquanto ela punha o biquíni, fiquei brincando com o

hom em do estúdio, cham ado Jair, dizendo que aquele m ar estava um a porcaria.

Quem pensa que fotografia é um a profissão m uito excitante está inteiram ente

enganado. Os fotógrafos-gigolôs que acom panhavam atrizes pelo m undo no fim

da década dos sessenta criaram essa ilusão. Ser fotógrafo é um a chatice. Apanha

m ulher, m as dentista tam bém apanha.

Quando acabou, eu disse para o Alípio, “deixa que eu levo a loura”. Ele não

gostou m uito da ideia, m as acabou concordando.

Carm em saiu do vestiário e perguntei se ela queria dar um a volta. “Depende”,

respondeu ela. “Depende de quê?”, perguntei. “Da volta que você quer dar.” Eu

expliquei que a gente ia com er qualquer coisa e depois ia ouvir m úsica na m inha

casa. “Depende”, ela repetiu. E eu, outra vez, “depende de quê?”. Ela queria

saber quanto eu ia pagar. Eu não esperava aquilo, não estava acostum ado a

pagar, e disse para ela. “Então tchau.” Perguntei se ela aceitava cheque e fom os

para o restaurante. “Você não tem pinta de garota de program a”, eu disse, e ela

respondeu “part tim e”, calm am ente, m as com um certo azedum e.

Durante o alm oço notei que por m om entos ela ficava triste e, quando

perguntei por que, ela disse que era devido ao filho dela, “um garoto de quatro

anos que vive com a m inha irm ã”. Toda puta tem um filho, m as não parei para

pensar o que isso significava. Não sei por que, m as aquela história da criança m e

deixou sem m otivação.

Maupassant era mais vaidoso pelos seus desempenhos amorosos do que

pela sua literatura. “Faço mais de seis numa hora” ele dizia. Afirmava

também que romances são mais fáceis de escrever do que contos. Viveu

num tempo em que as pessoas morriam de sífilis, inclusive ele.

“Olha, vam os deixar para outro dia?”, perguntei.

“Com o quiser”, Carm em respondeu.

Eu havia m e lem brado do velho, doente.

No hospital.

Com um a bom ba de sucção a enferm eira tirava catarro do pulm ão do velho,

que, de olhos fechados, procurava im pedir que a borracha descesse por sua

garganta abaixo.

“Com o é que ele vai?”, perguntei.

“Na m esm a”, respondeu a enferm eira, um a m ulata m agra, com o rosto

indiferente das pessoas que vivem do sofrim ento dos outros.

O velho durava há trinta dias.

O catarro escuro descia por um tubo transparente e era depositado num vaso

no chão. O catarro era tão grosso que repetidam ente a enferm eira tirava o tubo

de dentro da garganta do velho e m ergulhava o tubo num frasco de líquido

colorido, para desobstruí-lo.

“Agora vou virar ele, o m édico m andou virar ele cada duas horas”, disse a

enferm eira. “O senhor quer fazer o favor de sair?”

Do corredor ouvia o barulho do aparelho de sucção. Lem brava um posto de

gasolina.

Quando a enferm eira saiu, voltei para o quarto. Fiquei olhando os braços

m agros do doente, inchados e m anchados de negro de tanto receberem soro e

transfusões.

Meu pai abriu os olhos.

“Quando você quiser saber com o eu estou, m e pergunte. Essas vacas não

sabem nada.”

“Pensei que o senhor estivesse dorm indo.”

“E não pergunte com o é que vai ele. Eu tenho nom e.”

“Com o é que vai o senhor Alberto?”

“Mal”, respondeu ele, “sinto dores.”

“Estão tratando bem do senhor?”

“Eles m e dão um a inj eção que passa a dor, m as aí eu sinto um a coisa m e

puxando para baixo, tenho m edo.”

O velho fez um a pausa. “Tenho m edo de cair da cam a.”

Papai fechou os olhos. Esperei que ele dorm isse.

Saí sorrateiram ente, fechando a porta de leve.

Quando saí, o velho abriu os olhos e suspirou. Eu não vi, m as ele abriu os olhos

e suspirou. Para ser exato, o velho bocej ou. Ele queria dar um suspiro, m as

bocej ou. Ele estava tão no fim que nem dava para suspirar.

4

Matos telefona: “Você não m e falou do resultado da sua entrevista”.

“Morel quer que eu leia as coisas que ele escreve”, responde Vilela.

“Que coisas são essas? Sonetos?”

Matos dá um a gargalhada. Na faculdade ele tinha o apelido de Astúcia.

“Sonetos”, confirm a Vilela.

“Posso ver?”

“Só perguntando ao Morel.”

“Mas não são para publicar?”

“Quando ele publicar, você com pra o livro.” Vilela im ita a gargalhada de

Matos.

“Pergunte a ele se eu posso ler.”

Quinta-feira, na penitenciária.

Vilela diz a Morel: “O Matos m e pediu para ler os papéis que você está

escrevendo. Sou contra”.

“Por quê?”

“Não sei.”

“Você sabe, sim .”

“Talvez porque acredite que o escritor não deve m ostrar aquilo que está

escrevendo.”

“Estou m ostrando para você.”

Vilela deixa passar a observação de Morel. “Talvez porque ache que o Matos

quis m e fazer de bobo.”

“Com o?”

“Não vam os perder tem po com Matos”, diz Vilela.

“Que tal você está achando o m eu Testament? Estou m uito où sont les neiges

d’antan?

Morel olha Vilela, inseguro. Vilela não responde. Apanha os papéis e se

despede.

Tem po.

O importante não é perguntar como o cardeal d’Este a Ariosto, que lhe

dedicara Orlando furioso, “onde você descobriu tantas histórias,

Ludovico?”. Os Ludovicos têm cada vez mais histórias para descobrir. A

questão é saber se alguém ainda está interessado nelas.

O últim o obj eto de valor em penhado foi o relógio de ouro de m eu pai. Nunca

sabíam os as horas. A igrej a protestante, perto de casa, possuía um relógio em sua

torre, m as logo depois seria dem olida. Mam ãe cosia para fora; eu e o m eu irm ão

trabalhávam os durante o dia e cursávam os o ginásio noturno. Era raro o dia em

que a fam ília se reunia para j antar.

Meu pai, naquela época, tinha um a loj a de peles. Fazia um calor enorm e na

cidade, o ano inteiro. Nunca vi fregueses na loj a do papai.

Um hom em estranho, m eu pai. Vestia a m am ãe com um casaco de vison e

ela desfilava para nós no estreito salão m al ilum inado, em que m orávam os, sobre

a loj a. “É o casaco m ais bonito que existe no Brasil”, papai exclam ava. Um

sorriso delicado aflorava no rosto de m am ãe; a pele dela tinha a cor dos pelos do

casaco. Parecia um circo de sonho, cinzento, surdina e penum bra — “m ais

bonito do m undo!”.

Íam os para cam a com fom e, sonhávam os, até que o sono nos vencia.

Havia um quarto nos fundos, separado por um a área pequena de serviço.

Mam ãe reuniu a fam ília e perguntou se tínham os vergonha de alugar um

quarto de nossa casa para um estranho. “Um a coisa provisória, posso garantir”,

afirm ava papai. Ele, sim , achava aquilo indecoroso.

Alugam os quartos durante m uitos anos. O nosso prim eiro inquilino cham ava-

se sr. Guim arães. Um velho português. Chegou carregando um a m ala em m au

estado e um aquário com um peixe dourado. Separado da m ulher, dois filhos,

rapaz e m oça, que nunca o visitaram . Vendedor pracista. Sem pre m ergulhado

em m isteriosos pensam entos, dos quais saiu um a m anhã para m e dizer, no

corredor da casa: “És um m enino m agro, m as és forte” — e cam inhou, m eio

curvado, até o seu quarto, abriu a porta, fez um gesto cansado, m e cham ando;

dentro do quarto, botou os óculos, de aros de tartaruga, apanhou um vidro sobre a

m esa de cabeceira, deu com ida para o peixe dourado.

“Quanto é que ganhas na oficina?”

Respondi.

“Levanta essa m ala aí do chão.” Era um a m ala-m ostruário, das coisas que ele

vendia na praça.

“Pesa-te m uito?”

“Dez quilos, no m áxim o.”

“Crês que podes carregá-la, digam os, a m anhã inteira?”

Assim , passei a trabalhar para o sr. Guim arães. Saíam os de casa às oito e

m eia e corríam os as loj as do Centro. Vendíam os cintos, carteiras e botões.

Entrávam os na loj a, procurávam os o com prador. O suj eito fazia o pedido.

Mandava passar na próxim a sem ana. Dizia que não estava interessado. Não

falava com a gente. Eram só quatro alternativas.

Quando m udam os para a rua Evaristo da Veiga, o sr. Guim arães foi j unto.

Um dia ele m e pediu que o acom panhasse a Copacabana.

“Deixe aí o m ostruário, sabes que só trabalham os no Centro.”

No ônibus ele estava m uito curvado, com o se estivesse cochilando, m as os

seus olhos úm idos estavam abertos, fixos, longe. Saltam os, fom os até a avenida

Atlântica, andam os pela calçada da praia, então ele parou, ficou um longo tem po

olhando o paredão de edifícios.

“Vês aquele prédio?”, perguntou, afinal; a voz parecia vir de outro lugar,

com o se ele fosse um boneco de ventríloquo, sua cara tam bém parecia a de um

fantoche estragado pelos m aus-tratos; “aquele de m árm ore branco e vidros

escuros? É ali que m ora a m inha filha, com o am ante poderoso. Outro dia fui

procurá-la e ela não m e recebeu. Isso deve tê-la feito sofrer m uito, m as ela não

suporta coisas feias e gastas, com o eu. Queria m uito dizer-lhe que a perdoo”.

Depois voltam os e nunca m ais o sr. Guim arães falou na sua fam ília.

Um dia... com o foi?...

“Ele tom ou pílulas em excesso para dorm ir e m orreu, coitadinho”, disse

m inha m ãe...

O sr. Guim arães estava deitado na dura e estreita cam a de solteiro, todo

vestido, de paletó, gravata, sapatos, m eias pretas... Rem em orei um a história que

m e havia contado: sua filha abandonando a casa, ele a noite inteira acordado,

estarrecido com a desgraça.

“Levantei-m e a noite toda, sabes para quê? pra ir ao banheiro... Os velhos

urinam ...”

Na frente vieram dois hom ens de terno cinzento, que nos olharam com o se

houvesse um crim inoso escondido na casa. Em seguida um suj eito de óculos, que

parecia delicado, com parado aos outros, segurando um a m aleta preta. Depois o

caixão vazio, o prim eiro que vi na m inha vida, carregado por dois hom ens

uniform izados.

Durante algum tem po os estranhos ficaram em silêncio olhando a porta. Então

surgiu a filha do sr. Guim arães apoiada no braço do seu protetor.

Im ediatam ente os hom ens com eçaram a agir. O de óculos segurou o pulso do

sr. Guim arães, exam inou a pupila do seu olho, levantando sua pálpebra enrugada.

Um dos hom ens de cinza revistou a casa, enquanto o outro perguntava a m am ãe:

“Ele deixou carta?, bilhete?, algum a coisa escrita?”. Todos, com o cães, olhavam

constantem ente para o chefe, que continuava de braço dado com a j ovem

m ulher, figuras de um cartão-postal antigo. Era um hom em m oreno, de cabelos

lisos penteados para trás, sobrancelhas grossas, rosto m agro vincado de rugas.

Observava os acontecim entos, ligeiram ente enfadado. A m ulher apoiava-se com

força no braço do seu com panheiro, pálida, olhos m uito escuros. Parecia sentir

m edo e noj o, da casa e do m orto.

O hom em de óculos m ostrou o vidro de com prim idos para o chefe, “estou

botando no atestado de óbito síncope cardíaca”. O chefe aprovou — um gesto

im perceptível.

O sr. Guim arães foi colocado dentro do caixão. Saíram sem tom ar

conhecim ento das pessoas da casa.

A m ala de am ostras ficou no quarto. Fábrica de cintos. G. Lotufo.

Fui procurar G. Lotufo. Estava viaj ando. Diariam ente ia com a m ala até o

escritório da firm a, na rua dos Andradas. Afinal o sr. Lotufo m e recebeu.

Expliquei que o sr. Guim arães havia m orrido e m e propus a ficar no lugar dele

com o vendedor da fábrica.

“Ah, ah”, disse G. Lotufo, “que idade você tem ?”

“Catorze.”

“Ah, ah”, novam ente.

“Conheço todos os fregueses do Centro”, eu disse.

“E você acha que tem capacidade de representar G. Lotufo & Cia. Ltda.? Ah,

ah. Um pirralho de catorze anos.” G. Lotufo coçou a barba de dois dias; lim pou

os óculos na gravata. “Quem é o gerente do Pavilhão?”

“Seu Gom es”, respondi prontam ente.