O Caso dos Irmãos Naves: roteiro original por Jean-Claude Bernardet e Luis S. Person - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

index-1_1.png

Untitled-10

1

7/12/2009, 11:39

O Caso dos Irmãos Naves

(Chifre em Cabeça de Cavalo)

1

Argumento e Roteiro

Jean-Claude Bernardet e Luis Sérgio Person

Governador

Geraldo Alckmin

Secretário Chefe da Casa Civil

Arnaldo Madeira

Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

Diretor-presidente

Hubert Alquéres

Diretor Vice-presidente

Luiz Carlos Frigerio

Diretor Industrial

Teiji Tomioka

Diretor Financeiro e

Administrativo

Alexandre Alves Schneider

Núcleo de Projetos

Institucionais

Vera Lucia Wey

2

Fundação Padre Anchieta

Presidente

Marcos Mendonça

Projetos Especiais

Adélia Lombardi

Diretor de Programação

Rita Okamura

Coleção Aplauso Cinema Brasil

Coordenador Geral

Rubens Ewald Filho

Coordenador Operacional

e Pesquisa Iconográfica

Marcelo Pestana

Revisão

Andressa Veronesi

Projeto Gráfico

e Editoração

Carlos Cirne

O Caso dos Irmãos Naves

(Chifre em Cabeça de Cavalo)

3

Argumento e Roteiro

Jean-Claude Bernardet e Luis Sérgio Person

São Paulo, 2004

Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca da Imprensa Oficial do Estado Bernadet, Jean-Claude

O caso dos irmãos naves: chifre em cabeça de cavalo / por Jean-Claude Bernadet e Luis Sérgio Person. – São Paulo : Imprensa Oficial do Estado de São Paulo : Cultura – Fundação Padre Anchieta, 2004. –

216p.: il. - (Coleção aplauso. Série cinema Brasil / coordenador geral Rubens Ewald Filho)

ISBN 85-7060-233-2 (obra completa) (Imprensa Oficial) ISBN 85-7060-283-9 (Imprensa Oficial)

1. Cinema – Roteiros 2. Filmes brasileiros – História e Crítica 3. O caso dos irmãos naves (filmes cinematográfico) I. Person, Luis Sérgio. II. Ewald Filho, Rubens. III. Título. IV. Série

CDD 791.437 098 1

Índices para catálogo sistemático:

4

1. Filmes cinematográficos brasileiros :

Roteiros : Arte 791.437 098 1

2. Roteiros cinematográficos : Filmes

brasileiros : Arte 791.437 098 1

Foi feito o depósito legal na Biblioteca Nacional (Lei nº 1.825, de 20/12/1907).

Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

Rua da Mooca, 1921 - Mooca

03103-902 - São Paulo - SP - Brasil

Tel.: (0xx11) 6099-9800

Fax: (0xx11) 6099-9674

www.imprensaoficial.com.br

e-mail: livros@imprensaoficial.com.br

SAC 0800-123401

Caso Naves

No segundo semestre de 1965, Luis Sérgio Person apareceu inesperadamente no campus da

Universidade de Brasília, onde eu lecionava. Já nos conhecíamos e tínhamos discutido bastante seu primeiro filme, São Paulo Sociedade Anôni-ma. Ele vinha me convidar para escrever com

ele o roteiro de O Caso dos Irmãos Naves. Ele tinha, dobrada em quatro e amarelecida, uma

reportagem de 1949 provavelmente publicada

pela revista O Cruzeiro: os irmãos tinham sido 5

condenados por um crime que não só não come-

teram, como um crime que não fora cometido.

A condenação se baseou em fatos totalmente

forjados pela polícia a partir de torturas. Era o

“erro judicial” de Araguari. Person tinha sido profundamente marcado por esses fatos e

continuava revoltado por essa condenação sem crime.

Hesitei em aceitar porque nunca tinha traba-

lhado em roteiro de ficção e me sentia inseguro (mas ele não), e principalmente porque não

podia deixar a UnB. Mas a situação da universidade estava instável, e de fato meses depois a quase totalidade do corpo docente se retiraria em protesto contra o regime militar.

Começamos a trabalhar sobre o filme em 1966.

Tínhamos as atas do processo que foram

publicadas pelo advogado Alamy, defensor dos Naves. E jornais da época. Comecei a pesquisa no acervo da Biblioteca Mário de Andrade, onde encontrei farto material na imprensa paulista e mineira.

6

Um belo dia, inesperadamente, Person irrompe na sala da biblioteca onde pesquisava. Sorriden-te, ele se senta e me diz: “Vamos fazer um filme com Roberto Carlos.” Meu espanto não podia

ser maior, tanto mais que eu ignorava quem era Roberto Carlos. Ele me falou da Jovem Guarda, da importância de todo esse movimento da

juventude da segunda metade dos anos 60.

Além disso, um filme com a Jovem Guarda, pelo sucesso que provavelmente teria, facilitaria a produção posterior dos Naves.

Não tinha o que fazer: fechei os jornais, guar-dei minhas fichas. Durante alguns meses

trabalhamos sobre SSS contra Jovem Guarda, até que um desentendimento entre Roberto Carlos

e sua agência fez naufragar o projeto, e o roteiro foi arquivado. Voltamos aos Naves.

Já tínhamos muito material pesquisado. Fiz

duas propostas narrativas para o filme. Uma

obedecia à seqüência cronológica dos fatos. A outra, mais “moderna”, teria como tempo

presente o processo e os fatos pregressos

7

seriam relatados, sem ordem cronológica, à

medida que fossem abordados pelos vários

atores: acusados, advogado da defesa, juizes, advogado de acusação, testemunhas. Sem

hesitação, Person rejeitou esta última proposta: uma tal estrutura nos cortaria do público, resul-taria num filme para intelectuais, e ele não tinha nenhuma dúvida de que queria fazer

cinema para o grande público.

Visto a grande quantidade de informações que tinha acumulado, eu encontrava dificuldade em organizar todo esse material numa seqüência

cronológica e demorava em apresentar a Person um argumento que se tornava urgente. Ao que

se acresciam outras atividades necessárias à sobrevivência. Em função de que, ele me levou, bem como a minha mulher, para uma casinha

afastada de São Paulo (M’Boi Mirim), onde nos trancou durante uma semana. Consegui produzir uma narrativa de umas quarenta páginas,

ainda confusa, mas assim mesmo suficiente-

mente coerente para servir de base à primeira versão do roteiro.

8

De volta a São Paulo, começamos a trabalhar

no roteiro propriamente dito. Já nesta fase, tínhamos idéias mais claras sobre o filme. Já não se tratava apenas de relatar o “erro judicial”

ocorrido no final dos anos 30 no interior de Minas Gerais. As relações com o nosso presente social e político eram evidentes: a polícia tinha inventado uma falsa realidade pela tortura, e a tortura vinha sendo praticado no Brasil pelo regime militar. O julgamento dos Naves se deu no início do Estado Novo, com um judiciário

submetido às novas autoridades, e no nosso presente a justiça tinha deixado de existir e se ins-talara um regime de violência e arbitrariedade.

O filme seria absolutamente fiel aos fatos dos anos 30, mas se tornava uma metáfora política de nosso presente. Denunciaríamos a tortura e a arbitrariedade. Durante toda a elaboração do filme, nunca se perdeu de vista essa perspecti-va, a tal ponto que passamos a qualificar os Naves de “filme Castelo Branco”, em oposição ao roteiro que escreveríamos em seguida, A

Hora dos Ruminantes, que chamávamos de “fil-

9

me Costa e Silva”.

Essa postura fez com que o aspecto reconsti-

tuição de época foi deixado para um plano

secundário. Fomos à Araguari, onde se dariam as filmagens, visitamos algumas casas onde

tinham morado pessoas envolvidas na situação, vimos o tribunal, encontramos pessoas que se lembravam dos fatos e nos davam a sua versão.

Person aproveitou para fazer contatos com

moradores de Araguari que pudessem interpre-

tar alguns papeis secundários.

Mas essa viagem não foi feita em função de

reconstituir a Araguari da época nem em busca de cor local, a finalidade era obter material preciso para um filme de época metáfora do

presente. A tal ponto que, depois do lança-

mento, recebemos uma carta de um espectador

atento que se queixava de que aparecia numa

cena um carro posterior aos fatos relatados.

Achamos graça. Nossa preocupação era apenas

dar uma tintura anos 30, o essencial não estava aí.

10

Um pouco mais tarde, Person entregou uma

primeira versão do roteiro ao advogado Alamy e o convidou a vir a São Paulo para discutir. O

encontro não foi bom, Alamy estava decepcio-

nado com o que tinha lido. Percebemos suas reti-cências, o deixamos falar, eu tomava notas e dizíamos que levaríamos suas observações em

consideração para a versão final. Nossa relação foi cortês, mas não houve segundo encontro. O

problema de Alamy era que o roteiro não lhe

dava o papel que desejava: o de um herói. Afinal de contas, ele tinha defendido inocentes contra uma polícia truculenta diante de juizes coniven-tes com o Estado Novo e amedrontados pelo

poder policial. Mas nós não estávamos dispostos a lhe conceder essa honraria. Estava claro para Person e para mim que Alamy tinha sido corajo-so (a cena 69 não deixa dúvida a este respeito), mas não acreditávamos numa luta que se atinha aos “procedimentos legais” numa situação polí-

tica na qual não havia mais legalidade. Não faríamos do advogado o galã do filme.

Outro problema que nos colocávamos era a

11

questão da tortura. Tínhamos certeza que ela devia ser mostrada claramente, não podíamos

nos limitar a discretas alusões. Estávamos denun-ciando a tortura. Por outro lado, não queríamos fazer um filme sádico. Procuramos um equilíbrio para que as cenas de tortura não se transfor-massem em espetáculo, e que sempre fossem

perceptíveis a responsabilidade da polícia e a significação política desses procedimentos.

Incluímos várias cenas de tortura, mas elimina-mos algumas, embora tivéssemos a documen-

tação.

Em grande parte das torturas praticadas dentro do porão, os supliciados estavam nus, resolve-mos que ficariam vestidos para não desviar a atenção dos espectadores do que realmente

interessava. Isso não impediu que algumas pessoas nos acusassem de termos feito um filme

sádico. O que não é verdade.

Não sabíamos como a censura reagiria ao filme, de modo que eu fichava rigorosamente todas

as informações, com suas fontes, referentes a cenas e diálogos com os quais a censura pudesse 12

implicar. Nenhuma concessão foi feita, tudo o que achávamos que devia ser mostrado e dito

entrou no filme. Na época que vivíamos, isso representava um risco. Em momento algum,

Person fraquejou ou hesitou: realizar os Naves foi realmente um ato de coragem.

O trabalho se organizou da forma seguinte: eu escrevia de manhã em casa, à tarde retrabalhá-

vamos na casa de Person o que tinha sido escrito e preparávamos o que escreveria na manhã

seguinte.

A lembrança que guardo da nossa colaboração é de harmonia e bom entendimento. Uma cena foi objeto de discussão: a chegada de Donana, mãe dos Naves, à casa do advogado. Ela já estava escrita quando Person resolveu introduzir uma menina, filha do advogado, que estaria brincando no jardim. Como eu me prendia aos fatos, este personagem me pareceu uma excrescência. Ele

insistiu, cedi. Só mais tarde percebi como podia ser interessante criar um olhar exterior à situação, ele guia o olhar do espectador. Numa outra cena, eu tinha introduzido alguma indicação de decu-13

pagem ou de movimento de câmera, o que Person recusou categoricamente, “Isso, você deixa para mim”. O roteiro de O Caso dos irmãos Naves deixa para o diretor o trabalho de direção. O roteiro não deve ser a descrição verbal de um filme que posteriormente o diretor executaria. Do roteirista se espera a construção da narrativa, a divisão em cenas, a descrição das ações, e os diálogos, a partir de que o realizador elaborará a sua direção. Muito mais tarde, depois de conversas com Wilson

Barros, foi essa a linha que adotamos no curso de roteiro da Escola de Comunicações e Artes da USP.

Folhando o roteiro, percebo que não deixa de conter muitas indicações de decupagem, a quase totalidade devem ser de autoria de Person. É que, por mais que se delimite as funções dos roteiristas, quando o diretor participa do roteiro, lhe é difícil ser exclusivamente roteirista, naturalmente ele antecipa sobre seu trabalho de direção.

O Caso dos irmãos Naves passou sem problema

pela censura (o que não teria provavelmente

ocorrido se tivesse sido produzido depois do AI 5), mas não foi muito bem recebido quando de 14

seu lançamento em São Paulo e no Rio de

Janeiro. Em compensação, as reações do público foram excelentes em várias cidades dos estados de São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Mato

Grosso. Mario Civelli, o produtor, recebeu tele-gramas entusiastas de exibidores, que diziam que o filme refletia a vida do interior e que preci-savam de mais filmes desse tipo. O que motivou Civelli a iniciar conosco um novo filme, que teria sido A Hora dos Ruminantes, baseado num

romance de J.J. Veiga, se as circunstâncias não tivessem interrompido a produção.

Durante o governo Médici e o escândalo das

torturas, a revista Veja destacou O Caso dos Irmãos Naves como uma das primeiras denúncias da tortura, mas neste momento o filme já tinha encerrado sua carreira comercial.

15

O roteiro a seguir foi transcrito de modo a reproduzir fielmente a grafia e semântica da época em que foi escrito.

index-17_1.png

16

O Caso dos Irmãos Naves

(Chifre em Cabeça de Cavalo)

Argumento e Roteiro

Jean-Claude Bernardet

Luis Sérgio Person

17

Da obra de João Alamy Filho

O Caso dos Irmãos Naves

Ed. Bernardo Alvares, 1961

Ed. Sugestões Literárias, 1965

São Paulo, 1966

Todos os direitos reservados.

18

A Justiça é sujeita à contenda, a força é

facilmente identificável e sem contenda.

Assim não se pode dar fôrça à justiça, porque a fôrça contradisse a justiça, e disse que ela era injusta, o que era ela, a fôrça, que era o

justo. E assim, não podendo fazer com que o

justo fosse forte, fêz-se com que o forte fosse justo.

Pascal

(Pensamentos – séc. XVII)

19

Os tiranos e bárbaros antigos tinham, por

vêzes, mais compreensão real da justiça que os civilizados e democratas de hoje.

Rui Barbosa

(Oração aos Moços - 1920)

Narração 1 - página 1

Na madrugada desse dia, depois de ser obrigado a vender com grande prejuízo toda uma safra

de arroz, adquirida com dinheiro emprestado

de sua família, Benedito Pereira Caetano, sem avisar ninguém, deixa a cidade de Araguari com destino ignorado, levando consigo noventa

contos de réis.

Narração 2 - página 2

Até a data de sua partida de Araguari, Benedito Pereira Caetano se encontrava hospedado em

20

casa de Joaquim Naves Rosa, parente e amigo, que também era seu sócio num caminhão, com

o qual transportavam cereais para vender na

cidade...

Narração 3 - página 2

Preocupados com Benedito, que sabiam carregar consigo os noventa contos escondidos debaixo da roupa, Joaquim e seu irmão Sebastião, logo pela manhã, decidiram ir procurá-lo em casa de uma mulher onde ele costuma passar a noite de vez em quando.

Narração 4 - página 3

Os irmãos Naves indagam de Benedito em vários locais da cidade, sem nenhum resultado. Mais inquietos, decidem comunicar o fato à Polícia.

O delegado civil do município, pede então aos Naves para irem até a fazenda do pai de Benedito e abre um inquérito afim de investigar o desaparecimento.

Narração 5 - página 8

O delegado civil do município não encontra

elementos para esclarecer ou responsabilizar 21

ninguém pelo desaparecimento de Benedito.

Em princípios de dezembro assume a delegacia, com o cargo de delegado especial, um tenente da Força Pública do Estado

Narração 6 - página 30

Na ausência temporária de um juiz efetivo em sua cidade, o advogado Alamy obtém um

habeas-corpus para os Irmãos Naves com o juiz de uma comarca vizinha. Eles devem ser soltos.

Narração 7 - página 31

O dinheiro não é encontrado. O pai de Benedito, depois da confissão de Joaquim, passa a acreditar que os Naves assassinaram mesmo seu filho.

Nomeia então um advogado para representá-lo.

Narração 8 - página 45

Contrariando a ordem processual, os denun-

ciados são interrogados depois das testemunhas.

O advogado dos Naves não é informado desse

interrogatório.

22

Narração 9 - página 46

Toma posse o novo juiz efetivo da Comarca. O

advogado Alamy tenta obter o cumprimento de

um segundo habeas-corpus em favor dos Irmãos Naves.

Narração 10 - página 56

Nada se acrescenta ao processo contra os Naves.

Falham todas as tentativas. Nenhum sinal do

dinheiro.

Narração 11 - página 57

A sentença de pronúncia é acolhida pela Câmara Criminal do Estado. Tem início o primeiro julgamento dos Irmãos Naves, pelo júri popular da cidade de Araguari.

Narração 12 - página 62

O Tribunal de Justiça do Estado acolhe a apela-

ção da Promotoria e anula o primeiro julgamen-to. Pela segunda vez, os Naves são julgados e absolvidos pelo júri. Mas de novo, sem unanimidade de votos.

23

Narração 13 - página 63

O Ministério Público apela novamente da deci-são do Júri.

Narração 14 - página 63

Os irmãos Naves são julgados pela terceira vez e condenados a 25 anos e seis meses de reclusão, pelos juízes do Tribunal de Justiça do Estado, os quais, em suas conclusões sobre o processo

afirmam:

NARRADOR II - “A Pronúncia bem apre-

ciou a prova com atenta análise. (...) Dificilmente se fará tão plena prova de autoria de latrocínio.”

Narração 15 - página 63

Nova revisão do processo atenuou a pena e ao cumprirem oito anos de cárcere... Os irmãos

Naves ganharam a liberdade condicional.

Narração 16 - página 64

Três anos depois, sofrendo de longa enfermi-

dade, Joaquim morre num asilo de Araguari.

24

Narração 17 - página 64

Sebastião encontra Benedito Pereira Caetano, escondido na fazenda do pai, para onde ele

voltou depois de quinze anos de ausência.

Benedito é detido pela polícia, mas não pode ser acusado de nada. Nada tinha a ver com o

caso.

Narração 18 - página 64

Sebastião morre em 1963. Poucos anos depois

de conseguir com o advogado Alamy, através

de duras batalhas judiciais, uma indenização em dinheiro por aquilo que se resolveu chamar

então: “O Tremendo erro judiciário de Ara-

guari”.

25

index-27_1.png

26

index-28_1.png

27

Os episódios deste filme atêm-se ao processo 28

judiciário e fatos que o cercam, conforme estão relatados e documentados pelo livro do advogado defensor dos Naves.

NARRADOR: De acordo com as normas judiciá-

rias, os irmãos devem aguardar no cárcere, o resultado da apelação da acusação.

O Caso dos Irmãos Naves

Pág. 1

Na madrugada desse dia, depois de ser obrigado a vender com grande prejuízo toda uma safra de arroz, adquirida com dinheiro emprestado de sua família, Benedito Pereira Caetano, sem avisar ninguém, deixa a cidade de Araguari com destino ignorado, levando consigo noventa contos de réis.

Pág.2

Até a data de sai partida de Araguari, Benedito Pereira Caetano estivera hospedado em casa de 29

Joaquim Naves Rosa. Ambos possuíam em socie-

dade um caminhão com o qual transportavam

cereais para vender na cidade...

Pág. 3

Os irmãos Naves procuram saber de Benedito em vários lugares, sem nenhum resultado. Mais

preocupados decidem comunicar o fato à Polícia.

O delegado Ismael Nascimento, civil, acumulan-do na cidade as funções de contador e delegado, pede aos Naves para irem até a fazenda do pai de Benedito e abre um inquérito para investigar o desaparecimento.

Pág. 8

Até fins de dezembro a Delegacia de Polícia de Araguari não encontrara elementos para

resolver ou acusar ninguém do desaparecimento de Benedito. Cumprindo preceito constitucional do Estado Novo o Governo determina a substitui-

ção do delegado civil Ismael do Nascimento por um oficial militar. Assume o posto o tenente Francisco Vieira dos Santos

Pág. 45

Contrariando a ordem processual, os denunciados são interrogados depois das testemunhas.

30

Essa irregularidade não é levada ao conheci-

mento do advogado dos Naves.

Pág. 63 - Modificar a narração

Na ausência de juiz efetivo em sua comarca, o advogado Alamy obteve um habeas corpus para

os irmãos Naves na comarca de uma cidade

vizinha. Os irmãos Naves devem ser soltos.

Personagens Principais

Tenente

Opinião pública (n. 83.12.13) - Primeiro

encontro com os Naves (n.17) Interrogatórios Joaquim e reconstituição/ (n.46.47.48.49.50) =

Na fazenda Inhôzinho (n. 51) - Novo

interrogatório Joaquim (m. 57) - Tortura Ant.

Rita e Salvina (n.58.59) - Sumário de culpa

(n.61.61.63) - Pronúncia e chegada do Coronel (n.70.75.85) - Tortura de Sebastião pelo

Coronel (n.90) - Primeiro Júri (n.94.95)

Alamy

31

Ana Rosa na casa de Alamy (n. 38.40.42.43.45)

- Encontro c/ o juiz (n. 52.53) Revólver e Odete (n.60) - sumário (n. 61.63.65) - Primeira

audiência do novo juiz (n.67.68.69) - Pronúncia (n.73.76.80.82.83.87) - Primeiro júri

(n.94.95.96.98) - Encontro c/ novo juiz (n.100) -

Segundo júri (n.101).

Joaquim

No tempo de Ismael (n.4.5.6.7) - Opinião

pública (n.15.16) - Primeiro encontro c/ o

Tenente (n. 17) - Prisão (n.18) - Tortura

durante o interrogatório de Prontidão

(n.25.33) - Tortura, interrogatórios e

reconstituições (46.47.48.49.50) – Novo interrogatório (n.57) - Sumário (n.66) - Primeiro júri (n.94.96.98) - Prisão (n.99) -

Segundo júri (n.101).

Sebastião

No tempo de Ismael (n.4.5.6.7) - Opinião

pública(n.15.16) - Primeiro encontro com o

Tenente (.17) - Com Inhôzinho (n.19) -

Torturas durante o interrogatório de

Prontidão (n.2729.31) - Fuzilamento (n.46) -

Confissão (n.64) - Sumário (n.66) -com o

32

Coronel e Zeca Pólvora (n.89.90.91.92) -

Primeiro júri (n.94.96.98) - Segundo júri

(n.101)

Ana Rosa

Opinião pública (n.15.16) Primeiro encontro

com o Tenente (n.17) Tortura durante

interrogatório de Prontidão (n.23.32) - Corrida e na casa de Alamy (n.36.41.43.45, e off:

37.38.40.42) - Chifre em cabeça de cavalo

(n.54) - Sumário (n.66).

Antonia Rita

Opinião pública (n.15.16) - Primeiro encontro com o Tenente (n.17) Tortura (n.58) - Sumário (n. 62.63).

Salvina

Opinião pública (n.15.16) - Primeiro encontro com o Tenente (Todos) - Tortura (n.59) -

Sumário (n.63).

Promotor (Dr. Juvenil de Freitas ?)

Opinião pública (n.10.13) - Sumário

(n.61.63.66) - Primeira audiência do novo juiz (n.68) - Pronúncia (n.72.78.81) - Primeiro júri (n.94.96.98) - Segundo júri (n.101).

Primeiro Juiz

33

Encontro com Alamy (n.53) - Encontro com o

advogado do pai de Benedito (n.56) - Sumário (n.61.63.66) - Primeira audiência do novo juiz (n.68).

Novo Juiz

Primeira audiência e primeiro encontro c

Alamy (n.68.69) - Pronúncia

(n.71.74.77.79.82.84.86.88) - Primeiro júri

(n.94.96.98) - Segundo júri (n.101).

Advogado do Pai de Benedito

Encontro com o primeiro juiz (n.55.56) -

Sumário (n.61.63.66) - Primeira audiência do novo juiz (n.68) - Pronúncia (.81, e off: 72.78) -

Primeiro júri (n.94.96.96) Segundo júri (n.101).

Coronel

Chegada durante a pronúncia (n.70.75.85) -

Tortura de Sebastião (n.89.90) - Ida (n.93).

Zeca Pólvora

(n.90.91.92)

Inhôzinho

Encontro com Sebastião (n.19) - Encontro com o Tenente (n.51) - Sumário (n.61)

Prontidão

José Ferreira de Melo = rua Major Joaquim

34

Magalhães, 60, fone 2856

Primeiro interrogatório (n.20) - Segundo

interrogatório (n. 22.24.26.28.30.34).

Odete

Ana Rosa na casa de Alamy (n.41.43) - Revólver (n.60).

Hilário

Fuzilamento de Sebastião e reconstituições

(n.46.48.49) - sumário (n.61).

Camarano

Reconstituições (n. 48.49) - Sumário (n.61)

Floriza

No tempo de Ismael (n.5.7).

Ismael

O inquérito civil (n.7).

Waldomiro (escrivão de Ismael)

No tempo de Ismael (n.7)

Pai de Benedito

No tempo de Ismael (n.7)

Um Padre

Opinião pública (n.15)

Oficial de Justiça

Sumário (n.61.63.66) - Audiência do novo juiz 35

(n.68) - Primeiro júri (n.94.96.98) - Segundo júri (n.101).

Escrivão do Tribunal

Sumário (n.61.63.66) - Audiência do novo juiz (n.68) - Primeiro júri (n.94.96.98) - Segundo júri (n.101).

Um Amigo de Alamy

Primeiro júri (n.95.97)

Outro Amigo

Sumário (n.95.97).

Paulete (escrivão do Tenente)

Primeiro encontro dos Naves com o Tenente

(n.17) - Primeiro e segundo interrogatórios de Prontidão (n.20.22.24.26.28.30.34) -

Interrogatórios de Joaquim (n.47.50.57) -

Chegada do Coronel durante a pronúncia

(n.70.75.85).

Turquinho

Primeira tortura dos Naves durante

interrogatório de Prontidão (n.35) -

Reconstituições (n.48.49) - Na fazenda de

Inhôzinho (n.51) - Tortura A. Rita (n.58) -

Tortura de Salvina (n.59) - sumário (n.61.63) -

Torturando Sebastião com o coronel(n.89.90).

36

O Caixa

Opinião pública (n.9)

O Cliente do Banco

Opinião pública (n.9)

Dono do Armazém

Opinião pública (n.11

A Freguesa do Armazém

Opinião pública (n.11)

Chofer I

Opinião pública (n.12)

Chofer II

Opinião pública (n.12)

4 homens na farmácia,

um deles mais jovem (o homem do balção)

Opinião pública (n.10.13).

Soldados

Poderão eventualmente ser limitados a

Turquinho, Pretão e Jonas. Há soldados nas

cenas n.

XX.27.29.35.46.48.49.51.54.58.59.89.90.94.96.67

Jurados

Jurados, dos quais 7 (6 homens e uma mulher) formam o conselho de sentença. Cenas n.

96.98. - Jurados também presentes no

37

segundo júri, n.101

Grupo de Amigos de Alamy

Algumas pessoas na porta do tribunal durante o primeiro júri. Dois deles falam.

Assistência das Sessões de Júri

Povo que assiste ao primeiro júri:

n.94.96.97.98 = e eventualmente ao segundo

júri, n.101.

Xxxxx na Rua

Opinião pública: grupo de homens

conversando numa esquina (n.8b) - grupo de

homens conversando na farmácia (n.10.13) -

grupo de gente entra na igreja e reza na

igreja, principalmente velhas senhoras

(n.14.15). Gente que olha passar o corpo de

Zeca Pólvora , n.92).

Corpo Jurídico

Além de personagens do filme, algumas

pessoas presenciam a primeira audiência do

novo juiz, X68

Personagens Mudos

Benedito - N.2

Otacílio - Reconstituições (n.48.49)

38

Jonas – Pretão - N. 48.49.59.89.90

Carcereiro - N. 99

Uma Menina - Que pula corda no jardim de

Alamy, n. 37.39.44

Uma Criança de Colo - Filha de Antônia Rita, n.

58

Um Menino - Filho de Salvina, n. 59

Um Preso - Que dá informações mimadas a

Alamy, n. 67

Uma Mão - Que carimba, n. 82

Títulos

1

MC. Apresenta

2

Anselmo Duarte

Juca de Oliveira

John Herbert

Raul Cortez

em

3

O Caso dos Irmãos Naves

5

com

Lélia Abramo Sérgio Hingst

39

Cacilda Lanuza

apresentando

Julia Miranda Hiltrud Holl

6

e os seguintes atores não profissionais da

cidade de Araguari

João Quinca - Sebastião Campos - Milton de Lima Filho - José Ferreira de Mello - Marinho Bitten-court - Francisco Beregeno Juvenil de Freitas -

Edson Moraes - Remi França - Mirtes Delminda -

Honor Machado - Oscar Conceição - Antonio

Romualdo da Silva

7

Clovis de Oliveira - Abel Neto - José Veloso

- Romeu Duarte - Afif Rade - Michel Kalaf - Elsa Machado - Virgílio Augusto Nenê Santiago -

Agenor Costa - Galba Sá Augustito Santos - Antonio Queiroz - Lavinia God - José Amauri - Márcia França - Mira Canut - Luiz Ribeiro - Fausto Kalaf

- Alcides Figueiredo - Mario Nunes - Bernardino Sena - Abdalla Mameri - João Batista - Hilda Borges - Teófilo Coelho - Hélio Arajno - Avelino Santos - Ailton Pinto

8

Argumento e Roteiro

Jean-Claude Bernardet

40

Luiz Sérgio Person

Extraído da obra

O Caso dos Irmãos Naves,

de João Alamy Filho

9

Fotografia e Câmera

Osvaldo de Oliveira

10

Produtores

Glauco Mirko Laurelli

Luis Sérgio Person

Assessores de produção em Araguari

Antonio Baena

Wolney Botelho

Neiton Neves

11

Gerente de produção

Sérgio Ricci

Assistente de direção

José Sebastião de Souza

Chefe de equipe assistente de câmera

Pio Zamuner

Maquinista

Miro Reis

Eletricistas

Delcides Lopes

Antonio Oliveira

41

Guarda-roupa

Maria Inêz Silva

Continuidade

Hiltrud Holl

Art-direction

Sebastian Souza

Títulos

Carlos Prosperi Neto

12

Laboratório

Rex Filme - película Gevapan 36

Som

Odil Fono-Brasil

Técnicos de som

Júlio Perez

José Moura

13

Edição e Montagem

Glauco Mirko Laurelli

14

Direção

Luis Sérgio Person

15

FIM (em negrito)

Lauper Films (emblema)

Brasil – 1967

42

Além dos títulos, entrarão datas a serem sobre-impresas em imagens do filme que deverão

acompanhar os mesmos tipos dos títulos de

apresentação.

O Caso dos Irmãos Naves

1 - Título de Apresentação - Trucagem

Sôbre fundo móvel de fragmentos do trecho

final do preâmbulo da Constituição de 1937 (da qual deve constar a data), escritos com letras em baixo relêvo, solenes, entram os títulos de

apresentação do filme.

Música concreta em ritmo compassado.

Fade out.

Fade in.

43

2- Estação de Araguari, MG – EXT. NOITE

Velha locomotiva apitando.

Apito de trem.

Trem se pondo em movimento.

Ruído de trem partindo.

A CAM. EM PAN. acompanha um dos vagões de

passageiros, vazio ou quase, destacando num

dos últimos assentos, um homem sòzinho, semi-voltado contra a direção da CAM., saindo de

quadro com o passar do trem.

O trem afastando-se da estação e se perdendo nas trevas.

Ruído de trem se distanciando e desaparecendo completamente.

Sôbre essa imagem entra o letreiro: 29 de

Novembro, 1937

Entra também a voz do narrador, grave, mas sem ênfase ou participação, do mesmo modo como

se conduzirá nas narrações seguintes:

44

NARRADOR: Na madrugada dêsse dia,

depois de ser obrigado a vender com

grande prejuízo uma inteira safra de

arroz que negociou com dinheiro empres-

tado de sua família, Benedito Pereira

Caetano, sem avisar ninguém, deixa a

cidade de Araguari com destino igno-

rado, levando consigo noventa contos de

réis.

3 – Araguari – Locais Diversos

Planos rápidos da cidade ao amanhecer:

Sons matutinos, inclusive o cantar do galo e sinos a distância.

Ruas longas, largas, a Av. Minas Gerais, a Av.

Tiradentes; casas de alpendre e jardins separados da rua por grades de ferro trabalhadas.

A Vila Márques onde residiam os Naves, o casario pobre da cidade, o Parque Municipal.

O centro comercial, o armazém dos Lemos, a

agência Ford, farmácias, um ou outro veículo passando, raras pessoas se movimentando.

Finalmente a rua onde se vê num dos extremos 45

o prédio alto do Forum com a Cadeia Pública

em baixo, no meio da quadra a casa onde era a Prefeitura Municipal e na esquina a antiga Delegacia de Polícia.

Tôda esta sequência deve dar uma impressão

documentária de normalidade, de cotidiano, de vida urbana-provincial que desperta tranquila.

4 – VILA MÁRQUES – EXT. DIA

Joaquim Naves sai de sua casa rua acima, em

direção à casa de seu irmão Sebastião José Naves.

Um plano rápido sem mais detalhes.

Ruídos de rua e vozes indistintas.

Frente à casa de Sebastião os dois conversam um instante e novamente saem, a pé ou de caminhão, o Ford amarelo que pertence a Joaquim e Benedito Pereira Caetano.

Sôbre essa imagem entra a voz do narrador:

NARRADOR: Benedito Pereira Caetano há

dois mêses se encontrava em Araguari

hospedado em casa de Joaquim Naves

Rosa, que também era seu sócio no (num)

46

caminhão com o qual transportavam

cereais para vender na cidade...

5 – CASA DE FLORIZA. AV. MINAS GERAIS – EXT.