O Castello por Franz Kafka - Versão HTML

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O Castelo

Franz Kafka

Título original: Das Schloss

Tradução e posfácio: Modesto Carone

COMPANHIA DAS LETRAS

2ª Edição, 2000

Índice na última página

CONTRACAPA

O agrimensor K. chega a uma aldeia coberta de neve e

procura abrigo num albergue perto da ponte. O ambiente som-

brio e a recepção ambígua dão o tom do que será o romance. No

dia seguinte o herói vê, no pico da colina gelada, o castelo: como

um aviso sinistro, bandos de gralhas circulam em torno da torre.

O personagem, K., nunca conseguirá chegar até o alto, nem os

donos do poder permitirão que o faça. Em vez disso, o suposto

agrimensor — mesmo a esse respeito não há certeza — busca

reivindicar seus direitos a um verdadeiro cortejo de burocratas

maliciosos, que o atiram de um lado para outro com argumentos

que desenham o labirinto intransponível em que se entrincheira

a dominação.

O castelo Fausto do século XX consolidado como um dos

pontos mais altos da ficção universal — mostra a extensão

completa do termo kafkiano.

ABAS

Já se disse que os homens suportam qualquer sofrimento,

desde que saibam que terá fim; o efeito da tortura parece tanto

maior, mais eficaz, quanto mais se convence o torturado de que

aquele momento de dor não é apenas o presente, mas todo o

futuro.

A literatura de Franz Kafka pode ser lida também assim:

como representação desse estado mental em que um sofrimento

desagrega a noção de tempo e põe em seu lugar uma duração —

a de um presente contínuo gerado pela certeza de que a

repetição indesejada instalou-se como lei impossível de burlar.

Na acepção mais corrente, kafkiano, para nós, tornou-se o

enredo (literário ou não) que não acaba de oprimir; uma situação

kafkiana é o que é, para sempre, e nenhuma pergunta sobre sua

natureza parece atingi-la no centro.

Kafka morreu em 1924, um mês antes de completar 41

anos. Escreveu O castelo em 1922, em cerca de seis meses. Não

se sabe por quê, suspendeu a escrita no meio de uma frase: "Ela

estendeu a K. a mão trêmula e o mandou sentar-se ao seu lado;

falava com esforço, era preciso se esforçar para entendê-la, mas

o que ela disse".

Não há como não ver essa incompletude gramatical como

imagem da própria literatura kafkiana. Lendo Kafka à luz de

Kafka, parece desnecessário ou impertinente devanear sobre a

seqüência, pois ela está inscrita em todas as páginas anteriores:

K., o suposto agrimensor, não alcança o castelo. Não se

desenreda — e é esse o seu presente contínuo.

No posfácio, Modesto Carone cita uma anotação de Kafka:

"Alguns livros funcionam como uma chave para as salas

desconhecidas do nosso próprio castelo". A literatura kafkiana é

mais dura. Povoada de seres emparedados, parece afirmar que

as salas desconhecidas assim permanecerão.

CAPÍTULO 1

CHEGADA

Era tarde da noite quando K. chegou. A aldeia jazia na neve

profunda. Da encosta não se via nada. névoa e escuridão a

cercavam, nem mesmo o clarão mais fraco indicava o grande

castelo. K. permaneceu longo tempo sobre a ponte de madeira

que levava da estrada à aldeia e ergueu o olhar para o aparente

vazio.

Depois caminhou à procura de um lugar para passar a

noite; no albergue as pessoas ainda estavam acordadas, o dono

não tinha quarto para alugar mas, extremamente surpreso e

perturbado com o hóspede retardatário, propôs deixá-lo dormir

sobre um saco de palha na sala e K. concordou. Alguns

camponeses ainda estavam sentados tomando cerveja mas ele

não queria conversar com ninguém, pegou pessoalmente o saco

de palha no sótão e deitou-se perto da estufa. Estava quente ali,

os camponeses quietos, ele os examinou ainda um pouco com os

olhos cansados e em seguida adormeceu. Mas pouco tempo

depois já foi despertado. Um jovem, em trajes de cidade, rosto

de ator, olhos estreitos, sobrancelhas fortes, encontrava-se ao

seu lado com o dono do albergue. Os camponeses também ainda

estavam lá, alguns tinham voltado suas cadeiras para ver e ouvir

melhor. O jovem desculpou-se muito cortesmente por ter

acordado K., apresentou-se como filho do castelão e depois

disse:

— Esta aldeia é propriedade do castelo, quem fica ou

pernoita aqui de certa forma fica ou pernoita no castelo.

Ninguém pode fazer isso sem permissão do conde. Mas o senhor

não tem essa permissão, ou pelo menos não a apresentou.

K. tinha erguido a metade do corpo, alisado os cabelos para

trás com os dedos; olhou os dois de baixo para cima e disse:

— Em que aldeia eu me perdi? Então existe um castelo

aqui?

— Certamente — disse o jovem devagar, enquanto aqui e

ali alguém balançava a cabeça em relação a K. — O castelo do

senhor conde Westwest.

— E é preciso ter permissão para pernoitar? — perguntou K.

como se quisesse se convencer de que não tinha por acaso

sonhado com as recentes informações.

— É preciso ter a permissão — foi a resposta e havia um

desdém grosseiro por K. quando o jovem, com o braço esticado,

perguntou ao dono do albergue e aos fregueses: — Ou será que

não é preciso ter permissão?

— Então tenho de ir buscar uma permissão — disse K.

bocejando e empurrou a coberta como se quisesse levantar-se.

— Sim, mas de quem? — perguntou o jovem.

— Do senhor conde — disse K. — Não resta outra coisa a

fazer.

— Agora, à meia-noite, buscar a permissão do senhor

conde? — exclamou o jovem e recuou um passo.

— Isso não é possível? — perguntou K. impassível.

— Por que então me acordou?

Mas dessa vez o jovem ficou fora de si.

— Isso são maneiras de vagabundo! — bradou ele.

— Exijo respeito pela autoridade do conde. Eu o acordei

para comunicar-lhe que o senhor deve abandonar

imediatamente o condado.

— Chega de comédia — disse K. em voz ostensivamente

baixa, deitou-se e puxou a coberta. — O senhor está indo um

pouco longe demais, jovem, e amanhã eu ainda volto a falar do

seu comportamento. O dono do albergue e aqueles senhores são

testemunhas, se é que preciso de testemunhas. Mas de resto

deixe-me dizer-lhe que sou o agrimensor que o conde mandou

chamar. Meus ajudantes chegam amanhã na carruagem com os

aparelhos. Eu não quis perder a oportunidade de fazer uma

caminhada pela neve, mas infelizmente me desviei algumas

vezes do caminho e por isso cheguei tão tarde. Eu sabia por

conta própria, ainda antes que o senhor me ensinasse, que era

tarde demais para me apresentar agora no castelo. Por isso

também me contentei com este pouso noturno que o senhor —

dito com suavidade — teve a indelicadeza de perturbar. Com

isso estão encerradas minhas explicações. Boa noite, senhores.

E K. voltou-se para o lado da estufa.

— Agrimensor? — ouviu ainda perguntarem com hesitação

às suas costas, depois o silêncio foi geral.

Mas o jovem recompôs-se logo e disse ao dono do albergue

num tom suficientemente abafado para soar como consideração

pelo sono de K. e alto o suficiente para ser entendido por ele:

— Vou pedir informações pelo telefone.

Como, havia também um telefone neste albergue de

aldeia? Estavam providos de excelentes instalações.

Surpreendido no caso particular, no geral K. certamente o

esperava. Evidenciou-se que o telefone estava colocado quase

sobre sua cabeça, na sua sonolência ele não o tinha visto. Se o

jovem precisava telefonar, então não podia nem com a melhor

das boas vontades poupar o sono de K.; tratava-se apenas de

saber se K. o deixaria telefonar e ele decidiu que sim. Mas

também não tinha sentido algum fazer o papel de quem dormia

e por isso ele voltou a ficar deitado de costas. Viu os cam-

poneses se reunirem timidamente e confabularem, a chegada de

um agrimensor não era pouca coisa. A porta da cozinha se

abrira, lá estava, ocupando todo o espaço, a poderosa figura da

dona do albergue; na ponta dos pés o dono se aproximou dela

para informá-la. E então começou a conversa telefônica. O

castelão estava dormindo, mas um subcastelão, um dos

subcastelões, um senhor Fritz, atendeu. O jovem, que se

apresentou como Schwarzer, contou de que modo havia

encontrado K., um homem dos seus trinta anos, bastante esfar-

rapado, dormindo tranqüilamente sobre um saco de palha, tendo

por travesseiro uma minúscula mochila e ao alcance da mão um

cajado cheio de nós. Naturalmente ele lhe parecera suspeito e,

uma vez que o dono do albergue tinha claramente negligenciado

o dever, fora dever dele, Schwarzer, ir ao fundo da questão. Ser

acordado, ouvir o interrogatório e a ameaça — no caso, de rigor,

de expulsão do território do conde — tudo isso K. recebeu de má

vontade, aliás, como no final se evidenciou, talvez com razão,

pois afirma ser um agrimensor requisitado pelo senhor conde.

Naturalmente é no mínimo dever formal averiguar essa

afirmação e por isso Schwarzer pede ao senhor Fritz que se

informe na chancelaria central se realmente um agrimensor

assim é esperado e dê logo resposta pelo telefone.

Depois houve silêncio, do outro lado Fritz se informava e

aqui se esperava a resposta, K. ficou na mesma posição, não se

virou uma só vez, não parecia nem um pouco curioso, continuou

olhando o vazio à sua frente. O relato de Schwarzer, na sua

mistura de maldade e prudência, deu-lhe uma idéia da formação

de certo modo diplomática de que no castelo mesmo gente

miúda como Schwarzer dispunha com facilidade. E lá também

não faltava zelo — a chancelaria central tinha um serviço

noturno. E manifestamente respondia bem rápido, pois logo Fritz

estava tocando. Este informe entretanto pareceu muito breve,

pois imediatamente Schwarzer bateu o fone com fúria.

— Bem que eu disse — gritou. — Nem sinal de agrimensor,

um reles e mentiroso vagabundo, provavelmente algo pior.

Por um instante K. pensou que todos, Schwarzer,

camponeses, dono e dona do albergue, iriam se atirar sobre ele;

para se desviar pelo menos do primeiro assalto deslizou inteiro

por baixo da coberta, aí — esticou devagar, outra vez para fora,

a cabeça —, aí o telefone soou novamente e, conforme pareceu

a K., com uma força especial. Embora fosse improvável que de

novo dissesse respeito a K., ficaram todos paralisados e

Schwarzer voltou ao aparelho. Ali ouviu até o fim uma explicação

mais longa e depois disse em voz baixa:

— Um engano, então? Isso é bastante desagradável para

mim. O próprio chefe do escritório telefonou? Estranho, estranho.

Mas como devo agora explicar ao senhor agrimensor?

K. ficou escutando atentamente. Então o castelo o havia

designado agrimensor. Por um lado isso era desfavorável a ele,

pois indicava que no castelo se sabia tudo o que era preciso a

seu respeito, as relações de força tinham sido pesadas e

aceitavam a luta sorrindo. Mas por outro lado isso também era

propício, pois a seu ver provava que o subestimavam e que ele

teria mais liberdade do que de início podia esperar. E se

acreditavam com esse seu reconhecimento como agrimensor —

do ponto de vista moral, sem dúvida superior — conservá-lo num

estado de medo contínuo, então eles se enganavam: isso lhe

dava um leve tremor, mas era tudo.

Com um sinal K. despachou Schwarzer, que se aproximava

timidamente, recusou-se a passar para o quarto do dono do

albergue, para o qual o pressionavam, só aceitou dele uma

bebida para dormir, da dona do albergue uma bacia com sabão e

toalha e nem precisou exigir que a sala fosse esvaziada, pois

todos foram juntos para fora com os rostos virados,

provavelmente para não serem reconhecidos no dia seguinte; a

lâmpada foi apagada e finalmente ele ficou em paz. Dormiu

profundamente até de manhã, quase sem ser perturbado uma

ou duas vezes pelos ratos que passavam fugidios por ele.

Depois do café da manhã, que segundo informações do

dono do albergue devia ser pago pelo castelo, como aliás todas

as despesas de K., ele quis ir logo à aldeia. Mas como o dono do

albergue — com quem até então tinha falado apenas o

estritamente necessário, por conservar na memória o seu

comportamento de ontem — não parava de circular em torno

dele com uma súplica muda, ficou penalizado e mandou-o sen-

tar-se um instante à sua mesa.

— Ainda não conheço o conde — disse K. — É verdade que

ele paga bem um bom trabalho? Quando alguém como eu viaja

para tão longe da mulher e do filho, quer levar para casa alguma

coisa.

— Com isso o senhor não precisa se preocupar, não se ouve

queixa de mau pagamento.

— Bem — disse K. —, não me incluo entre os tímidos e

posso dizer o que penso até para um conde, mas naturalmente é

bem melhor entender-se em paz com os senhores.

O dono do albergue estava sentado diante de K. na beira do

banco da janela, não ousava sentar-se mais comodamente e

fitava K. o tempo todo com grandes olhos castanhos e medrosos.

Primeiro ele tinha querido impor sua presença a K. e agora a

impressão era de que preferia fugir dali. Temia ser indagado

sobre o conde? Temia a falta de confiabilidade do "senhor" por

quem ele tomava K.? K. tinha que distrair sua atenção. Olhou

para o relógio e disse:

— Logo chegam meus ajudantes, pode abrigá-los aqui?

— Sem dúvida — disse ele. — Mas eles não vão morar com

o senhor no castelo?

Renunciava tão fácil e de bom grado aos hóspedes e em

particular a K., a quem despachava sem mais para o castelo?

— Isso ainda não é certo — disse K. — Primeiro preciso

saber que trabalho eles têm para mim. Se por exemplo eu tiver

de trabalhar aqui embaixo, será mais sensato também morar

aqui embaixo. Temo também que não me agrade a vida lá em

cima no castelo. Quero estar sempre livre.

— Você não conhece o castelo — disse em voz baixa o dono

do albergue.

— Sem dúvida — disse K. — Não se deve julgar

prematuramente. Por enquanto a única coisa que sei do castelo

é que lá eles são capazes de procurar o agrimensor certo. Talvez

ainda haja outros méritos lá.

E levantou-se para se livrar do dono do albergue, que

mordia inquieto os lábios. Não era fácil conquistar a confiança

desse homem.

À saída chamou a atenção de K. um retrato escuro, numa

moldura escura, pendurado na parede. Já do seu pouso ele o

havia notado, mas da distância não tinha distinguido os

pormenores e acreditava que o retrato propriamente dito fora

removido da moldura e só se podia ver a tampa preta da parte

de trás. Mas era de fato um retrato, como agora se evidenciava

— o busto de um homem de cerca de cinqüenta anos. Mantinha

a cabeça tão afundada sobre o peito que mal se via alguma

coisa dos olhos; a testa alta e pesada e o forte nariz adunco

pareciam decisivos para essa inclinação. A barba cheia,

esmagada no queixo em conseqüência da postura do crânio,

reerguia-se embaixo. A mão esquerda estava espalmada sobre

os pêlos cerrados, mas não conseguia mais suspender a cabeça.

— Quem é? — perguntou K. — O conde?

K., em pé diante do retrato, não se virou para dirigir o olhar

ao dono do albergue.

— Não, o castelão.

— Eles têm um belo castelão no castelo, não há dúvida —

disse K. — Pena que o filho tenha se desviado tanto.

— Não — disse o dono do albergue, puxou K. um pouco

para si e sussurrou-lhe no ouvido: — Schwarzer ontem exagerou,

o pai dele é apenas um subcastelão, e até mesmo um dos

últimos.

Nesse instante, o dono do albergue pareceu a K. uma

criança.

— O patife! — disse K. rindo, mas o dono do albergue não

riu com ele e disse:

— O pai dele também é poderoso.

— Ora, ora — disse K. — Você considera todo o mundo

poderoso. A mim também, talvez?

— Você — disse ele, tímido mas sério —, você eu não

considero poderoso.

— Então sabe observar bem as coisas — disse K. — Digo em

confiança que de fato não sou poderoso. Conseqüentemente é

provável que diante dos poderosos eu não tenha menos respeito

que você, só que não sou tão honesto como você e não é sempre

que quero admitir isso.

E para consolar o dono do albergue e fazer-se mais

simpático deu-lhe um tapinha na face. Ele então sorriu um

pouco. Era realmente jovem, com o rosto macio e quase sem

barba. Como tinha chegado àquela mulher encorpada e

envelhecida que se via ali ao lado, atrás de uma janelinha, com

os cotovelos distantes do corpo, lidando na cozinha? Mas agora

K. não queria insistir mais fundo com ele, nem afugentar o

sorriso afinal conquistado, por isso fez-lhe mais um sinal para

que abrisse a porta e saiu para a bela manhã de inverno.

Agora via lá em cima o castelo nitidamente recortado no ar

claro, mais nítido por causa da neve que, amoldando-se a todas

as formas, se estendia numa camada fina depositada por toda

parte. No alto da encosta, aliás, parecia haver muito menos neve

do que aqui na aldeia, onde K. avançava com esforço não menor

que o de ontem na estrada. Ali a neve chegava às janelas das

choupanas e pouco acima pesava sobre o telhado baixo, mas na

altura da encosta tudo se alçava livre e leve para cima, ou ao

menos assim parecia visto de cá.

No conjunto o castelo, tal como se mostrava da distância,

correspondia às expectativas de K. Não era nem um burgo feudal

nem uma residência nova e suntuosa, mas uma extensa

construção que consistia de poucos edifícios de dois andares e

de muitos outros mais baixos estreitamente unidos entre si; se

não se soubesse que era um castelo seria possível considerá-lo

uma cidadezinha. K. viu apenas uma torre mas não era possível

discernir se pertencia a uma habitação ou a uma igreja. Bandos

de gralhas circulavam ao seu redor.

Com os olhos voltados para o castelo, K. continuou

andando, nada além disso o preocupava. Mas, ao se aproximar,

o castelo o decepcionou, na verdade era só uma cidadezinha

miserável, um aglomerado de casas de vila, que se distinguiam

por serem todas talvez de pedra, mas a pintura tinha caído havia

muito tempo e a pedra parecia se esboroar. K. lembrou-se

fugazmente da sua pequena cidade natal; em comparação com

aquele suposto castelo ela dificilmente ficava atrás, se K. tivesse

vindo só para visitá-lo teria sido uma pena a longa peregrinação

— ele teria agido mais sensatamente revendo o berço antigo,

aonde não ia fazia tanto tempo. E comparou mentalmente a

torre da igreja da terra natal com a torre lá em cima. Aquela se

estreitando definida, sem hesitação, reta para o alto e acabando

num telhado largo de telhas vermelhas, uma construção terrena

— o que mais podemos construir? — mas com um alvo mais

elevado que o amontoado de casas e uma expressão mais clara

que a do turvo dia de trabalho. A torre aqui em cima — a única

visível —, torre de uma moradia, como agora se via, talvez do

corpo principal do castelo, era uma construção redonda e

uniforme, em parte piedosamente coberta de hera. com janelas

pequenas que agora cintilavam ao sol — havia nisso algo

alucinado — e terminando numa espécie de terraço cujas ameias

denteavam o céu azul, inseguras, irregulares, quebradiças como

se desenhadas pela mão medrosa ou negligente de uma criança.

Era como se algum morador deprimido, que por justa razão

devesse permanecer preso no cômodo mais remoto da casa, ti-

vesse rompido o telhado e se levantado para mostrar-se ao

mundo.

K. estacou de novo, como se imóvel tivesse mais força de

julgamento. Mais foi perturbado. Atrás da igreja da aldeia, ao

lado da qual havia parado — na verdade era apenas uma capela,

ampliada à maneira de um celeiro, para poder acolher a

comunidade —, estava a escola. Um prédio baixo e comprido,

unindo curiosamente o caráter do provisório e do muito antigo,

ficava atrás de um jardim cercado de grades, agora um campo

de neve. Naquele momento as crianças saíam com o professor.

Elas o rodeavam num denso aglomerado, todos os olhares

dirigiam-se a ele, pairavam sem parar de todos os lados, K.

absolutamente não entendia sua fala rápida. O professor, um

homem moço, pequeno, de ombros estreitos, mas — sem que

isso fosse ridículo — muito aprumado, já havia captado K. com o

olho, a distância; de qualquer modo, excetuando-se o seu grupo,

K. era a única pessoa à vista. Por ser estrangeiro, K.

cumprimentou primeiro, principalmente diante de um

homenzinho tão autoritário.

— Bom dia, professor — disse ele.

De um só golpe as crianças emudeceram; na certa esse

silêncio súbito devia agradar ao professor como introdução às

suas palavras.

— Está olhando o castelo? — perguntou, mais brando do

que K. havia esperado, mas num tom de quem não aprovava o

que K. estava fazendo.

— Sim — disse K. — Sou de fora, estou aqui só desde ontem

à noite.

— Não gosta do castelo? — perguntou rápido o professor.

— Como? — replicou K. um pouco desconcertado e repetiu

a pergunta numa forma mais suave: — Se gosto do castelo? Por

que acha que não gosto?

— Nenhum forasteiro gosta — disse o professor. Para não

falar nada inoportuno, K. desviou a conversa e perguntou:

— O senhor decerto conhece o conde.

— Não — disse o professor e fez menção de ir embora.

Mas K. não cedeu e perguntou mais uma vez:

— Como, o senhor não conhece o conde?

— Como iria conhecê-lo? — disse o professor em voz baixa

e acrescentou alto em francês: — Leve em consideração a

presença de crianças inocentes.

K. sentiu-se então no direito de perguntar:

— Poderia visitá-lo, senhor professor? Vou ficar mais tempo

aqui e já agora me sinto um pouco abandonado, não tenho

relação com os camponeses nem pertenço ao castelo.

— Não há diferença entre os camponeses e o castelo —

disse o professor.

— Pode ser — disse K. — Isso não muda em nada minha

situação. Poderia fazer-lhe uma visita?

— Moro na rua do Cisne, na casa do açougueiro. Na

realidade isso era mais uma informação de endereço do que um

convite; no entanto K. disse:

— Muito bem, eu irei.

O professor fez um aceno de cabeça e continuou a andar

com o bando de crianças, que logo começaram a gritar outra

vez. Logo em seguida desapareceram numa ruazinha que descia

abruptamente.

Mas K. estava distraído e irritado com a conversa. Pela

primeira vez desde a chegada ele sentiu um cansaço real. O

longo caminho até ali parecia a princípio não tê-lo afetado —

como havia vagueado tranqüilo aqueles dias, passo a passo! —

mas agora mostravam-se as conseqüências do esforço

desmedido, sem dúvida na hora errada. Mostrava-se

irresistivelmente impelido a buscar novos contatos, mas cada

conhecimento novo acentuava a fadiga. Se no estado em que se

encontrava ele se obrigasse a esticar o passeio pelo menos até a

entrada do castelo teria feito mais que o suficiente. Assim,

seguiu em frente, mas era um extenso caminho. Pois a rua em

que estava, a principal da aldeia, não levava à encosta do

castelo, apenas para perto dela, e depois, como que de

propósito, fazia uma curva e, embora não se afastasse do

castelo, também não se aproximava dele. K. estava sempre

esperando que ela afinal tomasse o rumo do castelo e só porque

o esperava é que continuava a andar; evidentemente por causa

do cansaço ele hesitava em abandonar a rua; espantava-se

também com a extensão da aldeia, que não tinha fim, sem parar

as casinhas, os vidros das janelas cobertos de gelo, a neve, o

vazio de gente — finalmente ele escapou dessa rua paralisante,

uma viela estreita o acolheu, neve mais profunda ainda, era uma

tarefa árdua erguer os pés que afundavam, o suor brotava, de

repente ele parou e não pôde mais continuar.

Bem, não estava isolado, à direita e à esquerda havia

cabanas de camponeses, fez uma bola de neve e atirou-a contra

uma janela. Imediatamente abriu-se a porta — a primeira que se

abria em todo o trajeto da aldeia — e lá estava um velho

camponês de gibão de pele marrom, a cabeça inclinada para o

lado, amistoso e frágil.

— Posso entrar um pouco na sua casa? — disse K. — Estou

muito cansado.

Não ouviu absolutamente o que o velho disse, aceitou

agradecido quando foi empurrada ao seu encontro uma tábua

que logo o salvou da neve e com alguns passos estava dentro da

casa.

Um grande cômodo na penumbra. Quem vinha de fora a

princípio não via nada. K. cambaleou contra uma tina, a mão de

uma mulher o segurou. De um canto chegavam muitos gritos de

criança. De outro saíam rolos de fumaça e transformavam a

meia-luz em escuridão: K. parecia estar em pé no meio das

nuvens.

— Ele está bêbado — disse alguém.

— Quem é o senhor? — bradou uma voz imperiosa e, sem

dúvida dirigida para o velho, disse: — Por que você o deixou

entrar? Pode-se deixar entrar tudo o que fica rondando pelas

ruas?

— Sou o agrimensor do conde — disse K., procurando desse

modo justificar-se diante da pessoa que continuava invisível.

— Ah, é o agrimensor — disse uma voz de mulher e depois

seguiu-se um silêncio total.

— Então me conhecem? — perguntou K.

— Certamente — disse a mesma voz, ainda lacônica. O fato

de que se conhecia K. parecia não recomendá-lo.

Por fim a fumaça se dissipou um pouco e K. pôde

lentamente orientar-se. Parecia ser um dia de limpeza geral.

Perto da porta lavava-se roupa. A fumaça porém vinha do canto

esquerdo, onde, numa tina de madeira de um tamanho que K.

ainda nunca tinha visto — mais ou menos o de duas camas —,

dois homens se banhavam na água que soltava vapor. Mas mais

surpreendente ainda, sem que se soubesse exatamente no que

consistia a surpresa, era o canto da direita. De uma grande

fresta, a única na parede dos fundos, chegava, provavelmente

do pátio, uma pálida luz de neve, que dava um brilho como se

fosse de seda ao vestido de uma mulher bem no canto, quase

deitada de cansaço numa poltrona de espaldar alto. Ela segurava

ao seio um bebê. À sua volta brincavam algumas crianças, filhos

de camponeses, como se podia ver, mas ela não parecia perten-

cer ao seu meio — certamente a enfermidade e o cansaço

refinam até os camponeses.

— Sente-se — disse um dos homens, de barba cheia e além

disso um bigode sob o qual ele, ofegante, conservava a boca

sempre aberta; apontou, o que era cômico de se ver, com a mão

sobre a borda da tina para uma arca e nesse ato respingou de

água quente o rosto todo de K.

Sobre a arca já estava sentado, olhando sonolentamente

para a frente, o velho que tinha admitido K. na casa. K. estava

grato por finalmente poder sentar-se. Agora ninguém mais se

preocupava com ele. A mulher que lavava roupa na tina, loira, de

uma opulência juvenil, cantava em voz baixa enquanto

trabalhava, os homens no banho batiam com os pés e giravam o

corpo, as crianças queriam se aproximar deles, mas eram cons-

tantemente rechaçadas pelos possantes espirros de água que

também não poupavam K., a mulher na poltrona continuava

como se estivesse inanimada, não baixava o olhar nem mesmo

para a criança ao seio, mas dirigia-o para um alvo indefinido no

alto.

K. contemplou-a longamente, uma imagem bela e triste que

não se alterava, mas depois deve ter adormecido, pois quando,

chamado por uma voz alta, se sobressaltou, sua cabeça se

apoiava no ombro do velho ao lado. Os homens haviam

terminado o banho — na banheira agora agitavam-se as crianças

vigiadas pela mulher loira — e estavam vestidos diante de K. Via-

se que o barbudo vociferante era o menos importante dos dois.

O outro, não mais alto que ele, mas com muito menos barba, era

um homem quieto, de pensamento lento, uma figura larga, o

rosto também largo, e conservava a cabeça baixa.

— Senhor agrimensor — disse ele —, o senhor não pode

ficar aqui. Perdoe a indelicadeza.

— Eu não queria ficar — disse K. — Só queria descansar um

pouco. Já descansei e agora vou embora.

— O senhor provavelmente está admirado com a pouca

hospitalidade — disse o homem —. mas a hospitalidade não é

costume entre nós. não precisamos de hóspedes.

Um pouco recomposto do sono, o ouvido mais aguçado que

antes, K. alegrou-se com as palavras francas. Movia-se mais

livremente, apoiando ora aqui, ora ali, seu cajado, aproximou-se

da mulher na poltrona, era aliás o maior fisicamente no recinto.

— Sem dúvida — disse K. —, que necessidade têm de

hóspedes? Mas de vez em quando precisa-se de um, por

exemplo de mim, o agrimensor.

— Isso eu não sei — disse o homem com lentidão. — Se

chamaram, então provavelmente precisam do senhor, com

certeza é uma exceção, mas nós. os pequenos, respeitamos as

regras, o senhor não pode nos levar a mal por isso.

— Não, não — disse K. —, só posso agradecer, ao senhor e

a todos aqui.

E sem que ninguém esperasse K. virou-se literalmente num

salto e ficou em pé diante da mulher. Com olhos cansados e

azuis ela fitou K., um lenço de seda transparente descia-lhe até o

meio da testa, o bebê dormia no seu seio.

— Quem é você? — perguntou K.

Com menosprezo — não estava claro se o desdém cabia a

K. ou às suas próprias palavras — ela disse:

— Uma moça do castelo.

Tudo isso tinha durado só um instante, à direita e à

esquerda de K. já se postavam os dois homens; ele foi puxado

para a porta em silêncio mas com toda a força, como se não

existisse outro meio de entendimento. Alguma coisa nisso

alegrou o velho e ele bateu palmas. Também a lavadeira riu

entre as crianças que de repente começaram a fazer barulho

como loucas.

Mas logo K. estava na rua, os homens o vigiavam da soleira

da porta, a neve caía outra vez, no entanto parecia estar um

pouco mais claro. O homem de barba cheia gritou impaciente:

— Aonde quer ir? Este lado dá para o castelo, este para a

aldeia.

K. não lhe respondeu, mas para o outro, que apesar da

superioridade parecia o mais acessível, ele disse:

— Quem são vocês? A quem devo agradecer a minha

estada?

— Sou o mestre-de-curtume Lasemann — foi a resposta. —

Mas o senhor não tem de agradecer a ninguém.

— Está bem — disse K. — Talvez ainda nos encontremos.

— Não creio — disse o homem.

Nesse momento o barbudo bradou com a mão erguida:

— Bom dia, Artur, bom dia Jeremias!

K. voltou-se: então nesta aldeia ainda havia gente na rua!

Da direção do castelo vinham dois jovens de estatura média,

ambos muito esbeltos, as roupas justas, os rostos também muito

semelhantes, a pele moreno-escura, mas nela se destacava o

cavanhaque com sua especial cor negra. Andavam com

espantosa rapidez para as condições da rua e moviam em

compasso as pernas delgadas.

— O que vão fazer? — gritou o barbudo.

Só gritando era possível comunicar-se com eles, de tão

depressa e sem parar que iam.

— Negócios — responderam rindo.

— Onde?

— No albergue.

— Vou indo para lá também — gritou K. mais alto que os

outros.

Tinha um grande desejo de ser levado pelos dois; não

parecia que conhecê-los oferecesse grande vantagem, mas

evidentemente eram uma companhia boa e estimulante. Eles

ouviram as palavras de K., porém só acenaram com a cabeça e

logo se foram.

K. ainda estava no meio da neve, tinha pouca vontade de

erguer o pé para afundá-lo outra vez um pouquinho adiante; o

mestre-de-curtume e seu companheiro, satisfeitos por terem

finalmente despachado K., recuaram para dentro de casa,

devagar, através da porta apenas entreaberta, sempre olhando

para trás na direção de K., que ficou sozinho na neve que o

envolvia.

— Ocasião para um pequeno desespero — ocorreu-lhe — se

estivesse aqui por acaso e não intencionalmente.

Abriu-se então na choupana à sua esquerda uma janela

minúscula — fechada ela parecera de um azul profundo, talvez

no reflexo da neve; era tão minúscula que, agora que estava

aberta, não se podia ver o rosto todo de quem olhava para fora,

só os olhos velhos e castanhos.

— Lá está ele — ouviu uma trêmula voz feminina dizer.

— É o agrimensor — disse uma voz de homem. Aí o homem

foi à janela e perguntou, num tom que não era hostil, mas

certamente interessado em que na rua estivesse tudo em ordem

diante da sua casa:

— Quem está esperando?

— Um trenó que me leve embora — disse K.

— Aqui não passa trenó — disse o homem. — Não há

tráfego aqui.

— Mas este é o caminho que dá para o castelo.

— Não importa, não importa — disse o homem com uma

certa implacabilidade. — Aqui não há tráfego.

Depois ambos silenciaram. Mas o homem evidentemente

pensava em alguma coisa, pois continuou mantendo aberta a

janela de onde fluía fumaça.

— Um caminho ruim — disse K. para ajudá-lo. Mas ele disse

apenas:

— Sem dúvida.

Um pouco depois, porém, ele falou:

— Se quiser posso levá-lo no meu trenó.

— Faça-me esse favor — disse K. muito satisfeito. — Quanto

quer por isso?

— Nada — disse o homem. K. ficou muito admirado.

— O senhor é o agrimensor — explicou o homem — e

pertence ao castelo. Aonde quer ir?

— Ao castelo — respondeu K. rápido.

— Então eu não vou — disse o homem imediatamente.

— Mas eu pertenço ao castelo — disse K. repetindo as

próprias palavras do homem.

— Pode ser — disse o homem num tom de recusa.

— Então me leve até o albergue — disse K.

— Está bem — disse o homem. — Saio já com o trenó.

Nada disso dava a impressão de uma amabilidade especial,

mas antes de algum tipo de empenho muito egoísta, ansioso e

quase obsessivo em tirar K. de frente da casa.

O portão se abriu e por ele saiu um pequeno trenó para

carga leve, inteiramente plano e sem nenhum assento, puxado

por um cavalinho frágil, atrás o homem, que não era velho mas

fraco, curvado, mancando, o rosto magro, vermelho e resfriado

que parecia particularmente pequeno por causa de um xale de lã

enrolado firme em torno do pescoço. O homem estava visivel-

mente doente e tinha saído só para transportar K. dali. K.

mencionou algo nesse sentido, mas ele encerrou o assunto com

um aceno. Ficou sabendo apenas que era o carroceiro

Gerstäcker, e que tinha apanhado aquele trenó incômodo porque

ele estava pronto e teria levado muito tempo para tirar outro

para fora.

— Sente-se — disse e apontou com o chicote para a parte

de trás do trenó.

— Vou me sentar ao seu lado — disse K.

— Eu vou a pé — disse Gerstäcker.

— Mas por quê? — perguntou K.

— Vou a pé — repetiu Gerstäcker e teve um acesso de

tosse que o sacudiu tanto que ele precisou fincar as pernas na

neve e segurar com as mãos a borda do trenó.

K. não falou mais nada, sentou-se na parte de trás do trenó,

a tosse se acalmou aos poucos e eles partiram.

O castelo lá em cima, já curiosamente escuro, que K. havia

esperado alcançar ainda naquele dia, distanciava-se outra vez.

Mas, como se ainda fosse preciso dar um sinal para a despedida

provisória, ali soou um toque de sino alado e alegre, que pelo

menos por um momento fez seu coração estremecer, como se o

ameaçasse — pois o toque era também doloroso — a realidade

daquilo a que incertamente aspirava. Logo, porém, esse grande

sino emudeceu e foi substituído por um sininho fraco e

monótono, talvez ainda lá em cima, mas talvez já na aldeia. Esse

tilintar evidentemente se adaptava melhor à viagem vagarosa e

ao carroceiro digno de pena, mas implacável.

— Escute — bradou K. de repente.

Eles já estavam na proximidade da igreja, o caminho para o

albergue já não era muito longo, K. podia arriscar alguma coisa.

— Muito me admira que você ouse me levar de um lado

para outro sob sua própria responsabilidade. Tem o direito de

fazer isso?

Gerstäcker não se importou e continuou caminhando

tranqüilamente ao lado do cavalinho.

— Ei — gritou K., juntou um pouco de neve no trenó e com

uma bola acertou em cheio o ouvido de Gerstäcker.

Este então parou e se voltou; mas quando K. o viu de tão

perto — o trenó tinha avançado mais um pouco —, essa figura

curvada, por assim dizer maltratada, o rosto vermelho, cansado

e estreito, com as maçãs de algum modo diferentes, uma plana,

a outra encovada. a boca aberta e atenta na qual havia só

alguns dentes isolados, K. teve de repetir por compaixão o que

antes havia dito por maldade, se Gerstäcker não podia ser pu-

nido pelo fato de transportá-lo.

— O que está querendo? — perguntou Gerstäcker sem

compreender; mas também sem esperar explicação instigou o

cavalinho e seguiram em frente.

Quando estavam quase no albergue — K. reconheceu isso

numa curva do caminho —, para seu espanto já havia escurecido

completamente. Tinha saído fazia tanto tempo? Segundo seus

cálculos fazia apenas uma ou duas horas. Partira de manhã. E

não tivera nenhuma necessidade de comer. Até havia pouco a

luz do dia tinha sido regular, só agora aquela escuridão.

— Dias curtos, dias curtos — disse a si mesmo, escorregou

do trenó e se dirigiu ao albergue.

No alto da pequena escada externa da casa estava o dono

do albergue, muito bem-vindo, que iluminava o caminho com a

lanterna erguida. Lembrando-se por um instante do carroceiro,

K. parou em algum lugar no escuro e ouviu-se uma tosse: era

ele. Bem, em breve iria vê-lo outra vez. Só quando estava em

cima, com o dono do albergue que o cumprimentava

humildemente, é que percebeu dois homens, um de cada lado

da porta. Pegou a lanterna da mão do dono do albergue e ilumi-

nou os dois; eram os homens que já havia encontrado e que

tinham sido chamados de Artur e Jeremias. Agora eles o

saudavam com uma continência. Recordando-se do seu tempo

de serviço militar, aqueles tempos felizes, ele riu.

— Quem são vocês? — perguntou, olhando de um para

outro.

— Seus ajudantes — responderam.

— São os ajudantes — confirmou em voz baixa o dono do

albergue.

— Como? — perguntou K. — São vocês os antigos ajudantes

que mandei me seguirem e que eu estava esperando?

Eles responderam afirmativamente.

— Isso é bom — disse K. depois de um curto intervalo. — É

bom que tenham chegado.

Depois de mais uma pausa falou:

— Aliás vocês se atrasaram muito. São muito negligentes.

— Era um longo caminho — disse um deles.

— Longo caminho — repetiu K. — Mas eu os encontrei

quando vinham do castelo.

— Sim — disseram sem mais explicações.

— Onde estão os aparelhos? — perguntou K.

— Não temos nenhum aparelho — disseram eles.

— Os aparelhos que eu confiei a vocês — disse K.

— Não temos nenhum — repetiram os dois.

— Ah, que gente! — exclamou K. — Entendem alguma coisa

de agrimensura?

— Não — disseram eles.

— Mas se são meus antigos ajudantes teriam de entender

— disse K.

Eles silenciaram.

— Venham então — disse K. e empurrou-os à frente para

dentro da casa.

CAPÍTULO 2

BARNABÁS

Os três então ficaram sentados relativamente em silêncio

no salão do albergue, bebendo cerveja numa pequena mesa, K.

no meio, à direita e à esquerda os ajudantes. Além desta, só

uma mesa estava ocupada por camponeses, de maneira

semelhante à noite anterior.

— Com vocês não é fácil — disse K., comparando os seus

rostos, como já o tinha feito várias vezes. — Como é que posso

distinguir um do outro? Vocês são diferentes apenas no nome,

no mais são parecidos como — estacou e depois prosseguiu

involuntariamente — no mais vocês são parecidos como cobras.

Eles sorriram.

— Outras pessoas nos distinguem bem — disseram como

justificativa.

— Acredito — disse K. — Eu mesmo fui testemunha disso,

mas só posso ver com os meus olhos, e com eles não consigo

distinguir um do outro. Por isso vou tratá-los como sendo um

único homem e chamar os dois de Artur, não é assim que um de

vocês se chama... você, por acaso? — perguntou K. a um deles.

— Não — disse este. — Eu me chamo Jeremias.

— Bem, dá no mesmo — disse K. — Vou chamar a ambos

de Artur. Se eu mandar Artur para alguma parte, vão os dois; se

eu der uma tarefa a Artur, vocês dois a fazem; para mim isso

tem a grande desvantagem de que não posso usá-los para

trabalhos isolados, mas tem também a vantagem de que os dois

assumem juntos a responsabilidade de tudo aquilo de que eu os

incumbir. Para mim é indiferente de que modo vocês dividem

entre si o trabalho, a única coisa que não podem é se desculpar

um por causa do outro, para mim vocês são um único homem.

Eles refletiram e disseram:

— Isso seria bem desagradável para nós.

— Como poderia deixar de ser? — atalhou K. —

Naturalmente que deve ser desagradável, mas é assim que vai

ficar.

Já por algum tempo K. estava vendo um dos camponeses

esgueirar-se em volta da mesa; finalmente ele se decidiu,

aproximou-se de um dos ajudantes e quis cochichar-lhe alguma

coisa.

— Desculpem-me — disse K., batendo com a mão na mesa

e se levantando. — Estes são meus ajudantes e estamos agora

discutindo algumas questões. Ninguém tem o direito de nos

interromper.

— Perdão, perdão — disse o camponês, receoso, enquanto

voltava de costas à mesa dos seus companheiros.

— Esta é uma coisa que vocês precisam levar em conta

acima de tudo — disse K. sentando-se outra vez. — Vocês não

podem falar com ninguém sem a minha permissão. Eu sou um

estranho aqui e se vocês são os meus antigos ajudantes, então

são estranhos também.

Por isso nós três, estranhos, temos de permanecer unidos;

estendam-me suas mãos.

Eles as estenderam com demasiada presteza.

— Podem baixar as patas — disse. — Mas minha ordem

continua valendo. Agora eu vou dormir e aconselho-os a fazer o

mesmo. Hoje nós perdemos um dia de trabalho, amanhã temos

de começar muito cedo. Vocês precisam arrumar um trenó para

a ida ao castelo e estar prontos com ele às seis horas aqui em

frente da casa.

— Está bem — disse um deles. Mas o outro interveio:

— Você diz "está bem", mas sabe que não é possível.

— Quietos — disse K. — Vocês já estão querendo se