O Conde d'Abranhos por Eça de Queirós - Versão HTML

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O Conde d'Abranhos

Eça de Queirós

NOTAS BIOGRÁFICAS POR

Z. ZAGALO.

À EX.ma SRª CONDESSA D'ABRANHOS

Minha Senhora: Tive, durante quinze anos, a honra tão invejada de ser o secretário particular

de seu Ex.mo Marido, Alípio Severo Abranhos, Conde d'Abranhos, e consumo-me, desde o dia

da sua morte, no desejo de glorificar a memória deste varão eminente, Orador, Publicista,

Estadista, Legislador e Filósofo.

V. Exª, Srª Condessa, ergue-lhe neste momento, no cemitério dos Prazeres, um mausoléu

comemorativo, onde o cinzel do escultor Craveiro faz reviver a nobre figura do Conde.

Respeitosamente me arrojo, Srª Condessa, a imitar o piedoso acto de V. Exª, e neste livro

como o artista esculpiu no mármore o seu invólucro físico eu pretendo reconstituir o seu ser

moral. A estátua é assim completada pela biografia: na pedra, as gerações contemporâneas

poderão contemplar a grandeza da sua atitude e a expressão do seu rosto; no livro, admirar-

lhe-ão a elevação do espírito e a rectidão da alma.

E quem melhor do que eu poderia tornar conhecido este português histórico eu, a quem ele

fez a confidência das suas crenças, da sua filosofia tão profundamente religiosa, da sua alta

ambição, do seu puro amor da Pátria, da sua vasta ciência política? Eu, que tenho presente a

sua correspondência, cuidadosamente arquivada no copiador os seus manuscritos, os

rascunhos dos seus discursos, naquela letra larga e ampla que apresentava similitude com a

sua alma; eu, que tive o piedoso cuidado durante quinze anos, de recolher as menores

palavras que saíam dos seus lábios ai! que a anemia ia adelgaçando tão cruelmente e,

apenas entrava no meu quarto andar da Rua do Carvalho, ninho doméstico que a sua

generosidade me permitiu adquirir escrevia as conversas que, à hora do chá, ou mais tarde

no seu escritório, me enlevavam de admiração.

Eu fui a testemunha da sua vida. Outros o viram em S. Bento, nas Secretarias, no Paço, no

Grémio, mas só eu o vi, perdoe-me V. Exª, Srª Condessa, a familiar expressão em chinelos

e de «robe-de-chambre».

Todos conhecem o grande homem. Eu, conheço o homem. Eu e V. Exª, de quem ele me

dizia, pouco antes de morrer, no momento em que lhe dava a colher de bromureto de potássio:

–«Zagalo amigo, ao fim da experiência de oito anos de casamento, a Lulu (porque nos

momentos de expansão comigo, era este o nome que ele lhe dava, Srª Condessa pois que,

ordinariamen te, aos inferiores dizia, a Condessa, e aos seus iguais, a D. Catarina) a Lulu,

amigo Zagalo, tem sido mais que uma esposa, tem sido «um bálsamo». Referia-se o ilustre

marido de V. Exª às circunstâncias dolorosas do seu primeiro casamento, a que ele se

costumava, referir, chamando-lhe «uma chaga».

Tais são os motivos, Srª Condessa o desejo de lhe erguer um monumento espiritual e o meu

conhecimento íntimo da sua vida que me levam, depois de demorada reflexão, a escrever

esta biografia do Conde d'Abranhos.

Eu conheço ainda que as minhas tentativas literárias têm recebido do país um acolhimento

remunerador que me escasseiam as qualidades de Estilo e de Critica, para escrever a

história complexa deste grande homem: seria necessário, para bem o pintar, um Plutarco, ou,

nos tempos mais modernos, um Victor Cousin (que ele tanto admirava), ou ainda,

contemporaneamente, um Herculano, um Rebelo, um Castilho – u m desses astros que se

destacam no céu da nossa Pátria, com uma luz de serenidade eterna. Eu sei, além disso, não

serem necessárias apoteoses biográficas para que o pais reconheça o homem que perdeu no

Conde d'Abranhos. A dor de toda a Lisboa devia ser b em grata à sua alma. Sim, Srª

Condessa, devia ser bem grato ao seu espírito imortal, já arrebatado à serenidade dos eleitos,

ver, cá em baixo, nesta Capital que ele amava, nestas ruas que ele tão bem conhecia, a

imponente cerimónia do seu préstito fúnebre: o camarista que representava S. M. El-Rei; o

presidente do conselho que, apesar da firmeza da sua vontade de ferro, não podia conter as

lágrimas que lhe humedeciam as pálpebras; a deputação dos meninos do Asilo de S.

Cristóvão, por quem ele tomava um interesse tão delicado e a quem chamava, com aquela

graça que nas horas felizes era o encanto da sua conversa, «os meus pintainhos»; a

deputação das duas casas do Parlamento, levando à frente o orador da maioria, o poeta

maravilhoso dos «Sonhos e Enleios», que me disse estas palavras memoráveis que ficarão na

História: «Vimos em nome da Viúva...» E como eu lhe perguntava, admirado: «Em nome

da Srª Condessa?» «Não respondeu o poeta em nome da Tribuna, viúva do Génio!» E

enfim, fechando o préstito, vinte carruagens particulares, vinte e cinco da companhia e

algumas de praça entre as quais notei com admiração alguns operários da Sociedade

«Probidade Cristã», que ele tanto ajudara a formar, e que vinham pagar um tributo derradeiro

ao homem que, mais que nenhum em Portugal, amou, protegeu e educou o operário! Ali

vinham, quatro numa tipóia, nos seus casacos dos domingos, as lágrimas nos olhos, a fé no

peito, levar com saudade à sepultura aquele que um dia exclamara na Câmara dos Deputados

(sessão de 15 de Agosto, «Diário do Governo» nº 2758): «Não podemos dar ao operário o

pão na terra, mas obrigando-o a cultivar a fé, preparamos-lhe no Céu banquetes de Luz e de

Bem-aventurança!»

E quem negará aí que não seja esta a verdadeira maneira de promover a felicidade das

classes trabalhadoras?

Mas não foram estas as únicas demonstrações de luto social. A Imprensa a que ele se

orgulhava de pertencer, e a que chamava, com tanta elevação, o «porta-voz do progresso»

dedicou-lhe páginas que, pela unanimidade do sentimento, e até, se me é permitido descer a

estes detalhes, o tipo grande dos artigos, entre tarjas negras, lembravam os funerais de um

Rei.

As musas mesmo o choraram, e quem esquecerá essa jóia da poesia portuguesa, que dedicou

à sua morte o nosso grande lírico, o autor melodioso dos «Cânticos e Suspiros»? Ah! Srª

Condessa, recitemos ambos, na nossa dor comum, esta estrofe, digna dos Hugos, dos Passos

e dos Leais:

Teu corpo desce à terra escura e fria...

Terra de Portugal. Treva sombria

Te cobre e te devora!

Mas não perecerá teu génio altivo,

E surges para a História redivivo

como da Noite a Aurora...

A música mesmo (para que todas as Artes se reunissem no coro de prantos) lá lhe vai dar o

seu tributo, nessa inspirada com posição–eA Civilização» valsa dedicada à memória do

ilustre Conde d'Abranhos, pelo padre Abílio Figueira!

Era tempo, pois, Srª Condessa, que eu, que nessa grande explosão de dor me conservei

taciturno e retraído (devendo dizer-se que o severo ataque de fígado que então me prostrou,

resultante das longas noites de vigília à cabeceira do grande enfermo, me forçou a um silêncio

involuntário) venha enfim depor sobre o seu túmulo esta memória humilde.

A Ele, Srª Condessa, devo tudo. O pão do corpo e o pão da alma, me deu ele com

generosidade larga e fidalga. Nunca o esquecerei. Por vezes, quando me via (sobretudo. 4

d epois da bronquite de que padeci no Inverno de 1870) um pouco pálido ou debilitado, ele

próprio ia ao armário do seu escritório e por sua mão me servia de um, às vezes dois cálices

de vinho do Porto de 1815. Nos dias em que tinha gente a jantar, nunca se esquecia de

mandar guardar alguma sobremesa para eu levar a meus filhos, que lhe devem, além desta

lembrança mimosa, a educação sólida e cristã de que gozam e que os habilitará, espero, a

entrar um dia, com justo mérito, nas Repartições do Estado.

Mas, Srª Condessa eu sou feliz em o poder dizer bem alto o que acima de tudo devo ao

Conde d'Abranhos, é ter-me ele refeito um ser moral. Eu, que na mocidade, sob a influência

perniciosa de leituras inconvenientes e de camaradagens fúteis, partilhava as ideias que a

sociedade condena, fui transformado pelo seu exemplo, pelos seus conselhos, pela sua

eloquência e pela sua protecção. Sim, Srª Condessa, seu ilustre marido encontrou-me pobre, e

portanto repastando-me de leituras perniciosamente democráticas, e acompanhando com

moços de talento, é certo, mas inteiramente devorados pelos estragos de unia filosofia

materialista e de uma sociologia anárquica; empregando-me como seu secretário particular,

com um ordenado suficiente às neces-sidades de minha família (eu casara então com a minha

angélica Madalena), o Conde d'Abranhos deu-me os meios materiais de me tornar um

conservador convicto, um defensor fervoroso das instituições, um amigo da ordem. Pondo-me

ao abrigo da pobreza, digo-o bem alto, pôs-me ao abrigo da depravação intelectual, moral e

social.

E de V. Exª, Srª Condessa, que direi, que o não tenham dito na terra os pobres de que V. Ex.»

cura os males e afasta a necessidade, e no Céu, os anjos de quem V. Ex.» é seguramente

predilecta e decerto futura companheira? Permita-me pois, Srª Condessa, que ponha aos

pés de V. Exª este trabalho, no qual consignei a primeira fase da carreira admirável do Conde

d'Abranhos, essa ascensão vertiginosa às culminâncias do poder, de modesto filho de Pena

fiel a ministro ilustre, e onde deixei o que na minha alma existe de melhor, de mais nobre, de

mais duradouro a minha respeitosa admiração pela grande figura do Conde d'Abranhos.

Sou de V. Exª

o mais humilde criado

Z. Z.

Ex-secretário do Ex.mo Sr. Conde d'Abranhos,

sócio honorário

do Grémio Recreativo do Rio Grande do Sul.

108 – Rua do Carvalho

Lisboa – 1º de Janeiro de 1879.

O CONDE D'ABRANHOS

ALÍPIO SEVERO ABRANHOS nasceu no ano de 1826, em Penafiel, no dia de Natal.

A Providência, por um símbolo subtil e engenhoso, fez nascer no dia sagrado em que nasceu

Jesus de Nazaré, aquele que em Portugal devia ser o mais forte pilar e o procurador mais

eloquente da Igreja, dos seus interesses e do seu reino.

Muitas vezes o Conde se comprazia em contar que, nessa noite de 24 de Dezembro de 1826,

Inverno que ficou na história pelas grandes neves que caíram, seus pais – segundo a tradição

venerada na família – tinham armado um presépio, como era costume nesses tempos em que

a boa fé portuguesa amava a piedosa devoção dos altares íntimos. Ao centro do presépio,

florido de muita verdura, entre os animais da narração evangélica, o Menino Jesus sorria, nos

braços de uma Virgem, obra delicadamente trabalhada por Antão Serrano, o grande santeiro

de Amarante. Em torno, ardiam as velas de cera; na cozinha, cantavam nas frigideiras os

rojões da ceia; o lume de lenha húmida estalava jovialmente, e fora, na neve que caía, os sinos

repicavam para a missa do Galo – quando a mãe do Conde, subitamente

Sentiu o tenro ser...

c omo diz o nosso grande lírico no seu poema, A Mãe.

O parto foi singularmente feliz, e, aludindo a esta circunstância, o Conde muitas vezes me

dizia, que, segundo o seu velho amigo Dr. Flores, a facilidade em nascer era o indício

misterioso de um destino fácil e de imprevistas fortunas. Todos os homens providenciais –

Napoleão I, o nosso Santo Papa Pio IX, o grande estadista Fonseca Magalhães, nasceram –

como dizia o Conde com chiste – «com uma perna às costas!» A fortuna começa-lhes no

ventre maternal: a porta da vida abre-se-lhes a dois batentes, mostrando-lhes uma sequência

de épocas gloriosas, como salões festivos. Outros têm de arrombar com dor essa mesma

porta, saindo para um destino escuro como uma estrada de Inverno. Providenciais antíteses da

Sorte!

E o parto da mãe do Conde foi tão feliz, que, meia hora depois das primeiras dores, o pequeno

Alípio foi trazido triunfantemente para a sala. A comadre sentara-se casualmente diante do

presépio, e os dois meninos – o que havia de ser um homem, e o que fora um Deus – sorriam-

se à claridade das velas festivas do Natal, ambos nuzinhos, ambos ao colo, enquanto de fora,

lançados vivamente, vinham os repiques do sino, através dos flocos de neve!

Tocante quadro; e poucos conheço – se atendermos à glória do Conde d'Abranhos – que mais

mereçam ser lançados na tela ou esculpidos no mármore.

Os pais do Conde, é geralmente sabido, eram pobres. Mas a origem da sua família não só é

plebeia – como afectavam supor os seus adversários de ideias – mas, bem estudada, revela

uma origem tão nobre como a das melhores casas do norte de Portugal.

Os Abranhos são originários de Amarante e aliados, pelas mulheres, à ilustre casa de

Noronha. Em 1758, D. Jacinta Ana de Sobral Vieira Alcoforado e Noronha, viúva do capitão-

mor Teles Azurara, senhora já avançada em anos, mas ainda de aspecto imponente, casara

com Manuel Abranhos, que, pelas suas formas atléticas e beleza viril, era chamado o Apolo de

Amarante. Manuel Abranhos não era decerto um fidalgo, mas é inteiramente inexacto o dizer-

se, como se imprimiu na Revolução de Setembro, então na oposição, que era um carniceiro:

estas insinuações pérfidas desonram as grandes lutas intelectuais da política!

D. Jacinta Ana concebera por ele uma dessas paixões, como aquelas que a poesia Alípio

Severo Abranhos nasceu no ano de 1826, em Penafiel, no dia de Natal. A Providência, por um

símbolo subtil e engenhoso, fez nascer no dia sagrado em que nasceu Jesus de Nazaré,

aquele que em Portugal devia ser o mais forte pilar e o procurador mais eloquente da Igreja,

dos seus interesses e do seu reino..6 tem celebrado, e, apesar da renitência dos parentes –

que faz lembrar a dos Capuletos, pai e irmão da doce Julieta (tanto as famílias históricas se

assemelham nos grandes sentimentos que as agitam) – D. Jacinta apoderou-se do belo

Abranhos, e o casamento foi celebrado (recordo-o a título de curiosidade histórica) pelo padre

Vicente Tardinho, reitor de Varzelhe, que depois tanto se celebrizou num processo retumbante.

Já então, digamo-lo de passagem, sob a influência dessa vaga aragem revolucionária que

soprava de França, tinha principiado esta longa perseguição ao clero, que um dia devia tomar

proporções que de certo modo lembram as perseguições de Diocleciano.

O casamento, escrevo-o com dor, não foi feliz. Não possuo os documentos necessários para

decidir a quem pertence a responsabilidade das desinteligências crescentes, mas é certo que

o belo Apolo que, como dizia com um chiste adorável o Conde, «frequentava muito o seu

colega Baco», espancava tão imprevistamente D. Jacinta, que obrigou muita vez esta dama a

refugiar-se em casa dos seus parentes, levando apenas sob as suas formas, que tinham

conservado uma grande majestade aristocrática, um saiote de flanela! Apesar, porém, destas

violências, a paixão de D. Jacinta, que eu respeitosamente comparo à mulher de Putifar ou às

Fedras da lenda antiga, trazia-a de novo, submissa e amorosa, à casa comum e ao leito

conjugal, até que um dia, (e aqui textualmente copio uma carta, existente no arquivo da família

e escrita por Segismundo de Noronha, irmão da dama espancada): «...a sova foi tão forte, que

vimos a mana Jacinta entrar-nos pelo portão da casa em camisa e tendo nos ombros nódoas

tão roxas e dilatadas, que o padre Simões, o nosso bom capelão, as comparou, com o devido

respeito, às nódoas roxas nos ombros do Redentor depois de 12 horas de Via Dolorosa».

A família Noronha exigiu uma reparação. D. Jacinta veio viver com seus irmãos, e cinco meses

depois deu à luz um menino que, por se julgar que não sobreviveria, foi à pressa baptizado

pelo capelão Simões, com o nome poético de Florido. Sobreviveu, porém, felizmente. E aqui

encontro um facto que, por respeito às duas famílias Abranhos e Noronhas, não cerco de

comentários; é ele igualmente justificável e condenável. Biógrafos irreverentes e temerários

poderiam talvez emitir uma opinião nítida, cortante, definitiva: eu abstenho-me, e assim deve

fazer todo o historiador honesto, sempre que se trate de factos em que duas famílias, ambas

ilustres, ambas históricas, tenham um conflito de interesses: a ordem social repousa nestas

respeitosas reticências.

O facto é este na sua nudez histórica: o menino Floridozinho foi lançado à roda.

Um irmão, porém – e aqui dou amplamente saída ao meu desejo de glorificar os Abranhos –

um irmão, porém, de Apolo (que Apolo a esse tempo desaparecera de Amarante) reclamou

Florido, adoptou-o, educou-o, e foi recompensado desta nobre dedicação, porque Florido

Abranhos foi um espelho de virtudes e uma flor de honradez. É talvez aqui a ocasião de

destruir outro erro que tende a introduzir-se na História: o irmão de Apolo, tio de Florido, sem

estar decerto numa alta situação social, não era todavia, como perfidamente insinuou em

tempos a Gazeta de Portugal, um padeiro. Como dizia o Conde com grande elevação moral,

estas pesquisas miúdas, mesquinhas, na intimidade familiar de um homem de Estado, são

singularmente odiosas.

Florido, que pelo lado materno era um Noronha, casou em Penafiel, e a sua vida teve a

tranquilidade límpida de um belo rio de águas claras que corre entre margens de serenidade

idílica. Viveu, amou, trabalhou...

Et sa vieillesse fut comme le soir d'un beau jour...

Teve dois filhos – uma menina que herdou a beleza de seu avô Apoio, e um rapaz.7 que foi

António Abranhos, o pai feliz que na noite de Natal de 1826, diante da pompa do Menino Jesus

no seu presépio iluminado, apertou nos braços o seu filho único – Alípio Severo de Noronha

Abranhos, futuro Conde d'Abranhos.

O Conde, portanto, é da família dos Noronhas – e dos Noronhas que direi que o não saiba a

Pátria? O seu nome está na História pelos altos feitos e na Legenda pelos poéticos amores.

Não vos lembrais da nobre canção:

Aldina na alta torre

Alta torre d'Algeciras,

Chora de noite e de dia

Que condenou-a seu pai

A não ter mais alegria...

Levai-lhe os prantos, oh! rios,

Nuvens, levai-lhe os suspiros...

Aldina é uma Noronha. Da torre de Algeciras restam vestígios – todo um lanço de alvenaria,

evidentemente do século XIII, descoberto ultimamente pelo nosso distinto arqueólogo Macedo

Garção, que ofereceu à família Noronha uma formosa fotografia da ruína.

Outra Noronha foi de grande beleza e ilustrou o seu nome e o da sua raça, partilhando o leito

do nosso Rei D. Afonso V.

D. Violante de Noronha, de uma beleza clássica que lhe mereceu o nome de Juno (nesta

família, a beleza das mulheres iguala a bravura dos homens) recebeu o mesmo alto favor do

nosso senhor Rei D. Pedro II.

Dos varões desta casa citarei Fernando de Noronha, tão cioso da sua raça que um dia,

entrando no momento em que um criado repelia com força seu filho Afonso que num inocente

brinquedo lhe arrepelava os cabelos, mandou decepar a mão direita ao lacaio.

Estes actos inspiravam um terror salutar e ainda que nos nossos tempos mais doces poderiam

ser desaprovados e o júri decerto mandaria o seu autor para a costa de África, eram todavia

necessários nessa época gloriosa da monarquia, para manter as classes nos justos limites

indicados pela Providência.

Citarei também Camilo de Noronha, que, já neste século foi notável como toureiro e varredor

de feiras. A sua destreza no jogo de pau era tal, que chegava a um arraial, apeava e

destroçava a multidão, atirando homens por terra como uma criança que derrota um regimento

de soldadinhos de chumbo. Contam-se dele deliciosas anedotas. Na Covilhã, por exemplo,

tinha um cavalo adestrado que escoiceava, mal o alegre Camilo de Noronha assobiava.

Costumava aproximá-lo de fidalgos e senhoras (mas sobretudo de plebeus)... Um assobio

rápido, um coice imprevisto, e o indivíduo ou a dama eram levados em braços, no meio da

hilaridade que entre os seus amigos causavam sempre tais façanhas. Sem inteiramente

aprovar estas distracções violentas, não se pode, todavia, deixar de reconhecer que há em tais

actos uma plenitude de seiva, de vida animal e de força que agrada em jovens fidalgos.

Estas migalhas de História, apanhadas ao acaso, pintam a traços largos a feição desta família

ilustre. Os Noronhas usam sobre o campo de prata três castelos de ouro e este mote: In

Chistro spes meu (em Cristo a minha esperança), sublime divisa, a melhor, a mais nobre. E foi

esta a divisa do Conde d'Abranhos, até que, por decreto do 1º de Janeiro de 1860, S. M. lhe

concedeu o título de Conde. Tomou então este outro mote: Ex corde pro rege (do coração pelo

Rei!) Estas palavras, partindo de um homem que não era um cortesão e até então não

mostrara especial dedicação pelo Monarca, parecem-me exemplo alto e resplandecente de

reconhecimento, neste século de ingratidões endurecidas e lealdades frouxas.

Foi sempre para mim um motivo de assombro que durante a sua infância, Alípio Abranhos não

tivesse – como Napoleão, Chateaubriand ou Lord Byron – revelado a sua futura elevação de

espírito e de carácter por alguma dessas estranhas precocidades que são como as faíscas

inesperadas que saem de um fogo ainda incubado. Os seus primeiros anos são sem relevo e

inteiramente incaracterísticos. Ele mesmo o reconhecia com modéstia, quando dizia, sorrindo:

«–Como toda a gente, apanhei ninhos e fiz papagaios de papel...

É certo que o meio em que se passou a sua mocidade não oferecia ocasião a que se

revelassem os seus gostos inatos e se acentuassem as suas tendências. Estou bem certo que

se tivesse sido educado numa dessas velhas casas morgadas, onde gerações letradas

formavam ricas e sábias bibliotecas, veríamos o pequeno Alípio deixar os ninhos e os

papagaios, para se ir esconder nalgum recanto da silenciosa livraria, e ali, folhear os antigos

romances de cavalaria, ou, o que era mais natural à feição nativa do seu espírito, ler,

compreendendo-os mal, os filósofos do passado. E porém sabido que seu pai – e não creio

ofender a sua memória revelando-o – tinha um pequeno e honesto estabelecimento de

alfaiate, e as únicas publicações que decerto ali se veriam entre os cortes de pano, seriam os

volumes do antigo Espelho da Moda. Eu creio, porém, que esta falta de vida intelectual foi

singularmente favorável ao seu desenvolvimento físico. Não tendo livros que o prendessem em

casa, Alípio passava os seus dias pelas hortas e pelos quintais, crescendo em plena natureza,

crestado pelo Sol, batido dos largos ares, e, como dizia um poeta antigo, mamando à farta nos

peitos de Cíbele.

Foi esta forte educação rural que lhe deu aquelas cores sadias, aquele porte erecto, que

destacavam com um tão edificante relevo entre os bustos anémicos e as faces amareladas da

raça lisboeta. E a esta primitiva comunicação com a Natureza que ele deveu o seu espírito

recto e tão bem ponderado, amando em tudo a ordem, o equilíbrio, a formosa disposição das

hierarquias. Mens sana in corpore sano: que eu por mim tenho que as ideias falsas,

anárquicas, são o resultado das organizações debilitadas. As cidades modernas, com as suas

ruas mal arejadas, os seus quintos andares abafados, o seu rumor trovejante de fábricas e de

veículos, a luz crua do gás, a alimentação insa-lubre, formam estas gerações pálidas,

nervosas, agitadas por um desejo histérico de novidade, de artifício, de desordem e de

violência. E esta a origem do espírito revolucionário. O homem que, pelo contrário, habita os

campos, que respira o ar dos largos prados, repousa a vista na vasta linha do horizonte, na

serenidade silenciosa das aldeias, ganha, num corpo forte, um espírito calmo: odeia a

agitação; está naturalmente preparado para respeitar a Autoridade, os Princípios sólidos, a

Ordem, toda a ordenação harmónica e bela do Estado.

Tenho, porém, a certeza de que o Conde, com a sua grande modéstia, não exprimia

inteiramente a verdade quando atribuía aos ninhos e aos papagaios o privilégio de lhe

absorverem todo o interesse! Não! Já então naquele espírito de criança deviam passar ideias,

ainda indefinidas mas fortemente marcadas de originalidade: soltando aos ares os seus

papagaios, é de crer que pensasse na eterna aspiração da alma para os cimos azulados da

graça; e, ao contemplar ovos de pintassilgo, fofamente dispostos no fundo de um ninho muito

quente e muito tenro, decerto lhe devia passar na alma a ideia eterna.9 da instituição da

família. Um dia mesmo, ao contar-lhe estas suposições que me tinham atravessado o espírito:

– Qual história! – respondeu com bondade o Conde. – Isso são coisas da sua imaginação de

poeta. Eu era um cavalão, aqui onde me vê!... Não nego, porém, que desde novo, fui

inclinadote a agitar questões sociais!...

E quando eu vejo, hoje, moços saídos das escolas, sem experiência da vida, do Estado, da

Administração, quererem reformar a Sociedade, como me parece admirável a modéstia deste

homem notável, que classificava assim o seu grande génio filosófico: – i nclinadote a agitar

questões sociais!...

Assim, pois, crescia o jovem Alípio Abranhos, quando – do que depende o destino dos homens

e muitas vezes a sorte das nações! – sua tia Amália veio a Penafiel consultar um dentista

americano, então famoso em todo o Norte.

Esta senhora providencial (em que reaparecia a singular beleza do Apolo de Amarante) casara

em nova com um proprietário rico de Amarante, e viúva, sem filhos, vivia em isolamento na sua

Quinta dos Miguéis.

Naturalmente, em Penafiel, a tia Amália viu frequentemente seu sobrinho Alípio, e bem

depressa a graça, a vivacidade, a esperteza do pequeno cativaram a tia, que, secretamente

infeliz por não ter filhos, se vira até então obrigada a empregar o seu fundo de afeição

maternal nas aves domésticas e nos diversos animais da sua quinta. Alípio era como um filho

inesperado que lhe aparecia «a meio do caminho da sua vida» (Dante).

Não é hoje segredo para ninguém que o Conde d'Abranhos preparava um volume de

Memórias Intimas, quando o acometeu a doença. E dessas notas interrompidas, truncadas,

que eu transcrevo o seguinte parágrafo, relativo a este período decisivo da sua carreira:

«Minha tia Amália concebera o plano – abençoado plano! – de me levar para a Quinta dos

Miguéis, e mandar-me dar uma educação que me habilitasse a tomar na sociedade a posição

elevada que naturalmente me pertencia pela minha bisavó paterna: numa palavra, fazer de

mim um Noronha, digno dos Noronhas.

Abriu-se a este respeito com meu pai, que acedeu prontamente, deslumbrado pela perspectiva

de me ver possuidor de uma educação que os seus meios de fortuna não lhe permitiriam dar-

me. A sua vontade, porém, encontrou formidáveis escolhos nas lágrimas de minha mãe.

Separar-se do filho que ela criara ao seu peito, parecia-lhe tão doloroso como uma amputação.

Lembra-me vagamente de a ver abraçada a mim, dizendo, banhada em rios de lágrimas: Ó

Lipinho, que te querem levar! Ai, Lipinho, que querem fazer de ti um doutor!

Mas meu pai, com o seu bom-senso, minha tia, com as suas promessas, venceram essa

resistência, igual à da leoa a que impudente caçador quer arrebatar os filhos, e numa manhã

de Agosto – como recordo o opulento Sol nascente, cravando o mundo das suas flechas de

ouro! – parti com minha tia Amália para a pitoresca Quinta dos Miguéis, onde me decorreram a

infância e a puberdade, primeiro nos infantis brinquedos, mais tarde em úteis estudos. E nunca

revisitei a Quinta dos Miguéis, sem uma profunda saudade desses anos descuidosos, e sem ir

ao pequeno cemitério, – onde minha tia Amália repousa no seu bem tratado jazigo, cercada de

floridos goivos – ajoelhar e murmurar uma reconhecida prece, no silêncio da tarde, pela alma

simples que me abriu a sua bolsa e me habilitou a cursar as aulas da nossa sábia

Universidade.»

Página admirável! – em que se nos revelam as qualidades eminentes do escritor e a tocante

bondade do homem! Que quadro aquele em que o vemos, já ilustre, já titular, já ministro,

seguir o caminho estreito do cemitério, por alguma tarde suave de Outono, pousar o joelho

sobre a relva, descobrir-se, e rezar! Página admirável, repito, repassada de uma saudade

grave, num colorido tão delicado de paisagem!

Na Quinta dos Miguéis se passou a mocidade do Conde d'Abranhos. Ali estudou a gramática e

o latim, sob a direcção do abade de Serzedelo, velho de raras virtudes cristãs. Ali passou as

suas férias de formatura.

Eu tive a honra de o acompanhar, quando o Conde foi tratar da sua eleição a Amarante, numa

visita à Quinta dos Miguéis. Do portão, uma rua plantada de loureiros conduz à casa de

habitação, baixa, sólida, coberta de um dos lados por uma formosa trepadeira, atulhada de

rosinhas brancas. Um lanço de escadas de pedra, ornado de velhos vasos azuis, leva ao

salão, grande, pintado de oca, com cortinas vermelhas e brancas, e nas paredes litografias das

batalhas de Napoleão. Tudo é simples, patriarcal e grave. O Conde mostrou-me o seu quarto e

o rebordo da janela onde, em pequeno, pendurava gaiolas de grilos, com a sua folhinha verde

de alface. Dali descobre-se a estrada, no traçado do antigo caminho, onde o Conde (segundo

ele próprio me contou) via com inveja passar as liteiras que levavam a Braga e ao Porto os

fidalgos das vizinhanças. Já então, um sentimento vago – pressentimento do seu alto destino

ou simples aspiração de um espírito distinto para os centros letrados e inteligentes – o levava

constantemente a desejar a existência das grandes cidades.

Ao fundo da quinta foge um pequeno regato, muito claro, muito pausado, cujo rumor tem a

tristeza das águas mansas que correm entre ervas altas; as margens são cobertas de

salgueiros; na Primavera os rouxinóis enchem de ninhos aquele lugar assombrado e terno.

Como a noite que passei na quinta era muito calma, fomos depois de jantar, passear junto ao

Ribeiral, que é o nome daquele canto de paisagem elegíaca, e nunca esquecerei a bela

confidência com que ali me honrou o Conde.

– V. Exª – tinha eu observado – devia, muitas vezes, durante as férias, vir passear aqui e

sentir-se inspirado...

O Conde, que por causa da frescura da noite se estava cuidadosamente agasalhando no seu

cachené, parou e disse, com aquele gesto grave que tanto impressionava a Câmara:

– Não o conte em Lisboa, Zagalinho, mas uma noite, aqui compus versos!

Eu não me atrevia a pedir-lhe que mos recitasse, mas, sem dúvida, a claridade da Lua no meu

rosto revelou um desejo tão intenso de os ouvir, que o Conde, sempre bom, me tomou o braço

e disse:

– Era uma noite de apetite: eu andava aqui a passear, a pensar, fumando o meu charuto, –

que a tia Amália tinha horror ao fumo do tabaco –quando, de repente, a Lua ergueu-se por

detrás dos salgueiros e um rouxinol pôs-se a cantar... e sem saber como, fiz uma quadra. Não

a repita! Lembra-me perfeitamente:

Deus existe! Tudo o prova,

Tanto tu, altivo Sol,

Como tu, raminho humilde

Onde canta o rouxinol!

Não pude conter um bravo, respeitoso mas sentido.

– O pensamento é bonito, mas não o diga em Lisboa, Zagalinho. Se os jornais soubessem que

fiz versos... Que gostinho para a oposição...

Eu exclamei, rindo:

– Que gostinho para a oposição, mas que glória para o ministério...

Ele acrescentou:.

– Enfim, são rapaziadas. Todos nós, mais ou menos, em rapazes, fomos poetas e

republicanos... Antes isso que andar a beberricar genebra nos botequins e frequentar

meretrizes... Mas quando se entra na verdadeira vida política, é necessário pôr de lado esses

sentimentos ternos...

Eu então citei, com respeito, alguns dos nossos homens de estado, que foram, são ainda,

poetas de alta imaginação.

– Pois sim... – interrompeu o Conde. – Mas lá têm o seu lugar marcado na formação do

Ministério... Um poeta não pode ser Ministro do Reino, mas pode muito bem ser Ministro da

Marinha.

Grande verdade política!

Quando entrámos, eu atrevi-me a pedir a S. Exª que escrevesse aquela formosa quadra no

álbum de minha esposa, que trouxera comigo, esperando obter, no Porto e em Braga,

autógrafos de alguns poetas e prosadores das províncias do Norte.

O Conde tomou o álbum, sorrindo, e retirou-se para o seu aposento. Qual não foi, na manhã

seguinte, a minha alegria, quando ele mo restituiu, e li ao abrir a página:

Deus existe! Tudo o prova,

Tanto tu, altivo Sol,

Como tu, raminho humilde

Onde canta o rouxinol!

Estes versos, que eu escrevi quando me verdejavam na alma as ilusões da mocidade, poderia

escrevê-los hoje que a experiência da vida me tem demonstrado que fora de Deus, não há

senão ilusão e vaidade...

Conde d'Abrunhos.

Quando voltei a Lisboa e mostrei esta página preciosa à minha Madalena – que surpresa, que

arrebatamento! Falámos até tarde, essa noite, da bondade do Conde e da vastidão do seu

génio.

Se eu me detive neste incidente íntimo de uma existência histórica, foi para mostrar que o

Conde não era um homem destituído de sentimento poético e de imaginação idealista.

Naquele cérebro todo ocupado de legislação, de reformas, de economia política, de debates

parlamentares, tinha havido um momento, na sua mocidade, em que florescera, como uma

violeta isolada mas fresca, a flor delicada do sentimentalismo. E quis também provar que a

poesia não é inteiramente unia arte subalterna e própria de espíritos efeminados, pois que um

homem de tão robusto génio prático não desdenhou um dia, sob a influencia de uma paisagem

romântica, servir-se dela para exprimir um alto conceito filosófico. Estou certo de que os

poetas contemporâneos, os Hugos épicos, os delicados Tennysons, os Campoamores de

humorística melancolia, se orgulhariam deste colega que eu lhes revelo, e que, se apenas uma

vez feriu a lira, fê-lo com tal originalidade, vigor e elevação, que esse simples verso isolado

sobe mais alto no céu da Arte do que muitas sinfonias majestosas dos Mussets debochados

ou dos Baudelaires histéricos:

Deus existe! Tudo o prova,

Tanto tu, altivo Sol,

Como tu, raminho humilde

Onde canta o rouxinol!

Não farei uma narração detalhada da mocidade estudiosa do Conde. Este estudo não é

propriamente uma biografia em que deva seguir, ano a ano, a carreira intelectual do seu vasto

espírito. São simples apontamentos, quadros destacados de uma nobre carreira, que servirão

para que um mais alto engenho (na frase enérgica do Épico) reconstrua, com suficiente relevo,

esta soberba figura histórica.

Desde os onze anos, pois, Alípio Abranhos viveu na companhia de sua tia Amália, e a não ser

nas férias do segundo ano, em que a doença da mãe o chamou imperiosamente a Penafiel,

não tornou a ver seus pais.

Compreender-se-á facilmente que o jovem Alípio, tendo penetrado num meio mais elevado,

habituado no Porto, onde estudara parte dos preparatórios, e depois em Coimbra, às

convivências eruditas, cultivadas, educadas, se achava extremamente deslocado na

companhia pobre e iletrada de seu pai. Quando, durante anos, se tem vivido pela imaginação

com os heróis da História e do Romance, quando se tem o ouvido habituado à nobre

linguagem dos Cíceros, dos Titos Lívios, quando se tem acostumado o espírito aos interesses

da Ciência, da Lógica e da Metafísica –não é fácil suportar-se a conversação de pessoas que

só se preocupam com pequenos interesses locais e «mexericos de vila pobre».

Depois das largas salas e dos vastos horizontes da Quinta dos Miguéis, a pequena casa do

pai, com o chão atravancado de retalhos de fazenda e o ar abafado do cheiro acre dos

estrugidos, a pequena vila escura, onde os vizinhos vão de noite despejar as imundícies,

causavam aos costumes fidalgos daquele Noronha uma repulsa instintiva.

Já então revelava o seu gosto pelo luxo, pelas largas habitações tapetadas, pelo serviço

harmonioso de lacaios disciplinados. A pobreza e os seus aspectos era-lhe odiosa. Quanta

vez, mais tarde, quando ele subia o Chiado pelo meu braço, eu me vi forçado a afastar com

dureza os pobres, que à porta do Baltresqui, ou da Casa Havanesa, vinham, sob o pretexto de

filhos com fome ou de membros aleijados, reclamar esmola; o Conde, se os via muito perto,

«ficava todo o dia enjoado». Todavia a sua caridade é b em conhecida, e o Asilo de S.

Cristóvão, a que em parte deveu o seu título, aí está como um atestado glorioso da sua

magnanimidade.

Além disso, ele reconhecia que a caridade era a melhor instituição do Estado. Quanto ao

pauperismo, tinha-o como uma fatalidade social: fossem quais fossem as reformas sociais,

dizia, haveria sempre pobres e ricos: a fortuna pública devia estar naturalmente toda nas mãos

de uma classe, da classe ilustrada, educada, bem nascida. Só deste modo se podem manter

os Estados, formar as grandes indústrias, ter uma classe dirigente forte, por possuir o ouro e

base da ordem social.

Isto fazia necessariamente que parte da população «tiritasse de frio e rabeasse de fome». Era

certamente lamentável, e ele, com o seu grande e vasto coração que palpitava a todo o

sofrimento, lamentava-o. Mas a essa classe devia ser dada a esmola com método e

discernimento: e ao Estado pertencia organizar a esmola. Porque o Conde censurava muito a

caridade privada, sentimental, toda de espontaneidade. A caridade devia ser disciplinada, e,

por amor dos desprotegidos, regulamentada: por isso queria o Asilo, o Recolhimento dos

Desvalidos, onde os pobres, tendo provado com bons documentos a sua miséria, tendo

apresentado bons atestados de moralidade, recebessem do Estado, sob a superintendência de

homens práticos e despidos de vãs piedades, um tecto contra a chuva e um caldo contra a

fome. O pobre devia viver ali, separado, isolado da sociedade, e não ser admitido a vir

perturbar com a expressão da sua face magra e com a narração exagerada das suas

necessidades, as ruas da cidade. «Isole-se o pobre!» dizia ele um dia na Câmara dos

Deputados, sintetizando o seu magnífico projecto para a criação dos Recolhimentos do

Trabalho. O Estado forneceria grandes casarões, com celas providas de uma enxerga,

onde.13 seriam acolhidos os miseráveis. Para conseguir a admissão, deveriam provar serem

de maior idade, haverem cumprido os seus deveres religiosos, não terem sido condenados

pelos tribunais (isto para evitar que operários de ideias subversivas que, pela greve e pelo