O Conde d'Abranhos por Eça de Queirós - Versão HTML

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deboche, tramam a destruição do Estado, viessem, em dia de miséria, pedir a esse mesmo

Estado que os recolhesse). Deveriam ainda provar a sobriedade dos seus costumes, nunca

terem vivido amancebados nem possuírem o hábito de praguejar e blasfemar. Reconhecidas

estas qualidades elevadas com documentos dos párocos, dos regedores, etc., seria dada a

cada miserável uma cela e uma ração de caldo igual à que têm os presos.

Mas, dir-se-á, o Estado, então sustenta-os de graça? Não, – poderia exclamar triunfantemente

o Conde, mostrando as páginas admiráveis do seu regulamento, em que se estabelecia, com

um profundo sentimento dos deveres do cidadão para com a cidade, que todo o pobre

admitido seria forçado a uma considerável soma de trabalho, segundo as suas aptidões. O

mais útil parágrafo, a meu ver, é aquele que determina que grupos de pobres sejam forçados a

calçar as ruas, colocar as canalizações de gás, trabalhar em monumentos públicos, etc. Tais

serviços, todos em favor da Câmara Municipal, obrigá-la- iam a concorrer para a despesa

desta instituição, aliviando assim o Estado de uma grande parte dos gastos.

Uma vez admitidos, os recolhidos perderiam o direito de sair – a não ser que provassem que

iriam dali ser empregados, de tal sorte que não lhes fosse possível recair nos acasos da

miséria.

Em nenhuma legislação humana conheço instituição tão justa, tão eficaz, tão profundamente

cristã, tão beneficamente social. E mesmo muito preferível ao Work-House i nglês: ali, o pobre

conserva uma soma de independência que lhe faz supor a existência de uma soma de direitos:

considera-se ainda um cidadão, tem pretensões ao respeito, à igualdade, à consideração:

desobedece, revolta-se, foge do Work-House, r ecai no deboche, na fome, na desordem, no

vício. Aqui, não: o pobre fica prisioneiro da caridade! Perde o direito de ter fome. E as classes

dirigentes, tendo a certeza de que os seus pobres lá estão, bem aferrolhados, com uma

razoável enxerga e um caldo diário, podem dormir descansadas, sem receio de perturbações

da ordem ou de revoltas do pauperismo.

Infelizmente este projecto tão perfeito, de que todos os jornais sérios falaram com palavras de

comovida admiração, nunca conseguiu passar nas Câmaras. Motivos mesquinhamente

governamentais impediram uma tão bela instituição de resolver o grande problema da miséria,

pois é com estas sábias medidas que ela se arranca do seio da sociedade, e não com as

vossas reformas hipócritas, sofistas da revolução social!

Foi esta instintiva repulsão pela pobreza, pelas maneiras rudes, pelas instalações incómodas,

que impediu Alípio, desde que gozava na Quinta dos Miguéis as vantagens da educação e os

regalos da riqueza, de visitar amiúde a casa modesta de seus pais. li porém uma calúnia dizer-

se – como o disseram certos panfletos indecorosos – que o Conde, já rico, já ministro,

renegara a sua família.

É para mim uma honra, vir hoje, perante Portugal, explicar, destruir esse erro voluntário e

hostil.

Logo que o Conde entrou na Câmara, fez o seu casamento tão rico e se estabeleceu em

Lisboa, pensou sem demora em elevar paralelamente a situação social de seu pai. Encontrou

nele, porém, exigências tais que tornaram impossível a realização dos seus desejos. As

negociações foram longas, muito delicadas, muito secretas. Tenho nas mãos toda essa

correspondência, e posso dizer que nela o Conde mostra um tacto, uma prudência, uma

previdência geniais. Seu pai, ao princípio, desejou que o Conde lhe fornecesse meios de abrir

em Lisboa um grande estabelecimento de alfaiate. Isto era.14 naturalmente inaceitável. Como

o Conde me disse muita vez, não podia passar, com o correio de ministro atrás, pela rua onde

reluzisse a tabuleta «Abranhos, Alfaiate». Como conseguiria ele, na Câmara, aniquilar um

adversário que lhe poderia responder: – «Tudo isso é muito bonito, mas o pior é que o senhor

seu pai me estragou inteiramente este par de calças e roubou-me na fazenda!

Era impossível esta permanente tortura moral. E o pai do Conde tanto o compreendeu, que

escreveu (não cito textualmente, pois que nem a sua ortografia, nem a sua gramática

poderiam ter lugar num livro correcto): – Se não queres que eu possua um estabelecimento do

ofício em que me criei, que é honrado e me tem ajudado a viver, e à tua mãe, então o melhor é

que eu vá para a tua companhia, para tua casa, onde tua mãe, que é tão económica e tão

hábil nos arranjos, pode ser uma governanta útil e poupar a tua mulher todos os incómodos

«dos azeites e vinagres». (Esta expressão é dele).

O Conde recusou com indignação. Realmente a exigência é curiosa. Virem aquele homem e

aquela mulher de Penafiel, com os hábitos, os modos, as figuras, a fala de dois trabalhadores

de Penafiel, viver numa casa onde se recebia a fidalguia de Lisboa, os representantes dos

Reis estrangeiros, a flor da literatura, a Maioria! Absurdo! Se o Conde, como ele dizia, não

fosse um homem público, poderia sacrificar-se a essa companhia plebeia. Mas como

Estadista, a presença na sua casa daquele pai de feição reles, a comer o arroz com a faca, a

escabichar os dentes com as unhas, a perguntar às senhoras – então como vai essa bizarria?

– com o seu catarro, cuja expectoração perpétua era repulsiva, só serviria para diminuir a

autoridade moral do Conde e o prestígio do seu talento. Em nome dos interesses superiores

do Estado, devia repelir aquela proposta. Se um dia tivesse a jantar o Ministro de Inglaterra ou

de França, no momento de uma negociação delicada e de alto interesse para Portugal, como

poderia impressionar os diplomatas estrangeiros, com o pai, ao lado, a tirar cera dos ouvidos?

Foi por isso que ele informou o pai de que só o receberia em sua casa, com a condição de

nunca aparecer aos jantares ou às soirées. O velho, decerto mal aconselhado por intrigantes

políticos, respondeu com uma carta (que, pelas razões dadas, não cito textualmente) em que

lhe diz que, desde que o filho se envergonha de seu pai, todos os arranjos são inúteis, e que

cada um siga o seu caminho; eu (diz ele) não posso, aos 55 anos, mudar os meus hábitos e o

meu catarro: sou como sou; não tenho as maneiras de um elegante, mas tenho a minha honra

e os meus sentimentos. Que meu filho jante na sala e me faça jantar na cozinha, não!

Continua a ser Abranhos deputado, que eu continuarei a ser Abranhos alfaiate. Mas nem por

isso deixo de ser tão homem de bem como tu.

Homem de bem! Não o era decerto, dando, pela sua ingrata obstinação, motivo a que – se um

dia se soubesse, como se soube, este incidente – o Conde fosse insultado na imprensa e

escarnecido na Câmara!

Esta resposta do pai desgostou muito o Conde; mas com uma bondade quase sobre-humana,

escreveu-lhe novamente, remetendo-lhe 200$000 réis, e afiançando-lhe que se algum dia, por

falta de trabalho ou doença, se encontrasse em necessidade, o avisasse logo, pois que,

apesar da sua carta ofensiva, nunca ele, como filho cristão, perderia o respeito que lhe devia!

A esta carta tão nobre, tão filial, o velho alfaiate respondeu devolvendo a letra, nas dobras de

um papel onde havia uma palavra única: – M....! – Não transcrevo a palavra

(que de resto a inteligência dos que me lêem logo compreenderá) porque me respeito, e nunca

ponho nos meus livros essas obscenidades que se permitiu escrever o visionário autor dos

Miseráveis, esse épico enfático de uma democracia estéril!

M....! Essa palavra foi para o Conde o desgosto grave da sua vida. Era evidente.15 que seu

pai, perdendo o respeito próprio, propendia para a obscenidade! Boa razão tivera ele, pois, em

não o admitir em sua casa, no convívio da sociedade mais raffinée d e Portugal!

Deste incidente da vida do Conde, que mais direi que o não saiba o País? É conhecido hoje

(tanto o escândalo popularizou o episódio) que, obstinando-se na sua ingratidão, o alfaiate

morreu pobre, sem nunca ter escrito a seu filho, que só o soube quando o velho se tinha

enterrado. Mas o Sr. Carvalhosa, o deputado da oposição por Penafiel, com essa perfídia que

inspira o despeito político, apenas teve conhecimento de que o velho expirava na miséria,

apressou-se com pompa, com evidência, a ir-lhe a casa, levar-lhe um médico e enterrá-lo à

sua custa. Para quê? Para que se pudesse imprimir nos jornais da oposição – que o Sr.

Ministro deixara morrer o pai numa mansarda infecta e que fora o deputado da oposição quem,

por misericórdia, lhe chegara aos lábios a última malga de caldo!

Eu vi o Conde chorar na intimidade da sua livraria. Lágrimas de raiva, que para outras não

havia lugar. Aquela morte isolada, obscura, silenciosa, numa miséria voluntária, – era a

vingança do pai! Deixava-lhe aquela vergonha permanente. Quem sabe mesmo se o alfaiate

não teria combinado com a oposição toda aquela lúgubre cena, a enxerga, a aparição do

Carvalhosa, a tumba de esmola!

– Ai, Zagalo – disse-me o Conde abraçando-me – o maior erro da minha vida foi nascer de

semelhante pai!

E foi! Por isso o Conde, na sua severa justiça, deixou que o corpo do alfaiate repousasse na

vala onde o levara a tumba de misericórdia.

Diante de Deus, como ele dizia, considerava-se filho de sua tia. E a ela, filialmente, elevara

aquele belo monumento onde o Anjo chora sobre uma coluna truncada que sustenta um livro,

símbolo da educação que facultara ao Conde, e uma pequena bolsa, emblema da fortuna em

terras que por testamento lhe deixara.

Mas estas digressões necessárias (pois que, repito, eu não conto na sua disposição

cronológica os episódios de tão ilustre existência, mas apenas dou, a traços largos, as feições

essenciais da sua fisionomia histórica) trouxeram-me aos anos, não distantes, em que o

Conde d'Abranhos viu, por assim dizer, Portugal a seus pés.

Volte pois o leitor comigo a essa formosa estrada do Porto, onde, numa liteira, acompanhado

pelo procurador de sua tia, vai o nosso Alípio em direcção a Coimbra.

Os sete anos que aí viveu foram serenos e graves.

Muitas vezes o Conde me disse que a Universidade lhe fizera uma impressão profunda, não

tanto como edifício – ainda que seja imponente aquele monumento no alto do monte, severo e

isolado, como uma imutável fortaleza de vetusta ciência – mas sobretudo como Instituição. Eu

confesso não ser talvez competente para avaliar estas questões de Ensino e de Educação. A

pobreza de meus pais não me permitiu a honra vantajosa de ser bacharel, mas tendo convivido

com tantos homens ilustres, eu sou como aquele antigo fabricante de ídolos, que, à força de

viver entre eles, guardava nas mãos e na túnica alguma coisa do seu dourado. Além disso,

neste assunto, como em todos, sigo, por admiração muda e reconhecimento correcto, as

ideias e opiniões do Conde d'Abranhos.

A primeira vantagem da Universidade, como instituição social, é a separação que se forma

naturalmente entre estudantes e futricas, entre os que apenas vivem de revolver ideias ou

teorias e aqueles que vivem do trabalho. Assim, o estudante fica para sempre penetrado desta

grande ideia social: que há duas classes – uma que sabe, outra que produz. A primeira,

naturalmente, sendo o cérebro, governa; a segunda, sendo a mão, opera, e veste, calça, nutre

e paga a primeira.

Dois mundos – como diz o nosso poeta Gavião – que se não podem confundir e que, vivendo à

parte, com fins diferentes, caminham paralelamente na civilização, um com o título egrégio de

Bacharel, outro com o nome emblemático de Futrica. Bacharéis são os políticos, os oradores,

os poetas, e, por adopção tácita, os capitalistas, os banqueiros, os altos negociadores.

Futricas são os carpinteiros, os trolhas, os cigarreiros, os alfaiates... O Bacharel, tendo a

consciência da sua superioridade intelectual, da autoridade que ela lhe confere, dispõe do

mundo; ao Futrica resta produzir, pagar para que o Bacharel possa viver, e rezar ao Ser Divino

para que proteja o Bacharel.

O Bacharel, sendo o Espírito, deve impedir que o Futrica, que é apenas a Matéria, aspire a

viver como ele, a pensar como ele, e, sobretudo, a governar como ele. Deve mantê-lo portanto

no seu trabalho subalterno, que é o seu destino providencial. E isto porque um sabe e o outro

ignora.

Esta ideia de divisão em duas classes é salutar, porque assim, educados nela, os que saem da

Universidade não correm o perigo de serem contaminados pela ideia contrária – ideia absurda,

ateia, destruidora da harmonia universal – de que o futrica pode saber tanto como sabe o

bacharel. Não, não pode: logo as inteligências são desiguais, e assim fica destruído esse

princípio pernicioso da igualdade das inteligências, base funesta de um socialismo perverso.

Como pode realmente o homem que todo o dia trabalhou no seu tear, e à noite, depois do

caldo de couves, dormiu do sono brutal da fadiga física, participar do governo da coisa pública

– como esse outro homem que conhece as línguas, tem os princípios da Introdução aos três

remos, estudou o Direito Romano, se penetrou do Direito Canónico, leu os poetas do século,

discutiu as leis no Parlamento, fez administração nas Secretarias?

Irrisão?

Outra vantagem da Universidade é a organização dos seus estudos. O Conde considerava-a

admirável e a melhor garantia da Ideia Conservadora. E aqui copio textualmente o relatório que

acompanha o seu notável Projecto de Reforma do Ensino:

«Têm alguns espíritos ávidos de inovação, ainda que no fundo sinceramente afeiçoados aos

princípios conservadores, sustentado que o sistema da Sebenta (como na sua jovial linguagem

lhe chama a mocidade estudiosa) é antiquado. Eu considero, porém, a Sebenta como a mais

admirável disciplina para os espíritos moços. O estudante, habituando-se, durante cinco anos,

a decorar todas as noites, palavra por palavra, parágrafos que há quarenta anos permanecem

imutáveis, sem os criticar, sem os comentar, ganha o hábito salutar de aceitar sem discussão e

com obediência as ideias preconcebidas, os princípios adoptados, os dogmas provados, as

instituições reconhecidas. Perde a funesta tendência – que tanto mal produz – de querer

indagar a razão das coisas, examinar a verdade dos factos; perde, enfim, o hábito deplorável

de exercer o livre-exame, que não serve senão para ir fazer um processo científico a

venerandas instituições, que são a base da sociedade. O livre-exame é o princípio da

revolução. A ordem o que é? – A aceitação das ideias adoptadas. Se se acostuma a mocidade

a não receber nenhuma ideia dos seus mestres sem verificar se é exacta, corre-se o perigo de

a ver, mais tarde, não aceitar nenhuma instituição do seu país sem se certificar se é justa.

Teríamos então o espírito da revolução, que termina pelas catástrofes sociais!

Hoje, destruído o regime absoluto, temos a feliz certeza de que a Carta liberal é justa, é sábia,

é útil, é sã. Que necessidade há de a examinar, discutir, verificar, criticar, comparar, pôr em

dúvida? O hábito de decorar a Sebenta produz mais tarde o hábito de aceitar a Carta. A

Sebenta é a pedra angular da Carta! O Bacharel é o gérmen do.Constitucional.»

Conheço na filosofia contemporânea – sem mesmo exceptuar os livros dos Thiers, dos

Guizots, dos Bastiats, dos Pagès – poucas páginas tão profundas. A frase é tersa, viril, nobre,

bem ponderada; a argumentação é sã e cerrada, inexpugnável; a ideia tem a solenidade

severa de um dogma. Nobre página! E pensar que aquele que a escreveu não escreverá outra,

e repousa sob o pedestal da sua estátua, com as mãos em cruz, na terra bruta!

Não menos maravilhoso parecia ao Conde o sistema das relações entre o e studante e o lente.

O hábito de depender absolutamente do lente, de se curvar servilmente diante da sua austera

figura, de obter por meio de empenhos que a sua severidade se abrande, forma os espíritos no

salutar respeito da autoridade. O sentimento excessivo da dignidade pessoal leva ao amor

exagerado da independência civil. Cada um se torna por este modo o seu próprio dono, o seu

chefe, o seu Rei, o seu Deus. E a anarquia! Assim educado, durante cinco anos, a curvar-se, a

solicitar, a sorrir, a obedecer, a lisonjear, a suplicar, a depender, o bacharel entra na vida

pública disciplinado, e, em lugar de ser o homem que quer tomar na vida o lugar que lhe

convém (o que seria a desorganização das posições sociais) vai humildemente colocar-se,

com um sorriso, no lugar, na fila, no cantinho que lhe marcam os que governam. Assim se

forma uma imperecível harmonia social.

O jovem Abranhos bem depressa mostrou, em Coimbra, o seu profundo amor da Disciplina e

da Ordem.

O lente de Direito Natural era então o velho Dr. Pascoal; já muito míope, a sua veneranda

ciência, os seus achaques, os seus serviços de decano, inspiravam a todos os que admiram

estes vetustos sábios encanecidos nos comentários de vetustos compêndios, uma admiração

simpática.

Havia, porém, nesse curso (a recordação recente das guerras civis de algum modo o explica)

temperamentos rebeldes e perniciosos, que, por o ancião pertencer a uma velha família

Miguelista, procuravam como dizia o Conde, achincalhar a prelecção. Foi assim que uma

ocasião, de repente, de entre os bancos, um morcego solta o voo, e estonteado pela luz,

esvoaça furiosamente, vai bater nos vidros, vai bater nas paredes, vai bater, finalmente, no

rosto venerável do Dr. Pascoal. O velho grita, o archeiro corre... Mas, como diz o nosso grande

poeta, autor dos Cânticos do Céu:

Quem sabe donde vem a aragem fresca?

Quem sabe donde vem o voo d'ave?

Quem sabe de onde vinha o morcego?

No dia seguinte, tinha justamente o venerando doutor aberto a pauta – quando outro morcego,

maior, mais negro, começa a esvoaçar furiosamente pela aula! O respeitável Dr. Pascoal

fechou a pauta, saiu da aula, todo trémulo, todo branco...

Alípio, porém, vira o condiscípulo indigno que soltara os morcegos, e ali mesmo, na geral,

decidiu, por amor da disciplina violada e do professorado ultrajado, acusá-lo ao decano. Mas

como repugnava ao seu carácter leal ir, de viva voz, a casa do Dr. Pascoal, denunciar o

condiscípulo, redigiu uma carta anónima com estas palavras:

O vilão que arrojou o morcego às faces de V. Ex.ª perturbou o recinto escolar, é o nº 89!

Era um certo Adriano Cravilho, que – posto que de uma inteligência notável e de.18 um

temperamento honesto – tinha, como se diz em Coimbra, «o furor de fazer partidas».

Uma semana depois, condenado por um processo secreto e sumário, era riscado da

Universidade perpetuamente. O respeitável Dr. Pascoal, porém, ficara tão reconhecido ao

«anónimo» que lhe revelara o autor do malefício, que costumava dizer no conselho da

faculdade, que, se soubesse quem era, «pespegava-lhe um accessit no fim do ano. Porque

enfim, colegas, livrou a aula de um malvado!»

Estas palavras, espalhadas, impressionaram Alípio. O seu acto apareceu-lhe revestido de uma

importância inesperada; examinando-o, descobria-lhe a nobreza, via-o como um verdadeiro

serviço feito à Ciência, à Disciplina, à Ordem, ao princípio autoritário. E considerava que se é

justifi-cado o pudor que nos faz ocultar o serviço feito a um amigo, há uma falsa modéstia em

esconder um benefício prestado à sociedade. Pode esquivar-se ao reconhecimento quem

salva um homem – não quem salva um princípio!

E dias antes dos actos, dirigiu-se a casa do Dr. Pascoal, e escrevendo diante dele as palavras

textuais da carta anónima, convidou-o a comparar as letras, provando ao venerável professor

que era ele, Alípio Abranhos, quem prestara aquele serviço tão marcante à Disciplina.

– Pois faz favor de deixar o seu nome... faz favor de deixar o seu nome – exclamou o ancião,

que estava na idade em que a memória é como tela gasta, que, repuxada, se esgaça.

Alípio deixou o seu nome – e no fim do ano recebia o 1º accessit.

Teve ainda o 1º accessit no segundo ano –ano em que ele, justamente, dedicou a sua

dissertação sobre o Direito das Gentes ao Dr. Capelo, conhecido pela redundância dos seus

períodos, com esta dedicatória: «Ao Deus da Eloquência, Ex.mo Dr. Capelo, of. d. c. Alípio

Abranhos, discípulo deslumbrado».

Teve uma distinção no terceiro ano – ano, exactamente, em que (segundo vejo nas suas

notas) a tia Amália lhe aumentou a mesada, o que habilitou Alípio a fazer presentes delicados

a D. Rosalinda Carreira, que a calúnia então apontava como concubina do seu lente de Direito

Civil.

No quarto ano recebeu enfim o segundo prémio – para o que concorreu uma sabatina em que,

argumentando com o lente, o sofista Dr. Abreu, e enleado por um sofisma complexo, lhe

lançou estas belas palavras: «não sei o que hei-de responder; a luta é desigual: eu só tenho

por mim o estudo e V. Exª, tem o génio!»

No quinto ano, ignoro que recompensa recebeu a sua fecunda aplicação.

Estas honras, porém, não eram dadas unicamente ao seu talento: eram, também o prémio da

sua conduta moral. Nunca o moço Alípio fora visto em conflitos com futricas ou em noitadas

nos bilhares da Baixa. O seu ódio à estroinice era tão grande, que, para evitar a brutalidade

burlesca do entrudo, refugiava-se em Celas, para onde ia a pé, em deliciosas excursões pelas

margens suaves do Mondego. Não se pense, porém, que as severidades do estudo – tão

justamente comparadas pelo nosso lírico a um vento esterilizador, – tinham ressequido no

jovem Alípio as florescências naturais do sentimento moço. Se eu não receasse afectar uma

forma preciosa, compará-lo-ia a um código dentre cujas folhas saísse uma flor de amor-

perfeito. Neste urso (nome pitoresco que se dá em Coimbra aos premiados, que, absorvidos

pelo estudo, se descuidam de cul-tivar as graças exteriores) neste urso, havia um gamo – se

tomarmos o gamo como símbolo animal das naturais vivacidades e das irreprimíveis simpatias.

Somente Alípio era destas naturezas prudentes que cuidadosamente ocultam o que o Destino,

o Acaso ou a Providência, lhes deu de mais excessivo ou desregrado.

Todo o homem tem vícios, ou paixões, ou gostos perversos, mas o seu dever é.19 escondê-los

e mostrar-se apenas aos seus semelhantes como um ser regrado e bem equilibrado. Era

assim, por exemplo, que apesar de gostar de genebra, Alípio nunca se entregava a esta

inclinação na publicidade brutal dos botequins ruidosos: aí, tomava regradamente o seu copo

de orchata. Mas, tendo assim cumprido o seu dever de homem, de cidadão, de premiado,

dando um exemplo severo de sábia sobriedade, julgava poder, sem escrúpulos, depois de

satisfeito o dever, satisfazer a inclinação; e em casa, no seu quarto solitário, usava com

largueza da garrafa de genebra que guardava debaixo da cama, no caixote da roupa suja.

Tocante exemplo de respeito pessoal e de submissão à decência!

A mesma discrição usava no que se refere aos sentimentos temos: seria incapaz de ir com

condiscípulos, «numa troça», a casa dessas Vénus vulgares que batem o lajedo com sapatos

cambados e cujo leito é como uma praça pública. Mas se a natureza, nas suas iniludíveis

exigências, que às vezes os eflúvios da Primavera ou a preguiçosa e tépida atmosfera do

Outono tornam mais mordentes, o solicitasse, esperava pela noite, e, com sapatos de borracha

para que nem lhe ouvissem os passos, procurava as vielas mais retiradas, onde, depois de ter

pactuado com a paciente que lhe seria guardado absoluto segredo, sacrificava com seriedade

no altar de Vénus Afrodite.

Foi por essa discrição tão digna que ninguém – nem os seus companheiros – souberam de um

terno episódio passado durante o seu quinto ano. Ele era então hóspede das Barrosos,

respeitáveis velhas onde estudantes encontravam carinhos maternais por preços discretos. A

servente, uma Júlia, tinha 18 anos, era virgem, e, segundo me confessou o Conde, a sua

beleza delicada e tocante fazia lembrar esses tipos de odaliscas que se encontram nos

Keepsakes, recostadas em coxins, à sombra de arcadas mouriscas, acariciando com a ponta

aguçada dos dedos ideais uma gazela familiar. Tanta beleza, tão nobre, numa condição tão

rasteira – a natureza compraz-se por vezes nestas irónicas antíteses – comoveram o coração

de Alípio, e, uma noite em que a servente dormia na sua água-furtada, o jovem quintanista

atreveu-se a subir, em pontas de pés, a admirar a forma delicada, mais bela na sua camisa de

estopa do que as Vénus que os artistas florentinos recostavam em coxins de seda, com

rouparias de damasco... Mas ao ranger perro da porta a servente acordou: ia gritar, assustada,

quando Alípio, tapando-lhe a boca com a mão (sem a magoar contudo) rogou, na balbuciação

supli-cante do desejo:

– Mas ouve, filha, ouve primeiro o que te vou dizer...

O que lhe disse? Quem sabe o que ao arvoredo diz o vento, o que dizem as alegres águas

correntes às relvas dos prados, o que diz o rouxinol na sombra dos salgueiros, quando sobre a

colina, serena e branca, se ergue a Lua?

Desde essa noite, Alípio não trocaria aquela água-furtada, onde a caliça caía com a humidade,

pelas salas de mármore do Vaticano! Mas, admirável exemplo da seriedade do seu espírito,

mesmo ali, não esquecia o seu trabalho: levava os expositores, a s ebenta, os apontamentos,

e, depois do primeiro transporte amoroso, enquanto, como ave fatigada, a servente se

aninhava na cova da enxerga, o nosso Alípio, à luz de uma vela de sebo, ia estudando as mais

altas questões do Direito Penal – até que o Desejo, ferrão despótico, o arremessava de novo

aos braços brancos que o sono enlanguescia. Delicioso idílio!

E quantas vezes, nos seus anos ilustres, quando ele fazia História, decerto lhe volveriam à

memória, como um trecho de mal lembrada melodia, aqueles meses de Verão e de amor

romântico, em que a bela Júlia e o jovem Alípio, abafando as suas risadas, faziam no quarto

miserável, sob as telhas, a caça aos mosquitos nas paredes e aos percevejos nas frinchas...

Ah! bem o têm dito os poetas: a mocidade, como o sol, tudo esbate e envolve numa vaga

névoa de ouro; e os mosquitos que se matam aos vinte anos, numa alcova amada, parecem

deliciosos àqueles, que, aos quarenta, dormem sob cortinados de seda, sentindo na rua, junto

à porta, o passo respeitoso da sentinela protocolar!

Quando Alípio, concluída a formatura, deixou Coimbra, Júlia estava no terceiro mês da sua

gravidez. No entanto conservou-lhe sempre uma estima terna, até que um companheiro, daí a

tempos, lhe escreveu, dizendo que Júlia fora expulsa da respeitável casa das Barrosos (como

de resto era justo) e que, achando-se sem emprego, formosa e com um filho a sustentar, se

lançara na prostituição.

Desde então o nosso grande Alípio só concebeu por ela desprezo e repulsão – porque naquele

espírito nobre sempre houvera o horror das miseráveis, que, esquecendo o que devem ao

respeito próprio à sociedade, à família, ao filho, vão pedir ao indolente abandono do lupanar o

pão que deveriam obter das severas fadigas do trabalho. Recusou mesmo, com indignação, a

esmola que ela lhe mandara pedir, temendo que os pouco mil-réis que lhe poderia remeter,

fossem porventura, contribuir para enfeitar e arrebicar uma nova sacerdotisa da Vénus das

vielas. Tanto a esta alma severa e forte repugnavam as moles condescendências e as vãs

piedades!

Dois anos depois da sua formatura, encontrámos Alípio Abranhos em Lisboa, numa casa da

Rua do Ouro que faz esquina para o Rossio, e praticando no escritório do famoso Dr. Vaz

Correia.

O Conde nunca me deu pormenores minuciosos sobre estes primeiros anos de Lisboa, nem

encontro nas suas notas elementos pelos quais possa fazer deles uma narração detalhada. O

País tinha então atravessado a grande crise social que e popularmente conhecida pelo nome

da Maria da Fonte. Não me proponho, neste estudo puramente íntimo, fazer crítica histórica ou

apreciar as consequências desta formidável convulsão da nossa política portuguesa.

Uma vantagem, porém, – e insisto nela porque se prende indirectamente com a carreira

política do Conde d'Abranhos – tirámos da Junta: e foi essa vantagem o ficar provada a

impossibilidade em Portugal de um desses ministérios à Polignac e à Cabral, que vão, com

uma obstinação altiva e brutal, contra as tendências do espírito público e pretendem impor-se

pela força em lugar de conquistar pela habilidade. O povo é como um desses monstruosos

elefantes da Índia de que tenho ouvido contar: de uma pujança indomável e de uma

simplicidade risível, o mundo inteiro, pela violência, não o pode obrigar a caminhar contra a

sua vontade, e uma criança, pela astúcia, obriga-o a fazer cabriolas grotescas. O povo tem a

força de um elemento e um regimento não lhe pode impor uma ideia que um simples advogado

hábil em declamação lhe faz aceitar sem esforço. Isto eram verdades já velhas no antigo

mundo helénico. Os Polignacs, os Guizots, os Cabrais, são portanto culpados, não de falta de

civilização, mas de falta de astúcia. Para que se há-de combater um monstro invencível,

quando é tão simples iludi-lo?

Os Romances de Cavalaria dão-nos uma alta lição política, quando nos pintam esses

medonhos gigantes que guardavam as entradas das pontes, sobre torrentes tenebrosas: as

lanças dos melhores cavaleiros, tentando forçar a passagem, quebravam-se de encontro à

pele coriácea dos temerosos brutos, até ao dia em que um bravo Percival ou um Lancelote, flor

de cavalaria, lhe mandavam um anão pérfido e hábil em manhas, que adormecia

profundamente o colosso – e os cavaleiros podiam, impunemente, trepar-lhe sobre o ventre

monstruoso, como sobre uma montanha inerte, e entrar no castelo desejado onde os esperava

um seio branco e os vinhos raros que vêm das colinas de Inspruk.

Polignac, Guizot, Cabral, quebraram as lanças de encontro ao gigante; ainda hoje.21 viveriam,

e decerto estariam no castelo, coroados de rosas, nos braços da Princesa, se, em lugar do

heróico e vão esforço, tivessem mandado adiante o anão, profundo em manhas.

Os políticos da geração moderna compreenderam e aceitaram a grave lição da Maria da

Fonte. O sistema da violência foi abandonado como inútil, e começou, com êxito, o dúctil

método da habilidade.

O Conde d'Abranhos, com a sua alta intuição, sentiu que se estava preparando uma nova

política, que, condizendo com o seu temperamento, seria o elemento natural em que a sua

fortuna medraria como num terreno propício. Ele bem sabia que o governo nada perdia do seu

poder discricionário – mas que apenas o disfarçava. Em vez de bater uma forte patada no

país, clamando com força: – Para aqui! Eu quero! – os governos democráticos conseguem

tudo, com mais segurança própria e toda a admiração da plebe, curvando a espinha e dizendo

com doçura: – Por aqui, se fazem favor! Acreditem que é o bom caminho!

Tomemos um exemplo: o eleitor que não quer votar com o Governo. Ei-lo, aí, junto da urna da

oposição, com o seu voto hostil na mão, inchado do seu direito. Se, para o obrigar a votar com

o Governo o empurrarem às coronhadas e às cacetadas, o homem volta-se, puxa de uma

pistola – e aí temos a guerra civil. Para que esta brutalidade obsoleta? Não o espanquem,

mas, pelo contrário, acompanhem-no ao café ou à taberna, conforme estejamos no campo ou

na cidade, paguem-lhe bebidas generosamente, perguntem-lhe pelos pequerruchos, metam-

lhe uma placa de cinco tos-tões na mão e levem-no pelo braço, de cigarro na boca, trauteando

o Hino, até junto da urna do Governo, vaso do Poder, taça da Felicidade! Tal é a tradição

humana, doce, civilizada, hábil, que faz com que se possa tiranizar um País, com o aplauso do

cidadão e em nome da Liberdade.

Quantas vezes me disse o Conde ser este o segredo das Democracias Constitucionais: «Eu,

que sou governo, fraco mas hábil, dou aparentemente a Soberania ao povo, que é forte e

simples. Mas, como a falta de educação o mantém na imbecilidade, e o adormecimento da

consciência o amolece na indiferença, faço-o exercer essa soberania em meu proveito... E

quanto ao seu proveito... adeus, ó compadre!

Ponho-lhe na mão uma espada; e ele, baboso, diz: eu sou a Força! Coloco-lhe no regaço uma

bolsa, e ele, inchado, afirma: eu sou a Fazenda! Ponho-lhe diante do nariz um livro, e ele

exclama, de papo: eu sou a Lei! Idiota! Não vê que por trás dele, sou eu, astuto manejador de

títeres, quem move os cordéis que prendem a Espada, a Bolsa e o Livro!»

E eu que, durante quinze anos, vivi na honrosa intimidade do Conde d'Abranhos e me penetrei

nas suas ideias, estou tão crente desta verdade, que – dado um Chefe de Estado

irresponsável, ministros e uma Câmara electiva – me comprometo, oh! leitores, a fazer

governar esse grande e velho reino da Taprobana pela Camila Pelada, do Beco dos Cavaletes!

Como procederei eu? Tomo a Pelada, enamoro dela o Chefe do Estado, o que é fácil, hoje que

o deboche tem as persuasões de uma religião e os métodos de uma ciência. Dirigido por ela, o

Chefe do Estado escolhe os ministros, e os ministros, como no conto popular, convencem os

eleitores, que nomeiam os deputados, que os legalizem a eles, ministros, e às suas fantasias,

decretos, empréstimos e discursos! O povo, satisfeito, afirma: Eu sou o dono! Eu, rio-me. A

dona é a Camila – e se eu, por acaso, for o Serafim da Camila, sou eu, afinal, quem governa a

Taprobana, dentre os lençóis de uma alcova, no Beco dos Cavaletes!

Tudo isto o sentiu num relance o Conde, quando, depois da Maria da Fonte, os ministérios da

Força cederam o passo aos ministérios da Astúcia. A Maria da Fonte foi.a introdução no

Estado de uma nova táctica social.

Entretanto, querendo vir à arena com todas as armas, o Conde preparava a sua reputação

literária, como redactor-chefe da Bandeira Nacional, jornal de que, atendendo ao brilho que lhe

deu a colaboração de Alípio e à sua curta existência, eu poderia dizer, parafraseando o

conhecido verso de Malherbe sobre a rápida vida das rosas – que viveu o que vive um foguete,

o espaço de um estalo e de um clarão!

A Bandeira Nacional era um destes muitos jornais, que fundados sem capitais e não

correspondendo a nenhuma necessidade intelectual, têm na sociedade um lugar isolado e sem

valor, arrastam uma vida difícil, tendo que mendigar, aqui e além – ou da oposição ou do

governo – a esmola de um subsídio, e, quando este lhes falta, se extin-guem por si mesmos no

silêncio e na obscuridade.

Os fundadores da Bandeira, moços ambiciosos que rondavam em torno das repartições do

Estado, tinham encontrado um patrono num homem político, alta figura de relevo na história

Constitucional, o conselheiro Gama Torres. A protecção que dispensava porém à Bandeira

este homem notável, era, como dizia finamente o Conde – p latónica, toda platónica! Não lhe

dava dinheiro, porque, chefe de família, entendia, e muito bem, que a política não deve sorver

fortunas, mas, pelo contrário, produzi-las. Não dava tão pouco ideias, porque, apesar da sua

alta ilustração, que o torna um dos nossos grandes contemporâneos, a sua prudência, a sua

reserva eram tais, que raras vezes se lhe tinha ouvido uma opinião nítida.

Sabia-se que aquela fronte um pouco calva, de entradas largas, estava recheada de ideias;

somente conservava-as como um tesouro escondido. Era, por assim dizer, um avaro

intelectual. As suas ideias eram para si; no silêncio do seu gabinete, agitava-as como o velho

Grandet agitava o seu ouro, regalando-se do seu brilho e da sua sonoridade. Mas se alguém

entrava de repente, aferrolhava tudo à pressa no cofre do cérebro, e a sua larga testa, de

entradas altas, não oferecia mais que uma fachada impenetrável e monumental, que

impressionava a todos e não aproveitava a ninguém.

Era alto, encorpado, e os seus olhos, azulados e redondos, tinham uma singular falta de

expressão e de intenção. Porém, todos sabiam que por trás daquele olhar parado um mundo

de ideias fermentava.

É curioso observar quantos homens públicos do nosso país têm esta aparência apagada,

vazia, vaga, abstracta, sonâmbula; e, todavia, eu que pelo Conde fui admitido a conhecê-los,

sei quanto génio habita em segredo naquelas cabeças calvas ou cabeludas, a que os

superficiais, não lhes conhecendo as secretas riquezas, acham um aspecto alvar. É que nós

somos uma raça reservada, inimiga da ostentação e das atitudes: ao inverso dos franceses,

que mal têm uma ponta de talento, tratam de o fazer brilhar, reluzir, deslumbrar, nós, com

vastidões de génio no interior, desprezamos estas demonstrações vaidosas e guardamos para

nós mesmos as nossas riquezas intelectuais. Assim faz o árabe, que cerca os seus jardins

deliciosos e as suas habitações douradas de um muro negro de pedra e lama, de modo que se

julga ver uma cabana onde realmente existe uma Alhambra! Mas não somos nós de raça

árabe?

Por isso nunca o Conselheiro Gama Torres se dignou fazer à Bandeira Nacional a esmola de

uma ideia. Deu-lhe, porém, a protecção do seu nome; dizia-se «a Bandeira do Gama Torres» e

isto trazia ao jornal uma autoridade imprevista.

Muitas vezes, segundo me contou o Conde, durante os meses de Estio em que a política,

refugiada na sombra das quintas ou na frescura das praias, dormita, o redactor da Bandeira,

sem assunto para o seu artigo de fundo, recorria ao génio do Conselheiro, como um pobre

envergonhado. Gama Torres, porém, colocando-se no meio da casa, as pernas afastadas, o

ventre saliente, as mãos atrás das costas, fitava o soalho e.23 bamboleando o crânio fecundo,

murmurava surdamente:

– Ele há muitas questões!... Há questões terríveis. Há a prostituição... o pauperismo... Ele há

muitas questões...

Mas, repito-o, era um avaro intelectual que não gostava de fazer a esmola de uma ideia. Não o

censuro, pois é sabido que ele dava todo o seu tempo e todo o seu génio às grandes questões

sociais. Elas preocupavam-no tanto que era usual – sempre que diante dele se falava de

assuntos políticos – ouvi-lo murmurar soturnamente:

– Ele há muitas questões! Questões terríveis: o pauperismo, a prostituição! São grandes

questões! Questões terríveis!

E pareciam com efeito terríveis essas questões, de uma tenebrosidade de abismo, quando se

via o olhar esgazeado com que ele parecia contemplá-las mentalmente.

Pouco tempo antes da sua morte, lembro-me de o ter visto, uma noite, em Casa do Conde,

numa ocasião de crise ministerial, e nunca esquecerei a terrível impressão que me deixou

aquele grande homem, de pé no meio da sala, esgazeando o olhar em redor e dizendo

cavamente:

– Os senhores podem crê-lo, nem tudo são chalaças; ele há questões terríveis... A

prostituição, o pauperismo, o ultramontanismo... Questões terríveis.

E no silêncio apavorado que deixara aquela voz profética, em que se sentia a ameaça de

graves tormentas sociais rolando do fundo do horizonte, aproximei-me instintivamente do

Conde, como quem procura asilo seguro.

Tal era o director da Bandeira. Devo acrescentar que os únicos artigos que ele dava para o

jornal anunciavam as suas jornadas para a Ericeira, ou os partos frequentes de sua esposa, ou

ainda os progressos da sua doença de bexiga: artigos curtos, de resto, mas numa linguagem

tersa, firme, grave, em que se sentia o homem de Estado!

A colaboração de Alípio Abranhos na Bandeira Nacional veio dar ao jornal anémico um sangue

novo e vivo. Eu possuo – precioso presente do Conde – uma colecção da Bandeira, ricamente

encadernada, e muitas vezes, abrindo-a com vene-ração, me repasto desses artigos, que,

como prosa e como argumentação, lançam na sombra os famigerados Girardins, os Sampaios

tão preconizados. Quereria transcrever alguns desses modelos de literatura jornalística, mas a

estreiteza deste estudo apenas me permite extractar um trecho, por onde o leitor pressentirá o

colosso, como Cuvier, por uma vértebra, adivinhou o mastodonte.

O jornal, a quem o ministério desse período recusara, sem razão, um honroso subsídio, fazia

uma oposição amarga. O ministro apresentara um projecto de reforma administrativa. Estas

reformas têm sido tão numerosas em Portugal – tal é o honroso esforço de todos os governos

para um ideal melhor – que não posso precisar os princí-pios sobre que esta se baseava:

debalde tenho perguntado aos homens públicos que então a discutiram e votaram: nenhum se

recorda. Deduzo, porém, dos artigos da Bandeira, que o seu espírito era centralizador. Foi

então que Alípio escreveu esse artigo, tanto mais admirável quanto é certo que ele concordava

inteiramente com os princípios defendidos na reforma. Porém, jornalista de oposição, não

duvidou fulminá-los – tal era a sua lealdade aos compromissos políticos.

Eis a conclusão desse trecho imortal:

«...A centralização, pois, chamando toda a vida política do país ao centro, à capital, à cabeça

da Nação, cria, por assim dizer, um estado político pletórico e apopléctico, em que é o centro

que tem todo o sangue, todo o vigor, e as extremidades, onde não chega a circulação

necessária para que elas se conservem num calor benéfico e saudável, arrefecem, e, em

breve, definham, ficando como organismos mortos, apenas ligados, para assim me exprimir,

por tendões artificiais, que o mais pequeno choque despedaça, o que produz a situação

anormal dum corpo que, por falta duma vitalidade.24 que o mantenha intacto e compacto, se

vê a cada momento arriscado a perder membros essenciais, cuja falta lhe faz imediatamente

sentir a aproximação da morte, sendo já tarde para lhe insuflar à pressa uma vida, que, de

resto, apenas poderá ser artificial, e que rapidamente se extinguiria, deixando,

consequentemente, a gangrena moral fazer a sua sinistra obra de destruição e de

decomposição. Que o saiba, pois, o Governo, que, em desprezo de todos os princípios mais

provados da Economia e do Direito, está à frente da nossa entidade nacional: se a sua reforma