O Conde de Monte Cristo por Alexandre Dumas - Versão HTML

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Alexandre Dumas

O Conde de Monte-Cristo

Título original: Le Comte de Monte-Cristo Tradução de Adelino dos Santos Rodrigues Tradução Portuguesa de P.E.A., de 1999

Capa: estúdios P.E.A

Direitos reservados por PublicaçÕes Europa-América. Ltda.

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Os

transgressores são passíveis de procedimento judicial.

Editor: Francisco Lyon de Castro

PublicaçÕes Europa-América, Ltda,

Apartado 8

2726-901 mem martins

portugal

Edição n.o: 151051/7183

Abril de 1999

Execução técnica:

Gráfica Europam, Ltda.

Mira-Sintra - Mem Martins

Dep. legal n.o 136659/99

O Conde de Monte-cristo

Um romance do Destino. Vítima e vingador, Edmond Dantès, o personagem central, encarna ele próprio, o destino.

A história de um homem bom a quem roubam a liberdade e o amor.

No cativeiro trava amizade com o abade Faria, que lhe oferece ajuda para a fuga.

Um homem que regressará coberto de riquezas, vingador impiedoso,

para além de toda a lei humana ou divina.

Capítulo I

Marselha. - A Chegada

Em 24 de Fevereiro de 1815, o vigia de Nossa Senhora da Guarda assinalou o três mastros Pharaon, vindo de Esmirna, Trieste e Nápoles.

Como de costume, um piloto costeiro largou imediatamente do porto, passou rente ao Castelo de If e abordou o navio entre o cabo de Morgion e a ilha de Rion.

Também como de costume, a plataforma do Forte de S. João encheu-se imediatamente de curiosos. Porque em Marselha a chegada

de um navio era sempre um grande acontecimento, sobretudo quando

esse navio, como no caso do Pharaon, fora construído, aparelhado e estivado nos estaleiros da velha Phocée e pertencia

a um armador da cidade.

Entretanto, o navio aproximava-se. Transpusera sem dificuldade o estreito que alguma erupção vulcânica abrira entre a ilha de Calasareigne e a ilha de Jaros, deixara para trás Pomègue e avançava com os seus três mastros, a sua bojarrona e a sua bergantina, mas tão devagar e com um ar tão triste que os curiosos, com esse instinto que pressente a desgraça, perguntavam

a si mesmos que acidente teria acontecido a bordo. No entanto, os entendidos em navegação reconheciam que, se houvera algum acidente, não se dera com o próprio navio, pois este aproximava-se com todas as condiçÕes de um navio perfeitamente governado, a âncora prestes a ser largada e os cabos gurupés soltos; e junto do piloto, que se preparava para dirigir o Pharaon através da entrada estreita do porto de Marselha, encontrava-se um jovem desembaraçado e de olhar atento, que vigiava cada movimento do navio e repetia cada ordem do piloto.

A vaga inquietação que pairava sobre a multidão atingira especialmente um dos espectadores da esplanada de S. João, e de

tal modo que não lhe permitiu esperar a entrada do navio no porto. Saltou para um barquito e mandou remar ao encontro do Pharaon, que alcançou defronte da enseada da Réserve.

Ao ver aproximar-se aquele homem, o jovem marinheiro deixou o seu

lugar ao pé do piloto e, de chapéu na mão, encostou-se à amurada

do navio.

Era um rapaz de dezoito a vinte anos, alto, esbelto, de belos olhos negros e cabelo cor de ébano. Havia em toda a sua pessoa esse ar calmo e resoluto característico dos homens habituados desde a infância a enfrentar o perigo.

- Ah, é você, Dantès! - gritou o homem do barco. - Que aconteceu,

a que se deve esse ar de tristeza que paira a bordo?

- Uma grande desgraça, Sr. Morrel! - respondeu o jovem.

- Uma grande desgraça, sobretudo para mim. Por alturas de Civita-Vecchia perdemos o nosso querido comandante Leclère.

- E a carga? - perguntou vivamente o armador?

- Chegou a bom porto, Sr. Morrel, e creio que a esse respeito ficará contente; mas o pobre comandante Leclère...

- Que lhe aconteceu? - perguntou o armador com ar visivelmente aliviado. - Que aconteceu a esse digno comandante?

- Morreu.

- Caiu ao mar?

- Não, senhor. Morreu de febre cerebral, no meio de horríveis sofrimentos.

Depois, virando-se para os seus homens:

- Olá, eh! - gritou. - Todos a postos para a ancoragem!

A tripulação obedeceu. Acto contínuo, os oito ou dez marinheiros

que a compunham correram uns para as escotas, outros para os braços, outros para as adriças, outros para os cutelos e finalmente outros para as carregadeiras das velas.

O jovem marinheiro deitou um olhar breve ao começo da manobra e,

vendo que as suas ordens estavam a ser executadas, tornou a virar-se para o seu interlocutor.

- E como aconteceu essa desgraça? - continuou o armador, retomando o diálogo no ponto em que o jovem marinheiro o deixara.

- Meu Deus, senhor, da forma mais imprevista! Depois de uma longa

conversa com o comandante do porto, o comandante Leclère deixou

Nápoles muito agitado; passadas vinte e quatro horas a febre atacou-o; três dias depois estava morto... Fizemos-lhe o funeral

do costume e repousa, decentemente embrulhado no pano de uma maca, com um pelouro de trinta e seis aos pés e outro à cabeça,

por alturas da ilha de El Giglio. Trazemos, para entregar à viúva, a sua Cruz de Honra e a sua espada. Valia bem a pena -

continuou o jovem, - com um sorriso melancólico - andar dez anos

a guerrear os Ingleses para no fim morrer na cama como toda a gente.

- Pois sim, mas que quer, Sr. Edmond - prosseguiu o armador, que

parecia cada vez mais conformado -, somos todos mortais e é preciso que os mais velhos dêem lugar aos novos. Sem isso não haveria progresso; e uma vez que me garante que a carga...

- ...está em bom estado, Sr. Morrel, asseguro-lhe. Aconselho-o a não negociar esta viagem com menos de 25.000 francos de lucro.

Depois, como acabassem de ultrapassar a torre redonda:

- Preparar para colher as velas da gávea, o cutelo e a bergantina! - gritou o jovem marinheiro. - Vamos!

A ordem foi executada quase com tanta rapidez como num navio de

guerra.

- Amainar e colher tudo!

à última ordem todas as velas desceram e o navio avançou quase

insensivelmente, impelido apenas pelo impulso que trazia.

- E agora se quiser subir, Sr. Morrel - disse Dantès ao ver a impaciência do armador -, aqui tem o seu guarda-livros, Sr.

Danglars, que sai do seu camarote e que lhe dará todas as informaçÕes que desejar. Quanto a mim, tenho de vigiar a ancoragem e de pôr o navio de luto.

O armador não esperou que lho dissessem duas vezes. Agarrou o cabo que lhe deitou Dantès e, com uma destreza que faria inveja

a um homem do mar, subiu os degraus fixados no bojo do navio, enquanto o jovem, reassumindo o seu lugar de imediato, cedia a palavra àquele que anunciara sob o nome de Danglars e que, saindo

do seu camarote, avançava efectivamente ao encontro do armador.

O recém-chegado era um homem de vinte e cinco a vinte e seis anos, de expressão bastante sombria, obsequioso para com os superiores e insolente para com os subordinados. Por isso, além

do cargo de guarda-livros, sempre motivo de repulsa para os marinheiros, era geralmente tão malvisto pela tripulação quanto,

pelo contrário, Edmond Dantès era estimado.

- Então, Sr. Morrel - disse Danglars -, já sabe a desgraça que

nos aconteceu, não é verdade?

- Sei, sei. Pobre comandante Leclère! Era um excelente e digno homem!

- E um bom marinheiro, sobretudo, envelhecido entre o céu e o mar, como convém a um homem encarregado dos interesses de uma casa tão importante como a casa Morrel & Filhos - respondeu Danglars.

- Mas - disse o armador, seguindo com a vista Dantès, que procurava o seu ancoradouro -, mas parece-me que não é necessário ser tão velho marinheiro como você diz, Danglars, para

um homem saber do seu ofício. Aí está o nosso amigo Edmond que me parece saber do seu como um homem que não necessita de pedir

conselhos a ninguém.

- Sim - redarguiu Danglars, deitando a Dantès um olhar oblíquo

onde brilhou um relâmpago de ódio -, sim, é novo e por isso julga-se capaz de tudo. Mal o comandante morreu assumiu o comando

sem consultar ninguém e fez-nos perder dia e meio na ilha de Elba, em vez de rumar directamente para Marselha.

- Quanto a tomar o comando do navio - disse o armador - era o seu dever como imediato; quanto a perder dia e meio na ilha de Elba fez mal; a menos que o navio tenha tido necessidade de reparar alguma avaria.

- O navio estava tão bem como eu estou e como desejo que esteja

o Sr. Morrel. Esse dia e meio foi perdido por puro capricho, pelo

prazer de ir a terra e mais nada.

- Dantès - disse o armador virando-se para o rapaz -, chegue aqui.

- Perdão, senhor - respondeu Dantès -, irei dentro de um instante.

Depois, dirigindo-se à tripulação:

- Ancorar!

A âncora caiu imediatamente e a corrente deslizou com ruído.

Apesar da presença do piloto, Dantès manteve-se no seu posto até

esta última manobra estar concluída. Depois:

- Descer a flâmula a meio mastro, pôr a bandeira a meia haste e

cruzar as vergas!

- Como vê - disse Danglars -, já se julga comandante, como acabo

de lhe dizer.

- E é-o de facto - redarguiu o armador.

- Sim, caso tenha o seu acordo e o do seu sócio, Sr. Morrel.

- E porque lhe não daríamos o lugar? - replicou o armador. - É

novo, bem sei, mas parece-me capaz de desempenhar perfeitamente

o cargo.

Passou uma nuvem pela testa de Danglars.

- Perdão, Sr. Morrel - disse Dantès, aproximando-se. - Agora que

o navio já está ancorado, estou às suas ordens. Chamou-me, não é verdade?

Danglars deu um passo atrás.

- Queria perguntar-lhe por que motivo se detiveram na ilha de Elba - respondeu Morrel.

- Ignoro-o, senhor. Cumpri apenas a última ordem do comandante Leclère, que ao morrer me entregou um pacote para o grande marechal Bertrand.

- Viu-o, portanto, Edmond?

- Quem?

- O grande marechal.

- Vi.

Morrel olhou à sua volta e puxou Dantès à parte.

- E como está o imperador? - perguntou vivamente.

- Bem, tanto quanto me foi dado julgar pelos meus olhos.

- Quer dizer que também viu o imperador?

- Entrou em casa do marechal quando lá me encontrava.

- E você falou-lhe?

- Bom, quem me falou foi ele, senhor - respondeu Dantès, sorrindo.

- E que lhe disse?

- Interrogou-me acerca do navio, de quando partia para Marselha,

da rota seguida e da carga que transportava. Creio que se estivesse vazio e fosse meu a sua intenção seria comprá-lo.

Mas

disse-lhe que não passava de um simples imediato e que o navio pertencia à casa Morrel & Filhos. «Ah! Ah!, conheço-a!, exclamou. «Os Morrels são armadores de pais para filhos e houve

um Morrel que serviu no mesmo regimento que eu quando estive de

guarnição em Valence.”

- Por Deus, é verdade! - exclamou o armador, contentíssimo. -

Era

Policar Morrel, meu tio, que foi capitão. Dantès, se disser ao meu tio que o imperador se lembrou dele, verá como o velho resmungão desata a chorar. Pronto, pronto - prosseguiu o armador,

batendo amistosamente no ombro do rapaz -, fez bem, Dantès, em

seguir as instruçÕes do comandante Leclère e escalar a ilha de Elba, embora se se soubesse que entregou um pacote, ao marechal

e conversou com o imperador, isso o pudesse comprometer.

- Em que quer o senhor que isso me comprometa - redarguiu Dantès

- se nem sequer sei o que continha o pacote e o imperador só me

interrogou acerca de coisas que perguntaria ao primeiro que lhe

aparecesse? Mas, perdão - prosseguiu Dantès -, aí estão a sanidade e a alfândega.

Dá-me licença, não é verdade?

- Claro, claro, meu caro Dantès.

O jovem afastou-se e, como ele se afastasse, Danglars tornou a aproximar-se.

- Então, parece que lhe deu boas razÕes acerca da sua escala em

Porto Ferraio...

- Excelentes, meu caro Sr. Danglars.

- Ah, tanto melhor! - exclamou este. - Porque é sempre desagradável ver um companheiro não cumprir o seu dever.

- Dantès cumpriu o seu - respondeu o armador - e não há nada a dizer.

- A propósito do comandante Leclère, não lhe entregou uma carta

dele?

- Quem?

- Dantès.

- A mim, não! Quer dizer que havia uma carta?

- Julgava que, além do pacote, o comandante Leclère lhe confiara

uma carta.

- De que pacote fala, Danglars?

- Daquele que Dantès entregou ao passar por Porto Ferraio.

- Como sabe que tinha de entregar um pacote em Porto Ferraio?

Danglars corou.

- Passava diante da porta do comandante, que estava entreaberta,

e vi-o entregar o pacote e a carta a Dantès.

- Não me disse nada a esse respeito - redarguiu o armador mas se

tem essa carta entregar-ma-á.

Danglars reflectiu um instante.

- Nesse caso, Sr. Morrel, peço-lhe que não diga nada disto a Dantès. Provavelmente, enganei-me

Neste momento o jovem regressava. Danglars afastou-se.

- Então, meu caro Dantès, já está livre? - perguntou o armador.

- Estou, sim, senhor.

- Não demorou muito tempo.

- Pois não. Entreguei aos funcionários da Alfândega a lista das

nossas mercadorias, e quanto à sanidade mandara com o piloto um

homem a quem entreguei os nossos documentos.

- Então já não tem mais nada que fazer aqui?

Dantès deitou um olhar rápido à sua volta.

- Não, está tudo em ordem - respondeu.

- Nesse caso, pode vir jantar connosco?

- Desculpe-me, Sr. Morrel, desculpe-me, peço-lhe, mas devo a minha primeira visita a meu pai. Mas nem por isso fico menos reconhecido pela honra que me concede.

- é justo, Dantès, é justo. Sei que é um bom filho.

- E... sabe se ele está bem... o meu pai? - perguntou Dantès, com

certa hesitação.

- Creio que sim, meu caro Edmond, embora o não tenha visto.

- Sim, gosta de estar fechado no seu quartito.

- O que prova, pelo menos, que não lhe faltou nada durante a sua

ausência.

Dantès sorriu.

- Meu pai é orgulhoso, senhor. Mesmo que lhe faltasse tudo duvido

que pedisse qualquer coisa a quem quer que fosse no mundo, excepto a Deus.

- Bom, depois dessa primeira visita contamos consigo.

- Desculpe-me novamente, Sr. Morrel, mas depois desta primeira visita tenho uma segunda que me não é menos grata ao coração.

- Ah, é verdade, Dantès? Esquecia-me de que há nos Catalães alguém que o deve esperar com não menos impaciência do que o seu

pai: a bela Mercédès.

Dantès sorriu.

- Ah, ah! - exclamou o armador. - Agora já me não admira que ela

tenha vindo três vezes pedir-me notícias do Pharaon. Apre, Edmond, escusa de se queixar, tem ali uma bonita amante!

- Não é minha amante, senhor - observou gravemente o jovem marinheiro -, é minha noiva.

- É tudo a mesma coisa - comentou o armador, rindo.

- Mas não para nós, senhor - respondeu Dantès.

- Pronto, pronto, meu caro Edmond - prosseguiu o armador - não o retenho mais. Cuidou tão bem dos meus negócios que merece que

lhe dê todo o tempo de que precisar para tratar dos seus.

Precisa

de dinheiro?

- Não, senhor. Tenho todos os meus vencimentos de viagem, isto é, perto de três meses de soldo.

- Você é um rapaz ajuizado, Edmond.

- Acrescente que tenho um pai pobre, Sr. Morrel.

- Sim, sim, sei que é um bom filho. Pronto, vá ver o seu pai.

Também tenho um filho e levaria muito a mal a quem, depois de uma

viagem de três meses, o retivesse longe de mim.

- Nesse caso, se me dá licença... - disse o jovem cumprimentando.

- Dou, se não tem mais nada a dizer-me.

- Não.

- O comandante Leclère não lhe deu, ao morrer, uma carta para mim?

- Foi-lhe impossível escrever, senhor. Mas isso recorda-me que desejo pedir-lhe quinze dias de licença.

- Para se casar?

- Primeiro; depois para ir a Paris.

- Pois sim, pois sim, tome o tempo que quiser, Dantès.

Levaremos

bem seis semanas a descarregar o navio e não voltaremos ao mar antes de três meses... Mas daqui a três meses tem de estar de volta. O Pharaon - continuou o armador, batendo no ombro do jovem marinheiro - não poderia partir sem o seu comandante.

- Sem o seu comandante! - exclamou Dantès, com os olhos brilhantes de alegria. - Veja bem o que diz, senhor, pois acaba

de corresponder às mais secretas esperanças do meu coração.

Será

sua intenção nomear-me comandante do Pharaon?

- Se fosse sozinho, estender-lhe-ia a mão, meu caro Dantès, e dir-lhe-ia: «Está feito.” Mas tenho um sócio e você conhece o provérbio italiano: «Che a compàgno a padróne.” Mas pelo menos

metade do caminho está andado, porque de dois votos já pode contar com um. Confie em mim para obter o outro.

- Oh, Sr. Morrel! - exclamou o jovem marinheiro com as lágrimas

nos olhos, pegando nas mãos do armador. -Agradeço-lhe, Sr.

Morrel, em nome de meu pai e de Mercédès.

- Está bem, está bem, Edmond. Há um Deus no Céu para as pessoas

dignas, que diabo! Vá ver o seu pai, vá ver Mercédès e procure-me

depois.

- Não quer que o leve a terra?

- Não, obrigado. Fico a tratar das minhas contas com Danglars.

Ficou satisfeito com ele durante a viagem?

- Conforme o sentido que dê à pergunta, senhor. Se é como bom camarada, não, pois parece-me que não gosta de mim desde o dia em que cometi a tolice, depois de uma pequena discussão que tivemos, de lhe propor que nos detivéssemos dez minutos na ilha

de Monte-Cristo para resolvermos a questão, proposta que não andei bem em fazer-lhe e que ele teve razão em recusar. Se é a respeito do guarda-livros que me faz a pergunta, creio não haver

nada a dizer e que terá motivos para se sentir satisfeito com a

forma como ele se desempenha da sua tarefa.

- Mas... Vejamos, Dantès, se fosse comandante do pharaon conservaria Danglars com prazer? - perguntou o armador.

- Comandante ou imediato, Sr. Morrel - respondeu Dantès - terei sempre a maior consideração por aqueles que possuírem a confiança

dos meus armadores.

- Está bem, está bem, Dantès, vejo que é um excelente rapaz sob

todos os aspectos. Não o retenho mais; vá, pois bem vejo que está

sobre brasas.

- Posso contar com a minha licença? - perguntou Dantès.

- Pois sim.

- Permite-me que me sirva do seu barco?

- à vontade.

- Adeus, Sr. Morrel, e mil vezes obrigado.

- Adeus, meu caro Edmond, felicidades!

O jovem marinheiro saltou para o barco, sentou-se à popa e mandou

seguir para a Cannebière. Dois marinheiros inclinaram-se imediatamente sobre os remos e a embarcação deslizou tão rapidamente quanto possível por entre os numerosos barcos que obstruíam a espécie de rua estreita que conduzia, através de duas

filas de navios, da entrada do porto ao cais de Orleães.

O armador seguiu-o com a vista sorrindo, até Dantès alcançar a muralha, saltar para as lajes do cais e desaparecer imediatamente

no meio da multidão variegada que das cinco da manhã às nove da

noite enche a famosa Rua da Cannebière, de que tanto se orgulham

os fócios modernos, os quais dizem com a maior seriedade do mundo

e com a pronúncia que dá tanto carácter às suas palavras: «Se Paris tivesse a Cannebière seria uma pequena Marselha.”

Ao virar-se, o armador viu atrás de si Danglars, que aparentemente parecia esperar as suas ordens, mas que na realidade seguia também com a vista o jovem marinheiro.

Simplesmente, havia uma grande diferença na expressão do duplo olhar que seguia o mesmo homem.

Capítulo II

O pai e o filho

Deixemos Danglars, a braços com o génio do ódio, tentar soprar contra o companheiro alguma maligna suposição ao ouvido do armador e sigamos Dantès, que, depois de percorrer a Cannebière

em todo o seu comprimento,

entrou na Rua de Noailles, em seguida numa casita situada ao lado

das Alamedas de Meilhan, subiu rapidamente os quatro andares de

uma escada escura e, segurando-se ao corrimão com uma das mãos e comprimindo com a outra as pulsaçÕes do coração, parou diante

de uma porta entreaberta que deixava ver um quartito até ao fundo.

Era naquele quarto que morava o pai de Dantès.

A notícia da chegada do Pharaon ainda não chegara aos ouvidos

do velhote, o qual, empoleirado numa cadeira, se entretinha a prender com mão trémula algumas capuchinhas e clematites que trepavam ao longo do ripado da janela.

De súbito, sentiu-se agarrado pela cintura e ouviu uma voz bem conhecida exclamar atrás dele:

- Meu pai, meu bom pai!

O velho soltou um grito e virou-se; depois, ao ver o filho, deixou-se transportar nos seus braços, muito trémulo e palidíssimo.

- Que tens, pai? - perguntou o rapaz, inquieto. - Estás doente?

- Não, não, não, meu querido Edmond, meu filho, meu menino, não.

Mas não te esperava, e a alegria, a surpresa de te ver assim de

repente... Ah, meu Deus, parece-me que vou morrer!

- Pronto, sossega, pai! Sou eu, sou mesmo eu! Sempre ouvi dizer

que a alegria não faz mal e por isso entrei assim, sem preparação. Vamos, sorri-me em vez de me olhares dessa maneira,

com os olhos esgazeados. Estou de volta e vamos ser felizes.

- Ah, ainda bem, rapaz! - exclamou o velho. - Mas vamos ser felizes como? Não me deixas mais? Anda, conta-me em que consiste

a tua felicidade!

- Que o Senhor me perdoe - disse o rapaz - por me regozijar com

uma felicidade conseguida à custa do luto de uma família! Mas Deus sabe que não desejei essa felicidade. Uma vez, porém, que aconteceu, não está mais na minha mão, não consigo afligir-me.

O digno comandante Leclère morreu, meu pai, e é provável que graças à protecção do Sr. Morrel me dêem o seu lugar.

Compreende,

meu pai? Comandante aos vinte anos! Com cem luíses de soldo e parte dos lucros! Não é mais do que podia realmente esperar um pobre marinheiro como eu?

- Sim, meu filho, sim, de facto é uma felicidade - disse o velhote.

- Por isso, quero que com o primeiro dinheiro que ganhar tenha uma casinha com jardim para plantar as suas clematites, as suas

capuchinhas e as suas madressilvas... Mas que tens, pai, dir-se-ia que te sentes mal...

- Calma, calma! Isto não é nada.

Mas as forças faltaram-lhe e o velho deixou-se cair para trás.

- Então, então! - exclamou o rapaz. - Tome um copo de vinho, meu

pai; vai ver que o reanima. Onde tem o vinho?

- Não, obrigado, escusas de o procurar; não é preciso -

redarguiu

o velho, procurando reter o filho.

- Não é preciso, não é preciso... Então, pai, diga-me onde está

- e abriu dois ou três armários.

- Inútil... - murmurou o velho - já não há vinho.

- Como, já não há vinho?! - surpreendeu-se Dantès, empalidecendo por seu turno e olhando alternadamente para as faces cavadas e macilentas do velho e para os armários vazios.

- Como é que já não há vinho? Tiveste falta de dinheiro, meu pai?

- Não tenho falta de nada desde que estás aqui - respondeu o velhote.

- No entanto - balbuciou Dantès, limpando o suor que lhe escorria

da testa -, no entanto, deixei-lhe duzentos francos quando parti

há três meses.

- Sim, sim, Edmond, é verdade. Mas quando partiste esqueceste-te

de uma pequena dívida em casa do vizinho Caderousse. Ele lembrou-ma e disse-me que se a não pagasse por ti iria pedir o pagamento ao Sr. Morrel. Então, compreendes, com medo que isso te prejudicasse...

- Que fez?

- Que fiz? Paguei-a eu.

- Mas eu devia cento e quarenta francos a Caderousse exclamou Dantès.

- Pois devias - balbuciou o velhote.

- E pagou-lhos dos duzentos francos que lhe deixei?

O velhote acenou que sim com a cabeça.

- De modo que viveu três meses com sessenta francos! -

murmurou o rapaz.

- Bem sabes que me contento com pouco - disse o velhote.

- Oh, meu Deus, meu Deus, perdoai-me! - exclamou Edmond, caindo

de Joelhos diante do pobre homem.

- Que fazes?

- Oh, dilacerou-me o coração!

- Mas agora estás aqui - observou o velhote, sorrindo. - Agora está tudo esquecido porque tudo está bem.

- Sim, estou aqui - disse o rapaz. - Estou aqui com um excelente

futuro e algum dinheiro. Tome, pai. Tome, tome e mande buscar imediatamente qualquer coisa.

E despejou em cima da mesa as algibeiras, que continham uma dúzia

de moedas de ouro, cinco ou seis moedas de cinco francos e alguns

trocos.

O rosto do velho Dantès iluminou-se.

- De quem é isso? - perguntou.

- Mas... é meu!... É teu!... É nosso!... Tome, compre comida.

Sejamos felizes. Amanhã haverá mais.

- Devagar, devagar... - contrapôs o velhote, sorrindo. - Com tua

licença, servir-me-ei moderadamente da tua bolsa. Se me vissem comprar demasiadas coisas ao mesmo tempo, julgariam que me vi obrigado a esperar o teu regresso para as adquirir.

- Faz como quiseres. Mas antes de mais nada toma uma criada, pai.

Não quero que continues sozinho. Tenho café de contrabando e excelente tabaco num bauzinho no porão. Dar-tos-ei amanhã. Mas caluda que vem aí alguém!

- É Caderousse. Deve ter sabido da tua chegada e vem, sem dúvida,

dar-te as boas-vindas.

- Deus nos livre dos lábios que dizem uma coisa enquanto o coração sente outra - murmurou Edmond. - Mas não importa, é um vizinho que noutros tempos nos ajudou; que seja bem-vindo.

Com efeito, quando Edmond acabava esta frase em voz baixa apareceu enquadrada na porta do patamar a cabeça negra e barbuda

de Caderousse. Era um homem de vinte e cinco a vinte seis anos.

Trazia na mão um bocado de tecido que, na sua qualidade de alfaiate, se preparava para transformar numa banda de casaca.

- Com que então de volta, bem, Edmond - disse com um aceno marselhês dos mais pronunciados e um amplo sorriso que lhe descobriu os dentes brancos como marfim.

- É como vê, vizinho Caderousse, e pronto a ser-lhe agradável no

que quer que seja - respondeu Dantès, escondendo mal a sua frieza

debaixo desta oferta de serviços.

- Obrigado, obrigado. Felizmente, não preciso de nada, e às vezes

até são os outros que precisam de mim...

Dantès esboçou um gesto.

- Não digo isto por ti, rapaz - prosseguiu o outro. -

Emprestei-te dinheiro, pagaste-mo. São coisas que se trazem entre

bons vizinhos e estamos quites.

- Nunca estamos quites para com aqueles que nos obsequiaram -

declarou Dantès. - Porque quando já lhos não devemos dinheiro devemos-lhe reconhecimento.

- Que adianta falar disso? O que lá vai, lá vai! Falemos antes do leu feliz regresso, rapaz. Passava por acaso pelo porto para

ir comprar fazenda castanha quando encontrei o amigo Danglars.

« -Tu em Marselha?

« - Claro, como vês - respondeu-me.

« - Julgava-te em Esmirna.

« - Acabo de chegar de lá.

« - E Edmond, onde está?

« - Em casa do pai, sem dúvida - respondeu Danglars. - E foi então que resolvi cá vir - continuou Caderousse - para ter o prazer de apertar a mão a um amigo!

- Este bom Caderousse gosta tanto de nós - observou o velhote.

- Claro que gosto de vocês e também que os estimo, atendendo a que as pessoas honestas são raras! Mas parece que enriqueceste,

rapaz... - continuou o alfaiate, deitando um olhar de esguelha ao punhado de ouro e prata que Dantès pusera em cima da mesa.

O jovem notou o relâmpago de cupidez que iluminou os olhos negros

do vizinho.

- Por Deus - disse negligentemente -, esse dinheiro não é meu.

Manifestava ao pai o receio de que lhe tivesse faltado alguma coisa na minha ausência e, para me tranquilizar, ele despejou a

bolsa em cima da mesa. Vamos, pai - continuou Dantès -, guarde

esse dinheiro no seu mealheiro. A não ser que o vizinho Caderousse tenha, por sua vez, necessidade dele, pois nesse caso

está às suas ordens.

- Não - rapaz - disse Caderousse -, não tenho necessidade de nada. Graças a Deus, o Estado cuida dos seus homens. Guarda o teu

dinheiro, guarda; nunca é de mais. O que me não impede de te agradecer a tua oferta como se a tivesse aceitado.

- Era de boa vontade - declarou Dantès.

- Acredito. Eis-te então em excelentes relaçÕes com o Sr.

Morrel,

hem?... Espertalhão!...

O Sr. Morrel foi sempre muito bondoso para comigo - respondeu Dantès.

- Nesse caso, não devias recusar o seu jantar.

- Como recusar o seu jantar? - interveio o velho Dantès. -

Convidou-te para jantar?

- Convidou, meu pai - respondeu Edmond, sorrindo do espanto que

causava ao pai as grandes honras de que era alvo.

- E por que recusaste, filho? - perguntou o velhote.

- Para chegar mais cedo junto de si meu pai - respondeu o rapaz.

- Tinha pressa de o ver.

- O bom do Sr. Morrel deve ter ficado contrariado com isso -

insinuou Caderousse. - E quando se visa ser comandante é um erro

contrariar o armador...

- Expliquei-lhe o motivo da minha recusa e ele compreendeu-o, espero - redarguiu Dantès.

- Convém não esquecer que para se ser comandante é necessário adular um bocadinho os patrÕes...

- Espero ser comandante sem isso - respondeu Dantès.

- Tanto melhor, tanto melhor! Será um prazer para todos os velhos

amigos e sei de alguém lá em baixo, atrás da Cidadela de S.

Nicolau, que não ficará nada aborrecido com isso...

- Mercédès? - perguntou o velhote.

- Sim, meu pai - respondeu Dantès. - E com sua licença, agora que

já o vi, agora que sei que está de saúde e que tem tudo quanto precisa, permita-me que vá visitar os Catalães.

- Vai, meu filho - disse o velho Dantès -, e que Deus te abençoe

na tua mulher como me abençoou no meu filho.

- Sua mulher? - interveio Caderousse. - Como vai depressa, Tio Dantès! Ainda o não é, parece-me!

- Não. Mas é muito provável que não tarde a sê-lo - respondeu Edmond.

- Não importa, não importa - observou Caderousse. -Fazes bem em

despachar-te, rapaz.

- Porquê?

- Porque Mercédès é uma bonita rapariga e às bonitas raparigas não faltam apaixonados. Ela, sobretudo, tem-nos às dúzias.

- Deveras? - disse Edmond, com um sorriso em que se notavam uns

ligeiros laivos de inquietação.

- Claro! - confirmou Caderousse. - E bons partidos, até. Mas, compreendes, vais ser comandante e nessas condiçÕes quem é que te ia recusar?...

- O que quer dizer - comentou - Dantès com um sorriso que disfarçava mal a sua inquietação - que se não fosse comandante...

- Eh, eh! - gargalhou Caderousse.

- Vamos, vamos - atalhou o rapaz -, tenho melhor opinião do que

você acerca das mulheres em geral e de Mercédès em particular e

estou convencido de que, seja ou não comandante, ela me permanecerá fiel.

- Tanto melhor, tanto melhor! - exclamou Caderousse. - É

sempre

bom um homem ter fé quando se vai casar. Mas não importa!

Acredita no que te digo, rapaz: não percas tempo a ir anunciar-lhe a tua chegada e a dar-lhe conta das tuas esperanças.

- Vou já - disse Edmond.

Beijou o pai, cumprimentou Caderousse com um aceno e saiu.

Caderousse ficou mais um instante. Depois, despediu-se do velho

Dantès, desceu por seu turno e foi ter com Danglars, que o esperava à esquina da Rua Senac.

- Então, viste-o? - perguntou Danglars.

- Acabo de o deixar - respondeu Caderousse.

- Falou-te da sua esperança de ser comandante?

- Falou e como se já o fosse.

- Pois que tenha paciência - redarguiu Danglars. - Parece-me que

vai um bocadinho depressa de mais...

- Demónio, mas se a coisa lhe foi prometida pelo Sr.

Morrel!...

- De maneira que está contentíssimo?

- Será melhor dizer que está insolente. Já me ofereceu os seus serviços como se fosse uma grande personagem e ofereceu-se até para me emprestar dinheiro como se fosse um banqueiro.

- E tu recusaste?

- Evidentemente, embora pudesse muito bem aceitar, atendendo a que fui eu quem lhe pôs na mão as primeiras moedas de prata em que tocou. Mas agora o Sr. Dantès já não precisará de ninguém, vai ser comandante.

- Ora, ainda o não é! - atalhou Danglars.

- Palavra que seria bem feito que o não fosse - declarou Caderousse. - De contrário, ninguém poderá com a sua vida.

- Pois se nós quisermos - insinuou Danglars - ficará o que é e talvez até se torne menos do que é...

- Que dizes?

- Nada, falo comigo mesmo. Continua apaixonado pela bela catalã?

- Está louco por ela. Foi vê-la. Mas ou me engano muito ou espera-o um desgosto desse lado.

- Explica-te.

- Para quê?

- é mais importante do que julgas. Não gostas do Dantès, pois não?

- Não gosto dos arrogantes.

- Então, desembucha, diz-me o que sabes acerca da catalã.

- Não sei nada de muito positivo; apenas tenho visto coisas que

me levam a crer, como te disse, que o futuro comandante terá um

desgosto nas imediaçÕes do Caminho das Vieilles-infirmeries.

- Que viste? Vamos, diz.

- Bom, vi que todas as vezes que Mercédès vem à cidade a acompanha um mocetão de olhos negros, corado, muito moreno, muito

ardente, com todo o ar de catalão e a quem ela trata por «meu primo«.

- Sim?... E achas que esse primo a corteja?

- Suponho que sim. Que diabo pode fazer um rapagão de vinte e um

anos a uma bonita rapariga de dezassete?

- E dizes que Dantès foi aos Catalães?

- Saiu antes de mim.

- Se fôssemos para o mesmo lado, pararíamos na Réserve e enquanto

bebêssemos um copo de vinho de La Malgue esperaríamos notícias...

- E quem no-las daria?

- Ficaríamos no caminho e veríamos na cara de Dantès o que se tivesse passado...

- Vamos - disse Caderousse. - Mas és tu que pagas...

- Claro - respondeu Danglars.

E ambos se dirigiram em passo rápido para o local indicado.

Chegados lá, mandaram vir uma garrafa e dois copos.

O Tio Pamphile vira passar Dantès ainda não havia dez minutos.

Certos de que Dantès se encontrava nos Catalães, sentaram-se debaixo da folhagem nascente dos plátanos e dos sicômoros, nos ramos dos quais um alegre bando de pássaros cantava um dos primeiros dias bonitos de Primavera.

Capítulo III

Os Catalães

A cem passos do local em que os dois amigos, de olhos postos no

horizonte e ouvido à escuta, saboreavam o vinho espumante de La

Malgue, erguia-se atrás de uma colina escalvada e roída pelo sol

e pelo mistral a aldeia dos Catalães.

Um dia, uma colónia misteriosa partiu de Espanha e desembarcou na língua de terra onde ainda hoje se encontra. Vinha ninguém sabia donde e falava uma língua desconhecida. Um dos chefes, que

entendia o provençal, pediu à comuna de Marselha que lhos desse

aquele promontório nu e árido em que, como os marinheiros antigos, acabavam de varar os seus barcos. O pedido foi satisfeito e três meses mais tarde erguia-se uma aldeiazinha à volta dos doze ou quinze barcos trazidos por aqueles ciganos do

mar.

Essa aldeia construída de forma estranha e pitoresca, meio moura,

meio espanhola, é aquela que vemos hoje ser habitada por descendentes desses homens, que falam a língua dos pais. Há três

ou quatro séculos que se conservam fiéis a esse promontoriozinho,

sobre o qual desceram como um bando de aves marinhas, sem se misturarem em nada com a população marselhesa, casando entre si

e conservando os costumes e o traje dos seus avós, tal como conservaram a sua linguagem.

Queiram os nossos leitores seguir-nos através da única rua da aldeiazinha e entrar connosco numa destas casas a que o sol deu

por fora essa bela cor de folha morta particular aos monumentos

da região e por dentro uma camada de têmpera, essa tinta branca

que constitui o único ornamento das pousadas espanholas.

Uma bonita rapariga de cabelo negro como o azeviche e olhos aveludados como os das gazelas encontrava-se encostada, de pé, a um tabique e esfregava entre os dedos afilados e de um desenho

antigo uma urze inocente cujas flores arrancava e cujos restos juncavam já no chão. Além disso, os seus braços nus até ao cotovelo - os seus braços morenos, mas que pareciam modelados pelos da Vénus de Arles - fremiam numa espécie de impaciência febril e ela batia no chão com o pé flexível e arqueado de uma maneira que se entrevia a forma pura, orgulhosa e ousada da perna, metida numa meia de algodão encarnado com baguettes cinzentas e azuis.

A três passos dela, sentado numa cadeira que balouçava num movimento brusco, apoiando o cotovelo num velho móvel carunchoso,

um latagão de vinte e dois anos olhava-a com um ar em que se misturavam a inquietação e o despeito. Os seus olhos interrogavam, mas o olhar firme e fixo da rapariga dominava o seu

interlocutor.

- Vejamos, Mercédès - dizia o rapaz -, a Páscoa vem aí e é altura de pensar na boda. Responde-me!

- Já te respondi cem vezes, Fernand, e na verdade é preciso que

sejas muito inimigo de ti mesmo para continuares a interrogar-me!

- Pois repete-o mais uma vez, suplico-te, repete-o novamente para

que o acredite. Diz-me pela centésima vez que recusas o meu amor,

que a tua mãe aprovava; dá-me bem a entender que te é indiferente

a minha felicidade, que a minha vida e a minha morte não significam nada para ti. Ah, meu Deus, meu Deus! Ter sonhado dez

anos ser teu marido, Mercédès, e perder essa esperança que era o único objectivo da minha vida!

- Pelo menos não fui eu, Fernand, que alguma vez alimentei essa

esperança - respondeu Mercédès. - Não tens a censurar-me uma única coqueteria para contigo. Sempre te disse: «Gosto de ti como

um irmão, mas não exijas de mim outra coisa que não seja esta amizade fraterna, pois o meu coração pertence a outro.« Não foi

o que sempre te disse, Fernand?

- Foi, bem sei, Mercédès - respondeu o rapaz. - Sim, tiveste para

comigo o mérito cruel da franqueza. Mas esqueces que entre os Catalães constitui uma lei sagrada casarem entre si?

- Enganas-te Fernand, não se trata de uma lei, trata-se apenas de um hábito. E, acredita no que te digo, não invoques esse hábito a teu favor. Foste chamado às fileiras, Fernand. A liberdade que te concedem não passa de mera tolerância. De um momento para o outro podes ser chamado. Uma vez soldado, que farias de mim, isto é, de uma pobre órfã, triste, sem fortuna, possuindo como única riqueza uma cabana quase em ruínas, donde pendem algumas redes velhas, herança miserável deixada por meu pai à minha mãe e pela minha mãe a mim? Há um ano que ela morreu

e desde então lembra-te, Fernand, vivo quase da caridade pública!

às vezes finges que te sou útil, mas para teres o direito de dividir a pesca comigo. E eu aceito, Fernand, porque és filho de

um irmão do meu pai, porque fomos criados juntos e sobretudo porque te desgostaria muito se recusasse. Mas sinto bem que o peixe que vou vender e com que obtenho o dinheiro que me permite

comprar o cânhamo que fio, sinto bem, Fernand, que é uma esmola.

- E que importa, Mercédès, se, por mais pobre e isolada que sejas, me convéns assim, mais do que a filha do mais orgulhoso armador ou do mais rico banqueiro de Marselha? De que precisamos

nós? De uma mulher honesta e de uma boa dona de casa. Onde encontraria alguém melhor do que tu nesses dois aspectos?

- Fernand - respondeu Mercédès abanando a cabeça -, uma mulher

torna-se má dona de casa e não pode comprometer-se a ser honesta

quando ama outro homem em vez do seu marido. Contenta-te com a minha amizade porque, repito-te, é tudo o que te posso oferecer,

e eu só ofereço aquilo que estou certa de poder dar.

- Compreendo - disse Fernand. - Suportas com paciência a tua miséria, mas tens medo da minha. Pois bem, Mercédès, amado por ti tentarei a fortuna; dar-me-ás sorte e enriquecerei. Posso tirar melhor partido da minha profissão de pescador; posso empregar-me numa casa comercial; posso eu próprio tornar-me comerciante!

- Não podes tentar nenhuma dessas coisas, Fernand. És soldado e

se ainda estás nos Catalães é porque não há guerra. Continua a ser pescador; não te entregues a sonhos que te fariam parecer a

realidade ainda mais terrível, e contenta-te com a minha amizade,

pois não te posso dar outra coisa.

- Tens razão, Mercédès, serei marinheiro. Terei, em vez do traje

dos nossos pais, que desprezas, um chapéu de oleado, uma blusa às riscas e uma jaqueta azul com ancoras nos botÕes. Não é assim

que me devo vestir para te agradar?

- Que queres dizer? - perguntou Mercédès, deitando-lhe um olhar

imperioso. - Que queres dizer? Não te compreendo.

- Quero dizer, Mercédès, que só és tão dura e cruel para mim porque esperas alguém que se veste assim. Mas esse que esperas talvez seja inconstante, e se o não é, mar sê-lo-à por ele.

- Fernand, julgava-te bom, mas enganava-me! - gritou Mercédès.

- Fernand, só um mau coração chamaria em auxílio do seu ciúme as

cóleras de Deus! Sim, não o escondo mais, espero e amo aquele que

dizes, e se ele não voltar, em vez de o acusar da inconstância a que te referes, direi que morreu amando-me.

O jovem catalão fez um gesto de raiva.