O Coração das Trevas por Joseph Conrad - Versão HTML

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O Coração Das Trevas

Joseph Conrad

Biblioteca Visão

Romancista britânico de origem polaca, Joseph Conrad notabilizou-se como um dos melhores prosadores de língua inglesa, através das suas histórias, em que se conjuga a aventura romântica e a reflexão moral.

Em O Coração das Trevas o escritor evoca o espírito da África Negra, e através do personagem de Kurtz, um misterioso negociante branco, mostra que no homem civilizado permanecem os impulsos mais selvagens e destrutivos. Além de reflectir o choque entre as duas culturas: os colonizados e os colonizadores europeus, esta Obra conduz o leitor às trevas da selva africana e simultaneamente do coração humano.

Nota Biobibliográfica

JOSEPH CONRAD nasceu em Berdichev, em Ucrânia, em 1857. De origem polaca, o seu nome verdadeiro era Jósef Konrad Walecz Korzeniowski. O pai era um nacionalista polaco que, devido às suas actividades políticas, foi desterrado para a Ucrânia. Só aprendeu inglês aos vinte anos e a sua segunda língua foi o francês. Órfão aos onze anos, ficou sob a tutela do tio. Em 1874 partiu para Marselha onde se alistou na marinha. Em 1886 obteve o masters Certificate e a nacionalidade britânica. As suas experiências no Oriente foram tema de inspiração de muitos dos seus romances. Em 1890 abandonou a marinha para se dedicar inteiramente à literatura. Em 1895 publicou o seu primeiro romance, A Loucura de Almery. Em Um Vagabundo das Ilhas, do ano seguinte, debruça-se sobre as diferenças raciais. Casou-se nesta altura com Jessie George.

Continuou a escrever, mas só com a publicação de Chance em 1913 viria a tornar-se famoso.

Criticando o colonialismo e convencido de

que até os elevados ideais têm em si a semente da corrupção, foi um mestre no esboço de personagens e manifesta grande domínio da linguagem e um singular vigor narrativo. Conrad morreu em Kent em 1924.

Algumas obras mais conhecidas:

O Preto de Narcissus, novela maritima (1897);

Lord Jim (1900);

O CoraÇão das Trevas (1902);

Tufão (1903);

O Agente Secreto (1907);

Acaso (1913;

Victory (1915);

Histórias Inquietas (1898).

Título original: Hearth of Darkness

Autor: Joseph Conrad

Edição cedida por

Editorial Estampa

2000 BIBLIOTEX, S. L.

para esta edição

ABRIL/CONTROLJORNAL

Publicação: Julho de 2000

Nellie, chalupa de recreio, rodou à volta da âncora sem panejar as velas, e ficou imóvel. A maré enchia quase sem vento, e como seguíamos rio abaixo só nos restava fundear à espera da viragem.

O estuário do Tamisa rasgava-se como a boca de um canal interminável. Céu e mar uniam-se ao largo, sem traço de separação, e as velas crestadas das barcaças, a subirem com a maré, pareciam imobilizar-se no espaço luminoso como fardos de lona muito tensa, vermelhos, onde luzia o verniz dos mastros.

As margens baixas corriam para o mar e sobre elas carregava uma névoa diluída na planura. O ar estava sombrio acima de Gravesend, e mais longe parecia condensar-se numa treva desolada que pesava, imóvel, sobre a mais vasta e grandiosa cidade do mundo. O diretor da Companhia era nosso capitão e anfitrião. De costas, com os olhos postos no mar, a nós quatro inspirava simpatia.

Em todo o rio nada havia mais náutico do que ele. Tinha ar de piloto de barra, o que entre marinheiros quer dizer confiança personificada. Era difícil admitirmos que a sua profissão deixasse de chamá-lo ali, ao luminoso estuário, e o não levasse longe, para enigmáticas sombras.

Eu já disse noutro lado que a todos nos ligava o laço do mar. Em largos períodos de afastamento mantinha unidos os nossos corações, mas, além disso, garantia a tolerância mútua que devemos às nossas histórias - ou mesmo certezas. O advogado - o melhor dos camaradas - era homem com quantos anos e virtudes que lhe dávamos direito à única almofada e a estender-se no único tapete do convés. O contabilista já tinha à frente a caixa do dominó e divertia-se a fazer construções com pedras de osso. Marlow, esse estava à popa com as pernas cruzadas e encostado ao mastro a catita. Era um homem de rosto cavado, tez lívida e tronco hirto. com ar ascético de ídolo. veio sentar-se conosco. Depois de algumas palavras despreocupadas, no iate houve um silêncio. Por qualquer razão que me não lembra, a partida de dominó ficou por jogar.

Estávamos pensativos e apenas dispostos à contemplação. O dia acabava numa paz de radiações calmas e esplêndidas. O brilho da água era pacífico; sem nuvens, o céu, todo ele benigna e luminosa imensidão, e a própria névoa era uma gaze leve, nos pântanos do Essex, presa às encostas arborizadas do interior e estendida em pregas diáfanas pela costa baixa. Só a oeste, suspensa por cima das extensões visíveis, minuto a minuto a treva se ia fazendo mais opaca e como que enraivada contra o Sol prestes a tocar-lhe. Por fim, numa queda de curvatura imperceptível, o Sol desceu e, de branco-incandescente passou a vermelho-turvo, sem raios nem calor, como se fosse ficar apagado de repente e ferido de morte, ao tocar aquela escuridão caída em peso sobre a humanidade.

Depois, o aspecto das águas alterou-se e a calmaria enfraqueceu de brilho e tornou-se mais profunda. Planíssimo ao entardecer, o velho rio descansava na bacia vasta, após muitos séculos de bons serviços prestados à raça que lhe povoa as margens, ampliado na serena dignidade pela estrada de água que leva aos mais ermos recantos da terra. Olhávamos a torrente venerável, não já tocados pela claridade vivida de um destes dias curtos que chegam e partem de vez, mas pela augusta luz de memórias infindáveis. A um homem que respeitosa e afeiçoadamente correu mares, como é costume dizer-se, nada mais fácil, de facto, que invocar no estuário do Tamisa o grandioso espírito do passado. Com um préstimo incansável, a corrente move-se de um lado para o outro e povoa-se com a memória dos muitos homens e navios que levou ao sossego do lar ou às batalhas do oceano. Conheceu e serviu todos esses homens, que hoje são orgulho da pátria, desde Sir Francis Drake a Sir John Franklin, todos nobres com ou sem título - os grandes cavaleiros-andantes do mar. Deu vida a todos esses navios cujos nomes ardem como jóias na noite do tempo, desde o Golden Hind que chegou com o bojo a transbordar de ouro, para receber Sua Majestade a Rainha e diluir-se numa epopeia gigantesca, ao Erebus e ao Terror, virados a outras conquistas - que não tiveram regresso. Conheceu navios e homens. Os que largaram de Deptford, Greenwich, entre aventureiros e colonos; navios reais e navios de homens de Bolsa; capitães, almirantes, os sombrios traficantes do comércio do Leste, e os generais" - comissários das frotas das Índias Orientais. Caçadores de ouro ou conquistadores de glória, todos partiram deste rio com a espada em riste, quando não o facho, mensageiros do poder em terras do interior, estafetas de uma centelha de sagrado fogo. Na maré deste rio que grandezas não vogaram até ao mistério das terras desconhecidas!... Sonhos de homem, sementes de domínio, gérmenes de impérios. Já posto, o Sol desceu o crepúsculo até às águas e acenderam-se as luzes ao correr das margens. O farol de Chapman brilhou com toda a força, tripé levantado em pleno lodaçal. Luzes de navios andavam pela esteira navegável - grande agitação de luzes para cima, para baixo. E

mais a oeste, nos limites superiores do estuário, o lugar da cidade monstruosa, sinistramente marcado no céu, treva a germinar na luz do Sol, sinistro olhar debaixo de estrelas.

— E tudo isto, aqui - disse Marlow, de repente - foi um dos lugares selvagens do mundo.

Era o único, entre nós, que ainda corria os mares". E o pior que a seu respeito podia dizer-se é que não representava a classe. Marinheiro, sim, mas vagabundo também, enquanto a maior parte leva um género de vida, digamos que sedentário. Tinha espírito caseiro e arrastava consigo a casa - o navio; e a sua terra - o mar. Todos os barcos se parecem uns com os outros, e o mar é sempre igual. No imutável ambiente que os rodeia, as costas estrangeiras, as caras estrangeiras, a versátil imensidão da vida deslizam rápidas e não veladas por um sentido de mistério, mas certa ignorância desdenhosa; para o marinheiro, misterioso só o próprio mar que é amante de toda a vida e tão indevassável como o Destino. Quanto ao mais, depois das horas de trabalho basta um acidental passeio, uma pândega em terra, para o segredo de um continente inteiro ficar exposto, e, regra geral, achar que não vale o esforço de ser conhecido. As histórias dos marinheiros são objetivamente simples e com significado que cabe inteiro em meia casca de noz. Marlow, porém, não era típico (excetuada a tendência para tagarelar); para ele, o significado de um episódio não estava no seu interior, como um caroço, mas fora, a envolver a história e a dar-Lhe realce, como o calor que provoca a névoa, como esses halos de vapor que o fantomático luar por vezes faz visíveis. A sua observação não surpreendeu ninguém. Era exatamente do género Marlow. E foi aceite em silêncio. Nenhum de nós se deu ao trabalho, sequer, de murmurar; por fim disse-nos em voz lenta:

— Pensava eu nos tempos remotos em que os Romanos chegaram aqui pela primeira vez, há cerca de mil e novecentos anos - já lá vão uns dias, portanto... Depois disso o rio iluminou-se -

Cavaleiros da Távola Redonda, não é como lhes chamam? Sim; mas lembra uma labareda a correr pela planície, o fulgor de um relâmpago entre nuvens. Vivemos nesse clarão - e saiba ele persistir enquanto o mundo girar! Mas ontem havia trevas, aqui. Imaginem a sensação do comandante de um bonito veleiro do Mediterrâneo - como se diz? - uma trirreme, que recebesse inesperadas ordens para rumar ao norte; a correr pelas Gálias, cheio de pressa; encarregado de um desses barcos que os legionários - uma porção de maravilhosos homens, ao que parece!

Construíam às centenas num mês ou dois, se acreditarmos naquilo que lemos. Imaginem esse comandante aqui - num verdadeiro fim de mundo, mar cor de chumbo, céu fuliginoso, numa espécie de navio todo desengonçado como uma concenina -, a galgar este rio carregado de provisões ou ordens, como quiserem. Bancos de areia, pântanos, florestas, homens selvagens -

raríssimas coisas que um homem civilizado pode comer, e só água do Tamisa para tirar a sede.

Nem uma gota de vinho de Falerno e nenhumas idas a terra. Aqui e além um acampamento militar perdido na selva, como agulha num palheiro - frio, névoa, tempestades, doenças, exílio e morte - morte escondida no ar, na água, no mato. Devem ter morrido como moscas. Oh, sim - ele conseguia. Conseguia muito bem, podem vocês acreditar, e sem pensar de mais no caso, pensar só mais tarde, talvez para se gabar do que teve, no seu tempo, de aguentar. Eram homens para encarar as trevas de frente. E talvez lhes não faltasse coragem por trazerem debaixo de olho uma promoção rápida no exército de Ravena, caso contassem com os bons amigos de Roma e sobrevivessem aos rigores do clima. Ou imaginem um jovem e honesto cidadão de toga -perito a jogar aos dados, não sei se estão a ver - aqui chegado na esteira de um administrador qualquer, de um cobrador de impostos ou mesmo mercador, para fazer fortuna. Desembarcar num pântano, marchar através de bosques e sentir que a selvajaria, a verdadeira selvajaria de um posto do interior, se fechou à volta dele - toda a misteriosa e selvagem vida que põe florestas e matagais a vibrar, o coração dos homens não civilizados. Não são mistérios em que as pessoas possam iniciar-se. Só há que viver no meio do incompreensível e detestável também.

Mas fascinante e capaz de actuar em nós. Como sabem, a

fascinação do abominável. Imagine-se a saudade crescente, o

forte desejo de evasão, o impotente desagrado, a abdicação, o

ódio.

Fez uma pausa.

- Notem - recomeçou, erguendo um braço a partir do cotovelo

com a palma da mão virada para fora e as pernas cruzadas à

frente, autêntico ar de buda vestido à europeia e a pregar sem

flor de lótus -, notem que nenhum de nós sentiria o mesmo. O

que nos salva é a eficiência - a devoção pela eficiência. Mas

aquela gente não tinha lá grande préstimo, na verdade. Não era

colonizadora: ao que suponho, o seu império era espremer e

mais nada. Conquistadora era, e para isso há que ter força

bruta - coisa que não devemos gabar, quando existe, pois não

passa de mero acidente e resulta da fraqueza alheia. Deitavam

a mão ao que podiam, só pelo gosto de possuir. Nada mais do

que roubo violento, crime agravado pela sua grande escala e os

homens a ceder-lhe como cegos - vulgar atitude dos que têm de

enfrentar as trevas. A conquista da terra (na maior parte dos

casos roubá-la aos de cor diferente ou nariz mais achatado)

não será bonita coisa se olhada de muito perto. Só a ideia que

ela implica consegue redimi-la. A ideia que a sustenta; não

sentimental pretexto, mas ideia; e uma fé desinteressada nessa

ideiaqualquer coisa que pode ser erguida e venerada, a que

podemos oferecer um sacrifício...

Calou-se. No rio deslizavam chamas, minúsculas chamas

verdes, chamas vermelhas, chamas brancas que perseguiam,

ultrapassavam, juntavam, cruzavam - acabando por separar-se

devagar ou cheias de pressa. O tráfego da grande cidade que se

estendia cada vez mais, pela noite fechada e sobre as ágúas do

rio sem sono. E cheios de paciência olhávamos - pois não se

podia fazer mais nada até a maré subir; só depois de um grande

silêncio é que Marlow disse, hesitante:

- Talvez se lembrem de que fui marinheiro de água-doce,

durante algum tempo... - e logo nos soubemos destinados a

ouvir, antes da maré encher, uma dessas histórias do Marlow,

que não levavam a parte nenhuma.

- Não quero maçar-vos muito com a minha experiência pessoal

- começou, e com esta observação punha a claro o ponto fraco

de tantos narradores, incapazes de escolher matéria de

interesse para os seus ouvintes; - no entanto, se querem

entender que efeito aquilo produziu em mim, têm de saber como

fui lá parar, o que vi, como subi o rio até ao sítio