O Derradeiro Levante por Carlos da Terra - Versão HTML

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CARLOS DA TERRA

O

DERRADEIRO

LEVANTE

Carlos da Terra

Considerações

O presente trabalho é uma obra de ficção baseada em fatos reais,

e alguns fatos podem ter acontecido mais ou menos como

relatados, porém, não têm, necessariamente, nenhum

compromisso com datas ou eventos verdadeiramente ocorridos

no período sendo o romance circunscrito à visão da época pelo

escritor.

Qualquer semelhança com nomes e acontecimentos terá sido

mera coincidência e os nomes citados são de domínio público e

fizeram parte da vida diária nos anos referentes ao romance

O autor

O derradeiro levante 2

Carlos da Terra

1) Labirintos

Quando se olhava para as pessoas, podia-se ver em seus

semblantes, a tristeza e a apreensão daqueles terríveis tempos.

Eram tristes os operários que trabalhavam duro nas

fábricas e, ao final do mês, verificavam que faltava dinheiro para comprar

os mantimentos e fazer os pequenos gastos reclamados por seus filhos.

Mas, quando se olhava com atenção, via-se também um

outro lado dessa triste realidade.

Alheia à miséria, à doença e a infelicidade desses

operários, uma parte significativa daqueles que se chamavam brasileiros,

viviam abastados; tinham mesa farta e esbanjavam e quebravam

impiedosamente, aqueles brinquedos que os filhos dos operários

costumavam derramar lágrimas para obtê-los, em vão, por que seus pais

não podiam comprar.

Não haveria dúvidas quanto à participação desses

mesmos pais operários, na compra daqueles brinquedos desperdiçados; não

haveria nenhuma dúvida por que foi o suor deles que gerou os recursos,

mas na distribuição dos recursos, usava-se uma matemática estranha e

injusta!

Na intimidade, nos seus momentos de reflexão, todos se

perguntavam:

Seria essa desigualdade própria da natureza humana ou o

sistema é que estava errado?

Haveria, a natureza, criado dois tipos de homens: um para

viver na fartura e outro na escassez?

Os anos sessenta fervilhavam….

Tanta coisa nova pelo mundão afora….

Enquanto a nave russa Sputnik dava a volta ao planeta,

carregando uma linda cachorrinha, chamada Laika – e que retornou- a

cidade de São Paulo, com seus prédios enormes, chamados de “arranha

céus”, pareciam frios, mas tinham vida própria e não paravam nunca!

Enquanto alguns desses prédios, que eram fábricas e

linhas de montagem, sugavam inexoravelmente o suor de operários ávidos

por consumo inatingível, outras pessoas se divertiam, na plena exaustão

desse consumo. A burguesia, imersa em música barulhenta e

americanizada, dia e noite, permanecia alienada!

Essa burguesia desconhecia ou fazia vistas grossas às

crianças famintas, miseráveis, por conta dessa atitude desprezível!

O derradeiro levante 3

Carlos da Terra

Triste, cabisbaixo, Osvaldo observava tudo isso e às

vezes sentia um calafrio que percorria o corpo começando dos pés e lhe

sufocando no pescoço.

Isso tinha que mudar – pensava – fechava os punhos,

cerrava os dentes e dizia para si mesmo: tem que mudar!

Escutava-se, na conversa dos grupos pelas esquinas e nos

bares onde se discutia os rumos do povo, escutava-se sempre alguém

falando sobre um lugar melhor:

– Tem um lugar em que ninguém é mais do que ninguém.

Todos têm vida boa e igual! Nesse lugar as pessoas se preocupam umas

com as outras, tanto que, saiu em uma revista daqui do Brasil, todos os

moradores de uma rua, saíram de casa e foram conversar com um pai que

houvera batido em seu filho. Todos quiseram saber o que aconteceu,

importando-se com o menino, como se fosse seu filho. Lá, é uma grande

família e todos são iguais!

– E nesse lugar- continuava- todos têm tudo o que

precisam para sobreviver, para estudar, enfim para servir e ser servido pela

sociedade!

Logo alguém retrucava dizendo que isso não era possível

por que na sociedade as pessoas, naturalmente, têm necessidades

diferentes, até para poderem servir adequadamente com o seu trabalho e

necessitam de ferramentas e objetos diferentes para poderem executar sua

tarefa. Outra coisa que não se pode misturar é o sentimento que é

puramente individual: a dor de cada um é única, apenas quem a sofre é que

pode dimensioná-la!

- Dessa forma - prosseguia - um médico, por exemplo,

precisaria muito mais de um carro para atender a uma pessoa doente, que

estivesse à morte, enquanto um lixeiro, exemplificando também, poderia se

locomover calmamente por que o seu serviço, embora igualmente

fundamental, não levaria ninguém à morte pelo retardamento de sua

chegada.

Osvaldo, então, explicava um tanto emocionado:

- Não amigo! Claro que não é igualdade assim….

Um médico – continuava – tem mesmo que possuir um

veículo, mas seria um veículo apenas, e não um objeto para ostentação e

para submeter os outros à sua vontade. Esse objeto não seria para exercer

nenhum tipo de poder sobre os seus semelhantes.

Se o governo – continuava Osvaldo, emocionado – tiver

que distribuir carros, os médicos e outras profissões onde isso seja

fundamental terão prioridade!

Esses bens, desproporcionais e que fazem a burguesia

arrogante; se você está fazendo um serviço na casa deles, então eles

O derradeiro levante 4

Carlos da Terra

conversam com você e deixam você entrar, mas quando terminar o serviço

eles não lhe olham mais na cara. Eles têm vergonha em cumprimentar você,

por que não tem roupas novas e objetos caros; assim é a burguesia!

Manoel, homem forte, negro, altura e compleição média

que trazia um sorriso franco, aberto, e um olhar um tanto ingênuo e

generoso, que vinha de uma família simples, humilde, pobre e muito

trabalhadeira, ouvia tudo com muita atenção e achava incrível que as

coisas, afinal, pudessem ser diferentes, como Osvaldo dizia.

Estava acostumado com essa vida carente de tudo com

exceção do amor de sua mãe!

Ele não tinha mais o pai, que havia morrido em Minas

Gerais, onde nasceu Manoel, e sua mãe, mulher que se destacava pela

dedicação aos filhos viera para São Paulo para conseguir as coisas

materiais que por lá se dizia possível aqui, e que seria fácil dar aos filhos

alguma coisa a mais.

D. Iracema era uma mulher extraordinária!

Mesmo quem nunca tivesse visto D. Iracema, mesmo

quem jamais ouvisse falar dela, poderia conhecê-la facilmente.

É que todos os seus filhos e filhas que totalizavam quatro,

chamavam a atenção na rua pela maneira como se comportavam e como se

vestiam, afinal.

A roupa deles podia ser velha e puída, mas sempre estava

limpinha. Os sapatos podiam e eram mesmo velhos e geralmente não

custavam caro, mas eles estavam sempre limpos e engraxados.

Era a D. Iracema que todos estavam vendo nas ruas,

mesmo que ela, atarefada como era, poucas vezes pusesse os pés para fora

de sua casa, alugada e muito simples. Quando ela saia era para fazer

alguma compra nas redondezas e logo voltava para cuidar dos seus filhos.

Eles, os filhos, reconheciam isso em D. Iracema e

procuravam honrá-la a todo o momento!

Manoel era um filho amoroso, obediente e todo o produto

do seu trabalho, que era em um escritório de advocacia, ele entregava para

sua mãe, para ajudar no sustendo da casa e para amenizar um pouco os

problemas da mãe que dava duro como lavadeira, atendendo à vizinhança.

Não havia, por ali, quem não falasse bem de D. Iracema,

mesmo quem nunca a tivesse visto ou falado com ela; até para esses ela

inspirava muito respeito e Manoel, parecia, preservava-a da vulgaridade, da

vida mundana!

Manoel e Osvaldo frequentavam- o que não era muito

comum- o curso Normal, que se destinava a formar os professores que

trabalhariam com as crianças no ensino fundamental.

O derradeiro levante 5

Carlos da Terra

Embora o curso fosse, como via a sociedade, para

mulheres, até que na classe deles, havia um número relativamente grande

de homens; mais ou menos doze.

Os homens se reuniam e falavam de política, mas as

mulheres também se interessavam e ouviam atentamente.

Afinal a esperança era para todos!

Um dos melhores amigos de Manoel era o Marco Antônio

que quando era chamado de Marcos, reagia nervoso, em tom de

brincadeira, e dizia: “Já falei; eu sou um só! O meu nome é Marco, pô!”.

E o Marco, que todos teimavam em Marcos, não se

definia claramente como de “esquerda”, ao contrário, tinha todas as outras

características, porém era aceito pelo Manoel e pelos outros por que não

discutia e não afrontava nenhuma ideia progressista. Além do mais, o

Manoel era tratado muito bem pela mãe do Marcos que gostava muito dele.

O Manoel costumava almoçar e jantar na casa do Marcos

e havia, realmente, uma amizade grande entre os dois.

2) MORRE D. IRACEMA

Naquele final de semana os dias eram plúmbeos, também;

mas o eram, por outras razões; sentimentais, íntimas, vitais e existenciais

para Manoel.

Tudo deveria correr bem, mas com o que ele tinha de

mais precioso, não podia vacilar, logo ele, filho amoroso e dedicado!

É que D. Iracema foi internada para dar a luz.

Afinal, dar a luz é uma coisa normal, mas no caso de D.

Iracema, que tanto trabalhava e não tinha tempo para cuidar de si mesma,

era de se preocupar; Será que ela estava bem de saúde? Seu corpo

definhado pelo trabalho incessante e pela alimentação insuficiente estaria

em condições do parto, com tranquilidade?

Havia grande expectativa no irmãozinho que estava por

vir e na saúde de D. Iracema. Todos esperavam pelo melhor, mas,

infelizmente, aconteceu o pior.

D. Iracema faleceu no parto.

Um choque horrível para Manoel e seus irmãos que

tinham em sua mãe, um esteio neste mundo tão difícil. Já eram tantas as

dificuldades e agora, sem D. Iracema….

Manoel ficava calado e apenas seus olhos manifestavam a

dor que estava sentindo. Todos podiam ver que, inconformado, o Manoel

queria era morrer….

O derradeiro levante 6

Carlos da Terra

Para atenuar a dor ficou uma lembrança da necessidade

de viver. Além dos irmãos mais novos, agora aquela criança que sobreviveu

ao parto e gozava de boa saúde era um motivo para viver!

Consternados, os amigos de Manoel, procuravam

absorver aquela dor.

Sabiam que Manoel estaria em apuros; Grandes

dificuldades se anunciavam e a esperança de algum lenitivo, vinha da

existência do companheiro de D. Iracema, o Jorge!

O Jorge era pouco conhecido de todos e como o Manoel

não era de falar muito de sua intimidade, ninguém sabia nada sobre a sua

personalidade! Restava acreditar no ser humano. Não era possível que um

homem faltasse a aquelas crianças, justamente agora. O pensamento de

todos era que estariam amparados!

Mas todos os amigos de Manoel, e especialmente

Osvaldo, ainda teriam uma enorme surpresa. Uma enorme decepção os

esperava já nos primeiros dias da morte de D. Iracema, aquela mulher

trabalhadeira e honrada que tanto lutou por todos de sua família!

O Manoel faltou alguns dias nas aulas, e isso não era

comum. Todos sempre sabiam o que ele ia fazer por que ele falava pouco,

mas era de uma grande sinceridade! Sempre dizia a todos o que estava

acontecendo!

Preocupados com a ausência, o grupo de colegas

imaginou que o Manoel estaria ocupado com a burocracia e com o

pagamento das despesas do funeral.

Era muito pior que isso! Quando o Manoel apareceu, seu

semblante estava ainda mais triste e seu olhar se dirigia para o firmamento

como que para aplacar a decepção que acabara de sofrer com o ser

humano!

Um homem que não gosta de falar muito, nessa hora quer

falar menos ainda por que não consegue organizar os seus pensamentos!

Não consegue sequer rezar!

Mas, aí, o Manoel teve que falar. Falou pouco, mas o que

falou, já doeu muito e causou profunda revolta.

Enquanto Manoel falava, Osvaldo se lembrava da

solidariedade daquele homem de uma rua da Rússia, que saiu para atender

a um menino!

E pensar que todos acharam que não faltaria o apoio de

Jorge a aquelas crianças, agora, sem seu principal arrimo, D. Iracema!

Enganaram-se, Osvaldo e todos os outros. Se o sistema

produziu alguma coisa de bom em nossa sociedade, com certeza, não fora o

Jorge.

O derradeiro levante 7

Carlos da Terra

Sua falsidade veio à tona, quando, para ficar com aqueles

pertences baratos, que eram de D. Iracema e das crianças, começou a

atormentar a todos querendo pô-los para fora de casa.

- Você tem que ir embora! Tudo aqui é meu e vocês não

podem ficar aqui!-Vociferava o Jorge- Vou arrumar outra mulher e vocês

têm que cuidar da vida! Vão para onde quiserem!

Manoel, atônito com a tragédia, absorvia mais esse

impacto doloroso da vida.

Osvaldo, muito revoltado, ofereceu-se para falar com o

tal Jorge, porém, Manoel recusou:

- Não! Deixa, Osvaldo, eu vou dar um jeito; olhava para o

chão, respirava fundo e calava-se!

Depois, passado um certo tempo o Manoel falou:

Acho que vou levar meus irmãos para Minas!

Mas como Manoel – interveio Osvaldo -? Não dá para

fazer isso! É melhor arrumar uma casa e eles ficarem por aqui mesmo!

Vamos procurar uma casa…

- Não! Vou levá-los para Minas! Lá eles ficarão bem!

Meu pai tinha muitos amigos lá! O pessoal de lá gostava muito do meu pai

e eu já falei com um deles. Eles vão ajudar!

- Quem é esse amigo do seu pai?

- É um baiano que está em Uberlândia há muito tempo e

meu pai foi muito amigo dele! Ele vai ajudar! Eu sei que vai! – Manoel

estava convicto-

Osvaldo ouvia apreensivo e se preocupou muito com o

que lhe pareceu um futuro anuviado imediato! Um futuro com as sombras

da dor e da separação!

Uma nuvem de tristeza se apossou dos dois que logo

voltavam a falar de política, como que para esquecer essa dor muito mais

profunda por que não era causada por nenhum descaso social; era pior: era

um descaso natural; representaria, isso sim, uma desesperança enorme no

ser humano.

Será que homens, com essa dureza de coração existem em

qualquer sistema político? – perguntavam-se –

Não! Logo concluíam que o Jorge era um produto da

mesquinhez do sistema capitalista, individualizado ao extremo, egoísta,

insensível!

Osvaldo reiterava para si mesmo, ensimesmado em sua

proposta de vida, o desejo de mudança desta sociedade humana.

Em um outro sistema, parecia claro, o Jorge não existiria,

por que os bens materiais poderiam facilmente duplicar. Seriam repostos e

não teriam valor de venda, por menor ou maior que fosse.

O derradeiro levante 8

Carlos da Terra

Imediatamente, nesse outro sistema, as crianças já seriam

colocadas sob um novo teto e o Jorge seria chamada às falas! A coisa não ia

ficar assim, não! – pensava-

No comunismo tudo é de todos e todos têm tudo, era o

que se dizia!

Os amigos do pai de Manoel, em Uberlândia, interior de

Minas Gerais, logo se dispuseram a receber as crianças em suas casas.

Ficariam, de bom grado, com as crianças, apesar de sentirem a enorme

responsabilidade que os aguardava!

Mas qualquer que fosse o tamanho da responsabilidade,

eles não faltariam com a sua consciência; não iam eles, serem como o

canalha do Jorge! É nessa hora, hora de dor, que se mostra o valor que se

têm. A hora deles chegou; iam tentar, pelo menos tentar, amenizar aquelas

agruras, aquela dor…

E que dor enorme! Aqueles irmãos, tão unidos, pelo amor

de D. Iracema, teriam agora, que se separar por causa de um energúmeno e

por causa da falta de recursos que a sociedade dispôs à família!

O Manoel trabalhou, pagou impostos e tudo o mais e

agora o governo lhe deixa sozinho! Abandonado! – pensava Osvaldo – Isso

é o capitalismo!

Mas havia que se conformar. Havia que aceitar o destino,

já tão áspero, até agora e que se anunciava pior ainda! Era necessário agora,

se conformar para depois, mudar o destino!

Eles venceriam esse destino! Haveriam de vencer por sua

bravura e pela herança de D. Iracema e do falecido pai do Manoel; Além do

mais, o sistema do país estava prestes a mudar e tudo isso iria desaparecer;

tudo ia mudar. Quando viesse o comunismo as pessoas seriam melhores e

não faltaria nada para ninguém

Em um país tão rico como o Brasil e um povo que, a

despeito de ter produzido o Jorge, tinha muita gente boa, gente presa às

melhores raízes!

Essa gente vai derrubar o sistema! Vencerá a desgraça

que os americanos querem nos impingir!

Osvaldo se dispôs a acompanhar o Manoel na triste

viagem. Iriam de trem para Minas Gerais, levar os irmãos menores de

Manoel e os distribuir entre os amigos do pai dele.

3) A viagem

Por que todos ficavam tão quietos? Que pensamentos eles

tinham?

O derradeiro levante 9

Carlos da Terra

Osvaldo olhava os pequenos olhos de Marta Helena, a

irmã mais velha de Manoel, que era uma morena muito bonita e havia

puxado, de sua mãe, a determinação e coragem para enfrentar as agruras.

A Marta Helena tinha um olhar entre triste e revoltada,

inconformada!

Olhava para Osvaldo, dava um tênue sorriso e voltava

para sua intimidade!

Como estaria ela? – perguntava-se Osvaldo e ele mesmo

concluía em seguida – Claro que não pode estar bem!

Deixando tudo para trás e saindo para um futuro tão

incerto, como poderia estar bem? O que será que ela está pensando?

Ao pensar sobre isso Osvaldo olhava para Marta Helena,

esboçava um sorriso meio sem jeito e tentava dissimular!

Seria possível dissimular?

Os outros irmãos, mais novos, parecia não entenderem o

que estava acontecendo!

Osvaldo divagava sob o barulho monótono do trem!

Várias vezes se levantava e caminhava pelos vagões, como que, para

escapar dos pensamentos que o invadiam.

Pensava sempre como o destino e a sociedade haviam

sido injustos para com aquelas pessoas, que entanto, bravamente olhavam

para o futuro.

O que poderia acontecer? O que os esperava?

Osvaldo, no barulho do trem, pensava como seria esse

amigo do pai do Manoel, que se dispôs a ajudar em um momento tão

decisivo.

Olhava os olhos de Marta Helena, apreensivos e

insatisfeitos por que ela, efetivamente, não queria ir para Minas. Ninguém

poderia saber por que, mas era fácil perceber que ela ia contrariada! Deixar

tudo para trás não é uma coisa fácil, mesmo naquelas circunstancias!

Havia uma troca de olhares!

Osvaldo pensava: Tudo dará certo, um dia! E Marta

Helena parecia perguntar resignada: O que será?

Manoel pouco conversava! Apenas olhava com muita

responsabilidade para os irmãos. Protegia-os com seu olhar, agora paterno,

e seu sorriso franco, que procurava demonstrar uma confiança forçada!

Tinha que inspirar confiança em seus irmãos ou tudo

estaria perdido!

4) Chegando a Uberlândia

O que saltou aos olhos, para Osvaldo, foi a estima que o

pessoal de Uberlândia tinha pelo pai de Manoel.

O derradeiro levante 10

Carlos da Terra

Devia ter sido uma pessoa muito boa!

Fomos acolhidos com muito carinho na casa do Sr.

Domingos, um baiano forte e generoso!

Todos, embora preocupados com a responsabilidade que

assumiriam, dispunham-se a atender as crianças!

O Manoel foi para voltar e preparar o caminho de volta

para os irmãos!

Mas isso era por demais doloroso ao Manoel, seus irmãos

e também para Osvaldo, que a todo o momento se lembrava daquele

acontecimento na Rússia, quando um homem saiu para ver o que estava

acontecendo a uma criança da rua.

Viu? O povo brasileiro também é solidário e o que estraga

nas grandes cidades, deve ser o sistema capitalista- pensou Osvaldo!-

E aquela família, tão unida pelo amor e dedicação de D.

Iracema, agora, por força do destino e pela crueldade de um tal de Jorge,

tinha agora que se separar!

Mas não havia de ser em vão e não havia de ser para

sempre e não havia de ser um fim, mas um começo para aqueles que agora,

ainda pequenos, viravam homens e mulheres!

E ouviam dos hospedeiros aquilo que jamais imaginaram

que ouviriam, mas abaixavam os olhos, possivelmente lembrando-se de D.

Iracema, e assentiam….

Foram sendo distribuídos um em cada casa e em cada

uma das casas, Manoel ouvia uma ladainha, que se assemelhava tanto, mas

tanto, que se poderia falar junto….

- Olha aqui, Manoel, ele – ou ela – vai ficar aqui! E será

tratado como um filho! Mas terá que andar na linha, ser obediente e

estudar, senão vai embora!

Palavras duras, ouvidas com repúdio por Osvaldo e

ouvidas com resignação por Manoel, que se sentia aliviado, em parte e

assentia cabisbaixo, com os olhos cheios d´água!

Mas também…. é claro que dá para compreender o medo

que sentiram os hospedeiros! Não era brincadeira! Aquelas crianças criadas

com tanto amor e agora vítimas de um destino tão cruel poderiam se

revoltar e sabe-se lá o que resultaria!

O caminho de volta foi silencioso!

Pouco se conversava e Osvaldo apenas tentava fazer com

que Manoel saísse daquela tristeza!

Estava agora longe fisicamente dos seus queridos irmãos,

mas em seu coração devia pulsar uma vontade enorme de lutar e trazer para

perto os seus irmãos!

O derradeiro levante 11

Carlos da Terra

Viu? O capitalismo não é assim tão seguro como diz a

burguesia!

Aqui também, alguns têm que morar com outra família, e

pior ainda, ouvir ladainhas!

Talvez, pensava Osvaldo, no socialismo essa família não

estivesse tão desamparada e o Manoel com esse bruto encargo, já de gente

velha!

Preparados eles estavam, por incrível que pareça, pelo

amor de D. Iracema!

Um dia o Manoel contou que chorava quando ouvia a

canção popular que diz:

“Iracema meu grande amor,

foi-se embora”

Mas tudo estava para mudar! Não demoraria muito e

todos iam ver um novo sol! Todos veriam a liberdade e não precisariam

mais de favores, mesmo que fossem de pessoas tão boas quanto os amigos

do pai do Manoel!

O governo atenderia, como é obrigação, a esses

desamparados pelo destino e chamaria às falas esses despreparados para

viver em sociedade, como o Jorge!

As crianças?

Ah! Elas tinham fibra! Iam vencer, pensava Osvaldo!

5) Um sonho chamado esperança

E não era para se esperar alguma coisa de bom?

Não era para sonhar e buscar esse sonho?

E o assunto entre Osvaldo e Manoel era, cada vez mais,

sobre política! Sobre o sistema! Sobre a vida!

Todos os assuntos, música, família, diversões e até

futebol, caiam sempre na política e no questionamento do sistema:

– Como, enfim, poderia uma criança, com fome e

subjugada pelos poderosos, relegada à falta de condições mínimas para

viver e se divertir, com material escolar escasso e brinquedos quebrados e

alguns poucos recebidos de crianças burguesas que os dispensavam, como,

mas como é que essa criança poderia aprender e se desenvolver?

Claro…. Não dava!

Até que o povo brasileiro fazia milagres, concluíam os

dois, e seus olhares ficavam sérios, franziam a testa e olhavam para o chão

O derradeiro levante 12

Carlos da Terra

e depois erguiam os olhos para as estrelas como que pedindo algum tipo de

justiça a Deus!

Mas não era esse o negócio….

Deus não tinha nada a ver com isso, o negócio era com a

gente mesmo. Se o sistema era construído aqui na terra, por nós mesmos,

claro estava que competia aos homens alterá-lo ou mantê-lo!

A gente estava aqui para fazer o nosso caminho e era isso,

talvez, o que Deus esperava de todos, especialmente dos jovens e

estudantes, que mesmo no caso do Manuel e do Osvaldo, ainda pertenciam

a uma classe privilegiada por que no Brasil proliferavam favelas e

moradores de rua que não tinham, às vezes, nem um pãozinho para comer,

o dia inteiro!

E isso era caso de mudança! A gente tinha que mudar

isso!

E eles passavam horas conversando sobre os problemas

do povo humilde, pobre, subjugado…. injustiçado!

Estavam dispostos a mudar isso e em seus corações eles

sentiam que podiam fazê-lo!

A música popular lhes martelava no ouvido:

Se a tristeza chegar….

E você quiser, e você lembrar….

Você vai saber,

Nunca mais chorar.

E um amor mais lindo

Vai lhe ensinar

Que todos os tristes,

Querendo, juntos,

Toda a tristeza vai se acabar!

É isso!

Essa canção popular está certa!

Se todos quiserem juntos, tudo vai mudar e claro, quem

não vai querer um mundo justo, sem tristeza, onde ninguém passasse fome,

onde as pessoas fossem amigas e ninguém fosse mais do que ninguém?

Por que (era a pergunta que se faziam), um lixeiro, que é

um funcionário essencial para a sociedade, não poderia ter os seus dentes

todos tratados, trabalhar com luvas e dignidade, e, após o seu expediente,

voltar para sua casa, tomar um banho, vestir-se adequadamente e ir para a

ópera? Por que não poderia?

Por que ele tinha que ser um alienado, ignorante, um

excluído?

O derradeiro levante 13

Carlos da Terra

Haveria necessidade de que ele fosse “inferior”, se o seu

trabalho era tão importante quanto o de um médico, para a sociedade?

Parassem de trabalhar dos lixeiros, apenas uma semana,

para ver o que aconteceria com São Paulo!

E o destino das pessoas, seus sentimentos, suas

necessidades, não eram naturalmente ligadas ao seu poderio econômico, e

jamais poderiam ser!

Um lixeiro, apenas por ser lixeiro, não teria, como não

tem, necessidades menores do que um médico, pelo menos na maioria das

coisas. E que dizer, então, dos filhos do médico e dos filhos do lixeiro?

Por que se pensa que essas crianças têm necessidades

diferentes?

Só por causa do trabalho dos seus pais, essas crianças têm

uma vida injustamente diferente; enquanto os filhos de médicos estudam

em colégios caros, com toda a infraestrutura, têm clubes para seu lazer e

compram objetos e materiais caros, os filhos dos lixeiros vivem nas ruas,

sem escolas adequadas, sem clubes, sem nada!

Será que essas crianças, filhas de lixeiro, já estavam

pagando um preço injusto pela condição do seu pai, que põe a mão no lixo

para servir a sociedade?

Mas se for ver sujeira mesmo, o serviço do médico é mais

sujo ainda, continuava argumentando Osvaldo!

- O médico – afirmava em tom alterado e torcendo o nariz

aparentando nojo – mexe em fezes, sangue e tumores contaminados. Tudo

bem que é para salvar vidas, mas mexe!

E depois, quando o seu serviço acaba, ele vai para casa,

onde todo o conforto material o espera, e, faz a sua limpeza e, com

dignidade, se veste adequadamente e vai para o teatro onde conversa com

todos!

Não é bom isso? E por que um lixeiro não pode?

Osvaldo perguntava, arregalava os olhos esperando uma

resposta, mas diante do silencio reflexivo do Manoel, ele mesmo respondia

completando….

- Tem um lugar que pode! Na Rússia!

Lá é comunismo - falava baixinho, arrastando a voz- e lá

não tem nada dessas injustiças! As pessoas são iguais, se respeitam e as

crianças têm tudo o que precisam para se desenvolver, crescerem,

trabalharem e viverem com alegria. O comunismo é assim!

Manoel virava a cabeça, olhava nos olhos de Osvaldo e

assentia, pensando….

– É…. é muito melhor, e alinhavava….

O derradeiro levante 14

Carlos da Terra

- São necessidades sociais, naturais ao ser humano e, por

que será que aqui não tem isso?

- Ah, Manoel! É claro que aqui não tem! Os americanos

não deixam. Eles não vão querer perder tudo o que tiram daqui! Eles

roubam tudo e não querem nem saber da gente; enquanto as crianças de lá

tem tudo o que querem, às nossas custas, as daqui passam fome!

Manoel respirava fundo, pensava em seus irmãos mais

novos que haviam ficado em Minas, e ficava triste!

Mas a gente tinha que fazer alguma coisa; e a gente podia

fazer alguma coisa, pensavam todos os jovens!

Os jovens sentiam que o destino estava em suas mãos,

eram poderosos, e poderiam fazer justiça pelo mundo afora! Poderiam dar

às crianças, todas, um mundo muito mais justo, melhor, livre, igualitário,

como os ideais mais nobres da revolução francesa, mas levados a termo,

apenas pela revolução cubana!

Era isso mesmo o que todo o jovem queria! Mas será

mesmo que todos os jovens queriam isso?

Era o que parecia por que até mesmo a classe

privilegiada, a burguesia, produzia alguns opositores ao regime de

dominação.

Homens e mulheres de notória inteligência, viam,

segundo Osvaldo e Manoel, essas injustiças e não pactuavam. Estavam,

também, dispostos a aceitar e colaborar com as mudanças! Muitos

apoiavam até a luta armada!

E afinal, por que não estariam?

Se o que se idealizava não era para tirar nada de ninguém,

exceto os que tivessem exageradamente muito – pensavam – o que se

queria, era que todos, mas todos mesmo, vivessem muito bem, o que não

parecia assim tão difícil, considerando-se que o Brasil, tão grande, era

muito rico, naturalmente. Só que os americanos estavam levando tudo

daqui, principalmente da Amazônia! E mais que isso, nos impunham a

condição de escravos, pelos péssimos recursos que nos restavam, quando

nos obrigavam a ouvir e seguir músicas vagabundas que nos aturdiam

diariamente nos meios de comunicação, visando doutrinar os brasileiros!

Eles querem impor o seu modo de vida! À força! Custe o que custar!

Impondo o seu modo de vida nos forçam a comprar sua

produção industrial. Fazem-nos usar roupas que fabricam por um preço

extorsivo e temos que consumir, para conforto deles, toda a sua produção

cultural que é de péssimo gosto e qualidade!

Para a burguesia, insensível, eles deixavam alguns

privilégios! Algumas migalhas suficientes para comprar suas consciências;

Quem se definia a favor dos americanos é por que queria ser mais do que

O derradeiro levante 15

Carlos da Terra

os outros e não se sensibilizava com a pobreza e com a miséria de muitos

irmãos que só trabalhavam, trabalhavam e mal ganhavam para seu

sustento!

Mas haviam outros, das camadas abastadas, que

timidamente, é verdade, manifestavam-se contra a exploração econômica!

E esses outros, embora fossem da camada burguesa,

ricos, abastados, que haviam estudado nas melhores escolas, se

manifestavam claramente a favor da luta operária e estudantil em músicas e

poesias.

Caso do compositor Chico Buarque, do Geraldo Vandré, e

vários outros que usavam suas melhores qualidades como instrumento de

mudança!

Os estudantes vibravam com suas produções, e a

esquerda aceitava e propalava esses intelectuais, muito embora os

classificasse com da “festiva”!

Diziam que eles eram da esquerda “festiva”, uma parcela

que, segundo eles, ao primeiro tiro fugiria para debaixo da cama!

Mas mesmo assim, eram apreciados!

Eram melhores do que aqueles que sequer olhavam para o

sofrimento do povo e esses intelectuais teriam, na nova sociedade, um

papel importantíssimo na educação e na cultura!

O compositor que melhor traduzia os sentimentos dos

estudantes era o Geraldo Vandré, amigo de Osvaldo, que, prazerosamente

oferecia condições para um debate saudável sobre música e política!

6) Maria Antônia

Os estudantes se reuniam e os pequenos grupos foram se

tornando grandes e agitados grupos que se inflamavam ao som de canções

que traziam, oculto nas letras, um sentido de luta social!

Os corações jovens ardiam em chama! Ardiam por

liberdade!

Jovens idealistas se agrupavam em residências, bares,

escolas e em qualquer ponto da cidade!

No campus da faculdade da rua Maria Antônia muitos

estudantes conversavam em meio a um burburinho em que se destacavam

as expressões “vamos conseguir” e “é a hora!”.

Um jovem, estudante de fisionomia oriental, porém

brasileiro, aproxima-se a passos largos de um grupo e inflamado cerrando

dos punhos vai dizendo:

O derradeiro levante 16

Carlos da Terra

- Vocês são da zona leste, não é? O pessoal da zona leste

é muito bom…. vai dar tudo certo! Ficava ali um pouquinho e já se dirigia

para outro grupo. Era o Massafumi, um japonesinho inteligente e

estudioso!

A produção intelectual era intensa e a qualidade das

músicas era muito boa! Os estudantes criaram um festival de música, que

servia de arrimo às ideias progressistas, inovadoras para aquele tempo!

Ao fundo, no saguão da faculdade, ecoava uma música

que havia sido premiada como vencedora do festival. A música

“Disparada”, que permeava os debates ressaltava e questionava a sociedade

estabelecida sobre classes sociais; a exploração do capital sobre o trabalho.

Ouvia-se ao longe:

“Na boiada já fui boi, boiadeiro já fui rei….”

E a música mencionava o acaso do destino completando:

“ E nos sonhos que fui sonhando, as visões se clareando,

até que um dia acordei!

Então não pude seguir, valente lugar tenente, de dono de

gado e gente!”

Enquanto as artes afloravam, os estudantes, evidenciava-

se, esperavam e queriam promover reformas sociais iminentes.

O governo anterior, de João Goulart, havia sido

derrubado pelos militares que instauraram uma ditadura que endurecia e

estreitava cada vez mais o seu controle sobre a sociedade!

Se os intelectuais se motivavam por ideias abstratas

mencionadas em música e livros, principalmente, a burguesia se inspirava

em fatos banais, porém, preocupantes para quem queria manter a

hierarquia.

A direita reacionária criou um vergonhoso grupo de

extermínio e contraposição que se intitulou CCC, comando de caça aos

comunistas.

Esse grupo era dos alunos de uma grande universidade,

famosa por abrigar a burguesia e que tinha, significativamente, um nome

americanizado: A Universidade Mackenzie!

Essa burguesia vivia inconformada com pequenos

avanços nos direitos humanos do povo:

O Governo João Goulart ousou tabelar o sanduíche de

mortadela e pior ainda, ousou tabelar os aluguéis de casas levando-se em

conta uma tabela, criada pelo governo, condicionando os aluguéis ao

tamanho da propriedade e suas acomodações, muito mais do que a sua

localização. Assim, um imóvel na região chique de São Paulo, como a Av.

Paulista, poderia ter o mesmo valor de aluguel de um imóvel na periferia,

se suas acomodações fossem equivalentes!

O derradeiro levante 17

Carlos da Terra

Um absurdo! -comentava a burguesia- Onde já se viu?

Osvaldo e Manoel comentaram esta lei, rindo muito,

imaginando a cara da burguesia, que não poderia entender o que parecia

muito lógico! Uma pessoa deve morar perto do seu trabalho, perto de

parentes e amigos e, afinal, onde se acomode convenientemente e nunca

para se projetar socialmente de modo a sobressair-se por razões fúteis,

como “locais nobres”! Nobre, pensavam eles, é lutar por uma sociedade

mais justa!

Manobrados e guiados pelos EUA, os militares

impunham sua filosofia de “ordem social”.

Nas faculdades, Osvaldo e Manoel, comentavam a

criação pelos militares de uma nova disciplina; curiosamente criaram uma

disciplina nos cursos superiores, intitulada “Problemas Brasileiros” e o

principal problema que ela apresentava, parecia ser justamente a falta de

problemas no Brasil!

Parecia que a gente ia ter que procurar muito para

encontrar um problema, visto que, tudo era uma perfeição; Não havia

desnutrição, fome, seca, miséria, analfabetismo, nada disso!

Isso era tudo invenção de comunistas, diziam os

reacionários!

Os comunistas é que eram loucos e queriam que os

operários que viviam tão bem perdessem sua televisão, sua geladeira (que

poucos tinham) etc. Diziam, e muitos concordavam, que aqueles operários

que viviam amontoados em cubículos de sua desconfortável casa, ainda

teriam, caso se instalasse o comunismo, que repartir esse espaço com uma

ou até mais duas famílias!

- Já pensou? –Diziam eles- Sua família morando com

gente estranha! Determinado pelo governo! Já pensou? -E completavam- lá

é assim!

Osvaldo achava estranho que uma coisa tão ruim assim,

fosse do gosto de tantos intelectuais que até haviam visitado esses países!

Caso do arquiteto Niemeyer, do Vinícius e tantos outros. Será que eles

foram enganados tão facilmente?

E será que o governo, que fazia tanta coisa ruim, estaria

imbuído em “proteger” o povo? Ou queria apenas proteger o capital?

- E a chamada “cortina de ferro”? – perguntou o Manoel

- A “cortina” existe, mas, não é que a Rússia ou outros

países comunistas não deixam sair as notícias, o que acontece é que os

Estados Unidos é que não deixam divulgar!

- E uma coisa é certa – dizia Manoel-: Nós não sabemos

se lá está bom, mas sabemos que aqui está ruim!

O derradeiro levante 18

Carlos da Terra

- É verdade! – completou Osvaldo -E que dizer então de

Cuba?

Cuba, que nos tempos do capitalismo americano, do

Fulgêncio Batista, vivia na mais negra miséria. O povo cubano não tinha

sequer sapatos para calçar. Andavam descalços!

Os cassinos, famosos em todo o planeta, difundiam a

prostituição decorrente do domínio de classes e da fome!

Agora não! O Fidel endireitou o país. Puniu e baniu os

corruptos e exploradores do povo e moralizou Cuba!

Esboçava um sorriso, tênue, e continuava:

- E o mais engraçado é que os americanos fizeram o papel

de bobos! O Fidel e o Che, foram ao presidente dos EUA., na época o

Eisenhower e disseram que o ditador cubano, Fulgêncio Batista, estava

querendo instalar o comunismo em Cuba. O Eisenhower se apavorou e, não

querendo perder as mamatas, armaram o grupo de Fidel de do Che até os

dentes, determinando o extermínio do Fulgêncio e de qualquer um que

quisesse essa porcaria de comunismo, que vivia ameaçando a superioridade

americana! Fidel e o Che fizeram tudo direitinho; derrubaram, sim, o

Fulgêncio, mas instalaram, eles mesmos, o comunismo!

Depois o Jonh Kennedy determinou o embargo à Cuba,

impondo dificuldades imensas! O embargo persiste até hoje, mas não

conseguiu abalar os ideais de liberdade e trabalho do povo cubano!

Você sabe que hoje, Cuba possui o melhor serviço médico

do mundo?

Manoel olhava de soslaio e Osvaldo continuava:

- Lá não tem esse negócio de fila para tratamento médico,

como no inps! Isso é uma humilhação!

Manoel intervinha titubeando….

- É! Mas eu vi no jornal de hoje que a marinha cubana

disparou contra alguns dissidentes que fugiam em uma barcaça! Tem gente

querendo fugir de lá!

Osvaldo virou o rosto rapidamente para Manoel,

franzindo o sobrolho e explicando:

- Mas é claro que tem! Você acha que a burguesia vai

aceitar isso? Aqueles que tinham dinheiro para comprar pessoas,

empregados para limpar seus sapatos e até para amenizar suas consciências,

jamais aceitariam um regime igualitário. Lá, agora, não é mais como aqui!

-Lá – continuava- quando o camarada é criancinha, ele é

analisado por uma comissão do governo! Eles veem qual é a vocação que

ele tem e o que ele quer fazer! Daí pagam tudo e ele tem tudo o que precisa

pra viver e estudar e se tornar um profissional de qualidade! Tudo às custas

do governo, às custas do povo!

O derradeiro levante 19

Carlos da Terra

Ele terá a satisfação de exercer o seu papel social de

maneira eficiente, vivendo dignamente, mas não terá dinheiro suficiente

para comprar pessoas e se sobrepor a elas! Afinal, se ele fez o curso que

gostava é porque ele se sente bem nessa função e também que executará

sua função com facilidade; Ser-lhe-á exigido menor esforço do que a um

brasileiro que seja porteiro de prédio, mas que sonhava em ser professor! O

trabalho desse porteiro, que a rigor não faz nada, é penoso! Mesmo ficando

sentado o dia inteiro ele está fora do seu desejo, de sua vocação, de seu

sonho e não se sente orgulhoso a ponto de comentar com seus filhos o seu

dia a dia por que gostaria de ser outra coisa! Ele sim deveria ser

recompensado pela tortura de viver a maior parte da sua vida, fazendo uma

coisa com a qual não tem nenhuma afinidade. E isso é o que mais acontece

no Brasil!

-Agora tem graça? – continuava emocionado, Osvaldo-

Tem graça o camarada estudar e viver sem trabalhar à custa do povo

cubano, que lhe dá plenas condições, para depois, quando se forma e é a

hora de retribuir à sociedade, ele, simplesmente, sai e abandona o seu país e

sua gente e vai dedicar sua acurada técnica ao povo americano aonde irá

viver em casa com mordomos, jardins exuberantes, elevadores residenciais

para pequenas alturas e muitas aberrações do capitalismo? Pode isso? Seria

justo? Veja que ele quer sair, mas o empregado braçal, que não teria todos

esses privilégios lá, não quer! Esse empregado tem em cuba, uma vida

muito melhor, despreocupada, do que um operário dos EUA, que, mesmo

possuindo alguns bens, ainda assim, é assolado pelo poderio dos que

ganham mais!

De repente entra um rapaz magro, de óculos e barbas por

fazer, curtas, e vai falando a todos, assustado e ofegante:

- Eles vem vindo! Corram, são eles!

Logo perguntavam:

- Quem? O exército ou o Dops?

- Acho que é o exército!

O esparramo foi geral…. uma correria!

Osvaldo e Manoel, que estavam próximos à porta

principal do salão, conseguiram fugir a tempo, mas quem ficou tomou

muita pancada e muitos foram levados presos, ignorando-se o seu

paradeiro! Supunha-se que uns seriam conduzidos ao terrível dói-codi,

centro militar de tortura e repressão ao movimento popular, da ditadura!

Depois, o dia seguinte, passado o susto, porém ainda com

receio de serem reconhecidos de alguma forma e serem ainda capturados,

Osvaldo e Manoel comentavam o ocorrido e queriam saber quais teriam

sido as baixas do movimento. Quem, afinal, havia caído nas malhas da

repressão e qual seria o seu destino.

O derradeiro levante 20

Carlos da Terra

Preocupavam-se muito por que muitos estudantes

desapareciam como num passe de mágica! Sumiam e ninguém dava

informações se estavam vivos ou mortos! E evidentemente o medo era

geral!

Sentir medo sentiam, mas recuar nunca!

Diante disso lembravam-se sempre dos versos populares:

“Quem recua na entrada,

ou afrouxa na saída,

não perde nenhuma guerra,

mas também, não ganha nada”

Ficaram sabendo, por meio dos camaradas, que Diogo

havia caído! Levaram o Diogo e sua mulher que estava grávida de dois ou

três meses!

Diogo era um dos militantes que, absolutamente, não era

pobre! Era filho de um rico comerciante!

Quando foi preso, seu pai tentou soltá-lo usando da

sórdida arma capitalista: o dinheiro. Mas nem isso funcionou por que a

repressão tinha tanto medo do comunismo que até resistia ao seu mais forte

elemento.

Ainda mais, o pai do Diogo pediu ajuda a um político da

Arena, que era o “partido do governo”; ainda assim não deu certo!

Os dois foram ao quartel e pediram para ver o Diogo,

clamaram por sua libertação, dizendo que o filho tinha sido influenciado

por más companhias e que, afinal, isso era coisa da juventude! Faziam isso

pelo ímpeto juvenil, mas e claro que isso passaria e eles voltariam ao

“normal”!

- A juventude é assim mesmo, coronel! – dizia o gordo

Antônio - Lembra-se quantas besteiras nós mesmos fizemos na juventude?

Esse negócio de comunismo é uma besteira que enfiam na cabeça deles; é

essa porcaria de Rússia e esse demônio do Fidel Castro. – e em seguida

apelava – Solta o meu menino, coronel!!!!

Os militares ficaram bravos e não permitiram visitas ao

Diogo, sequer passaram informações sobre o seu estado de saúde, e ainda

advertiram que se eles insistissem poderiam ficar presos também!

Com muito custo, por trinta mil cruzeiros, o pai do

Diogo, o gordo Antônio, conseguiu que levassem um sanduíche para o filho

preso! Pelo menos disseram que levariam!

De boca em boca, ficamos sabendo que, sob tortura,

Rosana, mulher de Diogo, sofreu muito e gritava ecoando pelos corredores,

acabando por abortar!

Jogaram o feto no esgoto!

O derradeiro levante 21

Carlos da Terra

Essa era a sociedade boa que os americanos queriam?

Os Estados Unidos deixavam claro que não admitiam

qualquer ato ou reunião ou manifestação favorável ao comunismo e mesmo

um simples agrupamento de estudantes, à porta da escola ou de uma

padaria, era alvo da polícia! A ordem era atirar! Atirar para matar!

Mas todo o dia, essas rodinhas de estudantes, teimavam

em existir. Reuniam-se à revelia, ainda que temerosos! Tramavam em

surdina e torciam por guerrilheiros que estavam dispostos a lutar pela

pátria!

No sereno da noite, comentavam o que os jornais de leve

noticiavam: que os principais artistas da música brasileira foram

“convidados” a se retirarem do país!

E esses artistas deixavam o país repentinamente, para

surpresa dos estudantes atônitos!

Os jornais apontavam – alguns sob pressão e outros

coniventes – os esquerdistas como bandidos, inimigos da pátria! Algum

desses jornais poderia até não concordar com a ditadura, mas discordava

mais ainda do comunismo e, entre um e outro, escolhia invariavelmente a

ditadura! Tudo –pensavam eles- menos o comunismo!

Por todos os cantos, farmácias, padarias, clubes e até em

escolas, estavam expostos cartazes com fotos mal acabadas de estudantes

que haviam aderido à luta contra a ditadura. Apresentavam os estudantes

como bandidos de alta periculosidade e pediam à população que

denunciasse caso conhecesse algum deles!

E nas rodinhas de estudantes, os cartazes eram discutidos

e quando cada um deles se dirigia para suas casas, ainda mais, estava acesa

a chama pela luta armada; uma vontade forte de lutar, de vencer as

adversidades, de transformar o país!

Não se acreditava mais nessa sonhada transformação

social, se não fosse através da luta armada; se havia dado certo, afinal, em

Cuba, aqui também daria, apesar de o Brasil ter uma cultura bastante

diferente e o seu povo não ter atingido o estado de miséria em que vivia o

povo cubano sob dominação americana.

O Brasil, no entender de muitos, era um país com fortes

raízes capitalistas ainda do período da colonização! O povo, ainda segundo

eles, é apegado aos bens materiais e, em sua grande maioria, precisa ser

conscientizado, antes de qualquer ação armada!

Mas gente é gente e liberdade é o sonho da gente!

7) O Salvador

O derradeiro levante 22

Carlos da Terra

E muitos movimentos, de muitas espécies, aconteciam

simultaneamente, enquanto os estudantes, dispostos a lutar, engajavam-se

em qualquer um deles. Qualquer promessa de uma vida melhor era aceita

incontinente!

Mas muitos desses movimentos eram espúrios, quando

não ingênuos e enganosos!

Osvaldo e Manoel foram parar, através do Fernando, que

era um colega, estudante, do grupo de discussão, em um escritório, simples,

com uma mesa velha, em uma salinha apertada do Edifício Martinelli, o

primeiro arranha céus do Brasil.

Nesse cubículo um místico se arvorava em rei! Rei dos

reis!

Era o Sábado Dinotos, um homem que se apoiava na

Bíblia, traduzida por ele mesmo do hebraico massorético! (denominação do

idioma, usado por ele mesmo).

Segundo essa tradução, ele próprio era o rei do novo

mundo e traria ao mundo a paz e a justiça tão sonhadas. Mostrando

algumas passagens dessa bíblia ele fazia o seu discurso que era monótono e

repetitivo.

Apresentava-se como sendo um homem de inteligência

superior, por força de sua genealogia e criador de armas exterminadoras e

eficientes, ocultas, secretas, que seriam utilizadas contra o governo imoral

que se instalou não apenas no Brasil, mas no mundo todo!

Não sendo nem de esquerda e nem de direita, apenas

pleiteava ser o rei e Osvaldo e Manoel, iam ao escritório dele, e até

gostavam de dialogar, como mero exercício, embora não aceitassem essa

proposta maluca. Mas a predisposição para uma luta social os tornava

atentos a qualquer movimento político. Era preciso lutar por um mundo

melhor e mais justo.

O Fernando acreditou piamente na proposta do Dinotos e

na escala hierárquica do grupo formado de uns poucos gatos pingados, o

Fernando seria o segundo homem, sucedendo, portanto, o próprio Sábado

Dinotos, rei dos reis, por determinação divina!

O Fernando acreditava em tudo e venerava o Sábado

Dinotos que tinha uma proposta, se é que se pode chamar assim, totalmente

incompreensível! Pelo pouco que se podia entender, a proposta visava

apenas substituir o governante que, sem plano nenhum, governaria apenas

com sua consciência e senso de justiça!

De repente o Fernando apareceu, ofegante, na rodinha

onde estavam o Osvaldo, o Manoel, o Marco, o Zé Augusto e outros que

discutiam, como sempre, política, música e artes!

O derradeiro levante 23

Carlos da Terra

- É hoje! O grande dia chegou! O Sábado Dinotos vai

assumir o poder! Tornar-se-á rei! – E sorria satisfeito.

Todos se voltaram para o Fernando que afirmava

categórico:

- O plano está pronto! Vai ser na madrugada de hoje para

amanhã!

O pessoal se entreolhou embasbacado, mas o Fernando

continuou:

- O Dino (assim ele chamava o Sábado Dinotos)

aparecerá com uma arma fulminante. Ele, praticamente sozinho, derrotará

todo o governo terrestre! Tudo começará na praça Marechal Deodoro!

Nós precisaríamos ir, praticamente, apenas para assistir

por que o Dino era autossuficiente e qualquer governo da terra não poderia

vencê-lo uma vez que ele, o Dino, era um escolhido por Deus, já em

tempos imemoriais!

O pessoal, mesmo incrédulo, resolve ir para ver, afinal, o

que aconteceria. Sem muito entusiasmo eles acompanharam o Fernando

que estava convicto: O novo mundo chegaria hoje!

Foram para a praça Marechal Deodoro, que parecia,

naquele dia, ainda mais deserta!

Apenas aquele grupo de estudantes ingênuos, sentava-se

sobre o encosto dos bancos de cimento e olhavam incessantemente para os

lados, ora para ver se o Dino chegava, ora para ver se a polícia não

chegava!

O tempo passava e o pessoal do reduzido grupo começou

a ficar impaciente! Pensavam que, pelo menos, o Sábado Dinotos estaria

presente, ao lado deles, para justificar alguma coisa do tipo: “houve um

imprevisto e a liberdade vai chegar mais tarde”!

Mas nada…. o Sábado Dinotos sequer aparecia fazendo

com que o grupinho se sentisse frustrado, com ares de bobos!

Como nenhum dos dois aparecia, nem o Dinotos e nem a

polícia, o Fernando resolveu ir até a casa do Dino para ver o que estava

acontecendo, afinal, a liberdade já estava um tanto atrasada!

Olhando insistentemente para os lados, o pessoal pode

visualizar na neblina do dia que já amanhecia, o Fernando andando

apressado!

A fisionomia do Fernando estava entre séria e

decepcionada. Aproximou-se dos colegas e foi dizendo:

- Ele está dormindo, não é hoje o dia!

Descemos de sobre o encosto do banco, como que se já

esperássemos o ocorrido, apenas gostaríamos que o Sábado Dinotos, rei ou

não, fosse até lá conversar conosco. Pelo menos isso!

O derradeiro levante 24

Carlos da Terra

Todos foram para suas casas, decepcionados e surpresos

com a atitude do rei, que nem quis saber dos seus súditos, deixando-os

tomarem o sereno na madrugada enquanto dormia tranquilamente em sua

casa!

Como, mesmo uma coisa tola dessas, era severamente

punida, O Dinotos e o Fernando foram presos.

O Dino morreu em sua casa um pouco depois de haver

sido solto e o Fernando amargou uma pena de mais ou menos uns dez anos

de prisão.

8) O recrudescimento

A repressão aumentava e os reacionários eram vistos pelo

grupo de Manoel e Osvaldo como pelegos dos americanos que,

impiedosamente, mandavam atirar! Atirar para matar!

Osvaldo começou a temer por sua própria sorte e a de

seus camaradas!

O Manoel já comparecia bem menos! Sua presença estava

a cada dia mais espaçada!

Um dia o Manoel declarou a Osvaldo que entraria

definitivamente para a VAR Palmares, Vanguarda Armada Revolucionária

Palmares, que era uma organização comandada por Mariguella, líder

comunista apoiado por Lamarca, o capitão do exército que havia deserdado

para assumir seu papel na luta popular.

Lamarca era campeão de tiro. Seu tiro era rápido e

certeiro e não é demais a gente imaginar que essas qualidades lhe davam

confiança para o grandioso intento!

Quando deserdou saiu do batalhão militar com um

caminhão abarrotado de armas! Apoderou-se das armas para entregar aos

companheiros revolucionários!

Se Manoel ia assumir tanto risco, causava calafrios em

Osvaldo, mas não podia deixar de admirar essa atitude valente. Osvaldo

trabalhava em outra frente, intelectual, mas nem por isso, menos perigosa!

Todas as formas de luta eram igualmente válidas, no

entender de Osvaldo, que iria, no dia seguinte, à casa do compositor

Geraldo Vandré, para conversar e trabalhar textos de valor revolucionário.

Na manhã do dia seguinte, 12 de dezembro de 68, o dia

parecia parado! Ao acordar e sair às ruas, Osvaldo percebeu o ar pesado,

fúnebre, funesto.Alguma de coisa de muito ruim havia acontecido, pensou.

Aproximou-se da primeira banca de jornal e leu as

manchetes em letras garrafais:

O derradeiro levante 25

Carlos da Terra

“Baixado o ato institucional nº 5”

Esse decreto, do AI 5, dava plenos poderes ao então

presidente Costa e Silva que já os tinha. Apenas, o ato, parecia legitimar as

atrocidades do sistema.

Esse homem, arvorado em presidente, era desconhecido

do povo até então, mas do qual logo se ficou sabendo das qualidades

perversas, cruéis, que não tardou em demonstrar!

Tempos ainda mais duros se anunciavam e o medo tomou

conta dos militantes e simpatizantes do movimento de libertação nacional.

Algumas pessoas eram, de antemão, visadas pela

repressão, que não via a hora de pôr a mão neles!

Uma dessas pessoas era o amigo de Osvaldo, o

compositor Geraldo Vandré!

Como um símbolo da luta, o Vandré já poderia até estar

preso e sendo torturado! – pensava Osvaldo- Devem tê-lo prendido!

Foi então à casa do Geraldo que ficava em um prédio na

alameda Nothman, em São Paulo, em apartamento de cobertura.

Tudo estava muito estranho!

Era realmente estranho que o porteiro do prédio,

praticamente, ignorasse a presença de Osvaldo ou de qualquer outro

visitante do prédio!

Naquele dia ele ignorou! Não cumprimentou, como era

costume, para consentir o acesso; ao invés disso, abaixou a cabeça olhando

para o chão!

Nem respondeu ao cumprimento titubeante de Osvaldo

que pegou o elevador e subiu. No apartamento de Geraldo, a porta se abriu

em um tempo esquisito, parecendo que as pessoas ficavam discutindo se

abririam ou não a porta e por fim apareceu um homem chamado Mocazel,

diretor de uma companhia gravadora de discos.

Osvaldo logo percebeu a consternação geral. Algumas

pessoas se sentavam formando um pequeno círculo e o centro das atenções

era para mãe do Geraldo, D. Ângela, que chorava silenciosamente.

Logo foram falando a Osvaldo que o melhor era se retirar.

- Não! Vai logo embora! O Geraldo está bem! Dizia com

uma certa aflição, o Mocazel, como se fora o porta-voz.

- Ele estava indo para Brasília – continuava- quando

ouviu pelo rádio a notícia do AI 5, então atravessou a fronteira e foi embora