O Detetive Parker Pyne por Agatha Christie - Versão HTML

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Agatha Christie

O detetive

Parker Pyne

Parker Pyne Investigates (1934)

Tradução: CARMEN BALLOT

1 - O CASO DA ESPOSA DE MEIA-IDADE1

QUATRO GRUNHIDOS, uma voz indignada perguntando por que

alguém não deixava em paz um chapéu, uma porta fechada com estrondo e o

Sr. Packington saiu para pegar o trem das oito e quarenta e cinco para a

cidade. A Sra. Packington sentou-se à mesa do café. Tinha o rosto ruborizado

e os lábios apertados: e só não chorava porque a mágoa tinha sido substituída

pela raiva.

— Não agüento mais — disse a Sra. Packington. — Não agüento

mais! — ficou pensativa por alguns momentos e depois murmurou: — Aquela

sirigaita. Que mulherzinha hipócrita e indecente! Como George pôde ser tão

estúpido!

A raiva passou; voltou a mágoa. As lágrimas encheram os olhos da

Sra. Packington e rolaram lentamente pelo seu rosto de mulher madura.

— É muito fácil dizer que eu não agüento mais, mas o que é que eu

posso fazer?

De repente, sentiu-se sozinha e indefesa, completamente abandonada.

Com gestos lentos, pegou o jornal e leu — não pela primeira vez — um

anúncio de primeira página:

CONFIDENCIAL

VOCÊ É FELIZ? SE NÃO FOR, CONSULTE O SR. PARKER PYNE.

RUA RICHMOND, 17.

— Absurdo! — disse a Sra. Packington. — Completamente absurdo!

— e depois: — Enfim, não custa tentar...

Eis por que, às onze horas da manhã, a Sra. Packington, um pouco

nervosa, entrou no escritório particular do Sr. Parker Pyne.

A Sra. Packington estava nervosa, sim, mas a simples visão do Sr.

Parker Pyne lhe deu uma impressão de segurança. Ele era forte, para não dizer

1 The case of the middle aged wife.

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gordo; tinha uma cabeça calva bem proporcionada, óculos de lentes grossas e

pequenos olhos brilhantes.

— Sente-se, por favor — disse o Sr. Parker Pyne.

— Viu o meu anúncio? — perguntou, para ajudá-la.

— Sim — disse a Sra. Packington, e não disse mais nada.

— E não é feliz — disse o Sr. Parker Pyne numa voz jovial e prática.

— Muito poucas pessoas o são. A senhora ficaria surpresa se soubesse que

muito poucas pessoas são felizes.

— É mesmo? — perguntou a Sra. Packington sem convicção e pouco

se importando que as outras pessoas fossem ou não infelizes.

— Eu sei que isso não lhe interessa — disse o Sr. Parker Pyne, — mas

a mim interessa muito. Veja a senhora que durante trinta e cinco anos da

minha vida eu só fiz compilar estatísticas numa repartição do Governo. Agora

que me aposentei, me ocorreu a idéia de aproveitar de uma maneira diferente

toda a experiência que adquiri. É tudo muito simples. As desgraças todas

podem ser classificadas em cinco categorias principais

— nem mais nem menos, posso lhe garantir. Uma vez conhecida a

causa de uma doença, a cura passa a ser perfeitamente possível. Eu me coloco

no papel de um médico. Primeiro o médico diagnostica o mal do paciente,

depois prescreve o tratamento. Há casos em que nenhum tratamento dá

resultado. Quando é assim, digo com toda a franqueza que não posso fazer

nada. Mas lhe garanto, Sra. Packington, que se eu tomar conta de seu caso, a

cura é praticamente garantida.

Seria possível? Seria uma tolice ou seria verdade? A Sra. Packington

olhou esperançosa para ele.

— Podemos diagnosticar o seu caso? — disse o Sr. Parker Pyne

sorrindo. Recostou-se em sua cadeira e juntou as pontas dos dedos das mãos.

— O problema diz respeito a seu marido. De um modo geral a senhora teve

um casamento feliz. Creio que seu marido prosperou. Suponho que haja uma

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jovem neste caso... talvez uma moça que trabalhe no escritório de seu marido.

— Uma datilografa — disse a Sra. Packington. — Uma sirigaitazinha

falsa e indecente, cheia de batom e meias de seda e cachinhos. As palavras

saíram aos borbotões..

O Sr. Parker Pyne balançou a cabeça de maneira apaziguadora. —

Não há nada de mal nisso... certamente é isso o que o seu marido diz...

— É exatamente isso.

— E por que não poderia ele manter uma amizade pura com esta

moça e proporcionar um pouquinho de alegria e prazer a sua existência tão

monótona? Pobre menina! Ela se diverte tão pouco... Suponho que sejam

estes os seus sentimentos.

A Sra. Packington fez que sim com a cabeça, vigorosamente — Um

embuste... tudo um embuste! Ele a leva ao rio... eu também gosto muito de ir

ao rio, mas há uns cinco ou seis anos ele me disse que isso atrapalhava o golfe

dele. Agora ele deixou o golfe de lado por causa dela. Eu gosto de teatro, mas

George vivia dizendo que estava muito cansado para sair de noite. Agora sai

com ela para dançar — dançar! E volta às três da madrugada! Eu... eu...

— E sem dúvida ele lamenta o fato de que as mulheres sejam tão

ciumentas... tão injustificàvelmente ciumentas, quando não há nenhum motivo

para o ciúme?

Novamente a Sra. Packington fez que sim com a cabeça — É isso —

perguntou secamente: — Como é que o senhor sabe disso?

— Estatísticas — disse o Sr. Parker Pyne com simplicidade.

— Eu sou tão infeliz — disse a Sra. Packington. — Sempre fui uma

esposa dedicada para George. Gastei as minhas unhas até o sabugo nos

primeiros anos da nossa vida. Eu o ajudei a vencer. Nunca olhei para outro

homem. Suas roupas estão sempre em ordem, a comida é boa, cuido muito

bem da casa, e com economia. E agora que superamos as dificuldades e

poderíamos nos divertir, sair um pouco e fazer todas as coisas que eu tinha

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vontade de fazer algum dia... vai acontecer isso! — ela engoliu em seco.

O Sr. Parker Pyne concordou gravemente — Pode ficar certa de que

compreendo perfeitamente o seu caso.

— E... pode fazer alguma coisa? — ela quase sussurrou a pergunta.

— Certamente, minha cara senhora. Há cura. Certamente que há cura.

— E qual é? — ela aguardava ansiosa, os olhos arregalados.

O Sr. Parker Pyne falou com uma voz calma e firme

— A senhora vai se colocar em minhas mãos, e meus honorários

serão de duzentos guinéus.

— Duzentos guinéus!

— Exatamente. A senhora pode pagar isto, Sra. Packington. Pagaria

por uma operação. A felicidade é tão importante quanto a saúde do corpo.

— Suponho que vou pagar depois.

— Pelo contrário — disse o Sr. Parker Pyne. — A senhora vai me

pagar adiantado.

A Sra. Packington se levantou — Não vejo por que...

— A senhora teme comprar gato por lebre? — disse o Sr. Pyne

jovialmente. — Bem, talvez a senhora tenha razão. É muito dinheiro para

arriscar. A senhora tem que confiar em mim. Pagar e correr o risco. São estas

as minhas condições.

— Duzentos guinéus!

— Exatamente. Duzentos guinéus. É muito dinheiro. Bom dia, Sra.

Packington. Me avise se mudar de idéia

— apertou-lhe a mão, sorrindo, imperturbável.

Depois que ela saiu, apertou um botão na sua mesa. Uma moça de

óculos e ar severo respondeu ao chamado.

— Um fichário, por favor, Srta. Lemon. E pode também avisar a

Claude que eu talvez vá precisar dele brevemente.

— Uma nova cliente?

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— Uma nova cliente. Por enquanto ela está relutante, mas vai voltar.

Provavelmente hoje à tarde, lá pelas quatro horas. Pode deixar entrar.

— Esquema A?

— Esquema A, é lógico. É engraçado como todo mundo pensa que o

seu próprio caso é único. Bom, avise Claude. Diga-lhe para não parecer muito

exótico. Nada de perfume, e é melhor ele cortar o cabelo.

Passavam quinze minutos das quatro horas quando a Sra. Packington

entrou de novo no escritório do Sr. Parker Pyne. Tirou da bolsa um livro de

cheques, preencheu um deles e o entregou. Em troca obteve um recibo.

— E agora? — a Sra. Packington olhou esperançosa para ele.

— Agora — disse o Sr. Pyne sorrindo, — a senhora vai voltar para

casa. Pelo primeiro correio de amanhã vai receber algumas instruções que eu

gostaria muito de ver cumpridas.

A Sra. Packington voltou para casa num estado de alegria antecipada.

O Sr. Packington voltou com ar defensivo, pronto para discutir a situação,

caso a cena da manhã fosse reaberta. Ficou aliviado, entretanto, ao ver que a

mulher não estava com espírito combativo. Ela parecia estranhamente

pensativa.

George ficou ouvindo rádio, imaginando se aquela pobre e querida

Nancy consentiria que ele lhe desse um casaco de peles. Ele sabia que ela era

muito orgulhosa. Não queria ofendê-la. Apesar disso, ela se queixara do frio.

Aquele casaco de lã era tão ordinário; nem a protegia do frio. Talvez ele

conseguisse convencê-la, talvez...

Breve eles poderiam novamente sair juntos à noite. Era um prazer sair

com uma moça assim e levá-la a um dos restaurantes da moda. Ele se sentia

invejado por muitos rapazes. Ela era extraordinariamente bonita. E gostava

dele. Para ela — como já lhe dissera — ele não era nem um pouquinho velho.

Levantou os olhos e percebeu o olhar da mulher. Sentiu-se

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repentinamente culpado e isto o aborreceu. Que mulher intolerante era Maria!

Negava-lhe até um pinguinho de felicidade.

Desligou o rádio e foi para a cama.

A Sra. Packington recebeu duas cartas inesperadas, na manhã seguinte.

Uma delas era um impresso confirmando uma hora marcada num conhecido

especialista de beleza. A segunda marcava uma hora com uma costureira. A

terceira era do Sr. Parker Pyne, solicitando o prazer de sua companhia para

um almoço no Ritz naquele dia.

O Sr. Packington avisou que talvez não pudesse vir jantar em casa,

pois tinha que ver um homem de negócios. A Sra. Packington abanou a

cabeça distraidamente, e ele saiu de casa satisfeito por ter escapado da

tempestade.

O especialista de beleza foi admirável: — Mas que negligência! Por

quê? Por que, Madame? Há muito tempo que a senhora devia ter feito alguma

coisa. Felizmente, ainda não é tarde!

Uma porção de coisas foram aplicadas sobre o seu rosto; ele foi

massageado, apertado e tratado a vapor. Aplicaram-lhe uma máscara de lama.

Aplicaram-lhe cremes diversos. Passaram pó-de-arroz. E depois houve uma

série de retoques finais.

Por fim lhe deram um espelho. Acho que estou mesmo parecendo mais moça,

pensou ela.

A hora com a costureira foi igualmente excitante. Saiu de lá se

sentindo elegante, atualizada, no rigor da moda.

A uma e meia da tarde, a Sra. Packington chegava ao Ritz. O Sr.

Parker Pyne, impecàvelmente vestido, e envolto numa aura de serena

confiança, estava esperando por ela.

—Encantadora — disse, com um olho experiente a examiná-la da

cabeça aos pés. — Me antecipei e lhe encomendei um White Lady.

A Sra. Packington não tinha o hábito de tomar coquetéis, mas não

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disse nada. Enquanto bebia cautelosamente o excitante líquido, ouvia o seu

paciente instrutor.

— Seu marido, Sra. Packington — disse o Sr. Pyne, —vai ser

obrigado a ficar em guarda. Compreendeu? Se interessar. Para ajudá-la, vou

apresentá-la a um jovem amigo meu. A senhora vai almoçar com ele hoje.

Neste instante entrou um rapaz, olhando de um lado para outro. Ao

avistar o Sr. Parker Pyne, caminhou em sua direção, com elegância.

— O Sr. Claude Luttrell, Sra. Packington.

O Sr. Claude Luttrell talvez ainda não tivesse trinta anos. Era atraente,

desembaraçado, impecàvelmente vestido, extremamente bonito.

— Muito prazer em conhecê-la — murmurou.

Três minutos depois, a Sra. Packington estava frente a frente com seu

novo mentor, numa pequena mesa para dois.

Estava um pouco tímida no início, mas o Sr. Luttrell logo a colocou à

vontade. Ele conhecia Paris muito bem e passara um bom tempo na Riviera.

Perguntou à Sra. Packington se ela gostava de dançar. Ela disse que gostava,

mas quase não saía para dançar, atualmente, porque o Sr. Packington não

gostava muito de sair de noite.

— Mas ele não pode ser tão cruel assim, a ponto de prendê-la em casa

— disse Claude Luttrell, sorrindo e mostrando uma deslumbrante fileira de

dentes. — As mulheres não devem mais tolerar o ciúme masculino, em nossos

dias.

A Sra. Packington quase disse que o problema não era o ciúme, mas as

palavras não saíram. Apesar de tudo, a idéia era agradável.

Claude Luttrell falou superficialmente de boates. Ficou combinado

que na noite seguinte a Sra. Packington e o Sr. Luttrell iriam conhecer o

popular Arcanjo Menor.

A Sra. Packington se sentia um pouco nervosa ante a perspectiva de

anunciar o fato ao marido. Imaginou que George ia achar muito estranho e

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talvez ridículo. Mas teve sorte. Estava muito nervosa para falar com ele

durante o café da manhã, e lá pelas duas horas da tarde um telefonema lhe

informou que o Sr. Packington ia jantar na cidade.

A noitada foi um sucesso. A Sra. Packington dançava muito bem

quando era moça, e, sob a sábia orientação de Claude Luttrell, não demorou a

aprender os passos modernos. Ele lhe deu os parabéns pelo vestido e pelo

penteado (tinham-lhe marcado uma hora naquela manhã com um dos

cabeleireiros da moda). Ao se despedir, ele beijou a sua mão de uma maneira

eletrizante. Há muitos anos que a Sra. Packington não passava uma noite tão

divertida.

Seguiram-se dez dias fantásticos. A Sra. Packington almoçava,

lanchava, dançava tango, jantava, valsava e ceava. Ficou sabendo tudo sobre a

triste infância de Claude Luttrell. Conheceu as desafortunadas circunstâncias

nas quais o pai perdera todo o seu dinheiro. Ouviu a história do trágico

romance que lhe amargurava os sentimentos em relação às mulheres em geral.

No décimo primeiro dia, eles foram dançar no Almirante Vermelho. A

Sra. Packington viu seu marido antes que ele a visse. George estava com a

moça do escritório. Os dois casais estavam dançando.

— Olá, George — disse baixinho a Sra. Packington, quando passou

por ele.

Foi com certa satisfação que ela viu o rosto de seu marido ficar

primeiro vermelho e depois roxo de espanto. Além do espanto, havia uma

expressão de quem descobre um erro.

A Sra. Packington se sentiu divertidamente dona da situação. Coitado

do George! De volta à sua mesa, ela se pôs a observá-lo. Como estava gordo,

como estava careca, como cambaleava! Ele dançava como há uns vinte anos

atrás. Coitado, que força estava fazendo para parecer jovem! E aquela pobre

moça que dançava com ele e fingia que estava gostando. Ela agora parecia

muito chateada, o rosto por cima do ombro dele para que ele não pudesse vê-

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lo.

A Sra. Packington pensou muito satisfeita que a sua situação era bem

mais invejável. Olhou de relance para o maravilhoso Claude, agora

taticamente em silêncio. Como ele a compreendia bem! Nunca discordava dela

— os maridos sempre discordam depois de alguns anos.

Tornou a olhar para ele. Seus olhos se encontraram. Ele sorriu; seus

lindos olhos escuros, tão melancólicos, tão românticos, olharam ternamente

dentro dos dela.

— Vamos dançar outra vez? — murmurou ele.

Dançaram novamente. Era o paraíso.

Ela sentia o olhar apoplético de George a segui-los. A idéia tinha sido

dela, ela se lembrava, de provocar ciúmes em George. Há tanto tempo! Mas

agora ela não queria mais despertar os ciúmes de George. Poderia aborrecê-lo.

Por que aborrecê-lo, afinal de contas? Coitadinho! Todo mundo estava tão

feliz...

O Sr. Packington já estava em casa há uma hora quando a Sra.

Packington entrou. Ele parecia confuso e inseguro.

— Hum — resmungou. — Afinal você chegou.

A Sra. Packington atirou longe um xale que lhe tinha custado quarenta

guinéus, naquela mesma manhã. — É — disse sorrindo, — cheguei.

George tossiu — Er... foi estranho encontrar você.

— Foi mesmo, não é? — disse a Sra. Packington.

— Eu... bem, eu pensei que seria um gesto delicado da minha parte

levar aquela moça a algum lugar. Ela tem tido tantos problemas em casa. Eu

pensei... bem, delicadeza, você compreende.

A Sra. Packington fez que sim com a cabeça. Pobre George —

saltitando e se entusiasmando e tão satisfeito consigo mesmo.

— Quem era aquele camarada que estava com você? Eu não o

10

conheço, conheço?

— Chama-se Luttrell. Claude Luttrell.

— Como foi que você o conheceu?

— Oh, alguém me apresentou — disse a Sra. Packington vagamente.

— É esquisito você sair dançando por aí... na sua idade. Não vá ficar

ridícula, minha querida.

A Sra. Packington sorriu. Ela estava se sentindo muito satisfeita, com

o mundo inteiro paria dar a resposta óbvia. — Uma mudança é sempre

agradável — disse amistosamente.

— Você precisa ter cuidado, sabe? Há uma porção destes dançarinos

profissionais por aí. Mulheres de meia-idade às vezes fazem papéis ridículos.

Estou só lhe avisando, minha cara. Não gostaria de ver você fazendo o que

não deve.

— Acho muito bom o exercício — disse a Sra. Packington.

— Hum... bom...

— Espero que você também ache — disse simpática a Sra.

Packington. — O importante mesmo é a gente se sentir feliz, não é? Me

lembro que você me disse isso há uns dez dias.

O marido olhou rapidamente para ela, mas não havia nem uma ponta

de sarcasmo na sua expressão. Ela bocejou.

— Vou me deitar. Antes que eu me esqueça, George, tenho sido

horrivelmente extravagante neste últimos dias. Algumas contas terríveis vão

chegar. Você não se importa, não é?

— Contas? — perguntou o Sr. Packington.

— É. Vestidos. E massagens. E tratamento para os cabelos.

Horrivelmente extravagante... mas eu sei que você não se importa...

Ela subiu as escadas. O Sr. Packington ficou de boca aberta. Maria

tinha sido maravilhosamente gentil em relação ao que acontecera aquela noite;

parecia não ter dado a menor importância. Mas era uma pena que de repente

11

ela começasse a gastar dinheiro. Maria — um modelo de economia!

Mulheres! George Packington balançou a cabeça. As confusões em

que os irmãos daquela garota se tinham metido nos últimos dias... Bem, ele

continuava disposto a ajudá-la. Apesar de tudo... bolas! As coisas já não

estavam indo assim tão bem lá pela cidade.

Suspirando, o Sr. Packington subiu as escadas devagar.

Às vezes, só mais tarde prestamos atenção a palavras que na hora não

pareceram importantes. Só na manha seguinte certas palavras que o Sr.

Packington disse entraram realmente na consciência de sua mulher.

Dançarinos profissionais; mulheres de meia-idade; cair no ridículo.

A Sra. Packington era uma mulher corajosa. Sentou-se e enfrentou os

fatos. Um gigolô. Ela sempre leu histórias de gigolôs nos jornais. Leu também

a respeito de loucuras cometidas por mulheres de meia-idade.

Claude seria um gigolô? Ela calculou que sim. Mas então como é que

os gigolôs eram sempre pagos e era Claude quem pagava todas as despesas?

Sim, mas era o Sr. Parker Pyne quem pagava, não Claude — ou melhor, eram

os seus próprios duzentos guinéus.

Seria ela uma estúpida mulher de meia-idade? Será que Claude Luttrell

ria dela pelas costas? A este pensamento seu rosto ficou vermelho.

Bem, e se fosse mesmo? Claude era um gigolô. Ela era uma ridícula

mulher de meia-idade. Logo ela devia lhe dar um presente. Uma cigarreira de

ouro, qualquer coisa no gênero.

Um impulso excêntrico levou-a até o Asprey's. Escolheu e comprou

uma cigarreira. Ia se encontrar com Claude para almoçar no Claridge.

Quando tomavam o café ela mexeu na bolsa — Um presentinho —

murmurou.

Ele olhou para ela, franziu as sobrancelhas — Para mim?

— É. Eu... espero que você goste. Ele pegou a cigarreira e a empurrou

violentamente para o outro lado da mesa — Por que você me deu isso?

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Não quero. Leve de volta. Leve de volta! — estava zangado. Seus

olhos escuros faiscavam.

— Desculpe — murmurou ela, e a colocou de volta na bolsa.

Houve um certo constrangimento entre os dois naquele dia.

Na manhã seguinte ele telefonou — Preciso ver você. Posso ir à sua

casa hoje à tarde?

Ela marcou para as três da tarde.

Claude chegou muito pálido, muito tenso. Cumprimentaram-se. O

constrangimento se tornou mais evidente.

De repente ele se pôs de pé e ficou em frente dela — O que é que

você pensa que eu sou? Foi isso que eu vim lhe perguntar. Nós temos sido

amigos, não é mesmo? Sim, amigos... Mas apesar de tudo você pensa que eu

sou... é, é isso mesmo, um gigolô. Uma criatura que vive às custas de

mulheres. É isso que você pensa, não é?

— Não, não!

Ele interrompeu seu protesto. Seu rosto estava ainda mais pálido — É

isso mesmo que você pensa! Bom, é verdade. Foi isso que eu vim dizer. É

verdade! Eu recebi ordens para sair com você, para lhe fazer a corte, fazer vo-

cê esquecer seu marido. É este o meu emprego. Um emprego abjeto, não é?

— Por que você me contou isso tudo? — perguntou ela.

— Porque eu estou cheio dessa história toda. Não posso mais

continuar. Não com você. Você é diferente. Você é o tipo da mulher em quem

eu pude confiar, acreditar, gostar. Você vai pensar que eu estou dizendo isso

porque é parte do negócio — aproximou-se dela. — Vou lhe provar que não

é verdade. Vou-me embora por sua causa. Vou tentar ser um homem de

verdade, em vez da criatura repulsiva que fui até hoje.

De repente ele a tomou nos braços. Seus lábios se apertaram contra os

dela. Soltou-a e se afastou um pouco.

— Adeus. Sempre fui abjeto. Sempre. Mas juro que de hoje em diante

13

vai ser diferente. Se lembra que você falou uma vez que gostava de ler os

Anúncios Pessoais? No dia de hoje, todos os anos, você vai encontrar um re-

cado meu dizendo que eu sempre me lembro de você e que continuo no bom

caminho. Você vai ver então o quanto significou para mim. Mais uma coisa.

Não quero nada de você. Mas quero que guarde alguma coisa minha — tirou

do dedo um anel de ouro. — Foi de minha mãe. Quero que você fique com

ele. Agora, adeus...

George Packington voltou cedo para casa. Encontrou a mulher

sentada em frente da lareira com um olhar diferente. Falou gentilmente com

ele, mas parecia estranha e alheia à sua presença.

— Olhe aqui, Maria — começou ele, aos arrancos. — Aquela moça.

— Sim, querido?

— Eu... eu nunca quis aborrecer você, sabe. Com ela. Não há nada.

— Eu sei. Fui uma boba. Pode vê-la quantas vezes quiser, se isto faz

você ficar feliz.

Tais palavras deviam ter alegrado George Packington, é lógico. Por

mais estranho que possa parecer, elas o aborreceram. Como podia ele se

divertir saindo com a moça, se a sua própria mulher praticamente o obrigava a

isto? Francamente isso nem era decente! Toda aquela sensação de poder, de

homem forte que brincava com fogo, se desvaneceu e morreu

melancòlicamente. De repente, George Packington se sentiu cansado,

esvaziado. A garota era muito esperta...

— Nós podíamos sair um pouco, se você quisesse, Maria — sugeriu

timidamente.

— Não se preocupe comigo. Estou muito feliz.

— Mas eu gostaria de levar você para passear; podíamos ir para a

Riviera.

A Sra. Packington sorriu levemente.

Pobre George... Ela se orgulhava dele. Era um velhinho tão terno!

14

Não havia na vida um segredo tão lindo quanto o dela. Ela sorriu ainda com

mais ternura.

— Seria ótimo, querido — disse.

O Sr. Parker Pyne estava falando com a Srta. Lemon — Despesas

com os divertimentos?

— Cento e duas libras, quatorze shillings e seis pence.

A porta abriu e entrou Claude Luttrell. Estava com um ar amuado.

— Bom dia, Claude — disse Parker Pyne. — Foi tudo

bem?

— Acho que sim.

— O anel? Qual foi o nome que você mandou gravar, por falar nisso?

— Matilda — disse Claude taciturno. — 1899.

— Ótimo. E as palavras do anúncio?

— Continuo bem. Ainda me lembro de você. Claude.

— Tome nota, por favor, Srta. Lemon. Na coluna dos Anúncios

Pessoais. No dia três de novembro... deixe ver... despesas de cento e duas

libras, quatorze shillings e seis pence. Por dez anos, acho. Isto nos deixa um

lucro liquido de noventa e duas libras, dois shillings e quatro pence. Correto.

Perfeitamente correto.

A secretária saiu.

— Olhe aqui — explodiu Claude. — Não gosto disso. É um jogo

sujo.

— Meu rapazinho!

— Jogo sujo. Uma mulher decente... uma mulher direita. Contar todas

estas mentiras. Enganá-la com estas histórias sentimentais, que horror. Isso

me deixou doente!

Parker Pyne endireitou os óculos e olhou para Claude com uma

espécie de interesse científico. — Meu caro — disse secamente, — não me

recordo de nenhum momento em que a sua consciência o tenha preocupado

15

em toda a sua... ahn... notória carreira... Seus negócios na Riviera foram

particularmente inescrupulosos, e a sua exploração da Sra. Hattie West,

mulher do Rei dos Pepinos da Califórnia, foi notável, pelo instinto mercenário

e empedernido que você demonstrou.

— Bem, estou começando a me sentir diferente — resmungou

Claude. — Não é direito... esse tipo de jogo.

Parker Pyne falou num tom de voz como o do professor que

repreende o aluno favorito — Claude, meu caro, você praticou uma boa ação.

Deu a uma mulher infeliz o que todas as mulheres precisam — um romance.

Uma mulher pode destruir uma paixão e não aproveitar nada de bom dela,

mas um romance pode ser guardado com carinho e relembrado por muitos

anos. Eu conheço a natureza humana, meu jovem, e posso lhe garantir que

uma mulher alimentará um romance por muitos anos — pigarreou. —

Cumprimos com pleno êxito nossa missão com a Sra. Packington.

— Bem — murmurou Claude. — Mas isso não me agrada — e

deixou a sala.

Parker Pyne apanhou um fichário novo numa gaveta. Escreveu:

Curiosos vestígios de consciência num gigolô empedernido. Nota: acompanhar o desenvolvi-

mento.

2 - O CASO DO SOLDADO INSATISFEITO2

MAJOR WILBRAHAM hesitou em frente à porta do escritório de Parker

Pyne para ler — não pela primeira vez — o anúncio do matutino que o

trouxera até ali. Era muito simples:

CONFIDENCIAL

VOCÊ É FELIZ? SE NÃO FOR, CONSULTE O SR. PARKER PYNE.

2 The discontented soldier.

16

RUA RICHMOND, 17.

O Major respirou fundo e bruscamente avançou pela porta giratória

do escritório. Uma jovem de maneiras simples levantou os olhos da máquina

de escrever e olhou interrogativamente para ele.

— O Sr. Parker Pyne? — disse o Major Wilbraham, meio

envergonhado.

— Por aqui, por favor.

Ele a seguiu até um escritório interno —: até chegarem à presença do

afável Sr. Parker Pyne.

— Bom dia — disse o Sr. Pyne. — Sente-se, por favor. E me diga o

que posso fazer pelo senhor.

— Meu nome é Wilbraham... — começou o outro.

— Major? Coronel? — perguntou o Sr. Pyne.

— Major.

— Ah! E voltou há pouco tempo do exterior? índia? África Oriental?

— África Oriental.

— Um lugar esplêndido, imagino. Então, está de volta ao lar... e não

gostou daqui. É este o problema?

— O senhor está absolutamente certo. Como foi que soube...

O Sr. Parker Pyne balançou a mão, num gesto imponente — Meu

negócio é saber. Veja o senhor que durante trinta e cinco anos da minha vida

eu só fiz compilar estatísticas numa repartição do Governo. Agora que me

aposentei, me ocorreu a idéia de aproveitar, de uma maneira diferente, toda a

experiência que adquiri. É tudo muito simples. As desgraças todas podem ser

classificadas em cinco tipos principais — nem mais nem menos, posso lhe

garantir. Uma vez conhecida a causa de uma doença, a cura passa a ser

perfeitamente possível. Eu me coloco no papel de um médico. Primeiro o

médico diagnostica o mal do paciente, depois prescreve o tratamento. Há

casos em que nenhum tratamento dá resultado. Quando é assim, digo com

17

toda a franqueza que não posso fazer nada. Mas se eu tomar conta do caso, a

cura é praticamente garantida. Eu lhe garanto, Major Wilbraham, que noventa

e seis por cento dos antigos construtores do Império — que é como eu os

chamo — são infelizes. Eles trocaram uma vida ativa, uma vida cheia de

responsabilidades, uma vida de possíveis perigos, por... pelo quê? Restrições

mesquinhas, um clima melancólico e um sentimento generalizado de que vira-

ram uma espécie de peixe fora dágua.

— Tudo verdade — disse o Major. — É o tédio que me persegue. O

tédio e esta tagarelice sem fim sobre os probleminhas fúteis de um vilarejo.

Mas o que é que eu posso fazer? Tenho um pouco de dinheiro além da minha

pensão. Tenho uma pequena casa de campo perto de Cobham. Não posso me

dar ao luxo de caçar, atirar ou pescar. Não sou casado. Meus vizinhos são

todos pessoas simpáticas, mas não têm nenhuma idéia do mundo além desta

ilha.

— Em suma, o senhor acha que a vida é insípida — disse o Sr. Parker

Pyne.

— Tremendamente insípida.

— Gostaria de emoções, de perigos, talvez?

O militar deu de ombros — Não, nesta terrinha não acontecem coisas

desse tipo.

— Perdão — disse com seriedade o Sr. Pyne. — É aí que o senhor se

engana. Há muito perigo, muita emoção, aqui mesmo em Londres, se o

senhor souber onde procurar. Acho que o senhor conhece a nossa vida

inglesa apenas na sua superfície, calma, inofensiva. Mas existe outra faceta. Se

quiser vê-la, eu lhe mostrarei o outro lado.

O Major Wilbraham olhou pensativo para ele. Havia algo

tranqüilizador no Sr. Pyne. Era forte, para não dizer gordo; tinha uma cabeça

calva bem proporcionada, óculos de lentes grossas e pequenos olhos

brilhantes. E havia em torno dele uma aura... uma aura de confiança.

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— Devo lhe avisar, entretanto — continuou o Sr. Pyne, — que haverá

um elemento de risco.

Os olhos do militar faiscaram — Não há problemas — disse. E

bruscamente: — E... seus honorários?

— Meus honorários — disse Parker Pyne — são de cinqüenta libras,

adiantadas. Se dentro de um mês o senhor estiver sentindo o mesmo tédio, eu

lhe devolvo o dinheiro.

Wilbraham pensou um momento.

— Está certo — disse por fim. — Concordo. Vou lhe dar um cheque

agora mesmo.

A transação foi completada, Parker Pyne apertou um botão em sua

mesa.

— É uma hora da tarde — disse. — Vou lhe pedir para levar uma

jovem para almoçar.

A porta abriu. — Ah, Madeleine, minha querida, deixe que eu lhe

apresente o Major Wilbraham, que vai levá-la para almoçar.

Wilbraham piscou ligeiramente, o que era bastante justificável. A moça

que entrou na sala era uma morena langorosa, com olhos maravilhosos e

longas pestanas negras, a pele perfeita e uma boca voluptuosa e muito ver-

melha. Seu vestido requintado destacava a graça e a leveza de seu corpo. Da

cabeça aos pés ela era perfeita.

— Ahn... prazer — disse o Major Wilbraham.

— Miss de Sara — disse o Sr. Parker Pyne.

— Muito gentil da sua parte — murmurou Madeleine de Sara.

— Fiquei com o seu endereço — anunciou o Sr. Pyne. — Amanhã de

manhã o senhor receberá minhas novas instruções.

O Major Wilbraham saiu com a encantadora Madeleine.

Eram três horas da tarde quando Madeleine voltou. Parker Pyne

19

levantou a cabeça — Como foi? — perguntou.

Madeleine fez que não — Está com medo de mim — disse. — Pensa

que sou uma mulher fatal.

— Era o que eu calculava — disse Parker Pyne. — Cumpriu as

instruções?

— Cumpri. Conversamos sobre as pessoas das outras mesas. O tipo

que ele gosta é loura, olhos azuis, ligeiramente franzina, não muito alta.

— Deve ser fácil — disse o Sr. Pyne. — Vá me buscar o Esquema B e

veja o que temos em estoque no momento

— correu o dedo sobre uma lista e parou na altura de um nome. —

Freda Clegg. É, acho que Freda Clegg é o ideal. É melhor ir falar com a Sra.

Oliver.

No dia seguinte o Major Wilbraham recebeu um bilhete:

“Na segunda-feira de manhã, às onze horas, vá até Eaglemont, na Rua

Friars, em Hampstead, e pergunte pelo Sr. Jones. Apresente-se como o

representante da Companhia de Exportação Guava.”

Na segunda-feira (que por coincidência era feriado bancário), o Major

Wilbraham dirigiu-se obedientemente para Eaglemont, Rua Friars. Dirigiu-se

para lá, disse eu, mas não chegou lá. Pois antes de chegar aconteceu uma outra

coisa.

O mundo inteiro — com as respectivas esposas — parecia estar a

caminho de Hampstead. O Major Wilbraham emaranhou-se em multidões,

quase foi sufocado no metrô e não conseguiu descobrir onde ficava a Rua

Friars.

A Rua Friars era um beco sem saída, uma estrada abandonada e cheia

de buracos, com casas de ambos os lados das calçadas. Eram casas grandes

que pareciam ter conhecido dias melhores e agora estavam meio abandonadas.

Wilbraham andou pelas calçadas prestando atenção nos nomes semi-

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apagados nos portões, quando de repente ouviu alguma coisa e parou, atento.

Era uma espécie de soluço, um grito meio abafado.

Escutou outra vez o mesmo barulho, mas desta vez reconheceu

levemente a palavra “Socorro!”. Vinha de dentro da casa em frente à qual ele

estava passando.

Sem um instante de hesitação, o Major WilL.aham empurrou o portão

vacilante e correu a toda velocidade pelo caminho coberto de ervas daninhas.

No meio de uns arbustos uma moça lutava em desespero contra dois negros

enormes. Lutava com bravura, torcendo-se e chutando-os. Um dos negros lhe

tapava a boca com a mão, a despeito de seus esforços furiosos para

desvencilhar a cabeça.

Empenhados na luta corri a moça, os negros não perceberam a

aproximação de Wilbraham. A primeira coisa que perceberam foi um violento

soco no queixo do homem que cobria a boca da moça e que caiu para trás.

Surpreendido, o outro abandonou a moça e se virou. Wilbraham esperava por

ele. Uma vez mais seu soco partiu e o outro negro caiu de costas. Wilbraham

virou-se para o primeiro homem, que estava se aproximando dele por trás.

Mas para os dois aquilo tinha sido suficiente. O segundo levantou

engatinhando, sentou-se, pôs-se de pé num pulo e correu para o portão. O

companheiro o seguiu. Wilbraham se preparou para persegui-los, mas mudou

de idéia e se virou para a moça, que estava recostada numa árvore, ofegante.

— Oh, muito obrigada! — falou ela, com uma voz entrecortada. —

Foi horrível!

Pela primeira vez, o Major Wilbraham viu quem era a pessoa que ele

tão oportunamente salvara. Era uma jovem de uns vinte e um a vinte e dois

anos, loura, de olhos azuis, de uma beleza tranqüila.

— Se o senhor não tivesse chegado! — suspirou ela.

— Ora, ora — disse o Major Wilbraham para acalmá-la. — Agora está

tudo bem. Acho melhor nós irmos embora, eles podem voltar.

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Um leve sorriso surgiu nos lábios da garota — Não acredito que eles

voltem... depois do que o senhor fez. Oh, foi maravilhoso da sua parte!

O Major Wilbraham ficou envergonhado com o olhar de admiração

da moça — Não foi nada — disse, confuso. — Acontece todo dia. Estavam

aborrecendo a senhora. Olhe, será que pode andar apoiada no meu braço? Foi

um choque muito desagradável, eu sei.

— Já estou bem — disse a moça. Mas aceitou a proteção do braço.

Ainda estava toda trêmula. Olhou de relance para trás quando saíram pelo

portão — Não entendo — murmurou ela. — Esta casa está visivelmente

vazia.

— É, está vazia mesmo — concordou o Major, reparando nas janelas

fechadas e na aparência de abandono.

— Mas Whitefriars é aqui — ela apontou o nome meio apagado no

portão. — E Whitefriars era o lugar onde eu devia vir.

— Não fique preocupada com isso — disse Wilbraham. — Em dois

minutos nós pegamos um táxi e vamos a algum lugar tomar uma xícara de

café.

No fim da rua entraram numa outra bem mais movimentada e, por

sorte, um táxi tinha acabado de deixar alguém em uma das casas. Wilbraham

chamou o táxi, deu um endereço ao motorista e foram embora.

— Não fale — advertiu à companheira. — Fique recostada. Você

passou por uma experiência desagradável.

Ela sorriu agradecida.

— Por falar nisto... ahn... meu nome é Wilbraham.

— O meu é Clegg — Freda Clegg.

Dez minutos depois, Freda estava tomando um café quente e olhando

agradecida para o seu salvador do outro lado da mesa.

— Parece até um sonho — disse ela. — Um pesadelo — estremeceu.

— E dizer que ainda há pouco eu estava pedindo a Deus que acontecesse

22

alguma coisa... qualquer coisa! É, eu não gosto de aventuras!

— Conte como foi que aconteceu.

— Bom, para contar tudo, acho que precisaria falar uma porção de

coisas sobre mim mesma.

— ótimo assunto — disse Wilbraham balançando a cabeça.

— Sou órfã. Meu pai era capitão. Morreu quando eu tinha oito anos.

Minha mãe há três anos. Trabalho no centro da cidade. Na Companhia de

Gás, como recepcionista. Uma noite da semana passada, ao voltar para casa,

encontrei um senhor esperando por mim. Era um advogado, um Sr. Reid, de

Melbourne. Foi muito delicado e me fez várias perguntas sobre a minha

família. Explicou que tinha conhecido meu pai há muitos anos. Na verdade,

eles fizeram algumas transações juntos. Foi então que ele me contou o

objetivo de sua visita. “Srta. Clegg”, disse ele, “tenho razões para acreditar que

a senhorita poderá ser beneficiada com os resultados de uma transação

comercial realizada por seu pai muitos anos antes de sua morte.” Fiquei muito

surpresa, é claro. “É provável que a senhorita nunca tenha ouvido falar dessa

história” — explicou ele — “pois John Clegg nunca levou o negócio muito a

sério, acho eu. Mas tudo se concretizou de modo inesperado. Temo que para

legalizar a sua situação será necessário ter certos documentos. Esses papéis

devem fazer parte do inventário de seu pai, e talvez até já tenham sido

destruídos, na suposição de que não tinham nenhum valor. A senhorita

guardou alguns papéis de seu pai?”

— Expliquei que minha mãe guardava várias coisas do meu pai numa

velha arca. Eu já tinha dado uma olhada, mas não descobri nada de

interessante. “Dificilmente a senhorita reconheceria a importância destes

documentos” disse ele sorrindo. Fui até à arca, apanhei alguns papéis que

estavam lá e mostrei a ele. Examinou-os, mas disse que era impossível assim

de repente saber quais os que estariam ou não ligados ao assunto em questão.

Ele os levaria e se comunicaria comigo se aparecesse alguma coisa.

23

— Pelo último correio de sábado, recebi uma carta que sugeria que eu

fosse à casa dele para discutirmos o assunto. Me deu este endereço:

Whitefriars, Rua Friars, Hampstead. A hora marcada era quinze para as onze.

Me atrasei um pouco procurando o lugar. Entrei com pressa pelo portão e

estava andando para a casa quando de repente aqueles dois homens horríveis

pularam em cima de mim de dentro das moitas. Nem tive tempo de gritar.

Um deles pôs a mão na minha boca. Consegui dar um arranco com a cabeça e

gritei por socorro. Felizmente o senhor me ouviu. Se não fosse isso... — seu

olhar era mais eloqüente que quaisquer outras palavras.

— Felizmente eu estava passando por ali. Juro que eu queria apanhar

aqueles dois. Suponho que você nunca os tenha visto antes.