O Ermitão de Muquém por Bernardo Guimarães - Versão HTML

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Universidade da Amazônia

O Ermitão de

Muquém

de Bernardo Guimarães

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O Ermitão do Muquém

de Bernardo Guimarães

AO LEITOR

Cumpre-me dizer duas palavras ao leitor a respeito da composição do presente romance, o qual (seja dito de passagem) repousa sobre uma tradição real mui conhecida na província de Goiás.

Consta este romance de três partes muito distintas, em cada uma das quais forçoso me foi empregar um estilo diferente, visto como o meu herói em cada uma delas se vê colocado em uma situação inteiramente nova, inteiramente diversa das anteriores.

A primeira parte está incluída no Pouso primeiro, e é escrita no tom de um romance realista e de costumes; representa cenas da vida dos homens do sertão, seus folguedos ruidosos e um pouco bárbaros, seus costumes licenciosos, seu espírito de valentia e suas rixas sanguinolentas. É verdade que o meu romance pinta o sertanejo de há um século; mas deve-se refletir que é só nas cortes e nas grandes cidades que os costumes e usanças se modificam e transformam de tempos em tempos pela continuada comunicação com o estrangeiro e pelo espírito de moda. Nos sertões, porém, costumes e usanças se conservam inalteráveis durante séculos, e pode-se afirmar sem receio que o sertanejo de Goiás ou de Mato Grosso de hoje é com mui pouca diferença o mesmo que o do começo do século passado.

Do meio dessa sociedade tosca e grosseira do sertanejo o nosso herói passa a viver vida selvática no seio das florestas, no meio dos indígenas. Aqui força é que o meu romance tome assim certos ares de poema. Os usos e costumes dos povos indígenas do Brasil estão envoltos em trevas, sua história é quase nenhuma, de suas crenças apenas restam noções isoladas, incompletas e sem nexo. O realismo de seu viver nos escapa, e só nos resta o idealismo, e esse mesmo mui vago, e talvez em grande parte fictício. Tanto melhor para o poeta e o romancista; há largas enchanças para desenvolver os recursos de sua imaginação. O lirismo, pois, que reina nesta segunda parte, a qual abrange os Pousos segundo e terceiro, é muito desculpável; esse estilo um pouco mais elevado e ideal era o único que quadrava aos assuntos que eu tinha de tratar, e às circunstâncias de meu herói.

O misticismo cristão caracteriza essencialmente a terceira parte, que compreende o quarto e último Pouso.

Aqui há a realidade das crenças e costumes do cristianismo, unida à ideal sublimidade do assunto. Reclama, pois esta parte um outro estilo, um tom mais grave e solene, uma linguagem como essa que Chateaubriand e Lamartine sabem falar quando tratam de tão elevado assunto.

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Bem sei que a empresa é superior às minhas forças; bom ou mau, porém, aí entrego ao público o meu romance; ele que o julgue.

Ouro Preto, 10 de novembro de 1858

O AUTOR

INTRODUÇÃO

As peregrinações devotas ou romarias são de uso imemorial em todos os países católicos. Ora penduradas no cume de um rochedo escarpado e quase inacessível, ora fundadas no seio de uma gruta natural, ou em algum vale escuro e triste em meio de florestas ou montanhas alterosas, em toda a parte do mundo cristão encontram-se disseminadas aqui e acolá essas pequenas capelas ou ermidas, que de ordinário devem a sua fundação a alguma lenda miraculosa, e que em épocas determinadas atraem a si milhares de romeiros e peregrinos.

Há sem dúvida grande dose de superstição nessas romarias, e o povo as tem feito perder muito da sua importância e prestígio, multiplicando-as infinitamente, instituindo romarias a granel por toda parte; todavia nem por isso deixam de ser uma das usanças mais poéticas e tocantes do cristianismo.

O Rio de Janeiro possui em seus aprazíveis e magníficos arrabaldes mais de uma ermida, que todos os anos em dias certos atrai imenso concurso de romeiros. A nobre e altiva Paulicéa também todos os anos vê saírem de seu seio milhares de habitantes, que em devota romaria vão levar oferendas e votos à milagrosa Nossa Senhora da Penha, que se adora em sua linda capela erigida a duas léguas da cidade em um risonho outeiro, que domina as aprazíveis lezírias por onde remanseia o Tietê.

Em Minas quem não tem ouvido falar no irmão Lourenço, nesse novo Paulo Eremita, que nos fraguedos da Serra do Caraça passou a vida na prática do mais rigoroso ascetismo e da mais austera penitência, e lá num recinto circundado de crespas e alterosas serranias erigiu um templo com a invocação de Nossa Senhora Mãe dos Homens, e lançou os fundamentos da grande instituição do seminário Caraça, que devia servir de núcleo aos filhos de Vicente de Paula para espalharem a luz da instrução e da fé por toda a província?

A capelinha de Nossa Senhora da Lapa, perto do arraial de Antônio Pereira, a duas léguas de distância do Ouro Preto, cavada pela natureza no flanco de uma montanha, é objeto também do fervoroso culto dos fiéis, e da admiração dos curiosos.

Nas altas e escabrosas cumeadas de uma grande cordilheira campeã o arraial de S. Tomé das Letras com suas alvas casinhas, semelhando um bando de brancas pombas pousadas sobre o teto do antigo templo derrocado e denegrido pelo tempo. É crença do povo que o apóstolo S. Tomé viajou e pregou na América, e a alguns sinais parecidos com letras, que se notam em uma pedra, e 3

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que se acredita terem sido ali gravadas pelo apóstolo, deve a povoação o seu nome.

Congonhas do Campo, com sua rica e formosa capela tendo por orago o Sr. Bom Jesus do Matosinho, com seu vistoso adro de escadarias, povoado de profetas de pedra (escultura curiosa de um homem mutilado da mão direita, e que atava ao punho o instrumento com que trabalhava), atrai de imensas distâncias os fiéis, que vêm pedir ao milagroso Jesus a cura de suas enfermidades, ou cumprir piedosas promessas.

Há ainda inúmeras outras romarias disseminadas por toda a extensão do império. A origem da fundação de todas essas capelas é quase sempre a aparição miraculosa da imagem de algum santo no interior de uma caverna, no seio de uma floresta, no leito de um córrego, ou mesmo no côncavo de um tronco. Os filósofos do século, os apóstolos da descrença riem-se com desdém dessas ingênuas e tocantes crenças do povo. Todavia seus engenhosos raciocínios, seus sistemas transcendentes, não podem substituir essa fé viva e singela, que alenta e consola o homem do povo nos trabalhosos caminhos da vida. Embora envolvida no cortejo de mil superstições grosseiras, de mil tradições absurdas, deixemo-lhe essa fé, que o acompanha desde o berço que bebeu com o leite materno, e que o consola em sua hora extrema. Seja embora um erro, é um erro consolador, que em nada prejudica ao indivíduo nem à sociedade; a esses filósofos poderíamos responder parodiando aqueles versos que Camões põe na boca do Adamastor: E que vos custa tê-los nesse engano,

Ou seja sombra, ou nuvem, sonho ou nada?...

Lá bem longe, no coração dos desertos, em uma das mais remotas e despovoadas províncias do Império, existe uma das mais notáveis e concorridas dessas romarias, notável, sobretudo, se atendermos ao sítio longínquo e às enormes distâncias que os romeiros têm de percorrer para chegarem ao solitário e triste vale em que se acha erigida a capelinha de Nossa Senhora da Abadia do Muquém na província de Goiás, cerca de oitenta léguas ao norte da capital e a sete léguas da povoação de S. José de Tocantins, à margem de um pequeno córrego que tem o significativo nome de Córrego das Lágrimas. Das mais remotas paragens acodem romeiros a essa isolada capelinha para implorar à santa o alívio de seus padecimentos e trazer-lhe preciosas oferendas. Durante alguns dias do ano aquele lôbrego e escuro sítio transforma-se em uma ruidosa e festiva povoação; o Muquém é sem contestação a romaria mais concorrida e a mais em voga do interior.

Eis aqui por que ocasião e como nos foi contada a história da fundação dessa importante romaria.

Viajávamos eu e mais dois companheiros vindos de Goiás, e atravessávamos a província de Minas com direção à corte; acabávamos de arranchar em um belo sítio nas campinas graciosamente acidentadas do município do Patrocínio, junto à margem de um ribeirão, chamado Rio de S. João. A paisagem era enlevadora, o tempo magnífico.

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O rio corre escoltado em uma e outra margem por uma orla de árvores alterosas e da mais formosa ramagem; o rancho está situado em um delicioso vargedo cerca de duzentos passos de distância do leito do rio, cujo brando murmúrio... não se ouvia, pois corre manso e silencioso como a jibóia escorregando subtilmente pela vereda úmida dos brejos. O tope escuro dos arvoredos destacava-se vivamente no horizonte inflamado pelos clarões do sol poente.

Enquanto os camaradas tratavam de pensar os animais, e preparava-se a comida frugal e grosseira, mas suculenta, do viajante nessas paragens, eu e meus companheiros pendurávamos dos esteios do rancho a nossa rede, essa companheira inseparável do viandante do sertão, em cujo seio tanto lhe apraz embalar-se descansando das fadigas da jornada, e cismando saudades do seu país. Já reclinados a fumar nosso cigarro nos embalávamos indolentemente passeando olhares saudosos por aqueles horizontes, dos quais meus companheiros se afastavam por pouco tempo, e a que eu no íntimo da alma murmurava um adeus talvez eterno, quando ouvimos na estrada a batida de um animal, e alguns segundos depois um cavaleiro aparece e pára à porta do rancho.

— Senhores, nos diz ele depois de saudar-nos, se ainda há cômodo para alguém no rancho, espero que me permitirão fazer-lhes companhia de pouso por esta noite.

— Com muito gosto; o rancho é de todos os viandantes, e se a sua comitiva não é muito grande, cremos que não ficará mal acomodada.

Em poucos instantes descarregou-se a pequena bagagem do nosso novo companheiro de pouso, o qual, como a sua comitiva constava de duas pessoas, ele e seu camarada, aceitou o convite, que lhe fizemos, de jantar do nosso caldeirão.

Entre pessoas desconhecidas e que nada têm a se dizerem, de ordinário a conversação se trava por perguntas. Começamos pois por perguntar-lhe donde vinha.

— De bem longe, nos respondeu ele; venho da famosa romaria de Nossa Senhora da Abadia do Muquém na província de Goiás, de que os senhores decerto hão de ter notícia.

— Por certo, respondi-lhe eu; muito tenho ouvido falar nessa afamada romaria, e, segundo tenho ouvido dizer, é uma das mais bonitas e concorridas que temos.

— Sem dúvida alguma. É uma maravilha que é preciso ver-se para dela formar uma perfeita idéia. Ainda que não seja por devoção, mesmo por espírito de curiosidade vale a pena fazer-se essa viagem para ver como aquele lugar completamente desabitado no fundo dos sertões, onde apenas existe uma capelinha e um casebre sem habitantes, converte-se de repente em uma cidade cheia de vida, de rumor e movimento, composta de barracas, toldas, carros-de-bois, e ranchos cobertos de capim. Reúne-se ali todos os anos, na época da festa, 5

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uma população de cerca de dez mil pessoas, que vêm de distâncias enormes, até do Pará e Rio Grande do Sul, umas por devoção e para cumprirem promessas, outras para fazerem comércio, pois que nesses dias aquele lugar torna-se uma feira imensa, onde se compra, vende-se e permuta-se toda a qualidade de mercadorias. Aí os sertanejos do norte de Goiás, e das extremas das províncias da Bahia, Pernambuco, Piauí e Maranhão, vão-se prover de fazendas, quinquilharias, ferragens e vinhos que compram aos negociantes de Meia Ponte e Goiás que conduzem daquele ponto essas mercadorias. Os romeiros também vendem aos negociantes destas duas cidades, e aos de Minas e S. Paulo, grande quantidade de couros, solas, animais cavalares, redes fabricadas pelos índios, escravos, ouro em pó e diamantes.

A importância do produto da venda dos donativos feitos pelos romeiros anda anualmente por 8 a 10 contos, não incluindo-se nessa quantia as dádivas em dinheiro, que também muito avultam.

Mas todo esse movimento e animação dura apenas de seis a oito dias, findos os quais desarmam-se as tendas dos peregrinos, e o Muquém, como um acampamento abandonado, volta ao silêncio e à solidão, ficando de novo a capelinha isolada em meio daqueles tristes e silenciosos ermos.

— E o senhor, disse-lhe eu, desculpe-me a curiosidade, o senhor foi lá simplesmente por devoção e romaria, ou também a negócio.

— O meu fim principal, respondeu, foi o cumprimento de uma promessa feita por minha mulher, que se achando atacada de uma enfermidade cruel, que zombava de todos os remédios e da ciência dos mais abalizados médicos, lembrou-se de implorar a Nossa Senhora da Abadia remédio a um mal de cuja cura os homens tinham desesperado. Pouca ou nenhuma fé eu tinha então nessas promessas e romarias, que considerava como superstições próprias somente do vulgo ignorante. Todavia minha mulher mostrava tanta confiança e fé tão viva que eu nem de leve ousei contrariá-la para não agravar-lhe os sofrimentos.

Prometermos vir ambos em romaria à capela de Nossa Senhora da Abadia do Muquém trazer alguns donativos e adorar a santa em seu próprio altar. Desde então começou minha mulher a melhorar sensivelmente, e acha-se hoje quase completamente boa. Por prudência porém assentamos que ela não viesse ainda este ano; vim eu somente cumprir parte das promessas; mas para o ano, se Nossa Senhora da Abadia continuar a proteger-nos, voltarei com ela, e enquanto eu for vivo, todas as vezes que as circunstâncias o permitirem, hei de fazer uma peregrinação ao Muquém, ainda que não seja senão para depor um simples ramo de flores e rezar uma Salve-Rainha aos pés daquela milagrosa Senhora.

— Muito se fala por toda a parte, repliquei eu, nos milagres de Nossa Senhora da Abadia do Muquém; mas o que acho aí de mais notável e singular é 6

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que fossem edificar essa capela e fundar essa romaria lá no fundo de um sertão remoto, podendo ser erigida em qualquer localidade mais vizinha de povoados.

— Essa localidade não foi escolhida por ninguém, e segundo conta a lenda, foi indicada pelo céu para nela se edificar a capelinha que aí existe. O senhor, pelo que vejo, não sabe a história de sua fundação.

— Não, senhor; apenas tenho ouvido alguma coisa de uns e outros a esse respeito muito por alto e vagamente.

— Pois não deixa de ser curiosa e interessante essa história; e se não se enfadam de escutar-me, eu a contarei com muito gosto, posto que seja algum tanto longa.

— Ainda que a narração tenha de durar a noite inteira, não nos enfadará, e o escutaremos com muito prazer. Da minha parte perderia de bom grado duas noites de sono só para ouvir essa história.

A proposição do viajante foi aceita pois por mim e por meus companheiros com o mais vivo prazer. De feito, quem não gostará, ao descair de uma noite pura e silenciosa, em um aprazível e tranqüilo pouso em meio das solidões, recostado preguiçosamente em uma rede a fumar um bom cigarro depois de ter saboreado uma xícara de café, quem não gostará de escutar a narração de uma lenda popular?

O sol já tinha desaparecido inteiramente do horizonte; sombra, fresquidão e melancolia desciam sobre a terra no manto cinzento do crepúsculo.

O nosso jantar estava pronto; improvisou-se a mesa sobre algumas canastras reunidas, em torno das quais cada um acomodou-se do melhor modo que pôde, e serviu-se o jantar, que consistia no infalível e patriarcal feijão com toucinho, lingüiças assadas, arroz e outras coisas de que já me não lembro, regando-se tudo com um cálix de aguardente de cana, que a natureza parece ter criado de propósito nesses lugares para cortar os maus efeitos desses alimentos pesados e gordurosos. Por fim tomou-se o café, não essa tintura negra e detestável que se serve por aí nesses hotéis e hospedarias com o nome de café, mas o verdadeiro café aromático e balsâmico, tal como se sabe preparar em Minas, e cujos deliciosos vapores aquecem o cérebro e expandem tão suavemente o coração.

Enfim, estando já tudo arranjado no rancho, assentamo-nos em nossas redes aguardando a narração que o romeiro do Muquém nos prometera. Tudo foi silêncio imediatamente; cessaram as vozerias e toques de violas dos camaradas, e até os cães, deitados ao pé do fogo estendendo o focinho por sobre as patas encruzadas, pareciam escutar com religiosa atenção as palavras do narrador.

O nosso romeiro era natural dessa risonha e pitoresca região onde tem o seu berço o majestoso e opulento Jequitinhonha, que rola suas águas por sobre rubis e diamantes, dessas danosas campinas caprichosamente acidentadas, e cortadas de cristalinos ribeirões, a cujos habitantes o céu entornou no espírito as centelhas do engenho e da inspiração, como alastrou-lhes o solo de brilhantes e preciosas pedrarias. Poderia ter trinta e tantos anos; era de imaginação viva, inteligência clara, e sua linguagem e maneiras revelavam um espírito cultivado e 7

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fina educação. Nos olhos e na boca tinha notável expressão de bondade e franqueza; sua voz era de um timbre claro e sonoro. Nada pois faltava ao nosso narrador para prender todas as atenções.

Como o romeiro de Muquém tinha de seguir sua viagem por alguns dias na mesma direção que nós levávamos, durante quatro noites entreteve-nos ele os serões do pouso com a narração da história que vamos reproduzir, e que por essa razão dividiremos em quatro pousos.

POUSO PRIMEIRO

O CRIME

CAPÍTULO I

O VALENTÃO

Na cidade de Goiás, antigamente Vila Boa, existia, há de haver mais de um século, um moço que por suas turbulências e espírito de valentia tinha adquirido a mais estrondosa nomeada por todas aquelas paragens.

Era filho de pais abastados e de boa família; porém educado à larga, abandonado desde a infância a si mesmo, sempre em meio de más companhias, dotado além de tudo de índole inquieta e fogosa, este rapaz, que poderia ser um homem de bem e útil à sociedade, se uma educação regular tivesse dado salutar direção aos instintos de sua natureza, foi-se tornando um valentão famoso, talhado a molde para as galés ou para o patíbulo.

Gonçalo, que assim se chamava, aplicou-se com ardor desde criança ao manejo de armas de toda a qualidade, a domar animais bravos, a caçar, a nadar, enfim a toda sorte de exercícios do corpo os mais rudes e perigosos.

E de feito neste ponto sua educação foi completa; aos vinte anos de idade, não havia em toda capitania quem com mais destreza esgrimisse uma chavasca, quem tivesse olho mais certeiro para uma pontaria, quem melhor se segurasse nos arreios, argüentando os corcovos do burro o mais xucro, e quanto ao nadar, só poderia competir com ele a lontra, ou a capivara.

Era também agilíssimo no jogo da faca; com os pés atados bem juntos e com uma faca em punho desafiava a qualquer, e com tal destreza se defendia que nem assim o podiam tocar.

Era também hábil em manejar as armas dos índios, e sabia atirar a flecha como o mais destro dos Caiapós ou dos Chavantes. Traçava no chão um círculo de dois pés de diâmetro quando muito, entesava o arco, e mandava às nuvens uma flecha; se o ar estava tranqüilo vinha ela cravar-se infalivelmente dentro daquele círculo. Causar-lhe-ia riso a façanha desse camponês da Suíça, do qual se conta que por ordem de um tirano teve de atravessar com uma flecha uma maçã colocada sobre a cabeça de seu filho; Gonçalo teria atravessado um anel.

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Mas em vez de pôr ao serviço da pátria e da liberdade sua grande força e valentia, como aquele herói, Gonçalo, áspero e turbulento por natureza e por mania, atirou-se em corpo e alma na carreira da devassidão e tornou-se um completo vadio, um famoso desordeiro.

Em todos os maus lugares, onde quer que houvesse uma orgia, um batuque, uma algazarra qualquer, podia-se jurar que lá se achava Gonçalo puxando barulho, provocando desordens, só para ter ocasião de ostentar sua bravura e fazer sentir a algum desgraçado o peso de seu braço-de-ferro. Nisto consistia todo o seu orgulho, toda a sua glória. Quando em Goiás aparecia algum desses valentões afamados, com um desses apelidos extravagantes que por si sós fazem tremer, como Veneno, Jacaré, Tiracouro, Canguçu, etc., bem barbudo, vestido de couro, armado até os dentes, lá ia Gonçalo procurá-lo e não sossegava enquanto não achasse ocasião de quebrar-lhe a proa.

Entretanto esse moço não era mau por natureza; tinha no fundo excelentes qualidades e generosos instintos de coração, que teriam feito dele um homem precioso, se não fosse a sua má educação e a diabólica mania de querer passar pelo maior valentão do mundo.

Ainda para maior desgraça Gonçalo, antes de chegar aos vinte anos de idade, tinha perdido pai e mãe.

Desde então senhor absoluto de suas ações e de uma tal ou qual fortuna, não encontrou mais paradeiro a seus desvarios e paixões desordenadas.

Um preto velho, famoso feiticeiro, respeitado e temido pelo vulgo, lhe tinha dado certa mandinga ou caborje, amuleto temível e milagroso, que o preto inculcava como um preservativo infalível contra balas, contra raios, contra cobras e contra toda e qualquer espécie de perigos.

Gonçalo, supersticioso como todo o homem ignorante, acreditava piamente em todas essas virtudes da mandinga, e a trazia cuidadosamente cosida em seu cinturão de couro de lontra.

Gonçalo trazia também ao pescoço outro objeto de natureza inteiramente diversa; era um rico relicário de ouro com uma imagem de N. Sr.ª da Abadia, que sua mãe lhe dera em seu leito de morte recomendando e aconselhando que tivesse por aquela imagem particular devoção, e que invocasse sempre o seu patrocínio em todos os trabalhos e perigos da vida. Com efeito Gonçalo tinha a mais viva fé naquela santa imagem, e nunca em dias de sua vida deixou de beijá-

la com fervorosa devoção ao deitar-se e ao levantar-se da cama depois de ter rezado uma ave-maria. Assim todas as vezes que se achava em apertos, com uma das mãos apalpava o cinturão, em que trazia o talismã da superstição africana, e com a outra levava aos lábios o relicário, confundindo desta maneira em sua tosca imaginação o culto da mãe de Deus com uma grosseira feitiçaria.

Apesar disso não se passava um só dia em que Gonçalo não fizesse provar a algum pobre cristão a força de seu braço rude e vigoroso. Cabeças e braços quebrados, narizes esmurrados, caras esbofeteadas, costas derreadas, eram façanhas que todos os dias aumentavam a fama e terror de seu nome.

Zombava da justiça, que naquele tempo e naquelas paragens parece que nenhuma força tinha.

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Gonçalo muitas vezes dispersou e espancou as milícias encarregadas de prendê-lo por ocasião de alguma das suas falcatruas.

Ele as espalhava a pontapés, como quem arreda com a ponta do pé um tropeço que encontra em seu caminho.

Demais, Gonçalo tinha por si grande número de parceiros, vadios e bandidos como ele, que o temiam e respeitavam, e com os quais contava em ocasião de aperto. Era uma malta de rapazes ociosos e devassos, da qual ele por sua superioridade em forças e destreza e por sua riqueza e generosidade era o chefe natural.

Posto que temido como uma onça e respeitado entre seus camaradas pela sua valentia, Gonçalo não deixava de ser estimado, e em qualquer folguedo a sua presença era indispensável, pois era o companheiro mais alegre e folgazão que se conhecia. Ninguém com mais primor sabia pontear uma viola, cantar modinhas e lundus ou sapatear com mais desgarro e desenvoltura em uma sala de batuque.

Gostava de moças, e com tais prendas e uma bonita figura, bem se vê quanto devia ser querido delas.

Era ele pois parceiro infalível em todas as festas, batuques e partidas de prazer, quaisquer que fossem.

À força de ser temido e respeitado, pois ninguém mais ousava experimentar as forças de sua mão-de-ferro, a vida de Gonçalo ia-se por fim monótona e sem acidentes, com o que andava ele mui desconsolado e aborrecido.

Essa vida tranqüila, que ia passando, sem achar ocasião ao menos de dar uns murros ou uns pontapés, o enjoava por tal sorte, que estava resolvido a ir viajar pelos sertões em busca de quanto valentão e facínora afamado por aí houvesse, medir suas forças com eles, matá-los todos e trazer suas orelhas de mimo ao capitão-mor. O destino porém ajeitou as coisas por tal modo, que não foi preciso a Gonçalo sair de Goiás para que fossem completamente satisfeitos os seus desejos.

Entre os comparsas de Gonçalo havia um que, além de ser seu particular amigo, era o único que ousava rivalizar com ele em força e destreza. Era um rapaz por nome Reinaldo, robusto e bem-feito, e geralmente estimado por sua franqueza e lealdade, e que ainda não se tinha deixado inteiramente eivar do espírito de desordem e devassidão dos seus companheiros. Nos exercícios de luta, esgrima e outros era o que dava mais trabalho a Gonçalo, e por vezes acontecia ficar indecisa a vitória. Como era ainda muito moço tinha esperança de uma dia igualar, senão exceder a seu amigo em vigor e agilidade. Os companheiros o aplaudiam e animavam de propósito para humilhar a Gonçalo, cujo orgulho interiormente desejavam ver abatido. Isto fazia espumar de raiva a Gonçalo. Nesses momentos todo o sentimento de amizade desaparecia de seu coração, e não poucas vezes suas lutas e exercícios se teriam transformado em cenas de sangue e morte, se não interviessem os amigos de ambos. Gonçalo tinha bom coração e era excelente amigo, mas prezava acima de tudo a sua reputação de valentia. Esta singular mania encheu-lhe de trabalhos e infortúnios o caminho da vida.

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CAPÍTULO II

O BATUQUE

Era um domingo. Por uma bela noite de luar, um desses batuques animados e estrondosos, que são tão comuns nas povoações do sertão, fazia retroar um dos mais retirados e silenciosos bairros de Vila Boa. O chão tremia aos frenéticos sapateados dos dançadores; o rumor das violas, dos pandeiros, dos adufos, as palmas compassadas, as cantigas esgueladas retumbavam ao longe das margens do Rio Vermelho, e iam perder-se em sons confusos pelas quebradas das montanhas vizinhas.

Todo esse rumor e vozerias partiam de uma casa térrea, porém espaçosa, propriedade de mestre Mateus, velho caboclo, ferreiro de nomeada, o qual nessa noite reunia em sua casa a mais luzida rapaziada da vila e da roça, e as mais bonitas raparigas do lugar, a fim de festejar com batuque e folgança os anos de uma de suas filhas, para o que tinha obtido licença expressa do juiz ordinário.

Mestre Mateus era um bom velho, de costumes pacíficos, benquisto, alegre e amigo de folgar. Nada havia pois de recear de um tal folguedo, sendo feito em sua casa, que nunca foi teatro de desordens.

Em uma grande sala alumiada por algumas candeias de ferro espetadas nas paredes, e cuja mobília consistia em bancos, tamboretes, caixas, catres e cepos semeados em desordens em roda da sala, estava a grande roda dos dançadores.

Eram guapos rapagões em trajos domingueiros, porém muito à fresca em razão do imenso calor que faz naquela terra, uns em mangas de camisa, outros descalços, porém todos de chapéu na cabeça, cigarros na boca ou na orelha, e uma comprida faca na cintura.

Quanto às raparigas, como sempre se nota nesses folguedos, havia grande variedade de cores e de figuras. Ao par de uma branca de longos cabelos castanhos ou louros sapateava a crioula de trunfa encarapinhada; junto de uma Megera desgrenhada e titubiante linda mulata de olhos úmidos e lascivos se bambaleava airosamente enfunando as amplas saias de seu vestido branco ou cor-de-rosa. Entre muitas papudas, feias e desenxabidas viam-se algumas bonitas e roliças caboclas, cor de rola, de cabelo negro e corrido, e de olhos brilhantes como carbúnculos. Brilhava-lhes com profusão no pescoço o fino ouro extraído das ricas minas de Goiás, em rosários, cordões, caixilhos, medalhas que lhes ocultavam quase completamente o seio.

A aguardente de cana e outros licores circulavam com abundância à discrição dos convivas.

Uns a tomavam simples, ou da lisa, conforme a expressão do país; outros preferiam a assada, isto é, aguardente queimada com açúcar. As cabeças se atordoavam de mais a mais, o batuque fervia cada vez mais animado, e os heróis da festa nessa dança doida e vertiginosa ensopavam as camisas exalando pelos poros toda a cachaça que bebiam.

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Entre as raparigas, que lá se achavam, havia uma que pelo seu garbo e formosura era o desassossego de todos os corações, e o alvo de todos os desejos. Era uma moreninha de dezessete a dezoito anos, travessa e viva como uma lontra, bonita como seria difícil encontrar outra igual, mas louca e leviana como uma criança. Tinha por nome Maria, que a gente da família e depois também o povo trocou pelo apelido de Maroca, pelo qual era geralmente conhecida.

Todos ardiam por obter um sorriso, um olhar, um pequeno sinal de preferência daquela encantadora menina; porém nenhum ousava declarar-lhe seus sentimentos, nem requestá-la mui abertamente, porque todos sabiam que Reinaldo, o amigo de Gonçalo, que a tinha em casa em sua companhia, a amava extremosamente. Ora Reinaldo, que era respeitado e estimado de todos, era além disso ciumento como um tigre, e tinha a dupla vantagem de ser o amigo e o único rival de Gonçalo. Eram motivos de sobejo para que ninguém nem de leve ousasse tocar-lhe na corda a mais sensível do coração. Portanto os convivas a tratavam com certo constrangimento e reserva, o que fazia que ela tomasse parte pouco ativa na dança.

Maroca, naturalmente travessa e desenvolta, como um diabrete, não gostava nada dessa reserva, que não lhe permitia sair sempre ao meio da sala sapateando doidamente como as outras. Triste e amuada em um canto da sala com os braços cruzados, via-se-lhe o peito moreno arfar de impaciência e agitar-lhe a alva camisa, que inundada em suor se lhe colava aos seios, deixando ver-lhe quase a nu as puras e voluptuosas formas, pois, como se sabe, por essas terras de Goiás, talvez por causa do excessivo calor, os corpos dos vestidos das senhoras não têm serventia alguma, e as mangas são verdadeiras mangas perdidas. Corpo e mangas elas os deixam cair sobre a saia em forma de aventais, ficando os seios a ondearem livres e desafogados, encobertos apenas por alva e transparente camisa, a qual ainda quase sempre é entremeada de crivos e rendas.

A Maroca, como já disse, pouco dançava; mas quando lhe cabia a vez de sair ao meio da sala, com sua graça sedutora, com seu gentil balanceado enfeitiçava a todo o mundo e arrancava estrondosos bravos a toda a rapaziada.

Reinaldo, que todo se embebia na contemplação dos encantos da Maroca, e que a rodeava de seus ardentes olhares, como um jacaré vigiando o ninho, não era dos mais alegres da festa.

Todavia o batuque continua, o frenesi recresce, as palmas fervem, e as umbigadas estouram cada vez com mais furor. Um cavaleiro apeia-se à porta da sala e bate.

Sem tomar a precaução de perguntar quem é, mestre Mateus vai imediatamente abri-la. Um belo rapagão de botas com grandes esporas de prata, chapéu à banda, chicote na mão e cigarro na boca se apresenta no limiar da porta.

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— Oh! viva! bradou mestre Mateus; seja muito bem-vindo, compadre Gonçalino; já me tardava; por onde andou até agora? já não gosta da casa deste seu velho compadre?

— Entra, Gonçalo; ainda vieste a tempo; já estavas nos fazendo falta.

— O Sr. Gonçalo anda-se vendendo muito caro; já não há quem o veja; alguém o ofendeu nesta casa?

— Gonçalo, deixa de ouvir secas e cumprimentos; anda para cá; vamos a beber, folgar e dançar.

Todos estes cumprimentos e outros ainda eram dirigidos quase a um tempo a Gonçalo, que não podendo responder a todos assentou de si para si que era mais cômodo não responder a nenhum. Mestre Mateus chegou-se para Gonçalo.

— Estás hoje de má cara, meu compadre! o que te aconteceu?... Não queres tomar alguma coisa? da lisa ou da assada?... heim?

— Venha seja o que for, e deixem-me que estou cansado.

Dizendo estas palavras, o moço atira-se atabalhoadamente no primeiro assento que encontra fazendo um barulho dos diabos com as esporas, faca, garruchas, e todo o trem bélico que trazia em si, joga o chapéu para um canto, encosta-se à parede, estende as pernas para o meio da sala com toda sem-cerimônia, boceja e fecha os olhos como quem quer dormir. Mestre Mateus volta daí a um instante com um copo na mão.

— Toma lá da queimada, compadre. Oh! com os diabos!... queres dormir, homem?

— Ora vai-te com os diabos, compadre, que me não deixas descansar. O

que me queres?

— É da queimada; não tomas? e então fica-se aqui a dormir ou vai-se dançar?

Gonçalo sacudiu os ombros, e não respondeu, tomou alguns goles da assada, passeou um olhar indiferente pela sala, e de novo inteirou-se em seu assento a todo o comprimento do corpo com ares de quem estava soberanamente aborrecido. E de feito desde manhã até aquela hora tinha ele rondado a vila inteira, tinha penetrado em todos os recantos, botequins e casas de jogo, tomado parte em todos os ajuntamentos onde houvesse algazarra e bebedeira, dito graças pesadas a mais de uma moça bonita mesmo às barbas de seus amantes, e nem assim tinha achado ensejo nem sequer de apalpar o cabo de sua faca, e isto em pleno domingo, em uma vila de tanto povo, que se tem por valente e pouco sofredor! Daquele dia em diante Goiás não era a seus olhos mais do que um covil de aduladores, cobardes e poltrões, um curral de carneiros indigno de ser pisado pelos pés de um homem de brio. Decididamente não podia demorar-se por mais tempo em tão miserável país, e estava disposto a abandoná-lo para sempre.

O compadre Mateus veio arrancá-lo a essas reflexões.

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— Que diabo tens tu hoje, compadre?... dança-se, ou não dança-se?... As moças estão ardendo por te verem na roda. Olha a Calu como está te chamando com aquele olhar derretido!... A Zezinha diz que não dança mais e vai-se embora, se continuares dessa maneira; a Maroca por te ver assim embezerrado está com medo que queiras fazer algumas das tuas, e já foi ver o capote para escapulir-se.

Ah! compadre, isto não está bem; você, que é sempre o melhor companheiro de folgança, há de ser hoje o nosso desmancha-prazeres! Oh! bravo!... é a Maroca que sai a campo! é a rainha da festa. Olha, compadre, como está linda aquela feiticeirinha! Bravo disso! bravo, Maroca!

E a Maroca, depois de ter feito os mais galantes e graciosos requebros sapateando pela sala, girou como um corrupio sobre os talões, abaixou-se rapidamente rente ao chão, deixando ver somente entre os tufos de suas alvas saias enfunadas os braços e o rostinho cor de jambo, como uma rolinha deitada em ninho de algodão batido.

— Bravo! bravíssimo! bradou Gonçalo levantando-se de um salto, que retiniu com estrondo por toda a sala.

Depois continuou baixo voltando-se para mestre Mateus:

— Agora sim, compadre, sou da festa; a Maroca está aí, vai tudo bem. E o Reinaldo, onde está ele? não veio?...

— Não enxergas!... Olha, lá está ele naquele canto, e por sinal que está hoje triste e de viseira fechada, não sei por quê.

— Bem! lá o vejo, disse Gonçalo, em cujos olhos reluzia um prazer satânico, e continuou resmungando entre si: — Bem! muito bem! aqui sim! tenho uma linda menina a quem posso fazer a corte, e ao lado dela um valentão de primeira ordem a quem farei abaixar o topete. Ah! Reinaldinho, meu amigo, eis aqui uma bela ocasião de mostrar, sem ser por brincadeira, qual dos dois é mais valente, o tigre ou a onça, e isto sem quebra de nossa amizade; para teu ensino quebrar-te-ei bem as costelas diante de toda esta gente, e nem por isso deixaremos de continuar a ser bons amigos como dantes. Não serás o primeiro amigo a quem dou uma destas proveitosas lições.

Não se pense que estas palavras, que Gonçalo murmurava consigo, eram um escárnio feroz, um sarcasmo filho do ódio; não, elas eram a expressão sincera de seus sentimentos. Ele queria bem a Reinaldo, e seria capaz de lançar-se por entre o ferro e o fogo para defendê-lo; mas o que não podia levar a bem é que este tivesse a louca pretensão de rivalizar com ele em valentia; por isso suspirava sinceramente por uma ocasião de dar-lhe uma sova tal, que lhe desvanecesse de uma vez para sempre suas quiméricas aspirações, e que enfim conhecendo Reinaldo o seu lugar, não houvesse mais motivo de desavença entre eles. Quão mal conhecia ele a esse amigo, medindo-o pela mesma bitola dos outros seus camaradas.

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A rapariga, que nesse momento dançava, vendo Gonçalo já em pé, dirigiu-se para ele e o tirou para o meio da sala.

— Sou daí! bradou ele com voz de atordoar.

Ganhou de um salto o meio da sala, e fazendo retinir suas grandes esporas depois de ter feito em roda de toda a sala um frenético sapateado, passando revista a todos aqueles rostos, estacou em frente da Maroca, e deitando braços e cabeça para trás exclamou:

— Ah! Maroca, meu amorzinho, como estás encantadora! agora é contigo, minha rola; sai do ninho, feiticeira!

A Maroca não se enfadou com o gracejo, sorriu-se e deixando-se arrebatar no rodopio da dança vertiginosa brilhou com a faceirice e graça do costume.

Desde então Gonçalo e Maroca estavam sempre no meio da roda; eram o rei e a rainha da festa. As moças à porfia tiravam Gonçalo para o meio da roda; mas o endiabrado rapaz com o maior escândalo e do mundo o mais inconveniente

– se é que pode haver escândalo e inconveniência em um batuque –, teimava em não se dirigir senão à mimosa e gentil Maroca, como se só ela dançasse naquela sala. Esta por sua parte não se mostrava enfadada, antes parecia vaidosa com aquela preferência, e cada vez mais requintava em meneios e requebros sedutores.

Reinaldo, porém, que se encostava a um canto para ocultar o furioso ciúme que por dentro lhe lavrava o coração, rangia os dentes e mordia os lábios observando com olhos turvos e chamejantes todos os movimentos de sua amante e de Gonçalo. Este, se bem dançava, melhor falava gritando uma algaravia infernal, chasqueando e dirigindo à Maroca os mais atrevidos gracejos, que eram como setas envenenadas que iam varar o coração do ciumento Reinaldo.

Se antes da chegada de Gonçalo o batuque corria animado e caloroso, agora fervia como as caldeiras de Satanás.

Gonçalo por fim de contas, à força de dirigir à faceira menina graças e galanteios, que não eram mal acolhidos, foi-se deixando tomar de um verdadeiro amor por ela, ou pelo menos de um vivo desejo de a possuir.

Ele, que a princípio só a procurava para provocar um ensejo de travar-se de razões com Reinaldo e mostrar em público e raso sua superioridade moendo-lhe os ossos ou quebrando-lhe a cara, agora fascinado pelos encantos daquela beleza perigosa, seria capaz de sangrá-lo ali sem compaixão, se atrevesse a disputar-lha.

E também aquela bandoleira, seduzida a seu turno pelos requebros do guapo mocetão, que era o alvo dos desejos de todas aquelas filhas do bordel, nem olhava para Reinaldo, que com o inferno no coração deixara a dança, e em pé junto a uma candeia fincada na parede apertava com tremor convulsivo o cabo da larga faca, com que vagarosamente picava fumo para o cigarro, relampeando 15

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de quando em quando olhares de fogo ora sobre um, ora sobre outra, e ardendo por ver o fim daquela para ele odiosa orgia.

CAPÍTULO III

DITO E FEITO

Enfim os dançantes, já esbaforidos e estafados dos pulos e sapateados daquela dança doidejante, assentaram de tomar algum descanso. Calaram-se as violas e os adufos, e os convivas se dispersaram pelas diversas acomodações da casa a tomar licores e refrescos a fim de se habilitarem para nova refrega.

Reinaldo respirou. Enrolou o seu cigarro, acendeu-o, e dirigindo-se para a Maroca, que pela força do costume viera se assentar ao pé dele, disse-lhe com ar sombrio:

— Maroca, vamo-nos embora; este folguedo não está com jeito de acabar bem; já é tarde, e antes que aconteça alguma desgraça, vamos para casa.

— Pois já? tão cedo!... seria melhor então que não tivéssemos vindo cá, respondeu a menina mostrando-se contrariada e sem procurar disfarçar o seu descontentamento. Mestre Mateus há de se enfadar se sairmos já; ainda é muito cedo; logo mais iremos.

— Hum!... rugiu Reinaldo do fundo do peito. Estou hoje te desconhecendo, minha amiga; quem virou-te assim essa cabecinha?... seria esse...

— Ora deixe-se de tolices, volve ela interrompendo-o com azedume; isso não tem propósito nenhum. Se você não gosta destes divertimentos, devia deixar-se ficar em casa, que eu por mim bem podia vir sozinha.

Levanta-se dando um muxoxo, volta-lhe as costas e vai-se retirando com certo ar de desdém. Estas palavras e este gesto doeram no coração do pobre rapaz, como se um ferro agudo o tivesse atravessado. Brandiu convulsivamente a faca, que ainda tinha na mão, e ia cravá-la... na pérfida ou em si mesmo! vacilou, conteve-se, escondeu sua amargura no fundo da alma, e tomando brandamente a Maroca pelo braço, chamou-a a si com carinho.

— Minha querida, lhe diz com voz meiga e suplicante, não sei que mal te fiz eu para assim me tratares tão desabridamente, e me despedaçares o coração com tanta crueldade. Acaso não me queres mais?... se assim é, se és tão leviana e bandoleira, que foi bastante uma só noite, um só momento para riscar do teu coração o meu nome e o meu amor, eu te peço por piedade, fala, não me encubras nada. Antes assim, do que viver iludido. Quero ouvir da tua própria boca a sentença de minha condenação. Será este o último favor que te peço, e te deixarei livre para ir bem longe de teus olhos morrer de mágoa e desesperação.

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No olhar e na voz do mancebo pintava-se uma dor tão sincera e tão profunda, que Maroca, apesar de ter um coração leviano e pouco sensível, não deixou de enternecer-se.

— Não te enfades comigo, meu Reinaldo, replicou com meiguice; perdoa-me, se te agravei: eu sou uma estouvada, e já nem sei o que te disse. Realmente eu estava com vontade de ficar por mais algum tempo; mas se isso te incomoda, não ficarei mais nem um momento, e estou pronta desde já para acompanhar-te.

— Não, meu amor, não quero estorvar-te em teus divertimentos, diz Reinaldo já mais tranqüilizado; dança e folga, quanto for do teu agrado. Mas por piedade, Maroca, mais reserva para com esse rapaz , que se diz meu amigo, e que tanto te persegue com suas estouvadas galantarias: ele parece que nos quer perder a todos três.

— Não te dê isso cuidado, disse ela; e dando um saltinho deu um beijo e uma bofetadinha na face de Reinaldo, e leve como uma pena desapareceu pelo interior da casa cantarolando e tocando castanhola nos dedos.

Esta cena não escapou ao matreiro Gonçalo, que estava na outra extremidade da sala rodeado de comparsas, estendido em um banco a todo o comprimento, tomando da assada, e vomitando chalaças e palavradas de arrepiar os cabelos. Os ouvintes o aplaudiam vivamente e com as mais gostosas e retumbantes gargalhadas.

— Bravo! o bicho está ferido, disse lá consigo Gonçalo vendo o ar sombrio e misterioso de Reinaldo, que se sentara pensativo no tamborete abandonado por Maroca, e levantando-se foi acender o cigarro na candeia que estava junto ao seu amigo.

— Que diabo tens tu hoje, meu Reinaldinho, disse ele depois de ter acendido o cigarro, que estás de cara tão fechada e trombudo como uma anta?

Quem te ofendeu, amigo? Fala, que quero já desagravar-te.

— Gonçalo, nem sempre a gente está para brincadeiras. Se és deveras meu amigo, não estejas a provocar-me com esses gracejos de mau gosto; olha que há certas coisas, certos sentimentos, com que não se pode brincar sem perigo.

— Perigo! algum dia me viste recuar diante de perigo algum, meu criançola? diz antes que já te pesa a cabeça antes de tempo, e por isso andas assim focinhudo e cabisbaixo.

— Gonçalo, tu estás de propósito a querer queimar-me o sangue!... se continuas, estão rotos os laços de nossa amizade desde este momento, e...

— E o quê?... cala-te, meu tolo; não te amofines por tão pouca coisa.

Aquela menina, por quem morres, se eu o quiser, posso levá-la hoje mesmo na minha garupa para onde me aprouver.

— Disso não és tu capaz, Gonçalo; eu juro por minha alma; antes que lhe ponhas a mão, cairás morto a meus pés, ou deverás passar por cima de meu cadáver.

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— Santo Deus! como está exaltado o homem! Para que fui eu pisar no rabo do cascavel, que dormia! Perdão, meu Reinaldinho, continua Gonçalo com ironia e em tom de conselho; perdão, eu não te quero ofender; mas aqui entre nós, e como amigo, devo declarar-te que não tens o direito de ser o único senhor e possuidor daquela bonita jóia, senão no caso que ela muito de sua livre vontade queira continuar a ser tua.

— Gonçalo, és um vil, um infame traidor! bradou Reinaldo espumante e lívido de cólera. Nasceste para as galés e para a forca, e não para viver entre homens, que se prezam e se respeitam. Desprezo as tuas palavras como vindas de um ébrio; de um sandeu.

— Pelo que vejo, replica Gonçalo com um riso amarelo forcejando por dissimular seu despeito, pelo que vejo não estás disposto a ceder-me por modo nenhum a tua amada. Pois bem, eu a tomarei por força.

— Não a tomarás, Gonçalo; eu te juro.

— E quem me impedirá?...

— Eu!

— Sai-te daí, criança; com um pontapé te arredarei do meio do caminho.

Gonçalo pronunciou estas palavras com ar de desprezo e compaixão e voltou as costas a Reinaldo. Este dá um pulo de tigre e agarrando a Gonçalo pelo braço empuxa-o violentamente e brada:

— Aqui, Gonçalo, aqui! se não és um fanfarrão, um cobarde, hás de pôr em execução as tuas ameaças, e já!

Gonçalo arranca o braço das mãos de Reinaldo, de um salto tomando distância a três passos, já de faca alçada, grita:

— Arreda-te daí, atrevido, antes que te ponha o bucho à mostra!

— A mim, fanfarrão! vem, que eu não arredarei um dedo; não temo as tuas bazófias.

Os dois contendores estavam em distância de quatro a cinco passos um do outro; as facas brandidas convulsivamente relampeavam ameaçadoras por cima de suas cabeças, rangiam-lhes os dentes, e nos olhos lhes fuzilava um lume torvo como as chamas do inferno. Eram como dois canguçus enciumados, que ao se encontrarem arreganham os dentes e rosnam furiosos antes de se arrojarem um sobre o outro.

O negócio já cheirava a sangue, e aquela festa, começada na paz e na alegria, estava prestes a ter o mais sanguinolento desfecho.

— Misericórdia! misericórdia! — que será isto! — Virgem Santa! — bradava-se de todos os cantos.

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Uma turba de homens e mulheres em gritos lançam-se afoitamente em meio dos dois.

— Deixe, deixe esse maluco vir rasgar-me as tripas! vociferava Reinaldo como querendo voar por cima deles e a muito custo o podiam conter.

— Chega-te, rapaz, rugia Gonçalo, chega-te para cá, que quero aqui mesmo coser-te a facadas, e aliviar-te para sempre desse ciúme danado que te ferve no coração.

Por alguns momentos durou esta cena sinistra, que teria tido o mais trágico resultado, se a turba em uma gritaria imensa não se entrepusesse intrepidamente entre as duas facas, que se agitavam fuzilando por cima daquela multidão de cabeças, e já retiniam chocando-se uma na outra; até que a muito custo conseguiu-se que se não travasse a luta.

O sossego restabeleceu-se finalmente; mas que sossego triste e desanimado! que contraste entre o festival e alegre bulício e algazarra que ainda há pouco reinavam naquela reunião e esse surdo e sinistro murmúrio que agora rumorejava pelos ângulos da sala. Os convivas tinham perdido toda a vontade de rir e divertir-se, e andavam em grupos pelos cantos conversando em voz baixa debaixo da impressão de um invencível terror, fazendo as mais temerosas reflexões sobre aquele triste incidente.

Em vão mestre Mateus com seu ar bonachão e jovial se esforçava por desvanecer a terrível impressão que deixara nos ânimos de todos aquela temerosa pendência; era tudo baldado. Os mais prudentes ou medrosos foram-se pondo ao fresco, e a sala em poucos instantes ficou reduzida a menos de metade dos comparsas.

— Vamos, minha gente! gritava mestre Mateus, que pasmaceira é esta!

aquilo foi uma ninharia, e uma travessura de rapazes; daqui a pouco terão esquecido tudo, e estarão mais amigos do que dantes. Vamos, rapaziada! ânimo!

tomem da assada, e vamos com o folguedo acima.

Gonçalo, posto que não deixasse de sentir profundo abalo com aquele conflito com o seu amigo, entendeu que faria um triste papel se continuasse a ficar mudo e amuado; portanto, sopeando o mais que pôde sua emoção, saltou logo na sala com o maior desembaraço exclamando:

— Êh! com mil diabos! tens razão, compadre; viva o prazer, leve o diabo a tristeza, e vamos com a folia por diante. O que sucedeu foi uma bagatela sem importância. Não é a primeira vez, nem será a última, que se vê dois homens puxarem faca um contra outro; nós não somos crianças; e se Reinaldo entende que eu o agravei, não faltará ocasião nem lugar mais oportuno em que possa desagravar-se: não é assim, Reinaldo?

— Sem dúvida, rosnou Reinaldo com voz carregada.

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— Viva a paz! viva a alegria! exclamou mestre Mateus batendo palmas.

Falou quem pode: não há mais motivo de desgosto; toca a folgar. Mas agora, camaradas, caluda sobre este negócio! Não quero por modo nenhum que se saiba aí por essas ruas, que em minha casa, onde nunca houve desordens, e sempre gozou de muito boa fama, puxaram-se facas, e esteve-se em termos de ver correr sangue. O passado, passado; faça-se de conta que nada houve e toca a folgar.

Olá das violas, vamos com isto!... um vai-de-roda bem esquentado!

As violas ressoaram, e a dança recomeçou, se bem que ainda um tanto fria e constrangida. Gonçalo porém dançava, palrava e gritava por todos com a maior frescura e desembaraço, como se nada tivesse acontecido. Com o seu exemplo os outros também foram pouco a pouco se animando. Quanto à Maroca, ia também gradualmente recuperando toda sua desenvoltura natural, e alardeava de novo toda a sua graça e faceirice.

Só Reinaldo, triste e taciturno a um canto, não podia dissimular a tremenda tempestade que lhe agitava o espírito, e devorava em silêncio lágrimas de raiva e desesperação.

Gonçalo pela sua parte ia-se sentindo cada vez mais subjugado pelos encantos da sedutora menina. Aquela triste pendência com um amigo, a quem gratuitamente ofendera, longe de contê-lo em seus desmandos, não foi mais que um novo incentivo que lhe fez mais vivamente cobiçar aquela beleza tão ciosamente vigiada por seu amante.

Pela primeira vez em sua vida estava disposto a desenvolver toda sua força de touro, toda sua bravura de leão, toda a sua destreza de onça, não por um mero capricho ou ostentação de valentia, mas para satisfazer uma paixão cega, que lhe rebentava na alma com a violência de um vulcão.

Este amor fatal – se é que se pode chamar amor um desejo caprichoso e brutal – junto à louca mania de querer provar a todos a força e agilidade de seu braço, extinguiram ao menos naquela noite no coração de Gonçalo todo o instinto de lealdade, todo o sentimento de amizade que ainda votava a Reinaldo.

— A Maroca hoje há de ser minha, projetou consigo o diabólico rapaz. A princípio dissera isto somente para lançar uma luva de desafio a Reinaldo, com quem ardia por travar-se séria e publicamente; mas agora era esse o mais ardente desejo de seu coração, para cuja satisfação estava disposto a sacrificar tudo. Que viessem estorvá-lo Reinaldo ou quem quer que fosse, ou toda aquela turba reunida, que ele os dispersaria como quem sacode a poeira de suas botas.