O Ermitão de Muquém por Bernardo Guimarães - Versão HTML

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A Maroca, ou porque era ainda muito criança, ou por ser de seu natural leviana e bandoleira e não amar a ninguém, foi-se deixando facilmente seduzir pela galhardia, bravura e talvez mais pela riqueza e liberalidade de Gonçalo, que durante a dança lhe introduzira no dedo um rico anel de brilhantes prometendo-lhe ainda em segredo maiores e mais magníficos presentes.

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O coração da Maroca era vário e leve, e portanto facilmente esvoaçou de Reinaldo para Gonçalo. Este, seguro das boas disposições da menina, forjou logo o mais atroz e sinistro projeto.

A noite já ia muito avançada; os galos, amiudando cada vez mais seu canto, anunciavam que estava próximo o romper do dia.

Gonçalo, consultando o relógio, que trazia preso a uma grossa cadeia de ouro, diz em voz alta:

— Três horas em ponto, meus caros; para quem mora a mais de légua de distância, já é tempo de pôr-se a caminho.

E imediatamente sem mais cumprimentos, enquanto os outros se entretinham em dançar, jogar ou conversar, abriu de manso a porta da rua, e desapareceu.

Reinaldo, que não dançava, nem bebia, nem jogava, mas acabrunhado por uma multidão de pungentes e sombrios pensamentos se assentara a um canto, viu com prazer a saída de Gonçalo. Seu peito respirou mais desafogado com o desaparecimento daquele homem fatal, que se tornava para ele um pesadelo, um espectro odioso. Levanta-se e procura com os olhos pela sala a Maroca, a fim de também convidá-la a retirar-se; por duas ou três vezes corre com a vista toda a extensão da sala, e não a vê nem na roda dos que dançavam, nem assentada em parte alguma: estremeceu, e bateu-lhe o coração de modo estranho.

Depois pensou: — Decerto está lá pelo interior da casa, e não tardará a aparecer. — Esperou alguns minutos aplicando o ouvido e embebendo os olhos pelos corredores, pelas alcovas, por todos os cantos, procurando vê-la ou ao menos ouvir-lhe a voz; mas debalde.

Esperou ainda na maior ansiedade; já não só ele, mas muitas outras pessoas reparavam e estranhavam a demora da ausência de Maroca.

— Maroca! Maroca! onde estás? gritavam todos uns para aqui, outros para acolá; mas ninguém acudia de parte alguma.

— Querem ver que aquela sonsa foi sozinha para casa sem dar parte a ninguém; dizia um.

— Quem sabe se a coitada teve algum ataque, e está caída aí por algum canto? opinava outro.

— Ou está nalgum canto a dormir; pensava um terceiro.

— Ou eclipsou-se com alguém, acrescentava maliciosamente um quarto.

Enfim todos se puseram em movimento dispostos a revistar e esquadrinhar todos os recantos e dependências da casa, gritando sempre pelo nome de Maroca.

— Maroca está aqui comigo! bradou uma voz retumbante, que partiu do lado da rua. Jurei que havia de levá-la comigo e assim o cumpro. Quem quiser, que venha tomá-la.

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E ouviu-se o tropel de um animal, que partia a galope.

Todos ficaram como que petrificados.

Reinaldo, como se um raio o ferisse, caiu pálido e frio sobre um banco, e ficou por alguns instantes como que aniquilado. Depois levantando-se bruscamente e arrancando os cabelos com ambas as mãos, bate furioso com o pé no chão.

— Oh! traição! traição infame! exclama; meu cavalo! quero já e já meu cavalo!

E com brusco movimento abalroando a todos investe para a porta. Em vão os companheiros quiseram detê-lo e apaziguá-lo.

— Deixem-me, bradou com voz de trovão, e partiu a correr como uma flecha para a casa.

CAPÍTULO IV

A LOUCA

No outro dia já o sol andava alto, quando mestre Mateus e seus tresnoitados companheiros da orgia da véspera abriram os olhos à luz do dia. A primeira idéia que se lhes apresentou ao espírito ainda anuviado pelo sono e pelos vapores das libações da noite, foi a função da véspera, a briga terrível entre Gonçalo e Reinaldo, a tremenda e desaforada traição de que este fora vítima. A princípio pensaram que despertavam de um pesadelo, mas bem depressa caíram em si, lembrando-se que desgraçadamente era tudo pura realidade.

Mestre Mateus saltou da cama resmungando:

— Um!... estes rapazes! que doidos! meu Deus! o que terão feito!

Atirou ao ombro a jaqueta, pôs na cabeça o seu chapéu de couro, deitou na boca uma masca de fumo, e sem mais perda de tempo, dirigiu-se o mais depressa que pôde à casa de Reinaldo. Aí não encontrou senão uma mulher velha, que morava com Reinaldo e lhe tratava da casa. Esta, que também se mostrava aflitíssima, contou-lhe que pela madrugada Reinaldo sozinho e arquejando de cansaço batera à porta, arreara o cavalo a toda a pressa sem dizer palavra, por mais que ela lhe perguntasse o que tinha acontecido, o que era feito de Maroca e onde ia àquelas horas; que resmungando e praguejando sem a nada responder partira a toda a brida, sem que ela soubesse que rumo levara.

Esta informação foi mais que suficiente para que mestre Mateus compreendesse quantas desgraças não poderiam resultar, ou não teriam já resultado daquela desastrada pendência, que vinha desacreditar para todo o 22

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sempre a sua casa. Amaldiçoava a hora em que se lembrou de fazer semelhante função, e dava aos diabos a Maroca, Gonçalo e Reinaldo, que vieram deitar azar em sua casa, onde nunca houvera nem a mais insignificante rusga. Arrependeu-se mil vezes de não ter mandado amarrar aqueles dois malucos, logo que começaram a brigar, e entregá-los à justiça; teria impedido uma desgraça, que já quase tinha como certa e irremediável.

Contudo o bom do velho sem mais perda de tempo corre à casa de alguns dos parceiros da véspera, amigos dos dois rapazes, dá-lhes conta do que acaba de saber e das inquietações que tinha no espírito.

Estes também tinham acordado com a mesma preocupação, e apenas viram mestre Mateus, perguntaram-lhe com sofreguidão se tinha notícias de Reinaldo, de Gonçalo e da Maroca.

— Oh! se as tenho! e bem tristes. O Reinaldo é tão doido como o outro.

Ontem quando saiu da súcia, foi direto à casa, montou a cavalo, e voou como uma flecha atrás de Gonçalo e de Maroca. Agora vocês, que são seus amigos, o que devem fazer, é irem já e já cada um arrear o seu animal e correrem à fazenda de Gonçalo; não podiam ter tomado outro rumo. Vão ver o que é feito daqueles doidos. Depressa! depressa! ah! e queira Deus que já não seja tarde.

Mestre Mateus era respeitado e estimado dos rapazes, e seus conselhos eram executados à risca, como se fossem ordens.

Foi dito e feito. Em menos de meia hora alguns moços, amigos dos dois, galopavam à rédea solta caminho da casa de Gonçalo, que morava em uma pequena fazenda de sua propriedade a légua e meia da vila.

Teriam andado cerca de uma légua, quando divisaram a umas quinze braças ao lado do caminho à beira de um pequeno capão uma mulher assentada no chão e encostada ao tronco de uma árvore. Correram a reconhecê-la. Estava ela com a cabeça como que pregada ao tronco da árvore, com ar de idiota, com os olhos muito abertos, parados e obstinadamente fitos em um cadáver todo mutilado e ensangüentado, que estava estendido diante dela. O capim em roda estava todo amassado e ensopado em sangue; o sol abrasador ardia a pino; uma nuvem de insetos, moscas e maribondos esvoaçavam sobre aquele lugar, e mais longe já pairavam alguns urubus atraídos pelo cheiro da sangueira, que dali se exalava como se fosse um matadouro.

Os rapazes deram um grito de horror, e sentiram os cabelos se entesarem como espetos na cabeça, quando na mulher reconheceram a Maroca e no cadáver o desditoso Reinaldo.

A Maroca nem deu fé da chegada dos cavaleiros, e conservou-se imóvel como uma estátua, sempre com os olhos desvairados fincados sobre aquele corpo ensangüentado.

Chamaram-na pelo nome, sacudiram-na com força para ver se a arrancavam daquele torpor, e se dizia alguma coisa da cena horrorosa que ali se passara. Mas ela apenas olhava para eles como que pasmada, resmungava uns sons ininteligíveis, e tornava a cravar olhos estatelados sobre o cadáver.

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E aquela feiticeira menina, ainda nessa madrugada tão linda, tão viva e travessa, agora descabelada, salpicada de sangue, com as feições horrivelmente transtornadas, parecia um fantasma, e causava horror àqueles mesmos que ainda há pouco morriam por um só de seus sorrisos. O espanto, o terror e talvez o remorso tinham fulminado a alma da infeliz rapariga, que caiu em um estado de idiotismo, do qual nada pôde depois arrancá-la.

A pobrezinha tinha também os vestidos e as mãos salpicadas de sangue, e parecia ferida, posto que ligeiramente, em uma ou outra parte do corpo. Sem dúvida naquele trance horrível se lançara entre os combatentes para os separar e se achara envolvida naquela temerosa luta.

Os cavaleiros, à vista do que observaram, concluíram que o combate tinha sido renhido, furioso e desesperado. O corpo de Reinaldo estava todo contuso, cutilado e esfaqueado; na boca e nos dentes, onde espumava um sangue negro, viam-se farrapos de pano, o que indicava que no último trance o infeliz combatera até com os dentes. Tudo enfim revelava que ali se passara uma cena pavorosa, da qual os vestígios mudos, que existiam, falavam mais alto do que toda e qualquer narração.

Notaram depois os cavaleiros que pelo campo seguia uma batida, a qual ia salpicada de um rastilho de sangue e que ia perder-se na estrada; daí depreenderam que Gonçalo, gravemente ferido na luta, por aí se retirara, naturalmente para sua casa. Dois dos companheiros seguiram aquele trilho ensangüentado, a ver se encontravam Gonçalo vivo ou morto; seguiram pela estrada até a fazenda do mesmo, mas não o encontraram lá. A gente da casa não soube dizer o que era feito dele, posto que percorressem toda aquela vizinhança em inúteis pesquisas e indagações. Os outros se encarregaram de procurar meios de transportar para a vila o cadáver de Reinaldo, e o corpo também quase sem alma da infeliz Maroca.

Quanto a Gonçalo, nunca mais se pôde saber o destino que tomara, nem se era vivo ou morto. A justiça e mesmo os particulares fizeram por muito tempo grandes esforços para descobrir-lhe a pista. Mas tudo foi baldado. Seus amigos também fizeram por largo tempo ativas e perseverantes pesquisas por toda a capitania sem poder obter dele nem a mais leve notícia. Desanimados enfim de encontrá-lo descansaram na suposição, aliás muito plausível, de que Gonçalo, gravemente ferido na luta em que sacrificara o seu amigo, tinha morrido em alguma gruta oculta e profunda, ou pelos matos em algum recanto, onde era impossível descobri-lo, e que suas carnes tinham sido devoradas pelos corvos, e seus ossos arrebatados pelas enxurradas.

Esse deplorável acontecimento, que causou geral assombro e consternação, foi por largo tempo em Goiás objeto de conversação em todos os círculos.

— Eis aí o que faz uma mulher má! dizia a tia Josefa, velha companheira de mestre Mateus, anos depois daquele acontecimento, em um dia em que mestre Mateus acabava de contar com todas as particularidades aquele trágico sucesso a algumas pessoas que se achavam em sua casa. Dois rapazes tão novos, tão 24

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bons, tão bem-apessoados, dois guapos mocetões, que mereciam cada um uma noiva de truz, foram para o mato fora de horas esfaquearam-se como furiosos e matarem-se por amor de uma perdida, que...

— Arre lá com isso, minha velha! atalhou mestre Mateus; não te faz pena ao menos o triste estado em que até hoje se acha a coitadinha. Maroca era uma simples criança, que não sabia o que fazia. Os tais senhores mocetões é que eram dois loucos furiosos. Deus os perdoe e se amerceie de suas almas. Ela era uma pobre menina, que ainda não podia saber o que os homens são capazes de fazer por amor de uma mulher bonita. Olha, Josefa, a coitadinha ainda está muda e pateta assim mesmo como no dia em que aconteceu a desgraça. Foi castigo de Deus! resmungou a velha.

POUSO SEGUNDO

OS CHAVANTES

CAPÍTULO I

O COMBATE

Nas margens do grande rio Tocantins, que banha o norte da província de Goiás, e reunido ao Araguaia vai como que dar a mão ao rei dos rios para entrar de par com ele no Atlântico, habita uma nação indígena das mais ferozes e indomáveis que se conhecem, ainda que também uma das mais valentes e industriosas. É a nação dos Chavantes, que dominava uma larga zona em ambas as margens daquele rio, cuja navegação tornava extremamente difícil e perigosa para os Europeus. Sobretudo na época a que nos reportamos, o seu nome era o terror dos habitantes de Goiás, ninguém ousava penetrar naqueles sertões desconhecidos, infestados por essa e outras tribos selvagens, que muitas vezes saíam do fundo de suas brenhas a exercerem horríveis matanças, estragos e depredações nos estabelecimentos e fazendas dos brancos. Algumas dessas expedições, que se organizavam com o nome de bandeiras para rechaçá-los ou exterminá-los, voltavam desanimadas e destroçadas sem nada ter conseguido.

Menos dóceis que os Caiapós e os Coroados, que já se iam submetendo ao aldeamento e catequese, os Chavantes mal conheciam os brancos, com quem não queriam relação alguma, e odiavam do fundo da alma.

Quatro ou cinco anos depois dos tristes acontecimentos que deixei narrados a noite passada, uma numerosa tribo daquela nação achava-se estabelecida no barranco esquerdo do rio algumas dezenas de léguas abaixo de S. José do Tocantins, pouco mais ou menos nas regiões onde é hoje o município da Palma.

Seu arranchamento era uma longa fila de tabas ou cabanas cobertas de palmas de coqueiro, disseminadas em pitoresca desordem ao longo da margem 25

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do rio em uma extensão de cerca de meia légua, como um bando de aves aquáticas pousadas à beira da torrente.

Era uma bela e calmosa sesta de Setembro. O índio naturalmente preguiçoso, porque para prover as necessidades da vida simples que leva em meio dos desertos não precisa de regar a terra com seu suor desde o nascer até o pôr-do-sol, nessas horas de calma íntima sobretudo entrega-se à sua natural indolência, e dorme ou se diverte. Uma turba de meninos de ambos os sexos entre alegres algazarras patinhavam na água à beira do rio adestrando-se na arte de nadar, tão necessária ao selvagem. As mulheres assentadas em diversos grupos à sombra da canjerana ou da copaíba secular, umas amamentavam suas crianças, outras teciam por passatempo esteiras, redes ou cabazes de cipós ou de palha de coqueiro; outras, deitadas em suas redes delicadamente tecidas de fios de tucum e enfeitadas de penas, embalavam-se indolentemente olhando as nuvens a passearem pelo céu, ou as águas do rio a correrem silenciosas. Os poucos homens que nessa ocasião ali se achavam, pois estavam pela maior parte dispersos pelas matas ao longo da margem do rio ocupados em caçadas e pescarias, uns assavam peixe, ou muqueavam um lagarto, um tatu ou uma paca em fogueiras acendidas fora das tabas; outros consertavam suas armas, ou talhavam arcos e flechas, e os aparelhavam de vistosas penas; um outro, deitado de costas no chão, e esticando o arco com os pés, se divertia em mandar às nuvens uma flecha e vê-la voltar e cravar-se no mesmo lugar donde partira; outros enfim, nada absolutamente querendo fazer, dormiam a sesta, ou deixavam passar o tempo.

De repente ouviu-se de uma das extremidades do arraial dos índios uma gritaria imensa, que se foi propagando e ecoando por toda a aldeia. Os meninos saltaram ligeiramente fora da água e correram a se amoutar nas tabas, as mulheres largaram suas ocupações, e olhavam espantadas para todos os lados; os homens levantaram-se rapidamente com as armas na mão e acudiram ao ponto onde começara o alarma. A causa daquele grande alarido e celeuma era um homem de aspecto estranho que sozinho em uma canoa vinha vogando rio abaixo.

A figura e os traços já esfarrapados desse homem causaram grande estranheza e espanto aos selvagens. Trajava um grande gibão de lã grossa apertado com um cinturão de couro de lontra, ao qual se prendia uma comprida faca com cabo e bainha guarnecida de prata, calças de algodão, e perneiras de couro de mateiro; trazia a barba mui comprida e sobre os cabelos pretos e anelados um pequeno chapéu de sola. Posto que sua tez naturalmente morena estivesse tisnada ainda pelo sol, e viesse armado de arco e flechas, os selvagens apenas o avistaram, exclamaram: — Imboaba! Imboaba! — e esta palavra odiosa, passando de boca em boca em uma imensa vozeria, repercutiu como um eco pelas ribanceiras do Tocantins.

O atrevido canoeiro ouviu toda aquela algazarra e logo compreendeu o iminente perigo que o ameaçava; porém já lhe não era possível recuar e continuou a vogar procurando avizinhar-se o mais possível do barranco oposto às habitações dos índios, esperando assim poder escapar à sua sanha e passar 26

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incólume. Mas a largura do rio não era suficiente para pô-lo a salvo de suas flechadas, e apenas achou-se em frente da aldeia, uma nuvem de flechas voou assobiando sobre ele; mas o destro aventureiro, deitando-se imediatamente no fundo da canoa e amparando-se com o seu largo remo, nem de leve foi tocado, antes achou-se provido de grande munição de flechas, de que tinha precisão, e que lhe iam ser de grande utilidade. Reenviou logo uma, e varou um cão, que ladrava na praia; uma segunda cravou-se no braço de um indígena; uma terceira levou a orelha de outro. E o afoito estrangeiro, entrincheirado no fundo da canoa e fazendo escudo da larga pá de remo, ia deslizando são e salvo pela torrente abaixo e fazendo estragos na linha dos inimigos com as armas que estes mesmos lhe forneciam. Felizmente para ele não tinham os selvagens ali à mão naquele momento uma canoa sequer. Mais algumas flechadas felizes do arco do intrépido canoeiro caíram sobre os índios e acabaram de os pôr em furor. Vendo que com as flechas não era possível ofender o imboaba, lançaram-se alguns ao rio armados de tacapes e dispostos a irem a nado atracar a canoa. Fácil seria ao canoeiro escapar à força de remo, se a multidão de flechas, que continuava a chover sobre a canoa, não o impedisse de remar, dando-lhe apenas tempo de resguardar-se de seus tiros e descochar de quando em quando uma ou outra flecha.

Já dois robustos nadadores com o tacape nos dentes estavam a poucas braças da canoa; um deles enfim a alcança e lança mão à borda. O canoeiro porém a corta imediatamente de um só golpe com sua grande faca de mato. O

índio dando um grito horrível de dor desaparece deixando um sulco ensangüentado à flor da água, e surge instantes depois mais abaixo, rolando à mercê da corrente, enquanto os peixes saltitando disputavam entre si a mão decepada. O outro índio, vendo a sorte de seu companheiro, não se atreveu a atracar a canoa, e afastou-se; os mais que se tinham lançado ao rio, também não ousaram aproximar-se, temendo o mortífero gume daquela formidável faca. O

forasteiro por um momento julgou-se salvo e fora de perigo. Mas eis que de súbito dá com os olhos em duas canoas entulhadas de índios, que surgiam da volta do rio singrando águas acima a todo remar.

Era uma turma de indígenas, que estando a pescar pelas proximidades tinham ouvido o alarido que havia nas tabas, e julgando ser algum perigo, acudiam em seu socorro. O canoeiro viu que a sua situação era desesperada e sua morte inevitável, e que seu único recurso era morrer como homem combatendo até o último alento.

À força de audácia e de esforços desesperados conseguiu encostar a canoa ao barranco oposto; tomou à pressa todas as suas armas, saltou em terra e embrenhou-se pelo mato, não para escapar aos selvagens, pois bem via que seria uma tentativa inútil, mas para escolher um lugar onde pudesse defender-se por mais tempo e vender mais cara a sua vida. Os índios em número sempre crescente saltavam na água e atravessavam o rio; os das canoas também se aproximavam rapidamente. O forasteiro bem compreendeu que qualquer resistência seria inútil, mas não era homem a deixar-se degolar como uma ovelha, e preparou-se para combater até o último trance. Depois de ter-se entranhado 27

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cerca de uns duzentos passos por um mato espesso e emaranhado, abrindo caminho com a faca por entre taquaras e cipós, escolheu posição para fazer frente aos inimigos junto a um corpulento tronco de peroba, que lhe oferecia formidável baluarte. Por detrás desse tronco estendia-se um espesso e impenetrável tabocal, que lhe protegia a retaguarda.

Ali encostou todo o seu arsenal de armas, que consistiam em um arco com algumas flechas, uma grande faca, uma foice pequena, uma pistola de dois canos e uma espingarda carregada com os últimos cartuchos que lhe restavam, e que de propósito reservava para ocasiões difíceis. Ali resolveu-se a resistir até às últimas aos seus selvagens agressores.

Estes, seguindo a batida que o estrangeiro ia fazendo com sua pequena foice, em breve chegaram a descobri-lo, e logo travou-se entre eles o combate o mais temeroso e desigual que se pode conceber. As flechas dos índios iam-se cravar no tronco, por trás do qual o imboaba se abrigava, ou entranhavam-se pelo tabocal, onde se perdiam silvando. Avançando um a um pela estreita picada praticada em um mato cerrado e atravancado de taquaras e cipós, os selvagens iam caindo também um a um aos tiros certeiros do aventureiro, que não perdia uma só flecha, nem um só tiro; aquele em quem fazia a mira caía infalivelmente, ou morto ou gravemente ferido. Os selvagens, cujo número de instante a instante se aumentava, atiravam-se furiosos para o tronco por trás do qual se defendia aquele homem terrível com a coragem do desespero; porém na confusão com que se precipitavam, caíam uns sobre os outros embaraçados na multidão de cipós e matos emaranhados que obstruíam aquele lugar.

Mais de um caiu aos pés do intrépido imboaba a um bem atirado golpe de foice ou recuou rugindo de dor com a mão decepada ou com o crânio escorchado.

Parecia que o estrangeiro ia morrer oprimido debaixo de tantos cadáveres, que ele mesmo amontoava em torno de si.

Nada mais terrível do que a onça, quando, sendo mal atirada, se precipita abaixo do tronco em que é acuada pelos cães; assenta-se sobre os quadris rosnando e apresentando as agudas e monstruosas presas, e a cada bote que dá com as formidáveis patas atabafa e esmaga um cão, e em poucos instantes se vê rodeada de um lastro de cadáveres. Pois assim estava aquele sanhudo aventureiro ceifando e derribando a granel os imprudentes selvagens que ousavam avizinhar-se-lhe. Estes, já transidos de terror supersticioso, pensando que não combatiam contra um homem, mas contra algum espírito ou ente sobrenatural, sentiam falecer-lhes a coragem e começaram a recuar espavoridos diante de tão descomunal denodo e valentia.

Um deles porém, que parecia comandar aos outros, com um grito fez recuar todos aqueles combatentes estouvados e imprudentes, e seguido somente de um companheiro avançou resolutamente para o tronco.

O estrangeiro já tinha descarregado todas as suas armas de fogo e despedido todas as suas flechas. Este último combate portanto foi dado corpo a corpo sobre cadáveres e em um lamaçal de sangue. Ainda que extremamente fatigado e todo crivado de golpes, o forasteiro ainda deu que fazer a seus adversários. Um golpe de tacape descarregado sobre a nuca o fez titubear; outro 28

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imediatamente foi desfechado, e Gonçalo, pois era ele, caiu sobre um lago de sangue por ele mesmo derramado.

CAPÍTULO II

A TABA DO CACIQUE

Uma prolongada e imensa grita aplaudiu aquela vitória a tanto custo alcançada por uma multidão sobre um só homem. Os selvagens em seu furor de vingança já iam arrojar-se sobre o cadáver, esquartejá-lo e devorá-lo ali mesmo.

Mas o jovem guerreiro que descarregara o último golpe sobre Gonçalo, e que parecia ser o chefe ou cacique daquela horda, opôs-se-lhes energicamente bradando em voz irada:

— Ai daquele que ousar tocar naquele corpo!... O cadáver de um tão feroz e valente inimigo é um troféu, que deve ser apresentado ao nosso velho e venerando chefe. Este espetáculo por certo lhe aquecerá e regozijará o coração murchado pelos anos. E quem vos diz que esse estrangeiro não está vivo ainda?... Se assim é, se ainda temos de vê-lo tornar à vida, acrescenta o jovem guerreiro em tom menos severo e quase risonho, mais escolhida vítima, sacrifício mais excelente não poderá ser oferecido a Tupá no dia de minha feliz união com a formosa Guaraciaba, esse raio de luz descido do céu para iluminar-me o coração.

O chefe, que assim falava, e que tinha prostrado a golpes de tacape o sanhudo imboaba, chamava-se Inimá. A ele estava prometida a gentil e mimosa Guaraciaba, filha do velho e poderoso cacique Oriçanga, e a mais encantadora dentre as filhas da floresta.

O fato de ter vibrado o golpe de morte sobre o formidável estrangeiro era para Inimá uma proeza que ia ainda exaltar o seu merecimento e enchê-lo de glória aos olhos do velho cacique, da danosa Guaraciaba e da tribo inteira. Pelo menos ele assim o esperava, e já de antemão se regozijava interiormente de seu triunfo.

— Foi Tupá, exclamava ele em transportes de alegria, foi Tupá que aqui nos enviou este estrangeiro; e foi sua voz que me chamou para nos libertar de um monstro, enviado por Anhangá para maquinar a nossa perdição. Guerreiros, vamos dar graças aos céus e oferecer sacrifícios aos manitós de nossas tabas por este sucesso de tão feliz agouro.

Inimá ajuntou as armas do aventureiro, contemplou-as com admiração e curiosidade, e mandando conduzi-las com o corpo de Gonçalo em uma canoa, apressou-se em ir depor cheio de orgulho aqueles troféus, tão facilmente conquistados, aos pés do poderoso Oriçanga e da formosa Guaraciaba.

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A taba do velho cacique Oriçanga, mais vasta e mais sólida que todas as outras, com sua porta guarnecida de flechas e lanças enfeitadas de vistosos penachos, com seu teto de palmas de baguçu tingidas de oca e de urucu, mirava-se galhardamente na torrente do Tocantins, e elevava-se entre as outras cabanas como a garça, rainha dos lagos, entre um bando de pequenas aves. A noite se aproximava. Sentado à porta da taba sobre a pele enorme de uma onça negra, Oriçanga esperava com impaciência que lhe trouxessem vivo ou morto o audacioso estrangeiro que assim ousava resistir a seus guerreiros, indignado de que tantos combatentes gastassem tanto tempo e achassem tamanha dificuldade em matar ou prender um só homem. Em pé junto dele, como tímida corça junto ao leão deitado, a gentil Guaraciaba tinha também os olhos fitos com ansiosa curiosidade nas canoas, que da outra margem vinham ligeiramente singrando.

Dentro em poucos minutos o corpo de Gonçalo inanimado e banhado em sangue, conduzido em uma rede com todas as suas armas, foi posto aos pés do velho cacique. Inimá e seus companheiros precediam o cadáver, soltando clamores de feroz alegria. O cacique porém os recebeu com semblante torvado, e ouviu com impaciência a narração que lhe fez Inimá do combate e da desesperada resistência do estrangeiro, e dos estragos que fez em sua gente.

Depois abanando a cabeça com ar descontente e gesto merencório exclamou:

— Ah! Inimá! Inimá! já não pareces o filho do valente e invencível Iaboré!

Quem diria que não ousaste ir sozinho arrostar a sanha do estrangeiro, e que deixaste morrer teus companheiros como uma vara de caitetus às garras da onça esfaimada!... Mancebos fracos e degenerados de hoje, sois incapazes de encurvar o arco de vossos antepassados. Em outros tempos, quando a idade não tinha ainda branqueado estes cabelos nem quebrado estes pulsos, eu só ou qualquer dos meus valentes teria esmagado esse mancebo com a mesma facilidade com que espedaço este cachimbo. — E esmagou entre os dedos o canudo pelo qual aspirava a fumaça da pituma.

A este gesto, a estas duras palavras bagas de suor frio escorregaram pela testa do jovem guerreiro, que batendo os dentes como um queixada enfurecido, com voz convulsa e abafada respondeu:

— Oriçanga! Oriçanga! não profiras tais palavras!... a cólera te cega, velho cacique, e torna-te injusto. Não penses que esse estrangeiro que acabamos de garrotear era um inimigo vulgar. Não; era um enviado de Anhangá, e estou certo que com ele combatiam contra nós os manitós das trevas ocultos entre os ramos da floresta. Se lá te acharas, se presenciasses esse estranho combate e visses por que modo sobrenatural o maldito imboaba se furtava a nossos golpes, por certo nos não julgarias com tão injusto rigor. Mas seja como queres: ao que me parece esse temerário estrangeiro não está morto ainda e é bem possível que ainda volte à vida; de propósito sopeei a força de meu pulso ao vibrar-lhe o último golpe. Procurem chamá-lo à vida, curem-se suas feridas, e quando de todo tiver recobrado suas forças, que venha medir suas armas comigo. Se aos primeiros 30

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botes eu não calcar-lhe o peito debaixo de meu joelho, e não escachar-lhe o crânio com um golpe deste tacape, possam os meus olhos nunca mais se encontrar com os da formosa e incomparável Guaraciaba.

— Sejas como dizes, replicou Oriçanga; seja o estrangeiro recolhido em um dos aposentos de minha taba; os pajés pensem suas feridas, e ministrem-lhe todos os cuidados que reclama seu estado, e vejam se lhe restituem a vida. Se ele recuperar os sentidos e viver, Inimá, será um sacrifício de excelentes auspícios para o dia em que receberes por esposa em tua taba a gentil Guaraciaba.

Ditas estas palavras, como descia a noite, o velho cacique levantou-se e a passos lentos recolheu-se para o interior da cabana.

O espetáculo do corpo de Gonçalo todo ensangüentado e crivado de golpes não fez mais impressão sobre o espírito daqueles ferozes selvagens, do que o de uma fera que em uma partida de caça acabassem de matar e arrastar para as tabas.

Mas não assim para Guaraciaba, que ao ver aquele belo e garboso mancebo, em cujo rosto inanimado ressumbrava a altivez e galhardia, todo pisado e banhado em sangue, sentiu agitar-lhe o seio um sentimento insólito de interesse e compaixão.

Gonçalo, recolhido em um dos compartimentos da taba do cacique, foi ali deitado sobre um leito de macias peles e confiado aos cuidados de Andiara, o mais venerável e mais sábio dos pajés, e que primava na arte de curar golpes e toda a qualidade de enfermidades. Guaraciaba prestou-se graciosamente a auxiliá-lo, e quis ser ela mesma com encantadora solicitude a enfermeira do prisioneiro ferido. Andiara examinou com atenção o corpo de Gonçalo, e reconhecendo que a vida ainda não o tinha de todo abandonado, administrou-lhe os primeiros cuidados e concebeu esperanças de salvá-lo.

Inimá, sombrio e cabisbaixo, retirou-se no fundo de sua taba, ruminando na mente as cruéis palavras de Oriçanga e entregue aos mais sinistros pressentimentos.

Enquanto Gonçalo sem sentidos jaz entre a vida e a morte, entregue aos cuidados do pajé e da mimosa Guaraciaba, vejamos o que fizera ele depois da horrível e encarniçada luta em que matara seu amigo, e por que série de acontecimentos viera ele cair nas mãos dos ferozes Chavantes.

Gonçalo, crivado de graves e profundos golpes e perdendo muito sangue depois daquele furioso e desesperado combate, desatinado e torturado pelas dores do corpo e pelas tormentas da alma, dirigiu-se o mais depressa que pôde para sua casa. Aí tratou de estancar o sangue das feridas e pensá-las à pressa e do melhor modo que pôde; e como ali mais do que em outra qualquer parte estaria em perigo a sua segurança, arrecadou todo o dinheiro e objetos de valor que pudesse levar consigo, e sem nada dizer a seus domésticos, abandonando a casa, escravos e haveres de toda espécie, montou de novo a cavalo, e tomando por trilhos escusos e desconhecidos com grande dificuldade pôde chegar exausto de força e quase desfalecendo à casa de um velho caboclo, que lhe era muito afeiçoado e que habitava um miserável ranchinho escondido entre matos em um 31

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sítio retraído e ignorado. Aí esteve por muitos dias oculto curando-se de suas feridas e recuperando suas forças. Por felicidade o caboclo era grande curandeiro, e graças aos remédios que aplicou, e que consistiam em ervas e raízes silvestres, cujas virtudes conhecia, ao zelo e dedicação com que tratava o seu jovem hóspede, e à admirável robustez da organização de Gonçalo, este viu suas feridas irem-se prontamente cicatrizando, e seu vigor e saúde de dia a dia restabelecer-se.

Entretanto em seu obscuro esconderijo Gonçalo não podia estar muito tranqüilo. A justiça de Goiás ativava diligências sobre diligências para descobri-lo.

As milícias e esbirros passaram algumas vezes por perto do pobre rancho do caboclo sem a mais leve suspeita de que ali se achava aquele que com tanto afã procuravam por toda a parte, e muitas vezes Gonçalo em seu leito de dores tinha de escutar as ameaças, pragas e maldições com que aqueles homens o acabrunhavam. O matreiro caboclo os acompanhava na ladainha das imprecações, dando a todos os diabos o nome de Gonçalo, a quem mimoseava com os mais horripilantes epítetos, chamando-o de Satanás, tigre, canguçu, etc.

Outras vezes dando falsas informações e indícios por ele mesmo excogitados iludia e desorientava completamente as diligências.

Por sua parte também as inumeráveis vítimas das valentias de Gonçalo, que lhe guardavam secreto rancor, e os amigos de Reinaldo, que os tinha muitos e dedicados, desejosos de vingá-lo, procuravam Gonçalo por toda a parte e faziam altas diligências para descobri-lo, dispostos a fazer pronta justiça por suas próprias mãos.

A vida de Gonçalo andava pois pendente de um fio.

Ele portanto, que avisado pelas próprias patrulhas que o procuravam, não ignorava estas circunstâncias, logo que se sentiu com algumas forças e em estado de poder montar a cavalo, depois de ter agradecido e remunerado generosamente os serviços do bom caboclo, desapareceu, e dirigindo-se para os sertões do norte, embrenhou-se pelas matas que demoram entre a Serra Geral e o rio Tocantins.

Sozinho naqueles ermos sem recurso, vivendo de frutos silvestres, de mel e de caça mal assada e sem adubo algum, pedindo raras vezes furtivamente agasalho em alguma pobre choupana, sofrendo trabalhos e privações, a que só sua robusta compleição podia resistir, foi-se entranhando de mais em mais pelos sertões, procurando fugir para bem longe de uma terra que se lhe tornara odiosa, e cuja lembrança lhe oprimia o coração como um pesadelo. Com as mãos manchadas no sangue de um amigo, a quem perfidamente assassinara, com a alma atassalhada de remorsos e em um sombrio desespero, vagava a esmo pelos desertos esperando morrer às garras de alguma fera ou entre as mãos dos gentios, se não sucumbisse à mortal tristeza que por dentro o corroía.

Assim vagou por muito tempo até que chegou às margens do Tocantins, onde sendo bem acolhido entre uma tribo de índios Coroados, foram-se com o tempo acalmando as angústias que o flagelavam, viveu largo tempo entre eles, adotou os seus costumes, aprendeu a sua língua, e já por sua inteligência, já por sua grande força e destreza no manejo de armas de qualquer espécie, gozou de grande respeito e prestígio entre eles.

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Decidido a romper completamente com a sociedade dos homens civilizados, Gonçalo pôs-se ao serviço daquela nação. Por mais de uma vez foi-lhe dado o comando de expedições destinadas a debelar tribos inimigas, ou a fazer frente às bandeiras encarregadas de submeter ou exterminar os índios, e sempre voltava vitorioso e carregado de despojos.

Mas a inveja e a rivalidade de alguns dos principais da tribo, que viam com maus olhos o ascendente que esse estrangeiro ia tomando sobre o chefe e sobre a nação inteira, foram tornando por fim difícil e espinhosa a situação de Gonçalo.

De caráter assomado e altivo, ele teve mais de uma vez de dar a alguns dos índios as terríveis lições que costumava dar outrora em Goiás a seus compatriotas. Demais, os Coroados começavam a entreter relações de amizade e de comércio com os goianos. Algumas hordas destes selvagens já começavam a ir a Goiás vender esteiras, peles, guaraná e outros objetos e comprar armas, ferramentas, fazenda e quinquilharias. Estas comunicações com seus patrícios não convinham por maneira nenhuma a Gonçalo, que com razão receava que por um acaso ou por uma traição de seus rivais da tribo fosse conhecida em Goiás a sua existência entre aqueles indígenas. Portanto resolveu-se a abandonar para sempre os Coroados, e ir procurar refúgio em mais desertos e longínquos países.

Ele bem sabia que ia arrostar perigos e azares ainda maiores, e que daí em diante só encontraria feras e gentios indomáveis; mas antes quereria morrer entre as garras de um tigre ou trespassado pelas flechas dos selvagens, do que voltar a Goiás ainda mesmo de seu moto próprio, quanto mais preso e entregue à justiça.

Em uma noite pois, metido em uma canoa, em que embarcou suas armas e as provisões que pôde, deixou furtivamente o arraial dos Coroados, e abandonou seu destino à mercê da torrente do Tocantins. Assim foi descendo através de mil dificuldades e perigos, que superava à força de audácia, destreza e astúcia, em luta já com as cachoeiras do rio, já com as hordas selvagens de ambas as margens, já com a fome e privações de toda a sorte, até que chegou ao lugar onde, depois de obstinada resistência, o vimos cair como morto em poder dos Chavantes.

CAPÍTULO III

A ENFERMEIRA

Era alta noite ; o silêncio e o sono reinavam na taba do velho cacique, o qual, depois de ter narrado aos amigos reunidos em torno do fogo algumas das proezas de sua mocidade, adormecera suavemente entre a fumaça de seu cachimbo e os vapores de um vaso de cauim sobre a sua enorme pele de onça.

Os fogos da taba se extinguiram; no meio daquele profundo silêncio ouvia-se apenas só o resfolgar das pessoas adormecidas nos diversos aposentos da vasta cabana.

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Somente no quarto em que fora recolhido o infeliz Gonçalo alguém velava.

Era Guaraciaba, que à luz de um fogo que continuamente alimentava, observava com ansiosa curiosidade e interesse o rosto do mancebo moribundo. De vez em quando brandindo um tição se aproximava subtilmente do leito do ferido a ver se em seu rosto se manifestavam já alguns sinais de vida, avizinhava cautelosamente o ouvido como que procurando escutar-lhe a respiração e o palpitar do coração. Curiosa e inquieta não podia arredar sua atenção daquele leito, em que jazia o mísero prisioneiro, e o sono se recusava a cerrar-lhe as pálpebras mimosas. A pouca distância de Gonçalo, Andiara, o pajé encarregado de sua cura, deitado em uma esteira de juncos, ressonava profundamente.

Enfim lá pela madrugada Gonçalo fez um ligeiro movimento, e um fraco gemido quase imperceptível escapou-lhe do peito. Guaraciaba estremeceu e o coração pulsou-lhe com violência.

— Está vivo! murmurou com alegre sobressalto a filha da floresta, e escutou ainda; mas não ouviu mais som, nem notou movimento algum. Aproximou-se de novo ao leito, e cuidou notar um leve arquejar do peito do prisioneiro; mas este, pálido e imóvel, não apresenta ainda no semblante sinal algum de vida.

Guaraciaba enfim afoita-se a pôr-lhe de manso a mão sobre o coração. Gonçalo com o frescor da madrugada e graças aos bálsamos eficazes que o experiente pajé lhe vertera nas feridas, ia pouco e pouco recuperando os sentidos, e acordava lentamente de seu longo desfalecimento. As idéias se despertavam em sua alma como em um sonho nebuloso e vago, e duvidava se era ainda em corpo e alma um habitante deste mundo, ou se já era um espírito errante pelos limbos da eternidade. No meio porém daquele penível delírio de suas confusas idéias ele sentiu a mão mimosa de Guaraciaba pousar-lhe docemente sobre o coração; mas em vão tentou abrir os olhos; suas pálpebras amortecidas e inertes não obedeceram à sua vontade; quis falar, mas não lhe saiu do peito mais que um ralido imperceptível. Este aflitivo pesadelo já há alguns minutos o atormentava, quando Gonçalo ouviu confusamente uma voz doce e infantil murmurando em língua indígena estas palavras a espaços interrompidas:

— Pobre mancebo! meus irmãos foram bem cruéis em maltratá-lo assim! É

bem triste ver um guerreiro assim na flor da vida, tão belo e tão valente, prostrado e morto a golpes de tacape, como se fora um jaguar! E por que havia ele de ser tão louco e temerário! Se não resistisse, acharia talvez entre nós agasalho amigo e franco. Como é gentil, e diferente dos meus companheiros da floresta! seus cabelos negros e luzentes como as penas do anu enroscam-se como serpentes em redor do pescoço, seu porte é como o dos heróis; em sua larga frente ressumbra como que alguma coisa de superior e de celeste. Entretanto, ai de mim! esse belo estrangeiro é a vítima destinada a ser sacrificada a Tupá no dia em que eu for entregue como esposa entre as mãos de Inimá para tornar os manitós propícios à nossa união! Se assim é, ó meu pai, ó Inimá, possa nunca mais raiar esse dia de tão nefasto e abominável sacrifício!

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Ao som deste suave monólogo o espírito de Gonçalo começava a desnevoar-se pouco a pouco como aos acordes de uma música celestial.

Recorda-se então confusamente do medonho combate da véspera, e pasma de se achar ainda no número dos vivos. Entretanto essa voz suave, que com tanta ternura o lastima, anuncia-lhe também que ele é prisioneiro, e que sua vida não é poupada senão para que seja solenemente sacrificada em um dia de festins nupciais. Mas as palavras desse ser desconhecido repassadas de piedosa doçura lhe ressoavam aos ouvidos como um hino de esperança, e posto que nada pudesse ver, seu coração como que adivinhava a presença de um anjo salvador, que velava junto ao seu leito. Gonçalo faz um esforço e consegue fazer um movimento e exala um fraco gemido. Guaraciaba cala-se e suspende a respiração, como a rola assustada, que interrompe o arrulho ao ouvir passos na floresta; retira-se um pouco, espera um momento e de novo chega-se ao leito e interroga com os olhos o rosto do ferido. Este sente-lhe os passos, enfim pode abrir os olhos e com voz débil e sumida pronuncia em língua indígena estas palavras:

— Virgem da floresta, ou anjo do céu, como me pareces, que tanta compaixão mostras pelo infeliz prisioneiro, dize-me, quem és tu, onde me acho eu, e o que se pretende fazer de mim?

— A filha de Oriçanga, maravilhada de ouvir nos lábios do estrangeiro a língua de seus pais, lhe responde comovida:

— Tu te achas na taba de Oriçanga, meu pai e cacique dos Chavantes, em cujo poder caíste prisioneiro. Aqui ficarás até que sarem tuas feridas e recobres a saúde e as forças.

— Para depois ser conduzido ao sacrifício, não é assim, filha de Oriçanga?

— Oh! quem to disse! atalhou ela vivamente, e pensou consigo aterrada: acaso me teria ele ouvido?

— Oh! sim! bem o sei; continua Gonçalo animando-se; sei que me conservam a vida para depois festejarem com a minha morte e consagrarem com meu sangue cobardemente derramado tuas bodas com... mas não o conseguirão... com estes dentes ainda posso arrancar as ataduras destas feridas e fazer correr por elas todo o meu sangue, para que o não derrameis em vossas festas abomináveis.

— Ah! não! não faças tal; exclama aflita. Acalma-te; nenhum perigo te ameaça... mas é lástima que sejas, como pareces, um filho dos imboabas, desses cruéis inimigos e perseguidores da raça dos adoradores de Tupá.

— Não o creias, filha de Oriçanga: eu sou como vós outros filho das selvas livres; sei encurvar o arco e despedir a flecha de meus antepassados, falo, como vês, a tua língua, e só conheço o imboaba para odiar-lhe e beber-lhe o sangue.

Gonçalo por uma prudente astúcia entendeu que devia nesta conjuntura ocultar a verdade, e nem ele mentia totalmente, pois que voluntariamente se havia seqüestrado da sociedade para viver entre os selvagens. Ao ouvir estas palavras Guaraciaba não pôde conter um grito de surpresa e satisfação.

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— É verdade o que acabas de dizer, estrangeiro? quê! tu não és imboaba!... tu és dos nossos! nesse caso tranqüiliza-te; nada tens a temer aqui, é a filha de Oriçanga quem responde pela tua vida.

— Anjo, exclama Gonçalo com voz sumida e angustiada, para que queres poupar-me a vida?... Ah! tu não sabes quanto ela me é odiosa e pesada... Mas tu não és por certo uma mulher... tu és um manitó celeste enviado por Tupá para proteger-me e consolar-me... ah! deixa-me beijar essa mão generosa...

— Cala-te, interrompeu ela levando-lhe os dedos à boca; o pajé não quer que fales, pois isso te fará muito mal. Ah! imprudente que eu fui em te fazer assim falar por tanto tempo.

A primeira claridade do dia já vinha frouxamente penetrando pelas frestas da cabana. As selvas começavam a despertar aos mil rumores que faziam uma multidão de aves esvoaçando, piando, grasnando ou gorjeando entre os ramos orvalhados. Nuvens de papagaios, araras e periquitos atravessavam o espaço enchendo os ares de sua incessante algazarra; e enquanto o tucano, vaidoso de sua vistosa plumagem, fazia ouvir seu rouco e ingrato grasnar, o sabiá do alto da peroba secular desprendia seus cadenciados gorjeios. Guaraciaba desperta o pajé adormecido, e anuncia-lhe, sem disfarçar sua alegria, que o estrangeiro recobrara os sentidos, e com a maior instância lhe pede e recomenda que se desvele em tratá-lo com todo o zelo que exige o seu estado melindroso.

Andiara votava paternal afeição à filha do cacique, sobre cuja infância velara desde o berço com a mais terna solicitude. Tendo ela ainda em tenra idade perdido sua mãe, a linda e danosa Naumá, Andiara, parente e amigo fiel e extremoso de Oriçanga, a cuja família julgava estar ligada a glória da nação dos Chavantes, tomou a si o cuidado de educar e desenvolver os dotes do corpo e do espírito da gentil menina, última progênie de uma raça de heróicos caciques, e em quem repousava toda a esperança da tribo. Ele a tinha sempre junto a si, e a conduzia pela mão em seus giros pelas florestas; ele entretecia com suas próprias mãos vistosos canitares de plumas ondulantes para sombrear-lhe a fronte, e lhe engastava o cinto da araçóia de palhetas de ouro nativo e de brilhantes pedrarias.

Também a exercitava na arte de encurvar o arco, de brandir o tacape, de fender com os ombros as águas das torrentes, ou impelir rapidamente com o remo uma piroga a resvalar pelas ondas azuladas de seu rio natal; ensinava-lhe as danças e cantigas sagradas, e os hinos de guerra, dando-lhe uma educação toda varonil na esperança de torná-la um dia uma heroína capaz de elevar a nação ao mais subido auge de glória e de grandeza. Guaraciaba por seu lado respeitava e queria ao velho pajé como a um outro pai; com docilidade e submissão filial obedecia às suas ordens, escutava os seus conselhos, e retribuía-lhe com afetuosa gratidão os afagos e cuidados que dele recebia.

Andiara pelo muito afeto que tinha à gentil menina, ou por uma natural simpatia, deixou-se também penetrar do interesse que a ela inspirara o malferido estrangeiro, e esforçou-se com desvelo e ardor em restituir-lhe a vida e a saúde.

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Tendo pois bem recomendado o enfermo aos cuidados do pajé, Guaraciaba deixa a taba, corre à beira do rio, banha as faces e os olhos ardentes de insônia na sua onda límpida e fresca, e com um pente de madeira preciosa e aromática encrustado de lâminas de ouro desembaraça e alisa os negros e luzidos cabelos, que se espalham como um véu sobre os ombros e o seio. Vai depois pressurosa despertar seu pai, e com prazenteiro e ingênuo sorriso diz-lhe:

— Meu pai, ele vive!

— Quem, filha?... o imboaba?

— Sim, o estrangeiro, meu pai; esta madrugada abriu os olhos e falou...

— Bem, minha filha! dá graças a Tupá, que nos envia um herói dos imboabas para ser imolado no dia em que eu te entregar nos braços de Inimá como companheira de sua taba. Excelente agouro, que promete a perpetuação dos heróicos caciques do sangue de meus avós! O sacrifício desse sanhudo e valente imboaba será mais grato a Tupá do que se imolássemos um cento de vítimas ordinárias, e os céus serão propícios à tua união.

— Mas, meu pai, tu te enganas, esse prisioneiro não é um imboaba; ele é, como nós, filho e Tupá, fala a língua das florestas, e odeia como nós a raça de nossos perseguidores.

— E que manitó celeste, ou que pajé inspirado revelou-te esse mistério?...

— Ele; ele mesmo mo disse.

— E acreditaste!... não sabes que a mentira, o embuste, a traição andam sempre nos lábios dessa gente pérfida e cruel?

— Oh! não... sua voz, suas falas, sua figura não são do imboaba; nelas respira o espírito de verdade, e em seu rosto transluz a altivez do filho das florestas.

— De feito, murmurou o velho chefe abanando a cabeça, quem com tanta destreza encurva o arco e vibra tão mortíferas flechadas, quem combate com tamanho denodo e valentia, não pode ser do sangue vil do imboaba traiçoeiro.

Mas seja como for, é sempre um inimigo e um herói; e tu, minha encantadora e querida Guaraciaba, tu és bem digna de que tua união seja consagrada com o sangue de um herói soterrado pelas mãos de teu esposo.

— Ah! meu pai! se para que minha união seja feliz e agradável aos céus, é mister que corra o sangue de um desgraçado prisioneiro, perdoa-me, meu pai, eu não serei nunca a esposa de Inimá!

— Que dizes, filha! como queres menosprezar a velha e sagrada usança de nossos antepassados? É sempre grato a Tupá o sangue do inimigo vertido em honra sua, e cometeríamos um crime se poupássemos a vítima que ele mesmo nos envia.

— Mas a vítima não é um inimigo, é um infeliz foragido, que porventura procurava entre nós gasalhado e asilo, e a quem recebemos com as armas na mão, como se fora um jaguar.

— Seja pois como dizes, prezada filha; quero ainda condescender com teus caprichos de criança. Sare esse estrangeiro de suas feridas, e quando o seu estado o permitir, seja conduzido à minha presença para nos dizer quem é, e 37

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contar-nos a sua história; depois veremos o que dele se fará. E ai dele se procurar enganar-me com seus embustes e mentiras!

CAPÍTULO IV

O RESTABELECIMENTO

Gonçalo, graças ao acertado curativo do sábio e experiente Andiara, e à desvelada solicitude com que o tratava a filha de Oriçanga, foi mais depressa do que se podia esperar sarando de suas feridas e contusões, e readquirindo seu antigo vigor. Para seu pronto restabelecimento sem dúvida mais que tudo contribuiu a amável e interessante enfermeira que o assistia. Guaraciaba, que em língua chavante significa – raio de luz – era com efeito a mais gentil e graciosa dentre as filhas da floresta.

E não se pense que entre esses selvagens não se encontram senão rostos grosseiros e estúpidos, instintos selváticos e ferozes; não é muito raro ver-se entre eles, principalmente entre certas tribos privilegiadas, feições bem modeladas, regulares e expressivas, e nobres e generosos impulsos do coração; encontram-se por vezes entre eles criaturas em que a obra de Deus faz lembrar ainda a perfeição de sua celeste origem. Guaraciaba era o tipo da beleza indígena no mais alto apuro de sua perfeição. Filha mimosa de um poderoso cacique, criada com carinho à sombra da taba paterna, sua tez não se crestara aos ardores do sol tropical, nem se lacerara nos espinhos das selvas enredadas, e tinha em todo o seu frescor e pureza a delicada cor de jambo. Seus cabelos negros, compridos e corridos ocultavam-lhe quase completamente os ombros, e algumas madeixas desgarradas desciam ondulando a beijar os puros contornos dos seios virginais.

Seus olhos pretos e oblongos ora eram meigos e serenos como a superfície de um lago dormente em noite de luar, ora cheios de vivacidade cintilavam como o carbúnculo. Seu porte, seus ademanes tinham a flexibilidade e a graça da cecém, que ao sopro das brisas matinais embala-se à beira da torrente. Ela se comprazia muitas vezes com a turba de suas companheiras em banhar os mimosos membros nas águas do seu pátrio rio, que ela fendia com a destreza e rapidez da lontra. Também empunhava com graça e garbo senhoril um arco trabalhado de primorosas esculturas, e um carcás trançado de palhas de coqueiro imitando a pele escamosa e matizada de uma serpente e bem provido de setas, com que fazia crua guerra às avezinhas, cujas penas cobiçava para seus enfeites.

Guaraciaba e Andiara não poupavam desvelos e cuidados para que Gonçalo recuperasse forças e saúde. Ela mesma trazia em vasos de concha de tartaruga, ou de madeira esculpida, os selváticos manjares preparados por suas próprias mãos. Ora o regalava com os mais saborosos peixes e a caça a mais delicada, ora com os tenros palmitos ou a alva mandioca embebida no delicioso mel de jataí, com ovos de tartaruga, com frutos silvestres, e o suave licor extraído 38

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do tronco do buriti; e Gonçalo como que ressurgia do túmulo vivificado pela mão de um anjo.

Entretanto os Chavantes em diversos grupos se dispersavam pelas imensas florestas que bordam as margens do Tocantins, em excursões mais ou menos longínquas de caçadas e pescarias, ou em busca dos ingredientes de que fabricam o precioso guaraná, de cuja composição até hoje se ignora o segredo, ou em correrias pelas fazendas dos brancos, onde iam exercer violências e rapinas.

Quanto a Inimá, profundamente ofendido com as cruéis palavras com que Oriçanga o havia humilhado em presença de Guaraciaba e de grande número de guerreiros, se embrenhava à testa de alguns dos seus pelas florestas vizinhas para ocultar seu amargo despeito, e disposto a não aparecer senão para lavar sua afronta no sangue do atrevido forasteiro que dela fora a causa. Nas tabas pois com Oriçanga e sua filha ficara apenas uma pequena parte da tribo, pela maior parte velhos, mulheres e crianças, e uma escolta de guerreiros escolhidos eram como uma guarda do velho cacique.

Logo que Gonçalo se achou fora de perigo e algum tanto restabelecido de suas forças, foi conduzido pela gentil Guaraciaba à presença do velho chefe, para narrar-lhe suas aventuras. Junto à margem do rio, à sombra de uma colossal figueira silvestre, achava-se sentado o velho cacique rodeado de alguns guerreiros veteranos, com os quais se comprazia em rememorar as façanhas das eras de outrora, e com essas lembranças do passado sua alma se expandia como o velho e carcomido tronco da floresta já sem seiva nem folhagem, cujo calvo tope se enrama de viçosas parasitas e floridas trepadeiras. Gonçalo se assentou no meio deles; servia-lhe de assento a saliência de uma das enormes raízes do tronco. A mimosa filha de Oriçanga apresentou a cada um dos circunstantes um vaso de cauim, e um cachimbo aceso, que circulou de boca em boca, em sinal de paz e boa amizade. Assentada sobre a relva a alguns passos em frente de Gonçalo, com os pés encruzados, o braço pousado sobre os joelhos e a face sobre a mão, Guaraciaba, que nesse momento oferecia à estatuária o mais original e gracioso modelo, estava pronta a escutar com a maior atenção e infantil curiosidade.

— Estrangeiro, diz Oriçanga, quem quer que tu sejas, ou descendas do sangue maldito do imboaba, ou tenhas nascido neste país que Tupá abençoou, já que o céu te fez cair em nosso poder, és nosso escravo, e faremos de ti o que nos aprouver. Mas diz alguém que não pertences à raça detestada de nossos perseguidores, e que as tuas tristes aventuras obrigam-te a vaguear pelas selvas foragido sem taba e sem manitós. Conta-nos pois com espírito de verdade a história de teus infortúnios, e à vista dela veremos qual a sorte que mereces.

Gonçalo, prevenido por Guaraciaba de que teria de contar ao pai dela a história dos acontecimentos de sua vida , já tinha fantasiado em seu espírito a narração que devia fazer ao velho cacique. Não lhe era preciso inventar muitas fábulas, mas somente disfarçar certas circunstâncias de sua vida mudando o nome de algumas pessoas e lugares e ocultando a sua verdadeira nacionalidade, para tornar interessante a sua narração. Assim pois misturando às vezes a história 39

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real de sua vida, cheia de incidentes e trabalhos, com algumas fábulas por ele mesmo ideadas, disse que pertencia à bela e formidável tribo dos Guaicurus, que habitavam as remotas regiões banhadas pelos rios Paraná e Paraguai. Seu pai era um cacique afamado naquelas paragens por seu grande valor e poderio. Esse cacique à testa de seus valentes guerreiros montados em grandes e velozes cavalos, percorriam as campinas de seu país natal com a rapidez do tufão, e causavam estragos e devastações imensas nos estabelecimentos dos brancos de quem se tinham tornado implacáveis inimigos. Enfim, depois de uma guerra desastrosa, ele, seu pai e toda a sua família tinham caído prisioneiros em poder dos brancos; depois tinham sido conduzidos por seus senhores a Goiás, onde foram vendidos e longo tempo gemeram vítimas de bárbaro e violento cativeiro, e onde vira seu pai sucumbir ao peso de maus tratamentos e excessivos trabalhos.

Enfim crescendo em forças e idade, e não podendo por modo algum resignar-se a suportar o jugo infame da escravidão, conseguira evadir-se, e se refugiara nas matas do Alto Tocantins. Acolhido entre os Coroados, que habitavam essas regiões, em breve adquiriu a estima e apreço dos principais da tribo, que o escolheram para comandar uma expedição que tinha de marchar a exercer vinganças e depredações nas povoações dos imboabas. Aproveitou-se com sofreguidão dessa ocasião para vingar a morte de seu pai, matando com a própria mão o seu algoz e reduzindo a cinzas suas fazendas. Em muitas outras ocasiões teve de prestar os mais importantes serviços aos Coroados, quer expondo intrepidamente a sua vida na guerra, quer ensinando-lhes diversos ofícios e artes, que aprendera durante o seu cativeiro entre os brancos, quer enriquecendo-os com instrumentos, armas e mil outros despojos de imenso valor, que saqueava das fazendas que destruía. Mas enfim seus próprios feitos e serviços suscitaram-lhe uma multidão de inimigos, excitando a inveja e descontentamento de muitos, que tinham ciúme do brilho e lustre que seu nome ia adquirindo entre eles. Seus rivais não ousavam guerreá-lo abertamente, mas urdiam-lhe ciladas de todo o gênero, e moviam-lhe uma perseguição traiçoeira, à qual teria inevitavelmente sucumbido, se não tivesse fugido ocultamente a favor da noite em uma canoa confiando sua vida à mercê da corrente do rio sagrado, que o tinha conduzido até ali, afrontando novos trabalhos e perigos em busca de um asilo em qualquer canto do mundo. Chegando àquelas paragens eles Chavantes tomando-o por um inimigo, ou imboaba, o tinham atacado tão bruscamente e com tal sanha, que o colocaram na necessidade de defender-se com encarniçamento até o último trance.

Enfim nenhuma inimizade ou indisposição tinha com os Chavantes, de cujo poderio tinha muitas vezes ouvido falar, e cuja bravura ecoava até as mais remotas regiões. Esperava que dali em diante não o considerassem mais como um inimigo, nem como um estrangeiro, porém sim como um companheiro de mais, um aliado fiel, que não aspira a outra coisa mais do que a ter ocasião de expor sua vida e derramar seu sangue pela causa dos valentes Chavantes, e de seu bravo e poderoso chefe.

Gonçalo entremeara nesta narração os inúmeros e variados episódios de sua vida agitada e aventureira, envolvendo-os em circunstâncias estranhas e 40

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fantásticas; pintava com modéstia, porém com animação e calor, os renhidos combates em que tinha suplantado seus inimigos e rivais, os rudes trabalhos e arriscadas aventuras por que tinha passado, as proezas que praticou comandando os Coroados em suas correrias pelas fazendas dos brancos, e assim teve por largo tempo presa a atenção do cacique e mais ouvintes, que absortos e enlevados não se fartavam de escutá-lo.

— Bem! Disse o velho caudilho apenas Gonçalo deu por terminada a sua narração; os teus infortúnios me tocam, e tuas palavras parecem-me ser inspiradas pelo espírito da verdade. Itajiba, tu és um bravo, e as façanhas que tens praticado são dignas dos mais valentes caciques. Mas antes de seres adotado em nossa tribo, como pareces desejar, é mister que proves com os teus feitos e com serviços reais, que não com meras palavras, a força de teu braço, a valentia de teu ânimo, e a lealdade de teu coração. Por agora porém cumpre que continues o teu curativo, e que recuperes completamente com o sangue vazado por tantas e tão graves feridas a saúde e as forças de que haverás mister para te sujeitares a essas provações, e mostrares o que podes e sabes fazer. Não serás mais tratado como prisioneiro; és livre; as florestas e as campinas te são francas; podes por elas vagar e caçar a teu sabor, como se estivesses em teu país natal, pois que essa formosa criatura, a quem por felicidade tua soubeste inspirar interesse e piedade, garante a sinceridade de tuas palavras, e a minha Guaraciaba, que conversa com os manitós celestes, e escuta as falas dos sagrados pajés, não costuma iludir-se.

Gonçalo ou Itajiba, como se chamou durante o tempo que esteve entre os Chavantes, restituído à liberdade, e tratado com o mais carinhoso desvelo na taba do velho Oriçanga, sentia de dia em dia renascerem-lhe as forças e vigorar-se-lhe a saúde. Viu com prazer que todas as suas armas lhe tinham sido fielmente conservadas. Mas suas armas de fogo se lhe tornavam daí em diante completamente inúteis, pois estavam vazias, e nenhuma munição lhe restava para de novo carregá-las; isto causava-lhe bastante pesar, pois essas armas com suas temerosas detonações e seu maravilhoso mecanismo seriam um objeto de assombro para aqueles selvagens e mais um meio para atrair seu respeito e admiração, e dar a Gonçalo ainda mais prestígio entre eles.

Notou ainda mais, com íntima satisfação, que lhe tinham deixado intacto o sagrado talismã objeto de seu fervoroso culto, a imagem de sua celestial protetora em todos os trabalhos e perigos da vida. A curiosa Guaraciaba não pôde deixar de perguntar-lhe o que significava aquele objeto com aquela linda imagenzinha de ouro, que sempre trazia pendente ao pescoço.

— É um precioso e sagrado manitó, que me legaram meus pais, respondeu-lhe Gonçalo, é ele quem me protege, e noite e dia vela sobre meus passos, e quem leva minhas rogativas até o trono do Grande Tupá. Sem ele há muito teria sucumbido aos imensos trabalhos e perigos que me têm atribulado a existência.

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Dizendo isto Gonçalo levou aos lábios respeitosamente a santa imagem, e a apresentou à filha de Oriçanga, para que fizesse o mesmo. Guaraciaba imitou-o com gesto tímido, e disse:

— Eu também quisera ter um lindo manitó como este; mas dar-se-á caso que ele também me proteja, como protege a ti?

— E por que não, uma vez que o veneres com sincero amor e respeito, e invoques com fé viva a sua proteção? Se ele atende à rogativa do infeliz foragido, a quem as paixões e os desatinos da mocidade arrojaram num pego de desgraças, muito mais piedoso ouvido prestará sem dúvida à tímida súplica da casta e formosa virgem do deserto. Tu o terás um dia, eu to prometo, e sentirás os salutares efeitos de sua miraculosa proteção.

Guaraciaba, que desde a primeira vista sentira pelo jovem estrangeiro uma súbita e viva afeição, ingênua e singela como todas as filhas da floresta, abandonava-se sem escrúpulo a esse sentimento, de que apenas tinha consciência e nem procurava dissimulá-lo. Sua união com Inimá, a quem ela não votava nem ódio nem afeição, era apenas um projeto de família, de que ouvia falar desde o berço, e do qual na infantil singeleza de sua alma não compreendia ainda nem a importância nem o alcance, e assim a inocente dando folgas a essa paixão, que começava a germinar com intensidade em seu coração, mal pensava que criava um insuperável obstáculo à sua união com o jovem cacique. Não assim Gonçalo, que não podendo ser insensível a tão casto e tão sincero amor da virgem indiana, bem previa que esse amor devia tornar-se um dia a origem de tristes complicações e fatais conflitos, e olhava com inquietação para o futuro, que antevia eriçado de dificuldades e perigos; por isso quase sempre uma nuvem de tristeza pairava em sua fronte grave e pensativa.

CAPÍTULO V

O TRANSVIO

Logo que Itajiba mais vigoroso se achou em estado de encurvar um arco e ensaiar seus passos pelas sendas da floresta, Guaraciaba, para distraí-lo de sua inação e dos cuidados que pareciam atormentá-lo, convidou-o a um passeio e caçada de aves pelas selvas circunvizinhas. Itajiba teve logo ensejo de mostrar sua maravilhosa destreza em atirar a flecha, com grande prazer de Guaraciaba, que saltava de contente conduzindo para a sua taba uma chusma de avezinhas de variadas cores, derribadas pelas certeiras flechadas de Itajiba.

As roupas velhas e dilaceradas, que Gonçalo trouxera consigo, já não podiam servir a Itajiba; tendo de ser adotado na tribo dos Chavantes forçoso lhe era que se trajasse à maneira dos selvagens. Guaraciaba, auxiliada por suas companheiras, incumbiu-se de vesti-lo e armá-lo com todo o esplendor do luxo 42

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selvático. Uma túnica, que lhe descia até os joelhos, enfeitada de penas de brilhantes cores, lhe rodeava a cintura; um carcás formado de pele de uma monstruosa jibóia lhe pendia dos ombros recheado de mortíferas setas.

Em vez do chapéu de couro sombreava-lhe a fronte um diadema de plumas ondulantes de vistosas e brilhantes cores. Um rico tacape e um bem trabalhado arco, que Guaraciaba despendurou da sala de armas de seu pai, foram por ele empunhados. Em forma de manto a pele mosqueada de um enorme jaguar lhe caía pelas espáduas. A estes trajos selváticos Itajiba, pouco afeito a trazer os membros expostos aos rigores do tempo, ajuntou uns borzeguins ou polainas de pele de sucuri, impenetrável à umidade, agasalhou os ombros e o peito com uma espécie de gibão estreito feito de macias e finas peles, apertou o seu cinturão de couro de lontra, ao qual prendeu a sua larga faca, e com estes trajos pareceu aos olhos de todos garboso e belo como um verdadeiro príncipe das florestas.

Os passatempos e caçadas de Itajiba e Guaraciaba repetiam-se todos os dias, e o tempo assim lhes corria suave, como as ondas serenas do pátrio rio à sombra dos arvoredos seculares, e sua mútua afeição, alimentada por aqueles solitários entretenimentos, de dia em dia se aumentava, sem que eles se apercebessem, e se expandia como a flor ignorada e sem nome, que exala seus perfumes na solidão. À medida que cresciam as forças de Itajiba, esses passeios foram-se alargando a maiores distâncias, já deslizando vagarosamente em uma leve piroga ao longo das umbrosas ribanceiras, já pelas veredas escondidas da floresta; e pelo caminho Itajiba fazia cair aos certeiros tiros de seu arco a arara azul ou encarnada, a alva garça, rainha dos lagos, o róseo colhereiro, cujas penas são tão estimadas, o tucano de enorme bico, cujo peito rubro é procurado para enfeite da túnica das virgens, o jaó, o inhambu, a capoeira, cujas carnes são tão tenras e saborosas, e mil outras aves, de cujas lindas penas Guaraciaba com suas hábeis mãos compunha vistosos ornatos para as armas de seus guerreiros.

Guaraciaba tanto tinha de meiga e singela, como de alegre e trêfega; ela se aprazia por vezes em perturbar com encantadoras travessuras as graves e profundas cismas de seu amigo. Ora lesta e subtil como uma lebre sumia-se entre as moitas da floresta, sem que Itajiba o pressentisse; este dando por sua falta, olha inquieto para todos os lados , chama-a gritando seu nome uma e muitas vezes, aplica o ouvido aos ecos; mas Guaraciaba não responde, nem aparece em parte alguma. No auge da inquietação Itajiba perplexo não sabe nem o que pensar nem o que fazer, quando sente por detrás uma ligeiras mãozinhas a lhe tapar os olhos.

— Guaraciaba! lhe diz ele sorrindo, que susto me causaste! oh! não brinques mais por essa forma, que me fazes mal.

— Perdoa-me, Itajiba; quis distrair-te de teus cuidados. Estavas tão triste e pensativo! parece que tens muita saudade dos teus e do teu pai!

— Não; pura e formosa filha de Oriçanga, quando estou junto a teu lado, que me importa o resto do mundo?...

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Outras vezes com pena das pobres avezinhas, em que Itajiba fazia a mira, ou lhe espantava a caça, ou lhe fazia perder o tiro tocando-lhe o braço no momento de despedir a seta.

Uma vez ambos atravessavam o rio em uma canoa, que Itajiba remava; estavam ainda longe da barranca oposta, quando Guaraciaba súbito dá um grito, salta na água e desaparece. Itajiba pálido de susto pensa que algum monstro do rio, algum jacaré ou sucuri, a arrebatou; sem perder um momento salta na água com a faca em punho, mergulha e surge de novo à tona da água, torna a mergulhar e a surgir, e nada vê senão a canoa rodando rio abaixo sem governo.

Em desesperada ansiedade estava resolvido a morrer naquelas águas antes do que sair delas sem Guaraciaba, quando uma gargalhada vibrante e harmoniosa como o canto da siriema retroa no barranco vizinho. Era Guaraciaba, que de propósito se lançara ao rio, e de um mergulho ganhara a margem. Itajiba ganha de novo a canoa, e dirige-se para o barranco.

— Ó querida e formosa Guaraciaba, diz ele ao chegar entre risonho e grave, por piedade, não brinques mais assim. Olha que um dia, assim como hoje tomei um gracejo teu pela realidade, poderei tomar a realidade por gracejo e faltar-te no perigo.

Um dia a alegria e contentamento, que sempre reinavam nas partidas de caça dos dois selváticos amantes, foram perturbados por um triste, posto que bem simples incidente. Itajiba avistara pousadas sobre um galho de uma alta canjerana duas lindas e grandes juritis de luzidia plumagem, que se beijavam e se afagavam com os encarnados biquinhos, arrulhando de prazer; imediatamente embebe a seta e curva o arco.